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quinta-feira

ACONTECEU NAQUELA NOITE

ACONTECEU NAQUELA NOITE (It happened one night, 1934, Columbia Pictures,105min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, conto de Samuel Hopkins Adams. Fotografia: Joseph Walker. Montagem: Gene Havlick. Música: Howard Jackson. Figurino: Robert Kalloch. Direção de arte: Stephen Goosson. Produção: Frank Capra. Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas. Estreia: 22/02/34

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (Clark Gable) Atriz (Claudette Colbert), Roteiro

Na primeira metade da década de 30, a Columbia Pictures não era exatamente uma grande potência dentre os estúdios de cinema de Hollywood – sua situação era tão humilhante que os presidentes da MGM e da Warner à época costumavam emprestar alguns de seus maiores astros para seus filmes como forma de castigá-los por alguma travessura. Foi assim, por exemplo, que Clark Gable (ainda antes de forjar sua eternidade no mundo do cinema com o épico “... E o vento levou”, lançado em 1939) acabou no elenco de “Aconteceu naquela noite”, uma produção barata e sem maiores ambições que, dirigida por Frank Capra, acabou por tornar-se um estrondoso sucesso de público e crítica – e, de quebra, foi a primeira produção da história a ganhar os cinco principais Oscar (filme, diretor, ator, atriz e roteiro). Pagando pena devido a seu escandaloso romance com Joan Crawford - que não agradou nem um pouco à MGM – Gable entrou no filme já com o pé esquerdo (à sua primeira reunião com Capra ele chegou bêbado e nem se deu ao trabalho de ser simpático) mas hoje é difícil ver outro ator no papel do cínico jornalista Peter Warne – e nessas horas é bom agradecer ao acaso o fato de ele ter sido recusado por Claude Rains e Robert Montgomery.

Aliás, o acaso jogou muito bem na montagem da equipe de “Aconteceu naquela noite”. Se a recusa de Carole Lombard em viver a mimada Ellie Andrews adiou em alguns anos seu casamento com Gable – se é que eles se apaixonariam de verdade durante as filmagens – ela serviu para que o papel caísse no colo de Claudette Colbert, que, aliás, não estava nem um pouco interessada em voltar a trabalhar com Frank Capra depois do fracasso comercial de seu primeiro encontro, “Filhos da fortuna” (27). Seu desinteresse pelo projeto acabou minado pela insistência do cineasta, que lhe prometeu o dobro de seu salário na Paramount por apenas quatro semanas de filmagens – a atriz não apenas acabou aceitando o papel em um filme que não lhe agradava (“acabei de fazer o pior filme da minha vida!”, ela confidenciou a uma amiga no último dia de trabalho) como passou a perna em ninguém menos que Bette Davis, interessadíssima em participar do projeto mas impedida pela Warner, com quem tinha contrato.


O interesse de Davis, diga-se de passagem, era uma surpresa, já que praticamente ninguém em Hollywood parecia muito entusiasmado em fazer parte da comédia romântica de Capra. Colbert, por exemplo, foi a sexta atriz sondada para o papel central – nomes como Loretta Young, a já citada Carole Lombard e Myrna Loy já haviam declinado do convite – e Robert Montgomery chegou a anunciar a quem quisesse ouvir que o roteiro era o pior que ele já havia lido. Foi aí que Capra entrou na jogada e chamou Robert Raskin para reescrever tudo do começo. Baseado em um conto chamado “Bus stop”, escrito por Samuel Hopkins Adams e publicado na revista “Cosmopolitan” (a “Nova” dos EUA), Raskin acabou criando uma deliciosa e divertida história de amor que acabou por se tornar a maior das referências do gênero “comédia romântica” – uma influência sentida até os dias de hoje.
Dono de um frescor e de uma inteligência que se mantém intactas mesmo depois de mais de sete décadas, “Aconteceu naquela noite” deve muito de seu ritmo ágil e de sua capacidade de empatia à direção elegante e esperta de Frank Capra, que mais tarde se tornaria um dos cineastas mais importantes dos EUA ao equilibrar um otimismo à toda prova e doses discretas de cinismo em filmes como “A felicidade não se compra” e “O galante Mr. Deeds”. Imprimindo à sua narrativa um tom moderno e algumas ousadias nada ameaçadoras, Capra conta a história de um amor nascido das diferenças, mas o faz com um olhar impiedoso e paradoxalmente carinhoso. Ellie Andrews (Claudette Colbert) é a herdeira de um empresário milionário que briga com o pai porque ele não aceita seu casamento com o playboy King Westley (Jameson Thomas). Para fugir do domínio paterno, ela pega um ônibus em direção à Nova York e se torna alvo de uma caçada nacional – há até uma recompensa para quem conseguir encontrá-la. Quem a encontra, por acaso, é Peter Warne (Clark Gable), um jornalista recém demitido que vê na jovem a chance de uma volta por cima. Uma série de imprevistos na viagem acaba por juntar os dois – sem que ela sequer desconfie que ele tem interesses financeiros por trás de sua gentileza um tanto rude. Logicamente, porém, as cartas acabam se embaralhando quando ele se apaixona por ela – e passa a ser correspondido mesmo sem saber.
A trama simples de Riskin é levada com humor e leveza da primeira à última cena, e o Oscar de roteiro é plenamente justificado graças às inúmeras sequências antológicas preparadas pela trama. É nesse filme, por exemplo, que Colbert mostra as pernas para conseguir uma carona e que os dois atores são obrigados a comer cenouras cruas para matar a fome. É de “Aconteceu naquela noite”, também, a famosa cena em que Gable mostra o peito nu debaixo de sua camisa: à época era comum que se usasse uma outra camisa por baixo da primeira e tal cena fez com que a venda das camisas de baixo caísse a níveis alarmantes, a ponto de uma empresa ter pensado em processar a Columbia (mal sabia ela que tudo aconteceu apenas porque o ator não conseguia dizer o texto tirando mais de uma peça de roupa).
No final das contas, “Aconteceu naquela noite” passou de azarão a campeão. Lançado em cinemas secundários nos EUA, aos poucos o filme começou a demonstrar uma popularidade surpreendente, e a Columbia aumentou o número de salas para ver-se alçada, ao final da temporada, a um nível superior dentro da hierarquia dos estúdios. Vencendo os cinco Oscar a que concorria – Colbert nem esperava ganhar e foi pega de surpresa com a vitória no mesmo ano em que tinha outros dois filmes na disputa, “Cleópatra” e “Imitação da vida” – a pequena obra-prima de Frank Capra é hoje um exemplo mais do que acabado de tudo que uma comédia romântica pode (e deve) ser.

domingo

OS DESAJUSTADOS


OS DESAJUSTADOS (The misfits, 1961, United Artists, 124min). Direção: John Huston. Roteiro: Arthur Miller. Fotografia: Russell Metty. Montagem: George Tomasini. Música: Alex North. Produção: Frank E. Taylor. Elenco: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Eli Wallach, Thelma Ritter. Estreia: 01/02/61

"Para que algumas coisas vivam, outras precisam morrer." Essa fala um tanto fatalista da personagem de Clark Gable em "Os desajustados", não deixa de parecer um triste presságio a respeito dos atores principais do filme de John Huston. Lançado no início de 1961, o filme, baseado em um conto que Arthur Miller escreveu em Reno enquanto aguardava seu divórcio ser finalizado para que se casasse com Marilyn Monroe, foi o último trabalho não só da atriz e de Gable, mas também uma das derradeiras atuações do seu terceiro astro, Montgomery Clift, que finalizou apenas mais dois filmes nos cinco anos seguintes, que antecederam sua morte. De certa forma a frase escrita por Miller se aplica perfeitamente ao que aconteceu com todos eles: ao morrerem como pessoas de carne e osso se transformaram em mitos.

Primeiro foi Clark Gable, que teve um ataque cardíaco no dia seguinte ao término das filmagens e morreu dez dias depois. Dizem que os constantes atrasos de Marilyn ajudaram a comprometer a saúde do ator, que declarou no final do trabalho que estava feliz pela conclusão do filme, uma vez que ela (Monroe) esteve perto de lhe causar um enfarte. Mas o fato de Gable, aos 59 anos de idade, ter dispensado os dublês em algumas das cenas que exigiam maior esforço físico certamente teve sua parcela de culpa. Gable, que ficou com o papel inicialmente oferecido a Robert Mitchum, também teve problemas em seguir o estilo de interpretação de seus colegas de elenco. Tanto Marilyn quanto Montgomery Clift e Eli Wallach, que atuava como o piloto de aviação Guido, eram adeptos do famoso Método do Actor's Studio, o que pra ele, de uma geração anterior, soava como uma música que ele não compreendia. De uma certa tortuosa forma, Gable se sentia tão deslocado no set de filmagem quanto Gay Langland, sua personagem no filme, um cowboy fora de época.

Depois foi a vez de Marilyn Monroe. Demitida da Fox por constantes atrasos e dependência química em junho de 1962, ela não terminou aquele que seria seu último filme, "Something's got to give". Sem trabalho e rejeitada por todos os estúdios devido a seu problemático currículo, o símbolo sexual mais famoso da história foi encontrada morta em seu apartamento no dia 05 de agosto, vítima de uma overdose que até hoje suscita polêmica. Como sua personagem em "Os desajustados", a recém-divorciada Roslyn Taber, Monroe também conseguia transmitir, através de seus olhos luminosos, um amor pela vida que, a julgar pelo que acontecia por trás das câmeras, era apenas uma fachada para esconder uma personalidade triste e infeliz.

E em 1966 chegou a hora de Montgomery Clift. Um dos maiores galãs dos anos 50, admirado tanto por público quanto pela crítica, Clift passou toda a carreira (e a vida) em constante angústia em relação a sua sexualidade, o que não o impediu de entregar trabalhos fascinantes, como "Um lugar ao sol" (onde aproveitou sua personalidade torturada para construir uma belíssima atuação). Dono de um dos rostos mais bonitos de Hollywood, ele teve sua beleza física seriamente avariada depois de um acidente de carro em 1956 que quase o matou. A tragédia não o impediu de seguir oferecendo ao público trabalhos brilhantes, mas o afastou do estrelato. Em 23 de julho de 1966, foi encontrado morto em sua cama. Em "Os desajustados", sua personagem, Perce Howland, é provavelmente o mais sensível dos homens que se envolvem na vida da bela Roslyn, um aspecto emocional plenamente visível na biografia do ator.


"Os desajustados" é um belíssimo western crepuscular. O clima melancólico que perpassa cada sequência é de uma pungência que se torna ainda mais palpável tendo em vista o destino dos atores que estão em cena. Tudo começa quando a bela e delicada Roslyn Taber (Marilyn Monroe no momento mais sensual e belo de sua carreira) se divorcia e, no caminho para o tribunal, conhece o simpático Guido (Eli Wallach), um piloto de aviação que ganha a vida como mecânico. Viúvo, Guido oferece a casa onde morava com a esposa para que Roslyn passe um tempo em Nevada, ao lado de Gay Langland (Clark Gable, envelhecido mas melhor ator do que nunca), um velho amigo seu, que não tem uma residência fixa, vive como cowboy e tem problemas de relacionamento com os filhos. Quando Guido percebe que entre Roslyn e Gay começa a existir um sentimento maior do que simples amizade, passa a tentar conquistá-la, o que acaba acarretando sérios conflitos entre os três. As coisas ficam ainda mais feias depois que junta-se ao grupo o cowboy de rodeios Perce Howland (Montgomery Clift) e ela descobre que eles estão indo caçar cavalos selvagens para vender a quem os transforma em ração de animais.

Tudo em "Os desajustados" pode (e merece) ser visto de forma metafórica. Os desajustados do título tanto podem ser os cavalos selvagens caçados em cenas de extrema competência técnica quanto os protagonistas do filme, tão perdidos quanto os animais. Gay leva uma vida nômade, sem ãncoras, buscando a liberdade a todo custo. Perce ganha dinheiro em rodeios mas também sonha em nunca viver de um salário fixo, assim como não consegue se envolver de verdade em nenhum relacionamento. Guido é incapaz de deixar no passado o amor que sente pela falecida mulher, o que atrapalha sua vida sentimental. E Roslyn, no meio de três homens calejados, machucados pela vida, tenta dar a eles um rumo, um porto seguro, uma chance de recomeçar a viver, mesmo que perceba que talvez a pessoa errada seja ela.

"Os desajustados" é, no fundo, uma obra sobre a solidão e o desespero que une as pessoas. Mas é também, e principalmente, um belíssimo testamento de alguns dos maiores astros produzidos pelo cinema hollywoodiano.

sábado

... E O VENTO LEVOU



... E O VENTO LEVOU (Gone with the wind, 1939, Warner Bros., 224min) Direção: Victor Fleming. Roteiro: Sidney Howard, romance de Margareth Mitchell. Fotografia: Ernest Haller, Ray Rennahan. Montagem: Hal C. Kern, James E. Newcomb. Música: Max Steiner. Figurino: Walter Plunkett. Produção: David O. Selznick. Elenco: Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland, Leslie Howard, Hattie MacDaniel. Estreia: 15/12/39

12 indicações ao Oscar: Filme, Diretor (Victor Fleming), Ator (Clark Gable), Atriz (Vivien Leigh), Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 10 Oscar: Filme, Diretor (Victor Fleming), Atriz (Vivien Leigh), Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, e mais 2 especiais: um para o produtor David O. Selznick e um para o uso da fotografia.


O que ainda não foi falado sobre "... E o vento levou"? Há mais de 70 anos encantando gerações e gerações, a obra-prima de Victor Fleming já foi objeto de estudos, teses, livros, homenagens e continua tão fascinante hoje quanto em 1939. Até poderia ser um desafio tentar entender esse fenômeno, mas basta assistir aos primeiros minutos do filme para que qualquer tentativa de ser razoável torne-se impossível. Assim como em toda e qualquer paixão, "...E o vento levou" foge do racional, conquistando o espectador pelo coração, pelos olhos e pelos ouvidos. Ser fã de cinema e não assistir a "...E o vento levou" é o mesmo que ser fã de futebol e não conhecer Pelé.

"...E o vento levou" é a mais perfeita tradução em imagens do melhor que Hollywood pode proporcionar em termos de espetáculo. A fotografia esplendorosa e a reconstituição de época impecável são referências absolutas até os dias de hoje, quando a palavra épico necessariamente traz à mente suas mais grandiosas cenas: o incêncio de Atlanta, a visão dos soldados feridos, os belíssimos crepúsculos em Technicolor... A trilha sonora imponente de Max Steiner, os figurinos caprichados de Walter Plunkett e o ritmo sem falhas do roteiro adaptado por Sidney Howard do romance de Margareth Mitchell completam o que pode ser chamado sem medo de obra-prima.


Mas nada disso seria suficiente se não fosse dois elementos-chave do sucesso e da perenidade do filme: sua história, forte e melodramática e seu elenco absolutamente perfeito. Com a possível exceção de Leslie Howard, que vive um Ashley Wilkes apático e sensaborão, todos os atores que fazem parte de "...E o vento levou" nunca estão aquém de fabulosos. O galã Clark Gable interpreta um Rhett Butler inesquecível; Olivia de Havilland vive uma Melanie impecável em sua delicadeza quase inumana e as coadjuvantes Hattie McDaniel (primeira negra a levar um Oscar) e Butterly McQueen roubam cada cena em que aparecem. No entanto, não seria equivocado afirmar que o filme pertence a Vivien Leigh. A atriz inglesa suplantou praticamente toda a população artística feminina de Hollywood para ficar com o papel da sulista Scarlett OHara - sem dúvida uma das personagens mais marcantes da história do cinema - e justifica sua escalação em cada um dos fotogramas em que aparece. Além de ser linda, dona de uma beleza clássica mas nunca datada, Leigh imprime a força necessária a sua personagem, uma pré-feminista das mais apaixonantes que se tem notícia.

Para quem ainda não sabe - se é que existe alguém que não sabe - "...E o vento levou" conta a história de Scarlett O'Hara (Leigh), uma jovem mimada e voluntariosa que vê seu mundo desmoronar quando o homem por quem é apaixonada, Ashley Wilkes (Howard) anuncia seu casamento com a meiga Melanie (de Havilland) pouco antes de partir para a Guerra de Secessão americana - que opunha o sul escravocrata contra o norte abolicionista. Mais do que afastá-la de Ashley, a guerra também leva às ruínas a fazenda de sua família - a imponente Tara - e, para salvá-la, Scarlett não hesita em utilizar de quaisquer artifícios, inclusive embarcando em casamentos por interesse. Sua obsessão por Ashley e sua luta pela manutenção de sua propriedade, no entanto, a cegam para a verdade que sempre esteve sua frente: o amor que desperta em Rhett Butler (Gable), que, por trás de um verniz de cínico e amoral, esconde um cavalheiro romântico e apaixonado.

"...E o vento levou" tem de tudo um pouco: é romance, é épico, tem cenas de legítima comédia, retrata os horrores da guerra - que transformam pessoas em animais - e conta uma história de amor que nunca soa falsa. Mas acima de tudo, é um filme que, como poucos, merece o título de "clássico".

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...