INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09
Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.
Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.
Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.
O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.
A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.
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NOCAUTE
NOCAUTE (Southpaw, 2015, Escape Artists/Fuqua Films, 124min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Melissa Lombardo. Produção executiva: David Bloomfield, Cary Cheng, Jonathan Garrison, Stuart Parr, David Ranes, Paul Rosenberg, David Schiff, Dylan Sellers, Kurt Sutter, Ezra Swerdlow, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Gillian Zhao. Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Antoine Fuqua, Alan Riche, Peter Riche, Steve Tisch, Jerry Ye. Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris, Victor Ortiz. Estreia: 15/6/15 (Festival de Xangai)
A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.
A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.
Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.
Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.
A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.
A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.
Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.
Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.
SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS
SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.
Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.
Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.
Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.
Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.
Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.
Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.
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PAIXÃO
PAIXÃO (Passion, 2012, SBS Productions/Integral Film/France 2 Cinéma, 102min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, roteiro original de Natalie Carter, Alain Corneau. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: François Gedigier. Música: Pino Donaggio. Figurino: Karen Muller-Serreau. Direção de arte/cenários: Cornelia Ott/Ute Bergk. Produção: Said Ben Said. Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Dominic Raacke, Rainer Block, Benjamin Sadler. Estreia: 07/9/12 (Festival de Veneza)
A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.
Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.
Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.
É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.
A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.
Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.
Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.
É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.
quarta-feira
PARA SEMPRE
PARA
SEMPRE (The vow, 2012, Screen Gems/Spyglass Entertainment, 104min)
Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Jason Katims, Abby Kohn, Marc
Silverstein, estória de Stuart Sender. Fotografia: Rogier Stoffers.
Montagem: Melissa Kent, Nancy Richardson. Música: Michael Brook, Rachel
Portman. Figurino: Alex Kavanaugh. Direção de arte/cenários: Kallina
Ivanov/Jaro Dick. Produção executiva: Susan Cooper, J. Miles Dale,
Austin Hearst. Produção: Gary Barber, Roger Birnbaum, Jonathan Glickman,
Paul Taublieb. Elenco: Rachel McAdams, Channing Tatum, Jessica Lange,
Sam Neil, Scott Speedman, Wendy Creyston. Estreia: 09/02/12
Dois fatores específicos justificam a bilheteria doméstica acima dos 120 milhões de dólares do apenas razoável "Para sempre", estreia do diretor Michael Sucsy no cinema depois do sucesso de "Grey Gardens" - estrelado por Jessica Lange e Drew Barrymore - na televisão americana: o romantismo incurável de uma considerável parcela do público (que salvo raras exceções lota as salas quando o assunto são histórias de amor) e o carisma de sua dupla central, formada por atores em franca ascensão dentro da indústria: Channing Tatum (em vias de arrastar multidões aos cinemas com "Anjos da lei" e "Magic Mike") e Rachel McAdams (bela, encantadora e boa atriz a ponto de estrelar um dos melhores Woody Allens desde sempre, "Meia-noite em Paris"). Só mesmo essas duas razões podem explicar o êxito de uma produção que, a despeito de ser visualmente atraente, não acrescenta nada de novo ao gênero. Baseado em uma história real, o roteiro não escapa das armadilhas, e é preciso aplaudir a força do casal de protagonistas em tentar dar veracidade e emoção à coleção de clichês que desfilam pela tela.
"Para sempre" conta um história que lembra a comédia "Como se fosse a primeira vez", lançada no final dos anos 90. Porém, enquanto no divertido filme estrelado por Adam Sandler e Drew Barrymore o tom cômico levava a trama sem maiores sobressaltos, nessa versão melodramática a missão é bem mais difícil: um acidente de carro leva a jovem Paige (Rachel McAdams) a uma amnésia parcial que a faz esquecer completamente os últimos quatro anos de sua vida, justamente o período em que se relacionou com o apaixonado Leo (Channing Tatum). A condição médica da moça acaba servindo perfeitamente aos planos de seus pais (Sam Neill e Jessica Lange, fazendo o possível com o pouco que lhes é oferecido pelo roteiro), que tinham-na visto afastar-se do seio familiar anos antes, depois de abandonar a faculdade de Direito para ingressar em uma Escola de Arte (e de ter rompido com eles devido a um fato mantido em segredo por todos). Sem lembrar-se de seu casamento com Leo - e nem mesmo de tê-lo conhecido - Paige recomeça sua vida se reaproximando do ex-noivo, Jeremy (Scott Speedman), mas o rapaz não tem o menor plano de deixar o amor de sua vida escapar e faz de tudo para reconquistá-la, apesar de tudo lhe dizer que a batalha já está perdida.
A sucessão de clichês que inunda "Para sempre" chega a ser desanimadora. Tudo bem que dramas românticos não são exatamente cenários apropriados para experimentos estilísticos ou artísticos, mas nada justifica a preguiça da direção ou do roteiro, apoiado basicamente em cenas pretensamente emocionantes que só funcionam para aqueles que adoram esbaldar-se em histórias de amor. No entanto, mesmo que não exista aqui a química notável que havia entre a mesma Rachel McAdams e Ryan Gosling em "Diário de uma paixão" - o melhor exemplo de um romance clichê que conseguiu sobressair-se à sua origem literária menor (livro de Nicholas Sparks) graças ao elenco bem escalado e à sensibilidade de um cineasta talentoso - é visível o esforço e a garra do casal de protagonistas, infelizmente subaproveitados ao extremo. McAdams, por exemplo, fica o filme todo sendo usada como um joguete, de lá pra cá - e nem é bom comentar "o grande segredo" que a levou a romper com os pais, de uma frivolidade inacreditável.
Feito exclusivamente para quem não consegue sobreviver sem um dramalhão romântico, "Para sempre" é capaz de suprir as expectativas de seu público-alvo. É bonito, é direto e simples. Mas está muito longe de ser inesquecível, principalmente por não apresentar nada de novo à audiência - que, por sua vez, provavelmente não irá se importar com tanta fragilidade artística.
Dois fatores específicos justificam a bilheteria doméstica acima dos 120 milhões de dólares do apenas razoável "Para sempre", estreia do diretor Michael Sucsy no cinema depois do sucesso de "Grey Gardens" - estrelado por Jessica Lange e Drew Barrymore - na televisão americana: o romantismo incurável de uma considerável parcela do público (que salvo raras exceções lota as salas quando o assunto são histórias de amor) e o carisma de sua dupla central, formada por atores em franca ascensão dentro da indústria: Channing Tatum (em vias de arrastar multidões aos cinemas com "Anjos da lei" e "Magic Mike") e Rachel McAdams (bela, encantadora e boa atriz a ponto de estrelar um dos melhores Woody Allens desde sempre, "Meia-noite em Paris"). Só mesmo essas duas razões podem explicar o êxito de uma produção que, a despeito de ser visualmente atraente, não acrescenta nada de novo ao gênero. Baseado em uma história real, o roteiro não escapa das armadilhas, e é preciso aplaudir a força do casal de protagonistas em tentar dar veracidade e emoção à coleção de clichês que desfilam pela tela.
"Para sempre" conta um história que lembra a comédia "Como se fosse a primeira vez", lançada no final dos anos 90. Porém, enquanto no divertido filme estrelado por Adam Sandler e Drew Barrymore o tom cômico levava a trama sem maiores sobressaltos, nessa versão melodramática a missão é bem mais difícil: um acidente de carro leva a jovem Paige (Rachel McAdams) a uma amnésia parcial que a faz esquecer completamente os últimos quatro anos de sua vida, justamente o período em que se relacionou com o apaixonado Leo (Channing Tatum). A condição médica da moça acaba servindo perfeitamente aos planos de seus pais (Sam Neill e Jessica Lange, fazendo o possível com o pouco que lhes é oferecido pelo roteiro), que tinham-na visto afastar-se do seio familiar anos antes, depois de abandonar a faculdade de Direito para ingressar em uma Escola de Arte (e de ter rompido com eles devido a um fato mantido em segredo por todos). Sem lembrar-se de seu casamento com Leo - e nem mesmo de tê-lo conhecido - Paige recomeça sua vida se reaproximando do ex-noivo, Jeremy (Scott Speedman), mas o rapaz não tem o menor plano de deixar o amor de sua vida escapar e faz de tudo para reconquistá-la, apesar de tudo lhe dizer que a batalha já está perdida.
A sucessão de clichês que inunda "Para sempre" chega a ser desanimadora. Tudo bem que dramas românticos não são exatamente cenários apropriados para experimentos estilísticos ou artísticos, mas nada justifica a preguiça da direção ou do roteiro, apoiado basicamente em cenas pretensamente emocionantes que só funcionam para aqueles que adoram esbaldar-se em histórias de amor. No entanto, mesmo que não exista aqui a química notável que havia entre a mesma Rachel McAdams e Ryan Gosling em "Diário de uma paixão" - o melhor exemplo de um romance clichê que conseguiu sobressair-se à sua origem literária menor (livro de Nicholas Sparks) graças ao elenco bem escalado e à sensibilidade de um cineasta talentoso - é visível o esforço e a garra do casal de protagonistas, infelizmente subaproveitados ao extremo. McAdams, por exemplo, fica o filme todo sendo usada como um joguete, de lá pra cá - e nem é bom comentar "o grande segredo" que a levou a romper com os pais, de uma frivolidade inacreditável.
Feito exclusivamente para quem não consegue sobreviver sem um dramalhão romântico, "Para sempre" é capaz de suprir as expectativas de seu público-alvo. É bonito, é direto e simples. Mas está muito longe de ser inesquecível, principalmente por não apresentar nada de novo à audiência - que, por sua vez, provavelmente não irá se importar com tanta fragilidade artística.
quinta-feira
QUESTÃO DE TEMPO
QUESTÃO
DE TEMPO (About time, 2013, Working Title Films, 123min) Direção e
roteiro: Richard Curtis. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Mark
Day. Música: Nick Laird-Clowes. Figurino: Verity Hawkes. Direção de
arte/cenários: John Paul Kelly/Liz Griffiths. Produção executiva: Liza
Chasin, Richard Curtis, Amelia Granger. Produção: Nicky Kentish Barnes,
Tim Bevan, Eric Fellner. Elenco: Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill
Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Richard Cordery, Tom Hollander,
Margot Robbie. Estreia: 27/6/13
É preciso ter uma certa dose de boa vontade para comprar a premissa inicial da comédia romântica "Questão de tempo", em tempos cínicos como os que correm: um rapaz sem graça e sem maiores atrativos físicos descobre, em seu aniversário de 21 anos que tem o poder - herdado do lado masculino da família de seu pai - de viajar no tempo: basta que esteja isolado em um armário ou banheiro e apertar com força as mãos para que consiga transferir-se para a data do passado (e só do passado) que escolher (desde que já tenha estado lá, o que impede ambições maiores, como transformar a história do mundo). De posse dessa valiosa informação, o rapaz a aproveita para resolver sua vida sentimental, principalmente quando se muda para Londres para cursar Direito e se apaixona por uma bela editora americana.
Uma vez acreditando no absurdo da ideia central, porém, o espectador acaba fisgado por um filme que se destaca dos demais exemplares do gênero por contar não apenas uma história de amor, mas várias. O roteiro esperto de Richard Curtis - que tem no currículo os deliciosos diálogos de "Quatro casamentos e um funeral" e o romantismo abundante de "Simplesmente amor" - não se restringe, felizmente, a contar como o desajeitado Tim (Domhnall Gleeson) conquista a esfuziante Mary (Rachel McAdams): em duas horas de projeção (uma duração que parece assustar em um primeiro momento, mas torna-se essencial para o desenvolvimento da trama), Curtis também oferece ao público a história do belo relacionamento entre ele e seu pai (interpretado com a verve histriônica já amplamente reconhecível de Bill Nighy) e sua preocupação com os problemas sentimentais da irmã, Katherine (Lydia Wilson) - que acabam por interferir diretamente em sua felicidade e o obrigam a tomar atitudes impulsivas.
Assim como acontece em vários filmes da mesma temática - mais recentemente o tenso "Efeito borboleta" - as ações de Tim tem consequências imprevisíveis, o que deixa a audiência em constante estado de dúvida em relação ao que está por vir. A maior vantagem do roteiro, porém, está no fato de não deter-se exclusivamente nas idas e vindas do casal protagonista, expandindo-se bravamente em terrenos menos explorados. Mesmo que por vezes soe um tanto superficial - e sem coragem de chegar até o fim de alguns dramas propostos - o filme conquista pela leveza no tratamento, pela simpatia do elenco e pela fluidez da trama, que acaba disfarçando seus pequenos pecados. Richard Curtis é, inegavelmente, um mestre em diálogos e faz bom uso deles, nunca pesando a mão, mesmo quando o dramalhão ameaça perigosamente dominar a narrativa - e encontra em seus atores os intérpretes ideais para seus personagens gente como a gente.
Enquanto Rachel McAdams já pode ser considerada uma especialista em filmes sobre viagens no tempo - ela está no elenco de "Te amarei para sempre" e "Meia-noite em Paris" - é o praticamente desconhecido Domhnall Gleeson, filho do ator Brendan Gleeson, a maior descoberta do filme. Completamente fora dos padrões convencionais de beleza, o ator de 30 anos à época da estreia e que teve um papel de destaque na "Anna Karenina" de Joe Wright, é capaz de transmitir todas as emoções que o roteiro pede, demonstrando que tem tudo para ter um futuro alvissareiro na capital do cinema, além de ter uma química invejável com McAdams e Bill Nighy. Também é impossível não destacar, como sempre nos filmes com a mão de Curtis, a eclética e apropriada trilha sonora, que resgata até mesmo a clássica "Il mondo", na voz de Jimmy Fontana.
Inteligente, delicado, simpático e bem-intencionado, "Questão de tempo" é uma comédia romântica das mais interessantes dos últimos tempos, graças à dosagem exata entre doçura e humor e ao elenco bem escalado. Pode fazer rir e chorar e não causa constrangimento por causa disso, muito pelo contrário - as situações previstas no roteiro são capazes de sensibilizar até ao mais renitente e racional espectador. Altamente recomendável para qualquer público, e sem contraindicações.
É preciso ter uma certa dose de boa vontade para comprar a premissa inicial da comédia romântica "Questão de tempo", em tempos cínicos como os que correm: um rapaz sem graça e sem maiores atrativos físicos descobre, em seu aniversário de 21 anos que tem o poder - herdado do lado masculino da família de seu pai - de viajar no tempo: basta que esteja isolado em um armário ou banheiro e apertar com força as mãos para que consiga transferir-se para a data do passado (e só do passado) que escolher (desde que já tenha estado lá, o que impede ambições maiores, como transformar a história do mundo). De posse dessa valiosa informação, o rapaz a aproveita para resolver sua vida sentimental, principalmente quando se muda para Londres para cursar Direito e se apaixona por uma bela editora americana.
Uma vez acreditando no absurdo da ideia central, porém, o espectador acaba fisgado por um filme que se destaca dos demais exemplares do gênero por contar não apenas uma história de amor, mas várias. O roteiro esperto de Richard Curtis - que tem no currículo os deliciosos diálogos de "Quatro casamentos e um funeral" e o romantismo abundante de "Simplesmente amor" - não se restringe, felizmente, a contar como o desajeitado Tim (Domhnall Gleeson) conquista a esfuziante Mary (Rachel McAdams): em duas horas de projeção (uma duração que parece assustar em um primeiro momento, mas torna-se essencial para o desenvolvimento da trama), Curtis também oferece ao público a história do belo relacionamento entre ele e seu pai (interpretado com a verve histriônica já amplamente reconhecível de Bill Nighy) e sua preocupação com os problemas sentimentais da irmã, Katherine (Lydia Wilson) - que acabam por interferir diretamente em sua felicidade e o obrigam a tomar atitudes impulsivas.
Assim como acontece em vários filmes da mesma temática - mais recentemente o tenso "Efeito borboleta" - as ações de Tim tem consequências imprevisíveis, o que deixa a audiência em constante estado de dúvida em relação ao que está por vir. A maior vantagem do roteiro, porém, está no fato de não deter-se exclusivamente nas idas e vindas do casal protagonista, expandindo-se bravamente em terrenos menos explorados. Mesmo que por vezes soe um tanto superficial - e sem coragem de chegar até o fim de alguns dramas propostos - o filme conquista pela leveza no tratamento, pela simpatia do elenco e pela fluidez da trama, que acaba disfarçando seus pequenos pecados. Richard Curtis é, inegavelmente, um mestre em diálogos e faz bom uso deles, nunca pesando a mão, mesmo quando o dramalhão ameaça perigosamente dominar a narrativa - e encontra em seus atores os intérpretes ideais para seus personagens gente como a gente.
Enquanto Rachel McAdams já pode ser considerada uma especialista em filmes sobre viagens no tempo - ela está no elenco de "Te amarei para sempre" e "Meia-noite em Paris" - é o praticamente desconhecido Domhnall Gleeson, filho do ator Brendan Gleeson, a maior descoberta do filme. Completamente fora dos padrões convencionais de beleza, o ator de 30 anos à época da estreia e que teve um papel de destaque na "Anna Karenina" de Joe Wright, é capaz de transmitir todas as emoções que o roteiro pede, demonstrando que tem tudo para ter um futuro alvissareiro na capital do cinema, além de ter uma química invejável com McAdams e Bill Nighy. Também é impossível não destacar, como sempre nos filmes com a mão de Curtis, a eclética e apropriada trilha sonora, que resgata até mesmo a clássica "Il mondo", na voz de Jimmy Fontana.
Inteligente, delicado, simpático e bem-intencionado, "Questão de tempo" é uma comédia romântica das mais interessantes dos últimos tempos, graças à dosagem exata entre doçura e humor e ao elenco bem escalado. Pode fazer rir e chorar e não causa constrangimento por causa disso, muito pelo contrário - as situações previstas no roteiro são capazes de sensibilizar até ao mais renitente e racional espectador. Altamente recomendável para qualquer público, e sem contraindicações.
domingo
MEIA-NOITE EM PARIS
MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris, 2011, Gravier Productions,
94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji.
Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Sonia Grande. Direção de
arte/cenários: Anne Seibel/Hélène Dubreuil. Produção executiva: Javier
Méndez. Produção: Letty Aronson, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum.
Elenco: Owen Wilson, Marion Cottilard, Rachel McAdams, Michael Sheen,
Kathy Bates, Corey Stoll, Adrien Brody, Alison Pill, Tom Hiddleston,
Carla Bruni, Léa Seydoux. Estreia: 11/5/11 (Festival de Cannes)
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro
Fazer um filme por ano há mais de três décadas não é para qualquer um. Woody Allen não É qualquer um. Somente entre 2000 e 2010 ele equilibrou-se em filmes apenas eficientes (“Dirigindo no escuro”, “Tudo pode dar certo”, “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”), alguns deslizes (“Melinda e Melinda”, “O escorpião escarlate”), filmes subestimados (“O sonho de Cassandra”, “Igual a tudo na vida”), sucessos de crítica (“Vicky Cristina Barcelona”) e duas obras-primas. A primeira, de 2005, é “Match point: ponto final”, um drama com elementos de suspense que vai fundo na releitura de “Crime e castigo”, de Dostoievsky. A outra é “Meia-noite em Paris”, uma deliciosa, brilhante e charmosa homenagem à Cidade-luz e seus dourados anos 20. Indicada ao Oscar de melhor filme do ano – feito que somente o multipremiado “Noivo neurótico, noiva nervosa” havia conseguido, em 1977 – a história do mergulho do aspirante a escritor Gil Pender na atmosfera féerica que inspirou Ernest Hemingway a escrever o clássico “Paris é uma festa” acabou conquistando a merecidíssima estatueta de roteiro original no mesmo ano em que a Academia parecia ter descoberto o fascínio pelo passado – “O artista”, um filme mudo e em preto-e-branco dirigido pelo francês Michel Hazanivicius e que falava sobre os primórdios do cinema, foi o grande vencedor.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro
Fazer um filme por ano há mais de três décadas não é para qualquer um. Woody Allen não É qualquer um. Somente entre 2000 e 2010 ele equilibrou-se em filmes apenas eficientes (“Dirigindo no escuro”, “Tudo pode dar certo”, “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”), alguns deslizes (“Melinda e Melinda”, “O escorpião escarlate”), filmes subestimados (“O sonho de Cassandra”, “Igual a tudo na vida”), sucessos de crítica (“Vicky Cristina Barcelona”) e duas obras-primas. A primeira, de 2005, é “Match point: ponto final”, um drama com elementos de suspense que vai fundo na releitura de “Crime e castigo”, de Dostoievsky. A outra é “Meia-noite em Paris”, uma deliciosa, brilhante e charmosa homenagem à Cidade-luz e seus dourados anos 20. Indicada ao Oscar de melhor filme do ano – feito que somente o multipremiado “Noivo neurótico, noiva nervosa” havia conseguido, em 1977 – a história do mergulho do aspirante a escritor Gil Pender na atmosfera féerica que inspirou Ernest Hemingway a escrever o clássico “Paris é uma festa” acabou conquistando a merecidíssima estatueta de roteiro original no mesmo ano em que a Academia parecia ter descoberto o fascínio pelo passado – “O artista”, um filme mudo e em preto-e-branco dirigido pelo francês Michel Hazanivicius e que falava sobre os primórdios do cinema, foi o grande vencedor.
Enquanto “O artista” acompanhava a
decadência de um astro do cinema mudo com a chegada do som à indústria do
cinema, “Meia-noite em Paris” percorre um caminho inverso: na obra estrelada
por Jean Dujardin (também vencedor de um Oscar) é o futuro que atropela o
protagonista, na forma da ameaçadora tecnologia que lhe arrancará do topo da
popularidade; no filme de Allen, quem surge do nada e surpreende o protagonista
é o passado, na forma de um virtual portal para um período em que as festas da
capital francesa eram frequentadas por gente do porte de Hemingway, F. Scott
Fitzgerald e sua mulher Elsa, Gertrude Stein, Pablo Picasso e Cole Porter – não
por acaso, ídolos máximos do roteirista de cinema com ambições de tornar-se
escritor e mudar-se para a cidade e aproveitar tudo que ela pode oferecer,
desde sua paisagem e seu clima cultural até a chuva que ele enxerga com olhos
românticos (ao contrário de sua materialista e patricinha noiva). O ator vivido
por Dujardin luta contra o inevitável. O escritor interpretado por Owen Wilson
– na melhor atuação de sua carreira – se entrega à inusitada situação com
deleite extremo (e quem não o faria?). Porém o filme de Allen não se deixa
limitar pelas amarras de uma piada única: engraçado, elegante e inteligente,
“Meia-noite em Paris” até pode agradar muito mais àqueles que tem uma noção
mais específica de literatura, arte e música, mas é impossível não se deixar
envolver por sua atmosfera lúdica e nostálgica.
Gil Pender, o protagonista, visita
Paris como alguém fascinado por sua história, sua cultura e sua aura. Deseja
morar na cidade e beijar sob a chuva que cai à noite sobre suas charmosas ruas.
Sua noiva, Inez (Rachel McAdams) só quer saber de aproveitar as promoções e
comprar artigos de decoração para sua nova casa em Hollywood – e não perde
nenhuma chance de comparar (negativamente) o noivo a um antigo namorado que
encontra por acaso no país, o pedante Paul(Michael Sheen). Enquanto ela vê
Paris como um mero shopping-center, Pender se descobre repentinamente capaz de
viajar para o passado: caminhando sem rumo pela cidade em uma noite, ele entra
em um mundo povoado por todos aqueles ídolos a quem sempre venerou e, a
princípio atônito e posteriormente agradecido aos céus, tem a chance de pedir
que Gertrude Stein (Kathy Bates) leia seu romance e lhe dê conselhos a respeito
– assim como também faz amizade com o hedonista Ernest Hemingway (Corey Stoll,
fabuloso) e com o enlouquecido casal Fitzgerald (Tom Hiddlestone e Alisson
Pill). Frequentando saraus, festas e reuniões, ele acaba se apaixonando
perdidamente por Adriana (Marion Cottilard), musa e amante de Pablo Picasso – e
passa a considerar seriamente a hipótese de nunca mais voltar ao século XXI. E
é aí que Allen mostra seu gênio.
O que até então era apenas uma
deliciosa brincadeira com a festa ambulante que era a capital francesa nos anos
20, transforma-se repentina e inteligentemente em uma discussão sobre as dores
e delícias de se estar em um mundo com o qual não se tem afinidades culturais e
sociais. Pender é um sujeito norte-americano do século XXI que sonha viver em
uma cidade europeia dos primeiros anos do século anterior. Sua amante vive
nesse que ele considera seu paraíso particular, mas, insatisfeita, preferiria
estar passeando pelas ruas e cabarés da belle
époque, socializando com Toulouse-Lautrec. E o espectador, deliciado na
plateia, fica a perguntar-se se qual o endereço de seu Xangri-lá. Com sutileza
e bom-humor, Allen mostra que nenhuma época da história é tão perfeita quanto
se pode sonhar e, com isso, permite ao público uma viagem segura e delicada a
seus mais recônditos desejos nostálgicos. Sem medo de mergulhar fundo na
fantasia – da mesma forma que já havia feito com enorme êxito no belo “A rosa
púrpura do Cairo” (85) – o cineasta permite a seus personagens que assumam sem
medo seus anseios e dá a seu desfecho um tom de otimismo capaz de derreter até
ao mais cínico coração.
É claro que o espectador
familiarizado com a obra de Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein, Picasso,
Luis Buñuel e Salvador Dalí vai encontrar ainda mais motivos para se divertir
com “Meia-noite em Paris”, mas o que nas mãos de outro diretor poderia soar
como um pedantismo oco e gratuito se torna um charme extra ao filme de Allen,
premiado com extrema justiça com o Oscar de roteiro original. Fotografado com
carinho e inteligência pelo ótimo Darius Khondji – cujo currículo inclui
“Seven, os sete crimes capitais”, “Evita” e “Beleza roubada” – e com um elenco
onde se destaca o pouco conhecido Corey Stoll (da telessérie “House of Cards”)
como Ernest Hemingway e o sempre competente Michael Sheen como o arrogante Paul,
“Meia-noite em Paris” é um ponto altíssimo na carreira de Allen, recheada de
grandes filmes. Imperdível!
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