LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land, 2016, Summit
Entertainment/Black Label Media, 128min) Direção e roteiro: Damien
Chazelle. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Tom Cross. Música:
Justin Hurwitz. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: David
Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Michael Beugg, Mike
Jackson, John Legend, Qiuyun Long, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill,
Jasmine McGlade, Molly Smith, Ty Stiklorius. Produção: Fred Berger, Gary
Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt. Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone,
John Legend, J.K. Simmons, Tom Everett Scott, Rosemarie DeWitt, Finn
Wittrock. Estreia: 31/8/16 (Festival de Veneza)
14
indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Damien Chazelle), Ator
(Ryan Gosling), Atriz (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia,
Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Audition", "City of stars"),
Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor
de 6 Oscar: Diretor (Damien Chazelle), Atriz (Emma Stone), Fotografia,
Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars"), Direção de
Arte/Cenários
Vencedor de 7 Golden Globes: Melhor Filme
(Comédia ou Musical), Diretor (Damien Chazelle), Ator Comédia/Musical
(Ryan Gosling), Atriz Comédia/Musical (Emma Stone), Roteiro, Trilha
Sonora Original, Canção ("City of stars")
Poético! Encantador! Irresistível! Fascinante! Em um período em que filmes retratam uma realidade dolorosa, cruel e por vezes realista ao extremo, quantas produções nascidas no berço de ouro de Hollywood podem ostentar tantos adjetivos quanto "La La Land: cantando estações"? Realizado como uma homenagem do jovem cineasta Damien Chazelle à era de ouro dos musicais americanos, e com um custo quase irrisório de 30 milhões de dólares, a doce e apaixonante história de amor entre um fã obcecado de jazz e uma aspirante à atriz acabou por conquistar o mundo, principalmente graças a seu perfeito equilíbrio entre gêneros (romance, musical, comédia, drama), à química inquestionável de seu par de atores centrais e ao visual deslumbrante, milimetricamente calculado para causar um efeito hipnotizante entre os fãs de cinema. Recordista de Golden Globes (levou sete para casa, arrebatando prêmios em todas as categorias a que foi indicado) e em indicações ao Oscar (14, empatando com "A malvada", de 1950, e "Titanic", de 1997), acabou, no entanto, frustrando seus admiradores quando perdeu a principal estatueta (melhor filme) para "Moonlight: sob a luz do luar" - em uma situação sem precedentes na história da Academia, quando foi anunciado vencedor para depois descobrir que os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway haviam lido o nome errado. Tal situação, no entanto, não apaga seu brilho, suas seis vitórias (incluindo direção e atriz) e a sensação de já ter nascido clássico. Sucesso de público e de crítica, amado por fãs e admirado por amantes de música, é uma obra-prima indiscutível - capaz de abrir sorrisos no mais cínico espectador e provocar lágrimas nos mais sensíveis. Enfim, um filme que redescobre o prazer que apenas o cinema pode proporcionar.
Influenciado por dezenas de produções clássicas - percebe-se referências nítidas no desenrolar da narrativa, sejam diretas ou implícitas - e ainda assim dotado de personalidade própria, "La La Land" é um gigantesco passo à frente na carreira de seu diretor, já devidamente aplaudido em seu filme anterior, o premiado "Whiplash: em busca da perfeição" (2014). Com uma segurança de veterano, Chazelle constrói um universo particular, uma visão romantizada e colorida de sua cidade natal, Los Angeles, e de um mundo que parece radicalmente distante da realidade. Tudo em seu filme é reflexo de uma ótica visualmente deslumbrante e emocionalmente passional: da fotografia impecável de Linus Sandgren, de encher os olhos com sua paleta de cores delicadas em alguns momentos e gritantes em outros à direção de arte, que acompanha o imaginário onírico do cineasta ao criar cenários que parecem ter saído direto do mais apaixonado sonho. Da primeira sequência, em um engarrafamento monstruoso que se transforma magicamente em um número musical animado e empolgante, até os minutos finais (de partir o coração com suas implicações a respeito do destino e de como os sonhos tem seu lado bom e ruim), tudo que é visto na tela tem a clara intenção de encantar o público e transportá-lo para um lugar distante da realidade. As coreografias delicadas e complexas, as canções melancólicas de melodia discreta, as visitas a cenários conhecidos do público - o planetário de "Juventude transviada", os estúdios da Warner, as colinas de Hollywood - e a beleza artificial de uma cidade que já faz parte do inconsciente coletivo formam um impressionante painel narrativo, onde cada peça se encaixa perfeitamente na outra e, juntas, conduzem a audiência a uma experiência cada vez mais rara no quadradinho panorama do cinema americano.
A trama, como convém, é simples e pouco ambiciosa: a jovem Mia (Emma Stone, uma delícia de se assistir) trabalha como garçonete em uma lanchonete de Los Angeles enquanto espera sua grande chance como atriz. Sebastian (Ryan Gosling, versátil como nunca) é um pianista de bares que sonha abrir seu próprio estabelecimento, onde poderá finalmente valorizar a arte do jazz, pela qual é apaixonado. Os caminhos dos dois se cruzam e, depois de alguma relutância, Mia se entrega a um idílico romance com o rapaz, que lhe dá apoio e incentivo a perseguir seus objetivos. Conforme o tempo passa (dividido na tela nas quatro estações do ano, daí o subtítulo em português), os dois sentem que as coisas não serão assim tão fáceis: para juntar dinheiro, ele aceita fazer parte de um grupo musical pop liderado por um antigo desafeto (o cantor John Legend), e ela, motivada por ele, escreve um monólogo para lhe servir de escada para o sucesso. O que deveria unir o casal, porém, começa a afastá-los: será que é impossível a realização profissional e sentimental ao mesmo tempo? A resposta virá no devido tempo - e a música inspirada de Justin Hurwitz irá sublinhá-la de maneira a não deixar um único olho seco na plateia.
Com uma química já comprovada em outras duas ocasiões - nos filmes "Amor à toda prova" (2011) e "Caça aos gângsteres" (2014) - e novamente testada com sucesso, Ryan Gosling e Emma Stone estão fabulosos, e nem é possível imaginar que não foram os primeiros atores escalados para seus papéis. Se os planos de Damien Chazelle corressem conforme o esperado, Emma Watson e Miles Teller estariam na pele de Mia e Sebastian, mas por uma providencial mudança de planos, voltaram a contracenar e tiveram sua mais bem-sucedida parceria: Emma, escolhida pelo diretor depois de ele confirmar seus dotes musicais em uma montagem de "Cabaret", chegou a ganhar o Oscar de melhor atriz com seu misto de ingenuidade e determinação - impossível não se emocionar com a bela "Audition (The fools who dream"), indicada à estatueta de melhor canção - e se mostra uma das maiores promessas de Hollywood, enquanto Gosling se apresenta como um dos atores mais consistentes de sua geração, capaz de atuar, cantar e dançar com desenvoltura e carisma. Plenamente aptos a transmitir a mensagem apaixonante do diretor, eles são o corpo e alma de "La La Land", um filme inesquecível e que renova, de forma emocionante, o status de sétima arte ao cinema. É de se esperar o que mais Chazelle tem guardado na manga para seus próximos filmes: poucos cineastas conseguem ser tão brilhantes tão cedo!
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WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO
WHIPLASH,
EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash, 2014, Bold Films/Blumhouse
Productions, 107min) Direção e roteiro: Demian Chazelle. Fotografia:
Sharon Meir. Montagem: Tom Cross. Música: Justin Hurwitz. Figurino: Lisa
Norcia. Direção de arte/cenários: Melanie Paisiz-Jones/Karuna Karmakar.
Produção executiva: Jeanette Volturno-Brill, Jason Reitman, Couper
Samuelson, Gary Michael Walters. Produção: Jason Blum, Helen Eastbrook,
David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul
Reiser, Melissa Benoist, Austin Stowell, Nate Lang, Chris Mulkey.
Estreia: 16/01/14
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Montagem, Mixagem de Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simmons)
É difícil não lembrar da velha frase de Thomas Edison que diz que "talento é 1% inspiração e 99% transpiração" quando se assiste a "Whiplash, em busca da perfeição", o extraordinário filme que colocou o pirralho (fez apenas 31 anos agora em janeiro de 2016) Damien Chazelle no mapa de Hollywood ao conquistar cinco indicações ao Oscar, inclusive melhor filme e roteiro adaptado: ao comer o pão que seu professor de música amassou para provar seu talento como baterista, o protagonista vivido por Miles Teller - uma promessa que enfileirou um filme atrás do outro em menos de dois anos - mostra a realidade de uma parcela imensa de jovens (ou nem tão jovens assim) talentosos que buscam seu lugar ao sol na música sem ter o devido reconhecimento. Não é à toa que o filme começou a ser aplaudido vigorosamente por seu público-alvo - que viu nele uma espécie de merecida e carinhosa homenagem a todos aqueles que tem pela música (ou pela arte em geral, vá lá) uma paixão que transcende qualquer vaidade - e acabou por conquistar o mundo inteiro e até a Academia, que acabou lhe concedendo três estatuetas douradas.
Essa paixão/obsessão/tesão pela música é o mote de "Whiplash", e o que move seu protagonista, o jovem Andrew Nieman (interpretado com garra por Teller, antes visto em "Divergente" e no independente "O maravilhoso agora") a enfrentar todas as dificuldades que aparecem à sua frente para se tornar o grande baterista de jazz que almeja ser. A maior delas surge na figura de Terence Fletcher (J. K. Simmons), um professor tão respeitado quanto rígido que é o líder da banda do conservatório de música onde o rapaz estuda. Escolhido pelo temido mestre, Andrew passa a sofrer com seus métodos de intimidação e humilhação, mas seu amor pelo que faz o mantém disposto até mesmo a abrir mão de sua vida pessoal com a namorada Nicole (Melissa Benoist). Sua relação com Terence, portanto, acaba por ser a mais importante de sua vida, mesmo quando todos os limites são ultrapassados e a dedicação do veterano músico revela-se quase uma psicopatia.
A história engendrada por Chazelle - que, sem financiamento dirigiu um curta que serviu de inspiração para seu elogiado filme - não é exatamente original, uma vez que não hesita em utilizar-se dos mais variados clichês para atingir a plateia, mas o faz com tanta pureza e tanto amor (pelos personagens, pela trama, pela música em si) que é impossível não envolver-se com tudo. A relação entre Andrew e Fletcher (a grande chance de J.K. Simmons, um rosto conhecidíssimo do público e que acabou levando um merecidíssimo Oscar de ator coadjuvante) é hipnotizante e rende ao filme seus melhores momentos e a climática sequência final, de nove minutos de duração magistralmente editados é capaz de arrepiar a todos aqueles que tem a música na alma e no coração (não à toa, o Oscar de montagem também foi conquistado, assim como o de mixagem de som). A impressão que se tem quando se assiste ao filme é que seu jovem diretor quis falar diretamente a seu público-alvo, dar-lhes, durante o tempo de uma sessão de cinema, a felicidade e o orgulho de pertencer a esse grupo de gente tantas vezes mal compreendida: os músicos profissionais. E, a julgar pelo entusiasmo geral, foi feliz em sua missão.
Em meio a tantos filmes dispendiosos e festejados, mas ocos de emoção e espírito, "Whiplash" foi um sopro de vida e inspiração. Nenhuma de suas indicações ao Oscar foi injusta - e seus prêmios foram amplamente merecidos. É um pequeno grande filme, capaz de emocionar e empolgar a plateia, tendo como armas basicamente o talento de seus intérpretes e a paixão de seus personagens. Um filme já clássico.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Montagem, Mixagem de Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simmons)
É difícil não lembrar da velha frase de Thomas Edison que diz que "talento é 1% inspiração e 99% transpiração" quando se assiste a "Whiplash, em busca da perfeição", o extraordinário filme que colocou o pirralho (fez apenas 31 anos agora em janeiro de 2016) Damien Chazelle no mapa de Hollywood ao conquistar cinco indicações ao Oscar, inclusive melhor filme e roteiro adaptado: ao comer o pão que seu professor de música amassou para provar seu talento como baterista, o protagonista vivido por Miles Teller - uma promessa que enfileirou um filme atrás do outro em menos de dois anos - mostra a realidade de uma parcela imensa de jovens (ou nem tão jovens assim) talentosos que buscam seu lugar ao sol na música sem ter o devido reconhecimento. Não é à toa que o filme começou a ser aplaudido vigorosamente por seu público-alvo - que viu nele uma espécie de merecida e carinhosa homenagem a todos aqueles que tem pela música (ou pela arte em geral, vá lá) uma paixão que transcende qualquer vaidade - e acabou por conquistar o mundo inteiro e até a Academia, que acabou lhe concedendo três estatuetas douradas.
Essa paixão/obsessão/tesão pela música é o mote de "Whiplash", e o que move seu protagonista, o jovem Andrew Nieman (interpretado com garra por Teller, antes visto em "Divergente" e no independente "O maravilhoso agora") a enfrentar todas as dificuldades que aparecem à sua frente para se tornar o grande baterista de jazz que almeja ser. A maior delas surge na figura de Terence Fletcher (J. K. Simmons), um professor tão respeitado quanto rígido que é o líder da banda do conservatório de música onde o rapaz estuda. Escolhido pelo temido mestre, Andrew passa a sofrer com seus métodos de intimidação e humilhação, mas seu amor pelo que faz o mantém disposto até mesmo a abrir mão de sua vida pessoal com a namorada Nicole (Melissa Benoist). Sua relação com Terence, portanto, acaba por ser a mais importante de sua vida, mesmo quando todos os limites são ultrapassados e a dedicação do veterano músico revela-se quase uma psicopatia.
A história engendrada por Chazelle - que, sem financiamento dirigiu um curta que serviu de inspiração para seu elogiado filme - não é exatamente original, uma vez que não hesita em utilizar-se dos mais variados clichês para atingir a plateia, mas o faz com tanta pureza e tanto amor (pelos personagens, pela trama, pela música em si) que é impossível não envolver-se com tudo. A relação entre Andrew e Fletcher (a grande chance de J.K. Simmons, um rosto conhecidíssimo do público e que acabou levando um merecidíssimo Oscar de ator coadjuvante) é hipnotizante e rende ao filme seus melhores momentos e a climática sequência final, de nove minutos de duração magistralmente editados é capaz de arrepiar a todos aqueles que tem a música na alma e no coração (não à toa, o Oscar de montagem também foi conquistado, assim como o de mixagem de som). A impressão que se tem quando se assiste ao filme é que seu jovem diretor quis falar diretamente a seu público-alvo, dar-lhes, durante o tempo de uma sessão de cinema, a felicidade e o orgulho de pertencer a esse grupo de gente tantas vezes mal compreendida: os músicos profissionais. E, a julgar pelo entusiasmo geral, foi feliz em sua missão.
Em meio a tantos filmes dispendiosos e festejados, mas ocos de emoção e espírito, "Whiplash" foi um sopro de vida e inspiração. Nenhuma de suas indicações ao Oscar foi injusta - e seus prêmios foram amplamente merecidos. É um pequeno grande filme, capaz de emocionar e empolgar a plateia, tendo como armas basicamente o talento de seus intérpretes e a paixão de seus personagens. Um filme já clássico.
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