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segunda-feira

ELA

ELA (Her, 2013, Annapurna Pictures, 126min) Direção e roteiro: Spike Jonze. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Jeff Buchanan, Eric Zumbrunnen. Música: Arcade Fire. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Chelsea Barnard, Natalie Farrey, Daniel Lupi. Produção: Megan Ellison, Spike Jonze, Vincent Landay. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher. Estreia: 12/10/13 (Festival de Nova York)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original

Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.

Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.


Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.

Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.

Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.

sexta-feira

TRÊS É DEMAIS

TRÊS É DEMAIS (Rushmore, 1998, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Rober Yeoman. Montagem: David Moritz. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Alexandra Reynolds-Wasco. Produção executiva: Wes Anderson, Owen Wilson. Produção: Barry Mandel, Paul Schif. Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassell, Brian Cox, Mason Gamble, Sara Tanaka, Stephen McCole, Connie Nielsen, Luke Wilson. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

Antes de tornar-se um dos cineastas norte-americanos mais louvados de sua geração, com produções cujos estilos visual e narrativo inconfundíveis fizeram a alegria da crítica e de uma legião de fãs fiéis, Wes Anderson passou um tempo restrito a um pequeno nicho de admiradores que descobriram, muito antes daqueles que fizeram de "O Grande Hotel Budapeste" um sucesso, sua maneira particular e inteligente de ver o mundo, sempre com uma dose única de ironia e carinho. Se hoje em dia seu primeiro trabalho, "Pura adrenalina" (96) é artigo raro e difícil de encontrar, seu segundo filme, "Três é demais" assumiu uma espécie de marco inicial de uma carreira de rara integridade em Hollywood. Mesmo vendida erroneamente como uma comédia romântica - talvez o maior motivo de seu fracasso comercial - a primeira colaboração entre Anderson e o ator Bill Murray (dentre muitas) escapa facilmente da classificação, mostrando logo de cara que não é fácil rotular uma obra do diretor.

Se é que é possível encaixar "Três é demais" em algum gênero, pode-se dizer que ele é uma comédia cínica, amarga e melancólica sobre a solidão e desajuste social. Jason Schwartzman (filho da atriz Talia Shire) tem uma estreia extraordinária como Max Fischer, um jovem bolsista da prestigiada escola preparatória Rushmore que, a despeito de sua extensa lista de atividades extra-curriculares, é um aluno medíocre e pouco respeitado - tanto pelos colegas quanto pelo diretor, Mr. Guggenheim (Brian Cox). Filho de um barbeiro (que ele divulga ser um neurocirurgião), Max é, no fundo, um rapaz de 15 anos que vive isolado em seu mundo particular, escrevendo peças de teatro e inventando maneiras de sobressair no universo escolar. Dois acontecimentos, porém, sacodem seu mundinho tedioso. Primeiro ele conhece e inicia uma estranha amizade com Herman Blume (o sensacional Bill Murray), um industrial milionário cujos filhos gêmeos estudam em Rushmore. Depois, se apaixona perdidamente por uma das professoras da escola, a tímida Rosemary Cross (Olivia Williams), que perdeu o marido e, apesar da diferença de idade entre eles, torna-se confidente do rapaz. As vidas dos três acabam se cruzando quando Blume - que vive um casamento frio e adúltero - também se apaixona por Rosemary e é correspondido, despertando em Max um até então desconhecido sentimento de vingança.


Construindo um roteiro caprichado, onde cada ação desperta uma reação inesperada mas crível, Wes Anderson desenvolve um trio de protagonistas dotados de personalidade e sensibilidade. Mesmo que Max Fischer seja pouco agradável com sua excentricidade por vezes enervante é difícil não simpatizar com seus dramas adultos em uma alma adolescente. Tal como a personagem de Reese Witherspoon em "Eleição", de Alexander Payne, Max tem como prioridade na vida ser alguém que ultrapasse a mediocridade que o cerca, mesmo que para isso abandone toda e qualquer ambição social e sentimental - o que muda com a chegada de Rosemary em sua vida e com sua amizade com Blume, que lhe trata com a admiração que não pode dar aos filhos pouco brilhantes. A entrada de Max na vida adulta através da decepção amorosa também é uma ideia primorosa, desenvolvida com fino humor e o senso estético que se tornaria uma das marcas registradas do diretor. Equilibrando seu roteiro com diálogos inteligentes e imagens milimetricamente calculadas, Anderson conduz o espectador a um mundo próprio, onde crianças são capazes de revanches cruéis, milionários de meia-idade disputam mulheres com adolescentes nerds e o final feliz não é exatamente cor-de-rosa ou otimista. Tendo como intérpretes atores do naipe do jovem Schwartzaman e do veterano Bill Murray, ele faz um gol de placa logo no início da carreira.

Em uma das maiores atuações de sua carreira - e injustamente esquecida pelo Oscar - Bill Murray está a um passo da perfeição na criação de seu Herman Blume, um homem cansado e desiludido que vê sua vida ganhar um novo ânimo quando se apaixona por uma mulher mais nova e tem a chance de ajudar na formação do caráter de um rapaz cuja alma - apesar de ser mais madura do que o normal - ainda é de um adolescente desajustado e infeliz. O triângulo amoroso formado pelos dois e pela professora vivida por Olivia Williams (talvez o único elo fraco de toda a corrente) não é dos mais românticos mostrados pelo cinema americano nos anos 90, mas é, com certeza, um dos mais interessantes e realistas, enfatizados pela criatividade e pelo talento de seu criador. Um belo filme a ser redescoberto e valorizado por seu humor sutil e delicadeza no trato das relações humanas.

sábado

ZODÍACO

ZODÍACO (Zodiac, 2007, Paramount Pictures/Warner Bros, 157min) Direção: David Fincher. Roteiro: James Vanderbilt, livro de Robert Graysmith. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Angus Wall. Música: David Shire. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Victor Zolfo. Produção executiva: Louis Phillips. Produção: Ceán Chaffin, Bradley J. Fischer, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, James Vanderbilt. Elenco: Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr., Mark Ruffalo, Chloe Sevigny, Brian Cox, Dermot Mulroney, John Carrol Lynch, Anthony Edwards, James Les Gros, Elias Koteas. Estreia: 02/3/07

Só mesmo um cineasta do porte e do talento de David Fincher para conseguir a façanha de prender a atenção do público em um filme de duas horas e meia de duração cujo final - ou falta de - é do conhecimento quase geral. Baseado na história real do assassino que atormentou a baía de San Francisco entre 1969 e o início dos anos 70, o diretor de "Seven, os sete crimes capitais" - outra obra-prima do gênero - criou um espetáculo cinematográfico do mais alto gabarito, que funciona emt todos os níveis nos quais se arrisca. "Zodíaco" é tanto um policial cerebral com a cara dos filmes setentistas quanto um drama a respeito de uma quase obsessão. Não quer assustar, quer apenas contar uma boa história. E o faz com maestria.

Baseado no livro escrito por Robert Graysmith, cartunista do San Francisco Chronicle na época em que se passa a história - e interpretado no filme por Jake Gyllenhaal - "Zodíaco" começa no dia 4 de julho de 1969, com o violento assassinato de um casal, filmado com a perfeição que se espera do cineasta. A partir daí - e de uma carta escrita pelo assassino para os principais jornais da área do crime, pedindo atenção aos símbolos constantes na correspondência - toda a trama se desenrola em duas frentes. Enquanto Graysmith, um rapaz apaixonado por enigmas tenta decifrar as mensagens do assassino (autointitulado Zodíaco) e conta com uma espécie de apoio de seu colega de jornal Paul Avery (Robert Downey Jr. em atuação espetacular que lhe pôs novamente nos trilhos do sucesso crítico e comercial), os policiais encarregados do caso buscam pistas e soluções com os recursos que possuem - vale lembrar que à época não havia facilidades como internet. Liderados pelo detetive Dave Toschi (Mark Ruffallo), eles lutam também contra a burocracia que impede o fluxo de informações entre delegacias diferentes.


Contando de forma sóbria e com ritmo próprio uma história assustadora por ser real e empolgante por ser morbidamente excitante, David Fincher exercita seu estilo moderno sem deixar que a técnica sobrepuje a qualidade dramática do roteiro espetacular de James Vanderbilt. Ao tomar licenças poéticas - como criar uma amizade que nunca existiu entre Graysmith e Paul Avery, que em nada se parecia com Downey Jr. - o cineasta opta por trilhar um caminho que, ao invés de incomodar os puristas, apenas encanta os fãs de bom cinema. Utilizando de maneira exemplar o desenho de som e a edição, Fincher foge o máximo possível da estética claustrofóbica e úmida de "Seven", construindo uma narrativa em forma de quebra-cabeças, com peças que se unem conforme o tempo vai passando e todas as informações vão se completando - muito mais diante dos olhos do público do que para seus investigadores, deixando ao espectador tirar suas próprias conclusões.

E não bastasse o domínio perfeito de sua técnica, David Fincher ainda mantém, em "Zodíaco" uma das maiores qualidades de sua filmografia: a excepcional direção de atores. Tendo plena consciência de que não adiantaria reconstruir com detalhes quase obsessivos a redação do San Francisco Chronicle ou os cenários dos violentos crimes cometidos pelo serial killer se não houvesse um aparato artístico forte por trás do projeto, o diretor escalou um elenco fabuloso liderado por três atores em perfeita sintonia. Jake Gyllenhaal, em ótimo momento na carreira cria um Robert Graysmith impecável em sua quase obsessão pelo criminoso. Mark Ruffalo brilha como Dave Toschi - uma figura exuberante e extremamente simpática - e Robert Downey Jr. rouba todas as cenas em que aparece com seu Paul Avery. Não bastasse tudo isso, o elenco coadjuvante conta com nomes conhecidos do público, como Dermot Mulroney, Chloe Sevigny, Anthony Edwards e John Carrol Lynch, além de um Brian Cox impagável em uma sequência de arrepiar.

Um dos melhores filmes de sua temporada, "Zodíaco" foi injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação. É inteligente, excitante e dirigido com perfeição. Destinado a clássico.

sexta-feira

MATCH POINT - PONTO FINAL


MATCH POINT, PONTO FINAL (Match point, 2005, BBC Films, 124min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson, Lucy Darwin, Gareth Wiley. Elenco: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Brian Cox, Matthew Goode, Penelope Wilton, Ewen Bremner. Estreia: 28/12/05

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é fã de Dostoievsky - em especial de sua obra-prima "Crime e castigo" - não é novidade para ninguém. Afinal de contas, um de seus melhores trabalhos, "Crimes e pecados" (de 1989) deixa isso bem claro e explícito. Mas poucas vezes o cineasta nova-iorquino chegou tão perto de uma homenagem quanto em "Match point, ponto final", sintomaticamente considerado por ele mesmo como seu melhor filme. Ao utilizar o pontapé inicial do romance - um brutal assassinato com vítimas inocentes como efeitos colaterais - Allen criou um drama de suspense que prende o espectador na cadeira até os créditos finais.

Que não se espere, porém, um filme de suspense ao estilo hollywoodiano, afinal estamos falando de Woody Allen - deixando sua Manhattan de lado para localizar a trama na Inglaterra. Mesmo prejudicado por um fraquíssimo ator central que não convence em todas as nuances do papel (Jonathan Rhys-Meyers, de "Velvet goldmine"), "Match point" é um filmaço, com um roteiro redondinho e uma edição impecável que nunca deixa antever as suas reviravoltas - todas elas orgânicas, coerentes e irônicas na medida certa. Sem o característico senso de humor de seus trabalhos mais conhecidos, Allen demonstra (se é que ainda precisasse disso) um domínio invejável de narrativa - a ponto de, assim como o fez Hitchcock em "Psicose", eliminar uma personagem vital na metade da projeção sem deixar o interesse se esvair.



O protagonista de "Match point" é Chris Wilton (vivido sem muito entusiasmo pelo fraquinho Jonathan Rhys-Meyers), um jovem professor de tênis irlandês que, assim que chega a Londres arruma trabalho como instrutor do milionário Tom Hewitt (Matthew Goode) e, fazendo amizade com ele, conquista o amor de sua irmã, Chloe (Emily Mortimer) e a admiração de toda a família, que lhe arruma uma posição de destaque em sua empresa. O que poderia ser uma vida tranquila sofre um sobressalto quando Chris se apaixona perdidamente por Nola Rice (Scarlett Johansson), noiva de Tom, uma aspirante a atriz, e arrisca seu casamento e seu emprego por essa paixão avassaladora.

Quanto menos se souber do desenrolar de "Match point", melhor. Allen dá um passo de cada vez em seu roteiro, construindo seu suspense aos poucos, deixando com que o público se acostume aos poucos com suas personagens, seus anseios e seus atos. Quando a história realmente começa - e ela começa de maneira a deixar qualquer um estarrecido com as viradas - é impressionante como cada cena, cada diálogo e cada ângulo de câmera parecem colaborar para contá-la de forma a torná-la inesquecível. Poucas vezes o cinema de Woody Allen teve tanto espaço para o erotismo - com tórridas cenas de sexo entre Rhys-Meyers e Scarlett Johansson - e uma certa dose de violência - mesmo que disfarçada com a habitual sofisticação do diretor. O final, então, é de uma fina ironia capaz de devolver a qualquer espectador a fé no bom cinema.

Obra-prima indiscutível, "Match point, ponto final" conquista até mesmo o público avesso às obras mais tradicionais de Woody Allen. Sexy, inteligente e surpreendente, é um dos melhores filmes da temporada 2005, injustamente relegado a apenas uma indicação ao Oscar de roteiro original. Idiossincrasias da Academia no mesmo ano em que premiou o hipócrita "Crash, no limite".

domingo

A SUPREMACIA BOURNE


A SUPREMACIA BOURNE (The Bourne supremacy, 2004, Universal Pictures, 108min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Richard Pearson, Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Bernard Henrich. Produção executiva: Doug Liman, Henry Morrison, Jeffrey M. Weiner. Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Brian Cox, Julia Stiles, Joan Allen, Karl Urban, Gabriel Mann. Estreia: 15/7/04

No mesmo ano em que “Homem-aranha 2” quebrou a regra de que continuações são sempre inferiores a seus produtos originais, uma outra sequência de um filme de sucesso chegou às telas e mostrou que a maldição só pode ser aplicada quando o objetivo de fazer dinheiro nas bilheterias sobrepõe-se ao talento das pessoas envolvidas no projeto. “A supremacia Bourne”, continuação de “A identidade Bourne”, ganhou novo diretor – Paul Greengrass substituiu Doug Liman – e um fôlego novo, confirmando Matt Damon como um improvável mas competente herói de ação.
      
Enquanto o primeiro filme começava com Jason Bourne (Damon) totalmente às cegas quanto a seu passado dessa vez a coisa é um pouco menos grave no início. Escondido de tudo e de todos, ele está na Índia com sua namorada Marie (Franka Potente) quando passa a ser perseguido por um assassino russo. Obrigado a sair do seu esconderijo depois de uma tragédia, ele ainda se vê às voltas com a acusação de ter assassinado agentes da CIA, uma vez que suas digitais foram encontradas no local do crime. Perseguido pela chefe da agência, a incansável Pamela Landy (a sempre ótima Joan Allen), Bourne tenta provar sua inocência e desbaratar uma conspiração que envolve seu nome, chegando até Moscou.

       

Assim como Doug Liman fez no primeiro filme, o novo diretor Paul Greengrass – egresso de dramas de fundo político com tons de semi-documentário – acerta em não explicar muito ao espectador, deixando-o tão atônito e perdido quanto seu protagonista. Conforme a trama avança e Bourne começa a juntar os pedaços do quebra-cabeça que é sua vida o público vai gradualmente se envolvendo em uma trama inteligente repleta de cenas de ação do mais alto gabarito. Assim como acontecia a perseguição automobilística no primeiro filme pelas apertadas ruas de Paris o segundo capítulo apresenta uma corrida por Moscou que em nada perde para seu antecessor. E Matt Damon continua mostrando porque foi a escolha mais acertada para o papel de Jason Bourne, um James Bond antenado com a nova realidade do cinema e de seu público.

TRÓIA


TRÓIA (Troy, 2004, Warner Bros, 163min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: David Benioff, poesia "A ilíada", de Homero. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: James Horner. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Anna Pinnock, Peter Young. Produção: Wolfgang Petersen, Diana Rathbun, Colin Wilson. Elenco: Brad Pitt, Orlando Bloom, Eric Bana, Diane Kruger, Julie Christie, Peter O'Toole, Brian Cox, Brendan Gleeson, Sean Bean. Estreia: 14/5/04

Indicado ao Oscar de Figurino

 Muito foi falado sobre os excessos de “Tróia”, a super-produção de Wolfgang Petersen sobre a Guerra entre Tróia e Esparta. Realizado com um orçamento milionário de cerca de 175 milhões de dólares e com uma renda abaixo do esperado no mercado americano, o filme, estrelado por Brad Pitt, foi massacrado pela crítica, ignorado pelas cerimônias de premiação e fez um barulho muito menos ensurdecedor do que se esperava de um projeto de seu porte. No final das contas, graças à arrecadação pelo resto do mundo, “Tróia” conseguiu se pagar, mas mesmo assim passou à história como um fracasso. Mas é realmente tão ruim como se pintou?
   
Na verdade, como história “Tróia” é uma nulidade. Chega a ser vergonhoso como o roteiro do prestigiado David Benioff – autor de “A última noite”, de Spike Lee – ignora fatos importantes e cria outros jamais citados com a única intenção de deixar a trama mais dramática e romanesca. Incorrendo na ira dos puristas, Benioff comprou briga também com o público menos ligado à mitologia, justamente por não se decidir entre narrar um romance capaz de desencadear batalhas grandiosas ou mostrar essas batalhas, timidamente filmadas por Roger Pratt apesar do orçamento generoso.

        

O filme começa quando o príncipe caçula de Tróia, o jovem Paris (o fraquíssimo Orlando Bloom) inicia uma história de amor com a bela Helena (a inexpressiva e nem tão bela assim Diane Kruger), esposa de um dos príncipes de Esparta. O flagrante adultério – e a subsequente fuga para casa – destrói a paz recém estabelecida entre os dois países e o rei de Esparta, Agamenon (o onipresente Brian Cox) cede aos desejos sanguinários de seu irmão Menelau (Brendan Gleeson) e declara guerra à Tróia. Para ajudá-los nas sangrentas batalhas lideradas pelo competente Heitor (Eric Bana), os espartanos contam com a ajuda do lendário Aquiles (Brad Pitt), que entra em uma guerra que não é sua quando tem seu primo assassinado por Heitor.
   
Como já foi dito, “Tróia” não deve ser visto como uma aula de História. Repleto de falhas e invenções, o roteiro - que desagradou totalmente ao cineasta Terry Gilliam, que recusou a oferta de dirigí-lo - ganha pontos quando humaniza personagens tidos como deuses, como Aquiles, por exemplo. No entanto, ao mesmo tempo em que faz isso, de certa forma enfraquece seu herói. Diante de um íntegro e valente Heitor vivido com sutileza e garra pelo sensacional Eric Bana, o personagem de Brad Pitt empalidece sem maiores chances de redenção e conseqüentemente leva a trama a um cruel impasse: pra quem se deve torcer afinal? Para um país que prefere começar uma guerra por uma mulher ou por um quase mercenário pop e arrogante? Essa dubiedade, que poderia elevar o filme a um patamar de maior inteligência, no entanto o amarra a uma quase esquizofrenia. Se levarmos em consideração que as cenas pretensamente climáticas do filme – a invasão de Tróia pelo cavalo de madeira dado de presente pelos gregos – são filmadas quase com preguiça e que  o desenvolvimento dos personagens é quase nulo, certamente podemos afirmar que a obra do alemão Petersen é um fiasco. Mas se levarmos em conta a beleza da produção, a história bem contada (ainda que repleta de furos) e a atuação de nomes consagrados como Peter O’Toole – dono da cena mais tocante do filme – e jovens como Eric Bana, pode-se considerar “Tróia” como um filme que poderia ter sido extraordinário mas que nunca deixa de ser apenas razoável.

quinta-feira

X-MEN 2

X-MEN 2 (X2, 2003, 20th Century Fox, 133min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter, estória de Zak Penn, David Hayter, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Stan Lee, Bryan Singer. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Famke Janssen, James Marsden, Brian Cox, Rebecca Romjin-Stamos, Anna Paquin, Ellen Page, Alan Cumming, Aaron Stanford, Shawn Ashmore. Estreia: 28/4/03

Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.

Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.




Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.

Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!

terça-feira

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02

4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)

Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.

Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

 

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.

"Adaptação" é tão bom, mas tão bom, que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo chega ao público de forma mastigadinha e preguiçosa.

quarta-feira

O CHAMADO

O CHAMADO (The ring, 2002, Dreamworks SKG, 115min) Direção: Gore Verbinski. Roteiro: Ehren Kruger, romance de Koji Suzuki, roteiro original de Hiroshi Takahashi. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Craig Wood. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Doug Davison, Roy Lee, Mike Macari, Michele Weisler. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Brian Cox, Jane Alexander, Daveigh Chase. Estreia: 18/10/02

No início dos anos 2000, Hollywood, dando mais uma prova de sua crônica falta de criatividade, passou a buscar nos filmes de terror orientais a matéria-prima para alguns de seus maiores sucessos do gênero. O responsável por tal tendência - e que acabou tornando-se vítima dela quando gerou uma continuação desnecessária - foi "O chamado", remake que, por incrível que pareça, melhorou bastante seu original, dirigido por Hideo Nakata (por sua vez, baseado em um romance de Kôji Suzuki). Comandada por Gore Verbinski (em alta pelo sucesso de sua versão cinematográfica de "Piratas do Caribe"), a versão ianque consegue ter clima apropriado, um elenco afiado e, melhor ainda, mantém o suspense em alta até suas cenas finais.

O remake americano de "O chamado" é bastante fiel a sua origem japonesa, seguindo quase à risca o roteiro do filme de Nakata. Naomi Watts (recém saída dos elogios por "Cidade dos sonhos", de David Lynch) é a protagonista, a jornalista Rachel Keller, mãe solteira do precoce Aidan (David Dorfman). Dedicada à profissão (e curiosa como uma boa repórter deve ser), Rachel inicia uma investigação inusitada depois da morte inesperada da sobrinha adolescente: ela segue os rastros de uma fita de vídeo que, segundo consta, mata quem a assiste, depois de sete dias. Após assistir à tal fita (que encontra na pousada onde sua sobrinha passou seu último fim de semana), Rachel começa uma corrida contra o tempo para evitar sua morte e a do filho, que também assistiu às desconexas imagens. Com a ajuda do ex-namorado Noah (Martin Henderson), ela tenta descobrir as razões por trás do filme e descobre, aterrorizada, uma trágica história familiar com fim trágico.



Fotografado com competência por Bojan Bazelli - que mistura o tom sombrio da história com a umidade constante de Seattle, cenário da trama - "O chamado" tem a seu favor, também, a direção competente de Verbinski, que, mesmo que esteja longe de ser um cineasta original ou ousado, narra com correção e seriedade um filme que inteligentemente foge da tendência de apelar para o humor (característica esta que marcou uma fase do gênero terror no final dos anos 90). Para o bem do espectador que gosta de sentir medo (e assustar-se), o cineasta mantém sempre a sensação de perigo constante e chega ao luxo de enganar a plateia, aparentemente terminando a história para então apresentar seu desfecho pessimista. Ainda que não chegue a ser exatamente surpreendente (sempre é bom deixar um gancho para uma sequência, ensinam os executivos de Hollywood), essa opção encerra o filme com coerência e elegância.

Apesar das explicações meio capengas para mostrar os motivos que levaram a vilã Samara Morgan (interpretada pela pequena e assustadora Daveigh Chase) a tornar-se vingativa - culpa mais da história original em si do que de seu remake - "O chamado" é um dos mais decentes filmes de terror dos anos 2000, dando a chance a Naomi Watts de comprovar o talento mostrado em seu inesquecível trabalho em "Cidade dos sonhos". Um filme imperdível para os fãs do gênero!

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.

CORAÇÃO VALENTE


CORAÇÃO VALENTE (Braveheart, 1995, Icon Entertainment International, 177min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Peter Howitt. Produção executiva: Stephen McEveety, Elisabeth Robinson. Produção: Bruce Davey, Mel Gibson, Alan Ladd Jr. Elenco: Mel Gibson, Sophie Marceau, Patrick McGoohan, Angus McFayden, James Cosmo, Stephen Billington. Estreia: 24/5/95

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Fotografia, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Mel Gibson)

Atores transformados em diretores tem uma grande simpatia dos eleitores da Academia, fazendo parte de uma quase tradição não oficial que frequentemente os premia com uma baciada de Oscar. Foi assim, por exemplo, com Robert Redford, Kevin Costner e Clint Eastwood, só pra citar alguns nomes nas últimas décadas. Quem também se beneficiou dessa boa vontade foi Mel Gibson: astro de filmes de ação como a série "Máquina mortífera" , o ator americano criado na Austrália começou a se reinventar nos anos 90, mostrando um lado sensível que seus trabalhos anterior jamais deixavam antever. Depois de dividir a crítica como a personagem-título de "Hamlet", de Franco Zefirelli e estrear atrás das câmeras com o belo "O homem sem face", Gibson pegou o mundo de surpresa com o ambicioso "Coração valente", um épico de quase três horas de duração em que conta a história de William Wallace, o maior herói da independência da Escócia. Indicado a dez Oscar e premiado em cinco categorias - inclusive as cobiçadas de melhor filme e diretor - o filme ainda arrecadou mais de 75 milhões de dólares no mercado doméstico, provando que, por trás do polêmico e rude ator de "Mad Max" escondia-se um talentoso e delicado cineasta.

Assumindo o papel central mesmo considerando-se velho demais para isso - ele queria o ator Jason Patric como protagonista - Gibson provou-se, também, bastante esperto. Para garantir a distribuição do filme nos EUA pela Paramount, ele aceitou enfeitar com seu nome os cartazes, sabendo que isso atrairia a audiência, que, do contrário, poderia passar ao largo de uma obra de longa duração cujo protagonista não era exatamente um mito mundial. Idolatrado na Escócia, o herói do filme é retratado pelo roteiro de Randall Wallace de forma mitológica, o que colabora para o envolvimento emocional da plateia. Ao equilibrar com inteligência sequências abismais de batalhas violentíssimas com uma fictícia história de amor e intrigas palacianas, Gibson e Wallace acertam em cheio: apesar de chegar perto de três horas de duração, "Coração valente" flui com uma velocidade ímpar, graças ao ritmo imposto pelo roteiro, ora contemplativo, ora alucinante.



As primeiras cenas já demonstram o cuidado do Gibson diretor, ao estabelecer, em poucos minutos, a personalidade de seu protagonista e sua relação com as demais personagens: ainda criança, o jovem William (interpretado pelo carismático James Robinson) perde o pai e vai morar com o tio, Malcolm (Sean Lawlor), que o ensina a ler, falar outras línguas e utilizar o cérebro com mais frequência do que a força física. Ao retornar ao vilarejo de sua infância (já na pele do Gibson ator), ele a encontra em crise, com a população revoltada com a lei da Primeira Noite, que dá aos nobres o direito de passar a noite de núpcias com as jovens noivas. A morte cruel de sua amada Murron (Catherine McCormack) o empurra indelevelmente à luta contra o governo inglês, na forma do déspota Edward Longshanks (Patrick McGoohan). Juntando um exército inferior em número mas superior em coragem e estratégia, Wallace torna-se uma lenda e desperta a paixão da princesa Isabelle (Sophie Marceau), nora do rei.

Para o público médio, que pouco se importa com licenças históricas, "Coração valente" é uma obra-prima. Ágil, belissimamente fotografado e dirigido com um cuidado evidente, é um filme realizado com alma e que remete aos épicos clássicos dos tempos áureos do cinema - não à toa, seu grande sucesso incentivou outras produções do estilo, quase todas sem a mesma qualidade. A maior diferença entre o filme de Gibson e seus congêneres é que o cineasta realmente sabia o que queria. Editada sem pressa mas nunca com uma lentidão exagerada, a história de William Wallace conquista a audiência justamente por jamais se permitir fugir de seu maior objetivo: contar uma bela história para um público o mais amplo possível. Sintomaticamente, algumas cenas até soam didáticas, mas sem ofender a inteligência dos espectadores.

E seria de uma injustiça imperdoável não louvar o realismo das cenas de batalha orquestradas por Mel Gibson. Realizadas em grande escala, as sequências que contrapoem ingleses e escoceses - violentas, bárbaras e sangrentas - enchem os olhos e os ouvidos, hipnotizando o público na mesma medida em que o diverte. Sim, o roteiro encontra espaço - ainda que pequeno - para um pouco de humor, mais um acerto da produção, que, assim, dá um alívio depois de alguns momentos bastante fortes.

"Coração valente" mereceu ser o vencedor do Oscar de 1995, ainda que tenha disputado a estatueta com os belos "Razão e sensibilidade" e "O carteiro e o poeta". Agradou a crítica, o público e os eleitores da Academia por seu perfeito equilíbrio entre ação, romance e história. Um épico digno de ser assim chamado!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...