ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, Summit Entertainment/Cross Creek Pictures, 139min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Robert Schenkkan, Andrew Knight. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: John Gilbert. Música: Rupert Gregson-Williams. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Rebecca Cohen. Produção executiva: Michael Bassick, Lawrence Bender, Len Blavatnik, Stuart Ford, David Greathouse, Eric Greenfeld, Lenny Kornberg, Mark C. Manuel, Rick Nicita, Ted O'Neal, Buddy Patrick, Lauren Selig, Tyler Thompson, James M. Vernon, Suzanne Warren, Christopher Woodrow. Produção: Terry Benedict, Paul Currie, Bruce Davey, William D. Johnson, Bill Mechanic, Brian Oliver, David Permut. Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Richard Roxburgh. Estreia: 04/9/16 (Festival de Veneza)
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Ator (Andrew Garfield), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Mixagem de Som
Quando surgiu para o grande público, no final dos anos 70, como o protagonista de "Mad Max" (79) e suas duas sequências, o australiano Mel Gibson tornou-se, instantaneamente, no astro de filmes de ação que os produtores pediram a Deus: bonito a ponto de ser vendido também como símbolo sexual (ao contrário de Stallone e Schwarzenegger), talentoso e carismático. Na década de 80, confirmou o status de ídolo com a trilogia "Máquina mortífera" e, nos anos 90, mostrou o lado sensível de diretor de filmes como "O homem sem face" (93) e "Coração valente" (95) - que lhe rendeu os Oscar de filme e direção. Nesse meio-tempo, em que arriscou até mesmo um Shakespeare dirigido por Franco Zefirelli - "Hamlet", de 1990 -, Gibson foi construindo uma carreira invejável, repleta de sucessos de bilheteria e um prestígio que poucos poderiam prever quando de sua chegada em Hollywood. Se havia alguém que poderia estragar sua ascensão, esse alguém era ele mesmo - e ele não hesitou em tomar providências a esse respeito. Se na década de 90 já havia criado polêmica com declarações homofóbicas (que mesmo assim não chegaram a arranhar seu sucesso), ele teve que lidar, nos primeiros anos do novo século, tanto com um surpreendente e imenso êxito profissional quanto com o quase fim de sua carreira - uma situação criada por ele mesmo.
O êxito veio com a bilheteria monstruosa e inesperada de "A paixão de Cristo" (2004) - um projeto ambicioso, violento, visceral e arriscado que arrecadou mais de 600 milhões de dólares mundo afora, a despeito de seu tom antissemita. E foi antissemitismo também que ajudou a cavar o buraco no qual Gibson cairia em seguida: somadas a acusações de violência doméstica e brigas com autoridades policiais, declarações controversas do ator/diretor o empurraram diretamente para um ostracismo que parecia definitivo - em poucos anos Gibson passou de um dos mais quentes nomes de Hollywood a um pária cujos filmes fracassavam em todos os níveis. Mas, assim como sabe destruir uma carreira, a indústria de cinema também sabe perdoar quando quer - e eis que, dez anos depois de seu último trabalho como diretor, o ousado "Apocalypto", Mel Gibson se viu finalmente digno de uma segunda chance entre seus colegas. Indicado a 6 Oscar - incluindo melhor filme e diretor - o drama de guerra "Até o último homem" não apenas conquistou a Academia (que lhe premiou com as estatuetas de montagem e mixagem de som) como marcou seu reencontro com o público - com uma renda mundial estimada em mais de 175 milhões de dólares, seu filme parece ter sido a melhor maneira de acenar por uma trégua. O melhor da história toda? O filme merece.
Inspirado em uma quase inacreditável história real, "Até o último homem" volta a mostrar o lado religioso de Gibson - que novamente equilibra um tom espiritual e sequências de extrema violência, ainda que menos gráficas do que as mostradas em "A paixão de Cristo". Ao contrapor a crueldade da guerra à religiosidade de seu protagonista, o diretor ameniza a truculência de algumas imagens e entrega ao espectador um conto empolgante a respeito da força da fé e do idealismo. Mesmo sem soar excessivamente messiânico, o roteiro deixa explícitas as razões que movem seu personagem central e, graças a uma interpretação absolutamente impecável de Andrew Garfield (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator), faz com que a plateia compactue com elas e se envolva na trama sem reservas. Um filme de guerra onde a guerra em si só dá as caras no terceiro ato - e como cenário para um desfecho emocionante -, "Até o último homem" é um triunfo como cinema: pode-se dizer até mesmo que é o melhor e mais maduro trabalho de Gibson como cineasta, unindo no mesmo pacote uma história bem contada, sequências de guerra orquestradas com capricho, uma técnica invejável e um elenco inspirado.
Garfield - que no mesmo ano esteve em "Silêncio", de Martin Scorsese, provando sua versatilidade - é o corpo e a alma de "Até o último homem". Ele interpreta o protagonista, Desmond Doss, com uma garra e uma paixão que salta da tela direto ao coração da plateia. Desmond é um dos dois filhos de Tom Doss (Hugo Weaving), veterano da I Guerra Mundial traumatizado pela perda dos colegas e entregue ao álcool e à violência doméstica contra a esposa, Bertha (Rachel Griffiths). Criado como adventista do sétimo dia e profundamente religioso, Desmond vê nos mandamentos de Deus sua régua moral absoluta mas, mesmo assim, ao lado do irmão, se alista como voluntário para lutar na II Guerra. Sua intenção é servir como médico e não atacar os inimigos: tal regra acaba sendo motivo para que ele bata de frente com seus superiores e seus colegas, que não veem com bons olhos um soldado não disposto a pegar em armas nem mesmo para sua defesa. Aos poucos, no entanto, Desmond vai conquistando o respeito de todos - até que em uma missão específica, em Okinawa, ele se torna um improvável herói... sem disparar sequer um único tiro.
Emocionante e brilhantemente executado, "Até o último homem" não foge dos clichês dos filmes do gênero, quando se rende a algumas de suas mais antigas regras - o treinamento, as dificuldades de relacionamento dentro do pelotão, os personagens quase estereotipados -, mas faz deles um uso inteligente e adequado, como forma de prender a atenção da plateia até seu último (e empolgante) ato, quando Desmond se torna um herói não através da violência, mas sim da compaixão e do amor pelos companheiros. Pode parecer um discurso estranho para alguém que estrelou e/ou dirigiu alguns dos filmes mais violentos das últimas décadas, mas não deixa de ser um respiro de humanidade em um gênero tão repleto de sangue e tristeza. Mel Gibson merece o perdão... ao menos até o próximo escândalo!
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quarta-feira
domingo
WALT NOS BASTIDORES DE "MARY POPPINS"
Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Não deve haver honra maior para um
escritor de livros infantis do que ver seu trabalho transposto para as telas de
cinema, especialmente sob o comando de um dos mais poderosos e respeitados
nomes da indústria, certo? Errado, se seu nome for P (de Pamela) L. Travers, a
autora do clássico “Mary Poppins”, que demorou mais de vinte anos para
autorizar a adaptação de seu livro pelos Estúdios Disney – que, a rigor, era o
mais apropriado para o trabalho, haja visto sua enorme contribuição ao universo
infanto-juvenil através das décadas, com seus desenhos animados alegres,
musicais e coloridos. Pois eram justamente essa alegria, essa música e esse
colorido todo os principais empecilhos que separavam Disney de Poppins: avessa
ao “estilo Disney” de cinema, Travers recusava-se terminantemente a vender os
direitos de sua obra de estimação – uma teimosia que, na verdade, tinha raízes
bem mais profundas e dramáticas do que uma simples birra intelectual, como
mostra o belo e suave “Walt nos bastidores de ‘Mary Poppins’”, a dramatização
da difícil relação travada entre a escritora australiana e o produtor
hollywoodiano.
Uma deliciosa e melancólica comédia
dramática dirigida por John Lee Hancock – que assinou o apenas razoável “À
procura da felicidade” (06) e o sofrível “Um sonho possível” (09) – surpreende
justamente pelo currículo de seu diretor, acostumado a exagerar na sacarose de
seus filmes a ponto de torná-los quase indigestos. Em “Walt nos bastidores de
‘Mary Poppins’” (um título esdrúxulo que não é apenas pobre mas que também
acaba com as nuances do original “Saving Mr. Banks”) ele não abre mão da
emoção, mas talvez amparado por um roteiro recheado de um senso de humor
inocente e principalmente pela atuação primorosa de Emma Thompson no papel de Travers,
consegue escapar do sentimentalismo barato. Tudo bem que em um momento ou outro
chega bem perto, mas tal opção não deixa de ser coerente com o espírito do
estúdio e de seu criador, retratado no filme como um homem empreendedor,
compreensivo e adorável – e, portanto, bem a cara de seu intérprete, Tom Hanks.
Enquanto na verdade (e várias fontes confirmam a informação) Disney não era
exatamente tão meigo – existem até acusações de misoginia em sua trajetória –
no filme de Hancock, ele é a personificação das qualidades de seu império dos
sonhos. Em um outro contexto soaria cínico. Dentro do universo do filme, chega
a ser confortador.
Com exceção de um pequeno flashback
que mais tarde fará parte de uma tela maior de ternas e tristes recordações da
protagonista, “Saving Mr. Banks” começa em abril de 1961, em Londres, quando a
escritora P. L. Travers (Emma Thompson, indicada ao Golden Globe e ignorada
pelo Oscar) finalmente aceita, por motivações puramente financeiras – seus
livros pararam de vender e ela não consegue escrever mais nada – viajar à
Califórnia para negociar a venda dos direitos de sua mais querida obra, “Mary
Poppins”, para uma adaptação cinematográfica. Depois de duas décadas negando-se
terminantemente a ver seus personagens contracenando com desenhos animados e
musicais coloridos, ela chega munida de uma boa dose de mau-humor e resistência
para conversar pessoalmente com Walt Disney (Tom Hanks) e verificar se todas
suas exigências serão cumpridas antes da assinatura do contrato. No entanto, o
que surpreende não só à Disney mas ao roteirista Don DiGradi (Bradley Whitford)
e aos compositores Dick (Jason Schwartzman) e Bob Sherman (B. J. Novak) nem é
tanto o apego da escritora à sua criação, e sim a forma com que ela pretende
sabotar o projeto: com pedidos cada vez mais absurdos (inclusive a
não-utilização do vermelho no filme), Travers passa a enlouquecer os
funcionários do estúdio, que nem de longe imaginam os motivos de tanta
intransigência.
Tais motivos, no entanto, surgem diante dos olhos do espectador iluminados por flashbacks intercalados com a permanência de Travers na Califórnia. Nessas lembranças, fotografadas com um tom dourado que evoca um passado que mescla felicidade e desespero, surge a figura da escritora como uma criança que vê sua vida transformada pela queda de status econômico da família na Austrália do começo do século XX, pelo alcoolismo crônico do pai amoroso mas pouco responsável (Colin Farrell, brilhante) e pela chegada da ajuda de uma babá inesperada (Rachel Griffiths) – fonte de inspiração para sua inesquecível criação literária. Esses momentos, dotados de uma sensibilidade poética, contrabalançam o humor quase ingênuo com que o roteiro brinda o espectador, como a mostrar que, até mesmo por trás da mais alegre e inspiradora história infantil pode existir um mundo de tristeza e traumas. E esse equilíbrio é, de certa forma, uma das maiores qualidades do filme de Hancock.
Encapsuladas na atuação sublime de
Emma Thompson – que comanda o espetáculo com sobriedade e uma sutileza que a
confirma como uma das grandes atrizes de sua geração – as boas ideias do
roteiro de “Saving Mr. Banks” encontram eco em um ritmo agradável e uma trilha
sonora mais do que adequada de Thomas Newman, única indicação ao Oscar recebida
pelo filme. Todas as cenas em que Travers se utiliza das prerrogativas de dona
da bola são sensacionais – é brilhante quando Travers começa a implicar com as
abreviações técnicas do roteiro, com rigorosamente todas as ideias do
roteirista e principalmente com as canções e a possibilidade de inserir
animação no filme – e encaminham a narrativa para um clímax emocionante,
quando, sentada no escurinho do cinema, ela finalmente deixa fluir as lágrimas
presas por anos e anos de uma saudade que somente a sétima arte pode curar – ao
menos paliativamente. Esse final sozinho já vale a sessão. É um tanto piegas,
mas é irresistível!
segunda-feira
HILARY & JACKIE
HILARY & JACKIE (Hilary and Jackie, 1998, Channel Four
Films, 121min) Direção: Anand Tucker. Roteiro: Frank Cottrell Boyce,
livro "A genius in the family", de Hilary Du Pré, Piers Du Pré.
Fotografia: David Johnson. Montagem: Martin Walsh. Música: Barrington
Pheloung. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Alice
Normington/Trisha Edwards. Produção executiva: Guy East, Ruth Jackson,
Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Kent, Andy Paterson. Elenco: Emily
Watson, Rachel Griffiths, James Frain, Charles Dance, David Morrissey,
Celia Imrie. Estreia: 05/9/98 (Festival de Veneza)
2 indicações ao Oscar: Atriz (Emily Watson), Atriz Coadjuvante (Rachel Griffiths)
Quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar, por seu aterrador desempenho em "Ondas do destino", de Lars Von Trier, a atriz Emily Watson era um rosto desconhecido do grande público, mas provou que tinha talento de sobra para disputar uma estatueta com nomes consagrados como Diane Keaton e Frances McDormand (que acabou vencendo a parada, por "Fargo"). Em 1999, dois anos depois de ter chamado a atenção dos cinéfilos, dos críticos e da própria Academia, ela voltou à lista das cinco indicadas ao prêmio principal por uma atuação ainda melhor. Em "Hilary & Jackie", a história real da violoncelista Jacqueline du Prè - vítima de uma doença degenerativa que encerrou precocemente sua brilhante carreira - é mérito unicamente de sua visceral interpretação o fato de despertar compaixão e simpatia por uma personagem arrogante, egoísta e quase desagradável. Sua tour de force é tamanha que até hoje é simplesmente inacreditável que tenha perdido o Oscar para Gwyneth Paltrow - em um ano em que só poderia ser superada por Cate Blanchett em "Elizabeth" ou Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".
Baseado no livro escrito pelos irmãos Hilary e Piers du Prè, "Hilary & Jackie" acompanha a trajetória de duas irmãs, musicistas talentosas, que tem seus destinos desviados na juventude, quando decidem seguir rumos distintos na vida. Quando criança, Hilary, a mais velha, destaca-se como flautista, e desperta na irmã caçula, Jacqueline (ou Jackie) uma inveja branca que a faz esforçar-se arduamente nos estudos do violoncelo. Sua dedicação logo dá resultados e ela inicia, ainda bastante jovem, uma bem-sucedida série de concertos pela Europa, enquanto a irmã abandona a música para casar-se com e criar uma família no interior do país. A vida de celebridade de Jackie, porém, parece não lhe ser suficiente, e ela não demora a notar que nem mesmo seu casamento com o pianista Daniel Barenboim (James Frain) lhe traz a felicidade que almeja. As duas voltam a se encontrar, então, quando Jackie - por motivos não revelados a ninguém - procura Hilary em seu sítio, disposta a largar mão de tudo que conquistou para ter as mesmas coisas que a irmã mais velha - incluindo seu marido, Kiffer Finzi (David Morrissey). Algum tempo mais tarde, ela descobre sofrer de uma grave doença degenerativa, que a afasta de vez dos palcos e da música.
Brilhantemente roteirizado - contando sua história sob dois pontos de vista convergentes, que só fazem sentido completo ao final da sessão - "Hilary & Jackie" brinda o espectador com uma história fascinante que envolve amor e inveja fraternais, obsessão pela perfeição, o vazio da fama e, pra completar, uma melancólica e devastadora doença. Sem deixar-se cair nas armadilhas que uma história assim apresenta, tanto o roteiro quanto a direção (essa última a cargo de Anand Tucker, que sete anos depois assinaria o delicado "A garota da vitrine", com Steve Martin e Claire Denis) conduzem a trama de maneira sensível e harmoniosa, sem julgamentos morais ou exageros sentimentaloides. A inteligência de mostrar somente aos poucos as razões que levam Jackie a procurar conforto na família de sua irmã quando entra em surto quase psicótico dá ao filme uma ressonância dramática ímpar, justamente por proporcionar ao público a visão privilegiada de uma situação limítrofe, extremamente pessoal e de uma tristeza infinita, sem que para isso seja preciso tratá-la com sensacionalismo ou vulgaridade. Os desdobramentos melodramáticos da história entre as duas irmãs são tão surpreendentes e até moralmente discutíveis que não deixa de ser também corajoso mostrá-los com a naturalidade e a compaixão com que surgem diante da plateia.
Mas, apesar de todas as discussões sobre arte e relacionamento familiar que lança ao espectador, é no desempenho irretocável de Emily Watson que se apoia "Hilary & Jackie". Mesmo que Rachel Griffiths também esteja em dias iluminados, com uma atuação econômica mas poderosa que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, é impossível tirar os olhos de Watson, que, tendo estudado violoncelo na infância, assume com segurança e impressionante veracidade o papel de Jacqueline du Prè, desde seus momentos de brilho nos palcos (com um trabalho corporal hipnotizante) até a época em que a doença domina seus movimentos e a impede até mesmo de se alimentar sozinha (em cenas de partir o coração do mais insensível dos homens). A força de sua transformação é a base do filme de Tucker, um dos mais poderosos dramas de sua temporada.
2 indicações ao Oscar: Atriz (Emily Watson), Atriz Coadjuvante (Rachel Griffiths)
Quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar, por seu aterrador desempenho em "Ondas do destino", de Lars Von Trier, a atriz Emily Watson era um rosto desconhecido do grande público, mas provou que tinha talento de sobra para disputar uma estatueta com nomes consagrados como Diane Keaton e Frances McDormand (que acabou vencendo a parada, por "Fargo"). Em 1999, dois anos depois de ter chamado a atenção dos cinéfilos, dos críticos e da própria Academia, ela voltou à lista das cinco indicadas ao prêmio principal por uma atuação ainda melhor. Em "Hilary & Jackie", a história real da violoncelista Jacqueline du Prè - vítima de uma doença degenerativa que encerrou precocemente sua brilhante carreira - é mérito unicamente de sua visceral interpretação o fato de despertar compaixão e simpatia por uma personagem arrogante, egoísta e quase desagradável. Sua tour de force é tamanha que até hoje é simplesmente inacreditável que tenha perdido o Oscar para Gwyneth Paltrow - em um ano em que só poderia ser superada por Cate Blanchett em "Elizabeth" ou Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".
Baseado no livro escrito pelos irmãos Hilary e Piers du Prè, "Hilary & Jackie" acompanha a trajetória de duas irmãs, musicistas talentosas, que tem seus destinos desviados na juventude, quando decidem seguir rumos distintos na vida. Quando criança, Hilary, a mais velha, destaca-se como flautista, e desperta na irmã caçula, Jacqueline (ou Jackie) uma inveja branca que a faz esforçar-se arduamente nos estudos do violoncelo. Sua dedicação logo dá resultados e ela inicia, ainda bastante jovem, uma bem-sucedida série de concertos pela Europa, enquanto a irmã abandona a música para casar-se com e criar uma família no interior do país. A vida de celebridade de Jackie, porém, parece não lhe ser suficiente, e ela não demora a notar que nem mesmo seu casamento com o pianista Daniel Barenboim (James Frain) lhe traz a felicidade que almeja. As duas voltam a se encontrar, então, quando Jackie - por motivos não revelados a ninguém - procura Hilary em seu sítio, disposta a largar mão de tudo que conquistou para ter as mesmas coisas que a irmã mais velha - incluindo seu marido, Kiffer Finzi (David Morrissey). Algum tempo mais tarde, ela descobre sofrer de uma grave doença degenerativa, que a afasta de vez dos palcos e da música.
Brilhantemente roteirizado - contando sua história sob dois pontos de vista convergentes, que só fazem sentido completo ao final da sessão - "Hilary & Jackie" brinda o espectador com uma história fascinante que envolve amor e inveja fraternais, obsessão pela perfeição, o vazio da fama e, pra completar, uma melancólica e devastadora doença. Sem deixar-se cair nas armadilhas que uma história assim apresenta, tanto o roteiro quanto a direção (essa última a cargo de Anand Tucker, que sete anos depois assinaria o delicado "A garota da vitrine", com Steve Martin e Claire Denis) conduzem a trama de maneira sensível e harmoniosa, sem julgamentos morais ou exageros sentimentaloides. A inteligência de mostrar somente aos poucos as razões que levam Jackie a procurar conforto na família de sua irmã quando entra em surto quase psicótico dá ao filme uma ressonância dramática ímpar, justamente por proporcionar ao público a visão privilegiada de uma situação limítrofe, extremamente pessoal e de uma tristeza infinita, sem que para isso seja preciso tratá-la com sensacionalismo ou vulgaridade. Os desdobramentos melodramáticos da história entre as duas irmãs são tão surpreendentes e até moralmente discutíveis que não deixa de ser também corajoso mostrá-los com a naturalidade e a compaixão com que surgem diante da plateia.
Mas, apesar de todas as discussões sobre arte e relacionamento familiar que lança ao espectador, é no desempenho irretocável de Emily Watson que se apoia "Hilary & Jackie". Mesmo que Rachel Griffiths também esteja em dias iluminados, com uma atuação econômica mas poderosa que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, é impossível tirar os olhos de Watson, que, tendo estudado violoncelo na infância, assume com segurança e impressionante veracidade o papel de Jacqueline du Prè, desde seus momentos de brilho nos palcos (com um trabalho corporal hipnotizante) até a época em que a doença domina seus movimentos e a impede até mesmo de se alimentar sozinha (em cenas de partir o coração do mais insensível dos homens). A força de sua transformação é a base do filme de Tucker, um dos mais poderosos dramas de sua temporada.
O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO
O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (My best friend's wedding, 1997, TriStar Pictures, 105min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Ronald Bass. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Garth Craven, Lisa Fruchtman. Música: James Newton Howard. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/William Kemper Wright. Produção executiva: Gil Netter, Patricia Whitcher. Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker. Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Rupert Everett, Rachel Griffiths, Philip Bosco, Paul Giamatti. Estreia: 20/6/97
Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical
O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".
Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.
Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.
Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.

E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.
Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.
"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.
Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical
O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".
Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.
Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.
Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.
E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.
Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.
"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.
terça-feira
O CASAMENTO DE MURIEL
Na mesma época em que as drag-queens de "Priscilla, a rainha do deserto" conquistavam o público com seu humor sarcástico e fina ironia a respeito de intolerância e preconceito, outro filme australiano trilhava caminho semelhante, seduzindo a audiência por onde passava. Escrito e dirigido por P.J. Hogan, "O casamento de Muriel" é uma deliciosa comédia dramática que trata de forma leve e bem-humorada temas difíceis como inadequação social, solidão e depressão. No tom quase de deboche do roteiro de Hogan, há uma ácida e agridoce visão sobre sonhos e como eles servem de apoio e/ou empecilho para uma felicidade que parece impossível de alcançar. Por trás de tudo, no entanto, há o elogio rasgado à amizade e em como ela pode transformar uma vida.
Muriel Heslop, a protagonista vivida com propriedade pela ótima Toni Collette, é uma jovem que vive em uma pequena cidade da Austrália onde seu pai (Bill Hunter) é um conhecido vereador. Acima do peso, incapaz de manter-se empregada e apaixonada pelas canções do grupo ABBA - também citado com destaque em "Priscilla" - ela sonha em ter um casamento no estilo que vê nas revistas e na televisão, mesmo que não tenha sequer um pretendente. Enquanto é obrigada a conviver com uma família extremamente medíocre - os irmãos não fazem nada a não ser vegetar no sofá assistindo TV, a mãe é absolutamente apática e o pai um político corrupto e adúltero - Muriel tenta manter a amizade com um grupo de ex-colegas de escola, garotas populares que a desprezam e humilham em público. Revoltada com sua vida, Muriel dá um desfalque no pai e foge para Sydney, onde, com o nome alterado para Mariel, resolve reinventar-se. Dividindo um apartamento com uma nova melhor amiga, a liberada Rhonda (Rachel Griffiths), ela descobre os prazeres de uma vida nova, mas não consegue livrar-se completamente de seu passado. E quando finalmente tem a chance de realizar seu sonho de casar-se na igreja - com um nadador sul-africano que precisa de um green card - ela percebe que talvez as coisas não sejam exatamente como ela sempre imaginou que fossem.
Apesar da melancolia que perpassa todo o filme, "O casamento de Muriel" não deixa de ser uma experiência bastante agradável. Hogan - cujo fetiche por cerimônias matrimoniais encontraria o auge com "O casamento do meu melhor amigo", com Julia Roberts - escreveu um roteiro redondo, perfeito em sua forma irônica de criticar a sociedade australiana, afogada em sua hipocrisia e suas tradições. Até mesmo o fato de Rhonda ser de certa forma "punida" por sua liberdade sexual demonstra claramente que o cineasta conhece o universo que retrata: ao contrário do que se possa pensar, ele não castiga a personagem e sim a empurra em direção a uma real liberdade, a mesma que Muriel procura desesperadamente e julga encontrar na realização de seu casamento.
Aparentemente uma comédia boba e despretensiosa, "O casamento de Muriel" é, na verdade, um filme sobre pessoas lutando por sua felicidade, ainda que nem mesmo saibam de verdade onde procurá-la. Muriel é o retrato de uma sociedade sem maiores ambições, mas sua fuga de casa a salva da mediocridade na qual o resto de sua família vive mergulhada. Ela quer que sua vida seja tão boa quanto uma canção do ABBA e isso faz dela uma heroína pós-moderna, capaz de atos insensatos para atingir seus objetivos. Muriel é ingênua, é irresponsável e romântica, mas é verdadeira, humana e sensível. Isso faz toda a diferença, principalmente com a atuação irrepreensível de Toni Collette, que engordou para fazer o papel e depois tornou-se uma atriz de respeito em Hollywood, chegando a ser indicada ao Oscar de coadjuvante por "O sexto sentido". A seu lado, também brilha a radiante Rachel Griffiths, que apresenta todas as nuances de sua Rhonda com uma segurança ímpar - não é à toa que ela também já chegou perto de uma estatueta por "Hilary & Jackie" e tornou-se conhecida pelas ótimas séries "A sete palmos" e "Brothers and sisters".
Embalado por uma nostálgica e dançante trilha sonora e com uma protagonista encantadora, "O casamento de Muriel" é um cult-movie por excelência. Uma sessão da tarde saborosa e com muito mais consistência do que mostra à primeira vista.
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