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terça-feira

CAÇA AOS GÂNGSTERES

CAÇA AOS GÂNGSTERES (Gangster squad, 2013, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 113min) Direção: Ruben Fleischer. Roteiro: Will Beall, livro de Paul Lieberman. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alan Baumgarten, James Herbert. Música: Steve Jablonsky. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Maher Ahmad/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Ruben Fleischer, Paul Lieberman. Produção: Dan Lin, Kevin McCormick, Michael Tadross. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte, Mireille Enos, Anthony Mackie, Giovanni Ribisi, Robert Patrick, Troy Garity, Michael Peña. Estreia: 07/01/13

A estreia de "Caça aos gângsteres" - baseado no livro de Paul Lieberman que reunia seus artigos para o Los Angeles Times a respeito da luta dos policiais da cidade para acabar, no final da década de 40, com o império do crime comandado por Mickey Cohen - estava marcada para o início de setembro de 2012, coincidindo com o lançamento do trabalho do jornalista nas livrarias. Porém, o destino, na forma de uma inesperada chacina ocorrida em um cinema do Colorado, mudou os planos da Warner Bros, que acertadamente tirou da montagem final uma sequência semelhante ao massacre. Com o roteiro reescrito, cenas adicionais filmadas e quatro meses o separando da data original de lançamento, o filme de Ruben Fleischer finalmente ganhou as telas em janeiro de 2013. Porém, mesmo com um elenco recheada de grandes nomes - Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Ryan Gosling e Emma Stone - a produção de 60 milhões de dólares só saiu do vermelho graças ao mercado internacional. Não pode-se dizer que tenha sido um resultado injusto.

A princípio, "Caça aos gângsteres" lembra bastante o sensacional "Los Angeles, cidade proibida", baseado em romance de James Ellroy e lançado em 1997. A trama central - uma equipe secreta de policiais incorruptíveis dedicada a promover a queda de um poderoso senhor do crime - lembra também o inesquecível "Os intocáveis", estrelado por Kevin Costner em 1987. O problema maior é que o cineasta Ruben Fleischer - cujo maior crédito até então era a comédia "Zumbilândia" - não tem o mesmo talento que Curtis Hanson e Brian DePalma, diretores dos filmes citados. Mesmo que apresente algumas ideias visuais interessantes, falta a ele a segurança para conduzir uma narrativa que tenha a capacidade de empolgar um público cada vez mais acostumado com cenas de ação impecáveis sem deixar de dar atenção ao desenho dos personagens. Em parte por culpa de um roteiro que não parece se preocupar em aprofundar as relações humanas - e quando faz isso escorrega aflitivamente pelos mais deslavados clichês - e em parte devido à falta de experiência de seu diretor, o filme acaba sendo apenas um pastiche do gênero. Até diverte em alguns momentos, mas no geral é quase chato.

A história começa em 1949, quando Mickey Cohen (Sean Penn prejudicado por uma maquiagem tenebrosa), um ex-boxeador judeu tornado gângster, resolve expandir seus negócios ilícitos, tomando Los Angeles e ambicionando chegar à Chicago. Violento e amoral, ele tem nas mãos policiais, juízes e quem mais aceitar seu dinheiro sujo. Decidido a dar fim a seu reinado, o Chefe de Polícia Parker (Nick Nolte) resolve montar um time de oficiais acima de qualquer suspeita para que, por baixo dos panos e sem o apoio oficial do departamento, destruam sistematicamente seus esquemas criminosos. Escolhido como líder do grupo, o Sargento John O'Mara (Josh Brolin), um veterano da II Guerra, conta com a ajuda da esposa grávida, Connie (Mireille Enos), para definir os demais integrantes do esquadrão. São chamados, então, o quase cínico Sargento Jerry Wooters (Ryan Gosling), o policial Coleman Harris (Anthony Mackie), o experiente atirador Max Kennard (Robert Patrick), seu protegido Navidad Ramirez (Michael Peña) e, como cérebro do time, o calado pai de família Conwell Keeler (Giovanni Ribisi).

O roteiro de Will Beall é tão previsível que é possível adivinhar cada cena a quilômetros de distância, o que prejudica de forma irreparável o suspense tão necessário a um filme policial. Por exemplo, a relação entre Wooters e a bela Grace Faraday (Emma Stone) - que tem um caso também com Cohen - parece existir mais para satisfazer a necessidade de acrescentar algumas cenas românticas à história do que para empurrar a narrativa pra frente. E nem é preciso ser consumidor compulsivo do gênero para adiantar o destino de cada um dos personagens, felizmente interpretados por atores tão bons que deixam a experiência menos penosa. Sean Penn e Josh Brolin - repetindo a inimizade de "Milk, a voz da igualdade" dessa vez em lados opostos do bem e do mal - estão visivelmente se esforçando em dar consistência a um texto pouco favorável. Ryan Gosling e Emma Stone - que já fizeram par romântico no delicioso "Amor à toda prova" - repetem a boa química, mesmo com pouco material em mãos. E Nick Nolte pouco tem a fazer com suas cenas, sendo subaproveitado, assim como à Mireille Enos (da série "The killing") cabe o ingrato papel de esposa do herói.

"Caça aos gângsteres" não é um filme ruim. Tem muita gente boa envolvida para ser uma perda de tempo total. Mas peca muito em não imprimir personalidade em sua narrativa, tem um roteiro preguiçoso e prefere o caminho do banal ao contar uma história que, por ser tão parecida com tantas outras, merecia uma ousadia maior. Para os fãs do gênero é imperdível. Mas está longe de ser tão bom quanto poderia.

sábado

HOTEL RUANDA

HOTEL RUANDA (Hotel Rwanda, 2004, MGM/United Artists,121min) Direção: Terry George. Roteiro: Keir Pearson, Terry George. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Naomi Geraghty. Música: Afro Celt Sound System, Rupert Gregson-Williams, Andrea Guerra. Figurino: Ruy Filipe. Direção de arte/cenários: Johnny Breedt, Tony Burrough/Estelle "Flo" Ballack. Produção executiva: Sam Bhembe, Roberto Cicutto, Martin F. Katz, Francesco Melzi D'Eril, Duncan Reid, Hal Sadoff. Produção: Terry George, A. Kitman Ho. Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Nick Nolte, Jean Reno. Estreia: 11/9/04 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Ator (Don Cheadle), Atriz Coadjuvante (Sophie Okonedo), Roteiro Original

Tendo em vista alguns dos filmes de seu currículo - os engajados "Em nome do pai", do qual é roteirista, e "Mães em luta", que também dirigiu - o cineasta Terry George era o nome perfeito para assinar a versão cinematográfica de um dos atos mais sangrentos da história da África contemporânea. Inspirado em fatos reais, "Hotel Ruanda" narra, de forma seca e brutal (e posteriormente questionada por sobreviventes que rechaçaram a versão heroica do protagonista como revisionista) o impressionante desenrolar de um genocídio que exterminou mais de um milhão de pessoas em plena década de 90 - e que foi devidamente ignorado pela maior parte da mídia internacional devido à pouca importância política de suas vítimas. Mantendo seu estilo de evitar sentimentalismos, George acabou conquistando a crítica e abiscoitou uma indicação ao Oscar de roteiro original - além de ter proporcionado a Don Cheadle, um sempre valoroso coadjuvante, seu primeiro papel de protagonista (que também lhe rendeu a chance de concorrer à estatueta dourada da Academia).

Cheadle - que ficou com o papel principal mesmo quando os produtores preferiam nomes mais comerciais como Denzel Washington, Wesley Snipes e Will Smith - vive com intensidade o sofisticado Paul Rusesabagina, gerente de um hotel quatro estrelas de proprietários belgas na cidade de Kigali, capital de Ruanda. Um país em constante tensão racial que divide a maioria hutu e a minoria tutsi (em uma divisão étnica inexplicável e totalmente política), Ruanda vê os conflitos ampliados a um nível extremo quando, após assinar um acordo de paz, seu presidente morre assassinado, o que acaba por selar a guerra aberta entre os dois grupos. Testemunhando o extermínio generalizado dos tutsis - origem de sua esposa Tatiana (Sophie Okonedo) - o hutu Rusesabagina resolve proteger sua família escondendo-a no hotel, comprando favores dos líderes do exército. Aos poucos, porém, outras potenciais vítimas pedem auxílio a ele, que, incapaz de negar ajuda, transforma o local em um campo de refugiados. Suas esperanças de ter socorro de órgãos do governo acabam, no entanto, quando um grupo de soldados belgas retira todos os estrangeiros hospedados no hotel, deixando bem claro sua indiferença em relação aos nativos do país. É aí que ele, contando com o apoio de um Coronel da ONU (personagem fictício interpretado por Nick Nolte), toma a decisão de proteger a todos que puder e tornar a situação notícia ao redor do mundo.


Apesar da polêmica em torno da veracidade do heroísmo de seu protagonista - comparado, à época do lançamento do filme com Oskar Schindler, por ter salvado mais de 1200 vidas - o filme de Terry George cumpre com bastante competência seu objetivo de dar luz a um dos episódios mais chocantes do final do século XX, e até então relegado a uma tímida nota de rodapé da história da sociedade contemporânea. Sem apelar para a violência gráfica exagerada - para desgosto dos espectadores mais sádicos - o diretor não foge de mostrar a crueldade dos exércitos hutus em sequências dolorosas e realistas, mas não transforma seu filme em um catálogo de horrores, preferindo concentrar-se nos esforços de Rusesabagina em livrar seu povo da quase inevitável tragédia. Independente do quanto é real ou não na história, ele dá a seu personagem central uma aura heroica difícil de ignorar: complexo em seus sentimentos e tão corajoso em seus atos quanto frágil em sua intimidade (complexidade que Don Cheadle tira de letra), ele soa mais humano do que a maioria dos herois retratados no cinema americano. Contando com a ajuda da ótima Sophie Okonedo - indicada ao Oscar de coadjuvante, que perdeu para Cate Blanchett em "O aviador" - Cheadle apresenta um trabalho impecável, que valoriza cada cena e disfarça um certo excesso no tempo de projeção.

Forte, intenso e interpretado com calor, "Hotel Ruanda" é um filme de suprema importância política e social. Narrado com sobriedade e uma discreta indignação, é uma obra que reafirma o talento de Terry George em transformar histórias engajadas em tramas de intensa emoção sem que, para isso, seja preciso apelar para o sentimentalismo forçado. Afinal, como ele mesmo mostra em suas cenas, a história já é comovente o bastante para que seja necessários adendos piegas. De acordo com sua filmografia, nenhum vilão é mais cruel e odioso que o ser humano - e depois de assistir a seus filmes, duvidar quem há de?

segunda-feira

REVIRAVOLTA

REVIRAVOLTA (U-turn, 1997, Phoenix Pictures/Clyde is Hungry Productions/Illusion Entertainment Group, 125min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: John Ridley, romance "Stray dogs", de John Ridley. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Thomas J. Nordberg. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: John Ridley. Produção executiva: John Ridley. Produção: Dan Halsted, Clayton Townsend. Elenco: Sean Penn, Jennifer Lopez, Nick Nolte, Billy Bob Thornton, Jon Voight, Joaquin Phoenix, Claire Danes, Julie Hagerty. Estreia: 27/8/97 (Festival de Telluride)

Para mostrar que não é um diretor preocupado apenas com as consequências da guerra do Vietnã e com as mazelas políticas e sociais dos EUA - e consequentemente fugir da pecha de cineasta mais propenso a polêmicas do que a entretenimento puro e simples - Oliver Stone deixou de lado suas obsessões mais caras (ou nem tanto, já que visualmente se manteve fiel a suas narrativas rocambolescas) para assinar "Reviravolta", um drama policial que mistura no mesmo balaio ultra-violência, sexo, humor negro e incesto com a mesma naturalidade com que conta a história (já tantas vezes contada pelo cinema) do homem que se mete com a mulher errada na hora errada... e no caso de seu filme, também na cidade errada. Subvertendo as regras visuais do cinema noir - ao substituir a escuridão das sombras pela luz de um escaldante sol - com a fotografia estourada de seu colaborador habitual Robert Richardson (oscarizado por "JFK"), Stone criou uma espécie de episódio estendido de "Além da imaginação", utilizando-se, para isso, de um roteiro que não cansa de surpreender a plateia com novas informações e (com o perdão da repetição) reviravoltas. Sexy, cruel e sarcástico, o filme, estrelado por um impecável Sean Penn e uma estonteante Jennifer Lopez, não é dos mais conhecidos trabalhos do diretor, mas é muito acima da média do comportado cinema norte-americano.

O estilo cinematográfico de Oliver Stone - imagens sobrepostas, diferentes tipos de filmagem, edição extremamente ágil - fica claro logo nos primeiros minutos de "Reviravolta", que mostram a chegada do misterioso Bobby Cooper (Sean Penn) à Superior, no interior de Nevada. A caminho de Las Vegas para pagar uma dívida de jogo que já o fez perder dois dedos da mão, ele se vê obrigado a parar na pequena cidade depois que seu carro estraga e, enquanto o bizarro mecânico Darrell (Billy Bob Thornton) cuida do automóvel, ele passeia pelo calor sufocante do local, encravado no meio do deserto. Como um oásis de beleza e sensualidade, seus olhos caem na bela Grace (Jennifer Lopez), uma mulher provocante que não demora em tentar seduzí-lo a despeito de ser casada com o feroz Jake McKenna (Nick Nolte), um homem mais velho e violento que não demora a propor um elaborado plano de assassinato ao atarantado rapaz. Sem dinheiro para pagar sua dívida (por motivos que não convém revelar para não estragar as surpresas) e nem ao menos a conta do mecânico, Bobby fica tentado a aceitar a proposta, mas acaba se enroscando em uma trama muito mais cheia de mentiras do que supunha a princípio. Não bastasse isso, ele precisa lidar com outras personalidades estranhas do lugar, como um velho índio cego (Jon Voight, irreconhecível em um papel que Stone quis oferecer a Marlon Brando) e um casal de jovens (Claire Danes e Joaquin Phoenix) que parece ter como missão na vida perturbar o pouco que resta de sua paz.


Com uma narrativa que apresenta resquícios de "Assassinos por natureza" - imagens deformadas, personagens à beira da histeria e uma dose superlativa de humor negro - "Reviravolta" pode até ser descrito por seu diretor como um filme simples, mas há muito mais complexidade em seu desenvolvimento do que uma primeira espiada pode mostrar. O que começa com um simples road movie macabro vai se transformando lentamente em um tenso exercício de suspense, banhando em uma sensualidade crua - enfatizada pela iluminação saturada que amplia a sensação claustrofóbica - e uma sucessão de traições que remete aos mais famosos escritores pulp americanos, como se Raymond Chandler e Dashiel Hammett substituíssem os bares degradantes e agências de detetives que habitam seus romances por um deserto tão pernicioso quanto. É irônico perceber que, por menos correto e honesto que seja, Bobby é o heroi da história, sendo pego como uma mosca na teia de volúpia e corrupção de Grace e Jake. O roteiro de John Ridley - o mesmo que ganhou o Oscar por "12 anos de escravidão" quinze anos mais tarde - é tão sacana que não resta opção ao público senão torcer pelo protagonista mesmo que ele destoe radicalmente do ideal do bom-mocismo cinematográfico. E para isso conta muito que ele seja interpretado por Sean Penn, o melhor ator de sua geração.

Primeira escolha de Oliver Stone para protagonizar o filme, Penn quase ficou de fora da produção devido a problemas de agenda, sendo substituído por Bill Paxton até quase o início das filmagens, quando retomou o papel (que felizmente foi recusado por Tom Cruise, que facilmente poderia estragar o resultado final com seu ar de eterno galã). Apresentando uma das melhores atuações de sua carreira, o ator transita com naturalidade entre o tédio, o medo, a fúria, o tesão e a perplexidade, contagiando com seu imenso talento até a então novata Jennifer Lopez, que, mesmo não precisando fazer mais do que aquecer a tela com sua beleza candente, se mostra uma atriz promissora e dedicada. Sua química com Sean Penn é outro destaque de um filme repleto de qualidades que infelizmente passou quase em branco pelos cinemas - nos EUA é fácil odiar os trabalhos de Oliver Stone graças a suas ideias "perigosas", e tal desprezo acabou prejudicando a carreira internacional de "Reviravolta". Felizmente, sempre há tempo para reparar tal erro e conhecer - ou redescobrir essa pequena pérola de sua filmografia.

domingo

O PRINCIPAL SUSPEITO

O PRINCIPAL SUSPEITO (Nightwatch, 1997, Dimension Films, 101min) Direção: Ole Bornedal. Roteiro: Ole Bornedal, Steven Soderbergh, roteiro original de Ole Bornedal. Fotografia: Dan Laustsen. Montagem: Sally Menke. Música: Joachim Olbeck. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Brian Kasch. Produção executiva: Cary Granat, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Elenco: Ewan McGregor, Nick Nolte, Josh Brolin, Patricia Arquette, Brad Dourif, John C. Reilly, Lauren Graham. Estreia: 02/07 (Semana Internacional de Cinema Fantástico de Málaga)

Mal-acostumado que é e extremamente resistente a filmes legendados, o público norte-americano volta e meia se vê "obrigando" produtores a traduzir à sua maneira produções elogiadas e bem-sucedidas em seus países de origem. Muitas vezes, tal transferência é um tiro no pé, com histórias interessantes e criativas sendo diluídas por uma visão frequentemente pasteurizada e encaixada nos padrões mais palatáveis ao gosto médio da plateia. De vez em quando, porém, os produtores acabam fazendo as escolhas certas e conseguem chegar bem perto do original, transmitindo a ideia principal de seus criadores em filmes acima da média - ainda que nem sempre isso seja certeza de uma receptividade positiva por parte da audiência. Um exemplo claro disso é "O principal suspeito", refilmagem do suspense policial "Nattevagten", lançado na Dinamarca em 1994. Dirigido pelo mesmo Ole Bornedal da versão original, o filme estrelado por um Ewan McGregor recém começando a navegar na onda do prestígio de suas colaborações com Danny Boyle - a saber, "Cova rasa" e "Trainspotting, sem limites" - estreou em um Festival Internacional de Cinema Fantástico na Espanha em fevereiro de 1997, mas só foi chegar aos cinemas americanos mais de um ano depois, rendendo pouco mais de um milhão de dólares nas bilheterias. Seu fracasso ajudou na demora do filme em estrear no resto do mundo - no Brasil só chegou em agosto de 1998 - e acabou com suas possibilidades de ser reconhecido como um dos mais intrigantes filmes do gênero na década.

McGregor, com o carisma que lhe é característico, vive Martin Bells, um jovem estudante de Direito que, para ajudar nas despesas e lhe dar tempo para estudar, arruma emprego como vigia noturno de um necrotério. O que para muitos é uma função apavorante, para ele acaba soando corriqueira depois das primeiras e solitárias noites. O problema maior de seu novo trabalho é o fato de ele estar no epicentro de um furacão: um serial killer violento tem matado prostitutas e arrancado seus olhos, deixando a cidade em pânico e o experiente inspetor Thomas Cray (Nick Nolte) duvidando de todos à sua volta. Com os nervos à flor da pele, o jovem Martin acaba se tornando suspeito dos crimes depois que uma brincadeira com seu melhor amigo, James (Josh Brolin) o liga a uma das vítimas e, sem saber com quem contar, ele perde também o apoio da namorada, Katherine (Patricia Arquette) e passa a ser ameaçado de perder o emprego - especialmente quando os cadáveres começam a lhe pregar sustos cada vez maiores.


Sem fugir dos elementos mais tradicionais do suspense clássico, o diretor Ole Bornedal transmite toda a tensão e a sensação de claustrofobia de seu protagonista sem precisar recorrer a muitos artifícios. Apenas com uma fotografia seca, uma edição de som inteligente e uma montagem que surpreende justamente por ser simples e eficiente, ele assusta o espectador e o conduz a uma trama instigante o suficiente para manter a atenção até os minutos finais - que até escorregam no clichê, mas mesmo assim de forma coerente. Espalhando pistas e suspeitos no decorrer da trama - até mesmo o excelente Brad Dourif dá as caras como um médico que trabalha no necrotério e não parece muito confiável - e sustentando todos eles com atores em dias inspirados (Nick Nolte especialmente), "O principal suspeito" convence até mesmo o mais escolado espectador. Sua despretensão em soar moderno ou ultra-surpreendente conquista desde os créditos iniciais - que dão o tom sombrio da narrativa - até o final, de uma tensão palpável e empolgante.

É lógico que "O principal suspeito", como entretenimento puro e simples, não tem intenções outras que não divertir por pouco mais de uma hora e meia, o que faz com extrema competência. Mas seu sucesso em alcançar notas tão altas com elementos tão básicos mostra com clareza que o mais importante em um filme não é um orçamento milionário, astros apáticos ou efeitos visuais mirabolantes. A lição que o filme passa, com sua simplicidade explícita, é que boas ideias e talento para colocá-las em prática são e sempre serão primordiais na arte. Os sustos, no filme de Bornedal, são francos e diretos - nada de gatinhos surgindo do nada ou cadeiras rangendo - e funcionam justamente porque soam reais e próximos. Essa tangência é o segredo do filme. Junto com o jeitão "gente como a gente" de Ewan McGregor, ela transforma uma diversão ligeira em um perfeito exemplar de refilmagem que supera o original.

quinta-feira

GUERREIRO

GUERREIRO (Warrior, 2011, Lionsgate, 140min) Direção: Gavin O'Connor. Roteiro: Gavin O'Connor, Anthony Tambakis, Cliff Dorfman, estória de Gavin O'Connor, Cliff Dorfman. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Sean Albertson, Matt Chessé, John Gilroy, Aaron Marshall. Música: Mark Isham. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Dan Leigh/Ron von Blomberg. Produção executiva: Lisa Ellzey, John J. Kelly, David Mimran, Michael Paseornek, Jordan Schur. Produção: Gavin O'Connor, Greg O'Connor. Elenco: Tom Hardy, Joel Edgerton, Nick Nolte, Jennifer Morrisson, Kevin Dunn. Estreia: 09/9/11

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Nick Nolte)

Tommy Riordan (Tom Hardy) volta à sua cidade natal depois de um afastamento de treze anos e reencontra o pai, Paddy (Nick Nolte) tentando abandonar o vício do álcool. Seu retorno tem um objetivo claro: ele quer ser novamente treinado para vencer o Grand Prix de MMA a ser realizado em Las Vegas e, com o dinheiro, cumprir a promessa feita à esposa de seu melhor amigo, morto em combate na Guerra do Iraque. Brendan Conlon (Joel Edgerton) é um professor de Física que está prestes a perder a casa onde mora com a esposa e as filhas pequenas (uma das quais tem uma doença cardíaca) e que vê no Grand Prix a chance de recuperar a propriedade e o amor-próprio - e apesar de ser considerado um azarão, jamais perde a esperança de vencer o torneio. Os dois homens, com interesses extremos na glória e no dinheiro, chegam juntos à disputa. Os dois tem um passado complicado - Tommy cuidou sozinho da doença da mãe, e Brendan ficou ao lado do pai mesmo sabendo não ser seu preferido. E os dois tem algo mais em comum: são irmãos.

Não deixa de ser fascinante perceber que, mesmo com todo o poderoso marketing que define o que deve ou não ser visto pelo público ainda seja possível descobrir pérolas que foram ignoradas injustamente pelo público. É o caso de "Guerreiro", que apesar de ter estreado em setembro de 2011 nos EUA saiu diretamente em DVD no Brasil. Injustiça pura! O filme do irlandês Gavin O'Connor (que também é ator e faz uma pequena participação como comentarista do torneio) é um emocionante drama esportivo que utiliza a seu favor todos os clichês do gênero e os entrega ao público com absoluta sinceridade. Sem jamais dedicar-se somente ao esporte que enfoca (cada vez mais popular no Brasil, como provam os UFC da vida), o roteiro cede espaço o bastante para que o espectador compactue com os problemas pessoais de seus protagonistas, se envolvendo aos poucos com suas vidas e sentimentos. Comparado por boa parte da crítica com "Rocky, um lutador", o filme de O'Connor - que também falou de problemas familiares em "Força policial" - é superior ao oscarizado trabalho estrelado por Sylvester Stallone em muitos fatores.


O principal fator de dá vantagem a "Guerreiro" em relação a "Rocky" é o fato de seus protagonistas serem mais críveis do que a personagem de Stallone. Enquanto Rocky era quase um deficiente mental com sua ingenuidade excessiva, Tommy e Brendan tem personalidades fortes e bem definidas, com raivas, rancores e sentimentos muito mais interessantes (não deixa de ser fascinante também o fato de o público ficar dividido no clímax do filme). No roteiro co-escrito pelo diretor não há heróis ou vilões e sim pessoas com defeitos e qualidades. É sintomático que, além das cenas de luta extremamente bem coreografadas, os momentos dramáticos sejam também bastante comoventes (em especial quando se conta com o trabalho excepcional de Nick Nolte, merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante).

"Guerreiro" é um filmaço, capaz de emocionar e empolgar qualquer tipo de audiência (até mesmo aquelas que não fazem a menor ideia do que seja MMA ou UFC). É humano e verdadeiro como "O vencedor" tentou ser e não chegou a conseguir. E ainda conta com dois atores centrais que ainda vão dar muito o que falar: Tom Hardy fez o vilão Bane em "O Cavaleiro das Trevas ressurge" e Joel Edgerton roubou a cena de Leonardo DiCaprio e Tobey Maguire na versão de "O grande Gatsby" dirigida por Baz Luhrmann. Juntos em cena, eles deixam impossível ao espectador desviar os olhos.

sexta-feira

TROVÃO TROPICAL

TROVÃO TROPICAL (Tropic Thunder, 2008, Dreamworks Pictures, 107min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Ben Stiller, Justin Theroux, Etan Cohen, estória de Justin Theroux e Ben Stiller. Fotografia: John Toll. Montagem: Greg Hayden. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Jeff Mann/Daniel B. Clancy. Produção executiva: Justin Theroux. Produção: Stuart Cornfeld, Eric McLeod, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Robert Downey Jr., Jack Black, Tom Cruise, Nick Nolte, Matthew McConaughey, Steve Coogan, Jay Baruchel, Brandon T. Jackson. Estreia: 13/8/08

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Downey Jr.)

Normalmente, quando Hollywood olha para o próprio umbigo e retrata seus bastidores, opta por fazê-lo em dramas autocomplacentes ou cinebiografias de qualidade variadas. Raramente ele busca o riso do espectador, mas quando isso acontece, coisas sensacionais como "Um cilada para Roger Rabbit", de Robert Zemeckis, "Ed Wood", de Tim Burton e "Os picaretas", de Steve Martin - que brincam com a fogueira das vaidades sem perder o carinho por ela - surgem e encantam o espectador inteligente, com piadas certeiras sobre o universo do cinema. Outro exemplar imperdível do gênero é "Trovão tropical", a hilariante comédia com que Ben Stiller provou que tem razoável poder de fogo na indústria, com uma arrecadação doméstica que ultrapassou os 100 milhões de dólares: a despeito de seu orçamento milionário ter ultrapassado os 90 milhões, o filme de Stiller foi um êxito incontestável de bilheteria.

Incontestável e merecido. "Trovão tropical" é uma comédia excepcional e corajosa, que não poupa ninguém dos bastidores do cinema, apontando sua metralhadora giratória para os atores comerciais com ambições mais sérias, para produtores gananciosos, agentes irresponsáveis, cineastas metidos a autorais, os prêmios da Academia e até mesmo para a força do cinema americano ao redor do mundo. Irônico e debochado, o roteiro - escrito a partir de uma história imaginada por Stiller e pelo ator Justin Theroux - tira sarro de tudo e de todos a partir de uma premissa que, não fosse totalmente coerente com o universo retratado, seria de um absurdo sem igual: o "Trovão tropical" do título é um filme produzido pelo excêntrico Les Grossman (Tom Cruise, irreconhecível e muito engraçado), que quer realizar o seu próprio épico sobre a guerra do Vietnã e para isso não mede esforços para reunir uma equipe invejável. O diretor,  Damien Cockburn (Steve Coogan), é um cineasta cult, metido a intelectual e os atores não ficam atrás: o conceituado Kirk Lazarus (Robert Downey Jr) é um veterano vencedor de 4 Oscar adepto do "método" (a ponto de fazer um tratamento dermatológico e escurecer a pele para interpretar um soldado negro), o outrora astro de filmes de ação Tugg Speedmn (o próprio Stiller) quer salvar a carreira depois de uma mal-sucedida investida em um drama pelo qual ambicionava um Oscar, e Jeff Portnoy (Jack Black) tenciona deixar pra trás sua carreira de comediante em um papel sério - e enfrenta problemas com seu vício em drogas.


A bagunça começa quando Damien morre ao pisar em uma mina escondida e os atores, julgando que estão sendo testados pela produção, continuam atuando sem perceber que estão sendo perseguidos por nativos do lugar - que tampouco sabem que eles são apenas atores e não soldados americanos com objetivos militares. Enquanto isso, em Hollywood, Rick Peck (Matthew McConaughey), o agente de Speedman, tenta de todas as maneiras possíveis, proporcionar a seu cliente os luxos a que está acostumado - mesmo batendo de frente com a arrogância do produtor Grossman, que nem de longe imagina que Speedman foi pego como refém de um grupo violento de soldados asiáticos.

Equilibrando com inteligência um humor visual com referências espertas ao mundo das celebridades - não é preciso muito conhecimento de causa para reconhecer em Jeff Portnoy um pouco de Eddie Murphy, por exemplo - "Trovão tropical" conquista por não ter medo de rir das entranhas da própria Hollywood, com seu egocentrismo e sua tendência a louvar mercenários em detrimento de reais artistas - ainda que mesmo esses sejam alvo de piadas inclementes. Além disso, dá a Robert Downey Jr. um dos papéis essenciais à sua carreira - que surgiu juntamente com "Homem de ferro" e "Zodíaco" em sua ressurreição artística. Merecidamente indicado a um Oscar de coadjuvante (que perdeu para a impressionante atuação de Heath Ledger em "Batman, o cavaleiro das trevas"), Downey é, dentre tantas coisas boas, a maior qualidade de "Trovão tropical". E isso não é pouco!

segunda-feira

PARIS, TE AMO

PARIS, TE AMO (Paris, je t'aime, 2006, Victoires International, 120min) Direção: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Joel Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuaron, Gerard Depardieu, Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer, Gus Van Sant. Roteiro: Emmanuel Benbihy, Bruno Polalydès, Paul Mayeda Berges, Gurinder Chada, Gus Van Sant, Joel & Ethan Coen, Walter Salles & Daniella Thomas, Christopher Doyle & Rain Li & Gabrielle Keng, Isabel Coixet, Nobuhiro Suwa, Sylvain Chomet, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, Oliver Schmitz, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Wes Craven, Tom Tykwer, Gena Rowlands, Alexander Payne & Nadine Eid. Fotografia: Maxime Alexandre, Michel Amathieu, Pierre Aim, Bruno Delbonnel, Eric Gautier, Frank Griebe, Eric Guichard, Jean-Claude Larrieu, Denis Lenoir, Rain Li, Pascal Marti, Tetsuo Nagata, Matthieu-Poirot Delpech, David Quesemand, Pascal Rabaud, Michael Seresin, Gérard Sterin. Montagem: Luc Barnier, Mathilde Bonnefoy, Stan Collet, Simon Jacquet, Anne Klotz, Isabel Meier, Alex Rodriguez, Hisako Suwa. Música: Pierre Adenot, Michael Andrews, Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Bettina von den Steinen/Hélène Dubreuil, Sébastien Monteux-Halleur. Produção executiva: Chris Bolzli, Gilles Caussade, Rafi Chaudry, Sam Englebardt, Ara Katz, Maria Kopf, Frank Moss, Chad Troutwine. Produção: Emmanuel Benbihy, Claudie Ossard. Elenco: Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Miranda Richardson, Sergio Castelitto, Leonor Watling, Javier Camara, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Elijah Wood, Emily Mortimer, Olga Kurylenko, Rufus Sewell, Natalie Portman, Gena Rowlands, Ben Gazzarra, Gerard Depardieu, Margo Martindale. Estreia: 18/5/06 (Festival de Cannes)

Que Paris é uma das cidades mais românticas e belas do mundo não há dúvida. Cenário natural de dezenas de filmes - sejam eles franceses, hollywoodianos ou de outros países com menor tradição na indústria do cinema - a cidade-luz teve a sua grande chance de transformar-se de pano de fundo em protagonista em "Paris, te amo", primeiro de uma série que continuou com Nova York e tem no Rio de Janeiro seu terceiro capítulo. Produção coletiva que apresenta uma equipe invejável de cineastas e atores das mais diversas nacionalidades, o filme, como sempre acontece com obras do tipo, é irregular, mas ainda assim tem a seu favor a inventividade, a imprevisibilidade e a delicadeza de todos os segmentos. É impossível não se apaixonar por ele.

Logicamente nem todas as histórias são marcantes, e algumas até mesmo soam bobas, mas é inegável que a maioria esmagadora dos diretores estava em dias inspirados. Diante do espectador desfilam tramas sobre amores perdidos, amores encontrados, vampiros, mímicos, solitários, escritores mortos e todo tipo de gente em busca da felicidade. Fotografado com carinho e um bom-gosto que deixa no espectador uma impressão onírica das mais fascinantes, "Paris, te amo" é, além de tudo, um conjunto de bons roteiros, bons diretores e bons atores, em um conjunto que deixa tudo ainda mais irresistível - em especial em alguns segmentos, que são tão inteligentes e interessantes que poderiam tranquilamente ultrapassar as limitações de um curta.


O primeiro segmento digno de destaque é "Quais de sene", dirigido por Gurinder Chadha, que acompanha o início da relação entre o estudante François (Cyril Descours) e a muçulmana Zarka (Leila Bekhti), em uma história que surpreende por não se deixar cair na armadilha fácil do conflito religioso. "Les Marais", de Gus Van Sant, mostra a tentativa de um jovem (Gaspard Ulliel, de "Eterno amor") em convencer um outro rapaz (Elias McConnell) a lhe telefonar para marcar um encontro. "Tuileuries", dos irmãos Coen - um dos episódios mais visuais e criativos - mostra as desventuras de um turista americano (o ótimo Steve Buscemi) quando encontra, à espera do metrô, um casal francês disfuncional. Os brasileiros Walter Salles e Daniella Thomas acompanham a jovem Ana (Catalina Sandino Moreno) em sua árdua rotina de trabalho como babá no singelo "Loin du 16e". Isabel Coixet se destaca magistralmente com a belíssima história de um homem (Sergio Castelitto) que se apaixona novamente pela esposa (Miranda Richardson) quando descobre que ela está morrendo de câncer. O extraordinário "Place des Victoires", de Nobuhiro Suwa, mostra o desespero de uma mãe (Juliette Binoche) que acaba de perder o filho.

Ainda chamam a atenção os segmento "Tour Eiffel", de Sylvain Chomet, que segue um mímico em seu dia-a-dia com extrema criatividade, "Quartier de La Madeleine", de Vincenzo Natali, que mostra um jovem, vivido por Elijah Wood, se apaixonando pela vampira Olga Kurylenko sob um visual deslumbrante e a história de amor entre um rapaz cego (Melchior Beslon) e uma atriz de cinema (Natalie Portman) contada pelo alemão Tom Tykwer em "Faubourg Saint-Denis" com uma edição ágil e empolgante - sua marca registrada desde o sucesso de "Corra Lola, corra". O episódio final, "14e arrondissement", de Alexander Payne, também merece destaque por, no mínimo, permitir que a sensacional atriz Margo Martindale, sempre coadjuvante, assuma um papel de protagonista e comprove seu enorme talento - mesmo quando está em silêncio.

Mesmo que algumas histórias não sejam tão fascinantes quanto as outras - situação corriqueira em filmes episódicos - "Paris, te amo" tem uma regularidade impressionante, mantendo a plateia deslumbrada desde seus primeiros minutos até seu final quase apoteótico, quando todas as tramas voltam à tela para uma despedida emocionante. É, sem dúvida, uma bela homenagem à grande cidade dos amantes.

sexta-feira

O PRÍNCIPE DAS MARÉS

O PRÍNCIPE DAS MARÉS (The prince of tides, 1991, Columbia Pictures, 132min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Pat Conroy, Becky Johnston, romance de Pat Conroy. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Don Zimmermann. Música: James Newton Howard. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Cary Heller, Arthur Howe Jr., Leslie Ann Pope. Produção executiva: Cis Corman, James Roe. Produção: Andrew Karsh, Barbra Streisand. Elenco: Nick Nolte, Barbra Streisand, Blythe Danner, Kate Nelligan, Melinda Dillon, Jeroen Krabbé, George Carlin, Jason Gould. Estreia: 25/12/91

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Nick Nolte), Atriz Coadjuvante (Kate Nelligan), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Nick Nolte)

Uma das polêmicas do Oscar 92 - que merecidamente consagrou "O silêncio dos inocentes" nas cinco principais categorias - foi a exclusão de Barbra Streisand entre as indicadas ao prêmio de melhor direção. Indicada ao Golden Globe e pela associação de diretores da América, Streisand foi esnobada pela mesma Academia que deu a seu filme sete indicações à estatueta, incluindo melhor filme. O que na época soou com uma afronta, porém, hoje em dia parece um raro acerto dos votantes. Apesar da delicadeza de vários momentos e da sutileza em conduzir temas pesados como tentativa de suicídio, estupro infantil e traumas familiares, Streisand falha em imprimir a seu "O príncipe das marés" o mais importante: personalidade.

Baseado em romance do escritor Pat Conroy - que co-escreveu o roteiro com Becky Johnston e concorreu ao Oscar por isso - "O príncipe das marés" tem uma trama instigante: Tom Wingo (Nick Nolte), um treinador de futebol americano desempregado, vive um desgaste em seu casamento e vê, aos poucos, sua família desintegrando-se. Sulista convicto, ele é praticamente obrigado a fazer uma viagem a Nova York depois da tentativa de suicídio de sua irmã gêmea, Savannah (Melinda Dillon) e encontra-se com sua psiquiatra, Susan Loweinstein (Barbra Streisand), uma médica conceituada que também está com o casamento - com um famoso violinista - em sérias dificuldades. Enquanto tenta fazer com que Tom revele alguns dos segredos de sua família - o que poderia explicar o comportamento de Savannah e ajudá-la em seu tratamento - Susan pede a ele que seja o treinador de seu filho adolescente, Bernard (Jason Gould, filho de Streisand na vida real, com o ator Elliott Gould), que deseja ser jogador mas se vê dividido pela pressão paterna a tornar-se músico. Cada vez mais próximos, acabam por envolver-se romanticamente, o que leva o retraído Tom a abrir para a psiquiatra uma traumática noite guardada no fundo de sua memória - principalmente devido ao controle obsessivo de sua mãe, Lila (Kate Nelligan, indicada ao Oscar de coadjuvante).


Fotografado esplendidamente por Stephen Goldblatt - responsável pela belíssima sequência inicial - "O príncipe das marés" tropeça em suas boas intenções. A história interessante acaba esvaziada por uma direção quase automática, que não busca soluções que não as mais óbvias. Nick Nolte - elogiadíssimo por seu desempenho, que chegou a ser favorito para um Oscar - não ultrapassa as limitações dos diálogos superficiais a que é submetido e sua química com Streisand não causa faíscas - seu romance parece existir mais como artimanha do roteiro do que uma relação orgânica e apaixonada. A própria Streisand não deixa de expor seu egocentrismo, sendo constantemente elogiada por seu protagonista e não hesitando em escolher sempre os ângulos que lhe favorecem em detrimento de uma edição mais ágil e eficaz - teria sido mais inteligente ficar apenas atrás das câmeras e escolhido outra atriz para estrelar o filme.

O elenco coadjuvante também tem altos e baixos. Enquanto Kate Nelligan e Melinda Dillon brilham como dois extremos da família Wingo - a força e a fragilidade - o filme perde sempre que entra em cena Jason Gould, que, em uma prova extrema de nepotismo, tem uma atuação abaixo da média como o filho rebelde sem causa de Loweinstein: sua transformação, assim como a de Tom e da própria Susan, soam falsas, forçadas e repentinas. Até mesmo a forte cena em que Tom abre seu coração e revela à médica seu maior trauma de infância remete mais às novelas da Globo do que a um filme com pretensões sérias. O roteiro mira em Freud, mas acerta em Glória Perez.

Porém, é inegável que "O principe das marés" tem suas qualidades. É elegante, é adulto e flerta com temas sérios - ainda que passe superficialmente por eles. Faz bom uso da fotografia e da trilha sonora e tem um final coerente e sensível. Não é uma obra-prima, mas cumpre boa parte do que promete, desde que não se busque mais do que um filme bem produzido.

quarta-feira

O ÓLEO DE LORENZO

O ÓLEO DE LORENZO (Lorenzo's oil, 1992, Universal Pictures, 129min) Direção George Miller. Roteiro: George Miller, Nick Enright. Fotografia: John Seale. Montagem: Marcus D'Arcy, Richard Francis-Bruce. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Casting: Canice Kennedy, John S. Lyons. Produção executiva: Arnold Burk. Produção: George Miller, Doug Mitchell. Elenco: Nick Nolte, Susan Sarandon, Peter Ustinov, Zach O'Malley, Laura Linney, James Rebhorn. Estreia: 30/12/92

2 indicações ao Oscar: Atriz (Susan Sarandon), Roteiro Original

Se o filme "O campeão" (1979), de Franco Zefirelli, era o pesadelo de qualquer criança, pode-se considerar este "O óleo de Lorenzo" como o mais aterrador sonho de quaisquer pais. Baseado em uma história real, o filme de George Miller - que apesar do background inusitado que inclui "Mad Max" e "As bruxas de Eastwick" é formado em Medicina - versa sobre o  mais profundo medo que uma mãe ou um pai possa ter em relação aos filhos: uma doença rara e incurável.

É justamente uma doença rara e incurável - adrenoleucodistrofia, uma doença degenerativa que mata os pacientes (sempre meninos antes da adolescência) poucos anos após seu diagnóstico - que ataca o pequeno Lorenzo Odone (o impressionante Zack O'Malley Greenburg) aos cinco anos de idade. Filho único da dona-de-casa Michaela (Susan Sarandon) e caçula do professor Augusto (Nick Nolte), ele torna-se agressivo repentinamente e, aos poucos, começa a perder o controle sobre os membros e a capacidade de comunicar-se verbalmente. Desesperados com a falta de conhecimento a respeito do mal que está destruindo o menino, o casal resolve investigar por conta própria e tentar encontrar uma maneira de deter o avanço da enfermidade. Desencorajado por outros pais que lideram uma associação, eles contam com a ajuda de um dedicado médico (Peter Ustinov) para atingir seu objetivo e impedir a morte de Lorenzo.

George Miller não poupa o espectador em sua jornada médico-familiar. Escorado em uma atuação quase miraculosa de Susan Sarandon, "O óleo de Lorenzo" não tenta fugir do dramalhão inerente à sua história: é um filme pesado, triste, sofrido, mas ao mesmo tempo é um conto repleto de esperança, amor e tenacidade. A batalha do casal Odone pela cura inexistente para a doença do filho é narrada de forma clássica pelo cineasta, que utiliza a trilha sonora barroco/religiosa para sublinhar os momentos de maior dramaticidade - um pequeno exagero que não chega a atrapalhar sua paixão pela história. Editado de forma ágil, com cenas curtas mas eficientes, o calvário de Lorenzo conquista a plateia devido principalmente à sua honestidade e extremo senso humano. Tudo coroado por uma Susan Sarandon que mereceria ter ganho o Oscar para o qual foi indicada - ela perdeu para Emma Thompson, em "Retorno a Howards End".



Com total entrega à sua personagem, Sarandon criou uma "mater dolorosa" como poucas vezes se viu no cinema americano nos anos 90, onde imperou o cinismo e a violência exarcebada. Seu estoicismo e sua coragem em encarar de frente uma situação desesperadora seguram o filme no limite do tolerável - afinal de contas, testemunhar um sofrimento como o de Lorenzo (interpretado com surpreendente talento pelo pequeno Zack O'Malley Greenburg) não é programa dos mais palatáveis. E sua performance memorável torna-se ainda mais fantástica quando comparada ao trabalho quase caricato de seu parceiro de cena: como o italiano Augusto Odone, Nick Nolte força a barra em inúmeros momentos, fazendo de sua trágica personagem um quase pastiche: um sotaque equivocado é o um dos defeitos de sua interpretação quase risível. Um ator mais sutil ao lado de Sarandon com certeza faria de "O óleo de Lorenzo" um filme ainda melhor.

Mesmo que não possa ser considerado jamais como um entretenimento agradável ou alto-astral, "O óleo de Lorenzo" é uma ode ao amor paterno e um elogio consagrador à esperança.

terça-feira

CABO DO MEDO

CABO DO MEDO (Cape fear, 1991, Amblin Entertainment, 128min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Wesley Strick, roteiro original de James E. Webb, romance de John D. MacDonald. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Ileana Douglas. Estreia: 13/11/91

2 indicações ao Oscar: Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Juliette Lewis)

Martin Scorsese é o cara! Quando lança um projeto pessoal - como "Taxi driver", "Touro indomável" ou "Os bons companheiros" - se supera em técnica e paixão. E até mesmo quando trabalha praticamente sob encomenda, deixa no chinelo qualquer um que se considere cineasta. "Círculo do medo", realizado em 1962, e dirigido por J. Lee Thompson é um belo suspense. Mas empalidece consideravelmente em comparação à refilmagem comandada por Scorsese. "Cabo do medo", a reinvenção produzida pela Amblin Entertainment de Steven Spielberg, é uma das experiências mais angustiantes dos anos 90, amparada por um assustador Robert DeNiro.

Na verdade o próprio Spielberg é quem tinha interesse em refilmar "Círculo do medo" e, depois que ele deixou o filme de lado para realizar "Hook, a volta do Capitão Gancho", teve que praticamente implorar a Scorsese que comprasse a ideia. Contando com a valiosa ajuda de DeNiro, o diretor de "ET" finalmente foi feliz - mas só depois que o roteiro inicial de Wesley Strick sofreu profundas transformações. Nas mãos de Scorsese a banal luta entre advogado e cliente vingativo tornou-se um claustrofóbico embate entre dois homens dispostos a qualquer coisa para atingir seus objetivos. Com elementos novos adicionados à mistura - como sexualidade reprimida, adultério e uma personalidade bem menos unidimensional a seus protagonistas - o filme tornou-se a maior bilheteria da carreira do cineasta até "Os infiltrados", de 2006.

Quando "Cabo do medo" começa, Max Cady (Robert DeNiro, indicado a mais um Oscar por uma atuação apavorante) está saindo da cadeia, depois de passar 14 anos preso por estupro. Analfabeto à época de sua condenação, o violento agressor utilizou seu período de condenação para aprender a ler e estudar, descobrindo, nesse meio-tempo, que seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte em papel oferecido a Harrison Ford e Robert Redford) escondeu documentos que poderiam ter lhe amenizado o veredicto - ou até mesmo absolvê-lo. No momento de sua libertação, então, só o que lhe passa pela doentia mente é vingar-se de Bowden e, para isso, ele inicia um processo de violência psicológica contra ele e sua família, formada pela esposa, Leigh (Jessica Lange) e pela filha adolescente Danielle (Juliette Lewis). Passando por uma crise - despertada pela infidelidade conjugal de Sam - a estrutura familiar aparentemente sólida começa a ruir diante da fúria de Cady, que não mede esforços em direção a realizar sua missão.

A diferença entre "Cabo do medo" e dezenas de outros suspenses que fazem a festa dos programadores dos sábados televisivos é justamente o comando certeiro de Martin Scorsese. Dono de uma sensibilidade ímpar e de uma inteligência acima da média - além de uma cultura cinematográfica de cair o queixo - Scorsese imprime em seu filme uma personalidade inconfundível. Além de assustar o espectador em diversos momentos - afinal, um filme de suspense pede por isso - ele acrescenta à história uma densidade quase palpável. A trilha sonora tonitruante de Elmer Bernstein - que utiliza trechos da obra que Bernard Herrmann criou para o filme original - é tensa, forte e marcante, surgindo sempre como uma ameaça, um comentário ou um aviso de que Max Cady, com todo o seu ódio, está à espreita. A fotografia quente de Freddie Francis localiza com perfeição a trama no sul dos EUA - um lugar onde o medo já é costume, como bem diz uma personagem acostumada a sua terra natal. E o fato da família Bowden dessa nova versão não compartilhar da mesma felicidade de margarina do primeiro filme proporciona ao espetáculo um senso de realidade e modernidade que, ao contrário de distorcer a ideia inicial do romance de John D. MacDonald, apenas colabora em lhe dar mais profundidade.


E a profundidade do roteiro de Strick encontra no elenco escolhido por Scorsese um amparo espetacular. Enquanto DeNiro dispensa qualquer tipo de comentário, com uma atuação que supera qualquer expectativa - apesar de algumas críticas terem-no considerado um pouco exagerado. Nick Nolte transmite a angústia e a perplexidade de Sam Bowden com a segurança que seus vários anos de carreira lhe garantem e Jessica Lange vive uma Leigh equilibrada entre a fragilidade feminina e a força absoluta da maternidade. Gregory Peck e Robert Mitchum, atores da primeira versão do filme, participam em pequenas cenas, em uma homenagem carinhosa dos produtores. Mas é Juliette Lewis quem se destaca mesmo diante de seus consagrados colegas de cena. Indicada ao Oscar de coadjuvante aos 17 anos, ela abiscoitou o papel para o qual foram testados nomes como Reese Witherspoon, Jennifer Connelly e Winona Ryder e se revelou uma das grandes promessas do início da década de 90. A cena em que sua Danielle Bowden é praticamente seduzida por Cady em um cenário de peça de teatro infantil é um primor de sutileza, tensão e erotismo, uma ambivalência que perpassa todo o filme.

"Cabo do medo" pode ser assistido como um filme de suspense dos bons - com uma força crescente a cada sequência. Mas psicologicamente ele vai anda mais longe, discorrendo, ainda que discretamente, sobre complexo de Édipo, taras sexuais, frustrações eróticas e o suave equilíbrio entre o certo e o errado. É uma experiência única, como somente um diretor do porte de Scorsese é capaz de proporcionar.

quarta-feira

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.


O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.




Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...