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domingo

O JOVEM FRANKENSTEIN

 


O JOVEM FRANKENSTEIN (Young Frankenstein, 1974, 20th Century Fox, 105min) Direção: Mel Brooks. Roteiro: Mel Brooks, Gene Wilder, livremente inspirado no romance de Mary Shelley. Fotografia: Gerald Hirschfeld. Montagem: John C. Howard. Música: John Morris. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Bob De Vestel. Produção: Michael Gruskoff. Elenco: Gene Wilder, Teri Garr, Marty Feldman, Peter Boyle, Madeline Kahn, Cloris Leachman, Gene Hackman. Estreia: 15/12/74

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Som

Publicado em 1818 e considerado um clássico absoluto da literatura de terror, "Frankenstein", obra-prima da escritora britânica Mary Shelley. rendeu diversas versões cinematográficas, tornando-se um ícone incontestável do gênero. Por incrível que pareça, no entanto, uma de suas mais bem-sucedidas adaptações não surgiu da Universal Pictures (onde James Whale praticamente criou os cânones visuais que se tornaram referência no cinema) e nem da reimaginação de Roger Corman, lançada em 1990. Foi Mel Brooks, conhecido por suas comédias iconoclastas e por vezes quase grosseiras, quem assinou aquela que entrou para a história como uma das mais bem-sucedidas releituras do romance gótico: "O jovem Frankenstein" chegou aos cinemas no final de 1974, conquistou a crítica, o público (com uma renda quase quarenta vezes maior que seu custo) e entrou para diversas listas de melhores comédias de todos os tempos - da revista Premiere ao prestigiado American Film Institute. Como se não fosse o bastante, ultrapassou a barreira de preconceito da Academia de Hollywood contra seu gênero e concorreu ao Oscar de roteiro adaptado - que perdeu para o grande vencedor da noite, "O poderoso chefão: parte II". Considerado pelo próprio Mel Brooks como o seu melhor filme - ainda que considere outros trabalhos seus mais engraçados -, "O jovem Frankenstein" é, sem nenhuma dúvida, aquele que consegue com mais facilidade equilibrar o humor nonsense do diretor com uma história mais bem estruturada e uma técnica apurada. É ouro puro!

Inicialmente planejado como uma produção da Columbia Pictures, "O jovem Frankenstein" acabou indo parar nas mãos da 20th Century Fox quando Brooks insistiu em sua ideia de filmar em preto-e-branco e, com isso, manter-se fiel à atmosfera gótica do romance de Shelley - ainda que fosse mais brincar em cima dela do que reverenciá-la. Com medo de um possível fracasso comercial e sem querer aumentar o orçamento de apenas 1,75 milhões de dólares, o estúdio acabou por ver o filme se tornar um estrondoso sucesso de crítica e público. Dirigida com uma surpreendente sobriedade, que jamais ameniza o tom debochado do roteiro e das inspiradas atuações do elenco, a comédia de horror (bem mais comédia do que um filme de horror) ofereceu a Gene Wilder um dos papéis mais icônicos de sua carreira (ao lado de Willy Wonka de "A fantástica fábrica de chocolates", lançado dois anos antes), revelou um senso de humor inesperado em Cloris Leachman (vinda de um Oscar de atriz coadjuvante por "A última sessão de cinema") e apresentou um grau de sofisticação inesperado à filmografia do diretor. Filmando com o estilo do próprio James Whale (planos abertos, poucos closes e com o mínimo de efeitos de câmera) e inspirado também em obras dos expressionistas alemães Fritz Lang e F.W. Murnau, o iconoclasta criador de "Banzé no Oeste" (lançado pouco antes, no mesmo 1974) e "Primavera para Hitler" (1967) faz, ao mesmo tempo, uma sincera homenagem e uma divertida sátira - que funcionam na mesma medida. 

Gene Wilder - naquele que considera o filme favorito de sua carreira - parece ter nascido para interpretar Frederick Frankenstein, um dedicado e talentoso neurocirurgião cujo sucesso não impede que tenha seu nome eternamente ligado ao do avô, o infame Victor Frankenstein. Seu desejo de disassociar-se do nome da família cai por terra quando ele descobre que, sendo o único herdeiro do clã, pode tomar propriedade do castelo que lhe pertence, na Transilvânia. Tão logo chega no local - e passa a ser assessorado pelo corcunda Igor (Marty Feldman) e pela exuberante Inga (Teri Garr) - o jovem médico encontra um caderno com instruções de como continuar as experiências para a criação de um novo ser vivo. Excitado com a possibilidade de marcar seu nome na história, ele segue tudo passo-a-passo (dentro do possível, uma vez que seus colaboradores não são exatamente inteligentes) e consegue criar seu próprio monstro (Peter Boyle). Porém, o monstro escapa dos limites do castelo e provoca uma série de situações que põem em xeque as capacidades de Frederick - e a segurança do vilarejo, nada disposto a conviver com um potencial perigo.

Repleto de gags geniais - visuais, verbais e de referências ao clássico de James Whale -, "O jovem Frankenstein" é a síntese perfeita da filmografia de Mel Brooks (que teve o luxo de contar com as máquinas do filme da Universal, criadas por Ken Strickfaden): piadas quase escatológicas que se equilibram com diálogos inteligentes, um elenco afiadíssimo (que conta com um não-creditado Gene Hackman em uma sequência hilariante) e a coragem de tentar fazer rir sem pisar em ovos. A química entre os atores - tão precisa que as filmagens se estenderam por um calendário maior para que pudessem ficar mais tempo juntos e tão profícua que a versão original do filme passava de três horas de duração - e seu casamento perfeito com o roteiro deu origem a uma das comédias mais incríveis dos anos 1970 capaz de agradar aos fãs do gênero independente de suas preferências de estilo. É Mel Brooks em sua melhor forma!

terça-feira

NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO


NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO  (C'eravamo tanto amati, 1974, La Deantir, 124min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli. Fotografia: Claudio Cirillo. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Luciano Ricceri. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Pio Angeletti, Adriano de Micheli. Elenco: Nino Manfredi, Vittorio Gassman, Stefania Sandrelli, Stefano Satta Flores. Estreia: 21/12/74

Na vasta e preciosa filmografia do italiano Ettore Scola, o poético e melancólico "Nós que nos amávamos tanto" tem um lugar todo especial. Uma homenagem à amizade, ao amor, ao tempo e ao cinema, o filme, lançado em 1974 - antes, portanto, dos clássicos "Feios, sujos e malvados" (1975) e "Um dia muito especial" (1977) - se mantém como uma aula de narrativa, inserindo organicamente à trajetória de três amigos apaixonados pela mesma mulher, um estudo sobre a sociedade italiana pós-guerra e as lutas sociais e culturais que perpassaram o país por trinta anos. Sem deixar de lado o viés político característico de sua obra, Scola conta uma das histórias mais fascinantes de sua carreira, valorizada por um elenco sublime, um roteiro preciso e uma edição primorosa - tanto na versão original quanto na redução em doze minutos lançada internacionalmente.

O filme é, na verdade, um longo flashback, como mostra a primeira sequência, que voltará nos minutos finais para encerrar a longa viagem de Scola pelos caminhos da memória. Os três personagens centrais, Antonio (Nino Manfredi), Gianni (Vittorio Gassman) e Nicola (Stefano Satta Flores), se conhecem durante a II Guerra e se tornam amigos inseparáveis. Com o final do conflito, todos tentam se encaixar na rotina como civis: Gianni começa uma carreira de advogado, Nicola se casa e volta a lecionar em uma escola do interior e Antonio inicia uma carreira como enfermeiro em um hospital de Roma. É Antonio quem primeiro conhece Luciana (Stefania Sandrelli) e se apaixona, sem perceber que a bela jovem caiu de amores por caiu de amores por Gianni, com quem inicia um romance. A partir de então, como um pomo da discórdia, Luciana, mesmo involuntariamente, será a causa de todos os conflitos entre os três amigos. Nicola, depois de separado e tentando trabalhar como crítico de cinema, também não resiste a seus encantos durante o tempo em que ela tenta a sorte como atriz. E enquanto Gianni se deixa corromper pelo capitalismo que sempre rejeitou na juventude - o que inclui um casamento por conveniência - o grupo vê passar diante de seus olhos uma série inexorável de transformações sociais. Apenas Antonio - ironicamente o responsável pela presença de Luciana entre eles - é que parece não conseguir chamar sua atenção em termos românticos.

 

O brilhante roteiro de "Nós que nos amávamos tanto" - escrito pelo mesmo trio de autores de "Ciúme à italiana" (1970), do mesmo diretor - não conta apenas belas histórias de amor (entre os amigos, entre amantes apaixonados, entre cidadãos e seu país), mas também as utiliza como pretexto para desfilar, na tela, sentimentos que remetem diretamente à reconstrução da Itália depois da II Guerra Mundial. Estão ali, de uma forma ou de outra, o nascimento da consciência política, a desilusão advinda dela, a busca por uma cultura própria e socialmente relevante, o recrudescimento do abismo social. Politicamente engajado, Scola não hesita em fazer de seus protagonistas homens comuns que, a exemplo de Gianni, nem sempre são capazes de resistir às tentações, sejam elas materiais ou emocionais - mas cujas complexidades os afastam de qualquer maniqueísmo. Nicola, por exemplo, é um cidadão comum, apaixonado por cinema e que luta para ascender socialmente através do seu trabalho e de sua convicção de que a arte é salvadora e crucial - uma discussão sobre o belo "Ladrões de bicicleta" (1948) é o detonador de uma crise profissional que irá ecoar para sempre em sua vida - a Antonio batalha arduamente na área da saúde, como forma de ajudar a população - o que o aproxima, a princípio, de Luciana. E Luciana, que sonha em ser atriz, é o ideal feminino de todos eles, apesar de, tristemente, nem sempre perceber que seus companheiros vivem a catar a poesia que entorna no chão.

Scola é um apaixonado por cinema, e a sétima arte é, provavelmente, o quinto personagem mais importante de "Nós que nos amávamos tanto". Não é apenas a citação direta ao clássico de Vittorio De Sica que empurra Nicola em direção a seu destino: com citações maiores ou menores a obras de Antonioni e Rossellini, o filme delicia a plateia com a recriação de uma cena antológica de "A doce vida" (1960), de Federico Fellini, com direito às luxuosas participações do cineasta e de seu ator preferido, Marcello Mastroianni, vivendo eles mesmo durante a produção do clássico italiano - da qual Luciana participa como extra. E Luciana é também a protagonista de uma sequência sublime, quando se esconde em uma máquina de fotografias instantâneas e, ao sair, deixa uma série de imagens que a mostram chorando copiosamente depois de uma das várias situações complicadas das quais participa. É como se o diretor lembrasse ao público que é disso que a vida - e seu filme - se trata: de momentos fugazes que ficam para sempre na memória.

"Nós que nos amávamos tanto" é uma obra-prima do cinema europeu. Como toda boa produção italiana, não deixa de apelar, vez ou outra, ao sentimentalismo mediterrâneo que a tantos agrada - e a outros aborrece. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme para ver e rever inúmeras vezes. E se emocionar sempre.

 

sábado

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (Alice doesn't live here anymore, 1974, Warner Bros, 112min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Robert Getchell. Fotografia: Kent L. Wakeford. Montagem: Marcia Lucas. Direção de arte: Toby Carr Rafelson. Produção: Audrey Maas, David Susskind. Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd, Jodie Foster. Estreia: 09/12/74

3 indicações ao Oscar: Atriz (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Diane Ladd), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn) 

Nem a vítima, nem a compreensiva esposa do herói e muito menos um objeto sexual. Depois do sucesso estrondoso de "O exorcista" (73) - pelo qual foi indicada ao Oscar -, a atriz Ellen Burstyn queria voltar às telas em um papel que fosse o oposto de todos aqueles a que se sujeitava boa parte das intérpretes de sua geração. Foi assim que encontrou, dentre vários roteiros oferecidos pela Warner, uma estória escrita por Robert Getchell que oferecia tudo que ela buscava: uma personagem forte, uma história calcada na realidade e a possibilidade de demonstrar uma outra faceta de seu talento. Recusada por Shirley MacLaine, Barbra Streisand e até Diana Ross, a protagonista de "Alice não mora mais aqui" serviu de passaporte para que Burstyn finalmente levasse a estatueta da Academia - mas, mais importante ainda, foi a responsável por revelar à crítica e ao público que nem apenas de homens à margem da sociedade era feito o cinema do cineasta Martin Scorsese. Recém descoberto por seu elogiado "Caminhos perigosos" (73), o  então jovem realizador mostrou-se à altura do compromisso e preparou terreno para aquele que seria a primeira de suas várias obras-primas: "Taxi driver", lançado em 1976.

Na verdade o diretor nova-iorquino só chegou até Ellen Burstyn por recomendação de outro cineasta então começando sua escalada rumo ao prestígio, Francis Ford Coppola. Procurado pela atriz para que desse sugestões de nomes capazes de dirigir o projeto que estava em suas mãos, o homem que acabava de conhecer aplausos unânimes por "O poderoso chefão" (72) - e que viria a fazer história com duas produções indicadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1974 - indicou o nome de Scorsese. Não muito certa em contratar alguém cujo cartão de visitas era um filme violento e extremamente masculino, Burstyn não demorou a ser convencida do entusiasmo que Scorsese demonstrava pelo roteiro - e foi premiada com uma equipe feminina da qual faziam parte a esposa de George Lucas (Marcia, responsável pela edição) e Bob Rafelson (Toby Carr, a desenhista de produção). Surgia, então, uma parceria que faria acontecer, diante das câmeras, momentos de um naturalismo raros, alcançados depois de exaustivos ensaios e inspiradas improvisações.


Também indicado ao Oscar (que perdeu para o incensado "Chinatown"), o roteiro de Robert Getchell usa e abusa de um tipo de cinema bastante influenciado por John Cassavetes - e serviu, como afirmado pelo próprio Scorsese, como uma tentativa sua de emular o espírito dos filmes estrelados por Bette Davis e Joan Crawford na era de ouro de Hollywood. Sem artifícios de estilo e centrado basicamente em seus personagens, "Alice não mora mais aqui" é um exercício minimalista do diretor, uma história simples e direta, que abdica de grandes reviravoltas e pode ser considerado, sem demérito algum, como seu filme de narrativa mais convencional. Pode-se dizer que é a vida como ela é sob o olhar de um Martin Scorsese menos agressivo e pessimista em relação ao mundo - e uma crônica social e familiar agradável e de fácil comunicação com a plateia, seja ela de onde for. Ao eleger como protagonista uma mulher comum, com problemas ordinários e relações tão falíveis quanto as de qualquer espectador, o filme acerta em cheio - ainda que sua falta de ousadia talvez deixe uma incômoda sensação de simplicidade excessiva.

Simplicidade é o que move o roteiro de Getchell e a direção de Scorsese - assim como é simplicidade também a maior característica da vida de Alice Hyatt (Ellen Burstyn), que vive em Socorro, Novo México, na companhia do marido e do único filho, o precoce Tommy (Alfred Lutter). Sua repentina viuvez acaba por lhe servir como empurrão para finalmente tomar as rédeas de sua vida, e, decidida, ela viaja com o menino de volta para sua cidade natal, Monterey, na California, onde planeja retomar uma carreira de cantora noturna. No meio do caminho, no Arizona, ela arruma emprego como garçonete e se envolve com um homem mais jovem, Ben (Harvey Keitel) - com quem encontra uma série de problemas inesperados - e com o fazendeiro David (Kris Kristofferson), que aparenta ser o homem que irá fazer dela uma mulher mais feliz e completa. Porém, aos poucos, Alice começa a perceber que é provável que sua liberdade e seu filho importem mais do que uma companhia masculina - e passa a questionar seu estilo de vida sentimental.

Narrado de forma fluida e natural, "Alice não mora mais aqui" é um filme atípico na carreira de Martin Scorsese, mais afeito a neuroses e obsessões urbanas do que a personagens mais banais. Porém, na interpretação potente de Ellen Burstyn, a vida de Alice Hyatt torna-se, por si mesma, o retrato do sonho simples de felicidade e paz de espírito. Não é uma obra-prima, mas é um filme importante dentro de seu contexto social e principalmente é uma aula de minimalismo e delicadeza. É a prova de que o cineasta Scorsese já nasceu praticamente pronto!

segunda-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

quinta-feira

LENNY

LENNY (Lenny, 1974, United Artists, 111min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Julian Barry, peça teatral homônima de Julian Barry. Fotografia: Bruce Surtees. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Nicholas Romanak. Produção executiva: David Picker. Produção: Marvin Worth. Elenco: Dustin Hoffman, Valerie Perrine, Jan Miner, Stanley Beck, Frankie Man, Rashel Novikoff. Estreia: 13/11/74

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Dustin Hoffman),  Atriz (Valerie Perrine), Roteiro Adaptado, Fotografia
Palma de Ouro de Melhor Atriz (Valerie Perrine) - Festival de Cannes

Lenny Bruce foi um dos mais controversos comediantes stand-up dos EUA dos anos 60, quando o gênero ainda estava em sua pré-história. Suas piadas, repletas de palavras de baixo calão e piadas frequentemente de mau-gosto, que não poupavam nada nem ninguém, incomodaram o establishment americano a tal ponto que em pouco tempo ele não apenas era famoso por suas qualidades histriônicas, mas também pelos inúmeros processos a que respondeu. Entrando e saindo da cadeia, ofendendo os mais suscetíveis e sendo aplaudido por aqueles que o consideravam um espécime raro no humor normalmente inofensivo dos palcos - entre os quais a banda REM, que o citou nominalmente na letra de "It's the end of the world as we know it" - Bruce deu origem a uma premiada peça teatral da Broadway, escrita por Julian Barry e ao material escolhido por Bob Fosse para seu primeiro filme após o Oscar ganho por seu trabalho em "Cabaret". Amparado por uma atuação (mais uma) irretocável de Dustin Hoffman e uma deslumbrante fotografia em preto-e-branco de Bruce Surtees, "Lenny" é uma homenagem séria a seu protagonista e um libelo pró-liberdade de expressão.

Contado em formato de flashback pela ex-esposa de Lenny, a stripper Honey (Valerie Perrine, indicada ao Oscar e premiada como melhor atriz no Festival de Cannes), "Lenny" é valorizado pela coragem do roteirista em não fazer de seu protagonista uma pessoa menos desagradável que ele realmente era na vida real, não deixando de fora da trama nem seu vício em drogas nem suas orgias sexuais - que o acabaram afastando da mulher que amava. Construindo um Lenny Bruce constantemente à beira do abismo, Dustin Hoffman dá seu costumeiro show, tanto nas recriações de suas apresentações - das quais o público nunca sabia o que viria - como em seus momentos mais intimistas. Falando desde doenças sexualmente transmissíveis até política e problemas sociais e raciais, o humorista tinha uma acidez que ainda hoje é capaz de perturbar, e Hoffman caminha no fio da navalha para fazer dele alguém que se possa simpatizar mesmo quando suas atitudes não são nada louváveis. Para sua sorte, encontrou em Valerie Perrine uma parceira de cena capaz de pontuar com correção seu dedicado trabalho.


Sem maiores créditos no currículo até sua surpreendente vitória em Cannes e a subsequente indicação ao Oscar, Perrine ficou com o papel de Honey Bruce depois da recusa de Raquel Welch, que não se considerava à altura do desafio. Sua atuação pode parecer discreta em comparação com o desempenho avassalador de Dustin Hoffman, mas é no minimalismo que Perrine encontrou seu caminho. É seu olhar quem fala mais, mostrando ao público todo o turbilhão porque passa sua personagem, que se apoia no amor incondicional pelo marido como forma de superar todas as barreiras emocionais, físicas e morais pelas quais tem que passar em sua trajetória - que inclui desde o encontro com sua tradicional família judaica até o início do vício em heroína e suas inclinações sexuais pouco ortodoxas. Como narradora da história, é do ponto de vista de Honey que o público tem contato com a personalidade confusa de Lenny, e Perrine dá conta do recado com segurança - ainda que a Palma de Ouro em Cannes soe um tanto exagerada.

"Lenny" não é um filme para qualquer público. Sua narrativa é um tanto lenta - o que de certa forma contrasta com a velocidade de "Cabaret" - e o roteiro não apresenta grandes lances dramáticos exceto aqueles velhos conhecidos dos filmes do gênero, sendo quase didático. No entanto, é preciso louvar a edição de Alan Heim, que aproveita cada fantástico ângulo de Bruce Surtees para cadenciar o ritmo conforme as piadas de seu protagonista e a direção precisa de Bob Fosse, mostrando que seu Oscar não foi apenas uma questão de sorte. Assim como acontecia com as piadas de Lenny Bruce, é preciso mergulhar nas boas intenções sua cinebiografia para usufruí-la com todas as suas qualidades. Questão de gosto.

quarta-feira

INFERNO NA TORRE

INFERNO NA TORRE (The towering inferno, 1974, 20th Century Fox/Warner Bros, 165min) Direção: John Guillermin, cenas de ação dirigidas por Irwin Allen . Roteiro: Stirling Siliphant, romances "The glass inferno", de Thomas N. Scortia, Frank M. Robinson e "The tower", de Richard Martin Stern. Fotografia: Fred Koenemkamp. Montagem: Carl Kress, Harold F. Kress. Música: John Williams. Figurino: Paul Zastupnevich. Direção de arte/cenários: William Creber/Raphael Bretton. Produção: Irwin Allen. Elenco: Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Faye Dunaway, Richard Chamberlain, Jennifer Jones, Fred Astaire, Susan Blakely, O.J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner. Estreia: 10/12/74

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)

Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.

Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.


Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.

terça-feira

LOUCA ESCAPADA

LOUCA ESCAPADA (The Sugarland Express, 1974, Universal Pictures, 110min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Hal Barwood, Matthew Robbins, estória de Steven Spielberg, Hal Barwood, Matthew Robbins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Edward M. Abroms, Verna Fields. Música: John Williams. Direção de arte: Joseph Alves Jr.. Produção: David Brown, Richard D. Zanuck. Elenco: Goldie Hawn, Ben Johnson, Michael Sacks, William Atherton, Gregory Alcott, Steve Kanaly. Estreia: 04/4/74

Vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro (Festival de Cannes)

Sabendo que hoje em dia Steven Spielberg é o mais bem-sucedido cineasta da história de Hollywood, com vários filmes listados entre as maiores bilheterias de todos os tempos e dois Oscar de direção na prateleira, é difícil de imaginar que um dia ele já amargou fracassos que poderiam facilmente ter interrompido precocemente sua brilhante carreira. Foi o que aconteceu, por exemplo, com sua estreia na tela grande: vindo do êxito inesperado de seu "Encurralado", feito para a TV e lançado nas salas de cinema graças a seu sucesso junto aos produtores, Spielberg quase viu seu prestígio recém adquirido desabar com "Louca escapada". Baseado em uma história real, o filme, estrelado por uma Goldie Hawn no auge da popularidade - ela havia ganho um Oscar de coadjuvante em 1969 por "Flor de cacto" e voltaria a concorrer como protagonista em "Recruta Benjamin", em 1980 - não conseguiu encantar as plateias e permanece hoje quase como uma joia escondida na filmografia do diretor. Sorte dele que já no ano seguinte as coisas mudariam definitivamente em sua vida - por graça e obra de um assassino dos mares, no blockbuster "Tubarão".

A história contada em "Louca escapada" aconteceu em maio de 1969 e, apesar de ter durado poucas horas na vida real, foi estendida no roteiro do filme para um período de alguns dias, artifício que funciona perfeitamente para estabelecer com mais consistência as relações interpessoais que se desenham no desenrolar da narrativa e para tornar mais verossímil a simpatia que os protagonistas conseguem conquistar das testemunhas do caso - dentro e fora do filme. Demonstrando que já tinha em seus primórdios como cineasta todas as ferramentas para seduzir a plateia com um senso de ritmo e um equilíbrio perfeito entre o drama, a aventura e o humor, Steven Spielberg conduz seu filme sem pressa, dando ênfase a tudo que pode servir para comover a plateia em seu desfecho - a um passo do sentimentalismo, mas coerente com a sua vindoura e milionária carreira.


Goldie Hawn está brilhante como Lou-Jean, uma ex-presidiária desbocada, simpática e inconsequente que, durante uma visita ao marido, Clovis Poplin (William Atherton), na cadeia, tenta convencê-lo a fugir com ela para que juntos consigam recuperar a guarda de seu filho, ainda bebê, das mãos de um casal que pretende adotá-lo. A princípio relutante em seguir a esposa - falta-lhe apenas quatro meses de sentença antes da liberdade - ele acaba cedendo a seus argumentos e eles pegam uma carona com os pais de outro presidiário. As coisas logo começam a dar errado e, depois de uma perseguição, o jovem policial Slide (Michael Sacks) é tomado como refém pelo casal. Não demora para que a polícia do estado do Texas seja comunicada do crime e saia em disparada atrás do agora trio de fugitivos. Conforme o tempo passa e a caçada aumenta - além de começar a ser transmitida via rádio, o que faz dos ouvintes cúmplices simpáticos à causa de Lou-Jean - começa a formar-se uma relação de amizade entre o casal e o policial, mas o Capitão Tanner (Ben Johnson) não está disposto a deixar que as coisas acabem de outro jeito que não o que ele representa: o da lei.

Spielberg dirige "Louca escapada" com despretensão, levando a audiência junto com seus personagens em uma espécie de road-movie inconformista, com protagonistas que se situam à margem do que se pode chamar de establishment. Mesmo que não sejam exatamente pessoas totalmente corretas e honestas, é difícil não se deixar envolver com seu drama e torcer para que consigam atingir seus objetivos. São anti-herois simpáticos, românticos em seu ideal e, como mostram várias cenas, gentis e calorosos um com o outro e até mesmo com o policial que lhes serve de escudo. Não é à toa que, em uma cena sintomática, sejam ovacionados em uma pequena cidade do interior do Texas e ganhem presentes dos moradores, todos torcendo por um final feliz que a cada minuto torna-se mais distante.

"Louca escapada" é um belo primeiro filme - ainda não contando o extraordinário "Encurralado". Mostra todas as qualidades que seu diretor deixaria bastante claro em um futuro bastante próximo e ainda consegue emocionar em seu final - talvez previsível, talvez surpreendente, dependendo do nível de otimismo do espectador. No fundo, é uma bela história de amor à liberdade e à família, mesmo sendo ela formada por pessoas que em um primeiro olhar não sejam exatamente exemplares.

CHINATOWN

CHINATOWN (Chinatown, 1974, Paramount Pictures, 130min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Robert Towne. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Sam O'Steen. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthea Sylbert. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Ruby Levitt. Produção: Robert Evans. Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd. Estreia: 20/6/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roman Polanski), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Faye Dunaway), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Roman Polanski), Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro

Um detetive incorruptível com seu próprio código de honra. Uma femme fatale glamourosa. Uma trama intrincada com ramificações muito além das aparências. Reviravoltas inesperadas e chocantes. Todos os elementos que fizeram a glória do cinema noir americano dos anos 40 estão presentes em "Chinatown", o charmoso e incensado último filme do cineasta Roman Polanski antes de sua fuga dos EUA, após ter mantido relações sexuais com uma menor de idade. Emulando os clássicos policiais da época em que se passa a história - 1937 - e tendo como influência os romances de Dashiel Hammet e Raymond Chandler, o roteirista Robert Towne construiu um dos mais elogiados scripts da história, vencedor do Oscar e exemplo em qualquer curso de roteiro - ainda que seu final, amargo e marcante, tenha sido escrito pelo diretor.

Para o público acostumado à rapidez dos filmes policiais pós- anos 80 - quando a violência e a ação incessante substituíram o cérebro e a sutileza - talvez seja complicado entrar no jogo de "Chinatown". É preciso quase uma hora de projeção para que a trama de Towne realmente comece a empolgar - até então o que mais chama a atenção é a preciosa reconstituição de época e a excelência da atuação de Jack Nicholson, amigo do roteirista e para quem o protagonista foi especialmente criado. A trama, que seguindo os padrões do cinema noir é quase uma desculpa para um exercício de estilo e tensão, só começa a delinear-se quando as peças do quebra-cabeça finalmente parecem fazer sentido - e é aí que o público percebe, juntamente com o detetive vivido por Nicholson, que estava seguindo um caminho totalmente equivocado e o que parecia importante passa a segundo plano.


Tudo começa quando o detetive particular J.J. Gittes (Nicholson) é procurado por uma mulher, Evelyn Mulwray (Diane Ladd), que desconfia estar sendo traída por seu marido, Hollis Mulwray (Darrell Zerling) diretor-chefe do Departamento de Água de Los Angeles. Ele aceita o caso, mas logo em seguida descobre que foi enganado e que a verdadeira Evelyn (Faye Dunaway) está em vias de processá-lo. Quando Hollis é encontrado morto, Gittes se vê envolvido em uma trama que mistura corrupção, adultério e incesto - e se descobre apaixonado por Evelyn, que parece esconder muito mais do que revela.

A atmosfera de "Chinatown" e a forma inteligente de conduzir o roteiro preciso de Towne - em que cada detalhe tem suma importância para o desfecho - é responsabilidade de Roman Polanski, que, muito provavelmente devido à sua trágica história de vida, não é exatamente um entusiasta do ser humano. Sua direção é seca, sem espaço para floreios românticos e até mesmo as cenas de amor entre Gittes e Evelyn são cercadas de uma aura trágica. A química entre Nicholson e Dunaway (que ficou com o papel depois que Ali McGraw separou-se do produtor Robert Evans e Jane Fonda o recusou) é precisa, em boa parte graças ao talento da dupla. O uso econômico da trilha sonora e até mesmo a opção por uma paleta de cores neutras também dão ao filme a elegância que contrasta com a imundície que se esconde por trás das descobertas de Gittes.

"Chinatown" talvez seja superestimado em excesso. Mas é, inegavelmente, um filme de personalidade, inteligência e charme, qualidades essas cada vez mais raras no cinemão americano.

domingo

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II


O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (The godfather - Part II, 1974, Paramount Pictures, 200min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Barry Malkin, Richard Marks, Peter Ziner. Música: Nino Rota. Figurino: Theadora Von Runkle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R.Nelson. Casting: Jane Feinberg, Michael Fenton, Vic Ramos. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, John Cazale, Diane Keaton, Talia Shire, Lee Strasberg, Bruno Kirby, Troy Donahue, Michael V. Gazzo. Estreia: 20/12/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro, Michael V.Gazzo, Lee Strasberg), Atriz Coadjuvante (Talia Shire), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 6 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro, Trilha Sonora, Most Promising Newcomer (Lee Strasberg)


Continuações de filmes de sucesso são, via de regra, caça-níqueis realizados para salvar estúdios da bancarrota ou alimentar ainda mais seus cofres. A preocupação com a integridade obra original inexiste na maioria esmagadora dos casos, uma vez que normalmente as sequências de campeões de bilheteria esgotam a ideia central dos filmes e humilham suas personagens sem pena nem dó. Felizmente, toda regra tem exceção e, neste caso, nenhuma exceção é mais gloriosa do que "O poderoso chefão - Parte II" - , que, lançado meros dois anos depois da estreia de seu primeiro capítulo, não só o superou em sucesso artístico - inclusive dobrando o número de Oscar recebidos - como comprovou o talento e o gênio de seu diretor, roteirista e produtor Francis Ford Coppola. Em "O poderoso chefão - Parte II", ele não apenas continuou contando a trajetória de Michael Corleone rumo ao poder absoluto; ele intercalou a ela o início de toda a família, apresentando ao público a juventude do patriarca Don Vito Corleone, aqui interpretado por um jovem e já excelente Robert DeNiro.

Apesar de ter ganho o Oscar de roteiro adaptado, a segunda parte da saga Corleone não é totalmente baseada no livro "O chefão", que inspirou o filme original. Apenas um capítulo do livro, que conta a chegada de Vito à Nova York, em 1901, e o início de seu caminho ao poder já estabelecido no primeiro filme, foi utilizado no script do diretor e do autor do livro, Mario Puzo. Toda a trama envolvendo Michael Corleone e a família em Las Vegas e Cuba foi criado especificamente para o filme, e fortalece o conceito de máfia insinuado em 1972 e aqui abertamente declarado em cenas que mostram uma CPI a respeito das atividades dos Corleone. A genialidade desse segundo filme reside principalmente na divisão da história em dois núcleos separados que juntos, formam uma unidade coesa e sólida.

"O poderoso chefão - Parte II", começa em 1958, em Lake Tahoe, Nevada, na festa da primeira comunhão de Anthony, o filho mais velho de Michael (Al Pacino) e Kay (Diane Keaton). A reunião - não apenas familiar, mas que também junta no mesmo ambiente os diversos colaboradores do clã - ecoa o casamento de Connie (Talia Shire), que abria o primeiro "Chefão". Nessa festa, fica-se sabendo dos negócios de Michael em Las Vegas, dirigidos com mão não muito firme por Fredo (John Cazale), seu irmão mais velho. Enquanto tenta lidar com uma traição por parte do próprio irmão, Michael se vê cada vez mais solitário e afastando-se das pessoas que ama, além de participar ativamente da revolução cubana. Paralelamente, o filme narra a chegada de Vito Corleone (Robert DeNiro) aos EUA. Chegado da Sicília com apenas nove anos de idade, na juventude mesmo ele trava conhecimento com Clemenza (Bruno Kirby), um vizinho metido com tramoias escusas e que se tornará seu homem de confiança quando ele mata o chefe do bairro e assume seu lugar, dando origem a toda a saga contada por Coppola e Puzo.


Um pouco mais longo do que seu antecessor, mas ainda assim dono de um invejável ritmo, "O poderoso chefão - Parte II", tornou-se a primeira sequência a ganhar o Oscar de Melhor Filme (feito repetido apenas 30 anos depois com "O Senhor dos anéis - O retorno do rei"). E motivos para tal homenagem não faltam; poucas vezes o cinema conseguiu ser tão fascinante quanto aqui, com um primoroso roteiro que privilegia os detalhes mais do que a grandiosidade que um projeto dessa envergadura poderia pressupor. Da maneira como Coppola conta sua história os olhares são mais pungentes do que os tiros, o subtexto é mais claro do que discursos e as relações familiares são muito mais importantes do que os negócios financeiros - mesmo que essa teoria seja de certa forma derrubada com as cenas finais, dignas da mais trágica peça vitoriana.

E é aqui, em "O poderoso chefão - Parte II", que Michael Corleone assume de vez sua persona shakespereana. Envolvido em uma paranoia cada vez mais avassaladora, o rapaz idealista que defendeu seu país na II Guerra começa seu caminho indelével para a solidão. É admirável a maneira com que o diretor consegue equilibrar - sem perder o interesse da audiência - sequências absurdamente violentas (visual e psicologicamente falando) e cenas de partir o coração, interpretadas por atores no auge de seu domínio artístico. Na pele de um juvenil Vito Corleone, Robert DeNiro já demonstra o imenso talento que viria a consagrá-lo nos anos subsequentes como o melhor ator de sua geração, e o Oscar de ator coadjuvante apenas coroou seu desempenho irretocável. John Cazale, como Fredo, tem algumas das melhores cenas de sua curta carreira, em uma memorável e comovente atuação. Diane Keaton também tem, aqui, as maiores oportunidades de sua personagem na série e os dois veteranos atores que conquistaram indicações ao Oscar de coadjuvante (Lee Strasberg e Michael V.Gazzo) fazem jus a sua fama de mestres: Strasberg é, inclusive, um dos fundadores do Actors Studio, que formou nomes como os próprios Brando, DeNiro e Pacino.

Mas é Al Pacino o corpo e a alma de "O poderoso chefão - Parte II". Em uma interpretação silenciosa, raivosa, paranoica e melancólica, o ator transmite a variada gama de nuances de sua complexa personagem sem jamais perder sua essência. Michael Corleone e Al Pacino formam o exemplo mais impressionante de casamento entre ator e personagem da história do cinema. Ainda bem que se pode assistir a isso sempre que der vontade.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...