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sábado

O QUARTO DE JACK


O QUARTO DE JACK (Room, 2015, Element Pictures/Film4/FilmNation Entertainment, 118min) Direção: Lenny Abrahamson. Roteiro: Emma Donoghue, romance de sua autoria. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Nathan Nugent. Música: Stephen Rennicks. Figurino: Lea Carlson. Direção de arte/cenários: Ethan Tobman/Mary Kirkland. Produção executiva: Jeff Arkuss, Emma Donoghue, Rose Garnett, David Kosse, Andrew Lowe, Keith Potter, Tessa Ross, Jesse Shapira. Produção: David Gross, Ed Guiney. Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lenny Abrahamson), Atriz (Brie Larson), Roteiro Adaptado

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Brie Larson)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Brie Larson) 

Já é clichê dos mais batidos dizer que a arte imita a vida. Porém, muitas vezes o contrário também é verdadeiro. Que o diga a escritora Emma Donoghue: três anos depois que seu romance "O quarto de Jack" foi publicado, em 2010, um perturbador caso policial com impressionantes similaridades com sua trama chegou às manchetes. De forma muito semelhante ao que acontece com sua protagonista, uma mulher chamada Amanda Berry conseguiu fugir do cativeiro onde era mantida há anos junto com seu filho, fruto dos constantes estupros a que era submetida por seu sequestrador. Berry não era a única vítima de Ariel Castro, que também mantinha outras duas mulheres em seu poder. Também na Áustria houve situação parecida, com um homem mantendo a própria filha, Elisabeth Fritzl, como prisioneira por 24 anos e tendo, com ela, outras sete crianças, das quais três ficaram com a mãe durante o período que durou o sequestro. Casos isolados ou não, as histórias de Berry e Fritzl servem como um ponto a mais de credibilidade à história da escritora, que, antes mesmo de lançar seu livro, já o havia transformado em roteiro, confiante em sua força dramática e tema potente. Quando finalmente sua adaptação para o cinema chegou às telas, cinco anos depois da publicação do livro, a recepção não poderia ter sido melhor: aplaudido pela crítica, "O quarto de Jack" arrebatou quatro importantes indicações ao Oscar (incluindo melhor filme) e levou a cobiçada estatueta de melhor atriz, entregue à jovem Brie Larson - também premiada com o Golden Globe, o BAFTA e o prêmio do Sindicato dos Atores.

Até então conhecida basicamente pelo público consumidor de cinema independente - seu crédito mais importante era o de protagonista do elogiado "Temporário 12" (2013) -, Larson ganhou o papel principal de "O quarto de Jack" em uma disputa com a talentosa Shailene Woodley, depois que Emma Watson e Rooney Mara, também cotadas, ficaram de fora do projeto. Seu trabalho foi um divisor de águas em sua carreira: logo depois de alguns filmes menos ambiciosos, seu nome estampava o cartaz de "Capitã Fantástica" (2019), um blockbuster de enorme visibilidade, que, mais do que o Oscar, a colocou em posição privilegiada em Hollywood. E se a protagonista da Marvel é uma heroína clássica, sua personagem em "O quarto de Jack" explora níveis dramáticos muito mais profundos - traduzidos em uma interpretação sutil, que busca a comunicação mais pelo silêncio do que por discursos inflamados. Em uma parceria impecável com o pequeno Jacob Tremblay - que rouba a cena e injustamente ficou de fora dos indicados pela Academia -, Larson deixou para trás nomes muito mais experientes (Cate Blanchett, Charlotte Rampling) na corrida pela estatueta, e fortaleceu o filme a ponto de levá-lo às categorias mais nobres do Oscar.

 


Filmado em um período de dez semanas - com uma intensa preparação anterior por parte de seus atores principais, como o confinamento voluntário de Brie Larson por um mês antes do começo das filmagens, para experimentar a sensação de isolamento de sua personagem e um contato mais próximo entre a atriz e Jacob Tremblay -, "O quarto de Jack" foi realizado praticamente em sequência. Tal situação, rara no cinema, foi a forma escolhida pelo cineasta para ajudar Tremblay (escolhido dentre mais de 2000 crianças) a desenvolver as emoções requeridas pelo roteiro. Foi uma providência e tanto: é difícil não se deixar conquistar pelo desempenho do pequeno ator, que escapa das armadilhas melodramáticas que a trama poderia oferecer com segurança de veterano. Aliás, é um grande mérito do roteiro sua ousadia em evitar cenas lacrimosas e apostar suas fichas nas consequências psicológicas do drama de Joy, o que afasta o filme do lugar comum e lhe imprime um tom mais sufocante - o que condiz, logicamente, com a história contada por Emma Donoghue. Donoghue concorreu ao Oscar de roteiro adaptado e perdeu para "A grande aposta" (2015), mas com certeza seu script tem muito mais possibilidades de permanecer na memória do público do que o quase hermético trabalho de Adam McKay.

A principal qualidade do roteiro de "O quarto de Jack" surge logo nos primeiros minutos, quando o público é apresentado sem muitas firulas ao intenso drama vivido pela protagonista interpretada por Larson: sem saber seu nome ou nada mais a seu respeito, a plateia precisa entender aos poucos tudo o que está acontecendo, sem explicações mastigadas. Conforme o filme anda, as coisas começam a ficar mais claras, e se compreende que a personagem é mantida refém há anos, que é constantemente abusada por seu sequestrador e, pior ainda, vive com um menino, Jack, que é seu filho com ele - e a quem protege desesperadamente. A relação entre mãe e filho é o cerne da trama, e a direção de Lenny Abrahamson a explora de maneira comovente e verdadeira - não à toa, quando o foco da história muda e passa a girar em torno da readaptação da dupla à vida fora do cativeiro, o ritmo cai e a inclusão de novos personagens enfraquece o todo. Talvez superestimado em demasia - suas qualidades são inegáveis, mas o excesso de indicações ao Oscar e prêmios da crítica soa como alucinação coletiva -, "O quarto de Jack" é uma produção importante e relevante, porém não atinge todo o seu potencial dramático. Foi o filme certo na hora certa, mas não se sabe se sobreviverá ao tempo com a mesma força que demonstrou em sua estreia.

terça-feira

DESCOMPENSADA

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, Apatow Productions, 125min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Amy Schumer. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: William Kerr, Paul Zucker. Música: Jon Brion. Figurino: Jessica Albertson, Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Debra Schutt. Produção executiva: David Householter. Produção: Judd Apatow, Barry Mendel. Elenco: Amy Schumer, Bill Hader, Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson, Lebron James, Marisa Tomei, Daniel Radcliffe. Estreia: 17/7/15

Os fãs de comédias românticas conhecem exatamente as engrenagens que as movem, e a julgar pela longevidade do gênero - um dos mais populares do cinema - não se importam muito com os clichês que as cercam. Por isso não deixa de ser saudável que um filme como "Descompensada" tenha feito tanto sucesso de bilheteria, alcançando uma marca superior a 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico: mesmo subvertendo muitas das regras básicas ditadas pela indústria quando se trata de histórias de amor tradicionais, o filme escrito e estrelado por Amy Schumer é, no fundo, mais um exemplar do estilo, mas distorce seus elementos de forma tão debochada e contemporânea que soa como uma lufada de ar fresco em um universo bastante engessado. A começar pela presença de Schumer, cujo visual "gente como a gente" já a distancia das princesas bem vestidas e de corpo escultural que protagonizam tais histórias, o divertido filme dirigido por Judd Apatow - considerado o mestre das comédias adultas realizadas em Hollywood desde o sucesso de "O virgem de 40 anos", lançado em 2005 - foge dos estereótipos e aposta na reversão de papéis para conquistar o público. O resultado? Até mesmo a plateia masculina, normalmente avessa a comédias românticas, acaba se deixando seduzir pelo humor cáustico e no limite do chulo oferecido pelo roteiro.

Longe de ser a donzela desprotegida, frágil e romântica que se poderia esperar, a protagonista de "Descompensada" - sintomaticamente batizada de Amy, como a roteirista e atriz principal - é uma jornalista adepta de baladas, bebedeiras e sexo casual que não passa os dias esperando o príncipe encantado e nem acredita muito nessa história toda de "e foram felizes para sempre". Ao contrário da irmã caçula, Kim (Brie Larson, Oscar de melhor atriz por "O quarto de Jack"), Amy levou muito a sério o discurso de seu pai para justificar as traições à sua mãe e não vê muitas vantagens na monogamia e na fidelidade. Tudo começa a mudar quando ela é escalada por sua arrogante chefe, Dianna (Tilda Swinton, surpreendente), para uma série de entrevistas com um jovem médico chamado Aaron Conners (Bill Hader), conhecido como cirurgião de celebridades esportivas. Logo de cara Amy vai pra cama com o entrevistado, mas, ao contrário do que poderia esperar, a relação aos poucos vai se tornando mais séria, para seu desespero e surpresa. O problema é que Amy não sabe comportar-se em uma relação duradoura, e quando Aaron assume estar apaixonado tudo que ela consegue fazer é trocar os pés pelas mãos.


Fazendo piada a respeito de qualquer assunto sem medo de soar politicamente incorreto, o roteiro de "Descompensada" é uma sucessão de bobagens extremamente divertidas, que mesclam o típico humor "vergonha alheia" com momentos bastante inteligentes, com diálogos repletos de referências culturais, com direito até a participações especiais de Daniel Radcliffe e Marisa Tomei - em um filme dentro do filme - e Matthew Broderick e Martin Short como eles mesmos (uma prova do poder de fogo de Appatow em Hollywood). O que mais chama a atenção no filme, no entanto, é sua coragem em ter uma protagonista tão fora dos padrões de beleza e comportamento ditados por Hollywood através dos anos. Com um linguajar de corar cantores de funk e atitudes de fazer muitas moderninhas de plantão se roer de inveja, Amy dificilmente pode ser considerada uma heroína convencional, mas o carisma de Schumer (em um papel que é a sua cara) é o bastante para que a plateia fique do seu lado mesmo quando ela comete uma série de erros que podem comprometer sua felicidade. Suas cenas com a irmã e o enteado dela (um moleque nerd que mais a apavora do que qualquer outra coisa) são hilariantes, e sua química com Bill Hader é inegavelmente perfeita. Hader - que já havia demonstrado ser um ótimo parceiro de cena quando interpretou o irmão gay de Kristen Wiig em "Irmãos Desastre" (2014) - se confirma como um ator versátil e dono de uma simpatia contagiante, a perfeita definição de cara normal, com quem o espectador pode facilmente se conectar. Juntos, eles formam o mais improvável dos casais - e por isso mesmo parecem tão reais.

As fãs de histórias de amor mais convencionais talvez se incomodem com o tanto de subversão de "Descompensada", que não hesita em quebrar todos os paradigmas da comédia romântica. Porém, aquelas que se despirem de preconceitos e estiverem dispostas a rir de si mesmas podem ter uma bela surpresa: poucas vezes um filme do gênero conseguiu ser tão abusado, ousado e sem papas na língua. Amy Schumer não tem medo de servir de material para suas próprias piadas e, ao contrário do que normalmente acontece, os coadjuvantes são tratados com inteligência e sensibilidade - desde o pai irascível da protagonista até seus colegas de trabalho (em especial a chefe vivida por Tilda Swinton e o estagiário interpretado por Ezra Miller, seu filho no drama "Precisamos falar sobre o Kevin", de 2011): são personagens secundários, sim, mas com importância o bastante para determinar alguns rumos da narrativa e fazer rir ao mesmo tempo - a cena em que Amy vai pra casa do colega adolescente e descobre que ele tem preferências sexuais um tanto exóticas é, sem dúvida, candidata à antológica.

Ainda é cedo para dizer se Amy Schumer - atriz com a mesma verme cômica de Tina Fey, Amy Pohler e Kristen Wiig - irá firmar-se no universo do humor hollywoodiano ou se é apenas fogo de palha. Indicada ao Golden Globe ela já foi - assim como seu filme. Aprovada pelo público idem. Resta ficar de olho e descobrir se fará as escolhas certas para manter-se no jogo ou se irá ser relegada a um injusto esquecimento. Até lá, é deliciar-se com as desventuras amorosas e sexuais de seu encantador alter-ego.

quarta-feira

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon, 2013, Voltage Pictures/HitRecord Films, 90min) Direção e roteiro: Joseph Gordon-Levitt. Fotografia: Thomas Kloss. Montagem: Lauren Zuckerman. Música: Nathan Johnson. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Meghan C. Rogers/Cindy Coburn. Produção executiva: Nicolas Chartier, Ryan Kavanaugh, Tucker Tooley. Produção: Ram Bergman. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore, Tony Danza, Glenne Headley, Brie Larson. Estreia: 18/01/13 (Festival de Sundance)

Em "Sintonia de amor", a personagem central, vivida por Meg Ryan, reclamava dos estragos causados pelo cinema romântico hollywoodiano, que faz com que as mulheres busquem histórias de amor ilusórias em detrimento da realidade. Clássico do cinema pejorativa e erroneamente chamado de "filme de mulherzinha", a obra de Nora Ephron encontra em "Como não perder essa mulher" sua versão masculina, guardadas as devidas proporções. Estreia como diretor do ator Joseph Gordon-Levitt, que também interpreta o papel central, o filme substitui os romances de plástico de Hollywood por filmes pornográficos, as mocinhas sonhadoras por um bartender hedonista e transmuta o santo graal dos protagonistas de um amor verdadeiro em uma satisfatória vida sexual.

Jon, o protagonista que Gordon-Levitt escreveu para Channing Tatum - que faz uma participação afetiva e bastante engraçada ao lado de Anne Hathaway - e depois pegou para si, é um jovem bartender que divide suas noites em um curso profissionalizante e noitadas em baladas que sistematicamente acabam em insatisfatórias relações sexuais. Conquistador inveterado, ele não hesita em reconhecer a si mesmo - e ao padre com que frequentemente se confessa - que prefere masturbações frequentes diante de filmes pornográficos do que sexo propriamente dito. Segundo sua concepção, as mulheres são sempre desapontamentos, por não realizarem na vida real o que os filmes adultos prometem em suas cenas pra lá de quentes. Seu vício em pornografia não se revela problemático, porém, até que ele conhece e cai de amores por Barbara (Scarlett Johansson, vivendo pela enésima vez a mulher sexy). Aparentemente um vulcão, Barbara se revela uma mulher extremamente conservadora, que mais uma vez frustra suas expectativas de orgias alucinantes. Surge então Esther (Julianne Moore), uma mulher mais velha, com uma trágica história de vida, que acaba lhe mostrando um outro caminho a seguir.


A ideia do roteiro de Gordon-Levitt é ótima, afinal de contas falta ao cinema hollywoodiano filmes com pontos de vista masculinos a respeito de relações amorosas. O problema é que falta a ele um pouco mais de profundidade, em especial na relação entre Jon e Esther, que poderia ter sido explorada com menos pressa - o que poderia inclusive ter dado à sempre ótima Julianne Moore maior oportunidade de brilhar. O jovem ator demonstra personalidade em sua direção, fazendo uso inteligente da edição e da trilha sonora e demonstrando bom senso estético - além de proporcionar à Glenne Headley ótimos diálogos na pele de sua mãe desesperada por uma nora e conseguir se dividir entre a direção e a protagonização com segurança de veterano: a transformação de seu Jon, que em mãos menos talentosas poderia soar patética, com ele não é apenas crível, mas também encantadora. Ajuda muito, é claro, que ele seja um ator carismático e bastante talentoso.

Dividindo sua carreira em produções independentes - como a deliciosa "(500) dias com ela" - e filmes de enorme visibilidade - "A origem" e "Batman, o Cavaleiro das Trevas ressurge" - Gordon-Levitt passou sem traumas do status de adolescente promissor a um dos mais requisitados jovens astros de Hollywood. Fugindo de um possível estigma de galã adolescente, ele passou a fazer escolhas ousadas - o polêmico "Mistérios da carne", de Gregg Araki, o mostra em um personagem do qual muitos colegas de geração fugiriam apavorados - até conquistar o respeito dos colegas e a admiração da plateia. Sua decisão em estrear como diretor, como mostra "Como não perder essa mulher" (um título nacional, diga-se de passagem, constrangedor) não foi apenas fruto de egocentrismo: seguro e dotado de ritmo, seu trabalho aponta para uma nova e auspiciosa carreira. Uma comédia romântica atípica, seu filme pode não agradar a todas as plateias - talvez o público feminino se sinta um tanto incomodado com os frequentes (mas contextualizados) frames de mulheres nuas e cenas pornográficas - mas é, sem dúvida, uma estreia digna de nota.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...