UM HOMEM ENTRE GIGANTES (Concussion, 2015, Sony Pictures, 123min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, artigo "Brain's game" de Jeanne Marie Laskas. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: David Crank/James V. Kent. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, David Crockett, Michael Schaefer, Ben Waisbren. Produção: Elizabeth Cantillon, Giannina Scott, Ridley Scott, Larry Shuman, David Wolthoff. Elenco: Will Smith, Alec Baldwin, Albert Brooks, Gugu Mbatha-Raw, David Morse, Arliss Howard, Mike O'Malley, Eddie Marsan, Paul Reiser, Luke Wilson. Estreia: 10/11/15
"Um homem entre gigantes" é um filme corajoso. Não apenas porque dá a Will Smith a chance de mostrar-se um competente ator dramático - mesmo porque ele já fez isso outras vezes, chegando a concorrer ao Oscar de melhor ator em duas ocasiões, por "Ali" (2001) e "À procura da felicidade" (2006). A maior ousadia do filme - que tem Ridley Scott como um de seus produtores - é bater de frente com uma das maiores potências financeiras dos EUA: o futebol americano. Na verdade, quem primeiro teve esse peito foi o médico legista Bennet Omalu, um nigeriano que, sem a paixão pelo esporte cultivada desde o berço, apresentou uma estarrecedora verdade científica que pôs em risco uma das maiores instituições ianques - assim como sua própria vida e de sua família ainda começando. As conclusões de Omalu foram publicadas na matéria "Brain's game", escrita por Jeanne Marie Laskas para a revista GQ, e ficaram à disposição do público interessado, mas colocar um astro do porte de Smith no papel principal de um filme de um grande estúdio (Sony Pictures) para contar uma história que desmistifica uma paixão tão forte não deixa de ser uma atitude valente, e p resultado não poderia ter sido outro: com um orçamento discreto de 35 milhões de dólares, "Um homem entre gigantes" naufragou nas bilheterias americanas, sem cobrir nem mesmo seu custo de produção - e só não passou totalmente em branco nas cerimônias de premiação mais conhecidas porque conseguiu arrancar uma indicação ao Golden Globe de melhor ator dramático. Como se pode perceber, coragem demais às vezes dá muito errado!
Porém, se fracassou comercialmente e em conquistar o voto dos viciados eleitores da Academia, "Um homem entre gigantes" merecia sorte muito melhor. Não apenas é um empolgante drama médico - com elementos de suspense muito bem dosados pelo roteiro do também diretor Peter Landesman - como também é de suma importância por tratar de um assunto normalmente ignorado pela grande mídia: as sérias e fatais consequências de um estilo de vida considerado glamouroso e excitante, mas que esconde, por trás de seus capacetes, a decadência mental e física. Landesman - que tratou sobre o assassinato de John Kennedy no igualmente pouco visto "JFK: a história não contada" (2013) - sabe equilibrar com destreza tanto o lado médico da trama (sem cair em didatismos aborrecidos) quanto o drama pessoal e profissional de seu protagonista (um imigrante negro que bate de frente com a poderosa liga de futebol americano, a temida e respeitada NFL). Acertando em cheio no tom sério e urgente da narrativa, o cineasta (ainda em seu segundo filme) não cai na armadilha do sensacionalismo e foge com inteligência de questões raciais, apelando para os problemas pessoais de Omalu quando estritamente necessário ao andamento da história. Jornalista investigativo antes de tornar-se cineasta, Landesman mantém a sobriedade de sua primeira vocação, com uma produção satisfatória tanto informativa quanto dramaticamente - mérito também do excelente elenco.
Se Will Smith mais uma vez mostra sua competência como ator sério - embora às vezes fique a centímetros do exagero - os coadjuvantes de "Um homem entre gigantes" também são dignos de nota, a começar por David Morse, quase irreconhecível como Mike Webster, o primeiro ex-jogador cujo cadáver cai nas mãos de Bennet Omalu, dando início a uma investigação estarrecedora: morto aos 50 anos, Webster (um ídolo do futebol americano, adorado pelos torcedores e admirado pela sociedade em geral) demonstra, em sua necropsia, severos danos cerebrais, incompatíveis com sua idade. Mesmo indo contra ordens superiores, o médico resolve fazer exames mais detalhados - e outras duas mortes de jogadores aposentados que apresentavam comportamento errático e mentalmente desequilibrado o levam até a conclusão de que todos sofriam de um mal causado pelas constantes concussões sofridas durante as partidas de futebol. Apoiado por outros médicos, ele conta também com a ajuda de Julian Bailes (Alec Baldwin), que fica a seu lado quando a liga de futebol americano resolve desacreditá-lo - ou, pior ainda, usar de ameaças reais para impedi-lo de revelar a verdade e colocar em risco uma das mais sólidas instituições do país.
Até mesmo quando se distancia um pouco do tema central e inclui uma história de amor no roteiro - Omalu se apaixona e casa com a jovem Prema (Gugu Mbatha-Raw), imigrante a quem ele hospeda a pedido de amigos -, o filme de Landesman não perde o ritmo e o interesse. Ao contrário de ser apenas um alívio romântico, o relacionamento entre o casal serve para definir o tamanho das perdas a que o protagonista se arrisca quando entra como um Davi na luta contra o Golias representado pelo corporativismo das instituições esportivas norte-americanas. Os momentos de suspense surgem quando Prema, grávida, passa a ser o principal alvo dos inimigos do marido, cada vez mais ávido em provar não apenas que está certo (e que se não houver mudanças outras mortes irão ocorrer) mas também em mostrar que sua formação na África não faz dele um médico com menos qualidades e competência do que seus colegas americanos. Essa forma sutil de tocar ainda no preconceito é outro pequeno grande trunfo de "Um homem entre gigantes", um filme que merece ser valorizado por suas qualidades dramáticas, por sua temática relevante e pela coragem de expor ao grande público uma verdade que - apesar de tudo - parece não ter mudado muita coisa na mentalidade dos magnatas do esporte. Um belo filme e mais uma bela atuação de Will Smith!
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BELEZA OCULTA
BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16
Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.
Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.
O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.
Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.
Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.
Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.
O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.
Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.
segunda-feira
SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO
SEIS
GRAUS DE SEPARAÇÃO (Six degrees of separation, 1993, MGM Productions,
112min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: John Guare, peça teatral de sua
autoria. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry
Goldsmith. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Dennis
Bradford/Gretchen Rau. Produção executiva: Ric Kidney. Produção: Arnon
Milchan, Fred Schepisi. Elenco: Donald Sutherland, Stockard Channing,
Will Smith, Ian McKellen, Mary Beth Hurt, Bruce Davison, Richard Masur,
Heather Graham, Anthony Michael Hall. Estreia: 08/12/93
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Stockard Channing)
Em 1983, um jovem negro de 19 anos de idade chamado David Hampton penetrou na alta sociedade de Manhattan e, se fazendo passar por filho do ator Sidney Poitier, conseguiu ludibriar personalidades como Melanie Griffith, Gary Sinise e Calvin Klein e gente da alta sociedade nova-iorquina, como o reitor de uma faculdade de jornalismo e um famoso urologista. Alegando ser amigo de seus filhos que estavam na universidade, ter sido assaltado ou ter perdido a bagagem em voo de avião, ele se hospedava nos apartamentos de suas vítimas e, uma vez tendo-as conquistado, até conseguia que lhes emprestassem dinheiro. Farsa descoberta, o rapaz foi preso e banido de Nova York - até morrer, vítima de complicações relacionadas ao vírus da AIDS, em 2013. Sua história - quase absurda demais para ser verdade - chegou aos ouvidos do dramaturgo John Guare, que não resistiu à tentação de levá-la para os palcos. A peça "Seis graus de separação" estreou em novembro de 1990, foi indicada ao Tony de melhor espetáculo do ano e, pouco menos de três anos depois, chegava também às telas de cinema, adaptada pelo próprio Guare, dirigida por Fred Schepisi e estrelada pela mesma atriz que lhe deu vida na Broadway, Stockard Channing, que acabou indicada ao Golden Globe e ao Oscar por sua interpretação.
Mais conhecida como a encrenqueira Rizzo de "Grease, nos tempos da brilhantina" (78), Channing está brilhante no papel de Ouisa Kittredge, uma sofisticada e quase fútil socialite nova-iorquina que trabalha, ao lado do marido, Flan (Donald Sutherland) negociando valiosas obras de arte para colecionadores que dispensam o intermédio de galerias. Com os três filhos na universidade, eles vivem em um mundo de luxo e conforto - ainda que também se utilizem dos privilégios da aparência social - cuja rotina de jantares e festas é quebrado uma noite com a chegada em sua casa de Paul (Will Smith em seu primeiro papel de destaque em Hollywood), um jovem que, alegando ter sido assaltado em frente a seu prédio, apresenta-se como amigo de seus filhos. Enquanto é auxiliado pelo casal - e por um convidado sul-africano que está de passagem pela cidade, o milionário Geoffrey Miller (Ian McKellen) - Paul conta a eles sua história de vida, terminando por afirmar-lhes ser filho do primeiro casamento de Poitier. Fascinados com a situação - e com a possibilidade de fazerem parte de uma possível filmagem do musical "Cats" que está presumivelmente sendo produzida pelo ator - os Kittredge se deixam envolver com a lábia e a simpatia do rapaz, a ponto de convidá-lo a passar a noite em sua casa. Depois que a noite acaba mal, porém, eles chegam à conclusão de que Paul não é exatamente quem eles pensavam.
Em um encontro com um casal de amigos, os também ricaços Kitty (Mary Beth Hurt) e Larkin (Bruce Davison), os Kittredge ficam abismados quando descobrem que o mesmo golpe foi aplicado em seus amigos e resolvem ir à polícia. Para sua surpresa, o caso não é novo, e um médico da cidade, Dr. Fine (Richard Masur) surge para comprovar a afirmação. Com um misto de curiosidade/preocupação/senso de aventura, o grupo de "vítimas" resolve investigar a fundo e tentar descobrir a origem de Paul, seus objetivos em penetrar na alta sociedade e seu paradeiro. Para isso, contam com a ajuda - a princípio contrafeita - dos filhos e de Trent (Anthony Michael Hall), um antigo amigo dos jovens, que parece ter sido o ponto de partida da farsa, que chega a um patamar ainda maior quando ele ressurge espalhando por Manhattan que é um filho rejeitado de Flan Kittredge.
Escrito com um sarcástico senso de humor mergulhado em uma tocante melancolia e uma feroz crítica à futilidade da refinada sociedade de Manhattan - e do mundo todo, de uma maneira ou outra - "Seis graus de separação" consegue manter um equilíbrio perfeito entre o humor sutil e o drama delicado, sem jamais pesar a mão para nenhum lado. Ao narrar sua história como uma anedota inconsequente do jet-set nova-iorquino (o que dá vazão a uma memorável explosão final de Ouisa em um jantar chique), Guare enfatiza toda a diferença cultural que afasta os bem-nascidos como os Kittredge dos renegados como Paul, que anseiam desesperadamente por um mundo de luxo, arte, conforto e atenção. Para isso é fundamental, portanto, a atuação madura de Will Smith, brindando a plateia com um personagem que, à parte o carisma de sempre, em nada lembra seus papéis posteriores. Com um misto de desamparo, ginga e obsessão, ele constroi um Paul sempre surpreendente, que vai revelando camada por camada conforme a trama se desenvolve - também é notável o trabalho de edição de Peter Honess, que mantém a atenção do público sempre constante.
"Seis graus de separação" é um filme que cativa aos poucos, se revelando, em seu final, uma produção muito mais inteligente e instigante do que parecia em seus primeiros minutos. Uma pérola pouco conhecida capaz de conquistar o mais exigente espectador.
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Stockard Channing)
Em 1983, um jovem negro de 19 anos de idade chamado David Hampton penetrou na alta sociedade de Manhattan e, se fazendo passar por filho do ator Sidney Poitier, conseguiu ludibriar personalidades como Melanie Griffith, Gary Sinise e Calvin Klein e gente da alta sociedade nova-iorquina, como o reitor de uma faculdade de jornalismo e um famoso urologista. Alegando ser amigo de seus filhos que estavam na universidade, ter sido assaltado ou ter perdido a bagagem em voo de avião, ele se hospedava nos apartamentos de suas vítimas e, uma vez tendo-as conquistado, até conseguia que lhes emprestassem dinheiro. Farsa descoberta, o rapaz foi preso e banido de Nova York - até morrer, vítima de complicações relacionadas ao vírus da AIDS, em 2013. Sua história - quase absurda demais para ser verdade - chegou aos ouvidos do dramaturgo John Guare, que não resistiu à tentação de levá-la para os palcos. A peça "Seis graus de separação" estreou em novembro de 1990, foi indicada ao Tony de melhor espetáculo do ano e, pouco menos de três anos depois, chegava também às telas de cinema, adaptada pelo próprio Guare, dirigida por Fred Schepisi e estrelada pela mesma atriz que lhe deu vida na Broadway, Stockard Channing, que acabou indicada ao Golden Globe e ao Oscar por sua interpretação.
Mais conhecida como a encrenqueira Rizzo de "Grease, nos tempos da brilhantina" (78), Channing está brilhante no papel de Ouisa Kittredge, uma sofisticada e quase fútil socialite nova-iorquina que trabalha, ao lado do marido, Flan (Donald Sutherland) negociando valiosas obras de arte para colecionadores que dispensam o intermédio de galerias. Com os três filhos na universidade, eles vivem em um mundo de luxo e conforto - ainda que também se utilizem dos privilégios da aparência social - cuja rotina de jantares e festas é quebrado uma noite com a chegada em sua casa de Paul (Will Smith em seu primeiro papel de destaque em Hollywood), um jovem que, alegando ter sido assaltado em frente a seu prédio, apresenta-se como amigo de seus filhos. Enquanto é auxiliado pelo casal - e por um convidado sul-africano que está de passagem pela cidade, o milionário Geoffrey Miller (Ian McKellen) - Paul conta a eles sua história de vida, terminando por afirmar-lhes ser filho do primeiro casamento de Poitier. Fascinados com a situação - e com a possibilidade de fazerem parte de uma possível filmagem do musical "Cats" que está presumivelmente sendo produzida pelo ator - os Kittredge se deixam envolver com a lábia e a simpatia do rapaz, a ponto de convidá-lo a passar a noite em sua casa. Depois que a noite acaba mal, porém, eles chegam à conclusão de que Paul não é exatamente quem eles pensavam.
Em um encontro com um casal de amigos, os também ricaços Kitty (Mary Beth Hurt) e Larkin (Bruce Davison), os Kittredge ficam abismados quando descobrem que o mesmo golpe foi aplicado em seus amigos e resolvem ir à polícia. Para sua surpresa, o caso não é novo, e um médico da cidade, Dr. Fine (Richard Masur) surge para comprovar a afirmação. Com um misto de curiosidade/preocupação/senso de aventura, o grupo de "vítimas" resolve investigar a fundo e tentar descobrir a origem de Paul, seus objetivos em penetrar na alta sociedade e seu paradeiro. Para isso, contam com a ajuda - a princípio contrafeita - dos filhos e de Trent (Anthony Michael Hall), um antigo amigo dos jovens, que parece ter sido o ponto de partida da farsa, que chega a um patamar ainda maior quando ele ressurge espalhando por Manhattan que é um filho rejeitado de Flan Kittredge.
Escrito com um sarcástico senso de humor mergulhado em uma tocante melancolia e uma feroz crítica à futilidade da refinada sociedade de Manhattan - e do mundo todo, de uma maneira ou outra - "Seis graus de separação" consegue manter um equilíbrio perfeito entre o humor sutil e o drama delicado, sem jamais pesar a mão para nenhum lado. Ao narrar sua história como uma anedota inconsequente do jet-set nova-iorquino (o que dá vazão a uma memorável explosão final de Ouisa em um jantar chique), Guare enfatiza toda a diferença cultural que afasta os bem-nascidos como os Kittredge dos renegados como Paul, que anseiam desesperadamente por um mundo de luxo, arte, conforto e atenção. Para isso é fundamental, portanto, a atuação madura de Will Smith, brindando a plateia com um personagem que, à parte o carisma de sempre, em nada lembra seus papéis posteriores. Com um misto de desamparo, ginga e obsessão, ele constroi um Paul sempre surpreendente, que vai revelando camada por camada conforme a trama se desenvolve - também é notável o trabalho de edição de Peter Honess, que mantém a atenção do público sempre constante.
"Seis graus de separação" é um filme que cativa aos poucos, se revelando, em seu final, uma produção muito mais inteligente e instigante do que parecia em seus primeiros minutos. Uma pérola pouco conhecida capaz de conquistar o mais exigente espectador.
sexta-feira
ALI
ALI (Ali, 2001, Columbia Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson, Eric Roth, Michael Mann, história de Gregory Allen Howard. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: William Goldenberg, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Stuart Waks. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: John Myhre/Jim Erickson. Produção executiva: Howard Bingham, Lee Caplin, Graham King. Produção: Paul Ardaji, A. Hitman Ko, James Lassiter, Michael Mann, Jon Peters. Elenco: Will Smith, Jon Voight, Jamie Foxx, Mario Van Peebles, Ron Silver, Jeffrey Wright, Mykelty Williamson, Jada Pinkett-Smith, Bruce McGill, Giancarlo Esposito. Estreia: 25/12/01
2 indicações ao Oscar: Ator (Will Smith), Ator Coadjuvante (Jon Voight)
Em 2001 Will Smith já era um dos mais populares astros do cinemão comercial hollywoodiano, tendo participado de alguns dos maiores êxitos de bilheteria da década de 90, como "Independence Day" e "Homens de Preto". Mas como sempre acontece, sua ambição era outra: ser levado a sério como ator. O primeiro passo nessa direção foi o pouco visto "Lendas da vida", onde atuou ao lado de Matt Damon sob a direção de Robert Redford. Mas foi somente com "Ali", a cinebiografia do lutador Muhammad Ali, que Smith mostrou que, por trás de seu grande carisma e do sorriso fácil, havia um intérprete dramático de grande potencial. Mesmo que o filme tenha bombado nas bilheterias americanas (rendeu menos de 60 milhões contra os mais de cem do orçamento generoso), ninguém pode contestar a excelência do desempenho de seu protagonista.
Dirigido por Michael Mann logo após seu sucesso absoluto com "O informante" - que chegou a lhe dar uma indicação ao Oscar de direção - "Ali" não é uma cinebiografia no sentido tradicional. O roteiro inicial, que ultrapassava 200 páginas e mostrava toda a sua vida desde a infância foi amplamente reescrito por Mann e Eric Roth (os autores do script de "O informante") e passou a concentrar-se em um período específico da vida do lutador, justamente em seu auge e na fase mais polêmica de sua carreira, quando envolveu-se com o islamismo e perdeu o título de campeão mundial por recusar-se a ir para a guerra do Vietnã. Ao dedicar-se especificamente a esse ângulo da história o filme de Mann torna-se muito mais interessante, porque, através de seu protagonista e de suas lutas pessoais forma-se também um painel da história dos EUA, com seus problemas sociais e um racismo latente que fica óbvio através principalmente dos coadjuvantes da trama, como os conhecidos Malcolm X (em uma atuação acertada do cineasta Mario Van Peebles), Don King (Mykelty Williamson) e o repórter esportivo Howard Cosell (vivido por um irreconhecível Jon Voight).

Entre os acertos de "Ali" está também o tom sóbrio impresso por Mann, um cineasta elegante que não permite que a história resvale para o sentimentalismo nem mesmo quando todas as circunstâncias clamam por isso (e a interpretação do sempre ótimo Jamie Foxx como o empresário viciado em drogas de Ali é um perfeito exemplo dessa afirmação). E mesmo que as cenas de luta não sejam exatamente empolgantes (ainda que também não sejam más) o trabalho detalhista de Will Smith compensa qualquer falha. Merecidamente indicado ao Oscar, o jovem ator prova que seu desejo de ser considerado um ator de verdade não é apenas vaidade rasa. Encarar uma personagem tão maior que a vida quanto Muhammad Ali não é pra qualquer um, e Smith tira de letra o desafio auto-imposto (além de ter reduzido seu salário para que o filme pudesse ser feito).
Mesmo que tenha falhas em seu desenvolvimento (como a desnecessária duração excessiva e o superficialismo na relação de Ali com suas esposas), "Ali" tem mais qualidades do que defeitos. Seu relativo fracasso de bilheteria não condiz com o capricho de sua realização e a dedicação de seus colaboradores. Para as novas gerações Muhammad Ali tem o rosto de Will Smith. Não se pode dizer que seja injusto!
2 indicações ao Oscar: Ator (Will Smith), Ator Coadjuvante (Jon Voight)
Em 2001 Will Smith já era um dos mais populares astros do cinemão comercial hollywoodiano, tendo participado de alguns dos maiores êxitos de bilheteria da década de 90, como "Independence Day" e "Homens de Preto". Mas como sempre acontece, sua ambição era outra: ser levado a sério como ator. O primeiro passo nessa direção foi o pouco visto "Lendas da vida", onde atuou ao lado de Matt Damon sob a direção de Robert Redford. Mas foi somente com "Ali", a cinebiografia do lutador Muhammad Ali, que Smith mostrou que, por trás de seu grande carisma e do sorriso fácil, havia um intérprete dramático de grande potencial. Mesmo que o filme tenha bombado nas bilheterias americanas (rendeu menos de 60 milhões contra os mais de cem do orçamento generoso), ninguém pode contestar a excelência do desempenho de seu protagonista.
Dirigido por Michael Mann logo após seu sucesso absoluto com "O informante" - que chegou a lhe dar uma indicação ao Oscar de direção - "Ali" não é uma cinebiografia no sentido tradicional. O roteiro inicial, que ultrapassava 200 páginas e mostrava toda a sua vida desde a infância foi amplamente reescrito por Mann e Eric Roth (os autores do script de "O informante") e passou a concentrar-se em um período específico da vida do lutador, justamente em seu auge e na fase mais polêmica de sua carreira, quando envolveu-se com o islamismo e perdeu o título de campeão mundial por recusar-se a ir para a guerra do Vietnã. Ao dedicar-se especificamente a esse ângulo da história o filme de Mann torna-se muito mais interessante, porque, através de seu protagonista e de suas lutas pessoais forma-se também um painel da história dos EUA, com seus problemas sociais e um racismo latente que fica óbvio através principalmente dos coadjuvantes da trama, como os conhecidos Malcolm X (em uma atuação acertada do cineasta Mario Van Peebles), Don King (Mykelty Williamson) e o repórter esportivo Howard Cosell (vivido por um irreconhecível Jon Voight).
Entre os acertos de "Ali" está também o tom sóbrio impresso por Mann, um cineasta elegante que não permite que a história resvale para o sentimentalismo nem mesmo quando todas as circunstâncias clamam por isso (e a interpretação do sempre ótimo Jamie Foxx como o empresário viciado em drogas de Ali é um perfeito exemplo dessa afirmação). E mesmo que as cenas de luta não sejam exatamente empolgantes (ainda que também não sejam más) o trabalho detalhista de Will Smith compensa qualquer falha. Merecidamente indicado ao Oscar, o jovem ator prova que seu desejo de ser considerado um ator de verdade não é apenas vaidade rasa. Encarar uma personagem tão maior que a vida quanto Muhammad Ali não é pra qualquer um, e Smith tira de letra o desafio auto-imposto (além de ter reduzido seu salário para que o filme pudesse ser feito).
Mesmo que tenha falhas em seu desenvolvimento (como a desnecessária duração excessiva e o superficialismo na relação de Ali com suas esposas), "Ali" tem mais qualidades do que defeitos. Seu relativo fracasso de bilheteria não condiz com o capricho de sua realização e a dedicação de seus colaboradores. Para as novas gerações Muhammad Ali tem o rosto de Will Smith. Não se pode dizer que seja injusto!
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