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quarta-feira

ASSÉDIO SEXUAL


ASSÉDIO SEXUAL (Disclosure, 1994, Warner Bros., 128min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Paul Attanasio, romance de Michael Crichton. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Stu Linder. Música: Ennio Morricone. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Michael Crichton, Barry Levinson. Elenco: Michael Douglas, Demi Moore, Donald Sutherland, Caroline Goodall, Roma Maffia, Dylan Baker, Dennis Miller. Donal Logue. Estreia: 28/11/94

Não tinha como dar errado. Em 1994, quando foi lançado, o filme "Assédio sexual" apresentava todos os ingredientes de um grande sucesso: além do tema polêmico, contava com a assinatura de Barry Levinson (diretor oscarizado por "Rain Man", de 1988, e indicado novamente à estatueta, por "Bugsy", de 1991), uma história criada por Michael Crichton (cujo "Jurassic Park" acabava de ser adaptado às telas por Steven Spielberg e se tornava uma das maiores bilheterias da história) e a presença de dois astros de primeira grandeza, Michael Douglas e Demi Moore. E não deu - pelo menos em parte. Com mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundial, a produção deu o que falar em mesas de bar, em artigos de jornal e em reuniões de família, colocando em pauta um assunto ainda delicado (cuja interessante inversão de papéis ajudou no marketing espontâneo) e reforçando a popularidade de seus atores principais. Porém, à parte sua controvérsia e o talento dos envolvidos, o filme de Levinson não deixa de ser uma decepção àqueles que procuram um bom drama de tribunal: superficial e com sérios problemas de foco, "Assédio sexual" é um passatempo correto, mas que perdeu a chance de se tornar um clássico de seu tempo.

Não deixou de ser uma jogada de mestre mudar o foco do romance "Disclosure", de Michael Crichton, para buscar as plateias que lotaram as salas de exibição para ver Michael Douglas sofrendo as consequências de seu caso extraconjugal em "Atração fatal" (1987) ou Demi Moore despertando a luxúria do milionário Robert Redford em "Proposta indecente" (1993) - ambos dirigidos, por coincidência ou não, por Adrian Lyne. Cientes de que o público formaria filas para ver a normalmente delicada Demi assediando sem meias-palavras o frequentemente garanhão Douglas, os produtores transformaram uma subtrama do livro de Crichton em tema principal - e relegaram a história central do romance, que girava em torno de intrigas corporativas em uma empresa de tecnologia, a segundo plano. A estratégia se mostrou acertada em termos comerciais, mas, como efeito colateral, enfatizou a fragilidade com que o escritor desenvolveu o tema. Nem mesmo um roteirista experiente como Paul Attanasio - indicado ao Oscar por "Quiz show: a verdade dos bastidores" (1994) - foi capaz de disfarçar a inconsistência de tamanha alteração de foco: o que era para ser o grande trunfo do filme acabou esvaziado por uma reviravolta anticlimática que funcionou nas páginas mas se despedaçou nas telas.

 

A trama do filme gira em torno de Tom Sanders (Michael Douglas), gerente de uma importante empresa de tecnologia de Seattle, às vésperas de uma fusão milionária que a colocará dentre as grandes companhias do mundo. No dia em que esperava ser promovido a vice-presidente, porém, o pacato Tom, pai de família correto e leal, é pego de surpresa ao reencontrar uma antiga namorada, Meredith Johnson (Demi Moore): não apenas ela vai trabalhar na mesma empresa que ele, como é anunciada no cargo que seria seu. Frustrado e com medo de perder o emprego ao qual se dedica incansavelmente, Tom entra em uma situação ainda mais delicada quando, depois do expediente, em uma reunião com a bela e decidida executiva, é quase forçado a fazer sexo com ela. No dia seguinte, a coisa fica pior: invertendo completamente os fatos, Meredith o acusa de assédio sexual - e caberá a ele provar que uma mulher linda, sensual e poderosa teria necessidade de obrigar um homem a envolver-se com ela. Nem mesmo seu antigo chefe, Bob Garvin (Donald Sutherland), acredita em sua versão, e as consequências do embate poderão acabar com sua carreira e sua família.

Não há grandes problemas em "Assédio sexual", assim como tampouco há grandes qualidades. A impressão que se tem é que todos estão no piloto automático. A direção de Barry Levinson é burocrática - mesmo a comentada cena do assédio não se decide entre ser quente ou incômoda. Michael Douglas faz muito pouco além do corriqueiro, sem oferecer muitas nuances a sua performance, correta mas sem brilho. Nem a trilha sonora do celebrado Ennio Morricone consegue ser marcante, sublinhando apenas com eficiência as sequências propostas pelo roteiro mas nunca chegando à excelência que lhe é costumeira. Quem acaba se beneficiando desse resultado morno é Demi Moore, que se destaca mesmo com uma personagem tão maniqueísta quanto Meredith Johnson. Na pele da antagonista principal - papel para o qual foram consideradas Michelle Pfeiffer, Geena Davis e Annette Bening -, Demi coroava um período fértil para uma carreira que pouco depois cairia em um melancólico limbo, alavancado por fracassos de bilheteria como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997). Linda e esforçada, é ela quem se sobressai em uma produção apenas mediana e sem brilho.

terça-feira

AVALON

 

AVALON (Avalon, 1990, TriStar Pictures, 128min) Direção e roteiro: Barry Levinson. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Stu Linder. Música: Randy Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Linda DeScenna. Produção: Mark Johnson, Barry Levinson. Elenco: Armin Mueller-Stahl, Joan Plowright, Aidan Quinn, Elizabeth Perkins, Kevin Pollack, Elijah Wood. Estreia: 19/10/90

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino

 "Cheguei na América em 1914..." Mais do que a abertura de "Avalon", a frase dita pelo patriarca Sam Krichinsky no filme de Barry Levinson serve como uma espécie de mantra, uma lembrança constantemente repetida através dos anos como forma de reafirmar uma identidade nacional ameaçada pela modernidade e pela imersão em uma cultura estrangeira. Inspirado na trajetória da família do diretor e roteirista, o primeiro filme de Levinson depois da chuva de Oscar por "Rain Man" (1988) é, também, um dos filmes mais pessoais do cineasta, repleto de calor humano, personagens dolorosamente reais e momentos da mais pura magia cinematográfica. Sem apelar para o sentimentalismo barato - ainda que não evite a emoção - e com um elenco preciso, formado por atores (e não astros de ego inflado e atuações excessivas), "Avalon" se destaca na carreira do realizador justamente por nadar contra a corrente e entregar ao espectador uma deliciosa e nostálgica crônica familiar, injustamente esquecida pela Academia de Hollywood em um ano cujo maior sucesso foi o soporífero e superestimado "Dança com lobos": indicado a apenas quatro estatuetas (indicações que sublinham algumas de suas maiores qualidades), o filme é uma joia das mais preciosas, uma carinhosa ode à família e à pátria - mas sem exagero no açúcar ou no ufanismo barato.

Interpretado por Armin Mueller-Stahl com generosas doses de sensibilidade, Sam Krichinsky não é exatamente o protagonista - ao menos não o único: ao optar por uma narrativa quase episódica, Levinson espalha o protagonismo por vários membros da família, especialmente no filho de Sam, Jules (Aidan Quinn), um jovem ambicioso e empreendedor que se torna, mesmo que de forma não intencional, o responsável pela separação do núcleo familiar. Em busca de independência, Jules rompe simbolicamente com as raízes polonesas (a simplificação do sobrenome é quase um golpe de morte em seu pai) e foge da tradição profissional de gerações ao sonhar (e realizar) um negócio próprio e então inovador. Ao lado do primo, Izzy (Kevin Pollack) - também pouco arraigado a tradições que considera não práticas - e da esposa, Ann (Elizabeth Perkins), Jules representa a chegada do progresso, da tecnologia (a TV surge como catalisador de outras mudanças na rotina da casa) e de uma nova forma de enxergar o mundo e os rituais antes considerados intocáveis. Não à toa, Levinson se utiliza de eventos familiares para sublinhar as profundas transformações (igualmente representativo é o fato de que é o Dia de Ação de Graças, uma data tipicamente norte-americana, o cenário para tais momentos de humor e/ou emoção). O roteiro equilibra com maestria humor e drama - nos dois casos com parcimônia e delicadeza - e consegue, de maneira admirável, valorizar o amor à terra natal e louvar as oportunidades de um novo mundo. É comovente e lindamente fotografada a sequência de abertura, em pleno 4 de julho, quando Sam fica abismado com as luzes e o colorido de seu novo país, como o auspício de um futuro tão brilhante quanto a noite de independência.

 
Terceira parte de uma trilogia informal iniciada por Barry Levinson com "Quando os jovens se tornam adultos" (1982) e continuada com "Os rivais" (1987) - um capítulo a mais foi adicionado com "Ruas da liberdade", de 1999 -, "Avalon" chegou a figurar entre os dez melhores filmes de 1990 pela National Board of Review e foi indicado a três importantes Golden Globes - melhor drama, melhor diretor e melhor trilha sonora original -, mas foi quase esquecido pelo Oscar. Mesmo lembrado na nobre categoria de roteiro original - onde perdeu para "Ghost: do outro lado da vida", adorado pelo público -, não foi celebrado como merecia: concorreu também às estatuetas de fotografia, figurino e música (uma sensível partitura de Randy Newman que ilustra com exatidão toda a vasta gama de emoções que percorre o filme). O trabalho de Mueller-Stahl foi injustamente esnobado (e pensar que Kevin Costner estava no páreo) e a direção discreta mas emotiva de Levinson também foi deixada de lado - talvez por sua vitória ainda recente por "Rain Man". Tal resultado em cerimônias de premiação não reflete todas as suas qualidades, sendo mais um sinal inequívoco do fato de que o Oscar normalmente é um jogo de popularidade: com uma renda internacional de pouco mais de 15 milhões de dólares (que não chegou nem mesmo a pagar seu orçamento relativamente baixo de 20 milhões), era difícil disputar de igual pra igual com produções de bilheteria milionária, como os já citados "Dança com lobos" e "Ghost" e com filmes que já chegavam às telas com prestígio nas alturas, como "Os bons companheiros" e "O poderoso chefão: parte 3". Diante de tantos pesos-pesados, "Avalon" ficou praticamente invisível - para azar de quem não o descobriu a tempo.

É difícil escolher a melhor cena de "Avalon", repleta de momentos tão verdadeiros e emocionantes que soam familiares até mesmo para quem não é de descendência judaica-polonesa. Todos os encontros do clã são recheados de calor humano, humor e verossimilhança. Sam Krichinsky e sua amada Eva (Joan Plowright, excelente) são os avós que todos gostariam de ter - assim como a infância do pequeno Michael (Elijah Wood ainda criança mas já bastante expressivo), inundada de amor e aventuras que beiram o perigo. Levinson conduz o espectador por uma viagem no tempo, enfatizando aqui e ali situações corriqueiras mas que, iluminadas por seu olhar carinhoso, se tornam maiores que a vida. Amor, amizade, vida, morte, alegrias e tristezas são iguais em importância diante do cineasta - que faz, à sua maneira, uma homenagem das mais brilhantes a suas origens familiares. Sem escorregar no sentimentalismo mas investindo com inteligência no que qualquer personagem tem de mais humano, ele criou um dos melhores filmes da década de 1990, infelizmente pouco conhecido do grande público.

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK (You don't know Jack, 2010, HBO Films, 134min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Adam Mazer. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Aaron Yanes. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Lydia Dean Pilcher, Tom Fontana, Steve Lee Jones, Barry Levinson, Glenn Rigberg. Produção: Scott Ferguson. Elenco: Al Pacino, Brenda Vaccaro, Susan Sarandon, John Goodman, Danny Huston, Deirdre O'Connell, Todd Susman. Estreia: 14/4/10

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Minissérie ou Filme Para TV (Al Pacino)

Tivesse sido realizado para o cinema, como foi planejado a princípio, "Você não conhece o Jack" certamente teria alcançado a cerimônia do Oscar: dirigido por Barry Levinson (vencedor da estatueta por "Rain Man", de 1988) e estrelado por Al Pacino (premiado por "Perfume de mulher", em 1993, depois de várias outras infrutíferas indicações) e Susan Sarandon (a melhor atriz de 1995 por "Os últimos passos de um homem"), o filme que narra a luta real de um médico pelo direito dos pacientes ao suicídio assistido é uma empolgante demonstração do talento de seu realizador em contar uma história com todas as ferramentas de que dispõe - sem soar didático ou polêmico em excesso. Mesmo sendo perceptivelmente simpático à causa de seu protagonista, Levinson constrói seu filme de forma sóbria e responsável, amparado por uma atuação avassaladora de Pacino e um roteiro inteligente de Adam Mazer, que equilibra com maestria as batalhas jurídicas travadas nos tribunais e momentos de grande emoção, em boa parte oferecidos por imagens reais de pacientes que procuraram aliviar seu sofrimento pelas mãos daquele que ficou conhecido como "Doutor Morte". Com uma atuação avassaladora de Pacino (que acabou ganhando o Golden Globe, o Emmy e o SAG Award), o filme é também o melhor filme de Levinson desde "Mera coincidência" (97) - e um dos mais fascinantes sobre o tema já realizados.

Jack Kevorkian, o protagonista, era um médico, filho de armênios, que, nos anos 90, tornou-se conhecido mundialmente não apenas por defender a eutanásia como forma de permitir uma morte digna como desfecho de doenças terminais, mas também por colaborar, através de uma máquina criada por ele, para que tais pacientes tivessem seu desejo atendido. Suas ações o levaram a capas de revistas, a programas de entrevistas no rádio e na televisão, e principalmente aos tribunais: acusado de homicídio em alguns casos, Kevorkian contava com a ajuda de seu advogado, Geoffrey Fieger (Danny Huston, com uma horrenda peruca loura), sua irmã, Margo (Brenda Vaccaro), seu fornecedor de medicamentos, Neal Nicol (John Goodman), e a militante pró-direito de escolha Janet Good (Susan Sarandon). Acreditando piamente em seus princípios, o grupo acaba por enfrentar a ira de religiosos e a gana de advogados ambiciosos, que veem na figura do médico a chance de alavancar suas carreiras. Cada golpe, porém, faz de Kevorkian um homem mais forte e decidido a levar a discussão até o mais alto grau de justiça dos EUA: a Suprema Corte.


Magistralmente editado - com cenas reais, onde Pacino substitui, por computação gráfica, o verdadeiro Kevorkian em entrevistas com possíveis pacientes - e centrado basicamente em discutir o assunto de forma racional e honesta, "Você não conhece o Jack" apresenta uma abordagem séria, que não esconde a visão benevolente que tem de seu protagonista, mas ao mesmo tempo respeita a visão negativa de certos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. Ao construir um Jack Kevorkian humano, falível e fatalmente solitário em suas questões éticas, o roteiro de Adam Mazer o retrata quase como um mártir, mas o trabalho impecável de Al Pacino evita que essa luz demasiado positiva o transforme em um santo irretocável. Dotando seu personagem de nuances, o veterano ator mostra que, mesmo depois dos 70 anos, ainda pode surpreender a plateia - há muito tempo não se via Pacino tão à vontade em cena, em um papel que lhe oferece mil oportunidades de brilho e aplausos. Mesmo que contracene com nomes de peso, é ele a alma do filme - e seu principal sustentáculo em mais de duas horas de duração.

Apesar da longa duração, no entanto, "Você não conhece o Jack" jamais se torna cansativo ou repetitivo - algo admirável, em especial quando se percebe que grande parte da história é restrita aos atendimentos de Jack e suas consequências jurídicas. Por incrível que pareça, o vai-e-volta de tribunais, os longos diálogos e o tom melancólico, ao contrário de atrapalhar o ritmo, parecem dar coesão e consistência a uma trama que, apesar de densa e dramática, apela igualmente para a razão e a emoção. Como testemunhas privilegiadas, o público tem a oportunidade de conhecer os ideais e os métodos de um dos homens mais polêmicos de sua época de forma clara e inteligente, sem manipulações piegas ou sensacionalistas. É um trabalho maduro e honesto, assinado por um diretor de talento inquestionável - apesar de alguns tropeços constrangedores na carreira - e estrelado por um dos maiores atores dos EUA. É, por seu tema e por seu resultado final, um filme imprescindível!

segunda-feira

QUIZ SHOW - A VERDADE DOS BASTIDORES

QUIZ SHOW, A VERDADE DOS BASTIDORES (Quiz show, 1994, Hollywood Pictures/Baltimore Pictures, 133min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Paul Attanasio, livro "Remembering America: a voice from the sixties", de Richard N. Goodwin. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Samara Schaffer. Produção executiva: Richard Dreyfuss, Judith James, Frederick Zollo. Produção: Michael Jacobs, Julian Krainin, Michael Zonik, Robert Redford. Elenco: Ralph Fiennes, Rob Morrow, John Turturro, Paul Scofield, Christopher McDonald, David Paymer, Hank Azaria, Mira Sorvino, Griffin Dunne, Martin Scorsese, Barry Levinson. Estreia: 23/9/94

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado

O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.

Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.


E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.

Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.

sexta-feira

VIDA BANDIDA

VIDA BANDIDA (Bandits, 2001, MGM Pictures, 123min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Harley Peyton. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Stu Linder. Música: Christopher Young. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Patrick McCormick, Harley Peyton, David Willis. Produção: Ashok Amritraj, Michele Berk, Michael Birnbaum, David Hoberman, Barry Levinson, Arnold Rifkin, Paula Weinstein. Elenco: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Cate Blanchett, Troy Garity, January Jones. Estreia: 12/10/01

Parece mentira que Barry Levinson, o sério diretor premiado com o Oscar pelo dramalhão "Rain Man" e indicado novamente ao prêmio pelo ambicioso "Bugsy" seja o diretor de "Vida bandida", uma divertida e despretensiosa comédia romântica de ação. Contando com um roteiro esperto e um elenco de sonhos, o filme remete a famosos títulos sobre golpes e assaltos que tanto sucesso fizeram nos anos 60 e 70, como "Butch Cassidy" e "Golpe de mestre", ambos estrelados por Robert Redford e Paul Newman. Aqui, Bruce Willis e Billy Bob Thornton (mais à vontade do que nunca) é que são os protagonistas, dois amigos e comparsas que se veem às voltas com o desejo e o amor atrapalhando (ou nem tanto assim) sua lealdade.

Foragidos de uma penitenciária, os amigos Joe Blake (Bruce Willis) e Terry Lee Collins (Billy Bob Thornton) passam a ser conhecidos como os "Criminosos que passam a noite", em referência à sua tática sui generis de assaltarem os bancos escolhidos: eles passam a noite na casa do gerente e só na manhã seguinte cometem os roubos. Seu trio, completo com Harvey (Troy Garity, filho de Jane Fonda na vida real), primo de Joe que sonha ser dublê em Hollywood vira quarteto quando entra em cena a dona-de-casa entediada Kate Wheeler (Cate Blanchett, linda), que, depois de atropelar Terry, se envolve romanticamente com os dois cúmplices. A harmonia do grupo ameça ruir quando Joe surge com a ideia de - clichê máximo do gênero - um último golpe, que os levará a seu tão sonhado hotel no México.



A edição ágil - com idas e vindas no tempo - o final abertamente contraventor (que pode possivelmente incomodar as feministas mais ferrenhas), o roteiro enxuto e principalmente a trilha sonora composta de clássicos contemporâneos como "Beautiful day", da banda U2, fazem de "Vida bandida" uma obra que nada contra a maré dos filmes de ação, ao privilegiar os diálogos em detrimento da adrenalina e dar mais valor às personagens do que a cenas de perseguição ou tiroteios ocos. Na verdade, é uma diversão compromissada, que tem em seu elenco o atrativo maior. Enquanto Bruce Willis desfila seu habitual charme cool, é Billy Bob Thornton (ainda casado com Angelina Jolie à época das filmagens) que mais chama a atenção da plateia, talvez em parte devido aos engraçados diálogos reservados à sua personagem hipocondríaca e um tanto quanto maníaco-obsessiva (manias essas que o aproximam da enloquecida personagem de Blanchett, fugindo dos papéis dramáticos a que estava confinada desde que tornou-se estrela, com o filme "Elizabeth").

Ainda que se estenda mais do que o necessário - uns bons quinze minutos a menos fariam muita diferença a favor - "Vida bandida" é uma delícia. Afinal de contas, não há como não simpatizar imediatamente com um filme que conta com dois hinos de Bonnie Tyler - "Total eclipse of the heart" e "Holding out for a hero" - sendo dublados por Cate Blanchett.

domingo

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

quinta-feira

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.

segunda-feira

RAIN MAN


RAIN MAN (Rain Man, 1988, United Artists, 133min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Ronald Bass, Barry Morrow. Fotografia: John Seale. Montagem: Stu Linder. Música: Hans Zimmer. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Ida Random/Linda DeScenna. Casting: Louis DiGiaimo. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Mark Johnson. Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Bonnie Hunt. Estreia: 16/12/88

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman)


Pródiga que é em lançar filmes sobre doenças fatais e/ou raras, Hollywood conta sempre com o apoio da Academia, que adora premiar com seus ambicionados Oscar histórias lacrimosas de superação e dor - se o filme em questão ainda tiver uma mensagem do tipo "DESCOBRI O VERDADEIRO SENTIDO DA VIDA E ME TORNEI UMA PESSOA MELHOR", então a festa está completa. É este o caso de "Rain Man", grande vencedor da cerimônia de 1988. Vitorioso em 4 categorias importantíssimas - filme, direção, ator e roteiro original - o filme de Barry Levinson tem todas as características que seduzem os eleitores da Academia... e por conseguinte a platéia cativa que obras do gênero possuem. A única coisa que difere "Rain Man" das dezenas de outros títulos que movimentam o mercado de lenços de papel é Dustin Hoffman. Na pele do protagonista Raymond Babbit, Hoffman entrega um dos momentos mais marcantes de sua brilhante carreira, merecidamente premiado com sua segunda estatueta dourada de Melhor Ator.

"Rain Man" começa quando o jovem empresário Charlie Babbitt (Tom Cruise em mais um passo rumo a ser levado a sério como ator) fica sabendo da morte de seu pai, um milionário aparentemente seco e desprovido de maiores afetos por ele. Endividado até a raiz dos cabelos, Charlie espera receber uma polpuda herança, que o aliviaria de seus problemas financeiros. No entanto, para seu choque, descobre que herdou apenas um automóvel raro e algumas roseiras. O restante do patrimônio de sua família, ele descobre estarrecido, ficou para um irmão mais velho que ele sequer sabia existir. Raymond, seu irmão mais velho, vive em um hospital psiquiátrico por ser autista - uma rara condição que faz com que viva em um mundo particular, com regras rígidas e imutáveis. Com a intenção de obrigar a justiça a lhe pagar o que deve, Charlie praticamente sequestra Raymond e no caminho, descobre que ele tem uma inteligência rara, capaz de fazer cálculos complicadíssimos de cabeça, ao mesmo tempo que desconhece por completo (e por pura ironia!) o valor do dinheiro.


Logicamente, no decorrer do filme (que torna-se uma espécie de road movie graças ao terror que Raymond tem de voar) Charlie torna-se uma pessoa melhor, mais humana e menos fria. O convívio com o irmão mais velho faz com que o rapaz redescubra a ternura e o carinho, aproximando-o inclusive da namorada, Susanna (a péssima Valeria Golino). Mesmo que tente fugir dos clichês e do sentimentalismo barato - acrescentando uma bem-vinda dose de bom humor aos diálogos - o roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow nem sempre é bem-sucedido em sua empreitada. Em alguns momentos há a séria ameaça de tornar-se extremamente piegas, e é aí que o trabalho fenomenal de Hoffman emerge glorioso.

Em uma composição minuciosa de voz e corpo, Dustin consegue fazer de seu Raymond Babbit não um doente engraçadinho e cativante (como o primeiro esboço do roteiro, recusado por ele, o apresentava) mas como um homem enervante, quase insuportável na rigidez de sua rotina. Escalado para viver Charlie em um primeiro tratamento do projeto (em que os irmãos teriam uma diferença bem menos considerável de idade), Hoffman apaixonou-se pelo papel de Raymond e passou dois anos convivendo com autistas para compor sua personagem, sugerindo modificações no roteiro e realizando exaustivos ensaios com Cruise (que não se sai mal como escada para seu brilho). Para sua sorte, Steven Spielberg, que esteve para dirigir o filme em uma ocasião, o deixou de lado para realizar "Indiana Jones e a última cruzada", caso contrário, a dose de sacarina provavelmente seria bem maior e talvez nem mesmo ele salvasse "Rain Man" de ser mais um exemplar corriqueiro de drama médico/familiar.

Um dos filmes preferidos da Princesa Diana, "Rain Man" emociona, faz rir e ainda consegue ser um bom filme. Não era o melhor filme do ano, mas cumpre o que promete. E tem Dustin Hoffman.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...