BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16
Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.
Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).
Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.
A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!
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O AGENTE DA U.N.C.L.E.
O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)
Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.
Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.
A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.
Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.
Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.
Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.
A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.
Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.
quinta-feira
TUDO PODE DAR CERTO
TUDO PODE DAR CERTO (Whatever works, 2009) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Harris Savides Montagem: Alisa Lepselter Figurino: Suzy Benzinger Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Ellen Christiansen Produção executiva: Brahim Chioua, Vincent Maraval Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Henry Cavill, Patricia Clarkson, Ed Begley Jr. Estreia: 22/4/09
Boris Yellkinoff é um sexagenário
a um passo da misantropia, que passa seus dias ensinando xadrez a crianças que
ele considera zumbis sem cérebro e pregando a seus amigos sua visão particular
(e obviamente negativa) do mundo, da vida e da humanidade em geral, que ele considera
um fracasso absoluto. Manco de uma perna – consequência de uma abortada
tentativa de suicídio ocorrida à época de seu divórcio – e incapaz de dar-se ao
luxo de um simples prazer, ele também sofre de um transtorno psicológico que o
faz cantar “Parabéns a você” quatro vezes sempre que lava as mãos e é o
protagonista de “Tudo pode dar certo”, 45º filme de Woody Allen, que volta à
sua Nova York natal depois de uma refrescante volta ao mundo que legou aos fãs
obras geniais como “Match point: ponto final” (rodado na Inglaterra) e “Vicky
Cristina Barcelona” (que, como o próprio título deixa claro, se passava na
Espanha). Interpretado por Larry David – conhecido do público por seu papel na
série de TV “Curb your enthusiasm” – Yelnikoff é mais um personagem icônico
criado por Allen, um diretor que, apesar da longevidade da carreira e da
prolífica produção, ainda encontra meios de surpreender e encantar a plateia,
mesmo que em pequenas proporções.
“Tudo pode dar certo” não é um dos
melhores filmes do cineasta, mas ainda assim tem momentos brilhantes – em
especial graças aos diálogos inteligentes e sardônicos – e alguns insights
geniais a respeito do mundo e da sociedade atuais (difícil não ver em Yelnikoff
muito do próprio Allen, que por mais que tente, nunca consegue convencer
crítica e público que seus personagens são totalmente obra de ficção e não
inspirados em sua própria e conhecidíssima persona). Boris é um resmungão chato
e rabugento, mas não deixa de ter razão em muitas de suas afirmações, o que o
torna deliciosamente verdadeiro: percebendo antes de todo mundo a
insignificância dos problemas humanos e acreditando piamente que os homens não
tem dentro de si a bondade inerente que muitos afirmam, ele é um espectador
atento do colapso da Criação, mas seu mau-humor e cinismo constantes são tão
desprovidos de maldade que se tornam hilariantes e encantadores, especialmente
para a segunda protagonista criada por Allen – tão radicalmente diferente em
sua inocência e otimismo que acaba, inevitavelmente, colidindo e invadindo
compulsoriamente o mundinho cético do veterano professor.

Melody Celestine (a bela e
talentosa Evan Rachel Wood, de “Aos treze” (03) e “Across the universe” (07) é
o extremo oposto de Boris. Ingênua, otimista e pouco dotada intelectualmente,
ela chega à Nova York disposta a vencer na vida – o que ela acha que pode
acontecer facilmente, haja visto seus prêmios em concursos de beleza em sua
pequena cidade do interior do país. Contrariando todas as regras que sua
ojeriza à boa parte das pessoas manda, o homem que um dia foi candidato a um
Nobel de Física deixa que a jovem – que não conhece ninguém na cidade e nem tem
onde dormir - entre em seu apartamento e passe a noite lá. Quando ele percebe,
já se passaram meses e a situação não dá sinais de mudança – a não ser na
personalidade da própria Melody, que passa a ver o mundo com os olhos do novo
amigo até que se declara, para surpresa geral, apaixonada por ele. Os dois
universos aparentemente antagônicos acabam por se unir em um casamento
inusitado, mas uma nova visita pode pôr tudo a perder: abandonada pelo marido,
sem a propriedade que foi obrigada a vender e querendo reaproximar-se da filha,
a mãe de Melody, Marietta (Patricia Clarkson, sempre ótima) chega à Manhattan –
e ao mesmo tempo em que se envolve simultaneamente com dois homens e descobre a
fotografia como carreira, resolve livrar a filha do relacionamento com Boris,
aproximando-a do jovem ator inglês Randy James (Henry Cavill, o futuro “Homem
de aço” (13)).
Mesmo sem apresentar nada de muito novo dentro do universo no qual transitam suas criações, Woody Allen consegue, em “Tudo pode dar certo”, conquistar o público com personagens deliciosamente construídos, repletos de contradições e angústias como qualquer pessoa normal. Com sua visão ácida da vida e a experiência adquirida em décadas de carreira, o cineasta/roteirista demonstra um conhecimento único da alma humana, brindando suas criações com uma dose certeira de coerência e impulsividade. É assim que a religiosa e rígida Marietta abandona a conduta irretocável de sua vida pregressa para entregar-se a um relacionamento afetuoso e satisfatório com dois homens ao mesmo tempo – mas nem por isso deixa de lado a vontade de encontrar para a filha um homem mais adequado à sua idade e possibilidades futuras. É assim que Melody se encanta por um homem com idade para ser seu avô por causa de sua forma quase crua de enxergar o mundo – mas acaba percebendo que isso o impede (e a ela, por consequência) de enxergar as coisas boas da vida. É assim que o pai de Melody (Ed Begley Jr.) redescobre uma nova faceta de sua vida – escondida até de si mesmo por décadas – quando chega à cidade atrás da ex-mulher. E, finalmente, é assim que Boris descobre, da maneira mais prosaica do mundo, que nem tudo é parte de um plano maior – e que é preciso fazer o que for mais acessível para finalmente encontrar um mínimo de felicidade.
Contrastando com o pessimismo
irredutível de algumas das obras mais bem-sucedidas de Allen (caso do
excepcional “Crimes e pecados”, de 1989), o final feliz de “Tudo pode dar
certo” contraria até mesmo a forma como Boris apresenta o filme, quebrando a
quarta parede e dirigindo-se diretamente ao público. Segundo ele, o que está
para ser visto não é um filme alto-astral, feito para agradar e fazer com que
todos saiam do cinema sorrindo e felizes. Mas, de forma irônica e como que
enfatizando a impotência do homem em ditar as regras do seu futuro, Allen faz
com que o desfecho da trama vire pelo avesso as teorias radicais de seu
ranzinza protagonista, dando até mesmo a ele a chance de uma redenção e revisão
de ideologias. No fim das contas, é um Woody Allen otimista e benevolente que
se mostra em “Tudo pode dar certo” – o que, de certa forma, não deixa de ser
também uma reversão de expectativas das mais agradáveis e bem-vindas.
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