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segunda-feira

E AGORA, MEU AMOR?

E AGORA, MEU AMOR? (Fools rush in, 1997, Columbia Pictures, 109min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Katherine Reback, estória de Joan Taylor, Katherine Reback. Fotografia: Robbie Greenberg. Montagem: Roger Bondelli. Música: Alan Silvestri. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Leslie Morales. Produção executiva: Michael McDonnell. Produção: Doug Draizin. Elenco: Matthew Perry, Salma Hayek, Jill Claybourgh, Jon Tenney, Carlos Gomez, Siobhan Fallon, John Bennett Perry. Estreia: 14/02/97

No começo de 1997, poucos programas de tv eram tão populares e queridos quanto "Friends" - cujo sucesso só fez aumentar ainda mais nas temporadas seguintes. Nenhuma surpresa, portanto, que seus astros tentassem o caminho natural rumo em direção ao cinema, ainda considerado um veículo mais nobre e com mais status. Enquanto Jennifer Aniston já começava a brilhar em comédias românticas - como "Nosso tipo de mulher" (1996) e "Paixão de ocasião" (1997) -, Courteney Cox ganhava ainda mais fama com o primeiro capítulo de "Pânico" (1996) e Lisa Kudrow apostava na comédia, com "Romy & Michelle" (1997), o elenco masculino buscava arduamente ser reconhecido além de seus personagens mais célebres. Se David Schwimmer havia tentado a sorte no elogiado mas pouco visto "O primeiro amor de um homem" (1996) - ao lado de uma Gwyneth Paltrow pré-Oscar - foi Matthew Perry quem deu o passo mais bem-sucedido. Tudo bem que "E agora, meu amor?" não foi um sucesso avassalador de bilheteria - nem tampouco chegou a fazer barulho nas cerimônias de premiação do ano -, mas o romance dirigido por Andy Tennant conseguiu mostrar, ainda que de forma tímida, que o intérprete do sardônico Chandler Bing tinha mais a oferecer do que piadas ininterruptas. 

Simples e inofensivo, o filme de Tennant - que se especializaria em comédias românticas no decorrer dos anos 2000 - serve como um veículo perfeito para o carisma de Perry, um ator simpático e talentoso, capaz de provocar a identificação do público masculino sem maiores dificuldades. Na trama, ele interpreta Alex Whitman, um homem comum, que trabalha como supervisor no mercado de construção civil enquanto leva uma vida quase tediosa, se envolvendo aqui e ali em relações fugazes e sem profundidade. Uma dessas relações acontece durante uma viagem a Las Vegas, quando ele conhece a mexicana Isabel Fuentes (Salma Hayek) e passa a noite com ela. O que parecia apenas mais um caso passageiro logo se revela algo mais complicado, porém: alguns meses depois do encontro, a bela fotógrafa ressurge em sua vida com a notícia de que está grávida. Atônito com a novidade - e ciente de que a jovem não tem o menor interesse em interromper a gravidez, por motivos religiosos e morais -, Alex a pede em casamento. Mesmo diante do fato de que se conhecem muito pouco e que suas diferenças culturais e sociais podem ser um empecilho para o relacionamento, os dois se casam - e descobrem, com o passar dos meses, que estavam certos quanto às dificuldades de um compromisso tão precoce.

 

Se há alguma diferença entre "E agora, meu amor?" e dezenas de filmes do gênero é em sua tentativa - nem sempre feliz, mas bem intencionada - de retratar o choque cultural que nasce do encontro entre Alex e Isabel, duas pessoas de mundos cuja distância pode ser facilmente subestimada em um primeiro olhar. Alex tem uma relação quase distante com os pais (interpretados por Jill Claybourgh e John Bennett Perry, pai de Matthew também na vida real), enquanto Isabel tem a família - numerosa, ruidosa e onipresente - como base de sua existência. Isabel é católica fervorosa - e seu novo marido não é exatamente um sujeito religioso. Alex tem planos profissionais que pedem que ele more em Nova York; a futura mãe de seu filho não tem a menor intenção de abandonar Las Vegas e seu clamoroso clã. Tais diferenças - administráveis em um namoro, mas pouco remediáveis quando se começa uma família - formam o conflito que é praticamente todo o roteiro do filme. O problema é que, apesar de talentosa, a dupla central falha no principal: não há química entre o casal, e a paixão que surge entre eles soa pouco crível, tornando difícil o principal objetivo de uma comédia romântica, que é torcer pelo casal de protagonistas.

"E agora, meu amor?" é, na verdade, e em seu favor, um entretenimento despretensioso, que cumpre o que promete. Se não consegue ultrapassar os limites do mediano é somente porque o roteiro foge de qualquer ousadia narrativa e/ou profundidade dramática. Salma Hayek é linda - e em papel oferecido à Jennifer Lopez, que o recusou para estar em "Anaconda" (1997) -, mas não é exatamente uma atriz de grandes recursos (levaria ainda quase meia década para concorrer ao Oscar por "Frida" (2002)) e Matthew Perry, simpático e carismático, faz o que pode para extrair substância de um personagem muito aquém de seu talento cômico - e, segundo ele, foi durante as filmagens que um acidente de jetski aprofundou ainda mais seu vício em remédios controlados, problema que o atormentou durante décadas. Leve (até demais), "E agora, meu amor?" é o programa ideal para os fãs dos atores e do gênero. Mas não entrega mais do que se poderia esperar.

quarta-feira

DOGMA

DOGMA (Dogma, 1999, Miramax Pictures, 130min) Direção e roteiro: Kevin Smith. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Scott Mosier, Kevin Smith. Música: Howard Shore. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Robert Holtzman/Diana Stoughton. Produção executiva: Jonathan Gordon. Produção: Scott Mosier. Elenco: Ben Affleck, Matt Damon, Linda Fiorentino, Chris Rock, Alan Rickman, Salma Hayek, Janeane Garofalo, Jason Lee, Jason Mewes, Kevin Smith, Alanis Morissette. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Em 1998, o diretor/ator/roteirista Kevin Smith descobriu na pele, algo que o veterano Martin Scorsese já sabia no mínimo há dez anos, quando lançou seu "A última tentação de Cristo: poucos temas são tão espinhosos e capazes de exaltar ânimos quanto a religião - especialmente a católica. Antes mesmo da estreia de "Dogma" - adiada por seis meses justamente devido a celeumas relativas a seu conteúdo -, o filme de Smith já era alvo de virulentas manifestações, campanhas negativas, ameaças de boicote e todo tipo de controvérsia. O motivo era um só: falar de Deus e religião em uma comédia iconoclasta que misturava anjos renegados, uma descendente de Cristo que trabalhava em uma clínica de aborto, questionamentos a respeito da interferência da Igreja na manutenção de uma mitologia que dá margens a tanto, e algumas ousadias "imperdoáveis", como mostrar um apóstolo negro e Deus na forma feminina. Baseados em uma das várias versões do roteiro - vazada de forma anônima pela Internet -, grupos religiosos ergueram a voz contra a produção a ponto de assustar até mesmo suas distribuidoras: sorte da pequena Lions Gate, que herdando o filme da Disney (cujo histórico de filmes familiares não condizia com o tom do filme) e da então toda-poderosa Miramax (que preferiu não arriscar seu prestígio mesmo acreditando no projeto), lançou aquele que seria seu produto mais rentável até o advento do oscarizado "Crash: no limite" (2004): apesar (ou por causa) das acaloradas discussões, "Dogma" rendeu mais de 30 milhões de dólares - três vezes o seu custo estimado e um êxito surpreendente para os padrões de Smith.

Acostumado com seu status de cineasta cult, com filmes de orçamento baixo e repercussão restrita, Kevin Smith viu-se, graças à "Dogma", no olho de um furacão. A controvérsia ao redor do filme (somada à presença de Ben Affleck e Matt Damon no começo de sua ascensão popular), ajudou a alçá-lo a um patamar nunca antes experimentado - "O balconista" (1994), "Barrados no shopping" (1995) e "Procura-se Amy" (1997), suas produções anteriores, eram conhecidas e aclamadas por uma parcela específica de cinéfilos, fãs de cinema independente e/ou alternativo. Com "Dogma" e seu elenco recheado de nomes conhecidos, seus efeitos visuais e o marketing espontâneo oferecido pela Liga Católica norte-americana, seu alcance tornou-se internacional - um alento para aqueles que não conheciam sua filmografia, repleta de um humor tão inteligente quanto chulo, tão sofisticado quanto popular (leia-se nerd). E não deixa de ser irônico que, mesmo demonizado pelos fieis mais agressivos, Smith tenha se declarado, à época do lançamento do seu polêmico filme, um católico - da mesma forma que Scorsese, apedrejado sem piedade por sua adaptação do livro de Nikos Kazantzakis mesmo tendo passado por um seminário.

 

Smith escreveu o primeiro tratamento de "Dogma" antes mesmo de "O balconista", seu primeiro longa, lançado em 1994. E quando finalmente acreditou que já estava na hora de transformar o script em realidade, quase terceirizou a produção: felizmente o cineasta Robert Rodriguez - queridinho do cinema independente desde sua estreia com o baratíssimo "El mariachi", de 1991 - percebeu que o projeto de "Dogma" era pessoal demais para que outra pessoa que não Smith assumisse a direção. Começava então uma odisseia de trocas, substituições e possibilidades que poderiam ter tornado o filme em algo completamente diferente. Para o principal papel feminino, Bethany, a última descendente de Cristo na Terra, Smith pensou inicialmente em Gillian Anderson - em alta com o sucesso da série "Arquivo X". Nomes como Shannen Doherty e Joey Lauren Adams, antigas colaboradoras do cineasta, também surgiram - até que a cantora Alanis Morissette foi escolhida e posteriormente descartada: por problemas de agenda com a turnê de seu novo álbum, Morissette acabou ficando com um papel menor, mas de importância fundamental (para o qual foram seriamente cotadas Holly Hunter e Emma Thompson). Linda Fiorentino - tornada estrela por filmes como "O poder da sedução" (1994) e "MIB: Homens de preto" (1997) - foi a escolha definitiva para o elenco, para desgosto do próprio Smith, que se arrependeu amargamente da decisão: os dois não se deram nada bem durante as filmagens, a ponto do diretor declarar em entrevistas que teria sido melhor escalar a coadjuvante Janeane Garofalo como protagonista (uma situação delicada que só foi resolvida anos mais tarde). Além disso, outros nomes de Hollywood foram cogitados para papéis cruciais: Matt Damon só entrou no elenco para viver Loki, o anjo da morte, porque o ator inicialmente escalado, Jason Lee, não estava disponível para filmagens longas (o que fez com que interpretasse Azrael, consideravelmente menor para o qual também foram considerados Bill Murray, John Travolta e Adam Sandler). Samuel L. Jackson e Will Smith foram pensados para viver Rufus, o apóstolo negro que revela histórias inéditas da vida de Cristo - antes que Chris Rock fosse contratado. E Alan Rickman - provavelmente o ator de maior prestígio do elenco - surpreendeu ao aceitar viver Megatron depois de confessar ser fã de "Procura-se Amy".

A trama de "Dogma" é um primor de criatividade e nonsense. Dois anjos renegados, Loki (Matt Damon) e Bartleby (Ben Affleck) querem forçar sua reentrada no céu ao atravessar o portal de uma igreja em Nova Jersey: com a bênção do Papa, todos que o fizerem terão seus pecados perdoados automaticamente. Tal situação é um perigo, segundo Metatron (Alan Rickman), pois acabará com a ideia da infalibilidade de Deus e consequentemente acabará com a humanidade. Para isso, o mensageiro divino procura Bethany (Linda Fiorentino), funcionária de uma clínica de abortos que passa por uma séria crise de fé e que, sem que ela mesma saiba, é a última descendente de Cristo - e portanto a única pessoa capaz de impedir que os anjos atinjam seu objetivo. Para ajudá-la, Bethany contará com a ajuda de dois "profetas", Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (Kevin Smith) - personagens recorrentes na filmografia do diretor -, um apóstolo cuja existência foi apagada da Bíblia por racismo, Rufus (Chris Rock), e a stripper Serendipity (Salma Hayek) - também conhecida como Musa. Contra Bethany e seu grupo não estão apenas Loki e Bartleby: o demônio Azrael (Jason Lee), que tem seus próprios motivos para chegar até Nova Jersey e desafiar o poder do Criador.

Mas, afinal, "Dogma" é blasfemo ou ofensivo? Depende. Se o espectador é daqueles que se ofende facilmente e não desliga o senso crítico diante de uma produção com a missão nítida de fazer rir, logicamente é possível que acabe a sessão furioso - Smith não poupa nada de suas piadas, e equilibra-se entre tiradas inteligentes e surpreendentes e momentos de puro constrangimento (é uma característica sua falar de flatulências e outras escatologias). Porém, se existe a consciência de que tudo é uma grande brincadeira (e no final das contas bastante reverente), é certo de que a produção rende boas e várias gargalhadas. Alguns diálogos fazem pensar - será que foi isso que incomodou tanto? - e a mensagem final, de que Deus é amor e compaixão, deixa claro que, mesmo com tantas bobagens saídas de sua mente, Kevin Smith ainda é o menino católico praticante que foi na infância. Se alguém tem dúvidas que escute a bela "Still", composta e interpretada por Alanis Morissette nos créditos finais.

quinta-feira

JANTAR COM BEATRIZ

JANTAR COM BEATRIZ (Beatriz at dinner, 2017, Bron Studios/Killer Films, 81min) Dieção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Wyatt Garfield. Montagem: Jay Deuby. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Christina Blackaller. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton, Madelaine Frezza. Produção executiva: Jason Cloth, Brad Feinstein, Lewis Hendler, Richard McConnell, Andrew Pollack, Alan Simpson, Jose Tamez, Paul Tennyson. Produção: Aaron L. Gilbert, David Hinojosa, Pamela Koffler, Christine Vachon. Elenco: Salma Hayek, John Lithgow, Connie Britton, Chloe Sevigny, Jay Duplass, Amy Landecker, David Warshofsky. Estreia: 23/01/17 (Festival de Sundance)

É uma pena que nem todos os bons filmes lançados no Festival de Sundance encontrem uma distribuição decente e tenham as mesmas chances das grandes produções hollywoodianas de chegar até o público - e às cerimônias de premiação, que afinal de contas lhes dariam o aval necessário para o sucesso comercial. Por causa do domínio de mercado dos blockbusters, por exemplo, filmes como "Jantar com Beatriz" ficam restritos a pequenas plateias mais antenadas e dispostas a procurar alternativas ao que é oferecido sem critério nas salas de exibição. Dirigido por Miguel Arteta - o cineasta porto-riquenho que proporcionou à Jennifer Aniston um de seus melhores papéis no cinema, em "Por um sentido na vida" (2002) - e estrelado por uma impressionante Salma Hayek, "Jantar com Beatriz" é uma obra concisa (pouco mais de 80 minutos de duração, contando com os créditos finais) e socialmente relevante, um filme que vai envolvendo o espectador gradualmente em um tom de suspense e imprevisibilidade do qual é impossível desvencilhar-se até a última (e melancólica) cena.

Completamente desprovida da sensualidade vulcânica que a elevou a um dos maiores símbolos sexuais do final da década de 90 - mais precisamente desde que encarou uma perigosa vampira em "Um drink no inferno" (96) - e muito mais consistente como atriz do que em seu trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2003, por "Frida", Salma Hayek entrega, em "Jantar com Beatriz", uma atuação madura e minimalista, que reflete com inteligência um texto ácido e moralmente impactante sobre o estado político e social da era Trump - um momento crucial para os EUA e sua relação com o resto do mundo. Assumindo sem reservas sua origem mexicana, Hayek constrói uma protagonista cujas nuances cada vez mais complexas vão encontrando espaço no decorrer da narrativa, ora cruel, ora dotada de um humor cínico, característica do roteirista Mike White - criador da série "Enlightened", estrelada por Laura Dern em 2011. Conseguindo escapar inclusive de alguns momentos maniqueístas propostos por White, o desempenho de Hayek já seria motivo suficiente para garantir uma melhor carreira para o filme - mas há muito mais a se aplaudir.





Beatriz, a personagem de Hayek, é um primor: imigrante mexicana há décadas morando nos EUA, ela trabalha em um centro de medicina holística, como especialista em tratamentos alternativos. Desde as primeiras cenas fica clara a sua paixão pelos animais e pela natureza, sua calma e atitudes zen em relação à vida e tudo a seu redor. Como uma profissional dedicada e reconhecida, ela é amiga de Kathy (Connie Britton) - cuja filha ela ajudou a recuperar-se de um câncer há algum tempo -, e é nessa condição que ela se vê convidada a ficar em sua mansão para um jantar que será oferecido a um milionário que está fazendo negócios com seu marido, Grant (David Warshofsky). Com o carro estragado e aguardando o socorro de um conhecido, Beatriz aceita o convite - apesar de não estar devidamente vestida para tal - e não demora a perceber que não está em seu habitat natural. Simples e direta, sem afetações, ela tenta compreender a quase futilidade de Kathy (a quem ela realmente devota lealdade e amizade) quando na presença de um dos casais convidados à recepção, Alex (Jay Duplass) e Shannon (Chloe Sevigny). A chegada do homenageado, porém, é que irá deflagrar novos conflitos: o empresário Doug Strutt (John Lithgow) é a antítese de tudo em que Beatriz acredita, um homem frio e insensível, capaz de apelar para atos ilegais para aumentar sua fortuna e comandar caçadas na África pelo puro prazer de matar. A figura de Doug - em atuação inspirada de Lithgow - é que despertará em Beatriz, até então uma testemunha calada e um tanto ingênua dos assuntos tratados à mesa, uma angústia e uma fúria que terão desdobramentos surpreendentes.

Sem exagerar nas reviravoltas - o que daria ao filme um tom de melodrama barato - mas mantendo em suspenso toda e qualquer possibilidade de conflito, "Jantar com Beatriz" é um triunfo de concisão e objetividade. Por mais que suas cenas iniciais pareçam avulsas ou desnecessárias, são elas que vão costurando, com sutileza, todo o contorno da personalidade da protagonista - que conquista a simpatia do público justamente por lutar pelo que acredita mesmo diante de seus maiores oponentes. A câmera não se furta a mostrar Salma Hayek em close diversas vezes, como forma de sublinhar sua surpresa, seu choque, sua indignação frente a um universo que ela simplesmente não consegue (e nem pretende) compreender. Sua personagem, uma representante legítima do eterno conflito entre Davi e Golias, é um presente à atriz, e ela não foge da responsabilidade, entregando uma performance impecável - e levando a plateia a torcer por seus princípios e talvez até converter-se a eles. "Jantar com Beatriz" é um filme necessário, tocante e inteligente, que retrata como poucos o abismo social e ético que vem aumentando exponencialmente não apenas nos EUA, mas em todo o mundo. Uma obra imprescindível - ainda que termine de forma um tanto brusca e anticlimática.

sábado

PROVA FINAL

PROVA FINAL (The faculty, 1998, Dimension Films, 104min) Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Kevin Williamson, história de David Wechter, Bruce Kimmel. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Robert Rodriguez. Música: Marco Beltrami. Figurino: Michael T. Boyd. Direção de arte/cenários: Cary C. W. White/Jeanette Scott. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellan. Elenco: Josh Hartnett, Jordana Brewster, Shawn Hatosy, Usher Raymond, Elijah Wood, Salma Hayek, Robert Patrick, Clea DuVall, Famke Janssen, Piper Laurie, Christopher McDonald, Bebe Neuwirth, Jon Stewart. Estreia: 12/11/98

Depois do enorme sucesso de "Pânico" e seus assemelhados, o terror adolescente retomou o fôlego e voltou a frequentar as salas de cinema, assustando o público-alvo e enchendo os cofres dos estúdios. Nem todos, porém, tiveram a mesma sorte do filme de Wes Craven, mesmo contando com seu roteirista-xodó Kevin Williamson - que também estava na moda graças ao seriado de TV "Dawson's Creek". Nem mesmo seu nome nos créditos de "Prova final", por exemplo, ajudou o filme a empolgar quando de sua exibição nos cinemas. Dirigido pelo mexicano Robert Rodriguez - conhecido por ter realizado seu "El Mariachi" por meros sete mil dólares - o filme utilizava a mesma fórmula dos trabalhos anteriores de Williamson (elenco jovem em ascensão, sacadas bem-humoradas de cultura contemporânea, suspense leve e citações à clássicos do gênero), mas acrescentava um novo elemento à mistura: ficção científica. Em uma época em que o seriado "Arquivo X" mobilizava multidões diante da televisão, parecia um receita infalível. Não foi. Mesmo tendo rendido mais de 40 milhões de dólares no mercado americano - contra um custo de meros 15 milhões - o filme ficou bem longe dos inesperados 100 milhões arrecadados pelo primeiro capítulo da série estrelada por Neve Campbell. Tal fracasso, porém, não reflete a qualidade do produto final: mesmo não sendo uma obra-prima (nem tampouco o melhor filme de Rodriguez), "Prova final" é um entretenimento divertido e eficaz.

A trama é puro "Os invasores de corpos", substituindo uma cidade do interior por uma escola secundária, também do interior dos EUA. É lá, na Harrington High School, que as coisas começam a parecer muito suspeitas quando os professores passam a agir de maneira estranha: de uma hora pra outra, o treinador Joe Willis (Robert Patrick) passa a beber água em excesso, a diretora Karen Olson (Piper Laurie) muda o jeito de vestir e andar, e até mesmo a simpática Elizabeth Burke (Famke Janssen) se transforma em outra pessoa. Quem primeiro percebe as diferenças - que já estão se estendendo para vários alunos, depois de uma misteriosa sessão de vacina - é Delilah Profitt (a brasileira Jordana Brewster), editora do jornalzinho da escola, que procura um furo para a próxima edição. Sua desconfiança de que algo muito errado está acontecendo é confirmada quando ela testemunha, ao lado de seu apaixonado secreto, o nerd Casey Connor (Elijah Wood), dois professores transformando uma colega em mais uma vítima. Com a teoria de que todos estão tendo suas reais personalidades substituídas como forma de dominação alienígena, eles se unem a uma voraz leitora do gênero, Stokes (Clea DuVall), o popular jogador de futebol da equipe da escola, Stan (Shawn Hatosy) e o malandro de plantão, Zeke (Josh Hartnett) - que vive de pequenos tráficos dentro do estabelecimento - para acabar com a invasão iminente. A única novata no grupo é Marybeth (Laura Harris), recém-chegada à cidade.


Sem alterar muito a estrutura de seus roteiros, Kevin Williamson volta a utilizar-se de arquétipos adolescentes para povoar sua trama central, como forma de atingir seu público-alvo de todas as maneiras possíveis. Sendo assim, ele lança mão do galã cobiçado, da patricinha desmiolada, do nerd deslocado, da gatinha inteligente, da desajustada cínica e do rebelde sem causa como heróis de uma trama improvável, mas contada de forma fluente e com um perfeito senso de ritmo e suspense. Equilibrando em seu texto sequências de violência moderada - tudo de olho na bilheteria - e citações divertidas a "Independence Day" e à própria "Arquivo X", entre outras, "Prova final" peca apenas por assustar de menos. Enquanto "Pânico", mesmo com suas piadas metia medo na plateia, o filme de Rodriguez muitas vezes parece estar apenas interessado em afirmar a grife de Williamson, enfatizando suas características mais do que sua história. Além disso, nem mesmo um diretor criativo como Rodriguez consegue o milagre de arrancar interpretações decentes de Josh Hartnett e Jordana Brewster.

Sem conseguir uma equipe de atores adolescentes coesa - na qual destaca-se Elijah Wood muito antes da trilogia "O Senhor dos Anéis" - Robert Rodriguez teve que contentar-se com um elenco jovem de atores com potencial para futuros astros. Hartnett até conseguiu emplacar outros trabalhos (inclusive com o próprio Rodriguez e o blockbuster "Pearl Harbor"), mas é de uma inexpressividade criminosa. Jordana Brewster, de mãe brasileira, chegou a ser comparada com Demi Moore, mas além de filmes da série "Velozes e furiosos" não foi além na carreira. Apenas Clea DuVall e Shawn Hatosy seguiram adiante, fazendo filmes menores de diretores respeitados, mas mesmo assim sem o destaque que se esperava. Sendo assim, a Rodriguez coube a tarefa de brincar com os atores mais experientes - que parecem se divertir em cena - como Robert Patrick e Piper Laurie, e deitar e rolar com os efeitos visuais e de maquiagem, eficientes a ponto de esconder o orçamento modesto.

Ainda que não seja um excelente filme de ficção científica - está mais para "Dawson's Creek" do que para "Arquivo X" - "Prova final" é uma diversão com a assinatura assumidamente trash e barata de Robert Rodriguez, um dos poucos diretores que, mesmo no esquema de Hollywood, manteve-se fiel a suas origens simples. É uma sessão da tarde das mais apetitosas.

quarta-feira

UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (From dusk till dawn, 1996, Dimension Films, 104min) Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Robert Rodriguez. Música: Graeme Revell. Figurino: Graciela Mazón. Direção de arte/cenários: Cecilia Montiel/Felipe Fernandez del Paso. Produção executiva: Lawrence Bender, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Produção: Gianni Nunnari, Meir Teper. Elenco: Harvey Keitel, George Clooney, Juliette Lewis, Quentin Tarantino, Ernest Liu, Salma Hayek, Cheech Marin, John Hawks, Danny Trejo, Tom Savini, Kelly Preston, Michael Parks. Estreia: 19/01/96

Em 1995, o ator George Clooney estava começando a sentir o gostinho da fama: graças ao charmoso pediatra Doug Ross, seu personagem na telessérie "ER - Plantão médico", o sobrinho da cantora Rosemary Clooney finalmente era reconhecido nas ruas e era festejado pelo público - coisas que outros trabalhos em seu currículo anterior, como o trash "A volta dos tomates assassinos" (88), não havia permitido até então. Sabendo que o próximo passo em direção ao reconhecimento artístico seria fazer a difícil transição para o cinema, ele demonstrou um raro senso de oportunidade durante as gravações do último episódio da primeira temporada, "Maternidade", fazendo amizade com seu diretor. O diretor, que havia sido incensado em seu filme de estreia, estava a caminho de ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes com seu novo trabalho - que também lhe daria o Oscar de roteiro original - e não demorou para que uma nova oportunidade de parceria surgisse entre eles. O diretor era Quentin Tarantino e quando um de seus futuros projetos ficou sem ator principal - depois que John Travolta, Tim Roth, Steve Buscemi e Christopher Walken o recusaram por problemas de agenda - o nome de Clooney surgiu como uma possibilidade a ser considerada.

Deixando de lado a ideia de dirigir seu roteiro de "Um drink no inferno" - o tal novo projeto no qual ele acumularia os créditos de roteirista e ator - Tarantino passou a bola para seu amigo Robert Rodriguez, outro prodígio que a indústria hollywoodiana incorporou depois do sucesso de um filme feito com apenas sete mil dólares ("El mariachi"). Entusiasta do cinema trash, feito com poucos recursos e muita imaginação, Rodriguez comprou a ideia de ter Clooney como protagonista e, com base em um roteiro que misturava bandidos cruéis e vampiros ainda mais sanguinolentos, criou um cult movie instantâneo, que tornou-se, guardadas as devidas proporções, o primeiro grande sucesso do galã da televisão em sua carreira cinematográfica - que, a partir daí, seria uma das mais sólidas e respeitadas de Hollywood. Já Tarantino, na ocasião da estreia do filme, já estava consagrado com o sucesso incontestável de "Pulp fiction, tempo de violência".


Na verdade, se olharmos com atenção, "Um drink no inferno" é uma espécie de prévia do que Tarantino e Rodriguez fariam em 2010, com o fracassado "Grindhouse" - uma sessão dupla de filmes baratos que naufragou nas bilheterias americanas e foi distribuído pelo resto do mundo como produtos isolados: é um filme que muda radicalmente de gênero, estilo de narrativa e heróis a partir de sua segunda metade, pegando o público de surpresa de uma tal forma que não lhe permite nem ao menos pensar a respeito. É como se a primeira parte fosse dirigida por Tarantino - estão ali muitas de suas características, desde longos diálogos até a forma politicamente incorreta de tratar seus personagens - e a segunda conduzida pelo insano Rodriguez - também facilmente reconhecível com sua tendência ao kitsch, à violência gráfica mas claramente fictícia e a escalação de nomes como Cheech Marin e o mestre da maquiagem Tom Savini. O melhor de tudo, porém, é que o que poderia se tornar um samba do criolo doido funciona que é uma beleza. "Um drink no inferno" é uma deliciosa viagem bagaceira ao deserto americano, com direito a muitos tiros, sangue e um humor pra lá de negro.

Mas o que pode ser dito a respeito da trama de "Um drink no inferno" sem que aqueles que nunca o assistiram percam o sabor de surpresa? Bem, a trama começa apresentando os irmãos Gecko, dois assaltantes de banco pouco afeitos a sutilezas na hora de cometer seus crimes: Seth (Clooney) ainda é menos violento, mas Richard (Quentin Tarantino) é um psicopata estuprador que não pensa duas vezes antes de deixar que seus instintos assassinos aflorem. A caminho do México, onde vão entregar o produto de seu último trabalho a um sócio, eles sequestram a família de Jacob Fuller (Harvey Keitel), pastor que abandonou o ministério após a morte da esposa. Prometendo libertar a ele e seus dois filhos - incluindo a jovem Kate (Juliette Lewis), por quem Richard sente-se inevitavelmente atraído - assim que chegarem à fronteira, Seth acaba entrando, junto com todos, no Titty Twister, um bar de aparência decadente com shows eróticos e frequentadores com cara de poucos amigos. E é justamente nesse bar que uma reviravolta - no roteiro e na trajetória de todos - transforma a viagem em uma aventura das mais bizarras.

Engraçado, violento, exagerado e mostrando uma Salma Hayek nos limites da sensualidade, "Um drink no inferno" é um deleite para quem busca entretenimento e diversão atípicos. É só deixar o senso crítico de lado e se entregar à competente bobagem orquestrada por Tarantino e Rodriguez.

ACROSS THE UNIVERSE

ACROSS THE UNIVERSE (Across the universe, 2007, Revolution Studios, 133min) Direção: Julie Taymor. Roteiro: Dick Clement, Ian LaFrenais, estória de Julie Taymor, Dick Clemente, Ian La Frenais. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Albert Wolksy. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Ellen Christiansen de Jonge. Produção executiva: Derek Dauchy, Charles Newirth, Rudd Simmons. Produção: Matthew Gross, Jennifer Todd, Suzane Todd. Elenco: Jim Sturgess, Evan Rachel-Wood, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther, T.V. Carpio, Dylan Baker, Lynn Cohen, Joe Cocker, Bono Vox, Salma Hayek. Estreia: 09/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Figurino

Quem não gosta dos Beatles bom sujeito não é, e a cineasta Julie Taymor certamente o é. Depois de ter ousado visualmente com a biografia da artista plástica Frida Kahlo no filme estrelado por Salma Hayek - e que ganhou 2 Oscar, de maquiagem e trilha sonora - Taymor desviou sua atenção para um projeto menos sério, mas igualmente ambicioso: um musical totalmente calcado nas inesquecíveis canções do quarteto de Liverpool. Aproveitando-se da boa vontade com que o gênero vinha sendo recebido pelo público - "Moulin Rouge" e "Chicago" foram elogiados e tiveram bilheterias consideráveis - ela concebeu uma obra que é capaz de fazer cantar o mais tímido espectador.


Aprovado por Paul McCartney e George Harrison - os Beatles remanescentes à época do lançamento do filme - "Across the universe" é uma história de amor simples, com roteiro direto e sem maior profundidade dramática, mas que cumpre perfeitamente o que promete. Quando a trama tem início, o jovem Jude (Jim Sturgess, simpático e carismático) deixa sua pequena cidade inglesa para procurar o pai - que não sabe de sua existência - em Nova York. Lá chegando - e descobrindo que a imagem que fazia de seu progenitor está bem longe da verdade - ele faz amizade com o rebelde Max (Joe Anderson), que vive em constante crise com a família, que cobra dele mais responsabilidade e seriedade. Os dois vão morar no apartamento de Sadie (Dana Fuchs), uma cantora que busca um lugar ao sol e lá fazem amizade também com o músico Jojo (Martin Luther) e com a bissexual Prudence (TV Carpio). Enquanto convive com as lutas pelos direitos civis e com as manifestações contra a guerra do Vietnã, Jude conhece e se apaixona pela irmã de Max, a bela Lucy (Evan Rachel-Wood), que acaba de perder um namorado no conflito asiático.


Repleto de referências à obra dos Beatles - até mesmo em pequenos detalhes que só serão reconhecidos pelos fãs mais atentos - e buscando cobrir todas as épocas da banda (desde seu começo no Cavern Club até sua fase psicodélica), "Across the universe" é visualmente empolgante: fotografado com capricho por Bruno Delbonnell (de "O fabuloso destino de Amélie Poulain), o filme de Taymor equilibra com maestria o romantismo, o drama e a psicodelia dos anos 60 com números musicais que vão do doce e terno - caso de "Something" e "Because" - até os mais radicais - como "Helter skelter" e "Happiness is a warm gun"- passando por sequências de tirar o fôlego, como a versão gospel de "Let it be" e a magistralmente editada visão de "Strawberry fields forever". Salpicando sua obra com diálogos e situações que remetem diretamente às canções do grupo, a cineasta criou uma pequena obra-prima pictória, uma compilação visual fascinante do talvez mais irrepreensível cancioneiro popular inglês. O seu único problema, porém, está naquele que é, provavelmente, o calcanhar de Aquiles de quase todo filme musical: o roteiro.

Ao concentrar-se em uma maneira de concatenar as músicas que pretendia utilizar em seu filme, Taymor pecou em não se aprofundar devidamente ao desenho de suas personagens e ao desenvolvimento de sua trama. Por mais atraentes e carismáticos que sejam seus intérpretes, as personagens criadas pela cineasta - e desenvolvidas por outros roteiristas - não conseguem atingir todo o seu potencial, especialmente devido à necessidade da diretora em ligá-las às canções. Dessa forma, perde-se minutos valiosos em uma longa e enfadonha sequência que envolve uma espécie de guru místico (vivido pelo cantor Bono Vox), ao invés de aprofundar o romance entre os protagonistas. Tudo bem que a intenção era citar a fase "maluco beleza" de Lennon, McCartney e cia., mas foge da trama central e desvia a atenção.

Porém, há muitos mais acertos do que erros em "Across the universe", uma deliciosa e emocionante viagem através da música e dos sentimentos de quatro dos mais importantes músicos da história. Como disse McCartney após uma sessão, "o que há para não se gostar?".

segunda-feira

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem 
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.



“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

quarta-feira

STUDIO 54

STUDIO 54 (54, 1998, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Mark Cristopher. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: Lee Percy. Música: Marco Beltrami. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Karen Wiesel. Produção executiva: Don Carmody, Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ira Deutchman, Richard N. Gladstein, Dolly Hall. Elenco: Ryan Phillipe, Salma Hayek, Mike Myers, Neve Campbell, Breckin Meyer, Mark Ruffalo, Heather Matarazzo, Sela Ward. Estreia: 20/8/98

Entre 1977 e o início dos anos 80, nenhum lugar era mais quente e badalado em Nova York do que o Studio 54. Criada por Steve Rubell, ex-dono de restaurantes, era a discoteca mais cobiçada por todo mundo que sonhava com glamour, fama e diversão sem fim. Frequentada pelos grandes nomes do entretenimento, das artes e do esporte, misturava a "realeza" americana com a plebe, formada por todos aqueles desconhecidos que tinham a sorte de ser belos e/ou interessantes e passar pelo crivo de Rubell, que ficava em pessoa na porta do local, escolhendo quem merecia dançar até o amanhecer. Um dos mais interessantes e lendários locais da era disco, o Studio 54 deu origem também a um filme que, perto do que poderia ter sido, decepcionou crítica e público. Mas será que o diabo é tão ruim como pintam?

Em termos dramáticos, não se pode dizer que "Studio 54" - o filme - seja bom. O roteiro do também diretor Mark Cristopher é superficial ao extremo, não dando espaço para que suas personagens se desenvolvam a contento. Tudo é muito maniqueísta e quase tosco no desenho dos protagonistas, e suas atitudes nunca soam como verdadeiras e sim como estratégias dramáticas para que a história vá pra frente. Não dá para acreditar, por exemplo, no romance entre Shane (Ryan Philippe, bonito mas péssimo ator) e a atriz Julie Black (a sempre artificial Neve Campbell) nem tampouco na amizade entre ele e o casal Anita (Salma Hayek, linda mas limitada a uma personagem quase caricata) e Greg (Breckin Meyer, que faz o possível com o que tem em mãos). Apenas o Steve Rubell de Mike Myers convence, provando que o humorista é bem melhor ator dramático do que suspeitavam os fãs de "Austin Powers", sua criação mais conhecida.

Mas, se não dá pra acreditar muito na trama proposta por Cristopher, ao menos dá pra se divertir com o clima com que o diretor envolve seu projeto. Tudo, desde a trilha sonora dançante e repleta de clássicos da disco até o figurino caprichado de Ellen Lutter, convida a plateia a uma viagem no tempo, até uma época em que a permissividade sexual e comportamental estava em seu auge. É difícil não se ter uma nostalgia de um período em que, sim, a AIDS começava a pairar sobre a sociedade e as drogas iniciavam seu avassalador domínio sobre qualquer desavisado, mas que, ao mesmo tempo, concedia à população momentos de extrema alegria e diversão (ainda que depois tenha cobrado seu preço). O diretor é feliz em conseguir transmitir o clima de eterna festa da época (em especial quando recria as noitadas regadas a álcool e tóxicos da boate) na mesma medida em que falha em construir uma história mais consistente.


Mas, afinal, qual é a história de "Studio 54"? O protagonista é Shane O'Shea, um jovem morador de Nova Jersey que tem o sonho de tornar-se "alguém" em Nova York, assim como sua conterrânea, a atriz Julie Black (que, apesar de aparentar sucesso, também tenta se dar bem na carreira, nem que tenha que dormir com quem passar pelo seu caminho). Em seu caminho para o topo, ele chega até a famosa boate e, protegido pelo proprietário Steve Rubell e dono de um belo corpo e um belo rosto, torna-se conhecido dentro das altas rodas sociais e artísticas da cidade. Ambicioso, ele acaba entrando em rota de colisão com seus melhores amigos, o bartender Greg e sua mulher Anita (que sonha em ser uma cantora disco) e descobre, quase tarde demais, que existem coisas mais importantes do que fama e prestígio.

Sim, "Studio 54" também tem uma lição de moral, o que dá um certo gostinho de desmancha-prazeres. Cristopher não tem a coragem necessária de ir fundo em alguns temas que poderiam ter transformado o filme em uma experiência mais bem-sucedida (a sexualidade dúbia de Rubell, por exemplo, ou até mesmo a decadência moral e psicológica de seu protagonista). Também não explora a contento todo o sex-appeal de Ryan Philippe no auge de sua beleza ou o talento histriônico de Mike Myers - que mesmo assim, esquiva-se gloriosamente de todos os problemas do roteiro.

Em resumo, "Studio 54" é um daqueles filmes ruins que conquistam mais pelo que pretendia ser do que pelo que realmente é. Sem maiores expectativas dá pra assistir inúmeras vezes (principalmente para quem é fã do período retratado). Mas não é tão bom quanto poderia.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...