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quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

segunda-feira

O INCRÍVEL HULK


O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08

Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.

A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.

 

Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.

"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.

terça-feira

HOMEM DE FERRO


HOMEM DE FERRO (Iron Man, 2008, Paramount Pictures/Marvel Studios, 125min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: Ramin Djawadi. Figurino: Rebecca Bentjen, Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: J. Michel Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Avi Arad, Peter Billingsley, Louis D''Esposito, Ross Fanger, Jon Favreau, Stan Lee, David Maisel. Produção: Avi Arad, Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jon Favreau, Paul Bettany, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Samuel L. Jackson. Estreia: 14/4/2008 (Sydney)

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Efeitos Visuais

No mundo do cinema, assim como na vida, há males que vem pra bem. Se tivesse sido realizado lá em 1990, quando surgiram as primeiras notícias a respeito, um filme estrelado pelo Homem de Ferro provavelmente não repetiria o sucesso de "Batman" (1989), dirigido por Tim Burton. Primeiro porque o super-herói da Marvel não tinha o mesmo impacto do homem morcego, e segundo - e mais importante - seu intérprete ideal ainda não estava pronto para o desafio. No começo da década de 1990, Robert Downey Jr. tateava em busca de uma personalidade artística própria e estrelava desde comédias românticas inócuas - como "O céu se enganou" (1989) - até filmes de ação pouco inspirados - a exemplo de "Air America: loucos pelo perigo" (1990), ao lado de Mel Gibson. Na década seguinte, conheceria a glória do prestígio - com uma indicação ao Oscar de melhor ator, por "Chaplin" (1992), e o início de um período em que quase sucumbiu às drogas. Foi somente depois de provar que seu talento estava intacto apesar dos altos e baixos que Downey Jr. finalmente encontrou o papel de sua vida: depois de ver o ator na comédia policial "Beijos e tiros" (2005), o ator/diretor Jon Favreau, escolhido para finalmente tocar adiante o projeto estrelado pelo multimilionário Tony Stark, encontrou nele o intérprete ideal. Era 2007, e a carreira de Downey Jr. nunca mais seria a mesma - assim como a história da Marvel no cinema.

Primeiro filme totalmente financiado da Marvel Studios - e o primeiro de um acordo com a Paramount Pictures - e rodado a um custo estimado de 140 milhões de dólares, "Homem de ferro" foi beneficiado pelo destino. Tivesse realmente sido produzido pela Universal Pictures em 1990, teria sido dirigido por Stuart Gordon, não exatamente um cineasta acostumado a grandes produções. Se mais tarde, em 1996, quando a 20th Century Fox assumiu o projeto, ele tivesse ido adiante, a presença de Nicolas Cage no papel principal poderia tanto ser um pró (ele recém havia recebido um Oscar por "Despedida em Las Vegas" e "A rocha" era um sucesso prestes a acontecer) quanto um contra (não demoraria para que Cage se tornasse um ator de apelo duvidoso nas bilheterias). Dois anos depois, foi a vez de Tom Cruise demonstrar interesse no personagem, mas novamente nada aconteceu. Em 1999, para a feliz ilusão dos cinéfilos, ninguém menos que Quentin Tarantino se viu envolvido na concepção de um roteiro e em um possível contrato como diretor, mas em seguida os direitos foram transferidos para a New Line Cinema e, com eles tal possibilidade. Joss Whedon, fã do personagem e diretor de episódios de séries de televisão, como "Buffy: a caça-vampiros", chegou perto de finalmente dar uma cara a Stark e companhia - mas só se uniria de vez ao universo Marvel com "Os vingadores" (2012). A última tentativa da New Line em levar "Homem de ferro" adiante foi com Nick Cassavetes - conhecido por dramas como "Loucos de amor" (1998) e "Diário de uma paixão" (2004), porém foi somente com a retomada da Marvel que as coisas finalmente aconteceram.

 

De posse dos direitos do personagem, a Marvel percebeu que, a menos que ela mesma tomasse as rédeas, seu tão estimado projeto jamais veria a luz dos refletores. Foi assim que Jon Favreau - mais conhecido como ator - ganhou sua tão sonhada chance de assumir o comando do filme: escalado para dirigir "Capitão América: o primeiro vingador" (que só chegaria às telas em 2011), Favreau optou por contar a história do multimilionário Tony Stark em direção à glória como o aclamado Homem de Ferro, e levou o desafio a sério. Com a Industrial Light & Magic contratada para supervisionar os efeitos visuais (acabou sendo o último trabalho do mestre Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria) e vários escritores das revistas do personagem chamados para evitar discrepâncias em relação a suas origens, Favreau acertou em mesclar um tom mais sério a uma atmosfera leve e atualizar a história. Nos quadrinhos, Stark se torna o Homem de Ferro durante sua participação na Guerra do Vietnã, mas o roteiro do filme fez uma alteração crucial para uma maior comunicação com as plateias do século XXI, e transferiu parte da ação para o Afeganistão. Acertando em cheio em aproximar protagonista e público, Favreau teve ainda mais sorte em contar com Downey Jr. na pele de Tony Stark, um milionário filantropo, mulherengo, amante de aventuras e inventor - baseado no empresário Howard Hughes - que, depois de escapar por pouco de ser morto por um grupo terrorista, passa a se dedicar a aprimorar sua armadura de Homem de Ferro com o objetivo de lutar contra o mal.

Downey Jr. - que recebeu módicos 500 mil dólares por seu trabalho, menos inclusive do quanto foi pago a Terrence Howard, seu colega de elenco - é o corpo e a alma de "Homem de ferro". Mesmo ao lado de nomes fortes como Jeff Bridges, ele conduz o ritmo e o tom quase debochado do filme, conquistando o público sem fazer muito esforço. Clive Owen e Hugh Jackman - que chegaram a ser cogitados para o papel - podem ser excelentes atores, mas Downey nasceu para viver o Homem de Ferro, segundo palavras de seu próprio criador, Stan Lee. Seu talento não apenas para dar vida ao personagem, mas também para improvisar boa parte de suas falas durante as filmagens - para desespero do ortodoxo Bridges e da premiada Gwyneth Paltrow, que interpreta Pepper Potts, secretária e interesse romântico do herói - justifica o sucesso do filme junto à crítica e às mais exigentes plateias. O roteiro pode não apresentar nada de novo (em especial aos fãs dos quadrinhos) e os efeitos visuais não chegam a surpreender, mas o desempenho do ator, que teve sua carreira retomada com gás total, é motivo mais que suficiente para que até mesmo o espectador menos interessado no gênero dê uma conferida. É entretenimento de primeira, e o pontapé inicial da vitoriosa criação do Universo Cinematográfico Marvel!

segunda-feira

NA MIRA DO CHEFE


NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, 2008, Focus Features/Film4/Blueprint Pictures, 107min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Anna Lynch-Robinson, Hendrick Moonen. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent; Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Ciarán Hinds, Zeljko Ivanek, Jéremie Renier. Estreia: 17/01/2008 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Colin Farrell  

Quando "Três anúncios para um crime" tornou-se um dos maiores destaques da temporada 2017/2018, o público viu-se diante de uma produção rara, onde personagens complexos (e um tanto excêntricos) serviam à uma trama bem escrita e com atores inspirados dirigidos com segurança e sensibilidade - a ponto de dois deles, Frances McDormand e Sam Rockwell, saírem da cerimônia do Oscar com suas estatuetas. O que grande parte desse público deslumbrado não sabia é que o estilo do diretor/roteirista Martin McDonagh já não era segredo nem aos cinéfilos mais antenados e nem mesmo à própria Academia: lançado no Festival de Sundance de 2008, a comédia policial "Na mira do chefe" foi festejada pela crítica a ponto de receber uma solitária - mas importante - indicação ao Oscar de roteiro original (onde foi derrotado pelo bem mais badalado "Milk: a voz da igualdade") e um Golden Globe de melhor ator em comédia/musical para Colin Farrell. Foram lembranças merecidas, que se juntaram ao BAFTA de melhor roteiro original e várias outras láureas, de críticos norte-americanos (Detroit, Boston, Florida, Nova York), estrangeiros (Itália e Rússia) e do prestigiado National Board of Review - que incluiu o filme entre as dez melhores produções independentes do ano.

"Na mira do chefe" é, a princípio, um filme policial: seus protagonistas, Ray (Colin Farrell) e Ken (Brandon Gleeson) são dois matadores de aluguel que, seguindo ordens de seu chefe, são mandados para uma pequena cidade belga chamada Bruges. Lá, eles devem esperar por um novo contato com instruções. Enquanto Ken segue os conselhos de seu patrão e tenta se divertir com os pontos turísticos e culturais do local, Ray não consegue deixar de lado as lembranças de uma missão que acabou tragicamente. Nem mesmo o encontro com Chloe (Clémence Poésy), parte da equipe de um filme que está sento realizado na cidade, muda o clima de depressão do jovem assassino. As coisas ficam ainda piores quando, irritado com a demora de Ken cumprir suas ordens, seu superior, Harry (Ralph Fiennes), também chega a Bruges para resolver de vez a questão - e descobre que as coisas não serão assim tão fáceis.


 O que afasta "Na mira do chefe" dos filmes policiais comuns é seu senso de humor particular. Não interessa a McDonagh um ritmo alucinado, com piadas em série sendo jogadas no rosto do espectador enquanto dezenas de pessoas são feridas e mortas e explosões ocorrem a cada esquina. Sua visão de comédia é mais centrada em ironias, em acontecimentos surreais, em personagens contraditórios. É assim que seus protagonistas, apesar de assassinos de aluguel, são humanos e despertam a simpatia do público. É assim também que um astro de cinema anão se torna peça fundamental no desenlace da trama. E, finalmente, é sem seus diálogos frescos e inteligentes que se encontra o maior tesouro de seu filme: se utilizando de elementos clássicos de gêneros consagrados, McDonagh os funde de forma a criar um novo estilo, que conversa brilhantemente com a filmografia de outros cineastas contemporâneos (em um primeiro olhar, os irmãos Coen e Quentin Tarantino parecem referências óbvias). Em seu filme seguinte, "Sete psicopatas e um shih tzu"(2012), o cineasta iria ainda mais longe em suas tentativas de borrar as linhas entre gêneros - e mais uma vez ficaria restrito à parcela mais alternativa do público.

Por fim, é impossível falar em "Na mira do chefe" sem louvar seu maior acerto: a escalação de elenco. Se Brandon Gleeson surpreende com um personagem que contraria seu tipo físico - e se mostra tão frágil quanto possível em momentos cruciais -, o trabalho de Colin Farrell é precioso. Mais uma vez demonstrando que é um dos mais subestimados atores de sua geração, Farrell constrói um Ray repleto de camadas, todas plenamente críveis e tratadas com sensibilidade ímpar. O ator irlandês - que surgiu como galã e aos poucos foi demonstrando um talento raro - faz rir e emociona com um personagem que, em mãos erradas, poderia facilmente se transformar em alguém patético ou detestável. Sob o domínio de Farrell, o angustiado Ray encontra o intérprete ideal, capaz de cativar a audiência com suas expressões de cão sem dono mesmo com um histórico profissional pouco recomendável. A química entre Gleeson e Farrell é impecável - e a presença de Ralph Fiennes no terço final do filme apenas a valoriza ainda mais. "Na mira do chefe" é uma produção repleta de qualidades memoráveis. É, sem espaço para qualquer dúvida, um dos filmes que merecem ser descobertos e amados.

sexta-feira

O CASAMENTO DE RACHEL

O CASAMENTO DE RACHEL (Rachel getting married, 2008, Sony Pictures Classic, 110min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Jenny Lumet. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tim Squyres. Música: Donald Harrison Jr., Zafer Tawil. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Chryss Hionis. Produção executiva: Carol Cuddy, Ilona Herzberg. Produção: Neda Armian, Jonathan Demme, Marc Platt. Elenco: Anne Hathaway, Debra Winger, Rosemarie De Witt, Anisa George, Mather Zickel, Tunde Adebimpe, Bill Irwinn, Anna Deavere Smith, Sebastian Stan. Estreia: 01/9/08 (Festival de Veneza)

 Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Anne Hathaway)

Quando Jonathan Demme começou a chamar a atenção do público, na segunda metade da década de 1980, ele se destacava por comédias amalucadas com personagens femininas fortes - "Totalmente selvagem" (1986), com Melanie Griffith, e "De caso com a máfia" (1988), com Michelle Pfeiffer, tornaram-se cult movies principalmente por suas atrizes principais. Depois, em uma nova fase, ele abraçou o cinema comercial (pero no mucho) com filmes vencedores do Oscar - "O silêncio dos inocentes" (1991), vencedor das cinco principais estatuetas da Academia, e "Filadélfia" (1993), que deu o primeiro troféu a Tom Hanks e premiou Bruce Springsteen por sua bela "Streets of Philadelphia". Mais tarde, depois do fracasso do ambicioso "Bem-amada", estrelado por Oprah Winfrey em 1998, dedicou-a remakes: "O segredo de Charlie" (2002), tinha Mark Wahlberg e Thandie Newton, e "Sob o domínio do mal" (2004) foi estrelado por Denzel Washington e Meryl Streep, mas nenhum fez barulho nas bilheterias e junto aos críticos. Foi assim, como um cineasta já acostumado aos altos e baixos da profissão e que buscava conforto dirigindo documentários e videoclipes, que Demme voltou aos holofotes. Realizado de forma independente e emprestando seu visual dos documentários, "O casamento de Rachel" estreou no Festival de Veneza de 2008 - e, de cara, chamou a atenção para a qualidade que seria seu maior trunfo nas cerimônias de premiação da temporada: o desempenho excepcional de sua protagonista, Anne Hathaway.

Uma atriz então em ascensão, com papéis tanto em dramas premiados como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) quanto em sucessos de bilheteria como "O diabo veste Prada" (2006), a jovem Hathaway (que levaria o Oscar de coadjuvante pela versão cinematográfica do musical "Os miseráveis", de 2012) foi a escolha perfeita para viver a conturbada e complexa protagonista do filme de Demme, uma mulher não exatamente admirável, mas tão repleta de nuances que somente uma atriz com seu talento conseguiria segurar sem apelar para os clichês que se poderia esperar. Tudo bem que o roteiro de Jenny Lumet - filha do veterano cineasta Sidney Lumet - foge completamente de qualquer emoção mais fácil, mas é a união da direção de Jonathan e da atuação de Hathaway que dá a estrutura da narrativa. Filmado com uma câmera na mão e contando apenas com uma trilha sonora diagética (originada apenas pelos sons dentro da ação), "O casamento de Rachel" se equilibra com cuidado entre um drama familiar e o registro de uma cerimônia que tem espaço para reconciliações, brigas, lavagem de roupa suja e, para salvação de todos, demonstrações de amor profundo e apaixonado. Tudo regado a vários gêneros musicais (inclusive com a participação de uma escola de samba) e interpretações precisas - e conta-se aí o retorno da ótima Debra Winger, no papel,  secundário mas crucial, da mãe da personagem central.


Kym Buchman, a protagonista, acaba de ser liberada provisoriamente de sua reabilitação para o casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie De Witt). Ausente de casa há nove meses, e frequentadora habitual da clínica de onde está saindo, Kym não é exatamente uma pessoa confiável, o que fica claro com a constante vigilância de seu pai, Paul (Bill Irwin) e com o clima de tensão que seu retorno ao lar provoca em todos. A relação entre Kym e Rachel é de carinho, mas não demora para que a noiva passe a sentir-se incomodada com a presença de sua irmã mais nova - especialmente quando Kym começa a dar sinais de que pretende aproveitar a festa para tentar remendar alguns de seus erros do passado, o que inclui um acidente fatal que ainda não está superado pela família. Envolvida também em uma relação casual com um dos padrinhos do noivo, Kieran (Mather Zickel), a quem conheceu em uma reunião de Alcóolicos Anônimos, Kym está sempre a um passo de uma recaída - ou, pior ainda, de uma tentativa desesperada de provar-se uma mulher mais segura e confiante para todos os convidados do casamento, incluindo a desconhecida família do noivo.

Ainda que tenha recuperado parte do prestígio do diretor, "O casamento de Rachel" nem de longe chega a lembrar a genialidade demonstrada em seus filmes mais populares - principalmente o inesquecível "O silêncio dos inocentes". Seu filme acerta em não fazer de Kym uma heroína chorosa ou vítima - ainda que isso faça dela um tanto irritante, também a torna muito mais crível. Anne Hathaway deita e rola com as oportunidades do papel (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), e enfrenta com segurança a série de desafios que o roteiro lhe apresenta, incluindo um embate violento com sua mãe e uma sessão de lembranças que traz à tona (mais uma vez) a tragédia causada por ela na adolescência. Os personagens de Lumet são realistas, humanos e passíveis de erros, e é exatamente por isso que "O casamento de Rachel" consegue ser tão incômodo e quase desagradável em alguns momentos. A delicadeza com que Demme trata a produção, no entanto, evita o melodrama barato e a aproxima mais da filmografia de Robert Altman - grande referência do diretor durante as filmagens. Simples no visual e complexo nos sentimentos, "O casamento de Rachel" não é recomendado para quem busca entretenimento puro - mas pode conquistar àqueles que procuram uma consistência dramática cada vez mais rara no cinemão norte-americano.

segunda-feira

W.

W. (W., 2008, Lionsgate, 129min) Direção: Oliver Stone. Stanley Weiser. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Alexis Chavez, Joe Hutsching, Julie Monroe. Música: Paul Cantelon. Figurino: Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Mel Cooper. Produção executiva: Teresa Cheung, Elliot Ferwerda, Peter Graves, Johnny Honn, Christopher Mapp, Tom Ortenberg, Thomas Stertchi, Matthew Street, David Whealey, Albert Yeung. Produção: Bill Block, Moritz Borman, Paul Hanson, Eric Kopeloff. Elenco: Josh Brolin, James Cromwell, Richard Dreyfuss, Elizabeth Banks, Ellen Burstyn, Scott Glenn, Jeffrey Wright, Thandie Newton, Toby Jones, Jason Ritter, Noah Whyle, Ioan Gruffudd, Jesse Bradford. Elenco: 16/8/08 (Festival de Austin)


Levando-se em conta as simpatias democratas de Oliver Stone e sua falta de meias-palavras quando o assunto é política, não deixa de ser surpreendente o quanto “W.”, sua cinebiografia do presidente norte-americano George W. Bush, é relativamente suave e quase benevolente em relação ao protagonista. Tudo bem que o próprio cineasta já havia relutado em contar sua trajetória tão prematuramente – em 2004 ele mesmo declarou que ainda era muito cedo para perspectivas históricas sobre o então candidato à reeleição -, mas nada fazia prever que seu filme fugiria de maiores polêmicas, principalmente quando se trata do autor de obras tão inflamáveis quanto “JFK” (91) e “Assassinos por natureza” (94), que despertaram furor na crítica e no público. Contado de forma a não utilizar os artifícios narrativos comuns à filmografia de Stone, “W.” é uma biografia convencional, acadêmica e, por vezes, bastante tediosa. Nem de longe lembra os melhores momentos do diretor – ainda que conte com uma atuação surpreendente de Josh Brolin no papel central.

Substituindo Christian Bale – que abandonou o projeto pouco antes do começo das filmagens -, Brolin aproveitou-se de uma ótima fase de sua então renascida carreira para ser escolhido por Stone para viver Bush. Vindo dos sucessos de crítica “O gânster” e “Onde os fracos não tem vez” (ambos de 2007), o outrora astro juvenil demonstra segurança ímpar em dar vida a um personagem ambíguo, complexo e pouco carismático, mas que assumiu importância absoluta no comando dos EUA por dois mandatos consecutivos – e protagonizou algumas das passagens mais sombrias da história do país, como o atentado às Torres Gêmeas e a guerra a Saddam Hussein. Não necessariamente parecido fisicamente com Bush, o ator incorpora o personagem em sotaque, expressão corporal e maneirismos sutis – e brilha sempre que o roteiro lhe permite. Tem mais sorte que o restante do (vasto e conhecido) elenco, que parece estar em cena apenas como meros figurantes: apenas James Cromwell como George Bush pai tem chances de mostrar serviço, enquanto nomes como Ellen Burstyn (como Barbara Bush), Thandie Newton (Condoleeza Rice) e Richard Dreyfuss (o vice-presidente Dick Cheney) soam perdidos em meio à edição vai-e-volta (único resquício do velho Oliver Stone): Dreyfuss, inclusive, teve sérios problemas com o cineasta e nenhum deles parece disposto a repetir a parceria – talvez a primeira opção para o papel, Robert Duvall, fosse menos complicada para a produção.



Se em “Nixon” (95) o foco de Oliver Stone foi, como se poderia esperar, o escândalo Watergate (que servia como ponto de convergência para uma narrativa fora de ordem cronológica), em “W.” o cineasta escolhe como ponto de partida a crise estabelecida pelo trauma pós-11 de setembro, quando Bush se vê obrigado a lidar com a ameaça terrorista em pleno solo pátrio – e responder à altura de um líder de sua importância. O presidente precisa tomar a atitude certa, não apenas para demonstrar seu controle sobre a situação, mas também para conquistar o que mais lhe importa na vida: o aplauso de seu próprio pai. É essa odisseia de Bush – a busca pela aprovação e respeito paterno – a base do roteiro de Stanley Weiser: mais do que esmiuçar os bastidores da política americana, o filme de Oliver Stone investiga (sem maior profundidade, mas com respeito e sensibilidade quase inesperadas) a carência de seu protagonista e sua necessidade quase doentia de provar-se capaz aos olhos do pai. Por ele, o jovem Bush é capaz de abandonar a vida no Texas e partir rumo a Washington com a esposa, Laura (Elizabeth Banks), para ajudar em sua campanha para presidente – mas nem ele é motivo suficiente para demover o ambicioso político a desistir da candidatura a governador, alguns anos mais tarde. Essa dubiedade entre a vontade de agradar ao pai e a ambição de ascender ao poder é um dos pontos mais interessantes da trama, e é sublinhada por algumas belas tomadas de Bush flertando com seu sonho de tornar-se jogador de beisebol. Infelizmente o roteiro não se aprofunda nessa questão e nem tampouco em sua relação com Jeb (Jason Ritter), seu irmão caçula e principal responsável por sua imagem quase patética diante do pai. Quando juntos em cena, Josh Brolin e James Cromwell estão impecáveis, mas Stone perde a oportunidade de explorar com mais ênfase a relação entre os dois, sugerindo bem mais do que mostrando.

É impossível negar que “W.” é um produto com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer: da fotografia inspirada de Phedon Papamichael à trilha sonora de Paul Cantelon, tudo funciona como deveria, todas as peças estão no devido lugar. O problema, para choque de todos, é justamente o que poderia ser maior trunfo: a direção de Oliver Stone. A quilômetros de distância de seus momentos mais provocativos, Stone parece estar no piloto automático, sem a contundência habitual ou até mesmo a ferocidade em questionar uma das personalidades mais controversas de sua geração. Não à toa, o filme passou em brancas nuvens tanto nas bilheterias quanto nas cerimônias de premiação, uma situação pouco comum na carreira do cineasta. Fica a impressão de um filme que tinha tudo para marcar época, mas que teve medo de explorar todas a sua potencialidade. Ainda que não seja ruim, é muito pouco perto do talento de seu realizador.

terça-feira

SEM SAÍDA

SEM SAÍDA (Eden Lake, 2008, Rollercoaster Films/Aramid Entertainment, 91min) Direção e roteiro: James Watkins. Fotografia: Christopher Ross. Montagem: Jon Harris. Música: David Julyan. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Simon Bowles/Lisa Chugg. Produção executiva: Conor McCaughan. Produção: Christian Colson, Richard Holmes. Elenco: Kelly Reilly, Michael Fassbender, Jack O'Connell, Finn Atkins, Jumayn Hunter, Thomas Turgoose. Estreia: 12/8/08 

Em 2008 o ator alemão Michael Fassbender ainda não tinha o prestígio que viria a acumular alguns anos mais tarde em Hollywood, dividindo sua carreira entre blockbusters ("Prometheus" e a série de filmes "X-Men") e produções incensadas pela crítica e que lhe dariam indicações ao Oscar ("12 anos de escravidão" e "Steve Jobs"). No entanto, basta um pouco de atenção para perceber que, mesmo em filmes menores, de gênero e orçamento barato, ele já demonstrava grande talento. "Sem saída", uma obra despretensiosa, rodada na Inglaterra e sem grandes astros no elenco, é um dos mais aterradores filmes de suspense de sua época. Com nítida inspiração em clássicos como "Amargo pesadelo" (72) e "O massacre da serra elétrica" (73), o roteirista e diretor James Watkins transforma em realidade - ao menos nas telas - os mais angustiantes terrores da plateia, sem poupar sangue, violência e muita tensão.

Como é tradicional em filmes do estilo, tudo começa na maior tranquilidade, com a beleza da natureza como moldura e um belo casal de namorados apaixonados em busca de um fim-de-semana de paz e amor. A professora primária Jenny (Kelly Reilly) aceita o pedido de seu amado, Steve (Michael Fassbender), de conhecer um lago afastado, frequentado por ele na adolescência e que está em vias de ser limitado à visitação pela construção de um condomínio de luxo. Steve, na verdade, tem a intenção de pedir a mão da jovem em casamento, mas antes mesmo que ele tenha a oportunidade de tocar no assunto, um grupo de adolescentes pouco amigáveis cruza seu caminho: a princípio apenas inconvenientes, eles batem de frente com Steve, que, ao defender a namorada imediatamente se torna inimigo do bando. Depois de um trágico confronto,os arruaceiros - filhos conhecidos de moradores dos arredores e liderados pelo delinquente Brett (Jack O'Connell) - passam a aterrorizar os namorados, que, cercados por uma extrema violência, passam a lutar pela sobrevivência dentro de uma densa e isolada floresta.


Construindo o suspense com inteligência e parcimônia, Watkins mergulha a plateia em um universo onde, aos poucos, a única regra é sobreviver. Desprovidos de quaisquer ferramentas que possam lhes ajudar a escapar de uma situação banal transformada em um surreal pesadelo, Steve e Jenny conquistam a simpatia do público justamente por serem vítimas inocentes de um jogo cruel e gratuito, que chega aos limites do horror físico. Sem poupar cenas explícitas e sanguinolentas, o diretor embarca em uma trilha de sadismo de dar inveja a qualquer filme B - com a diferença crucial de que ele sabe como contar uma história e utilizar tais elementos agoniantes apenas como instrumentos para isso e não os elegendo como ponto principal da trama. Para isso, ele conta com a presença de ótimos atores nos papéis centrais, ao contrário da regra geral que sempre conta com um elenco de canastrões para ilustrar sequências de banhos de sangue irresponsáveis.

Com um subtexto extremamente relevante - como a criação paterna pode levar os filhos a estados do mais absoluto desrespeito pelos outros seres humanos - e um roteiro conciso, James Watkins (que alguns anos depois comandaria "A mulher de preto", com Daniel Radcliffe, com economia muito maior de sangue e violência) assina um trabalho digno de figurar entre os grandes de seu gênero. Michael Fassbender demonstra com seu Steve aquilo que todo mundo logo saberia - ele é um ator de grandes recursos, capaz de passar de um homem romântico a um homem disposto a tudo para defender a mulher que ama (apenas para tornar-se uma presa fácil de quem não tem nada a perder). Jack O'Connell, que seria revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), transmite com intensidade a fúria animal e quase irracional de seu Brett (com direito a uma última cena arrepiante). E à Kelly Reilly cabe a mais desafiadora parte do conjunto: ultrapassar os limites de sua personagem quase clichê (a mulher que precisa defender-se sozinha das ameaças à sua vida) e fazer dela alguém com quem o público realmente se importe. Não apenas ela consegue isso como torna o desfecho da história algo ainda mais surpreendente e chocante. Com um trio de protagonistas como esse, cenas de arrepiar (que podem incomodar aos mais sensíveis) e um roteiro que segue as regras mas consegue fazê-las parecerem novas em folha, "Sem saída" é uma gratíssima surpresa. Imperdível para quem gosta de sofrer no conforto de casa.

MARLEY E EU

MARLEY E EU (Marley & Me, 2008, Fox 2000 Pictures, 115min) Direção: David Frankel. Roteiro: Scott Frank, Don Roos, livro de John Grogan. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Joe Caracciolo Jr., Arnon Milchan, Ani Williams. Produção: Gil Netter, Karen Rosenfelt. Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Eric Dane, Kathleen Turner, Alan Arkin, Nathan Gamble, Haley Bennett, Ann Dowd. Estreia: 25/12/08
 
Quando compraram os direitos de adaptação para o cinema do livro "Marley e eu", do jornalista John Grogan, os executivos da Fox 2000 Pictures sabiam que tinham em mão um potencial sucesso: com mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas nos EUA, a história da relação entre uma família e seu cão labrador por 13 anos já havia encharcado lenços de papel também pelo mundo, com uma prosa leve e emocional que atingia em cheio o coração de todos aqueles apaixonados por animais. Quando o filme finalmente estreou, no Natal de 2008, ninguém se surpreendeu com a bilheteria animadora de mais de 140 milhões de dólares no mercado doméstico (e outros 100 milhões no mercado externo). Não era pra menos: com uma história que fala direto aos sentimentos, uma mistura certeira de humor e drama, um diretor acostumado a agradar ao público médio (David Frankel, de "O diabo veste Prada") e um elenco liderado por nomes conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston, o êxito era, mais do que esperado, praticamente certo. Tudo bem que o filme não é uma obra-prima (é longo demais, por vezes soa repetitivo e chega no limite do piegas), mas merece ser aplaudido por suas qualidades: é simpático, agradável e - milagre dos milagres! - consegue conquistar todas as fatias de público sem precisar apelar para efeitos especiais milionários ou super-heróis invencíveis. Ao falar de gente como a gente - com sentimentos reais e vívidos - é um perfeito "filme-família", que faz sorrir e chorar na mesma medida (ou talvez chorar mais do que sorrir, em especial em seus últimos minutos).

Apesar de concentrar boa parte de sua narrativa na relação entre Marley, o labrador batizado em homenagem ao cantor jamaicano Bob Marley e adotado ainda pequeno, e seus donos, o roteiro de "Marley e eu" também detalha a história de amor entre seus pais humanos - o casal de jornalistas John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) - a partir de seu casamento. John sonha em seguir uma carreira de repórter sério, assim como seu melhor amigo, Sebastian (Eric Dane), mas o máximo que consegue é uma coluna no jornal onde trabalha, em que acaba se tornando popular justamente pelo tom leve e descompromissado de suas crônicas - grande parte delas citando as aventuras e desventuras de seu cão de estimação, um companheiro leal mas pouco afeito a regras de convivência tais como não comer tudo que encontra pela frente (de livros a aparelhos eletrônicos) ou pular em cima de estranhos. Jenny não tem tantas ambições profissionais quanto domésticas, e resolve cuidar apenas da família quando começa a ter os filhos que sempre sonhou - e depois de um traumático aborto espontâneo. Conforme a família vai crescendo, Marley vai se tornando parte cada vez mais indissociável do clã - para o bem e para o mal, já que seus hábitos pouco comuns tanto encantam quanto enlouquecem a todos.


Por dois terços de narrativa, "Marley e eu" mantém seu tom ameno e divertido de crônica familiar, com algum espaço para as crises no casamento entre John e Jenny - todas resolvidas em poucos minutos, de forma a não aprofundar um tema apenas secundário da trama. Quando a família Grogan sai da ensolarada Miami para a distante Filadélfia, porém, o tom começa lentamente a ficar mais sombrio. É aos poucos que Marley começa a dar sinais de cansaço, velhice e dor, o que aponta para um final previsível mas nem por isso menos melancólico. Essa transição entre gêneros é conduzida com sutileza por Frankel, que se aproveita de um roteiro sensível e bem-humorado (cortesia da dupla de veteranos Scott Frank e Don Roos) e do ótimo timing de seu casal de atores principais, que se desvencilha com facilidade das armadilhas dramáticas mesmo quando não resta muito a fazer exceto entregar-se à catarse final - orquestrada milimetricamente para levar qualquer um às lágrimas, mas felizmente executada com elegância e respeito. Qualquer um da plateia que tenha - ou tenha tido - um animal de estimação é tocado pela emoção pungente e verdadeira que emana da história, talvez justamente por ela ser real e honesta.

Essa honestidade que percorre todo o filme é que faz de "Marley e eu" uma produção tão bem-sucedida. Não há reviravoltas gigantescas ou sequências de humor inspiradíssimas, de fazer o público gargalhar: há somente a descrição da vida de uma família apaixonada uns pelos outros e por seu cachorro de estimação, e de como essa relação, construída através de anos de paciência e amor incondicional, é capaz de substituir qualquer ambição profissional ou financeira sem prejuízos  à busca pela felicidade. Uma narrativa simples - quase simplória - mas que funciona às mil maravilhas e faz lembrar de como o menos às vezes é mais quando se quer tocar o coração da plateia. É um filme que cumpre exatamente o que promete - e é irresistível justamente por isso!

domingo

A ONDA

A ONDA (Die welle, 2008, Rat Pack Filmproduktion, 107min) Direção: Dennis Gansel. Roteiro: Johnny Dawkins, Ron Birnbach, adaptação de Dennis Gansel, Peter Thorwarth, conto de William Ron Jones. Fotografia: Torsten Breuer. Montagem: Ueli Christen. Música: Heiko Maile. Figurino: Ivana Milos. Direção de arte/cenários: Knut Loewe/Tilman Lasch. Produção: Christian Becker. Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul. Estreia: 18/01/08 (Festival de Sundance)

Em abril de 1967, um professor de História chamado Ron Jones, conduziu uma experiência com seus alunos de Palo Alto, na Califórnia, tentando provar a eles que regimes ditatoriais como o nazismo poderiam tranquilamente encontrar espaço em qualquer sociedade democrática do pós-guerra. O trabalho acabou rendendo um romance escrito por Morton Rhue (pseudônimo de Todd Strasser) e uma adaptação para a televisão escrita por ele mesmo. Em 2007, o cineasta Dennis Gansel, cujo avô fez parte da juventude hitlerista, seduzido por suas promessas de proporcionar-lhe uma carreira artística, encontrou na narrativa de Jones o material ideal para um filme que demonstrasse, nas telas de cinema, sua ideologia contrária a qualquer tipo de fascismo. Nascia, então, "A onda", uma transposição honesta, forte e inquietante que estreou no Festival de Sundance de 2008 e, com um final mais impactante do que o livro e a história real, conquista o público com uma trama surpreendente e chocante.

O protagonista é Rainer Wenger (Jurgen Vogel), um carismático professor de história que, mesmo com planos de utilizar o conceito de anarquia para um projeto com seus alunos, acaba sendo obrigado pela direção a optar pelo seu exato oposto, a autocracia. Como forma de mostrar aos jovens que um regime autoritário não floresceu por acaso na Alemanha nazista, ele propõe a eles que formem um novo e rígido sistema político dentro da própria sala de aula, tendo-o como líder. A princípio tímidos e relutantes, aos poucos os estudantes começam a empolgar-se com a ideia, especialmente quando os mais introvertidos e problemático passam a experimentar o gostinho de pertencer a um grupo e os demais percebem a importância da união que surge entre eles. Porém, com o tempo, as coisas começam a sair do controle de Wenger: o uniforme obrigatório do grupo (batizado como "A onda") se transforma imediatamente em uma espécie de passaporte para um mundo com novas regras e leis, que exclui aqueles que não compartilham de seu pensamento, e, utilizando-se de seu logotipo como propaganda, alguns dos membros iniciam uma campanha para impor suas ideias. Sentindo que algo está muito errado, a jovem Karo (Jennifer Ulrich) - expulsa do grupo por não concordar com suas normas - tenta abrir os olhos do namorado, Marco (Max Riemelt), jogador de polo aquático que vê na turma de colegas o apoio que necessita para se tornar um atleta mais bem-sucedido.


Com um roteiro simples e direto, que vai envolvendo a plateia cada vez mais, conforme a experiência de Wenger vai saindo de seu controle, "A onda" é um filme alemão com um ritmo ágil e inteligente que dialoga muito mais com o cinema americano do que com produções europeias com pretensões artísticas. Apesar da questão cada vez mais relevante que apresenta para discussão, em nenhum momento o filme de Dennis Gansel se propõe a ser mais do que entretenimento acima de tudo. Para isso, não abre mão do suspense, do drama, de pitadas de romance e de um clímax arrebatador, que leva quase às últimas consequências a proposta inicial. Com uma direção correta, que não corre riscos desnecessários e conduz a narrativa de forma sóbria, "A onda" se apoia basicamente em sua empolgante premissa e em seus (bons) atores, Jurgen Vogel à frente: sem exagerar nas tintas de seu mestre apaixonado que vê seu experimento escapar de suas mãos de maneira trágica, Vogel não procura o brilho fácil, dividindo a atenção com um elenco de jovens intérpretes dotados de garra e carisma suficientes para manter o público ligado até as últimas cenas. Max Riemelt - que anos depois estaria no elenco da cultuada série "Sense 8" - é um dos destaques, como um rapaz dividido entre a fidelidade a seus colegas (e consequentemente à sua futura carreira no esporte) e a noção de que algo está muito errado nas regras propostas por seu líder.

Apresentando algumas sequências bastante interessantes visualmente - em especial no terço final, quando o diretor se utiliza do branco do uniforme do grupo para enfatizar a falta de individualidade dos personagens - e conduzido com discrição, "A onda" é um filme de suma importância nos tempos difíceis de obscurantismo e fascismo que vem tomando conta do mundo. Alertando para os perigos do totalitarismo, o belo trabalho de Dennis Gansel consegue aquilo que o bom cinema deveria conseguir sempre: entreter e fazer pensar, divertir e questionar. Pode suscitar muitas discussões e só por isso já deveria ser mais conhecido e louvado - mas além disso, é uma história interessante e bem contada, amparada por um roteiro sóbrio e um elenco esforçado. Imprescindível em qualquer momento histórico!

sábado

ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA

ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA (RocknRolla, 2008, Warner Bros/Dark Castle Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: David Higgs. Montagem: James Herbert. Música: Steve Isles. Figurino: Suzie Harman. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Debbie Moles. Produção executiva: Navid McIlhargey, Steve Richards. Produção: Steve Clark-Hall, Susan Downey, Guy Ritchie, Joel Silver. Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Idris Elba, Tom Hardy, Mark Strong, Karel Roden, Tobby Kebbell, Ludacris, Jimi Mistry. Estreia: 04/9/98 (Festival de Toronto)

Um grupo de marginais pés-de-chinelo. Um mafioso que manda e desmanda no mercado imobiliário de Londres. Um roqueiro viciado em drogas que odeia o padrasto. Uma contadora sexy disposta a qualquer coisa para subir na vida. Um empresário russo com planos de construir um estádio na capital inglesa. Um capanga leal e dedicado. E uma dupla de empresários musicais tentando evitar o fechamento de suas casas noturnas. Com esses personagens falastrões, excêntricos e propensos a equilibrar o cérebro e as armas, o cineasta Guy Ritchie voltou às graças da crítica, depois do fracasso sucessivo de "Destino insólito", de 2002 (estrelado pela então esposa Madonna) e "Revólver", de 2005, que tentou arrancar uma atuação decente de Jason Statham. "Rock'n'Rolla: A grande roubada" não apenas lhe devolveu o prestígio perdido como lhe deu cacife suficiente para comandar uma nova versão de "Sherlock Holmes" (2009), com um orçamento milionário e grandes astros - Robert Downey Jr. e Jude Law - no elenco. Voltando a explorar o submundo criminoso londrino que lhe deu fama em seu filme de estreia, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (99), Ritchie atinge um equilíbrio admirável entre diversos gêneros (ação, policial, comédia) e confirma um estilo marcante de fazer cinema, influenciado pelo tom quase histérico de Quentin Tarantino mas dono de identidade própria.

Como é normal em sua filmografia, a trama de "Rock'n'Rolla" é complexa e com uma profusão de personagens que exige da plateia atenção absoluta: o centro do enredo é Lenny Cole (Tom Wilkinson), que fez fortuna intermediando negociações, muitas vezes de forma ilegal. Protetor de um grupo de bandidos intitulado Quadrilha Selvagem - liderada pelo carismático One Two (Gérard Butler) - e padrasto do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell), Cole resolve ajudar o russo Uri Omovich (Karel Roden) a construir um estádio de futebol, utilizando, para isso, a influência de um vereador (Jimi Mistry) também chegado a uma propina. A partir daí, dois fatos independentes acabam por unir todos os personagens: o desaparecimento de um valioso quadro - emprestado por Uri à Cole e furtado por seu enteado - e o roubo dos sete milhões de euros destinados ao pagamento da construção do estádio. O roubo do dinheiro é responsabilidade de One Two e seus dois colegas mais fiéis - Mumbles (Idris Elba) e Bob (Tom Hardy) - e tem a cumplicidade da ambiciosa Stella (Thandie Newton), contadora e amante de Uri que acaba se deixando seduzir por One Two. Em volta de todas essas questões, existe também a dúvida dos integrantes da Quadrilha Selvagem a respeito de um informante que vem jogando seus integrantes na cadeia.


Recheando seu roteiro com diálogos espirituosos e situações surreais, Guy Ritchie oferece a seu público um desfile de sequências primorosas, editadas com inteligência e dotadas de um senso de humor admirável. A química entre Gérard Butler e Thandie Newton é explosiva, e a cena em que eles combinam seu segundo golpe em Uri é uma pérola de criatividade e tensão sexual. Tom Wilkinson mais uma vez demonstra porque é escolha certeira quando se trata de interpretar personagens arrogantes, e Tom Hardy rouba a cena na pele de um gângster homossexual apaixonado pelo melhor amigo e disposto a seduzir um advogado para descobrir quem lhe mandou para a cadeia - seu desempenho é tão incrível que foi a partir dele que Hardy cavou seu caminho em direção à glória do cinemão, sendo dirigido por Christopher Nolan em "A origem" (2010) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" (12). Dono de um humor singular, Ritchie não hesita em colocar na boca de seus personagens falas quase constrangedoras, mas que soam verossímeis e imprescindíveis ao desenvolvimento da complexa trama, que corre diante dos olhos do espectador com um ritmo alucinante e com um visual caprichado, que mostra sua evolução como cineasta. Brincando com os clichês do gênero ao mesmo tempo em que os reverencia, ele consegue resultado superior a outro de seus bem-sucedidos produtos, "Snatch: porcos e diamantes" (2001), estrelado por Brad Pitt e Benicio Del Toro.

"Rock'n'Rolla" é entretenimento de primeira, mas é bom que se avise que talvez sua trama exale testosterona demais para que seja apreciado pelo público feminino com o mesmo ardor do masculino. As piadas a um passo do preconceito, a grosseria incurável dos personagens e o excesso de palavrões podem afastar aos mais sensíveis, mas no fundo o filme de Guy Ritchie é uma grande brincadeira com os elementos do cinema policial - em especial dos anos 70. Extremamente à vontade como galã bagaceiro, Gérard Butler está em um de seus melhores desempenhos e sublinha com ironia e deboche todas as nuances da trama - que apesar da promessa da última cena, ainda não rendeu uma continuação. Infelizmente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...