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segunda-feira

JADE

 


JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Augie Hess. Música: James Horner. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Alex Tavoularis/Gary Fettis. Produção executiva: William J. MacDonald. Produção: Gary Adelson, Craig Baumgarten, Robert Evans, Christine Peters. Elenco: David Caruso, Linda Fiorentino, Chazz Palminteri, Richard Crenna, Michael Biehn, Donna Murphy, Angie Everhart. Estreia: 13/10/95

Vencedor do Oscar de melhor diretor por "Operação França" (1971) - que também levou a estatueta de melhor filme - e o nome por trás do estrondoso sucesso de "O exorcista" (1973), William Friedkin declarou, em uma entrevista, que dentre todos os seus trabalhos, o seu favorito era "Jade", lançado em 1995. Das duas uma: ou o veterano cineasta buscava reacender as polêmicas em torno do filme ou estava seriamente fora de seu juízo perfeito. Medíocre, quase amador e constrangedor em suas tentativas de soar sexy ou transgressor, a produção estrelada por David Caruso e Linda Fiorentino naufragou fragorosamente nas bilheterias - custou cerca de 50 milhões de dólares e rendeu menos de 10 - e praticamente enterrou a carreira de seu astro, vindo da bem-sucedida série de televisão "Nova York contra o crime" e que, com dois fracassos consecutivos (o outro foi "O beijo da morte", que estreou poucos meses antes), chegou a pensar em abandonar Hollywood. Parte de uma série de produções da primeira metade da década de 1990 que apostavam no erotismo para chamar a atenção das plateias, "Jade" demonstrou, sem espaço para dúvidas, o desgaste da fórmula - e o fato de ter um elenco sem carisma e uma história fraca ajudou (e muito) em sua pouca repercussão.

Apesar de o roteirista de "Jade" ser o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem" (1992) - o enorme sucesso popular que deu início ao boom do gênero - e de sua estrutura ter similaridades bastante óbvias, o filme de Friedkin sofre com a apatia de seu protagonista masculino (tanto o personagem quanto o ator, David Caruso), a sensualidade pouco atraente de sua estrela feminina (Linda Fiorentino sem repetir o êxito de sua performance avassaladora em "O poder da sedução") e a direção quase preguiçosa de William Friedkin - também responsável pelas constantes alterações no roteiro, provável motivo da fragilidade do produto final. Mesmo nas sequências de ação, o cineasta fica longe de demonstrar a segurança vista, por exemplo, em "Operação França" - as perseguições automobilísticas soam repetitivas e são incapazes de empolgar o público, além de parecerem completamente deslocadas da trama (confusa, desinteressante e, pior de tudo, totalmente artificial em suas tentativas de parecer sensual).

 

Assim como em "Instinto selvagem" e "Corpo em evidência" (1992) - estrelado por Madonna e igualmente amparado em sexo e violência -, "Jade" começa com um violento assassinato relacionado a aventuras eróticas. A vítima é um proeminente empresário, morto a golpes de machado. Durante a investigação, a equipe liderada pelo procurador assistente de São Francisco, David Corelli (David Caruso), encontra uma série de fotos do governador do estado, Lew Edwards (Richard Crenna), mantendo relações com uma prostituta chamada Patrice Jacinto (Angie Everhart). Interrogada pela polícia, Patrice revela que o morto mediava encontros de garotas de programa com homens ricos da região e que a mais desejada dentre todas era uma mulher com o nome de guerra de Jade - uma profissional conhecida por realizar todos os desejos de seus clientes, por mais bizarros que possam ser. Novas pistas, porém, levam a Katrina Gavin (Linda Fiorentino), respeitada psicóloga clínica casada com o advogado Matt Gavin (Chazz Palmiteri em papel oferecido a Kenneth Branagh) - Katrina é Jade, uma personalidade que lhe permite atingir o prazer sexual, e tal revelação leva o próprio Corelli a suspeitar de sua inocência, por mais que isso lhe incomode pessoalmente: ele não apenas é amigo íntimo de Gavin como também é completamente apaixonado pela principal suspeita do caso.

A trama pouco verossímil de "Jade" - assim como seu ritmo pouco convidativo e o desenvolvimento precário de seus personagens - colabora com a sensação de filme feito às pressas, sem cuidado com questões cruciais de roteiro e pós-produção. Além de esteticamente decepcionante - nem mesmo as cenas de sexo são minimamente excitantes - e transmitir uma aura de filme B, o trabalho de Friedkin sofre com um elenco fraquíssimo, incapaz das menores nuances de realismo. Caruso - inexpressivo como poucos -, ficou com o papel recusado por Warren Beatty (!!!) e Fiorentino, vinda dos elogios unânimes por "O poder da sedução" - onde pintava e bordava com sua sexualidade franca e amoral -, é subaproveitada, sem ter seu carisma explorado a contento. Escalada para um papel em que praticamente toda Hollywood foi considerada - das óbvias Sharon Stone, Madonna e Demi Moore às mais ousadas possibilidades Nicole Kidman, Jodie Foster e Julia Roberts -, ela acabou por sofrer as consequências do fracasso da produção: de estrela promissora, passou a figurar em uma lista de coadjuvantes pouco lembrados (apesar de ainda obter sucesso como o principal nome feminino de "Homens de preto", de 1997). Já o caso de David Caruso foi quase pior: depois de dois grandes fiascos seguidos, tomou parte de algumas produções obscuras e só retornou ao relativo prestígio em 2002, quando assumiu o papel principal de "CSI: Miami".

Esquecível e quase constrangedor, "Jade" é uma mancha na carreira de William Friedkin, apesar de sua opinião contrária. Talvez sirva para madrugadas insones - mas mesmo assim só se não houver mais nenhuma opção.

quinta-feira

MEU QUERIDO PRESIDENTE

 


MEU QUERIDO PRESIDENTE (The American president, 1995, Universal Pictures/Castle Rock Entertainment, 114min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lillu Kilvert/Karen O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Rob Reiner. Elenco: Michael Douglas, Annette Bening, Michael J. Fox, Martin Sheen, Richard Dreyfuss, Samantha Mathis, Anna Deavere Smith, Shawna Waldron. Estreia: 08/11/95

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original (Comédia ou Musical)

Às vezes tudo que um diretor de cinema precisa é de uma comédia romântica para demonstrar que também tem um lado menos denso - e de quebra deixar para trás um fiasco homérico. Depois que seu "O anjo da guarda" (1994) fracassou gigantescamente nas bilheterias e foi massacrado pela crítica, Rob Reiner percebeu que a forma de fazer as pazes com o público e com o sucesso seria retornar ao gênero que já havia lhe dado a oportunidade de criar um clássico contemporâneo. Sendo assim, seis anos depois que Meg Ryan entrou para a história fingindo um orgasmo em pleno restaurante lotado - em "Harry & Sally: feitos um para o outro" - uma nova história de amor inofensiva e elegante chegava às telas com sua assinatura, mas dessa vez, com um pequeno upgrade em relação a seus protagonistas: em vez de um casal normal no começo dos trinta anos e vivendo em uma fotogênica Nova York, os personagens principais de "Meu querido presidente" são uma lobista ambiental e um quarentão viúvo que é ninguém menos que o presidente dos EUA.

Andrew Sheperd (interpretado com charme por Michael Douglas) está chegando à segunda metade de seu mandato como presidente, com alto índice de aprovação do eleitorado e sem causar maiores problemas junto a seus correligionários do Partido Democrata. Eleito logo após a morte da esposa, vítima de câncer, Sheperd é visto como um pai dedicado (de uma filha pré-adolescente) e de uma integridade a toda prova - para desgosto de seu maior rival, o republicano Bob Rumson (Richard Dreyfuss), à espera de qualquer deslize para tentar suplantá-lo em uma nova e próxima eleição. A chance de ouro de Rumson chega quando entra em cena Sydney Ellen Wade (Annette Bening), uma competente e conhecida lobista lutando pela aprovação de uma lei a favor do meio-ambiente. Encantado pela inteligência e pela sensibilidade de Sydney, o presidente se deixa seduzir pela possibilidade de um novo romance - até que seus oponentes resolvem apelar para táticas pouco elogiáveis com o intuito de destruir suas chances de reeleição. Resta a ele decidir-se, então, pelo amor ou pelo poder.

Escrito por Aaron Sorkin - criador e roteirista da bem-sucedida série "The West Wing", que também trata dos bastidores da política norte-americana -, "Meu querido presidente" não tenta ser um retrato fiel dos meandros da Casa Branca e seus adendos. Pelo contrário, o filme de Reiner apresenta uma visão romântica e idealizada, quase a ponto de tornar-se maniqueísta: enquanto Sheperd é retratado como bom moço, honesto e incapaz de qualquer deslize deliberado, seu rival - vivido por Richard Dreyfuss nitidamente à vontade - é a epítome da política como algo venal, sujo e amoral. Entre os dois extremos, está a heroína de Annette Bening, mostrada como uma mulher independente, bem-sucedida e respeitada que, no entanto, não escapa de ser a típica protagonista de histórias de amor direcionadas aos fãs do gênero: mesmo tentando manter a pose de alguém que põe a carreira acima da vida pessoal, basta um encontro regado a belas roupas, boa bebida e uma rodada de dança para que suas prioridades entrem em xeque. São poucos os momentos em que Reiner (que conduz o filme com sobriedade mas nunca a ironia que se poderia esperar) deixa sobressair a argúcia característica da obra mais famosa de Sorkin - somente quando entram em cena os assessores de Sheperd, interpretados por Martin Sheen e Michael J. Fox, é que se pode reconhecer seu texto quase cínico (é de se imaginar como seria seu roteiro original, que contava com 385 páginas).

Indicado ao Oscar de melhor trilha sonora original (comédia ou musical), "Meu querido presidente" é um filme que, mesmo longe de ser brilhante, jamais subestima o espectador. Oferece um casal central extremamente simpático (Bening ficou com o papel para o qual foram consideradas Jessica Lange, Emma Thompson, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon), uma história sem sobressaltos ou ousadias temáticas e narrativas e uma atmosfera romântica e adulta rara em filmes comerciais de sua época - vale lembrar que foi o ano de blockbusters como "Toy story", "Pocahontas", Duro de matar 3" e "Ace Ventura 2", nenhum deles exatamente apropriado para quem desejava apenas sentir-se apaixonado ao entrar em uma sala de exibição. Delicado mas pouco memorável, ao menos serviu para deixar para trás o fracasso de "O anjo da guarda" - pelo menos até o filme seguinte de Reiner, "Fantasmas do passado", que também não foi exatamente um sucesso.

segunda-feira

O PODER DO AMOR

 


O PODER DO AMOR (Something to talk about, 1995, Warner Bros, 106min) Direção: Lasse Hallstrom. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Mia Goldman. Música: Graham Preskett, Hans Zimmer. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Roberta J. Holinko. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Anthea Sylbert, Paula Weinstein. Elenco: Julia Roberts, Dennis Quaid, Robert Duvall, Kyra Sedgwick, Gena Rowlands, Brett Cullen. Estreia: 20/7/95

Nem sempre o encontro de talento, prestígio e popularidade resulta em um grande sucesso. "O poder do amor" é um exemplo claro dessa afirmação: mesmo com a união do celebrado diretor Lasse Hallstrom (então já indicado ao Oscar por "Minha vida de cachorro", de 1987), da roteirista Callie Khouri (oscarizada por "Thelma & Louise", de 1991) e da atriz Julia Roberts, o filme ficou muito aquém do esperado nas bilheterias e tampouco entusiasmou a crítica. Vendida como uma comédia romântica quando na verdade é um drama familiar quase sonolento, e lançado em um período de crise na carreira de Roberts - que vinha acumulando fracassos comerciais que ameaçavam seu status de grande estrela - a produção da Warner decepcionou tanto o estúdio (que esperava um estouro financeiro) quanto seus fãs, ansiosos por rever seu belo sorriso e seu carisma milionário, o que só voltaria a acontecer com "O casamento do meu melhor amigo", lançado dois anos mais tarde.

Além da direção burocrática de Hallstrom, "O poder do amor" sofre, basicamente, pela absoluta falta de humor de seu roteiro - uma surpresa quando se trata de Khouri - e por personagens que falham em despertar a simpatia do espectador. Até mesmo a protagonista, uma mulher traída e tentando refazer a vida, sofre com um desenvolvimento pouco interessante. Grace Bichon (interpretada no piloto automático por Julia Roberts) administra o haras de seu pai, Wyly King (Robert Duvall), e vive um casamento aparentemente perfeito com o sedutor Eddie (Dennis Quaid). Sua frágil felicidade sofre um baque, no entanto, quando ela descobre que seu marido tem um romance com uma colega de trabalho. Humilhada e ressentida, Grace vai morar com a irmã caçula, Emma Rae (Kyra Sedgwick) e, se recusando a qualquer contato com o ex-marido, passa a questionar o sistema de quase submissão a que as mulheres de sua família se sujeitam em relação aos homens que a cercam. Tal comportamento chega até sua mãe, Georgia (Gena Rowlands), que até então jamais havia percebido tal situação em seu relacionamento.

 

O roteiro de Callie Khouri, como não poderia ser diferente, oferece às personagens femininas um destaque maior do que aos homens da história. Isso não significa, no entanto, que elas sejam capazes de conquistar a plateia. Com diálogos frequentemente enfadonhos e que soam artificiais até mesmo recitados por atrizes do porte de Roberts, Rowlands e Sedgwick, a trama anda em círculos, dá espaço para histórias paralelas pouco atraentes - que envolvem o haras da família e um novo relacionamento pouco crível à protagonista - e sofre com uma indesculpável falta de charme. Nem mesmo os belos cenários, os imponentes cavalos e o elenco carismático são suficientes para disfarçar o ritmo claudicante imposto pela direção - uma surpresa, uma vez que o sueco Hallstrom tem enorme talento para sublinhar as características mais emocionais de seus filmes, como mostrou em "Regras da vida" (1999), que lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar. E se não bastasse o fato do desperdício de suas atrizes, o filme oferece oportunidades ainda menores a seus atores, relegados a segundo plano e com personagens quase patéticos - se tal opção é proposital para enfatizar a força das mulheres há formas menos simplórias de atingir seu objetivo do que fazer dos maridos da família King/Bichon dois babacas machistas e unidimensionais.

É uma pena que "O poder do amor" fique tão aquém das possibilidades de sua equipe de talentos. Seu marketing desastroso - certamente o público esperava uma comédia romântica leve e agradável e encontrou um pretensioso drama com ambições de emular o cinema europeu - foi apenas um dos culpados por fazer dele um dos trabalhos menos marcantes de Julia Roberts. Sem nenhuma cena marcante, uma trama pouco inventiva e uma narrativa cujo ritmo jamais permite o envolvimento do espectador, o filme só não é um desastre completo porque, apesar de tudo, seu elenco esforçado faz valer seus longos 106 minutos de duração - mesmo que a história seja esquecida pouco tempo depois do final da sessão.

domingo

O OUTRO LADO DA NOBREZA


O OUTRO LADO DA NOBREZA (Restoration, 1995, Miramax Films, 117min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Rupert Walters, romance de Rose Tremain. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti. Produção executiva: Kip Hagopian. Produção: Sarah Black, Cary Brokaw, Andy Paterson. Elenco: Robert Downey Jr., Sam Neill, Meg Ryan, David Thewlis, Ian McKellen, Polly Walker, Hugh Grant. Estreia: 29/12/95

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as performances cinematográficas de Robert Downey Jr. - de Charles Chaplin ao Homem de Ferro, passando por comédias românticas, filmes de ação e a sensacional performance cômica indicada ao Oscar de coadjuvante em "Trovão tropical" (2008) - nenhuma é mais exuberante que Robert Merivel, o protagonista de "O outro lado da nobreza". Lançada em 1995, um dos anos mais produtivos da carreira do ator, e praticamente esquecido entre sua filmografia, a adaptação do romance de Rose Tremain chegou a ganhar dois Oscar (figurino e direção de arte) e contava com um elenco de nomes conhecidos do grande público - Hugh Grant, Meg Ryan, Sam Neill. Porém, com uma direção burocrática de Michael Hoffman e um roteiro que não consegue escapar da superficialidade, passou quase em branco pelo público e tampouco entusiasmou a crítica. E em comparação com seus trabalhos mais aplaudidos, o desempenho de Downey Jr. parece um tanto perdido, tentando encontrar o foco em um filme que tenta abraçar vários temas sem aprofundar-se a contento em nenhum deles.

Michael Hoffman não é um cineasta dos mais geniais, sempre apresentando produções no máximo simpáticas - como se pode afirmar depois de filmes como "Segredos de uma novela" (1991), "Um dia especial" (1996) e sua adaptação de "Sonho de uma noite de verão" (1999). Em "O outro lado da nobreza" não é diferente. Apesar do capricho na ambientação e da nítida ambição de criar uma obra relevante, Hoffman não consegue imprimir o tom de seriedade necessário para dar à trama, que retrata um dos períodos mais nefastos da História como forma de purgação e amadurecimento para o protagonista. O arco dramático soa bastante artificial e apressado, a despeito de atravessar anos e precipitar acontecimentos catalisadores que, da forma como apresentados, jamais transmitem o grau de importância que terão no desfecho da história. O roteiro de Rupert Walters tenta, em pouco menos de duas horas, estabelecer relações cruciais - mas esbarra em uma pressa que prejudica o envolvimento do espectador. Some-se a isso a personalidade hesitante de Robert Merivel - um bon vivant irresponsável que parece nunca estar completamente dedicado aos acontecimentos a seu redor - e o filme falha em sua principal pretensão: emocionar. 

 

A trama começa quando, em 1663, o estudante de Medicina Robert Merivel é chamado à corte do Rei Charles II (Sam Neill) para tratar de um de seus cachorrinhos preferidos. O jovem aspirante a médico salva a vida do animalzinho e cai nas graças do monarca, tornando-se parte de sua corte e deslumbrando-se com as vantagens de sua nova posição. As coisas começam a mudar quando o rei ordena que Merivel se case com a sensual Celia (Polly Walker), sua amante, para agradar outra de suas conquistas amorosas. As advertências de Charles para que o médico não se apaixone por sua esposa de mentirinha caem no vácuo, e, descoberto em seus sentimentos, Merivel se vê diante da vida que abandonara e, sem saber saber que rumo tomar, ele retoma a amizade com Pearce (David Thewliss) - um colega de faculdade que sempre pautou sua vida pela ética profissional. Nesse momento, a Peste Negra começa a espalhar-se pela Europa - e Merivel volta a ter seu caminho cruzado com o Rei e Celia depois de ter experimentado uma nova paixão com Katharine (Meg Ryan), uma jovem tratada como mentalmente insana e que lhe fez redescobrir as coisas boas da vida.

A trajetória de Merivel é plenamente compreensível, e seu amadurecimento é, apesar dos problemas de roteiro e direção, soam verossímeis. O problema é que "O outro lado da nobreza" parece tão deslumbrado por sua impecável reconstituição de época que esquece de dar atenção a elementos cruciais em uma narrativa. Atores como Hugh Grant e Ian McKellen são deixados de lado com personagens mal desenvolvidos, e a química inexistente entre Robert Downey Jr. e Meg Ryan também não ajuda a deixar as coisas menos complicadas. O filme de Michael Hoffman não é um filme ruim, mas tampouco é memorável a ponto de fazer diferença nas carreiras dos envolvidos. Pode agradar aos menos exigentes - mas dificilmente se tornará um favorito.

quinta-feira

O ÓDIO


O ÓDIO (La haine, 1995, Canal +/Cofinergie 6/Egg Pictures, 98min) Direção e roteiro: Mathieu Kassovitz. Fotografia: Pierre Aim. Montagem: Mathieu Kassovitz, Scott Stevenson. Música: Assassin. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Giuseppe Ponturo. Produção: Cristophe Rossignon. Elenco: Vincent Cassel, Hubert Koundé, Said Taghmaoui, Abdel Ahmed Gili. Estreia: 27/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Prêmio de Melhor Diretor (Mathieu Kassovitz) no Festival de Cannes

Nas ruas, a violência cometida pelos policiais que abusam de sua autoridade para massacrar minorias. Em conjuntos habitacionais, o consumo de drogas e a tensão constante a respeito de possíveis e constantes embates entre jovens e policiais. No dia-a-dia, a falta de perspectivas e a tentação de cair na criminalidade. Poderia ser o cenário de uma produção brasileira, mas "O ódio" surgiu da França, da observação dura e sem floreios da realidade social de um país cuja imagem romântica e civilizada foi forjada no inconsciente de plateias do mundo inteiro através de histórias de amor bucólicas e sofisticadas. O choque de perceber que por trás de pontos turísticos consagrados há um universo de conflitos dolorosos e sangrentos é o primeiro golpe desferido pelo filme de Mathieu Kassovitz, sucesso de crítica e premiado no Festival de Cannes 1995 com a Palma de melhor diretor. Os golpes seguintes se sucedem graças ao roteiro seco, à edição ágil e a um elenco irretocável - até o tiro de misericórdia, capaz de deixar no espectador a mesma sensação de angústia de filmes como "A outra história americana" (1998) e "Meninos não choram" (1999).

Conhecido pelo público por seu trabalho como a personalíssima alma gêmea da protagonista da comédia romântica "O fabuloso destino de Amélie Poulain" (2001) - um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema francês -, o ator Mathieu Kassovitz concebeu seu filme como um pesadelo realista dos mais cruéis, sem pausa para respiros ou alívios imediatos. Inspirado na história de dois jovens afro-franceses que morreram em custódia da polícia, o ator/roteirista/cineasta não precisou ir buscar muito longe os protagonistas de sua trama: mesmo não tendo sido criado em projetos habitacionais que servem como cenário da produção, Kassovitz sentiu-se abismado com a simples possibilidade de que tal situação pudesse ocorrer em uma sociedade dita moderna. De posse da informação de que, desde 1981 mais de 300 pessoas morreram enquanto estavam nas mãos da polícia, o jovem diretor (28 anos de idade à época da estreia do filme) construiu seu enredo como um castelo de cartas prestes a desabar - a história de um grupo cuja estabilidade emocional pode ser derrubada com um mero peteleco. 

 

O roteiro acompanha 24 horas na vida de três jovens amigos que vivem em um conjunto habitacional nos arredores de Paris. Vinz (Vicent Cassel extremamente convincente como adolescente mesmo aos 28 anos) é judeu, Said (Said Taghmaoui) é árabe, e Hubert (Hubert Koundé) é um lutador amador de boxe negro, e todos eles estão acostumados a conviver com as mais variadas manifestações de preconceito racial, étnico e social. Tal proximidade com o perigo, porém, não os deixa indiferentes, e, no dia seguinte a uma série de distúrbios em sua comunidade, todos estão com os nervos à flor da pele. Enquanto um jovem agoniza no hospital depois de ter sido espancado pela polícia, Vinz encontra a arma perdida por um dos agentes da lei - e promete equilibrar a balança caso a vítima se torne fatal. No decorrer do dia, os três amigos são expostos a inúmeros momentos capazes de detonar a bomba de violência - mas até quando conseguirão evitar um confronto definitivo?

É impressionante como Kassovitz faz de "O ódio" um dos mais contundentes e importantes filmes europeus da década de 1990. Fortemente influenciada pelo cinema de Martin Scorsese - citado claramente em uma cena onde Vincent Cassel imita Robert de Niro em "Taxi driver" (1976) - e Spike Lee - mais precisamente o explosivo "Faça a coisa certa" (1989) -, a narrativa do filme de Kassovitz é valorizada pela fotografia em preto-e-branco, pela montagem de tom urgente e pela sensação de perigo que ronda cada sequência. A crítica bastante radical às autoridades chegou a incomodar a força policial do país, que chegou ao extremo de literalmente virar as costas ao elenco do filme na ocasião de sua chegada ao tapete vermelho do Festival de Cannes. Ainda impactante mesmo depois de tanto tempo de sua estreia, "O ódio" é uma prova cabal de que mesmo as culturas mais civilizadas podem esconder mazelas pouco admiráveis em seu âmago. É uma produção admirável e forte, com uma sequência final capaz de permanecer na memória da audiência por um longo período de tempo - como apenas os melhores filmes conseguem fazer.

sexta-feira

ECLIPSE DE UMA PAIXÃO

ECLIPSE DE UMA PAIXÃO (Total eclipse, 1995, FIT Productions/Portman Productions, 111min) Direção: Agnieszka Holland. Roteiro: Christopher Hampton. Fotografia: Yorgos Arvanitis. Montagem: Isabel Lorente. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Staffan Ahrenberg, Jean-Yves Asselin, Pascale Faubert. Produção: Jean-Pierre Ramsay Levi. Elenco: Leonardo DiCaprio, David Thewlis, Romane Bohringer, Dominique Blanc. Estreia: 03/11/95

No final de 1995, o muito jovem Leonardo DiCaprio já havia sido indicado ao Oscar de coadjuvante por "Gilbert Grape - aprendiz de sonhador" (1993) e caminhava para tornar-se o galã da vez do público adolescente, graças ao sucesso de "Romeu + Julieta" (1996) e principalmente "Titanic" (1997). Antes, porém, de ser rotulado como o melhor ator de sua geração (a despeito da febre que se tornou sua presença), ele parecia já saber que uma das maiores qualidades de um artista é a coragem para embarcar em projetos considerados "perigosos". Sem desconfiar que sua imagem estava em vias de decorar as paredes juvenis do mundo inteiro, ele apostou em uma produção polêmica que dificilmente seria a escolha de atores menos autoconfiantes. Em "Eclipse de uma paixão", dirigido pela polonesa Agniesza Holland, ele viveu um dos mais viscerais poetas da história, o francês Arthur Rimbaud. Assim como ídolos do rock, Rimbaud tinha um comportamento selvagem e iconoclasta, misturava álcool e drogas enquanto produzia sua obra e, talvez o fator mais polêmico para uma plateia conservadora, mergulhava em um romance homossexual obsessivo com Paul Verlaine, outro poeta célebre, mais velho, casado e esperando o primeiro filho.

O papel de Rimbaud - complexo e pouco simpático - teria sido de River Phoenix, caso o jovem astro em ascensão não tivesse morrido precocemente em outubro de 1993. Assim como Phoenix, DiCaprio também já se caracterizava por buscar desafios e desafiar a trajetória que se esperava de um ator com pretensões de estrelato. Enquanto os atores em começo de carreira fugiam como o diabo da cruz de papéis de gays, DiCaprio enfrentou o desafio com um personagem que, não bastasse ser homossexual - um perigo para a carreira de qualquer um -, ainda era egoísta, pouco afeito a regras de convivência social e rebelde como qualquer astro de rock seria mais de um século depois. Fugindo do arquetípico gay de Hollywood - doce, afável e frequentemente servindo de alívio cômico -, Rimbaud já seria um desafio suficiente para um ator experiente: nas mãos de DiCaprio, já um bom ator mas ainda precisando ser lapidado pelo tempo, o personagem soa muitas vezes desagradável e arrogante. Ou seja, tinha todas as características que atormentavam qualquer ator que prezasse por seus cachês milionários. Corajoso, DiCaprio já fazia antever o excelente ator que se tornaria com a idade, mas, vez ou outra, apresenta uma atuação um tanto exagerada. Culpa dele, do personagem excêntrico ou da direção?


Agnieszka Holland entende de polêmicas. Em 1990 ela lançou o controverso "Filhos da guerra" e foi rechaçada pelo governo e pela mídia alemãs, que não gostaram de ver na tela uma história que o país preferiria esquecer (o filme falava sobre um jovem germânico se fazendo passar por judeu na II Guerra Mundial). Quem assistiu ao filme - e foram muitos espectadores, uma vez que ele tornou-se um grande sucesso de bilheteria nos EUA e foi premiado com o Golden Globe de melhor produção estrangeira - pode perceber a sensibilidade da cineasta em tocar em assuntos delicados. Algo em "Eclipse de uma paixão", porém, não deu assim tão certo. Mesmo com um roteirista competente - Christopher Hampton, oscarizado por "Ligações perigosas", de 1988 - e atores talentosos, seu filme falha em conquistar o espectador. Com protagonistas francamente desagradáveis (Rimbaud é retratado como um moleque irascível e Verlaine como um homem capaz de espancar a esposa grávida) e pouca atenção dada a seus poemas, o filme parece estar mais interessado no romance gay do que no talento dos dois poetas. O roteiro de Hampton, inclusive, aposta mais na obsessão entre os dois do que em qualquer outro aspecto possível. Cabe então a DiCaprio e Thewlis (substituindo John Malkovich, o primeiro a ser cogitado para o papel) minimizar os estragos, mas nem mesmo eles conseguem deixar seus personagens menos desprezíveis.

"Eclipse de uma paixão" se passa na Paris do século XIX: o renomado poeta Paul Verlaine convida o talentoso e iniciante Arthur Rimbaud para passar uma temporada em sua casa, junto a ele e sua esposa, Mathildte (Romane Bohring), grávida do primeiro filho do casal. Encantado com o trabalho do jovem escritor, Verlaine logo se vê atraído por um novo estilo de vida, boêmia e irresponsável. Ao lado de Rimbaud, ele passa a frequentar a noite parisiense e mergulha no alcoolismo, para angústia de Mathiltde. As coisas ficam ainda piores quando mentor e aprendiz transformam a amizade em romance: obcecado pela jovialidade e coragem de Rimbaud, Verlaine arrisca o casamento, a carreira e o renome para assumir uma história não apenas de amor, mas também de dor e violência. Ao enfatizar os atos inconsequentes de seus personagens, o roteiro simplesmente deixa de lado o que talvez seja o mais importante: cadê a poesia de Rimbaud e Verlaine? Por mais que seja atraente viajar pelos bastidores da criação literária dos dois protagonistas, há um vácuo imperdoável quando o espectador acaba a sessão sabendo mais sobre suas vidas pessoais do que sobre sua importância para a poesia francesa e mundial. "Eclipse de uma paixão" é, portanto, bem mais sensacionalista do que informativo. Era de se esperar mais de todo o conjunto!

quinta-feira

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (The Basketball Diaries, 1995, New Line Cinema, 102min) Direção: Scott Kalvert. Roteiro: Bryan Goluboff, livro de Jim Carroll. Fotografia: David Phillips. Montagem: Dana Congdon. Música: Graeme Revell. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Christopher Nowack/Harriet Zucker. Produção executiva: Chris Blackwell, Dan Genetti. Produção: Liz Heller, John Bard Manulis. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Wahlberg, Lorraine Bracco, Bruno Kirby, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis. Estreia: 27/01/95 (Festival de Sundance)
 
Quando "Diário de um adolescente" estreou, no Festival de Sundance de 1995, Leonardo DiCaprio já tinha no currículo uma indicação ao Oscar de coadjuvante - pelo filme "Gilbert Grape: aprendiz de sonhador" (1993) - mas ainda não era o ídolo juvenil no qual se tornou após o sucesso de "Romeu + Julieta" (1996) e "Titanic" (1997). Isso explica porque o filme de Scott Kalvert não arrebentou nas bilheterias e chamou muito mais a atenção da crítica do que do público. Baseada em um cultuado livro de Jim Carroll - adorado pelo ator River Phoenix, por exemplo, que, segundo boatos, era um nome considerado para o papel central -, a produção serviu principalmente para confirmar que DiCaprio já era, ainda bastante jovem, um ator muito acima da média. Mesmo que nem sempre ele consiga escapar do exagero em alguns momentos de sua atuação, na pele do rebelde e desajustado Jim ele se sobressai a ponto de mal dar espaço aos companheiros de cena - dentre os quais estão Juliette Lewis (em uma participação especial como uma prostituta juvenil) e Mark Wahlberg (começando na carreira de ator depois da consagração como o rapper Marky Mark e das campanhas de cuecas Calvin Klein).

Publicado em 1978 e imediatamente alçado a cult, o livro de memórias de Jim Carroll - que faz uma participação especial no filme, em uma cena com DiCaprio - virou também um símbolo da contracultura, com sua descrição corajosa e sem romantismo de uma adolescência regada a drogas, bebida, prostituição e contravenções pesadas. Sua adaptação tem o mérito de tentar manter-se fiel ao estilo iconoclasta de Carroll, mas a inexperiência do cineasta em longas-metragens faz com que sua estrutura quase episódica afaste o público de um envolvimento maior com seu protagonista, um jovem francamente pouco simpático que apenas o carisma de Leonardo DiCaprio consegue deixar menos desagradável. Jim é um rapaz que vive sozinho com a mãe (Lorraine Bracco), em um bairro barra pesada de Nova York. Apesar das dificuldades financeiras, estuda em um bom colégio, faz parte do time de basquete e leva uma vida cujos maiores sobressaltos dizem respeito a suas aventuras com um grupo de amigos que, assim como ele, passam o dia provocando autoridades (pais, professores, treinador) em busca de adrenalina. Essa busca acaba levando Jim aos braços da heroína e à decadência física e moral - tudo devidamente registrado em seus escritos pessoais, que descrevem todas as sensações de sua viagem ao inferno.





Vindo do universo dos videoclipes (vários de Marky Mark, inclusive, além de trabalhos com Cyndi Lauper, New Kids on the Block e Rod Stewart), o diretor Scott Kalvert é, como se poderia esperar, mais afeito às imagens do que às palavras, o que lhe permite criar algumas sequências bastante criativas visualmente - especialmente nos delírios do protagonista, que vão desde chacinas no ambiente escolar até alucinações causadas pela abstinência. DiCaprio se esforça em transmitir todas as nuances de seu complexo personagem, mas nem sempre a direção de Kalvert consegue atingir todas as possibilidades dramáticas do texto de Carroll. Explorando ao máximo a fotografia crua e sem glamour de David Phillips, o cineasta despe Nova York de qualquer beleza ou charme, desviando sua câmera para becos sujos, ruas mal iluminadas e paisagens pouco convidativas. Fugindo ao máximo de qualquer traço de sentimentalismo, ele só se curva à emoção nas cenas de Jim com seu melhor amigo, Bobby (Michael Imperioli), que está morrendo de leucemia no hospital: antes de seu casamento com as drogas pesadas, são os únicos momentos em que o protagonista dá mostras de ser menos do que um adolescente irascível e desagradável - uma característica que dificulta a empatia da plateia e quase prejudica o filme como um todo.

Realizado com coragem e verdade, "Diário de um adolescente" peca, apesar disso, pelo fato de não apresentar nada de novo em relação a seu tema principal. A trajetória de Jim rumo ao fundo do poço pode ter sido lançada antes dos junkies niilistas de "Trainspotting: sem limites" (1996), mas está longe de ser novidade para o público que testemunhou o pesadelo de Christiane F. no filme alemão de 1981 - este sim um petardo chocante e angustiante em sua realidade nua. Com uma direção mais firme - que explorasse o talento de DiCaprio e controlasse seus excessos de iniciante - e uma produção que soasse menos amadora, o filme seria inesquecível. Como está, é um bom cartão de visitas para o jovem ator e uma adaptação fiel de um clássico de seu tempo. Nada mal, mas aquém do que poderia ser.

domingo

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO (Apollo 13, 1995, Universal Pictures, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: William Broyles Jr., Al Reinert, livro de Jim Lovell, Jeffrey Kluger. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Merideth Boswell. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Ed Harris, Gary Sinise, Kathleen Quinlan, Xander Berkeley, Loren Dean, Todd Louiso. Estreia: 22/6/95

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Kathleen Quinlan), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som 

Em abril de 1970, o mundo parou graças à viagem de uma missão norte-americana à Lua. Não porque estivesse curioso sobre a viagem em si - Neil Armstrong já havia dado seus passos por lá no ano anterior e o interesse da mídia pela nova aventura da NASA não era dos maiores -, mas justamente porque o que era esperado ser um sucesso previsível acabou se tornando um pesadelo para os astronautas, suas famílias e os engenheiros responsáveis pelos cálculos que levaram à crise. A inesperada explosão em um dos tanques de oxigênio, ocorrida antes que a tripulação chegasse a seu destino, obrigou a um retorno imediato, com o risco iminente de um desfecho trágico - os três pilotos poderiam morrer de frio, sufocados pela falta de ar, envenenados pelo gás carbônico liberado por eles mesmos ou até incinerados ao entrar na atmosfera terrestre. De repente, o que era tratado com desdém por parte da população transformou-se em interesse internacional - e um desastre em potencial virou uma história de superação mais poderosa que qualquer roteiro que pudesse ser criado por Hollywood. E, levando-se em conta a avidez da indústria em capitalizar em cima de narrativas tão impactantes, até que demorou para que a trajetória da Apollo 13 chegasse aos cinemas: somente em 1995, duas décadas e meia depois dos fatos é que finalmente o astronauta Jim Lovell se veria retratado nas telas - mas, como forma de compensação, se veria interpretado por um dos maiores astros de sua geração: Tom Hanks.

Quando "Apollo 13: do desastre ao triunfo" chegou aos cinemas, sob a direção de Ron Howard, em pleno verão norte-americano, Hanks ainda estava saboreando seu segundo Oscar consecutivo de melhor ator, pelo megasucesso "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis. Não há dúvidas de que sua presença ajudou o filme de Howard a tornar-se um enorme êxito comercial, com mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente no mercado doméstico (e mais de 350 milhões ao redor do mundo), mas também é certo de que o marketing da Universal Pictures, o talento do diretor em contar histórias que agradam a todos os tipos de público e o fabuloso empurrão da Academia, com nove indicações à estatueta dourada (incluindo melhor filme mas não diretor e ator, para surpresa de muitos). Tudo bem que, no final das contas, Mel Gibson e seu "Coração valente" acabaram se dando melhor na cerimônia do Oscar - deixando apenas os prêmios de edição e som para o filme de Howard -, mas, a esse ponto, a popularidade de "Apollo 13" já estava nas alturas e não precisava de qualquer espécie de selo de aprovação. Mesmo assim, o Screen Actors Guild fez sua parte, lhe conferindo duas láureas: melhor elenco e melhor ator coadjuvante (Ed Harris, também indicado ao Oscar e ao Golden Globe por seu desempenho como Gene Kranz, líder da missão em Houston).


Amparado no maior realismo possível de obter com um orçamento generoso, Ron Howard e sua equipe fizeram de "Apollo 13" um filme tecnicamente impecável - para as rápidas cenas em que a falta de gravidade é mostrada dentro da cápsula espacial, por exemplo, foi utilizado um avião com que a própria NASA trabalha para o treinamento de seus astronautas, que conseguem flutuar por cerca de 23 segundos a cada mergulho no ar. Os efeitos visuais (que perderam o Oscar para "Babe: o porquinho atrapalhado") são sutis, mas tão perfeitos que o próprio Jim Lovell, ao assistir ao filme, julgou que algumas imagens fossem cedidas pela agência norte-americana. Sublinhadas pela trilha sonora épica de James Horner, tais sequências enchem os olhos da plateia e equilibram a tensão e a angústia de seus personagens - nenhum deles especialmente dotado de uma profundidade dramática além da necessária para envolver o espectador. A opção do roteiro em concentrar praticamente toda a ação durante o período em que os protagonistas estavam completamente focados em sua missão é válida - problemas familiares e/ou outros conflitos são praticamente ignorados pelo roteiro, baseado no livro de Lovell e Jeffrey Kluver - e impede o filme de estender-se em excesso ou abusar de uma prolixidade que lhe seria prejudicial em termos de adrenalina. Tal medida não atrapalha, por exemplo, Kathleen Quinlan, que concorreu à estatueta de coadjuvante por sua atuação como Marilyn, a esposa de Lovell, dividida entre o desespero de ver o marido correndo o risco de não voltar vivo para casa e a resiliência necessária para não desabar diante das câmeras de televisão - repentinamente dispostas a dar espaço para a viagem que a princípio não despertara seu interesse.

Mas "Apollo 13" não é o show de um homem só - ou de uma técnica narrativa milimetricamente criada para deixar a plateia com os nervos à flor da pele até os últimos minutos. Como ex-ator mirim, Ron Howard sabe muito bem como explorar o melhor de cada um de seu elenco, repleto de rostos conhecidos do grande público. Tom Hanks lidera o elenco com o carisma habitual, mas divide a maior parte de seu tempo em cena com Bill Paxton e Kevin Bacon, igualmente competentes em transmitir toda a vasta gama de sensações experimentada por seus personagens. Em Terra, além de Kathleen Quinlan e Ed Harris, quem tem suprema importância em ajudar os desventurados protagonistas é Gary Sinise, que, na pele de Ken Mattingly - um astronauta que ficou de fora da missão na última hora -, reprisa sua parceria com Hanks, iniciada em "Forrest Gump". Equilibrando sua linha narrativa entre a técnica e a emoção, Howard criou um filme perfeito para todos os públicos - e já declarou de que se trata do filme preferido dentre todos os que já realizou. Se ufanismo pode incomodar um pouco, mas é inegável que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" é, realmente, bem mais um triunfo do que um desastre.

SURPRESAS DO CORAÇÃO

SURPRESAS DO CORAÇÃO (French kiss, 1995, Polygram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 111min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Adam Brooks. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Joe Hutshing. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Kara Lindstrom. Produção executiva: Charles Okun. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kathryn F. Galan, Meg Ryan. Elenco: Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton, Jean Reno, François Cluzet. Estreia: 05/5/95

Desde sua estreia como cineasta em 1981, com o neonoir "Corpos ardentes", o roteirista Lawrence Kasdan sempre demonstrou uma versatilidade ímpar, percorrendo praticamente todos os estilos com inteligência e talento. Foi assim com os dramas "O reencontro" (83) e "Grand Canyon: ansiedade de uma geração" (91), a comédia de humor negro "Te amarei até te matar" (90), o romance de "O turista acidental" (88) e os westerns "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). Não chega a ser uma surpresa, portanto, que seu nome esteja por trás de "Surpresas do coração", sua primeira (e até agora única) investida na comédia romântica. Tampouco é surpreendente que, como aval para sua estreia, ele tenha contado com a providencial ajuda daquela que, na metade dos anos 90, era o principal nome de Hollywood no gênero: Meg Ryan. Uma das produtoras do filme, Ryan é a cara do projeto, uma produção agradável, divertida e inofensiva que, se não chega a ser memorável, ao menos é um passatempo bastante sofisticado, emoldurado por belas paisagens francesas e por um roteiro esperto que brinca com as diferenças culturais entre EUA e França - além de contar com um belo elenco e a fotografia inspirada de Owen Roizman em seu último trabalho.

Como frequentemente acontece no mundo do cinema, "Surpresas do coração" caiu nas mãos de Kasdan na hora certa: esgotado depois das problemáticas filmagens de "Wyatt Earp" - realizado com grande ambição mas recebido com frieza pelo público e pela crítica - e querendo um período de férias, ele encontrou, no roteiro de Adam Brooks, a desculpa perfeita para passar um tempo na França ao mesmo tempo em que trabalhava em um projeto menos grandioso. Sem poder contar com a presença de Gérard Depardieu (para quem o protagonista masculino foi escrito), o cineasta resolveu a questão da melhor forma possível e chamou para o elenco um amigo pessoal, parceiro habitual e, ainda mais importante, um ator sensacional. Em seu quinto trabalho com Kasdan, o premiado e sempre imprevisível Kevin Kline acrescenta um tempero a mais no filme, em uma personificação impagável de anti-galã - com direito a visual desleixado, mau-humor constante... e um charme incontestável.


A trama começa quando Kate (Meg Ryan), uma americana em vias de casar-se com o noivo, Charlie (Timothy Hutton), e assumir cidadania canadense, descobre, da pior maneira possível, que ele desistiu do compromisso depois de apaixonar-se por uma jovem francesa em sua viagem a Paris. Desesperada para reconquistá-lo, ela supera sua fobia de voar e resolve viajar ao encontro do novo casal. No avião, ela senta ao lado de Luc Teyssier (Kevin Kline), um típico francês falastrão e estranhamente interessado em suas histórias. Na verdade, o que Kate não sabe e só irá descobrir muito depois - quando já for tarde para tomar qualquer providência a respeito - é que Luc é um conhecidíssimo ladrão de joias que escondeu um valioso colar em sua mochila, juntamente com uma muda com a qual planeja começar um vinhedo em sua terra natal. Roubada por um antigo comparsa de Luc e sem possibilidade de voltar para casa, só resta à Kate reencontrar Charlie - e para isso, ela conta com a ajuda inesperada do adorável criminoso.

"Surpresas do coração" é o que se pode esperar de um filme estrelado por Meg Ryan. Assim como em todos os seus trabalhos anteriores do estilo, a atriz é simpática, engraçada e desajeitada na medida certa para a identificação da plateia feminina e interesse da masculina. Tal previsibilidade é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o calcanhar de Aquiles do filme: enquanto oferece ao público o que ele deseja quando se trata de uma comédia romântica (belas paisagens, personagens adoráveis, bons momentos de humor, uma trilha sonora inspirada), o trabalho de Kasdan não surpreende em momento algum, seguindo com lealdade canina todos os passos de uma produção do gênero. É lógico que o desempenho de Kevin Kline acrescenta prestígio ao filme (assim como o elenco francês, que inclui Jean Reno e François Cluzet, além do vencedor do Oscar Timothy Hutton), mas desta vez Kasdan não imprime uma marca diferencial, uma releitura que dê sua personalidade ao filme. É uma comédia romântica simples e eficiente, mas sem a intensidade de seus trabalhos anteriores - o que talvez seja algo proposital, afinal ele queria férias, não é verdade? No final das contas, para os fãs de Ryan, Kline e comédias românticas em geral, é um prato saboroso. Para o resto do público, é um passatempo dos mais divertidos - o que já é muito mais do que se pode dizer de boa parte de seus congêneres.

quarta-feira

SEXO, ROCK E CONFUSÃO

SEXO, ROCK E CONFUSÃO (Empire Records, 1995, Warner Bros, 90min) Direção: Allan Moyle. Roteiro: Carol Heikkinen. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Michael Chandler. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção: Tony Ludwig, Arnon Milchan, Michael Nathanson, Alan Riche. Elenco: Anthony LaPaglia, Maxwell Caulfield, Debi Mazar, Rory Cochrane, Johnny Whitworth, Robin Tunney, Liv Tyler, Renée Zellweger, Ethan Embry, Brendan Sexton III. Estreia: 22/9/95

Nem só de escritores consagrados e adaptações literárias vive o cinema americano. Vez ou outra, uma voz nova e solitária surge com alguma ideia interessante o suficiente para despertar a cobiça de algum estúdio, sedento por alguns milhares de dólares a mais no cofre (ou um produto com potencial a cult). Foi assim, por exemplo, com Carol Heikkinen, ex-funcionária da Tower Records de Phoenix, Arizona, e autora do roteiro da comédia "Sexo, rock e confusão", lançada pela Warner em 1995 com um elenco jovem que incluía as então iniciantes Renée Zellweger e Liv Tyler. Tudo bem que Heikkinen já havia assinado o script de "Um sonho, dois amores" (93), dirigido por Peter Boganovich e estrelado por River Phoenix (um fracasso de bilheteria e crítica), mas foi sua coletânea de memórias afetivas de seu tempo em uma das lojas de discos mais famosas dos EUA que a colocou no radar de Hollywood: com uma mistura quase anárquica de música, humor adolescente e despretensão, sua trama (simples e superficial) chegou às telas sob a direção de Allan Moyle - que já tinha no currículo outra comédia musical jovem, "Um som diferente" (90), com Christian Slater - e, se não arrebentou nas bilheterias, ao menos consegue divertir seu público-alvo mesmo passando longe de apresentar alguma novidade.

A estrutura central de "Sexo, rock e confusão" lembra a do clássico juvenil "Clube dos cinco" (85), de John Hughes, mas sem a profundidade emocional deste. Sua ambientação pode lembrar aos cinéfilos o genial "Alta fidelidade" (99), de Stephen Frears - mesmo que ele tenha sido lançado anos depois. Mas o filme de Moyle não parece querer ser mais do que um passatempo leve e simpático, embalado por uma trilha sonora pop-rock e enfeitado por um elenco fotogênico. Todo o roteiro gira em torno da Empire Records do título original, uma loja independente de discos que está a um passo de ser absorvida por uma cadeia de empreendimentos semelhantes. Seu gerente, Joe (Anthony LaPaglia) ainda não quer revelar aos funcionários tal situação, mas este parece ser o menor dos problemas da equipe, toda ela envolvida em algum problema pessoal. Lucas (Rory Cochrane), o único que sabe da verdade, tentou reverter o quadro roubando a féria do dia anterior e perdendo no jogo em Atlantic City; A. J. (Johnny Withworth) planeja declarar seu amor à colega Corey (Liv Tyler) - que está mais interessada em perder a virgindade com o astro popular Rex Manning (Maxwell Caulfield), que irá autografar seu novo disco nas dependências da loja; Debra (Robin Tunney) acaba de tentar o suicídio depois do fim do namoro com outro vendedor, Berko (Coyote Shivers); Mark (Ethan Embry) sonha em ser roqueiro; e Gina (Renée Zellweger) administra seu jeito liberal de ser enquanto aconselha Corey a manter seu objetivo de entregar-se à Manning. Nesse meio-tempo, até mesmo um ladrãozinho de meia-tigela, Warren (Brendan Sexton) entra na jogada, tornando-se uma espécie de refém dos jovens funcionários que esperam a chegada de Rex Manning e sua assessora Jane (Debi Mazar).


Uma série de anedotas ligadas tenuamente por um roteiro ligeiro e inconsequente, "Sexo, rock e confusão" se beneficia principalmente por seu elenco, formado por jovens atores então em ascensão. Robin Tunney logo estaria no elenco de "Jovens bruxas" (96) e futuramente participaria da série "O mentalista". Liv Tyler - então recém reconhecida como filha do roqueiro Steven Tyler e musa do clipe "Crazy" ao lado de Alicia Silverstone - se tornaria símbolo sexual instantâneo graças aos filmes "Beleza roubada" (96) e "Armageddon" (98). E Renée Zellweger iria ainda mais longe, conquistando a crítica e o público com filmes como "Jerry Maguire: a grande virada" (96) e "O diário de Bridget Jones" (01), além de ganhar um Oscar de coadjuvante por "Cold Mountain" (03) depois de duas infrutíferas indicações. Jovens, belas e talentosas, elas disfarçam a falta de novidades do roteiro e até a falta de consistência do filme como um todo - não há, a rigor, nenhum personagem que realmente crie empatia com o espectador médio, que assiste a tudo facilmente, é verdade, mas sempre à espera de alguma cena, algum momento que acabe com a nítida impressão de que ele é, na verdade, um produto feito especificamente para a geração MTV.

E nesse ponto, justiça seja feita, o filme não deixa de ser uma delícia. Não tão inteligente quanto outros realizados pela mesma época, como "As patricinhas de Beverly Hills" ou "Pânico" - que não apenas retratavam uma geração, mas o faziam com um grau de ironia carinhosamente único - mas agradável e bem-humorado. Sem pesar a mão nem mesmo quando trata de assuntos um tanto polêmicos como suicídio e virgindade, "Sexo, rock e confusão" é pontuado por uma trilha sonora que inclui The Cranberries, AC/DC, Dire Straits e Better Than Ezra, além de outros nomes do rock anos 90, o que imprime imediatamente um ar nostálgico e irreverente a uma trama facilmente esquecível, mas que não faz mal a ninguém. Uma sessão da tarde para aqueles que cultuam a década de 90 - e suas musas.

CIDADÃO X

CIDADÃO X (Citizen X, 1995, HBO Pictures, 105min) Direção: Chris Gerolmo. Roteiro: Chris Gerolmo, livro de Robert Cullen. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Edelman. Figurino: Maria Hruby. Direção de arte/cenários: Jószef Romvári/Lóránt Jávor. Produção executiva: Laura Bickford, Matthew Chapman, David R. Ginsburg. Produção: Timothy Marx. Elenco: Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey DeMunn, Imelda Staunton, Joss Ackland. Estreia: 25/02/95

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)

O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.


Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.



Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.

Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.

quinta-feira

O ÚLTIMO JANTAR

O ÚLTIMO JANTAR (The last supper, 1995, Columbia Pictures, 92min) Direção: Stacy Title. Roteiro: Dan Rosen. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Luis Colina. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Linda Burton/Dea Jensen. Produção executiva: David Cooper. Produção: Matt Cooper, Larry Weinberg. Elenco: Cameron Diaz, Ron Eldard, Annabeth Gish, Jonathan Penner, Courtney B. Vance,  Bill Paxton, Ron Perlman, Nora Dunn, Charles Durning, Jason Alexander. Estreia: 08/9/95 (Festival de Toronto)

Poucos gêneros são tão subestimados no cinema quanto a comédia de humor negro: frequentemente incompreendidas pela plateia (mesmo quando incensadas pela crítica), elas acabam sendo relegadas a segundo plano, como um meio-termo entre o pastelão que lota os cinemas e as comédias mais sofisticadas que costumam ganhar um ou outro prêmio da Academia. É justamente nesse nicho de mercado que se situa "O último jantar", pequena pérola lançada no Festival de Toronto de 1995, passou praticamente em branco pelas telas e ainda não teve a sorte de ser descoberta pelo grande público. Em tempos sombrios como o que vivemos, não deixa de ser confortante perceber que ainda existe gente capaz de pensar com clareza e sobriedade sobre os perigos do radicalismo social e político. Tratando o assunto com leveza e imparcialidade, o roteiro de Dan Rosen leva o espectador a questionar as próprias certezas - e de quebra, dá seu tiro de misericórdia com um toque de ironia espetacular, que abala qualquer alicerce politicamente correto.

Dirigido por Stacy Title - que depois deu seguimento à carreira com filmes de terror - "O último jantar" é uma comédia de sutilezas, que aposta basicamente em uma única situação para levar seu humor até as últimas consequências. Quem comanda a trama é um grupo de estudantes universitários de tendências políticas liberais e que dividem uma casa em uma pequena cidade do estado de Iowa que está com os nervos à flor da pele graças ao desaparecimento de uma criança. Inteligentes, articulados e bem informados, os cinco amigos tem o costume de receber para jantar, todos os domingos, pessoas com quem possam discutir assuntos polêmicos e relevantes - e assim manter o pensamento crítico e a mente aberta. Em uma noite particularmente chuvosa, porém, a rotina é quebrada involuntariamente quando o convidado é o desconhecido Zach (Bill Paxton), que deu carona a um deles, Pete (Ron Eldard), em seu caminhão. Durante a refeição, Zach não apenas se mostra totalmente contrário a tudo que eles pensam como também se torna agressivo e violento, o que resulta em um trágico assassinato. A princípio apavorados com a situação, aos poucos os amigos resolvem enterrar o corpo no quintal e esquecer o assunto. Tudo estaria relativamente em paz se o acontecimento não lhes desse uma bizarra ideia: e se, ao invés de apenas conversar com aqueles que tem pensamentos contrários aos seus eles os envenenassem?


A partir daí, o filme de Title vira uma sinistra brincadeira, onde os protagonistas escolhem suas prováveis vítimas entre as criaturas mais conservadoras e desprezíveis da região para tentar, sempre em vão, demovê-las de suas ideias pequenas e salvá-las de uma morte que elas nem sabem que está à espreita. Um padre (Charles Durning) que culpa os homossexuais pela AIDS, um machista radical (Mark Harmon) que prega a supremacia masculina e um feroz ativista contra o meio-ambiente (Jason Alexander) são alguns dos desavisados que caem nas mãos dos cada vez mais justiceiros companheiros de cruzada, que, subitamente, passam a entrar em conflito interno. Considerando que estão indo longe demais, Jude (Cameron Diaz, antes de ser catapultada para a fama) tenta fazer os amigos pararem com as execuções, mas encontra resistência principalmente em Luke (Courtney B, Vance), que considera seus atos como pura justiça. A situação só piora de vez quando, devido ao atraso de seu voo, uma celebridade controversa e extremamente perigosa (Ron Perlman) senta-se à mesa do grupo - e subverte completamente o roteiro da noite.

Ao elaborar um filme que, além de divertir, desperta questionamentos de extrema importância - afinal, o que diferencia os fascistas dos ditos "liberais"? - "O último jantar" dá um passo à frente em comparação com as comédias normalmente acéfalas que normalmente chegam ao mercado. Mesmo que não se aprofunde nos debates que provoque (o que não é sua intenção, diga-se de passagem), o roteiro faz o próprio espectador por em xeque suas convicções e certezas absolutas. Com um humor certeiro e nunca apelativo, o filme encontra na direção eficiente e simples de Stacy Title a comandante ideal - a cineasta jamais tenta sobrepujar sua história com malabarismos desnecessários de câmera ou artifícios de edição. Sua condução da trama é simples e clássica, contrastando inteligentemente com os tons surreais do roteiro. Com um elenco coeso - o resto do grupo de protagonistas é formado pelo casal Paulie (Annabeth Gish) e Marc (Jonathan Penner) - e um tema contundente, "O último jantar" deveria ser obrigatório.

domingo

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS (Welcome to the dollhouse, 1996, Sony Pictures Classics, 88min) Direção e roteiro: Todd Solondz. Fotografia: Randy Drummond. Montagem: Alan Oxman. Música: Jill Wisoff. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Susan Block. Produção executiva: Donna Bascom. Produção: Todd Solondz. Elenco: Heather Matarazzo, Eric Mabius, Brendan Sexton III, Matthew Faber, Angela Pietropinto, Bill Buell, Victoria Davis, Daria Kalininia. Estreia: 10/9/95 (Festival de Toronto)

Antes que o termo bullying saísse dos corredores e banheiros escolares para entrar como um furacão nos lares americanos - e depois se espalhasse mundo afora, alertando pais e professores sobre um mal aparentemente silencioso mas potencialmente mortal - um cineasta independente de olhar feroz sobre a hipocrisia reinante do lado de dentro das cercas brancas das casas dos subúrbios americanos criou uma pequena pérola sobre o assunto. Porém, ao invés de utilizar-se de artifícios sentimentaloides para comover e chocar sua audiência, Todd Solondz - que anos depois voltaria a provocar o público com o polêmico "Felicidade" - resolveu tratar do assunto da forma menos previsível possível: como comédia. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, "Bem-vindo à casa de bonecas" não é uma comédia histérica, que busca a cumplicidade incondicional da plateia ao mostrar as humilhações sofridas por sua protagonista. Construído sobre um humor mordaz e crítico, o filme desnuda uma sociedade que não apenas permite a crueldade contra aqueles a quem julga inferiores, como também compactua com ela mesmo sem ter a plena consciência disso.

Sucesso no Festival de Sundance de 1996, "Bem-vindo à casa de bonecas" apresentou ao público e à crítica o estilo preciso e seco de Solondz, que não hesita em destruir sistematicamente cada tijolo das instituições mais caras aos americanos, como a família e a educação, seus dois principais alvos nesse seu primoroso trabalho de estreia. Quase como um John Waters de sua geração, com seus cenários banhados no kitsch e seus personagens carregados nas tintas da caricatura - e ainda assim críveis e humanos - ele desenha um mundo particular facilmente reconhecível pelo espectador médio, mas o faz de maneira distorcida, sem enfeites, quase como um documentário, seco e sem firulas melodramáticas. Se existe a identificação, ela é justamente por causa de seu método quase brutal de apontar a câmera para cenas que, em produções mais comerciais, estariam envoltas em uma trilha sonora açucarada ou uma fotografia enfeitada com filtros poéticos e românticos. Sua crueza - que poderia ser facilmente confundida com insensibilidade - é, possivelmente, o maior dos méritos de seu filme.


A protagonista de "Bem-vindo à casa de bonecas", vivida com surpreendente naturalidade pela ótima Heather Matarazzo, é Dawn Wiener, uma menina de onze anos e meio que vive no subúrbio de uma pequena cidade do estado de Nova York. Filha do meio de um típico casal de classe média, ela não consegue destacar-se em casa, espremida entre seu irmão mais velho - líder de uma banda de garagem mas não exatamente talentoso - e uma caçula que é o sonho de quaisquer pais-clichê: loura, de olhos azuis, feminina e adoravelmente carinhosa. Na escola, é vítima de todos as humilhações possíveis e imagináveis, vinda tanto dos colegas - meninos ou meninas - quanto dos professores. Feia, mal-vestida, não particularmente inteligente e desajeitada até mesmo ao caminhar, ela só encontra paz quando se esconde no clubinho que construiu no pátio de casa, ao lado do único amigo que tem - também ele vítima de achincalhes diários. A vida de cão da garota - cujos pontos altos são os ataques do marginal oficial da escola, Brendon (Brendan Sexton III) - parece alcançar um objetivo, porém, quando ela se apaixona por Steven (Eric Mabius), que entra na banda de seu irmão: com vãs esperanças de conquistá-lo, Dawn vê seus dias encontrarem um significado quando está ao lado dele, que logicamente mal percebe sua existência.

Ao utilizar-se de uma certa crueldade para conseguir humor, Solondz chega no limite do politicamente correto, arrancando do espectador risos nervosos em situações extremas - Brendan ameaça estuprar Dawn, por exemplo, marcando lugar e hora para isso, e ela vai a seu encontro, pateticamente. Mas é inteligente o bastante para explicitar o quanto o bullying é, na verdade, um círculo vicioso e uma forma de autoproteção. Até mesmo Dawn, que sofre diariamente por não ser o exemplo estético esperado pelo mundo ocidental encontra formas de exorcizar suas frustrações, disparando impropérios a quem considera mais fraco - até que elas atingem um nível tal que somente uma atitude radical pode transformar alguma coisa (ou não). O roteiro simples e direto de Solondz, desprovido dos grandes acontecimentos que são essenciais no manual do cinemão comercial, faz apenas uma crônica sobre a vida de uma menina comum que percebe que jamais será especial. É doloroso. É triste. E é um gol de placa de Todd Solondz fazer com que isso não fique na mente do espectador como uma ferida. O humor de viés de seu filme faz refletir e pode até emocionar. Uma pérola do cinema independente americano.

segunda-feira

OTHELLO

OTHELLO (Othello, 1995, Castle Rock Entertainment, 123min) Direção: Oliver Parker. Roteiro: Oliver Parker, peça teatral de William Shakepeare. Fotografia: David Johnson. Montagem: Tony Lawson. Música: Charlie Mole. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção executiva: Jonathan Olsberg. Produção: David Barron, Luc Roeg. Elenco: Laurence Fishburne, Kenneth Branagh, Irène Jacob, Nathaniel Parker, Michael Maloney, Anna Patrick, Michael Sheen, Nicholas Farrell, Indra Ové. Estreia: 15/12/95

Os anos 90 redescobriram Shakespeare. Ao menos no cinema, a metade da década presenteou os cinéfilos com várias adaptações da obra do bardo, que iam desde versões clássicas - como aquelas comandadas por Kenneth Branagh, que deu início ao movimento com seu "Henry V" ainda em 1989 - até subversões bem-sucedidas - caso da lisérgica visão de "Romeu + Julieta" dirigida pelo australiano Baz Luhrmann e que deu o empurrão definitivo na carreira de Leonardo DiCaprio. Dentre tantas opções, porém, um dos maiores destaques foi o lançamento de "Othello", dirigido por Oliver Parker. Menos por suas inúmeras qualidades, porém, o que mais chamou a atenção da crítica e do público foi o fato de, pela primeira vez na história do cinema, o protagonista - o famoso mouro de Veneza - ter sido interpretado por um ator negro, Laurence Fishburne. Até então, nomes consagrados como Orson Welles já haviam emprestado seu talento para o papel, mas por melhores atores que fossem, nenhum deles injetou ao trágico soldado tanta verdade quanto Fishburne, que parece ter nascido para interpretá-lo.

Vindo de uma indicação ao Oscar por seu desempenho como Ike Turner em "Tina" (92), Laurence Fishburne empresta a seu Othello uma fúria visceral e uma ternura apaixonada que somente um ator de grandes recursos consegue transmitir sem parecer inverossímil ou incoerente. Sua transformação de doçura em ira homicida acontece diante dos olhos do espectador de forma orgânica, ainda que seja extremamente difícil a qualquer roteirista de cinema fazer com que todas as intrigas criadas por Shakespeare - que funcionam às mil maravilhas em um palco - soem críveis a um público tão acostumado às modernidades do cinema hollywoodiano. Por isso, não deixa de ser louvável também o trabalho de Oliver Parker - que depois adaptaria Oscar Wilde em "O marido ideal" (99), "Armadilhas do coração" (01) e "O retrato de Dorian Gray" (09) - em não deixar que o ritmo de teatro clássico afugente a plateia. Temperando a história de ciúme, inveja e violência com algumas doses de sensualidade e dirigindo seu elenco com segurança, ele consegue melhores resultados, por exemplo, que Richard Loncraine, que apesar do trabalho irretocável de Ian McKellen, deixou sua versão de "Ricardo III" um tanto confusa para a audiência do século XX.


E o roteiro de Oliver Parker não tem nada de confuso, deixando tudo o mais simples possível sem fugir do texto original. Othello (Laurence Fishburne) é um general de Veneza valorizado por seus talentos e sua seriedade profissional. Porém, quando ele promove o jovem Cássio (Nathaniel Parker, irmão do diretor) a seu braço-direito em detrimento de Iago (Kenneth Branagh), que ambicionava o cargo, ele sem querer arma sua própria derrota pessoal. Consumido pela inveja de Cássio e pelo ódio pelo chefe - que vê nele um homem de absoluta confiança - Iago dá início a uma bem urdida intriga que põe em dúvida a fidelidade da esposa de Othello, a bela Desdêmona (a francesa Irène Jacob em seu primeiro filme em língua inglesa). Torturado pela desconfiança de um caso de sua mulher - branca, nobre, de boa família e boa educação - com Cássio, o imponente Othello se deixa levar pelas mentiras de Iago, o que conduz todos a uma tragédia.

Traduzindo em belas imagens um dos textos mais poderosos de Shakespeare, Oliver Parker tem também como seu maior trunfo no trabalho espetacular de Kenneth Branagh, o irlandês que substituiu Laurence Olivier como o embaixador não-oficial das obras do dramaturgo no cinema. Às vésperas de lançar uma versão definitiva de "Hamlet" - com o texto integral e quase quatro horas de duração - Branagh está absolutamente brilhante na pele do invejoso Iago, um dos papéis mais complexos do teatro mundial. Sua experiência nos palcos permite a ele que transforme em suas as palavras do vilão, dando a cada uma delas o peso próprio, a intenção adequada e o ritmo correto. Assim como é Iago quem comanda a ação da história, é o ator quem conduz o filme, apesar das grandes atuações de Fishburne e Jacob. Toda vez que está em cena ele mostra porque o bardo ainda é tão essencial, atual e imprescindível.

domingo

FERIADOS EM FAMÍLIA

FERIADOS EM FAMÍLIA (Home for the holidays, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Paramount Pictures, 103min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: W. D. Richter, conto de Chris Radant. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Barbara Drake. Produção executiva: Stuart Kleinman. Produção: Jodie Foster, Peggy Rasjki. Elenco: Holly Hunter, Robert Downey Jr,. Anne Bancroft, Charles Durning, Dylan McDermott, Geraldine Chaplin, Steve Guttenberg, Cynthia Stevenson, David Straithairn, Claire Danes. Estreia: 03/11/95

Em sua segunda incursão como diretora, Jodie Foster não quis afastar-se muito da temática de sua estreia, o drama doméstico "Mentes que brilham". "Feriados em família", uma crônica agridoce sobre as difíceis porém indeléveis relações entre pais, filhos e irmãos mostra que a atriz/diretora/produtora amadureceu artisticamente ainda mais nos quatro anos que separam seus dois trabalhos, mas esbarra em uma certa frieza que contrasta com o calor humano demonstrado em seu primeiro filme. Equilibrando um senso de humor amargo com um elenco de grandes atores, ela constrói um retrato sem exageros de um núcleo familiar cuja união está nas diferenças e, apesar da irregularidade, comprova que sua transição para o lado de trás das câmeras não foi apenas um capricho vaidoso.

Baseado em um conto de Chris Radant, "Feriados em família" se passa no mais tradicional feriado norte-americano, o Dia de Ação de Graças, quando - ao menos segundo o cinema hollywoodiano - todas as diferenças acumuladas durante o ano todo são exorcizadas em volta da farta mesa de jantar. E para a protagonista Claudia Larson (Holly Hunter) a coisa não será nada fácil: além de encarar as eternas discussões familiares, ela está passando por uma das piores crises da sua vida. Não só perdeu o emprego e saiu dele trocando um inesperado beijo com seu sexagenário ex-patrão como acaba de receber da única filha, a adolescente Kitt (Claire Danes), a notícia de que ela está decidida a perder a virgindade com o namoradinho. Chegando na pequena cidade onde moram seus pais, ela precisa enfrentar a insistência da mãe, Adele (Anne Bancroft), de que se entenda com um amigo de infância apaixonado por ela, Russell (David Straithairn) e voltar a ser tratada como adolescente pelo pai, Henry (Charles Durning). Sua pressão só diminui com a chegada do irmão caçula, Tommy (Robert Downey Jr.), homossexual assumido que traz à tiracolo um amigo, Leo Fish (Dylan McDermot), por quem ela logicamente sente-se atraída.


Não bastasse tudo isso, a reunião familiar fica completa quando entra em cena Glady (Geraldine Chaplin) - que mantém escondido um segredo há décadas e não se importa em revelá-lo à hora da refeição - e a terceira filha de Adele e Henry, a reprimida Joanne (Cynthia Stevenson), que se orgulha de ter uma família sólida ao lado do marido Walter (Steve Guttenberg) e mantém uma relação de desprezo com a vida sexual do irmão. A noite torna-se cada vez mais tumultuada quando as diferenças passam a ser resolvidas da pior maneira possível - o que inclui até um inesperado banho de recheio de peru. Nesse meio tempo, Claudia não consegue evitar a aproximação com Leo - a quem julga ser o novo parceiro do irmão, que também tem uma revelação a fazer a todos no final do feriado.

Ao contrário do que fez em "Mentes que brilham", Jodie Foster não busca a emoção da plateia com "Feriados em família". Sua opção pelo humor - sutil, quase imperceptível em sua discrição - mostra um distanciamento bastante saudável em relação às complicadas teias familiares descritas no roteiro, que vai tornando-se mais interessante à medida em que a trama realmente começa a mostrar seus desdobramentos e os personagens vão se despindo de suas cascas e mostrando suas dores e delícias. São nesses momentos, em que a individualidade de cada um vem à tona, que o filme mostra a que veio e Foster deixa claro seu maior talento como cineasta: dirigir atores. Sendo um drama centrado em personagens - mais do que em acontecimentos - "Feriados em família" depende quase que exclusivamente do elenco e sua escolha não poderia ter sido mais feliz: não há um único elo fraco entre todos os atores que, cada um à sua maneira, transmite toda a gama de sentimentos necessários para manter aceso o interesse da plateia.

Holly Hunter e Anne Bancroft - ambas premiadas com o Oscar por trabalhos anteriores e atrizes consagradas - roubam a cena sem precisar muito esforço, enquanto Robert Downey Jr. (que fez o filme inteiro à base de heroína, para tristeza de Foster) comprova que sempre foi um ator de imenso talento, felizmente reconhecido e recuperado a tempo de tornar-se popular. E não deixa de ser delicioso ver em cena uma atriz como Geraldine Chaplin, perfeita em seu timing de tia maluca que é bem menos demente do que todos pensavam. É ela, junto com todos os atores que transformam a sensação de assistir-se a "Feriados em família" em uma noite de (bom) teatro.

sábado

RICARDO III

RICARDO III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr., Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.

McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.


Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.

Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...