A BELA E A FERA (Beauty and the Beast, 2017, Walt Disney Films, 129min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, roteiro da animação original de Linda Woolverton. Fotografia: Tobias Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Alan Menken. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Don Hahn, Thomas Schumacher, Jeffrey Silver. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci. Estreia: 23/02/17
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.
Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.
Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.
A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!
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terça-feira
sábado
O QUINTO PODER
O
QUINTO PODER (The fifth state, 2013, DreamWorks SKG/Reliance
Entertainment, 128min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Josh Singer,
livros "Inside WikiLeaks: my time with Julian Assange at the world's
most dangerous website", de Daniel Domscheit-Berg e "WikiLeaks: inside
Julian Assange's war on secrecy", de David Leigh, Luke Harding.
Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter
Burwell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Mark
Tildesley/Veronique Melery. Produção executiva: Paul Green, Jonathan
King, Jim Shamoon, Richard Sharkey, Jeff Skoll. Produção: Steve Golin,
Michael Sugar. Elenco: Benedict Cumberbatch, Daniel Bruhl, Alicia
Vikander, Laura Linney, David Thewlis, Stanley Tucci, Alexander Beyer,
Dan Stevens. Estreia: 05/9/(Festival de Toronto)
A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.
Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.
Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.
"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.
A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.
Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.
Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.
"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.
sexta-feira
DEUSES E MONSTROS
DEUSES
E MONSTROS (Gods and monsters, 1998, LionsGate Films, 105min) Direção:
Bill Condon. Roteiro: Bill Condon, livro "Father of Frankenstein", de
Christopher Bram. Fotografia: Stephen M. Katz. Montagem: Virginia Katz.
Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de
arte/cenários: Richard Sherman/James Samson. Produção executiva: Clive
Barker, David Forrest, Stephen P. Jarchow, Beau Rogers. Produção: Paul
Colichman, Gregg Fienberg, Mark R. Harris. Elenco: Ian McKellen, Brendan
Fraser, Lynn Redgrave, Lolita Davidovich, David Dukes, Kevin J.
O'Connor. Estreia: 21/01/98 (Festival de Sundance)
Indicado a 3 Oscar: Ator (Ian McKellen), Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave)
Para a maioria dos espectadores o nome James Whale talvez não signifique nada - ao menos para as novas gerações, cujo conhecimento de cinema clássico resume-se a obras mais tradicionais e consagradas com Oscars e presença constante nas listas dos maiores filmes de todos os tempos. Àqueles que conhecem os bastidores de Hollywood, porém, a menção a Whale remete a produções seminais do cinema de horror dos anos 30, em especial "Frankenstein" e "A noiva de Frankenstein", ambos estrelados por Boris Karloff e que foram pedra de base para o gênero, influenciando todas as gerações seguintes de cineastas do gênero. Afastado do cinema devido à sua assumida homossexualidade, o cineasta inglês morreu afogado na piscina de sua casa depois de um bom tempo com a saúde abalada por um leve derrame. A história de seus últimos meses - narrada de forma lírica e provavelmente repleta de licenças poéticas - é o tema de "Deuses e monstros", belíssimo drama de Bill Condon, que ganhou o Oscar de roteiro adaptado e deu a Ian McKellen uma merecidíssima indicação ao prêmio da Academia. Também abertamente gay, McKellen é a alma de uma obra que mescla, com raro equilíbrio, reminiscências pessoais, críticas ao sistema cruel de fazer cinema da época dos grandes estúdios e uma história de amor e desejo banhada em extrema melancolia.
Passada em 1957 - anos depois da glória de Whale, portanto - a história de "Deuses e monstros" começa quando o ex-cineasta, ainda em recuperação pelo derrame que o deixou aos cuidados de sua dedicada governanta Hannah (Lynn Redgrave, premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de coadjuvante feminina), trava conhecimento com seu novo jardineiro, o jovem e atlético Clay Boone (Brendan Fraser em seu melhor desempenho até hoje). Atraído pelo rapaz, o veterano diretor oferece dinheiro para que ele pose para suas pinturas e surge entre eles uma espécie de amizade, frequentemente ameaçada pelas dúvidas de Clay a respeito das intenções de seu novo patrão. Alertado por Hannah da enorme diferença social e intelectual entre os dois, Whale não se deixa desanimar e passa a relatar ao jovem as memórias de sua infância e juventude, quando foi rejeitado pelo pai e partiu em busca da realização de seus desejos e talentos. A atração que sente por Boone, porém, pode por a amizade a perder.
Centrando-se basicamente na atuação extraordinária de Ian McKellen - que no mesmo ano brilhou também como um ex-nazista no suspense "O aprendiz", baseado em conto de Stephen King - Bill Condon conduz seu filme com extrema elegância, jamais apelando para a vulgaridade, nem mesmo na cena em que Whale tenta seduzir Clay depois de uma festa, que poderia soar como agressiva ou desconfortável. Graças ao meticuloso trabalho de McKellen, capaz de transmitir inúmeros sentimentos apenas com o olhar, seu personagem se torna menos ameaçador e mais digno de solidariedade, como um homem renegado de seu meio lutando pela sobrevivência e pela dignidade arrancada pelo preconceito de um mundo aparentemente isento deles. Nesse ponto é inteligente a forma como o roteiro transforma Boone de um homem simples e sem sofisticação intelectual no confidente de Whale, a pessoa que deflagra nele a corrente de lembranças que finalmente o liberta do passado e dá a ele alguns últimos momentos de felicidade na vida, ao contrário de seus pares, que lhe dão as costas simplesmente por causa de sua sexualidade. É fascinante também quando Condon mergulha o espectador nas memórias de seu protagonista, mostrando as filmagens de "A filha de Frankenstein" e presenteando a plateia com momentos de pura nostalgia e delicadeza de uma Hollywood no auge de sua criatividade - muita dela vindo da mente genial de Whale.
Ter dado o Oscar de melhor ator a Roberto Benigni em detrimento da premiação a McKellen - uma das maiores atrocidades já cometidas pela Academia em seus quase dois séculos de existência - apenas aumenta a aura de injustiça que percorre todos os minutos de "Deuses e monstros". Injustiça de Hollywood por alienar um grande talento, injustiça do público em esquecer um dos mais importantes artistas do cinema americano, injustiça do mundo em julgar um homem por suas diferenças. O filme de Bill Condon é um drama dos melhores: inteligente, sensível e brilhantemente escrito e interpretado. E se não bastasse tudo isso, tem Ian McKellen no papel de sua vida. Não é pouca coisa!
Indicado a 3 Oscar: Ator (Ian McKellen), Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave)
Para a maioria dos espectadores o nome James Whale talvez não signifique nada - ao menos para as novas gerações, cujo conhecimento de cinema clássico resume-se a obras mais tradicionais e consagradas com Oscars e presença constante nas listas dos maiores filmes de todos os tempos. Àqueles que conhecem os bastidores de Hollywood, porém, a menção a Whale remete a produções seminais do cinema de horror dos anos 30, em especial "Frankenstein" e "A noiva de Frankenstein", ambos estrelados por Boris Karloff e que foram pedra de base para o gênero, influenciando todas as gerações seguintes de cineastas do gênero. Afastado do cinema devido à sua assumida homossexualidade, o cineasta inglês morreu afogado na piscina de sua casa depois de um bom tempo com a saúde abalada por um leve derrame. A história de seus últimos meses - narrada de forma lírica e provavelmente repleta de licenças poéticas - é o tema de "Deuses e monstros", belíssimo drama de Bill Condon, que ganhou o Oscar de roteiro adaptado e deu a Ian McKellen uma merecidíssima indicação ao prêmio da Academia. Também abertamente gay, McKellen é a alma de uma obra que mescla, com raro equilíbrio, reminiscências pessoais, críticas ao sistema cruel de fazer cinema da época dos grandes estúdios e uma história de amor e desejo banhada em extrema melancolia.
Passada em 1957 - anos depois da glória de Whale, portanto - a história de "Deuses e monstros" começa quando o ex-cineasta, ainda em recuperação pelo derrame que o deixou aos cuidados de sua dedicada governanta Hannah (Lynn Redgrave, premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de coadjuvante feminina), trava conhecimento com seu novo jardineiro, o jovem e atlético Clay Boone (Brendan Fraser em seu melhor desempenho até hoje). Atraído pelo rapaz, o veterano diretor oferece dinheiro para que ele pose para suas pinturas e surge entre eles uma espécie de amizade, frequentemente ameaçada pelas dúvidas de Clay a respeito das intenções de seu novo patrão. Alertado por Hannah da enorme diferença social e intelectual entre os dois, Whale não se deixa desanimar e passa a relatar ao jovem as memórias de sua infância e juventude, quando foi rejeitado pelo pai e partiu em busca da realização de seus desejos e talentos. A atração que sente por Boone, porém, pode por a amizade a perder.
Centrando-se basicamente na atuação extraordinária de Ian McKellen - que no mesmo ano brilhou também como um ex-nazista no suspense "O aprendiz", baseado em conto de Stephen King - Bill Condon conduz seu filme com extrema elegância, jamais apelando para a vulgaridade, nem mesmo na cena em que Whale tenta seduzir Clay depois de uma festa, que poderia soar como agressiva ou desconfortável. Graças ao meticuloso trabalho de McKellen, capaz de transmitir inúmeros sentimentos apenas com o olhar, seu personagem se torna menos ameaçador e mais digno de solidariedade, como um homem renegado de seu meio lutando pela sobrevivência e pela dignidade arrancada pelo preconceito de um mundo aparentemente isento deles. Nesse ponto é inteligente a forma como o roteiro transforma Boone de um homem simples e sem sofisticação intelectual no confidente de Whale, a pessoa que deflagra nele a corrente de lembranças que finalmente o liberta do passado e dá a ele alguns últimos momentos de felicidade na vida, ao contrário de seus pares, que lhe dão as costas simplesmente por causa de sua sexualidade. É fascinante também quando Condon mergulha o espectador nas memórias de seu protagonista, mostrando as filmagens de "A filha de Frankenstein" e presenteando a plateia com momentos de pura nostalgia e delicadeza de uma Hollywood no auge de sua criatividade - muita dela vindo da mente genial de Whale.
Ter dado o Oscar de melhor ator a Roberto Benigni em detrimento da premiação a McKellen - uma das maiores atrocidades já cometidas pela Academia em seus quase dois séculos de existência - apenas aumenta a aura de injustiça que percorre todos os minutos de "Deuses e monstros". Injustiça de Hollywood por alienar um grande talento, injustiça do público em esquecer um dos mais importantes artistas do cinema americano, injustiça do mundo em julgar um homem por suas diferenças. O filme de Bill Condon é um drama dos melhores: inteligente, sensível e brilhantemente escrito e interpretado. E se não bastasse tudo isso, tem Ian McKellen no papel de sua vida. Não é pouca coisa!
sábado
DREAMGIRLS - EM BUSCA DE UM SONHO
DREAMGIRLS, EM BUSCA DE UM SONHO (Dreamgirls, 2006, Dreamworks SKG, 130min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Bill Condon, livro de Tom Eyen. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Tom Eyen, Henry Krieger. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: John Myhre/Nancy Haigh. Produção executiva: Patricia Witcher. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Jennifer Hudson, John Krasinski. Estreia: 15/12/06
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Eddie Murphy), Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson), Figurino, Direção de arte/cenários, Canção ("I love I do", "Listen", "Patience"), Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson), Mixagem de Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Eddie Murphy), Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson)
Desde sua estreia na Broadway, em dezembro de 1981, o musical "Dreamgirls" - inspirado perceptivelmente na trajetoria das Supremes, grupo musical liderado por Diana Ross nos anos 60 e 70 - já estava na mira dos estúdios de cinema para chegar às telas. No final da década de 80, por exemplo, Whitney Houston estava escaladíssima para o projeto - que ruiu com as exigências da estrela, que queria transferir algumas das canções de outras personagens para a sua. Nos anos 90 a possibilidade de uma versão dirigida por Joel Schumacher e estrelada por Lauryn Hill era grande depois do sucesso de "Tina" - mas o fracasso de outras produções biográficas/musicais acabou com a adaptação. Foi somente com o sucesso e os Oscar de "Chicago" - seguindo o êxito de "Moulin Rouge" - que Bill Condon (autor do roteiro do filme estrelado por Renée Zellweger) finalmente teve a chance de assumir o projeto de seus sonhos. Estrelado pela megastar Beyoncé Knowles, pelos competentes Jamie Foxx, Eddie Murphy e Danny Glover e pela espetacular revelação Jennifer Hudson, "Dreamgirls, em busca de um sonho"acabou rendendo mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas e, com oito indicações ao Oscar, tornou-se também o único filme a liderar as indicações de seu ano sem concorrer à estatueta principal.
Considerado por muitos como a ressurreição da carreira de Eddie Murphy - que concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de sucessos fracassos comerciais e artísticos - "Dreamgirls" é uma produção suntuosa e caprichada, comandada por um cineasta de extremo talento que sabe como extrair o melhor de cada ator e de cada cena. Comandante do excelente "Kinsey" e do impressionante "Deuses e monstros" - que lheu uma estatueta de roteiro adaptado em 1999 - Bill Condon conduz seu primeiro musical como diretor de maneira inteligente e dotado de um ritmo que fez extrema falta em produções como "O fantasma da ópera". Equilibrando com maestria uma reconstituição de época primorosa, uma direção de atores nunca aquém de formidável e uma trilha sonora vibrante e potente, Condon - que assistiu à estreia do musical na Broadway - assina um filme que em nada fica a dever aos clássicos exemplares do gênero. Se em alguns momentos derrapa em sequências musicais um tanto longas tudo é perdoado quando se percebe a entrega de seu elenco a personagens fortes e bem delineados, coisa rara no estilo.
A trama de "Dreamgirls" começa em Detroit em plena década de 60, período de grande efervescência na luta pelos direitos civis, liderada por Martin Luther King. É aí que o ambicioso Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx) tenta fazer sucesso no meio musical, conseguindo com que suas contratadas, as Dreamettes - um trio de belas e talentosas cantoras negras - sejam aceitas como backing vocals do grande astro James Thunder Early (Eddie Murphy). Não demora muito para que, com a decadência do cantor (envolvido com drogas) suas coadjuvantes assumam o centro do palco. Por questões comerciais, no entanto, ele faz com que a esplendorosa e sexy Deena Jones (Beyoncé Knowles) seja o principal atrativo do grupo, deixando de lado a talentosa e voluntariosa Effie Jones (Jennifer Hudson). Com ciúmes do arranjo - e sabendo-se muito mais capaz do que sua colega de elenco - Effie torna-se a dor de cabeça do produtor, que acaba se casando com Deena e gerenciando sua carreira. Nesse meio tempo, Early entra de cabeça no vício e no declínio e Effie se vê rejeitada por seus ataques de estrelismo.
Além de números musicais empolgantes que apresentam ao público grandes canções de r&b defendidas por gente do mais alto calibre, "Dreamgirls" tem a seu favor também a inteligência de Bill Condon em mesclar à sua história quase clichê sequências de grande impacto social. Mesmo que não se aprofunde no tema das lutas pelos direitos dos negros ele está sempre presente, influenciando nas vidas das personagens e ditando algumas de suas decisões. Conforme a narrativa avança - e os anos 60 dão lugar aos 70 - as mudanças sociais são sutilmente percebidas, assim como a evolução nos figurinos e cenários, todos acima de qualquer crítica. Mas nada é melhor na bem-sucedida adaptação do que o elenco formado pelo diretor.
A opção de Condon pela belíssima Beyoncé Knowles é plenamente justificada quando se percebe que, além de seu alcance vocal privilegiado, a ex-integrante do Destiny's Child (que de certa forma seguiu o mesmo caminho das Dreamettes) não faz feio como atriz, mantendo com segurança uma personagem que tinha tudo para cair na vala fácil das figuras decorativas do gênero. Jamie Foxx comprova que seu Oscar por "Ray" não foi acidente, criando um Curtis Taylor quase cruel e egocêntrico. Eddie Murphy brilha como James Early, na melhor atuação de sua carreira. Mas ninguém consegue ofuscar Jennifer Hudson. Ex-concorrente do "American Idol", Hudson é um furacão em cena, mostrando que não foi à toa que bateu 782 candidatas ao papel: sua Effie engole tudo à sua volta, equilibrando um brilhante talento como cantora com uma insuspeita vocação para atriz. Todos os prêmios que ganhou na temporada - entre os quais o Golden Globe, o Screen Actors Guild e finalmente o Oscar - apenas confirmaram o que qualquer espectador percebe cada vez em que ela está em cena: nasce uma estrela.
"Dreamgirls" não vai agradar aos detratores do gênero musical. É um exemplar perfeito do estilo, com todas as suas qualidades e também seus defeitos. Mas é feito com paixão, talento e garra, o que acaba sendo um enorme diferencial em tempos onde a apatia é moeda corrente.
segunda-feira
KINSEY - VAMOS FALAR DE SEXO
KINSEY (Kinsey, 2004, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção e roteiro: Bill Condon. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Andrew Baseman. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Kirk D'Amico, Michael Kuhn, Bobby Rock. Produção: Gail Mutrux. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, Chris O'Donnell, Oliver Platt, John Lithgow, Tim Curry, Veronica Cartwright, Julianne Nicholson, John Krasinski, Luke McFarlane, Dylan Baker, Lynn Redgrave. Estreia: 04/9/04 (Festival de Telluride)
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)
Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.
Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.

Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.
Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)
Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.
Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.
Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.
Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.
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