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terça-feira

UMA VIDA POR UM FIO

UMA VIDA POR UM FIO (Sorry, wrong number, 1948, Paramount Pictures, 89min) Direção: Anatole Litvak. Roteiro: Lucille Fletcher, peça radiofônica de sua autoria. Fotografia: Sol Polito. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hans Dreie, Earl Hendrick/Sam Comer, Bertram Granger. Produção: Anatole Litvak, Hal Wallis. Elenco: Barbara Stanwyck, Burt Lancaster, Ann Richards, Wendell Corey, Harold Vermilyea, Ed Begley. Estreia: 01/9/48

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Barbara Stanwyck)

Transmitida pela primeira vez em maio de 1943, com Agnes Moorehead no papel principal, a peça radiofônica "Sorry, wrong number" mostrou-se um sucesso incontestável - a ponto de ser reencenada sete vezes até 1960. Em 1948, a Paramount Pictures - que, assim como outros estúdios, procurava incansavelmente por material a ser adaptado para o cinema - resolveu que a trama de suspense escrita por Lucille Fletcher tinha grande potencial para conquistar um público ainda maior do que os ouvintes de rádio. Com um roteiro escrito pela própria Fletcher, o diretor ucraniano Anatole Litvak no comando e a sempre eficiente Barbara Stanwyck como protagonista, "Uma vida por um fio" estreou nos cinemas e confirmou a teoria do estúdio. Além do êxito comercial e de crítica, o filme rendeu à Stanwyck sua quarta e última indicação ao Oscar de melhor atriz - nada mais justo, uma vez que, apesar da qualidade do elenco coadjuvante, é ela quem carrega nas costas, praticamente sozinha, o filme de Litvak.



Em um ano particularmente bem-sucedido de sua carreira - "Na cova da serpente", também dirigido por ele, concorreu a seis Oscar, incluindo melhor diretor -, Litvak demonstrou uma versatilidade rara, conquistando a audiência tanto com o drama estrelado por Olivia de Havilland quanto pelo suspense psicológico com Stanwyck. Filmado em três meses - e em ordem cronológica para facilitar o trabalho de sua atriz central -, "Uma vida por um fio" foi concebido como um conto claustrofóbico, passado em um período de poucas horas e em um único ambiente (com exceção dos flashbacks que vão completando o quebra-cabeça e esclarecendo à protagonista e ao espectador os rumos inesperados da trama. Para esse tom sufocante colaboram muito a fotografia em preto-e-branco de Sol Polito e a trilha sonora minimalista de Franz Waxman - dois elementos que, somados à direção concisa de Litvak, ao roteiro de Fletcher e à atuação de Stanwyck, forjam um filme que cumpre exatamente o que promete: um entretenimento honesto, surpreendente e (mais importante ainda) que respeita a inteligência do público ao criar um desfecho verossímil e corajoso.

A personagem principal do filme é Leona Stevenson, uma milionária mimada cuja saúde não é exatamente das melhores. Filha de um poderoso empresário da indústria farmacêutica, ela é casada com o ambicioso Henry Stevenson (Burt Lancaster), a quem conheceu quando era namorado de sua melhor amiga, Sally (Ann Richards). Confinada a uma cama em sua bela casa em Nova York, ela tem em seu telefone o mais importante contato com o mundo exterior, mas em uma noite como outra qualquer, ela se vê envolvida numa trama perigosa: ao tentar localizar o marido e pedir que volte logo para casa, Leona se vê em meio a uma linha cruzada e ouve dois homens combinando o assassinato de uma mulher dali a algumas horas. Tensa, Leona resolve avisar a polícia do crime iminente, mas é desacreditada. Em pânico, ela inicia uma série de telefonemas para tentar descobrir algo mais sólido a respeito do homicídio - até que, para seu desespero, descobrir que a futura vítima é ela mesma. Uma série de flashbacks explica melhor como as coisas chegaram a tal ponto - enquanto Leona, sozinha e sem condições físicas de fugir, tenta impedir seu trágico fim.

Construído de forma a fazer com que o público acompanhe Leona conforme ela vai juntando as peças do quebra-cabeça que pode salvar sua vida, o roteiro de "Uma vida por um fio" é um belo exemplo de concisão. Com poucos personagens e um senso de urgência que o impede de ter cenas desnecessárias, o filme envolve o espectador sem muito esforço. Graças à atuação impecável de Stanwyck e a direção sóbria de Litvak, a história se desenrola sem maiores problemas de ritmo e, quando chega a seu ato final, apresenta à plateia um encerramento coerente e realista. Elogiado pela crítica e aplaudido pelo público, "Uma vida por um fio" só não agradou à atriz Agnes Moorehead: intérprete de Leona nas inúmeras transmissões de rádio da peça de Lucille Fletcher, ela foi substituída sem maior cerimônia por Barbara Stanwyck e recusou, ofendida, um papel menor na adaptação para o cinema. É difícil saber se, com ela no papel principal, o filme teria o mesmo impacto, mas tal incidente não deixa de mostrar como, desde sempre, Hollywood sempre privilegiou suas crias em detrimento de intérpretes menos badalados. De qualquer forma, "Uma vida por um fio" é um belo suspense que, a despeito de seus problemas de bastidores, sobreviveu facilmente ao teste do tempo.

sexta-feira

O LEOPARDO



O LEOPARDO (Il gattopardo, 1963, Titanus, 187min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli, Massimo Franciosa, Luchino Visconti, romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte/cenários: Mario Garbuglia/Laudomia Herculani, Giorgio Pes. Produção executiva: Pietro Notarianni. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Paolo Stoppa, Giuliano Gemma. Estreia: 27/3/63


Indicado ao Oscar de Figurino
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 

O filme preferido do cineasta Martin Scorsese é, hoje, um dos clássicos mais cultuados do cinema, graças principalmente a seu cuidado com o visual - uma das características mais marcantes de seu diretor Luchino Visconti - e à atenção dada à fidelidade da adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, uma crônica tão ácida quanto poética da decadência da aristocracia italiana no século XIX através da figura de seu protagonista, o Príncipe Fabrizio di Salina, em uma aplaudida interpretação do americano Burt Lancaster. Fotografado brilhantemente por Giuseppe Rottuno e com uma minuciosa reconstituição de época que rendeu a Piero Tosi uma indicação ao Oscar de figurino, "O Leopardo" é, sem dúvida, um filme que encanta os olhos do espectador. Mas, é preciso que se diga, é necessária uma paciência maior do que a normal para encarar a narrativa construída por Visconti e poder se deliciar com suas belas imagens: em mais de três horas de duração, os acontecimentos se sucedem de forma lenta e contemplativa, sob o olhar ora atônito ora compreensivo de seu protagonista. Definitivamente é um filme que nem de longe irá agradar ao público médio acostumado com o ritmo do cinema hollywoodiano.

E nem mesmo Hollywood conseguiu digerir apropriadamente o filme de Visconti - ele mesmo um aristocrata com simpatias claras e explícitas com o comunismo. Distribuído pela Fox no mercado de língua inglesa, "O Leopardo" foi um fracasso de bilheteria quase previsível, apesar das críticas positivas e do elenco internacional que incluía, além de Lancaster, o francês Alain Delon (amigo pessoal do diretor e que foi escalado apesar das tentativas de Warren Beatty em participar do projeto) e a italiana Claudia Cardinale. O nome de Lancaster -  a essa altura já premiado com o Oscar de melhor ator por "Entre Deus e o pecado" (60) - foi sugerido à Visconti pelos produtores, que tentavam, assim, incluir um nome conhecido mundialmente e que pudesse despertar a atenção das plateias que não conheciam a trajetória do cineasta italiano, mais prestigiado entre a crítica e os festivais de cinema do que exatamente por êxitos comerciais. Visconti queria Laurence Olivier no papel principal, e até Marlon Brando e Gregory Peck foram considerados (já que a Fox financiaria parte do orçamento caso um astro americano estrelasse o filme), mas foi o ator de "A um passo da eternidade" (53) que acabou conquistando o veterano diretor, convencido finalmente após vê-lo em cena no clássico "Julgamento em Nuremberg" (61). A relação entre diretor e astro, no entanto, não foi feita apenas de flores: demorou até que Lancaster mostrasse à Visconti sua imersão e dedicação ao papel - algo que aconteceu e foi reiterado com uma nova colaboração em 1974, no filme "Violência e paixão".


"O Leopardo" não tem uma história envolvente e repleta de acontecimentos dramáticos, podendo ser classificado mais como uma crônica dos costumes sicilianos do século XIX e suas transformações sociais do que exatamente como um drama romântico ou algo parecido. Ao adaptar fielmente o livro de Lampedusa em imagens e atmosfera, Visconti - que em sua vitoriosa carreira ainda assinaria a difícil adaptação de "Morte em Veneza", de Thomas Mann - opta por um viés mais bucólico e sentimental, que reflete o tom de nostalgia que perpassa toda a sua narrativa. Em seus quarenta minutos finais - um espetacular baile que sublinha visualmente todas as questões da trama - um dos mais elegantes cineastas da história apresenta à plateia um retrato quase melancólico de uma metamorfose inevitável, que, segundo diz o personagem central, mostra que, às vezes, "é preciso mudar tudo para que as coisas permaneçam como estão.". E é esse o pensamento central do filme e do Príncipe Fabrizio, vivido com maestria por um Burt Lancaster diferente de tudo que havia feito até então, com um ar de sobriedade e elegância dos mais intensos do cinema.

A trama - simples, minimalista, quase inexistente - gira em torno do Príncipe Fabrizio Di Salina, um aristocrata italiano que, depois de hesitar por um algum tempo, finalmente passa a aceitar a união entre seu mundo de luxo, pompa e circunstância com a burguesia que tanto serve de chacota junto a seus semelhantes. Percebendo que a única forma de manter-se no topo da cadeia alimentar social é a aliança com o prefeito da cidade, o exuberante Calogero Sedara (Paolo Stoppa), representante do novo dinheiro, ele não apenas concorda como incentiva o casamento de seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), com a filha do mal-afamado vizinho, a jovem e bela Angelica (Claudia Cardinale). Contando sua história com detalhes, discrição rítmica e sutileza, Visconti não apela para cenas de grande impacto dramático, preferindo revelar ao espectador as nuances de uma sociedade unicamente por meio de cenas milimetricamente arquitetadas de modo a encantar os olhos antes de qualquer outro nível de racionalização. Funciona: plasticamente, "O Leopardo" é impecável, ainda que prescinda de um ritmo um tanto menos letárgico. Ainda assim, para quem procura cinema de alto padrão estético, é um desbunde.

quarta-feira

CAMPO DOS SONHOS

CAMPO DOS SONHOS (Field of dreams, 1989, Universal Pictures, 107min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Phil Alden Robinson, romance "Shoeless Jackson", de W.P. Kinsella.  Fotografia: John Lindley. Montagem: Ian Crafford. Música: James Horner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Brian Frankish. Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon. Elenco: Kevin Costner, James Earl Jones, Amy Madigan, Ray Liotta, Burt Lancaster, Frank Whaley, Gabby Hoffman. Estreia: 21/4/89

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

No início dos anos 90 não havia ator mais quente em Hollywood do que Kevin Costner - que chegou a ver sua estreia como diretor, "Dança com lobos" sair da festa do Oscar 91 com sete estatuetas, incluindo filme e direção. Um dos pontapés iniciais dessa febre foi "Campo dos sonhos", um drama com toques espirituais e o beisebol como pano de fundo que surpreendeu nas bilheterias e foi indicado ao Oscar de melhor filme e roteiro adaptado. Ainda que já tivesse dois sucessos no currículo, foi o papel de Ray Kinsella, um íntegro fazendeiro do Iowa que arrisca sua propriedade ao seguir vozes do além que o transformou em astro de primeira grandeza - afinal de contas, "Os intocáveis" tinha a direção de Brian DePalma e o nome de Robert DeNiro como chamarizes.

Baseado no romance "Shoeless Jackson" - inédito no Brasil - "Campo dos sonhos" exige do espectador uma entrega total à história, quase inimaginável nos cínicos anos 80 e 90. Em sua personalização de James Stewart de seu tempo, Costner esbanja simpatia e carisma em uma trama que mescla espiritualismo, relações familiares, lembranças do passado e esporte sem exagerar em nenhum quesito e emociona sem apelar demasiadamente para o lacrimoso. Se suas indicações ao Oscar foram exageradas - em um ano onde estavam na disputa os poderosos "Nascido em 4 de julho" e "Sociedade dos poetas mortos" - é inegável que o filme de Phil Alden Robinson (que mais de dez anos depois assinaria "A soma de todos os medos" e mostraria que entende de adrenalina) cumpre o que promete, mesmo para o público que não tem pelo beisebol nada mais do que indiferença.


O beisebol é apenas o pano de fundo de "Campo dos sonhos", podendo ser substituído por qualquer esporte sem a perda da essência de sua narrativa. Ray Kinsella (Costner) é dono de uma fazenda de milho no interior do Iowa que um dia, do nada, começa a ouvir vozes que repetem sempre a mesma sentença: "Se você construí-lo, ele virá!" Sem saber exatamente o motivo, ele interpreta a mensagem como uma ordem para que construa um estádio de beisebol onde está sua plantação de milho. Mesmo arriscado a perder tudo, ele conta com o apoio da esposa Annie (Amy Madigan) e se surpreende quando, depois do estádio pronto, recebe a visita de Shoeless Joe Jackson (Ray Liotta), um jogador de beisebol banido do esporte em 1919 depois de um escândalo. Aos poucos, diante dos olhos atônitos de Ray, um grupo inteiro de jogadores já mortos começa a frequentar seu estádio. Já que as vozes continuam a orientá-lo, o fazendeiro inicia então uma jornada em direção aos reais objetivos de sua missão. Para isso, ele precisa da ajuda do recluso escritor Terence Mann (James Earl Jones).

Inspirado no escritor J.D. Salinger, Terence Mann é um personagem fictício que remete Kinsella diretamente a seus dias de juventude idealista em que, ao lado da esposa, lutava contra as injustiças sociais. É Mann quem irá ajudar o protagonista em sua busca e é ele quem irá testemunhar o encontro do rapaz com um jovem Archibald Graham (Frank Whaley) - que mais tarde irá revelar-se mais importante do que parece a princípio. No fundo de tudo, está a relação de Kinsella com seu falecido pai - uma relação marcada pelo rancor e por palavras não ditas e que encontrará no estádio de beisebol uma forma de redenção.

Se Costner é a mola-mestra do filme, servindo como ponto de partida e retorno, o elenco coadjuvante de "Campo dos sonhos" não poderia ser mais adequado. James Earl Jones brilha como o irascível Terence Mann, que mostra seu lado gentil no decorrer da trama. Burt Lancaster tem uma participação afetiva brilhante como o velho doutor Archibald Graham em um momento crucial - ainda que pouco explorado pela direção de Robinson. E Ray Liotta quase rouba a cena como o rebelde Shoelles Jackson do título do romance - antes de protagonizar "Os bons companheiros", de Scorsese, o ator transmite todas as emoções do personagem sem precisar de muitos diálogos.

"Campo dos sonhos" é um belo e sensível filme que tira partido do carisma de Kevin Costner e de uma história sentimental (e não piegas) que trata de amor, sonhos despedaçados e da força da fé.

quinta-feira

A UM PASSO DA ETERNIDADE

A UM PASSO DA ETERNIDADE (From here to eternity, 1953, Columbia Pictures, 118min) Direção: Fred Zinnemann. Roteiro: Daniel Taradash, romance de James Jones. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: William Lyon. Música: George Duning. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Cary Odell/Frank Tuttle. Produção: Buddy Adler. Elenco: Burt Lancaster, Deborah Kerr, Montgomery Clift, Donna Reed, Frank Sinatra, Ernest Borgnine, Jack Warden, Philip Ober. Estreia: 05/8/53

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Ator (Montgomery Clift, Burt Lancaster), Atriz (Deborah Kerr), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em preto-e-branco, Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro, Fotografia em P&B, Montagem, Som
Vencedor de 2 Golden Globes Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra)

Reza a lenda - e todo mundo a conhece - que Frank Sinatra conseguiu o papel do soldado Angelo Maggio em "A um passo da eternidade" graças a suas conexões com a Máfia, fato recriado pelo escritor Mario Puzo em seu romance "O poderoso chefão" (e posteriormente por Francis Ford Coppola na adaptação do livro para o cinema). Passando por um período difícil de sua carreira, Sinatra não só ficou com o papel como teve seu desempenho premiado com um Oscar de coadjuvante e viu sua popularidade retomada, mas a lenda, apesar de bem mais saborosa, é apenas lenda: a verdadeira razão pela escolha do ator para o filme se chamava Ava Gardner, sua então esposa, que, trabalhando em um filme da Columbia, convenceu o chefe do estúdio, Harry Cohn, a dar o emprego a seu marido - afinal de contas, era um ótimo negócio, uma vez que Sinatra aceitaria trabalhar até de graça no filme de Fred Zinnemann.

Recém saído dos sets do western "Matar ou morrer" - que lhe daria uma indicação ao Oscar - o austríaco Zinnemann já tinha experiência com filmes de guerra, sendo "Espíritos indômitos", de 1950 o mais bem-sucedido, quando foi chamado para comandar a adaptação para as telas do polêmico romance de James Jones, que retratava de forma pouco simpática o exército americano, além de tocar em temas-tabu, como o adultério. A princípio relutante - afinal, a época era pouco propícia a provocações políticas graças ao famigerado senador McCarthy - Zinnemann acabou aceitando a tarefa, que acabou lhe rendendo a estatueta da Academia - uma das oito que o filme acabou abocanhando, igualando o recorde de "...E o vento levou". Mais lembrado pela cena em que Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijam apaixonadamente na beira da praia, "A um passo da eternidade", porém, é bem mais que isso, mostrando ao público um interessante panorama de dramas particulares de um grupo de militares americanos às vésperas do ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941.


Se existe um protagonista em "A um passo da eternidade" é o soldado Prewitt, interpretado com a competência habitual por Montgomery Clift. Boxeador que abandonou os ringues depois de uma experiência traumática, Prewitt se recusa a fazer parte do time dos seus colegas, o que acaba suscitando fortes represálias por parte de seus superiores. Sentindo-se isolado, ele faz amizade com Maggio (Frank Sinatra), que, por sua vez, sofre com a implicância de um beligerante sargento (Ernest Borgnine). Seus problemas só encontram anestesia quando ele está ao lado de Alma (Donna Reed, Oscar de atriz coadjuvante), que trabalha no clube noturno frequentado pelos soldados. Enquanto isso, o discreto sargento Milton Warden (Burt Lancaster) sente-se fortemente atraído por Karen (Deborah Kerr), esposa do capitão superior a ele, a ponto de envolver-se em um relacionamento altamente passional com ela. As vidas de todos sofrerão um duro golpe quando os EUA se veem forçados à entrar na guerra, com o ataque japonês à sua base.

Fotografado em preto-e-branco por opção do próprio cineasta - que também recusou qualquer formato de filme que não o tradicional - "A um passo da eternidade" tem em seus personagens e em suas interrelações seu maior mérito. Ainda que o ataque à Pearl Harbor seja o grande clímax do filme, Zinnemann não permite que se torne o ponto principal da obra - mesmo porque a sequência é relativamente rápida e acontece bem no final da projeção. Seu interesse, assim como o era no romance de Jones, é o impacto da guerra nas vidas dos americanos alocados no Havaí, sejam eles militares ou civis. É por isso que, mais do que técnica, a emoção é o principal ingrediente de sua obra-prima: o que fica na memória são os diálogos tristes entre Lancaster e Kerr - cujo trabalho abriu-lhe novas portas em Hollywood, uma vez que demonstrou um sex-appeal até então oculto - e a trágica história da amizade entre Sinatra e Clift (que ajudou o cantor em sua atuação, conquistando um amigo para toda a vida).

É inegável que "A um passo da eternidade" não tem, hoje em dia, a mesma força corajosa que tinha em sua estreia, apesar da "limpeza" feita na trama de James Jones. Mas ainda é um filme poderoso, realizado com imenso talento e um elenco acima de qualquer suspeita, capaz de encantar aos fãs de bom cinema.

JULGAMENTO EM NUREMBERG


JULGAMENTO EM NUREMBERG (Judgment at Nuremberg, 1961, United Artists, 186min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knudtson. Música: Ernest Gold. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Richard Widmark, Maximilian Schell, Judy Garland, Montgomery Clift, William Shatner. Estreia: 14/12/61

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Maximilian Schell, Spencer Tracy), Ator Coadjuvante (Montgomery Clift), Atriz Coadjuvante (Judy Garland), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Maximilian Schell), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Stanley Kramer), Ator/Drama (Maximilian Schell)


Pródiga que é em encantar a plateia com seu cinema, Hollywood também o é quando se trata de tomar partido em relação a temas polêmicos. Vez por outra, no entanto, a própria história se encarrega de prover aos estúdios e aos produtores os elementos necessários para o deleite do público. É o que acontece com "Julgamento em Nuremberg", dirigido por Stanley Kramer e lançado em 1961. Para buscar o interesse do público, o roteirista Abby Mann nem precisou buscar na sua imaginação os ingredientes do sucesso: eles realmente aconteceram, meros 13 anos antes, e foram muito mais cruéis do que a mente humana conseguiria conceber.

"Julgamento em Nuremberg" se passa em 1948, três anos depois, portanto, do final da II Guerra Mundial. O juiz de uma cidadezinha americana, Dan Heywood (Spencer Tracy) chega à Alemanha para presidir o julgamento de quatro juízes nazistas, acusados de crimes contra a humanidade. No tribunal, ele mantém a calma e a placidez necessárias enquanto assiste o embate entre o promotor Tad Lawson (Richard Widmark) e o jovem advogado de defesa, Hans Rolfe (Maximilian Schell, vencedor do Oscar de melhor ator). Mais do que simplesmente julgar os acusados, o juiz precisa também entender os pontos de vista a respeito do maior crime já cometido contra seres humanos, uma vez que, dentre os réus, existe o silencioso Ernst Janning (Burt Lancaster), que, depois de passar dias silencioso e meditativo, resolve se pronunciar, defendendo a si mesmo e seu país (em uma cena marcante e assustadoramente sincera).

"Julgamento em Nuremberg" é um filme obrigatório por inúmeras razões. Além de ser dramaticamente bem construído e contar com um elenco estelar (sendo que a maioria dos atores trabalhou com um salário menor do que o costumeiro apenas por julgar que o filme deveria ser feito por sua importância histórica), é um documento forte, pungente e realista, fugindo sempre que possível do maniqueísmo inerente ao tema. O equilíbrio do roteiro de Mann é notável, dando espaço a cenas massacrantes (o material filmado nos campos de concentração mostrado no tribunal é real) e diálogos e personagens bastante interessantes: Marlene Dietrich - inimiga pública do III Reich desde que recusou a ser a estrela de filmes de propaganda nazista e passou a fazer shows às tropas aliadas - vive, por exemplo, a viúva de um militar da SS condenado à morte, que insiste em afirmar que o povo alemão não sabia das atrocidades cometidas nos campos e, por mais que a simpatia da plateia esteja do lado do bem (a saber, os vencedores da guerra) não deixa de ser intrigante perceber como o texto forte de Mann e a atuação da bela Dietrich conseguem abalar as certezas que o público tem.


E o público, além de tudo, é brindado com o que de melhor há em termos de atuação no início dos anos 60. Maximilian Schell levou o Oscar de melhor ator disputando o prêmio com seu colega de elenco Spencer Tracy e brilha intensamente na pele do idealista advogado de defesa, que tenta desesperadamente salvar a liberdade de seus clientes mesmo sabendo que a batalha é praticamente perdida. Burt Lancaster entrega a melhor atuação de sua carreira com uma personagem indecifrável que consegue, em apenas duas cenas com diálogos substanciais (o já citado depoimento no banco das testemunhas e na sequência final com Tracy, de arrepiar qualquer fã de cinema e história). Mas são dois coadjuvantes que surpreendem ainda mais, em interpretações muito acima do chamado do dever - não à toa ambos tiveram indicações ao Oscar na categoria: Montgomery Clift e Judy Garland.

Clift, em um de seus últimos trabalhos, emociona como Rudolf Petersen, um homem vítima de esterilização por ter sido considerado mentalmente atrasado. Em apenas uma cena, Clift entrega o desempenho de sua vida, brilhantemente arrancando lágrimas com seu falar lento, sua angústia vísivel e sua indignação incurável (a defesa que ele faz da própria mãe é de fazer chorar o mais insensível dos homens). E Garland, voltando ao cinema depois de sete anos (seu último filme havia sido "Nasce uma estrela"), interpreta Irene Hoffman, que sobe ao banco das testemunhas para contar como foi obrigada a falar contra um homem mais velho, judeu, a quem tinha como pai, que foi acusado de manter relações sexuais com ela e portanto, condenado à morte. Mais velha e fisicamente descuidada, a eterna Dorothy de "O mágico de Oz" comprova seu talento único ao, corajosamente, expôr sua falta de vaidade em um papel difícil e emocionalmente complexo.

"Julgamento em Nuremberg" é um documento histórico de valor inestimável. Agrada aos fãs do gênero, conquista os interessados em história e impressiona os aficcionados por cinema clássico. Mais uma injustiça da Academia, que preferiu dar o Oscar principal ao pouco engajado "Amor, sublime amor".

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...