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domingo

OS DESAJUSTADOS


OS DESAJUSTADOS (The misfits, 1961, United Artists, 124min). Direção: John Huston. Roteiro: Arthur Miller. Fotografia: Russell Metty. Montagem: George Tomasini. Música: Alex North. Produção: Frank E. Taylor. Elenco: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Eli Wallach, Thelma Ritter. Estreia: 01/02/61

"Para que algumas coisas vivam, outras precisam morrer." Essa fala um tanto fatalista da personagem de Clark Gable em "Os desajustados", não deixa de parecer um triste presságio a respeito dos atores principais do filme de John Huston. Lançado no início de 1961, o filme, baseado em um conto que Arthur Miller escreveu em Reno enquanto aguardava seu divórcio ser finalizado para que se casasse com Marilyn Monroe, foi o último trabalho não só da atriz e de Gable, mas também uma das derradeiras atuações do seu terceiro astro, Montgomery Clift, que finalizou apenas mais dois filmes nos cinco anos seguintes, que antecederam sua morte. De certa forma a frase escrita por Miller se aplica perfeitamente ao que aconteceu com todos eles: ao morrerem como pessoas de carne e osso se transformaram em mitos.

Primeiro foi Clark Gable, que teve um ataque cardíaco no dia seguinte ao término das filmagens e morreu dez dias depois. Dizem que os constantes atrasos de Marilyn ajudaram a comprometer a saúde do ator, que declarou no final do trabalho que estava feliz pela conclusão do filme, uma vez que ela (Monroe) esteve perto de lhe causar um enfarte. Mas o fato de Gable, aos 59 anos de idade, ter dispensado os dublês em algumas das cenas que exigiam maior esforço físico certamente teve sua parcela de culpa. Gable, que ficou com o papel inicialmente oferecido a Robert Mitchum, também teve problemas em seguir o estilo de interpretação de seus colegas de elenco. Tanto Marilyn quanto Montgomery Clift e Eli Wallach, que atuava como o piloto de aviação Guido, eram adeptos do famoso Método do Actor's Studio, o que pra ele, de uma geração anterior, soava como uma música que ele não compreendia. De uma certa tortuosa forma, Gable se sentia tão deslocado no set de filmagem quanto Gay Langland, sua personagem no filme, um cowboy fora de época.

Depois foi a vez de Marilyn Monroe. Demitida da Fox por constantes atrasos e dependência química em junho de 1962, ela não terminou aquele que seria seu último filme, "Something's got to give". Sem trabalho e rejeitada por todos os estúdios devido a seu problemático currículo, o símbolo sexual mais famoso da história foi encontrada morta em seu apartamento no dia 05 de agosto, vítima de uma overdose que até hoje suscita polêmica. Como sua personagem em "Os desajustados", a recém-divorciada Roslyn Taber, Monroe também conseguia transmitir, através de seus olhos luminosos, um amor pela vida que, a julgar pelo que acontecia por trás das câmeras, era apenas uma fachada para esconder uma personalidade triste e infeliz.

E em 1966 chegou a hora de Montgomery Clift. Um dos maiores galãs dos anos 50, admirado tanto por público quanto pela crítica, Clift passou toda a carreira (e a vida) em constante angústia em relação a sua sexualidade, o que não o impediu de entregar trabalhos fascinantes, como "Um lugar ao sol" (onde aproveitou sua personalidade torturada para construir uma belíssima atuação). Dono de um dos rostos mais bonitos de Hollywood, ele teve sua beleza física seriamente avariada depois de um acidente de carro em 1956 que quase o matou. A tragédia não o impediu de seguir oferecendo ao público trabalhos brilhantes, mas o afastou do estrelato. Em 23 de julho de 1966, foi encontrado morto em sua cama. Em "Os desajustados", sua personagem, Perce Howland, é provavelmente o mais sensível dos homens que se envolvem na vida da bela Roslyn, um aspecto emocional plenamente visível na biografia do ator.


"Os desajustados" é um belíssimo western crepuscular. O clima melancólico que perpassa cada sequência é de uma pungência que se torna ainda mais palpável tendo em vista o destino dos atores que estão em cena. Tudo começa quando a bela e delicada Roslyn Taber (Marilyn Monroe no momento mais sensual e belo de sua carreira) se divorcia e, no caminho para o tribunal, conhece o simpático Guido (Eli Wallach), um piloto de aviação que ganha a vida como mecânico. Viúvo, Guido oferece a casa onde morava com a esposa para que Roslyn passe um tempo em Nevada, ao lado de Gay Langland (Clark Gable, envelhecido mas melhor ator do que nunca), um velho amigo seu, que não tem uma residência fixa, vive como cowboy e tem problemas de relacionamento com os filhos. Quando Guido percebe que entre Roslyn e Gay começa a existir um sentimento maior do que simples amizade, passa a tentar conquistá-la, o que acaba acarretando sérios conflitos entre os três. As coisas ficam ainda mais feias depois que junta-se ao grupo o cowboy de rodeios Perce Howland (Montgomery Clift) e ela descobre que eles estão indo caçar cavalos selvagens para vender a quem os transforma em ração de animais.

Tudo em "Os desajustados" pode (e merece) ser visto de forma metafórica. Os desajustados do título tanto podem ser os cavalos selvagens caçados em cenas de extrema competência técnica quanto os protagonistas do filme, tão perdidos quanto os animais. Gay leva uma vida nômade, sem ãncoras, buscando a liberdade a todo custo. Perce ganha dinheiro em rodeios mas também sonha em nunca viver de um salário fixo, assim como não consegue se envolver de verdade em nenhum relacionamento. Guido é incapaz de deixar no passado o amor que sente pela falecida mulher, o que atrapalha sua vida sentimental. E Roslyn, no meio de três homens calejados, machucados pela vida, tenta dar a eles um rumo, um porto seguro, uma chance de recomeçar a viver, mesmo que perceba que talvez a pessoa errada seja ela.

"Os desajustados" é, no fundo, uma obra sobre a solidão e o desespero que une as pessoas. Mas é também, e principalmente, um belíssimo testamento de alguns dos maiores astros produzidos pelo cinema hollywoodiano.

sexta-feira

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR


QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Some like it hot, 1959, MGM Pictures, 120min). Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur P. Schmidt. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Produção: Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Tony Curtis, Marilyn Monroe, George Raft, Pat O'Brien, Joe E. Brown Estreia: 29/3/59

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte
Oscar de Melhor Figurino

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Marilyn Monroe)

Em mais uma de suas espirituosas declarações, o cineasta Billy Wilder disse o seguinte: "Tenho uma tia-avó na Áustria que é pontualíssima, mas ninguém pagaria um tostão para vê-la." Não é preciso ser adivinho para entender os motivos que levaram o genial cineasta a soltar essa pérola: ele tinha dirigido Marilyn Monroe duas vezes e sabia com toda a certeza do mundo que, por mais torturante que fosse comandar a estrela, seu nome estampado no cartaz de um filme era garantia de bilheteria. E na segunda ocasião ele estava, outra vez, certo. Fazer com que Monroe acertasse suas cenas era um inferno (em uma ocasião ela errou uma única frase 59 vezes!!!), mas quem, em sã consciência pode julgar Wilder, quando o resultado de tão estafante missão é algo como "Quanto mais quente melhor"?

Considerada unanimemente como uma das comédias mais engraçadas de todos os tempos (o American Film Institute foi ainda mais longe, categorizando-a como a melhor comédia da história), "Quanto mais quente" foi também um dos poucos filmes americanos a figurar na lista negra da Legião de Decência do Catolicismo Romano (sim, isso existe), condenado, provavelmente, por utilizar, para atingir seus objetivos humorísticos, dois homens travestidos. E quem acha que isso é coisa do Papa está enganado: o Kansas também proibiu o filme de estrear, porque "travestismo é muito perturbador para seus conterrâneos". Só o que pode se pensar quanto a isso é: coitado dos cidadãos do Kansas, que foram privados de dar muitas e saudáveis risadas.

"Quanto mais quente melhor" se passa em 1929, em plena vigência da Lei Seca, onde gângsters circulavam livremente pelas ruas de Chicago e chacinas aconteciam a cada esquina. Uma dessas chacinas é testemunhada por dois músicos falidos, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), que ameaçados de morte pelo mafioso Spats Colombo (George Raft), só encontram uma saída: candidatar-se aos cargos de integrantes de uma banda feminina que está de passagem marcada para a Flórida. O fato de ser uma banda só para mulheres é um detalhe que logo eles tiram de letra: com os nomes de Josephine e Daphne eles embarcam rumo à liberdade ao lado de inúmeras beldades. O que eles não poderiam imaginar é que, durante a viagem eles conheceriam a bela Sugar Cane (Marilyn Monroe) e que o milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown) cairia de amores pela versão feminina de Jerry.


Roteiristas de comédias deveriam ter o script de "Quanto mais quente melhor" como sua Bíblia. É impressionante o número de boas piadas espalhadas pelo script, equilibradas magistralmente entre gags visuais e diálogos engraçadíssimos, que nunca apelam para o vulgar ou grosseiro - o que seria tentador, levando-se em conta a premissa da trama. Tudo é construído cuidadosamente, sem pressa, com um ritmo que nunca é demais nem de menos. Todas as tramas - a perseguição feita pelo mafioso, a farsa que une o milionário criado por Joe para conquistar Sugar e o "romance" entre Daphne e Osgood - tem seus momentos de brilho e importância e acabam fazendo parte de um conjunto irresistível de cenas hilariantes e de uma inteligência rara no gênero. Tudo está no lugar em "Quanto mais quente melhor", cada cena pode ser examinada solitariamente milhares de vezes e sempre será genial, graças especialmente à direção impecável de Billy Wilder e ao elenco escolhido por ele, em que ninguém - NINGUÉM - soa artificial ou fora do espírito da coisa. Das mulheres que fazem parte da banda aos mafiosos, nada está faltando ou sobrando no filme - e alguns coadjuvantes são excepcionais, como o carregador do hotel, apaixonado por Josephine e Joan Shawlee como Sweet Sue (e isso para não citar a incrível participação de Joe E. Brown, que rouba todas as cenas em que aparece como Osgood III).

Mas se o elenco secundário segura o rojão com segurança e desenvoltura, são os atores principais que fazem com que tudo que dá certo no filme pareça ainda mais perfeito. Se Marilyn Monroe enfeita a tela com sua sensualidade e carisma sempre que entra em cena e Tony Curtis demonstra um até então insuspeito talento pra comédia, não há como negar que é Jack Lemmon quem comanda o show. Na pele de Daphne, Lemmon (que ficou com o papel recusado por Jerry Lewis e que Wilder quis oferecer a Frank Sinatra) apresenta um timing irretocável para o humor, sempre utilizando o tom exato para cada frase, a entonação perfeita para cada palavra e uma expressividade corporal e facial que dispensa qualquer exagero (alguns atores ditos de comédia bem que poderiam assistir ao filme com mais frequência para aprender alguma coisa). Indicado ao Oscar por seu trabalho, Lemmon perdeu a estatueta para Charlton Heston, de "Ben-hur", o que já demonstrava desde então o preconceito da Academia para com filmes menos sérios (Billy Wilder também concorreu como diretor, mas não houve a merecidíssima indicação a Melhor Filme).

É um desafio assistir "Quanto mais quente melhor" sem rir - logicamente pessoas com bom gosto cinematográfico que preferem piadas inteligentes à humor pastelão-escatológico. E Wilder tinha razão quando dizia que Marilyn Monroe valia qualquer sacrifício: é impossível imaginar uma outra atriz que conseguisse unir com tanta facilidade sensualidade com inocência. Mesmo em preto e branco (a atriz concordou com a exceção à sua regra contratual de fazer apenas filmes coloridos porque o diretor convenceu-a de que a maquiagem de Lemmon e Curtis ficaria grotesca em cores) sua beleza eterna permanece intocada e, se é de "O pecado mora ao lado" sua cena mais conhecida, é este seu melhor trabalho e o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical apenas reitera essa afirmação.

sábado

O PECADO MORA AO LADO


O PECADO MORA AO LADO (The seven year itch, 1955, 20th Century Fox, 105min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder e George Axelrod, baseado na peça de teatro homônima de George Axelrod. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Hugh S. Fowler. Música: Alfred Newman. Produção: Billy Wilder e Charles K. Feldman. Elenco: Tom Ewell, Marilyn Monroe, Evelyn Keyes. Estreia: 01/6/55

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Ewell)

Em uma cena de "Sabrina", lançado em 1954, o protagonista Linus Larrabee, vivido por Humphrey Bogart pede a sua secretária que compre dois ingressos para o teatro, onde irá acompanhado da personagem-título, interpretada por Audrey Hepburn. A peça que ele assiste (ainda que seja apenas mencionada) é "The seven year itch", então um grande êxito de bilheteria nos palcos da Broadway. O que parecia apenas uma menção ocasional a um sucesso do momento era na verdade um marketing esperto e criativo do diretor do filme, Billy Wilder. Seu próximo projeto era justamente a adaptação para o cinema da peça, que, ao estrear, em 1955, forjaria definitivamente a imagem de Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual feminino da história do cinema.

Batizado no Brasil como "O pecado mora ao lado", o filme do austríaco Wilder (que já havia inclusive ganho um Oscar de direção por "Farrapo humano", em 1945) foi definido, na época de seu lançamento, como uma "comédia sexual", apelando principalmente para o apelo erótico de sua estrela, Marilyn Monroe, então com 28 anos de idade e no auge de sua fama. Recém-casada com o esportista Joe DiMaggio (um casamento que durou apenas 9 meses e azedou de vez durante as filmagens), a atriz acabou tornando-se, graças a seu carisma, o centro do filme, mesmo que sua personagem seja secundária.

O real protagonista de "O pecado mora ao lado" (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que no filme o "pecado" não exatamente mora ao lado e sim no andar de cima...) é Richard Sherman, executivo de uma editora de livros de bolso que, assim como centenas de outros homens comuns, fica sozinho no período de verão, quando manda a esposa (Evelyn Keyes) e o filho pequeno para o litoral. Casado há sete anos (período em que, segundo um dos livros que estuda para publicar, acontece a temida "coceira"), ele passa a sentir uma irresistível atração pela jovem que está passando uma temporada no apartamento acima do seu, pertencente a um casal de amigos. Sentindo-se culpado por seus pensamentos pecaminosos, ele deixa sua imaginação atingir altos níveis, enquanto se divide entre a tentação do adultério com sua deliciosa vizinha e a manutenção de seu casamento. Na pele de Tom Ewell (que defendeu o papel nos palcos e por isso teve a chance de ficar com ele também nas telas, ainda que Wilder preferisse o novato Walter Matthau), Sherman é o típico homem comum, o que o aproxima mais facilmente do espectador (conseguindo o efeito desejado pela produção, que rejeitou Gary Cooper para o papel por ele ser bonito demais). Falando diretamente para o público, Sherman o tem como cúmplice (mas, pensando bem, quem não teria, tendo Marilyn Monroe como nada obscuro objeto do desejo?).

Na verdade, a adaptação do texto de George Axelrod (feita por ele mesmo ao lado de Wilder) sofreu com a censura ferrenha do Código Hayes, que freava toda e qualquer manifestação que pudesse macular a moral e os bons costumes. No palco, o adultério de Sherman é consumado e é justamente seu sentimento de culpa pela traição que motivava a maior parte das piadas criadas pelo autor. No momento em que, por imposição do estúdio (a 20th Century Fox para onde o diretor foi após o término de seu contrato com a Paramount), não há traição na história, Wilder e Axelrod tiveram que suar a camisa para que a trama não ficasse vazia a ponto de desaparecer. Levando em consideração tal dificuldade, é impossível não louvar o resultado final, que consegue ser engraçado sem ser vulgar e, de quebra, apresenta a atuação mais "quente" de Monroe. E quente aqui serve para várias interpretações.

A interpretação mais óbvia e fácil é a da temperatura, mesmo: a história se passa em um escaldante verão nova-iorquino, o que justifica algumas passagens clássicas do mito Monroe: sua personagem (sem nome) afirma guardar as calcinhas no congelador, toma banho de banheira, dorme no apartamento do vizinho que tem ar-condicionado e, se não fosse o calor, provavelmente ela não seria protagonista de uma das cenas mais imitadas, citadas, homenageadas e conhecidas de sua trajetória (e de qualquer outra atriz): atire a primeira pedra quem não conhece a famosa imagem de Marilyn tendo sua saia levantada pelo vento que sai do bueiro, causado pela passagem do metrô. Essa cena, filmada na rua (mas que teve que ser refeita em estúdio, uma vez que ficou inutilizada pelo barulho causado pelos felizardos espectadores) foi, provavelmente, a pá de cal no relacionamento da estrela com DiMaggio, que não ficou particularmente feliz em ver sua esposa (que ele sonhava ver como dona-de-casa, dá pra imaginar??) sendo objeto de desejo de todo o planeta. Se o jogador não gostou, problema dele. O mundo adorou e transformou a antiga Norma Jean Baker no mais duradouro mito sexual da história. Tem como julgar o pobre Richard Sherman?

"O pecado mora ao lado" não é, nem de longe, o melhor filme de Billy Wilder (sua próxima colaboração com Marilyn, no sensacional "Quanto mais quente melhor" é mil vezes mais divertido e transgressor). Visto hoje, é de uma inocência quase pueril. Mas só o fato de ter criado a icônica e definitiva imagem de Monroe como símbolo sexual (pro bem e pro mal) já o torna mais que obrigatório.

A MALVADA


A MALVADA (All about Eve, 1950, 20th Century Fox, 138min) Direção e roteiro: Joseph L. Manckiewicz. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Barbara McLean. Música: Alfred Newman. Figurino: Edith Head, Charles LeMaire. Produção: Darryl F. Zanuck. Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Thelma Ritter, Hugh Marlowe, Marilyn Monroe. Estreia: 13/10/50

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joseph L. Manckiewicz), Atriz (Bette Davis e Anne Baxter), Ator Coadjuvante (George Sanders), Atriz Coadjuvante (Celeste Holm e Thelma Ritter), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joseph L. Manciewicz), Ator Coadjuvante (George Sanders), Roteiro Original, Figurino, Som

Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

É fácil entender porque Kim Carnes compôs "Bette Davis eyes", canção de sucesso dos anos 80. Basta assistir a uma única cena de "A malvada" - mesmo porque não querer assistir as demais é tarefa inglória - para compreender o fascínio que o olhar da atriz Bette Davis desperta em sua audiência. Um arquear de sobrancelhas de Davis fala mais do que páginas e páginas de diálogos e já seria argumento suficiente para justificar a influência que o cinema hollywoodiano tem sobre todo o planeta.

Bette Davis fez mais de 100 filmes em sua brilhante carreira, mas não há como negar que, se tivesse feito apenas "A malvada" já teria seu nome marcado de forma indelével no coração dos cinéfilos. Ela pode ter perdido o Oscar para Judy Holiday (o motivo é até hoje um mistério) mas sua Margo Channing é, sem sombra de dúvida, uma de suas mais fortes atuações.

Margo Channing (Bette Davis) é uma diva dos palcos da Broadway. Admirada pelo público e respeitada pela crítica, ela vive cercada por amigos fiéis, como Karen (Celeste Holm), esposa do dramaturgo Lloyd Richards (Hugh Marlowe), a camareira Birdie (Thelma Ritter) e seu noivo, o diretor Bill Simpson (Gary Merrill). Sua vida começa a mudar quando ela dá o emprego de assistente pessoal à jovem e dedicada Eve Harrington (Anne Baxter). Fã confessa da atriz, Eve começa a viver em função de Margo até que, aos poucos a estrela começa a perceber que suas intenções não são exatamente nobres – na verdade, Eve tem o objetivo de tomar o lugar de Margo nos palcos, no coração dos fãs e, pior ainda, na cama de Bill.

A primeira cena de "A malvada" é a entrega de um troféu de interpretação teatral para Eve. Seus fiéis "amigos" estão todos na cerimônia e o cínico crítico vivido por George Sanders (vencedor do Oscar de coadjuvante) começa a contar "tudo sobre Eve"... E esta primeira cena já deveria figurar em qualquer antologia. Em pouquíssimos minutos está estabelecida a história, as personagens e os conflitos. Em poucos momentos a atenção do público já está presa. E a partir daí é aproveitar cada cena, cada fala, cada gesto de Bette Davis e cada ironia e sarcasmo do roteiro.


Aliás, talvez a melhor qualidade de "A malvada" seja o seu frescor. Ao contrário de muitos filmes clássicos, em nenhum momento o roteiro de Joseph L. Manciewickz (considerado um déspota cruel por todos que trabalharam com ele) soa datado, ou empolado ou até mesmo anacrônico. É escrito com uma leveza, uma coloquialidade e uma inteligência ímpares, que o destaca entre seus congêneres. Aliás, não deixa de ser uma feliz coincidência o fato de que o melhor filme sobre os bastidores do cinema da história ("Crepúsculo dos deuses") tenha sido lançado no mesmo ano do melhor filme sobre os bastidores do teatro. No entanto, enquanto o filme de Billy Wilder conta de maneira melancólica a derrocada de um ícone do cinema mudo, a obra de Manciewickz narra a ascensão de um possível mito dos palcos. Enquanto Norma Desmond (a protagonista de "Crepúsculo...") perde a sanidade ao confrontar-se com sua decadência, Eve Harrington ganha fama e prestígio, mesmo sendo obrigada a abdicar de sua alma - algo que ela não parece se importar em perder. É um filme sobre teatro, mas poderia se passar em qualquer outro campo de trabalho que faria o mesmo sentido. Se alguém duvida desta afirmação basta lembrar a sinopse da novela "Celebridade", de Gilberto Braga, onde Cláudia Abreu fazia tudo a seu alcance para conquistar tudo que era da personagem de Malu Mader.

Apesar de Anne Baxter ser, de certa forma, a protagonista de "A malvada" - afinal é a partir dela que a história anda - , é a presença de Bette Davis que domina cada fotograma. Margo Channing não é exatamente uma flor de simpatia - tem momentos de arrogância explícita - mas não deixamos em nenhum momento de admirá-la e torcer para que consiga dar o troco na malévola Eve. Margo é uma mulher dona de si, ciente de seu talento e de seu carisma, mas que vê em Eve - depois de um certo tempo - a ameaça da juventude e da beleza. Margo é acima de tudo, uma mulher, que tem medo de perder tudo que conquistou - inclusive o amor de um homem e admiração dos fãs que até então ela considerava uma "raça inferior" - para alguém que tem a oferecer talvez menos do que ela - mas em uma edição mais fresca. De certa forma tem similaridades com a Norma Desmond criada por Gloria Swanson, mas tem, a seu favor, uma sanidade mental e uma capacidade de raciocínio invejáveis.

Assistir a "A malvada" é como assistir a um duelo de gigantes. Quem sai vitorioso, no entanto, é o público, que tem o privilégio de ver, rever e trever um dos maiores filmes sobre o mundo do teatro. E se existe mais uma razão para se assistir ela se chama Marilyn Monroe, em um papel pequeno que seria o início de sua carreira.

PS - "Tudo sobre minha mãe", a obra-prima do espanhol Pedro Almodovar, tem este título (Todo sobre mi madre) em homenagem a "A malvada". Em uma de suas primeiras cenas, mãe e filho estão assistindo ao filme de Manciewickz e no decorrer da trama a personagem de Cecilia Roth assume no palco o papel da atriz vivida por Marisa Paredes. Uma homenagem triunfante e merecida!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...