O VENTO SERÁ TUA HERANÇA (Inherit the wind, 1960, Stanley Kramer
Productions, 128min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Nedrig Young (como Nathan E.
Douglas), Harold Jacob Smith, peça teatral de Jerome Lawrence, Robert E.
Lee. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knutdson. Música:
Ernest Gold. Direção de arte: Rudolph Sternad. Produção: Stanley Kramer.
Elenco: Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Dick York, Donna
Anderson, Harry Morgan. Estreia: 25/6/60 (Festival de Berlim)
4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy. Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.
O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.
Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.
Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.
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CANTANDO NA CHUVA

CANTANDO NA CHUVA (Singin' in the rain, 1952, MGM, 103min) Direção: Gene Kelly, Stanley Donen. Roteiro: Adolph Green, Betty Comden. Fotografia: Harold Rosson. Montagem: Adrienne Fazan. Figurino: Walter Plunkett. Produção: Arthur Freed. Elenco: Gene Kelly, Debbie Reynolds, Donald O'Connor, Jean Hagen, Cyd Charisse, Rita Moreno. Estreia: 27/3/52
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Donald O'Connor)
Se é que existe uma imagem icônica dentre todos os musicais produzidos por Hollywood - em especial nos áureos tempos do gênero (a saber, anos 40 e 50) - ninguém há de discordar que essa imagem é a de Gene Kelly, no auge de seu vigor, dançando encharcado, feliz e realizado de amor em "Cantando na chuva". A cena, realizada com Kelly queimando em febre e feita com uma chuva que misturava leite com água, é até hoje o símbolo maior de um período mágico para os musicais e uma das mais contagiantes manifestações de felicidade já mostradas pelo cinema. E apesar de muita gente só lembrar do filme por causa dessa cena, é preciso lembrar que, antes e depois dela, "Cantando na chuva" é uma engraçadíssima narrativa sobre os bastidores do mundo do cinema.
O período retratado no filme co-dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen - a transição do cinema mudo para o falado - já havia sido parte do combustível para o genial "Crepúsculo dos deuses", mas, ao contrário do mostrado no filme de Billy Wilder - onde a mudança leva atores admirados a um ostracismo que beira a crueldade - aqui o tom é bem outro. Irônico na medida certa e carinhoso sem soar nostálgico em demasia, o roteiro de Adolph Green e Betty Comden - escrito para encaixar-se às músicas, o contrário do que normalmente é feito - conta uma história de amor ingênua e simples que usa o mundo da sétima arte como pano de fundo.
O ano é 1927. Astro do cinema mudo, o ator e galã Don Lockwood (Gene Kelly) começa a perceber que filmes falados são o futuro de sua carreira. Ao lado de sua constante companheira de cena, a bela mas fútil Lina Lamont (Jean Hagen) ele planeja transformar seu fracassado projeto, "O cavaleiro andante" em um musical, uma vez que a primeira versão do filme resultou em um desastre técnico. No entanto, ele e seu melhor amigo, Cosmo Brown (Donald O'Connor), esbarram em um grande problema: a voz estridente de Lina, que funciona como atriz de cinema mudo, mas é um desastre falando. Para resolver o impasse, eles chamam a nova namorada de Lockwood, a aspirante a atriz e bailarina Kathy Selden (Debbie Reynolds) para dublar a famosa estrela. Logicamente, quando o filme estreia e torna-se um grande sucesso, a veterana atriz recusa-se a permitir que a verdade venha à tona.
A bem da verdade a história de amor entre Don Lockwood e Kathy Selden (vivida por uma Debbie Reynolds com apenas 17 anos de idade que sofreu horrores nas mãos do tirano Gene Kelly) é apenas um pretexto para números musicais que, ao contrário do que muitos espectadores avessos ao gênero alegam, são divertidos, funcionais e dinâmicos. Donald O'Connor está brilhante em "Make 'em laugh", assim como, ao lado de Kelly e Reynolds, em "Good morning". É belíssima também a cena em que o apaixonado Lockwood se declara à jovem Selden, cantando "You were meant for me" (regravada por Sting no final dos anos 90 para o filme "A razão do meu afeto") em um set cinematográfico, revelando ao público alguns dos truques que fazem a ilusão do cinema. E nem precisamos falar novamente de "Singin' in the rain", uma das músicas mais famosas das telas (reutilizada anos depois no pesadelo kubrikiano "Laranja mecânica", mas em contexto bastante diferente).
"Cantando na chuva" é, além de um musical que não aborrece em momento algum - a possível exceção talvez seja o número "Melodia na Broadway", que conta com a presença de Cyd Charisse e, por ser um tanto longo, com mais de 12 minutos, pode incomodar aos menos pacientes - é uma comédia divertidíssima, com diálogos inteligentes e repletos de auto-ironia. Sendo assim, um casal de Hollywood, dentro do filme, "é um exemplo: são casados há dois meses e ainda são felizes..." e Lina Lamont, em um acesso de estrelismo, se descreve, usando palavras de um jornalista, como "não uma pessoa, mas sim uma brilhante estrela no firmamento do entretenimento..."
São esses pequenos detalhes que fazem de "Cantando na chuva" bem mais do que um musical clássico, daqueles que passam de madrugada na TV na época do Natal e do Ano-novo. Ver e rever Gene Kelly dançando na chuva é e sempre será uma imagem imortal.
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