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segunda-feira

O PIANO


O PIANO (The piano, 1993, CiBy 2000/Jan Chapman Productions/The Australian Film Comnission, 121min) Direção e roteiro: Jane Campion. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Michael Nyman. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Meryl Cronin. Produção: Jan Chapman. Elenco: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Anna Paquin, Kerry Walker. Estreia: 15/5/93 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino

Vencedor de  3 Oscar: Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original

Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Atriz (Holly Hunter)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Holly Hunter)

Quando estava procurando uma atriz para viver Ada McGrath, a protagonista de seu próximo filme, a neozelandesa Jane Campion entrou em contato com o agente Steve Dontanville oferecendo o papel a uma de suas clientes, Sigourney Weaver. Sabendo que Weaver estava disposta a um período de descanso na carreira, para cuidar da filha pequena, Dontanville nem chegou a ela, sugerindo à Campion outra de suas agenciadas, Holly Hunter. - isso depois de uma série de possibilidades, que incluía Anjelica Huston, Jennifer Jason Leigh, Isabelle Huppert, Juliette Binoche e Madeleine Stowe. Meses mais tarde, quando "O piano" já havia se transformado em fenômeno - com duas vitórias no Festival de Cannes, três Oscar e dezenas de outros prêmios - a cineasta declarou, em uma entrevista, que Weaver era o tipo ideal para interpretar Ada, e surpreendeu a heroína da série "Alien", abismada com a ideia de não ter sido sequer consultada por seu agente. O fato é, que, a despeito do grande talento de Weaver, é praticamente impossível imaginar outra atriz no lugar de Hunter: avassaladora em seus silêncios expressivos e em seu trabalho físico, a então queridinha dos cineastas independentes americanos entrou com louvor no rol das maiores atrizes de seu tempo. E em um filme que, com uma visão feminina sobre o amor e o sexo, deixou desconfortável a parcela mais puritana das plateias internacionais.

Tratando a nudez, o sexo e a violência como partes indissociáveis das relações interpessoais, "O piano" se passa nos confins da Nova Zelândia do século XIX. É lá, em um cenário tão fascinante quanto inóspito, que chega a sensível Ada (Holly Hunter, avassaladora) para casar-se com Alistar Srewart (Sam Neill), a quem jamais conheceu pessoalmente e foi prometida por sua família. Junto com Ada estão sua filha pequena, Flora (Anna Paquin) e seu inestimável piano, que lhe serve como meio de comunicação e refúgio. Muda, Ada leva um choque de realidade quando se vê diante de um lugar que contrasta violentamente com seu espírito culto e delicado. Para piorar as coisas, seu marido, bruto e pouco afeito a sutilezas, vende seu piano para um vizinho, o exótico e misterioso George Baines (Harvey Keitel), que adotou o modo de viver dos nativos locais. Sentindo-se irremediavelmente atraído por Ada, ele propõe a Stewart que sua mulher lhe dê aulas de música em troca de terras desejadas pelo empresário. As lições de piano, no entanto, servem para que o surpreendentemente romântico Baines se aproxime do objeto de seu desejo, a quem ele deseja conquistar aos poucos, demonstrando um lado vulnerável e inesperado. Porém, o nascente romance entre os dois acende uma faísca que pode levar a uma tragédia.


 

Primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes - que dividiu com o chinês "Adeus, minha concubina", de Chen Kaige - e vencedor do Oscar de roteiro original, "O piano" foi também um inesperado sucesso popular, conquistando principalmente o público feminino, que viu na história de Ada um reflexo sofisticado da sexualidade através do olhar de uma mulher (Campion foi, à época, recém a segunda diretora a ser indicada na categoria, pela Academia). Ao apresentar cenas de nudez frontal de Holly Hunter e Harvey Keitel - nenhum deles dentro do padrão de beleza hollywoodiana - e sequências de sexo pouco discretas, o filme desafia a mesmice do cinema comercial, exibindo a sexualidade de forma madura e sem filtros. Pontuados pela belíssima trilha sonora de Michael Nyman, os momentos de intimidade entre os protagonistas soam como um sopro de verdade diante dos malabarismos eróticos da maioria da produção americana dos anos 1990. O despertar do amor entre Ada e Baines, visto pelas lentes do diretor de fotografia Stuart Dryburgh, surge como um oásis no meio da vastidão neozelandesa, quase hostil à sensibilidade, e consegue inclusive disfarçar o incômodo de ser fruto de um começo - e aqui há espaço para a polêmica - abusivo. Antes de entregar-se ao amor de Baines, a silenciosa pianista se vê obrigada a abrir mão do próprio corpo para recuperar seu instrumento musical, e nem mesmo a paixão quase cega de seu futuro amante justifica seus atos, por mais que se tente romantizar a situação. É uma questão desconfortável que o roteiro de Campion prefere ignorar.

Porém, se o desenvolvimento do romance entre os protagonistas é passível de discussão, não o são as maiores qualidades do filme. Holly Hunter está simplesmente devastadora como Ada, e seu Oscar é, provavelmente, um dos mais justos da história (no mesmo ano ela concorreu à estatueta de coadjuvante por seu trabalho em "A firma"), e Harvey Keitel surpreende em um papel a anos-luz de distância daqueles durões a que estão todos acostumados. A pequena Anna Paquin, que bateu nada menos que cinco mil candidatas ao papel da imprevisível Flora e levou um surpreendente Oscar, está igualmente fascinante, não se deixando intimidar pela presença gigantesca de Hunter. Dono de cenas de grande potência dramática - enfatizadas pela melancólica música e pelo desolador e cruel cenário, "O piano" é, sem dúvida, um dos filmes fundamentais de sua época, mesmo que hoje em dia soe um tanto questionável em termos morais. Apesar do viés distorcido do amor - ou talvez por causa disso, vai saber -, é uma história forte, contada com paixão e sensibilidade.

sexta-feira

MUDANÇA DE HÁBITO

 


MUDANÇA DE HÁBITO (Sister act, 1992, Touchstone Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Paul Rudnick (como Joseph Howard). Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Richard Halsey. Música: Marc Shaiman. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Scott Rudin. Produção: Teri Schwartz. Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Bill Nunn, Kathy Najimy. Estreia: 29/5/92

Algumas comédias, por razões diversas, conseguem a façanha de dar certo a despeito de serem construídas sobre a frágil base de uma piada única. "Mudança de hábito" é um desses milagres. Lançado sem grandes expectativas no outono americano de 1992, o filme produzido pela Touchstone Pictures tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de um ano  repleto de cartas marcadas, como "Batman: o retorno" e "Máquina mortífera 3". A explicação possível para tamanho êxito? O carisma exuberante de Whoopi Golberg: fresquinha do Oscar de coadjuvante por "Ghost: o outro lado da vida" (1990), a atriz revelada por Steven Spielberg em "A cor púrpura" (1985) demonstrou, ao exibir seus dons cômicos e musicais, poder suficiente para protagonizar produções comerciais para toda a família. É impossível não se deixar cativar por Goldberg, capaz de chamar os holofotes para si mesmo ao lado de atores excepcionais como Maggie Smith e Harvey Keitel.

Um projeto que remete a 1987 - e que sofreu um processo por plágio, encerrado após a recusa de um acordo com os requerentes -, "Mudança de hábito" seria um veículo para o estrelato de Bette Midler, então o grande nome feminino do estúdio. Sua desistência acabou por acarretar diversas mudanças no roteiro conforme o tempo passava - e nomes importantes, como Nancy Meyers e Carrie Fisher estiveram envolvidas nas mudanças que acabaram, segundo o roteirista original, Paul Rudnick, desfigurando o material original a ponto de fazê-lo assinar os créditos com um pseudônimo. E se a presença de Goldberg ajudou no sucesso comercial do filme, seu relacionamento com o diretor Emile Ardolino - mais conhecido por "Dirty dancing: ritmo quente" (1987) - não foi das melhores, principalmente devido às interferências da atriz no roteiro. Tais dificuldades, no entanto, acabaram não transparecendo no resultado final: leve e divertido, "Mudança de hábito" conquista desde as primeiras cenas, e se não deixa de ser um tanto previsível, ao menos não tenta parecer  mais inventivo do que realmente é.

 

A trama gira em torno de Deloris Van Cartier (vivida com graça e verve por Goldberg), que vive como cantora em Reno, Nevada, onde tenta convencer o namorado, Vince LaRocca (Harvey Keitel), a abandonar a esposa para assumir seu relacionamento. Em uma noite como tantas outras, porém, Deloris dá de cara com LaRocca assassinando um empregado, o que a faz cair na real de que o amante é um gângster perigoso e com sérios problemas na justiça. Com medo de também ser morta, ela procura a polícia e, a contragosto, é convencida a esconder-se até que possa prestar depoimento e colocar o criminoso na cadeia. Mas se já não estava feliz com o fato de ter que sumir do mapa, a pouco confiável Deloris entra em pânico quando descobre que irá ficar por meses em um convento. Sob as ordens da pouco amistosa Madre Superiora (Maggie Smith), ela assume o nome de Irmã Mary Clarence e, a princípio revoltada com as rígidas regras do local, aos poucos descobre uma missão quase impossível: transformar o coral das freiras - desafinado, apático e desacreditado - em uma nova potência. Mas é claro que LaRocca não está disposto a desistir de encontrar a testemunha de seu crime...

E é só isso. A piada única - o confronto entre a dionisíaca Deloris e a paz quase celestial do convento - se estende por 100 minutos, sem aprofundamento de nenhum tipo. Logicamente não se pode esperar tratados éticos/religiosos em uma comédia feita para se assistir comendo pipoca, mas faz falta um embate maior entre a protagonista e a Madre Superiora (Maggie Smith sempre esplêndida, mas dessa vez subaproveitada) e até um tempo maior no desenvolvimento de sua amizade com as outras freiras - é decepcionante, por exemplo, que a ótima Kathy Najimy seja desperdiçada. É falta de ousadia, inclusive, ter uma protagonista envolvida em casas noturnas, crimes, bebida e drogas sem que tal assunto seja sequer mencionado de forma mais adulta - mais uma vez a classificação etária e o puritanismo hollywoodiano (em especial da Touchstone) sepultaram o que poderia render ótimos momentos de humor. É de se imaginar o que faria o espanhol Pedro Almodóvar, cotado para dirigir o filme depois do sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988).

E para encerrar, uma curiosidade das mais inusitadas: enquanto começava a escrever o primeiro tratamento de seu roteiro, Paul Rudnick recebeu, de Bette Midler, o conselho de visitar um convento verdadeiro, para conhecer melhor sua rotina. Ideia aceita, Rudnick foi até um convento em Connecticut e descobriu que sua Madre Superiora, Dolores Hart, havia trabalhado, na juventude, em Hollywood: atriz, cantora e dançarina, fez parte do elenco de algumas produções, como "Balada sangrenta" (1958) e é, ainda hoje, membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com direito a voto no Oscar.

quarta-feira

JUVENTUDE


JUVENTUDE (Youth, 2015, Indigo Film/Barbary Film/Pathé, 124min) Direção e roteiro: Paolo Sorrentino. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Cristiano Travagiogli. Música: David Lang. Figurino: Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Ludovica Ferrario/Noel Godfrey. Produção executiva: Viola Prestieri. Produção: Carlotta Calori, Francesca Cima, Nicola Giuliano. Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda. Estreia: 20/5/2015 (Festival de Cannes)
 

Indicado ao Oscar de Melhor Canção Original ("Simple Song #3)

 O músico Fred Ballinger (Michael Caine), um veterano maestro consagrado por uma série de composições chamada "Simple songs", está passando uma temporada em um sofisticado spa localizado nos alpes suíços, acompanhado da filha e empresária, Lena (Rachel Weisz) - que está passando por uma séria crise em seu casamento. Aposentado, Ballinger é procurado por um emissário da realeza britânica para que faça uma apresentação no aniversário do Príncipe Philip - uma missão que não o interessa nem um pouco. A seu lado, dividindo lembranças de seus dias de mocidade, está o cineasta Mick Boyle (Harvey Keitel), que aproveita o descanso para, junto com uma equipe de roteiristas, criar seu novo projeto, que ele julga ser seu último grande filme. Amigos há décadas, os dois guardam na lembrança não apenas de dias livres das doenças da velhice, mas também da mulher que enfeitiçou a ambos - e tem, em comum, laços de parentesco: o filho de Mick é genro de Ballinger, o responsável pelo sofrimento de Lena, uma mulher torturada pela memória do casamento turbulento dos pais. Cercados pela beleza estonteante do lugar onde descansam, Ballinger e Boyle ainda convivem com excêntricos hóspedes do spa, como o jovem ator Jimmy Tree (Paul Dano), que está pesquisando para um novo papel, e um jogador de futebol aposentado lutando contra o declínio de sua forma física.

A trama de "Juventude" - primeiro trabalho do cineasta italiano Paolo Sorrentino depois do Oscar de melhor filme estrangeiro por "A grande beleza", de 2013 - é aparentemente superficial, mas que o espectador não se iluda: por trás da simplicidade do roteiro, escrito pelo próprio diretor, há uma poesia e uma melancolia que impõem ao filme um ritmo próprio, contemplativo mas nunca pedante ou aborrecido. Pelo contrário, "Juventude" tem, ao lado de momentos dramáticos de cortar o coração, um insuspeito senso de humor que quebra a seriedade de seu desenvolvimento. Um diretor acostumado à estranheza - afinal foi ele quem vestiu Sean Penn de roqueiro oitentista decadente em "Aqui é o meu lugar" (2013), e o colocou atrás do nazista responsável pelas humilhações sofridas por seu pai em um campo de concentração -, Sorrentino não faz a menor questão de fazer de seu filme um produto de fácil assimilação, mas engana-se quem pensa que isso faz dele algo inatingível. Da forma como é apresentado, "Juventude" é um filme que demora a fazer sentido, tarda a ressoar no coração da plateia: não à toa, o próprio Michael Caine não resistiu às lágrimas ao assisti-lo pela primeira vez. Sua mensagem - uma lição sobre aproveitar as coisas boas da vida enquanto há tempo para isso - é apresentada de maneira tão delicada que passa quase despercebida. Coisa de mestre!

Plasticamente deslumbrante - cortesia das belas paisagens dos alpes suíços e da fotografia caprichada de Luca Bigazzi - e dirigido com precisão, "Juventude" é, também, um desfile de boas atuações, com um elenco de sonhos, que mistura veteranos consagrados com jovens talentos. Enquanto Michael Caine e Harvey Keitel deitam e rolam com personagens que lhes caem como uma luva (Fred Ballinger foi escrito especialmente para Caine), novas gerações de atores são representadas por Paul Dano - quase silencioso, mas eficaz como sempre - e Rachel Weisz - dona de ao menos uma cena emocionalmente brilhante, quando declara ao pai suas lembranças de infância. Não bastasse esse quarteto brilhante, Sorrentino ainda reserva ao espectador outro presente: uma pequena participação especial de Jane Fonda como uma atriz veterana que enterra de vez os planos de sucesso de Mick Boyle. Fonda chegou a ser indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante, sendo uma espécie de representante de seus colegas, todos eles absolutamente merecedores de indicações e prêmios. Atores capazes de transmitir muito sem que precisem de longos diálogos, Caine, Keitel, Dano e Weisz encontraram na direção minimalista de Sorrentino um caminho rico e eficiente para trabalhos de destaque em suas carreiras já vitoriosas.

E se não bastasse um elenco impecável, um visual arrebatador e um roteiro com diálogos inspirados, "Juventude" ainda oferece ao público pequenos prazeres escondidos aqui e ali, em graus distintos de dificuldade para serem decodificados. Se o jogador de futebol aposentado, com sobrepeso e problemas de vício pode ser facilmente reconhecido como uma representação do ídolo argentino Diogo Maradona, o cineasta interpretado por Harvey Keitel é, segundo o diretor, um mistura entre Roger Corman, Sidney Lumet e William Friedkin. Até mesmo o fio condutor da trama - a recusa de Ballinger em tocar em um evento para o Príncipe Philp - tem ligações com a realidade: o músico Riccardo Muti também não se acertou com a realeza britânica quando convidado para um espetáculo privado e o fato inspirou Sorrentino a ponto de o diretor escrever sobre ele em um diário e, posteriormente, transformar tal incidente em um dos pontos altos de sua (ainda) curta filmografia. Com tantos pontos positivos, "Juventude" é uma pequena obra-prima, mas que fique bem claro: não é um filme para públicos menos pacientes, que vibram com blockbusters de orçamentos inchados. É, isso sim, um biscoito fino, a ser degustado com o coração e a alma.

sábado

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (Alice doesn't live here anymore, 1974, Warner Bros, 112min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Robert Getchell. Fotografia: Kent L. Wakeford. Montagem: Marcia Lucas. Direção de arte: Toby Carr Rafelson. Produção: Audrey Maas, David Susskind. Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd, Jodie Foster. Estreia: 09/12/74

3 indicações ao Oscar: Atriz (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Diane Ladd), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn) 

Nem a vítima, nem a compreensiva esposa do herói e muito menos um objeto sexual. Depois do sucesso estrondoso de "O exorcista" (73) - pelo qual foi indicada ao Oscar -, a atriz Ellen Burstyn queria voltar às telas em um papel que fosse o oposto de todos aqueles a que se sujeitava boa parte das intérpretes de sua geração. Foi assim que encontrou, dentre vários roteiros oferecidos pela Warner, uma estória escrita por Robert Getchell que oferecia tudo que ela buscava: uma personagem forte, uma história calcada na realidade e a possibilidade de demonstrar uma outra faceta de seu talento. Recusada por Shirley MacLaine, Barbra Streisand e até Diana Ross, a protagonista de "Alice não mora mais aqui" serviu de passaporte para que Burstyn finalmente levasse a estatueta da Academia - mas, mais importante ainda, foi a responsável por revelar à crítica e ao público que nem apenas de homens à margem da sociedade era feito o cinema do cineasta Martin Scorsese. Recém descoberto por seu elogiado "Caminhos perigosos" (73), o  então jovem realizador mostrou-se à altura do compromisso e preparou terreno para aquele que seria a primeira de suas várias obras-primas: "Taxi driver", lançado em 1976.

Na verdade o diretor nova-iorquino só chegou até Ellen Burstyn por recomendação de outro cineasta então começando sua escalada rumo ao prestígio, Francis Ford Coppola. Procurado pela atriz para que desse sugestões de nomes capazes de dirigir o projeto que estava em suas mãos, o homem que acabava de conhecer aplausos unânimes por "O poderoso chefão" (72) - e que viria a fazer história com duas produções indicadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1974 - indicou o nome de Scorsese. Não muito certa em contratar alguém cujo cartão de visitas era um filme violento e extremamente masculino, Burstyn não demorou a ser convencida do entusiasmo que Scorsese demonstrava pelo roteiro - e foi premiada com uma equipe feminina da qual faziam parte a esposa de George Lucas (Marcia, responsável pela edição) e Bob Rafelson (Toby Carr, a desenhista de produção). Surgia, então, uma parceria que faria acontecer, diante das câmeras, momentos de um naturalismo raros, alcançados depois de exaustivos ensaios e inspiradas improvisações.


Também indicado ao Oscar (que perdeu para o incensado "Chinatown"), o roteiro de Robert Getchell usa e abusa de um tipo de cinema bastante influenciado por John Cassavetes - e serviu, como afirmado pelo próprio Scorsese, como uma tentativa sua de emular o espírito dos filmes estrelados por Bette Davis e Joan Crawford na era de ouro de Hollywood. Sem artifícios de estilo e centrado basicamente em seus personagens, "Alice não mora mais aqui" é um exercício minimalista do diretor, uma história simples e direta, que abdica de grandes reviravoltas e pode ser considerado, sem demérito algum, como seu filme de narrativa mais convencional. Pode-se dizer que é a vida como ela é sob o olhar de um Martin Scorsese menos agressivo e pessimista em relação ao mundo - e uma crônica social e familiar agradável e de fácil comunicação com a plateia, seja ela de onde for. Ao eleger como protagonista uma mulher comum, com problemas ordinários e relações tão falíveis quanto as de qualquer espectador, o filme acerta em cheio - ainda que sua falta de ousadia talvez deixe uma incômoda sensação de simplicidade excessiva.

Simplicidade é o que move o roteiro de Getchell e a direção de Scorsese - assim como é simplicidade também a maior característica da vida de Alice Hyatt (Ellen Burstyn), que vive em Socorro, Novo México, na companhia do marido e do único filho, o precoce Tommy (Alfred Lutter). Sua repentina viuvez acaba por lhe servir como empurrão para finalmente tomar as rédeas de sua vida, e, decidida, ela viaja com o menino de volta para sua cidade natal, Monterey, na California, onde planeja retomar uma carreira de cantora noturna. No meio do caminho, no Arizona, ela arruma emprego como garçonete e se envolve com um homem mais jovem, Ben (Harvey Keitel) - com quem encontra uma série de problemas inesperados - e com o fazendeiro David (Kris Kristofferson), que aparenta ser o homem que irá fazer dela uma mulher mais feliz e completa. Porém, aos poucos, Alice começa a perceber que é provável que sua liberdade e seu filho importem mais do que uma companhia masculina - e passa a questionar seu estilo de vida sentimental.

Narrado de forma fluida e natural, "Alice não mora mais aqui" é um filme atípico na carreira de Martin Scorsese, mais afeito a neuroses e obsessões urbanas do que a personagens mais banais. Porém, na interpretação potente de Ellen Burstyn, a vida de Alice Hyatt torna-se, por si mesma, o retrato do sonho simples de felicidade e paz de espírito. Não é uma obra-prima, mas é um filme importante dentro de seu contexto social e principalmente é uma aula de minimalismo e delicadeza. É a prova de que o cineasta Scorsese já nasceu praticamente pronto!

domingo

PENSAMENTOS MORTAIS

PENSAMENTOS MORTAIS (Mortal thoughts, 1991, Columbia Pictures, 102min) Direção: Alan Rudolph. Roteiro: William Reilly, Claude Kerven. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Tom Walls. Música: Mark Isham. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Beth Kushnick. Produção executiva: Stuart Benjamin, Taylor Hackford. Produção: John Fiedler, Mark Tarlov. Elenco: Demi Moore, Bruce Willis, Glenne Headly, Harvey Keitel, John Pankow. Estreia: 19/4/91

Louvado desde sua estreia por sua sofisticação visual e pelo não convencionalismo de sua narrativa, exemplificados em filmes como "Choose me" (84) e "Moderns" (88), o cineasta Alan Rudolph, que começou a carreira como assistente de Robert Altman sempre foi considerado um estranho no ninho dentro da indústria de Hollywood. Por isso, não deixa de ser uma surpresa ver seu nome nos créditos de "Pensamentos mortais", um produto puramente comercial que, lançado em 1991, surfava na onda do sucesso e do prestígio de Demi Moore - recém saída do estrondoso sucesso de "Ghost: do outro lado da vida" (90). Um policial acadêmico e sem maiores arroubos de criatividade - ainda que contado de maneira razoavelmente envolvente -, o filme de Rudolph carece da personalidade própria de seu diretor, mas merece aplausos por tirar tanto Demi quanto seu então marido Bruce Willis de sua zona de conforto, apresentando personagens pouco simpáticos e desprovidos de glamour ou empatia. Com um custo irrisório de apenas 8 milhões de dólares, "Pensamentos mortais" não fez o sucesso esperado - rendeu menos de 20 milhões no mercado doméstico - e tampouco agradou à crítica. É um filme que fica em um incômodo meio-termo entre suas pretensões comerciais e seu desejo de sobressair-se artisticamente de outras produções do gênero.

Na verdade, Rudolph assumiu o comando depois que o diretor escolhido, Claude Kerven, um dos roteiristas, foi demitido, às vésperas do começo das filmagens. A essa altura do campeonato, outras mudanças já haviam sido efetuadas no projeto, como a entrada de Demi Moore como co-produtora e a subsequente escalação de Bruce Willis para o papel crucial - mas no primeiro tratamento de roteiro bastante pequeno - de James Urbanski, o pivô de toda a trama. Ficando com o papel que foi cogitado para Robin Wright, Demi não foi a única substituição do elenco: devido ao atraso no início dos trabalhos, Peter Gallagher pulou do barco e deu lugar a John Pankow para interpretar Arthur, o outro personagem masculino da história. Para viver a melhor amiga de Demi, foi escolhida Glenne Headly - recém-vinda do sucesso "Dick Tracy" - e na pele do detetive de polícia John Woods, ficou o veterano Harvey Keitel (em vias de embarcar no imenso êxito de "Thelma & Louise", de Ridley Scott). Equipe (bem) escolhida e uma corajosa escolha de tema - bem distante dos romances açucarados estrelados por Demi ou dos filmes de ação com Willis. Mas algo não deu certo na combinação de ingredientes.


Não que "Pensamentos mortais" seja um filme irremediavelmente ruim. Pelo contrário, tem algumas ideias muito boas, ainda que não necessariamente novas, como a utilização de flashbacks como forma principal de narrativa. Tal recurso, utilizado com razoável competência (em parte graças à edição de Tom Walls), é que serve de base para o desenvolvimento de um roteiro cujos personagens não são, a princípio, exatamente o que parecem ser. A ciranda de acontecimentos trágicos e inesperados que se sucedem conforme a trama vai se desenrolando é apresentada com um tom seco, apropriado à história, e mantém o interesse do espectador até os últimos minutos, quando finalmente toda a verdade vem à tona. É um enredo simples, tornado complexo pelas constantes reviravoltas. É um filme que cairia como uma luva nas mãos de um cineasta menos sutil, mais afeito ao roteiro do que ao estilo. Talvez Alan Rudolph seja cool demais para uma história tão sórdida, com personagens tão pequenos e rotinas tão mundanas. A impressão que se tem é que o diretor tenta enfeitar a crueldade e a aridez da trama com uma aura de cinema europeu - o que não apenas não funciona como acaba por estragar a maior qualidade do texto.

Tudo bem, Demi Moore tampouco funciona no papel principal, ainda que se esforce. Mas é louvável que tenta tentado fugir do estereótipo de símbolo sexual para viver Cynthia Kellogg, uma cabeleireira que é chamada à delegacia para dar seu depoimento a respeito de um violento homicídio. Não demora a ser revelado que a vítima é James Urbanski (Bruce Willis), o detestável marido de Joyce (Glenne Headly), sua sócia e melhor amiga. Aos poucos o detetive John Woods (Harvey Keitel) vai arrancando de Cynthia todos os detalhes da rotina doméstica do casal, recheada de brigas violentas, e chega até o dia do crime. Quem matou James? Por que? Em que circunstâncias? E o que Arthur (John Pankow), o marido de Cynthia, tem a ver com a história? Tentando responder a essas perguntas clássicas de um filme policial, o roteiro joga pistas e informações sem muita criatividade, seguindo apenas a estrutura clássica de gato e rato há muito consagrada pela literatura e pelo cinema. Bruce Willis é o grande destaque do elenco, excelente como o odioso James Urbanski, e é uma pena que sua participação seja tão curta. Mas ainda assim, a beleza de Demi e o final (mais ou menos) surpreendente fazem do resultado final um produto a que se assiste com facilidade - o problema é que, além de facilmente assistível, é também facilmente esquecível. Um Supercine de luxo!

sexta-feira

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

quarta-feira

UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (From dusk till dawn, 1996, Dimension Films, 104min) Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Robert Rodriguez. Música: Graeme Revell. Figurino: Graciela Mazón. Direção de arte/cenários: Cecilia Montiel/Felipe Fernandez del Paso. Produção executiva: Lawrence Bender, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Produção: Gianni Nunnari, Meir Teper. Elenco: Harvey Keitel, George Clooney, Juliette Lewis, Quentin Tarantino, Ernest Liu, Salma Hayek, Cheech Marin, John Hawks, Danny Trejo, Tom Savini, Kelly Preston, Michael Parks. Estreia: 19/01/96

Em 1995, o ator George Clooney estava começando a sentir o gostinho da fama: graças ao charmoso pediatra Doug Ross, seu personagem na telessérie "ER - Plantão médico", o sobrinho da cantora Rosemary Clooney finalmente era reconhecido nas ruas e era festejado pelo público - coisas que outros trabalhos em seu currículo anterior, como o trash "A volta dos tomates assassinos" (88), não havia permitido até então. Sabendo que o próximo passo em direção ao reconhecimento artístico seria fazer a difícil transição para o cinema, ele demonstrou um raro senso de oportunidade durante as gravações do último episódio da primeira temporada, "Maternidade", fazendo amizade com seu diretor. O diretor, que havia sido incensado em seu filme de estreia, estava a caminho de ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes com seu novo trabalho - que também lhe daria o Oscar de roteiro original - e não demorou para que uma nova oportunidade de parceria surgisse entre eles. O diretor era Quentin Tarantino e quando um de seus futuros projetos ficou sem ator principal - depois que John Travolta, Tim Roth, Steve Buscemi e Christopher Walken o recusaram por problemas de agenda - o nome de Clooney surgiu como uma possibilidade a ser considerada.

Deixando de lado a ideia de dirigir seu roteiro de "Um drink no inferno" - o tal novo projeto no qual ele acumularia os créditos de roteirista e ator - Tarantino passou a bola para seu amigo Robert Rodriguez, outro prodígio que a indústria hollywoodiana incorporou depois do sucesso de um filme feito com apenas sete mil dólares ("El mariachi"). Entusiasta do cinema trash, feito com poucos recursos e muita imaginação, Rodriguez comprou a ideia de ter Clooney como protagonista e, com base em um roteiro que misturava bandidos cruéis e vampiros ainda mais sanguinolentos, criou um cult movie instantâneo, que tornou-se, guardadas as devidas proporções, o primeiro grande sucesso do galã da televisão em sua carreira cinematográfica - que, a partir daí, seria uma das mais sólidas e respeitadas de Hollywood. Já Tarantino, na ocasião da estreia do filme, já estava consagrado com o sucesso incontestável de "Pulp fiction, tempo de violência".


Na verdade, se olharmos com atenção, "Um drink no inferno" é uma espécie de prévia do que Tarantino e Rodriguez fariam em 2010, com o fracassado "Grindhouse" - uma sessão dupla de filmes baratos que naufragou nas bilheterias americanas e foi distribuído pelo resto do mundo como produtos isolados: é um filme que muda radicalmente de gênero, estilo de narrativa e heróis a partir de sua segunda metade, pegando o público de surpresa de uma tal forma que não lhe permite nem ao menos pensar a respeito. É como se a primeira parte fosse dirigida por Tarantino - estão ali muitas de suas características, desde longos diálogos até a forma politicamente incorreta de tratar seus personagens - e a segunda conduzida pelo insano Rodriguez - também facilmente reconhecível com sua tendência ao kitsch, à violência gráfica mas claramente fictícia e a escalação de nomes como Cheech Marin e o mestre da maquiagem Tom Savini. O melhor de tudo, porém, é que o que poderia se tornar um samba do criolo doido funciona que é uma beleza. "Um drink no inferno" é uma deliciosa viagem bagaceira ao deserto americano, com direito a muitos tiros, sangue e um humor pra lá de negro.

Mas o que pode ser dito a respeito da trama de "Um drink no inferno" sem que aqueles que nunca o assistiram percam o sabor de surpresa? Bem, a trama começa apresentando os irmãos Gecko, dois assaltantes de banco pouco afeitos a sutilezas na hora de cometer seus crimes: Seth (Clooney) ainda é menos violento, mas Richard (Quentin Tarantino) é um psicopata estuprador que não pensa duas vezes antes de deixar que seus instintos assassinos aflorem. A caminho do México, onde vão entregar o produto de seu último trabalho a um sócio, eles sequestram a família de Jacob Fuller (Harvey Keitel), pastor que abandonou o ministério após a morte da esposa. Prometendo libertar a ele e seus dois filhos - incluindo a jovem Kate (Juliette Lewis), por quem Richard sente-se inevitavelmente atraído - assim que chegarem à fronteira, Seth acaba entrando, junto com todos, no Titty Twister, um bar de aparência decadente com shows eróticos e frequentadores com cara de poucos amigos. E é justamente nesse bar que uma reviravolta - no roteiro e na trajetória de todos - transforma a viagem em uma aventura das mais bizarras.

Engraçado, violento, exagerado e mostrando uma Salma Hayek nos limites da sensualidade, "Um drink no inferno" é um deleite para quem busca entretenimento e diversão atípicos. É só deixar o senso crítico de lado e se entregar à competente bobagem orquestrada por Tarantino e Rodriguez.

COPLAND

COPLAND (Copland, 1997, Miramax Films, 104min) Direção e roteiro: James Mangold. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Lester Cohen/Karen Wiesel. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Ezra Swerdlow, Cary Woods. Elenco: Sylvester Stallone, Robert DeNiro, Harvey Keitel, Ray Liotta, Peter Berg, Janeane Garofalo, Robert Patrick, Michael Rapaport, Annabella Sciorra, Cathy Moriarty, Noah Emmerich, John Spencer, Eddie Falco. Estreia: 06/8/97

James Mangold é um diretor atípico. Mesmo que seu nome não seja imediatamente reconhecível por fãs menos antenados, sua carreira é repleta de filmes bastante competentes, dos mais variados gêneros. Seu primeiro longa, o estranho "Paixão muda", aproveitou-se da estrela ascendente de Liv Tyler para fazer sucesso entre os espectadores de cinema independente. E seu segundo, "Copland", lançado em 1997, chamou a atenção mais pela mudança de visual de Sylvester Stallone do que por seus inúmeros méritos. Emulando o cinema policial cerebral dos anos 70 - que tinha na corrupção policial um de seus temas preferidos - o filme acabou sendo elogiado mas esquecido nas cerimônias de premiação. Um esquecimento que não faz jus à sua qualidade.

Mesmo que Stallone chame a atenção com sua performance - corajosa por romper a imagem heroica que sempre acompanhou sua carreira - o mais interessante em "Copland" é seu roteiro, que liga com maestria várias tramas paralelas que acabam revelando-se a mesma. Eclipsado pela genialidade de "Los Angeles, cidade proibida", que também falava sobre o assunto (ainda que com enfoque substancialmente diferente) e foi lançado à mesma época, o filme de Mangold é menos ambicioso do que a obra-prima de Curtis Hanson, mas, apostando no realismo e na crueza de sua trama, atinge todos os seus objetivos: é inteligente, bem dirigido, bem interpretado e surpreendente na medida certa. E Stallone é apenas a ponta do iceberg.


O eterno Rambo vive Freddy Heflin, o xerife de uma cidade próxima a Nova York que é predominantemente habitada por policiais, a chamada "Copland". Impossibilitado de tornar-se policial devido à surdez em um dos ouvidos - consequência de um salvamento que fez na juventude - Heflin não é muito considerado pelos moradores da cidade, mas é ele quem acaba desvendando uma rede de corrupção que envolve até mesmo os respeitados veteranos da corporação. Tudo começa quando o jovem Murray Babitch (Michael Rapaport), considerado um exemplo de dedicação e coragem, se envolve na morte de uma dupla de rapazes negros e tem a cena do crime alterada. Seu suicídio forjado abre a porta para uma série de irregularidades investigadas pela Corregedoria - na figura de Moe Tilden (Robert DeNiro). Além disso, Heflin também começa a desvendar uma teia de relações extra-conjugais que inclui até mesmo a sua grande paixão, Liz (Annabella Sciorra), a jovem que ele salvou de afogar-se e que é casada com Joey Randone (Peter Berg).

Equilibrando com talento raro uma história de sujeiras escondidas debaixo do tapete com o drama de um homem frustrado que tenta superar suas limitações por amor à justiça e à verdade, Mangold criou um espetáculo capaz de agradar a qualquer fã de cinema policial - mesmo que deixe o sempre esperado tiroteio para as cenas finais, onde a carnificina só não é exagerada porque é coerente com o resto da trama. Mesmo quando deixa de lado as tramoias corruptas que são a base de seu roteiro, o cineasta consegue o feito raro de prender a atenção do público com diálogos diretos e atuações nunca aquém de excelentes - até mesmo de atores jovens como Michael Rapaport. E é também bastante ousado, especialmente para um filme realizado sob os auspícios de Hollywood, que os personagens caminhem na tênue linha entre a honestidade e seus próprios interesses - com é o caso de Ray Liotta, que conquista justamente por sua dubiedade de caráter.

Filmado de forma direta, sem maiores arroubos de criatividade - talvez mais uma herança da geração 70 que deu ao mundo filmes como "Serpico" e "Operação França" - "Copland" é uma grata surpresa. Um filme simples, inteligente e que empolga muito mais pelo que diz do que pela forma como o faz. E isso é sempre raro em um gênero onde cortes histéricos são mais valorizados do que roteiros coesos.

segunda-feira

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

sábado

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

quinta-feira

CÃES DE ALUGUEL

CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs, 1992, Miramax Films, 99min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Casting: Ronnie Yeskel. Produção executiva: Richard N. Gladstein, Monte Hellman, Ronna B. Wallace. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Lawrence Tierney, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker. Estreia: 08/10/92

Poucas vezes um filme de estreia causou tanta balbúrdia quanto "Cães de aluguel", primeiro trabalho do ex-balconista de videolocadora Quentin Tarantino por trás das câmeras. Logo de cara o jovem (então com 32 anos) foi comparado a ninguém menos que Martin Scorsese, principalmente devido à sua temática e violência. E o pior (ou melhor, no caso) é saber que todos os elogios que recebeu foram amplamente merecidos. Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme de Tarantino em nenhum momento deixa transparecer seu orçamento irrisório. O motivo? Seu foco no texto, nos atores e na tensão constante.

Escrito em três semanas e meia e filmado em 35 dias, "Cães de aluguel" é talvez o mais influente filme independente americano de todos os tempos. Estiloso, cru, empolgante e realista ao extremo, é também um policial excitante e enxuto, que não deixa a plateia respirar nem por um minuto depois de seu hilário texto inicial - onde as personagens discutem teorias a respeito de canções de Madonna. Depois dos créditos de abertura, a ação começa e ganha um doce quem conseguir desgrudar os olhos da tela.


Os "cães de aluguel" do título são um grupo de bandidos reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para o assalto a uma joalheria. Todos chamados por pseudônimos para que não se saiba nada a respeito um do outro, eles armam um plano aparentemente perfeito que dá muito errado. A chegada da polícia, um tiroteio e algumas vítimas fatais - inclusive entre os criminosos - levam os sobreviventes a um galpão abandonado, onde eles haviam combinado de encontrar-se. Lá, o veterano Mr. White (Harvey Keitel) tenta acalmar Mr. Orange (Tim Roth), mortalmente ferido no estômago e, ao lado do nervoso Mr. Pink (Steve Buscemi), tenta descobrir quem, no grupo, é o informante da polícia. A chegada do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), com um policial de refém, deixa as coisas ainda mais tensas. É somente quando Cabot e seu filho, Nice Guy Eddie (Chris Penn) chegam que tudo se encaminha para um final extremamente violento.



Co-produzido por Harvey Keitel - que leu o roteiro e apaixonou-se à primeira vista - "Cães de aluguel" já demonstra o estilo que caracterizaria a obra de Quentin Tarantino nos anos subsequentes: os diálogos rápidos e espertos (recheados de cultura pop), a edição frenética (a cargo de Sally Menke, morta precocemente este ano), a trilha sonora composta por pérolas trash e principalmente a escolha acertadíssima do elenco. O próprio cineasta atua no filme, como Mr. Brown, mas ambicionava o papel de Mr. Pink, interpretado com propriedade por Steve Buscemi - depois que George Clooney (ainda um ninguém na indústria) foi recusado. É admirável perceber como os atores escolhidos pelo diretor casaram perfeitamente com seus papéis. Tim Roth e Harvey Keitel tem uma química invejável, Chris Penn tem o melhor trabalho da carreira e Michael Madsen merece louvores à parte pela composição inesquecível do psicótico Mr. Blonde, dono da cena mais controversa de toda a obra.

Não houve quem tenha assistido a "Cães de aluguel" sem comentar - ou ao menos se chocar - com a famosa sequência em que Mr. Blonde tortura o policial feito de refém - a ponto de arrancar-lhe uma orelha. Assustadora e quase explícita, ela foi motivo de conversas em mesas de bares, discussões sobre a violência no cinema e proporcionou a Michael Madsen o momento mais marcante de sua carreira. A imagem de sua personagem tomando calmamente um milk-shake antes de partir para a ignorância fria e calculada é de arrepiar qualquer cinéfilo, que tem, inclusive, em "Cães de aluguel" algumas imagens marcadas na retina para sempre.


O grupo de criminosos vestidos de paletó e gravata no início do filme - que virou inclusive parte do logotipo da produtora de Tarantino, A Band Apart - Harvey Keitel dando pontapés em um Steve Buscemi caído no chão e a poderosa imagem de quatro dos "amigos" apontando armas uns para os outros no clímax são cenas de grande impacto visual e uma mostra do talento inegável do diretor já em seu primeiro trabalho - um talento que, apesar de alguns detratores dizerem o contrário, foi apenas se refinando com o tempo e a maturidade. E o roteiro - trabalhado fora de ordem cronológica, outra característica de Tarantino - é conciso, inteligente e verossímil sem, porém, apelar para a previsibilidade.


"Cães de aluguel" é uma das melhores estreias da história do cinema, quer goste-se ou não. Rendeu imitações, homenagens e citações. Mas mantém seu frescor e força apesar da distância do tempo.
 

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).



"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

sexta-feira

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO


A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (The last temptation of Christ, 1988, Universal Pictures, 164min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Nikos Kazantzakis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Peter Gabriel. Figurino: Jean-Pierre Delifer. Direção de arte/cenários: John Beard/Giorgio Desideri. Casting: Cis Corman. Produção executiva: Harry Ufland. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey, Paul Greco, Verna Bloom, Harry Dean Stanton, David Bowie. Estreia: 12/8/88

Indicado ao Oscar de Diretor (Martin Scorsese)

O cineasta Martin Scorsese foi criado como católico e chegou a freqüentar um seminário, quando teve intenção de tornar-se padre. Talvez esse background inusitado para um diretor de cinema tão chegado a filmes tão violentos e pesados como “Taxi driver” e “Touro indomável” tenha sido o responsável pela gritaria em torno de “A última tentação de Cristo”, adaptação cinematográfica de Scorsese do polêmico livro escrito pelo grego Nikos Kazantzakis, que basicamente criou celeuma ao dar um enfoque humano ao filho de Deus. Anos antes de Mel Gibson encher os bolsos de dinheiro com sua violenta versão da história, em "A paixão de Cristo", Scorsese sofreu para levar às telas a visão filosófico/espiritual de Jesus, que ele compartilhava com o escritor. Tendo lido o livro em 1972 - presente da atriz Barbara Hershey - ele levou mais de quinze anos para finalmente fazê-lo chegar aos cinemas. E ser praticamente apedrejado por isso.

Piquetes em frente aos cinemas, ameaças da Igreja Católica e discussões ao redor do mundo fizeram no entanto que seu filme atingisse uma glória que provavelmente não era de seu interesse. O que o cineasta, um dos mais brilhantes de sua geração, diga-se de passagem, queria – e consegue, a despeito de toda a confusão que desviou do foco principal da produção – era fazer uma obra acima de religiões, teologias e divisões entre crenças. Scorsese queria fazer um filme para reafirmar sua fé e a de quem pudesse ser atingido por sua obra. E saiu-se vitorioso. Há muito que Hollywood devia um filme tão inflamado e apaixonado quanto “A última tentação de Cristo”.


Muito da extrema qualidade do filme vem da energia e da paixão de seus criadores. Indo muito além das belas palavras de Kazantzakis, o roteiro, de autoria do colaborador habitual do diretor, Paul Schrader apresenta, sem ordem cronológica linear, fatos importantes da vida de Jesus Cristo (em uma atuação corajosa de Willem Dafoe) até o momento de Sua crucificação, onde tem a visão do que seria Sua vida se tivesse uma vida de ser humano normal, em um relacionamento carnal com Maria Madalena (Barbara Hershey, bela e sexy),uma família convencional e, heresia das heresias, amantes - sim, no filme Cristo se divide entre duas irmãs, depois da morte da esposa. Justamente esse terço final do filme, o que vem a ser literalmente sua última tentação foi o que incomodou aqueles que têm as Escrituras ao pé da letra e que nem de longe percebeu que, no fim de tudo, ao optar pelo auto-sacríficio, Jesus provou seu amor de forma indelével e salvou a humanidade.

Apesar da beleza de seus momentos finais, onde até o mais renitente cínico pode se emocionar, “A última tentação” é, acima de tudo, cinema da mais alta qualidade. Desde a fotografia de Michael Ballhaus até a trilha sonora de Peter Gabriel, tudo funciona da maneira esperada, inclusive um surpreendente David Bowie como Pilatos - surpreendentemente quem não foi muito feliz em cena foi o veterano Harvey Keitel, que não encontrou o tom certo de seu Judas Iscariotes, dono de algumas das mais emocionais cenas do longa, inclusive o poderoso confronto entre "traidor e traído" na parte final do filme.

Ao contrário de seus detratores mal-informados, a obra de Scorsese devia figurar como obrigatória no ensino de Religião pelos quatro cantos do planeta. Suas discussões legítimas e pertinentes, aliadas ao talento de sua equipe artística - que trabalhou com um orçamento de apenas 7 milhões de dólares - faz de "A última tentação" um dos pontos altos da carreira de seu diretor, que em seguida lançaria um de seus trabalhos mais populares, o suspense "Cabo do medo", feito para agradar à Universal Pictures e que provaria, de forma indubitável que, não importa o gênero, Scorsese é um gênio.

domingo

AMOR À PRIMEIRA VISTA


AMOR À PRIMEIRA VISTA (Falling in love, 1984, Paramount Pictures, 106min) Direção: Ulu Grosbard. Roteiro: Michael Cristofer. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Steven Jordan. Produção: Marvin Worth. Elenco: Robert De Niro, Meryl Streep, Harvey Keitel, Jane Kaczmarek, Dianne Wiest, Jesse Bradford. Estreia: 21/11/84

Um dos erros mais recorrentes dentro da indústria de Hollywood tem a ver com a confiança excessiva dos executivos em relação a determinados astros e estrelas. Nem sempre atores e atrizes consagrados conseguem passar por cima de um roteiro frágil e sem criatividade. E isso é claramente visível em "Amor à primeira vista", um romance açucarado e sem muito conteúdo que apostou suas fichas apenas no talento inquestionável de sua dupla de protagonistas, Robert DeNiro e Meryl Streep. Por melhores que eles sejam, no entanto - e eles o são - mesmo assim não foram capazes de salvar o filme do belga Ulu Grosbard, que naufragou nas bilheterias e não foi feliz nem mesmo nas cerimônias de premiação de 1984. A razão para tamanha decepção? A história fraca e mal desenvolvida, que não permite a dois dos maiores atores do cinema americano a chance de brilharem como devem - e podem.

A história de "Amor à primeira vista" se passa em Nova York e começa em uma véspera de Natal. Atrapalhados com seus inúmeros pacotes e sacolas de compras, o engenheiro Frank Raftis (DeNiro) e a design Molly Gilmore (Streep) se esbarram em uma livraria e, por engano, levam um o presente do cônjuge do outro. Se encontrando no trem algumas ocasiões depois, eles acabam se tornando uma espécie de amigos, até que se descobrem apaixonados um pelo outro. No entanto, ambos são casados e seus relacionamentos são fortes o bastante para impedí-los de consumar seu caso extra-conjugal. Quando ele aceita uma proposta de trabalho em Washington, porém, a urgência de seus sentimentos começa a falar mais alto.


O maior problema de "Amor à primeira vista" é a quase frieza do relacionamento entre seus protagonistas. Grosbard não é feliz em transmitir o sufocamento que a paixão causa em Frank e Molly, que, ao invés de parecerem angustiados com sua situação pouco invejável de amor proibido, soam como um casal quase indiferente ao nascimento de seus sentimentos. Também não convence a solidez de suas relações matrimoniais - especialmente o casamento de Molly, que em nenhum momento justifica sua renúncia à paixão por Frank. Somente no ato final do filme as coisas começam a parecer mais com "Desencanto", de David Lean, do que com qualquer novela de televisão - e mesmo assim, devido ao talento de Streep e DeNiro, que tentam tirar leite de pedra, tornando crível um texto sem maiores lances de criatividade e emoção.

No fim das contas, "Amor à primeira vista" é apenas um romance correto, com pouco sal, mas ainda assim capaz de comover os corações mais sensíveis e apaixonados. Mas de que o casal central de atores - repetindo a parceria de "O franco-atirador" - merecia bem mais que isso, não há dúvida.

quarta-feira

TAXI DRIVER


TAXI DRIVER (Taxi driver, 1976, Columbia Pictures, 113min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Tom Rolf, Melvin Shapiro. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Herbert Mulligan. Casting: Juliet Taylor. Produção: Julia Phillips, Michael Phillips. Elenco: Robert DeNiro, Sybil Sheperd, Jodie Foster, Harvey Keitel, Albert Brooks, Peter Boyle, Martin Scorsese. Estreia: 08/02/76

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Jodie Foster), Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes


Nada como a garra e a ousadia da juventude. Em 1976, aos 34 anos, Martin Scorsese - recém saído do sucesso de crítica de "Alice não mora mais aqui", que deu o Oscar de melhor atriz a Ellen Burstyn - concebeu um dos filmes mais perturbadores e fascinantes de uma carreira que ainda viria a legar ao mundo obras-primas como "Touro indomável" e "Os bons companheiros". Unido ao roteirista Paul Schrader e ao ator Robert DeNiro, o cineasta nova-iorquino criou uma sufocante fábula sobre solidão, obsessão e violência passada nas ruas escuras e úmidas de Times Square: "Taxi driver", vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 1976.

De Niro, em uma atuação irretocável, vive Travis Bickle, um ex-combatente do Vietnã que começa a trabalhar como motorista de táxi no horário noturno como forma de lidar com a insônia. Convivendo com passageiros excêntricos e/ou patéticos, ele se torna obcecado pela bela Betsy (Sybil Sheperd), que trabalha no comitê eleitoral de um candidato à Presidência. Enquanto tenta conquistá-la a seu modo um tanto grosseiro e equivocado (em seu primeiro encontro, por exemplo, ele a leva a um cinema pornô), ele também conhece e fica interessado na história de Iris (Jodie Foster, aos 12 anos de idade), uma prostituta adolescente que ele acredita ser explorada por seu cafetão Matthew "Sport" (Harvey Keitel). Fascinado pelas duas, Travis decide impressioná-las usando de violência como cartão de visitas, o que o leva a uma carnificina.

Escrito por Schrader em apenas 5 dias - sempre com a arma carregada do roteirista em seu campo de visão como objeto de inspiração e motivação, segundo reza a lenda - "Taxi driver" encantou vários estúdios que se interessaram em produzí-lo, mesmo que alguns deles tivessem algumas ideias estapafúrdias para seu elenco: até mesmo o cantor Neil Diamond foi sugerido para o papel principal, escrito por Schrader com o ator Jeff Bridges em mente. Quando Scorsese assumiu a função de diretor no lugar de Brian de Palma, chamou seu amigo e colaborador Robert DeNiro para viver o protagonista e o resto é história.


Para as personagens femininas é que as coisas não foram assim tão fáceis. A bela e etérea Betsy, por exemplo, teve possibilidade de ser interpretada por dezenas de atrizes hoje bastante conhecidas: Farrah Fawcett, Jane Seymour, Glenn Close, Susan Sarandon, Meryl Streep, Sigourney Weaver, Liza Minelli, Barbara Hershey, Mary Steenburgen, Mia Farrow e Goldie Hawn. Cybil Sheperd ficou com o papel que foi escrito inspirado em sua imagem somente depois que sua agente ficou sabendo desse pequeno detalhe, mas sua dificuldade em decorar as falas foi motivo de muitos conflitos durante as filmagens, principalmente em relação aos produtores, o casal Julia e Michael Phillips. Mas se Sheperd, apesar de lindíssima não atrapalha nem impressiona, o mesmo não pode ser dito a respeito de Jodie Foster que, aos 12 anos, mostra que seu talento já vem de longe.

Para viver a prostituta-mirim Iris - que lhe deu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - Foster teve que bater 250 candidatas ao papel. Entre essas candidatas estavam, Melanie Griffith, Kim Basinger, Geena Davis, Michelle Pfeiffer, Brooke Shields, Debra Winger, Linda Blair, Carrie Fisher, Mariel Hemingway e, acreditem ou não, Kim Cattrall, a famosa Samantha Jones da série "Sex and the city". Seu trabalho, no entanto, é impecável. Mesmo com sua pouca idade, ela demonstra um talento incomum, que, anos depois a consagraria como uma das melhores atrizes de sua geração.

Na verdade, é difícil dizer o que funciona mais nesse impressionante trabalho de um cineasta-autor. O trabalho de atores, liderados por um Robert De Niro assustador e completo com uma juvenil Jodie Foster e um supreendente Harvey Keitel (que transformou uma personagem negra em uma branca) é cuidadoso, detalhista e seguro. A música hipnotizante de Bernard Herrman (em seu último trabalho, uma vez que morreu uma semana depois de concluí-lo) impõe-se como um pesadelo, especialmente em contato com a fotografia quase polidimensional de Michael Chapman, que deixa de lado o visual de cartão-postal de Nova York para mostrar uma cidade tensa, angustiada e nervosa como deseja o roteiro sufocante de Paul Schrader, transformado em imagens por um Scorsese em um de seus melhores trabalhos como diretor, cheio da energia e da garra dos cineastas iniciantes e engajados.

Sem fazer concessões ao agradável e a finais felizes incoerentes e desnecessários, “Taxi driver” é um dos filmes obrigatórios dos anos 70.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...