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quinta-feira

A MULHER DO AÇOUGUEIRO


A MULHER DO AÇOUGUEIRO (The butcher's wife, 1991, Paramount Pictures, 107min) Direção: Terr Hughes. Roteiro: Ezra Litwak, Marjorie Schwartz. Fotografia: Frank Tidy. Montagem: Donn Cambern. Música: Michael Gore. Figurino: Theadra Van Runkle. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Donald J. Remacle. Produção executiva: Arne Schmidt. Produção: Lauren Lloyd, Wallis Nicita. Elenco: Demi Moore, Jeff Daniels, George Dzunza, Frances McDormand, Mary Steenburgen, Margaret Colin, Max Perlich. Estreia: 25/10/91

Em 1987, quando ainda não era uma estrela de primeira grandeza, Demi Moore tentou convencer a Tri-Star Pictures a comprar um roteiro escrito por Ezra Litak e Marjorie Schwartz,  chamado "A mulher do açougueiro". O estúdio não demonstrou entusiasmo e o script acabou nas mãos da Paramount. Em 1990, com o mega-sucesso "Ghost: do outro lado da vida" no currículo, a então sra. Bruce Willis finalmente teve a oportunidade de ver seu desejo atendido. Já considerada um nome em ascensão em Hollywood, porém, Demi já não tinha mais interesse no projeto, mas foi convencida a reconsiderar a decisão diante de um polpudo salário oferecido pelos executivos - que viam no encontro da estrela do filme de Jerry Zucker com uma produção de temática espiritualista a receita para mais um êxito incontestável. Mas logo o que parecia uma aposta sem riscos se mostrou um tiro n'água: atacado pela crítica e com uma bilheteria decepcionante, o primeiro longa-metragem de Terry Hughes acabou sendo um dos inúmeros fracassos comerciais que pavimentaram o caminho de Demi rumo ao limbo sacramentando com fiascos como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997).

Conhecido na indústria principalmente pelos 108 episódios que dirigiu da série "Super gatas", Terry Hughes assumiu o comando de "A mulher do açougueiro" com a saída do cineasta inicialmente contratado para o projeto, o polonês Yurek Bogayevicz, dispensado por causa das famosas "diferenças artísticas". Sem experiência cinematográfica, Hughes apresenta um tom apropriadamente leve à sua estreia, mas falha em imprimir personalidade à lúdica história criada por Litak e Schwartz em sua única incursão hollywoodiana. Talvez seja o maior defeito de uma produção que, apesar do massacre da imprensa, não é melhor nem pior que boa parte das comédias românticas que lotam as salas de cinema mesmo sem acrescentar nada ao gênero. Dono de uma atmosfera mágica - sublinhada pela bela trilha sonora de Michael Gore - e recheado de personagens encantadores (ainda que não necessariamente aprofundados pelo roteiro), o filme de Hughes se beneficia da beleza de Demi e do talento de seu elenco coadjuvante para disfarçar uma trama quase simplória, cuja ingenuidade tanto pode ser vista como defeito quanto qualidade.


 

Demi, de peruca loura - e em papel que chegou a ser pensado para Meg Ryan -, interpreta a misteriosa Marina, uma bela clarividente que vê, em seus sonhos a chegada do amor de sua vida à ilha onde vive com sua idosa avó. Quando o açougueiro Leo Lemke (George Dzunza) surge à sua frente, então, ela imediatamente o reconhece como o homem que irá mudar o rumo de sua existência. Casada com ele mesmo sem conhecê-lo direito, ela se muda para Nova York e, com seus poderes, passa a alterar a rotina da pacata vizinhança - quase toda envolvida pessoal ou profissionalmente com o terapeuta Alex Tremor (Jeff Daniels): é graças a seus conselhos, por exemplo, que a tímida Stella Keefover (Mary Steenburgen) cria coragem para dar vazão a seu talento musical; que a vendedora de roupas Grace (Frances McDormand) parte em busca do amor; e que Robyn Graves (Margaret Colin) resolve pressionar o namorado - justamente o indeciso Alex, que, incomodado, confronta a bela esposa de seu vizinho e se apaixona por ela. A ciranda de amores - correspondidos ou não - se completa com a presença de Eugene (Max Perlich), empregado de Leo que vê em Marina a única pessoa capaz de compreendê-lo e aceitar seu passado contraventor.

Não há nada em "A mulher do açougueiro" que seja ofensivamente ruim, como fizeram crer boa parte dos críticos à época de seu lançamento. Se o romance central, entre Marina e Alex, não chega a ser fascinante, tampouco é irritante ou aborrecido. Se os personagens periféricos carecem de profundidade, também não deixam de ser encantadores em sua simplicidade. E se Demi Moore não é exatamente uma atriz de recursos ilimitados, seus colegas compensam o suficiente - e vale lembrar que Demi, carismática ao extremo, foi uma das atrizes mais atacadas dentro da indústria hollywoodiana, talvez pelo sucesso profissional, talvez pelo casamento (até então) bem-sucedido com Bruce Willis, talvez pela beleza irretocável. A má-vontade contra ela talvez explique o fracasso monumental de "A mulher do açougueiro" - menos de dez milhões de dólares arrecadados no total -, mas o fato é que sua carreira ainda emplacaria alguns sucessos de bilheteria ("Questão de honra", em 1992, e "Assédio sexual", em 1993) antes de seus maiores fiascos. "A mulher do açougueiro" é, para o bem ou para o mal, um filme que se sustenta na presença de Demi. Quem é fã não tem do que se queixar. Aos detratores, resta apenas ignorar.


TOTALMENTE SELVAGEM

TOTALMENTE SELVAGEM (Something wild, 1986, Orion Pictures, 113min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: E. Max Frye. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Laurie Anderson, John Cale. Figurino: Norma Moriceau. Direção de arte/cenários: Norma Moriceau/Billy Reynolds. Produção executiva: Edward Saxon. Produção: Jonathan Demme, Kenneth Utt. Elenco: Jeff Daniels, Melanie Griffith, Ray Liotta, Margaret Colin. Estreia: 07/11/86

Menos de uma semana. Em uma indústria onde roteiros podem passar anos (e até décadas) no limbo, à espera de uma chance de chegar às telas, esse foi o tempo que levou para que um estudante de Cinema chamado E. Max Frye visse a amalucada história que havia escrito receber o sinal verde da Orion Pictures. Mais admirável ainda, o cineasta Jonathan Demme - já conhecido pelo oscarizado "Melvin e Howard" (1980) - não demorou mais do 24 horas para comprometer-se com o projeto, que por pouco não contou com Kevin Kline (então já conhecido por filmes como "A escolha de Sofia" e "O reencontro") no papel principal. Uma mistura de comédia romântica, road movie e filme de suspense, "Totalmente selvagem" caiu como uma luva no estilo quase anárquico de Demme, deu espaço a uma iniciante Melanie Griffith (revelada por Brian DePalma em "Dublé de corpo", de 1984) e conquistou a crítica arrebatando três indicações ao Golden Globe: ator e atriz em comédia/musical (para Jeff Daniels e Melanie) e ator coadjuvante (para Ray Liotta). Irreverente, inovador e irresistível, também direcionou o cineasta para um maior reconhecimento do grande público - o que acabaria por levá-lo a "De caso com a máfia" (1988) e ao enorme sucesso de "O silêncio dos inocentes" (1991).

O filme começa com uma canção original de David Byrne e logo leva o espectador a um café, onde é apresentado a Charles Driggs (Jeff Daniels), um executivo certinho cujas maior contravenção é sair sem pagar por suas refeições. Durante uma dessas travessuras, ele é surpreendido por Lulu (Melanie Griffith, de peruca chanel preta que remete à outra Lulu das telas, a Louise Brooks de "A caixa de Pandora", dirigido por G. W. Pabst em 1929). Sensual, bem-humorada e de espírito livre, Lulu oferece carona ao novo amigo - e ele logo se descobre sequestrado pela desconhecida, que o leva para um motel, o acorrenta à cama e o faz descobrir o prazer da irresponsabilidade. Avisando ao chefe que irá faltar ao trabalho, Charles aceita viajar com Lulu para sua cidade natal e ser apresentado à sua mãe como seu marido. Cada vez mais surpreso e encantado pela garota, Charles a acompanha à festa de reunião dos colegas de escola - e é lá que a aventura toma rumos inesperados, quando o ex-presidiário Ray (Ray Liotta), que acaba de sair da prisão, deixa bem claro que quer reconstruir o casamento a qualquer custo.


Subvertendo completamente o tom leve e descompromissado de seus dois primeiros terços - que lembram a premissa inicial do ótimo "Depois de horas" (1984), dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Griffin Dunne e Rosana Arquette - a reta final de "Totalmente selvagem" conduz o público por um caminho violento e imprevisível, que oferece a Ray Liotta a chance de criar um vilão memorável - e que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante do ano pelos críticos de Boston. Seu Ray Sinclair (a princípio amigável e posteriormente um pesadelo em forma de ex-marido) é o ponto de virada no roteiro, revelando ao espectador (e aos demais personagens) verdades até então disfarçadas ou escondidas e empurrando o filme em direção a um perigoso abismo. Com uma segurança ímpar, Jonathan Demme não deixa o ritmo ou a coerência saírem dos trilhos, e substitui a trilha sonora vibrante do começo da narrativa por uma escolha acertada de ritmos mais sombrios, conforme a aventura de Charles e Lulu - já loura, frágil e traumatizada - em uma viagem de montanha-russa, repleta de momentos divertidos e situações arriscadas.

O elenco, além da revelação de Liotta - antes mesmo de seu melhor desempenho, como protagonista de "Os bons companheiros" (1990) -, cumpre com louvor a missão de entreter o público e dar veracidade à armadilhas criadas pelo roteiro. Melanie Griffith está talvez em seu melhor momento na carreira (melhor até do que em sua atuação indicada ao Oscar, por "Uma secretária de futuro", de 1988), convencendo tanto como a despudorada Lulu quanto sua personalidade mais submissa e doce, Audrey. Jeff Daniels, recém saído do sucesso de "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), de Woody Allen, aproveita com unhas e dentes a chance de mostrar seu timing cômico, seu lado galã sexy e seus dotes como herói - e apresenta uma química e tanto com Melanie. Como bônus, Jonathan Demme ainda dá pequenos papéis para cineastas independentes e cultuados, como John Waters e John Sayles, além de uma cena com a banda The Feelies, que anima a festa de reencontro dos amigos de Lulu/Audrey. Uma produção despretensiosa e simpática, "Totalmente selvagem" ainda tem a ousadia (dentro do universo do cinema menos comercial), de apresentar um final feliz à sua maneira - mostrando que, no fundo, Demme era um romântico, ainda que seu romantismo se apresentasse de forma pouco óbvia. Uma pérola dos anos 80

segunda-feira

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

quarta-feira

PERDIDO EM MARTE

PERDIDO EM MARTE (The martian, 2015, 20th Century Fox, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Drew Goddard, romance de Andy Weir. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Celia Bobak, Zoltán Horváth. Produção executiva: Drew Goddard. Produção: Mark Huffman, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott, Aditya Sood. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor, Sebastian Stan, Aksel Hennie. Estreia: 11/9/15 (Festival de Toronto)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Matt Damon) 

Uma das maiores polêmicas na ocasião de entrega dos Golden Globes 2016 ocorreu com a vitória dupla de "Perdido em Marte", de Ridley Scott, premiado como melhor filme e ator (Matt Damon) na subcategoria comédia ou musical. Não que o filme não tivesse méritos para isso, já que é um dos melhores trabalhos do cineasta inglês desde o megasucesso "Gladiador" (2000): o problema é que a adaptação do romance de Andy Weir NÃO é uma comédia, apesar de alguns momentos menos pesados e um certo tom de ironia no protagonista. Uma ficção científica à moda antiga, mas com todo o requinte visual que a tecnologia moderna pode oferecer, "Perdido em Marte" acabou sendo inscrito para as premiações para não enfrentar uma concorrência maior com os dramas lançados na temporada - e dos quais saiu vencedor o controverso "Spotlight: segredos revelados" - e se deu muito bem. Além das estatuetas do Golden Globe (de resto merecidas), arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e roteiro adaptado. Ridley Scott, inexplicavelmente, ficou de fora.

Um dos grandes cineastas de sua época a ainda não terem um Oscar em casa, Ridley Scott tem familiaridade com a ficção científica, gênero que deu à sua carreira alguns de seus maiores êxitos (comerciais ou de crítica). São dele filmes essenciais, como "Alien: o oitavo passageiro" (79) e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), e nem mesmo seu "Prometheus" (2012), que dividiu opiniões, é um filme menor. Confortável em lidar com os paradigmas do gênero e com as dificuldades de comandar orçamentos generosos - mais de 100 milhões de dólares no caso de "Perdido em Marte" - Scott tirou de letra orquestrar as aventuras e desventuras de Mark Watney, o protagonista de uma história que, apesar de carregar todos os elementos clássicos, conhecidos e amados pelos fãs da ficção científica, agrada também à plateia um tanto avessa a eles. Leve, divertido e emocionante na medida certa, é um filme com tudo de melhor que Hollywood tem a oferecer, embrulhado em um atraente pacote visual e dramático.


O filme não demora a começar, impondo o ritmo desde suas primeiras cenas, que mostram uma equipe de astronautas da NASA sendo obrigada a abortar sua missão em Marte devido a uma violenta e inesperada tempestade que praticamente os expulsa do planeta. Além do fracasso de sua viagem, o grupo liderado pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) ainda precisa lidar com a morte de um de seus integrantes, o botânico Mark Watney (Matt Damon), atingido pelos destroços da tormenta. O que eles não sabem, porém, é que Watney não apenas sobreviveu - graças a um incrível golpe de sorte - como, ciente de sua situação desesperadora, começou a fazer planos para manter-se vivo enquanto não é resgatado. Utilizando-se de sua experiência e seus conhecimentos de física e matemática, ele calcula milimetricamente cada porção de comida, cada fração de oxigênio e cada possibilidade de ser descoberto pelos cientistas na Terra. O que ele não sabe é que, mesmo depois de ter sua sobrevivência descoberta (por acaso), os planos da agência não são tão favoráveis assim em relação a seu resgate. É somente quando as forças do governo, de cientistas estrangeiros e de sua própria equipe são reunidas que um mirabolante e arriscado plano é posto em prática - mesmo sem a certeza de que dará certo.

Com um roteiro surpreendente, que versa sobre teorias complexas mas nunca deixa o público alienado, "Perdido em Marte" tem duas linhas narrativas empolgantes, cada uma com seu próprio ritmo e tom. Enquanto Watney inventa e reinventa modos de comunicação com a Terra e meios de sobreviver com a escassez de comida e oxigênio, membros de diversas agências científicas tentam encontrar soluções para o problema - a essa altura já compartilhado pelo mundo inteiro. Matt Damon dá um show na pele do perseverante protagonista, injetando um senso de humor inesperado a uma espécie de Robinson Crusoé da era moderna. É ele quem comanda o espetáculo - e sua indicação ao Oscar foi extremamente justa, uma vez que ele praticamente atua sozinho por mais de duas horas de sessão. Dividindo a atenção com sua odisseia, as manobras científicas para resgatá-lo igualmente seguram a plateia na poltrona, equilibrando com maestria momentos de pura tensão com cenas brilhantemente executadas, onde se destacam a edição de som e os efeitos visuais (também indicados ao Oscar). É mérito do roteiro e da direção costurar com tanta precisão o drama e a ação, levando o espectador a uma experiência divertida e altamente competente. Com uma trilha sonora onde se destacam sucessos conhecidos do público - "I will survive", de Gloria Gaynor e "Starman", de David Bowie surgem em momentos exatos - e um tom de esperança louvável, "Perdido em Marte" consegue também a façanha de ser o primeiro filme ambientado em Marte a se dar bem na bilheteria e na opinião dos críticos - depois que os execráveis "Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", ambos de 2000, praticamente estragaram o planeta por mais de uma década com seus roteiros tenebrosos. É um êxito merecido, de um cineasta ainda não devidamente reconhecido pela Academia.

HERÓIS IMAGINÁRIOS

HERÓIS IMAGINÁRIOS (Imaginary heroes, 2004, Signature Pictres, 111min) Direção e roteiro: Dan Harris. Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Música: Deborah Lurie. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Rick Butler/Mila Khalevich. Produção executiva: Rudy Cohen, Jan Fantl. Produção: Illana Diamant, Moshe Diamant, Frank Hubner, Art Linson, Gina Resnick, Denise Shaw. Elenco: Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Emile Hirsch, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirde O'Connell, Ryan Donowho, Suzanne Santo. Estreia: 14/9/04 (Festival de Toronto)

A princípio, tem-se a nítida impressão de que "Heróis imaginários" é uma versão modernizada de "Gente como a gente", estreia de Robert Redford como cineasta, que ganhou os Oscar de melhor filme e direção de 1980: uma família já com uma saudável cota de problemas precisa lidar com o suicídio do primogênito enquanto o caçula, ainda adolescente, tenta encontrar o equilíbrio necessário para sobreviver em um mundo pouco hostil. Porém, não precisa-se de muito tempo para perceber, com uma dose de alívio, que o filme de Dan Harris pode até ter se inspirado na produção estrelada por Donald Sutherland e Mary Tyler Moore, mas tem personalidade própria. Em seu primeiro longa-metragem como diretor - em seu currículo já constava o roteiro de "X-Men 2" (2003) - Harris, com 35 anos à época do lançamento do filme, demonstra maturidade surpreendente ao falar de luto, desajuste social e angústias de todo tipo sem cair na armadilha do sentimentalismo barato nem mesmo quando ameaça descambar para o dramalhão.

Apesar de ser Sigourney Weaver o grande nome do elenco, o real protagonista de "Heróis imaginários" é o jovem Emile Hirsch, que quatro anos mais tarde se consagraria no papel central de "Na natureza selvagem", dirigido por Sean Penn. Hirsch interpreta Tim Travis, o filho mais novo de uma família aparentemente normal que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o primogênito, Matt (Kip Pardue), comete suicídio. Exímio nadador e orgulho do pai, Ben (Jeff Daniels), Matt só consegue manifestar sua infelicidade crônica com a vida dando um tiro na cabeça. Sua morte violenta e inesperada joga toda a família em uma espiral de angústia da qual cada um só consegue emergir da própria maneira. Ben, o pai, passa a andar a esmo pelas ruas e faltar ao trabalho. A mãe, Sandy (Sigourney Weaver), apela para pequenas transgressões, como fumar maconha e flertar com rapazes mais jovens. A filha universitária, Penny (Michelle Williams dando início a uma série de filmes dramáticos que passariam a lhe dar prestígio), passa a frequentar cada vez menos o lar. E Tim, que teve o azar de encontrar o corpo do irmão, luta para enfrentar os problemas da adolescência ao mesmo tempo em que procura encaixar-se em um núcleo familiar cada vez menos atraente e significativo.


Emprestando a Tim seu talento em parecer vulnerável e introvertido, Emile Hirsch cabe como uma luva no papel do protagonista, sem carregar nas tintas dramáticas nem quando segredos de família e a verdade sobre sua relação com o irmão surgem com a força de um caminhão desgovernado. Amparado pela atuação sensível e discreta de Sigourney Weaver - responsável por alguns dos melhores momentos do filme - o jovem ator alcança a rara façanha de criar um personagem melancólico na medida certa, sem forçar a compaixão da plateia ou buscar o caminho mais fácil de conquistar sua simpatia. Seu Tim é repleto de nuances - todas exploradas com delicadeza e bom senso, graças ao roteiro do diretor - e é louvável como o cineasta consegue atingir todas as notas de sua trama mesmo quando opta por revelar todos os seus elementos aos poucos, como uma jornada de autodescoberta dolorida mas imprescindível. Como em todos os bons filmes sobre a difícil travessia da infância para a vida adulta, "Heróis imaginários" tem em seu caminho decepções, alegrias e uma bem-vinda dose de otimismo que dá o equilíbrio exato entre a tristeza das perdas e a felicidade de se estar vivo.

Sem pretensões a tornar-se retrato de uma geração, "Heróis imaginários" é o recorte de um ritual de passagem, pura e simplesmente. Torna-se especial graças ao roteiro sensível, à direção inspirada de um cineasta ainda bastante jovem e antenado e a um elenco em estado de graça, capaz de transformar sentimentos comuns em matéria-prima de uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social ou qualquer tipo de família. É a essência de "Gente como a gente", mas tornada mais acessível a uma plateia jovem e com valores um tanto diferentes daqueles revelados por Redford no final da década de 70 - um exemplo disso são as relações de Tim com sua namorada, Steph (Suzanne Santo) e com seu melhor amigo e vizinho, Kyle (Ryan Donowho), bem mais ousadas do que no filme oscarizado. O conteúdo principal ainda é forte e contundente, mas a forma é mais moderna e atraente para as novas plateias. Vale ser descoberto e apreciado por quem procura bons dramas familiares, mas sua despretensão o impede de ser ainda melhor.

domingo

A DIFÍCIL ARTE DE AMAR

A DIFÍCIL ARTE DE AMAR (Heartburn, 1986, Paramount Pictures, 108min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, livro de Nora Ephron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Sam O'Steen. Música: Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Susan Bode. Produção: Robert Greenhut, Mike Nichols. Elenco: Jack Nicholson, Meryl Streep, Jeff Daniels, Maureen Stapleton, Stockard Channing, Richard Masur, Catherine O'Hara, Kevin Spacey, Joanna Gleason, Mercedes Ruehl. Estreia: 25/7/86

Segundo trabalho de Meryl Streep sob o comando de Mike Nichols e um roteiro de Nora Ephron - o primeiro foi "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), que lhe deu uma indicação ao Oscar - "A difícil arte de amar" é a adaptação de um livro da própria Ephron, que pôs no papel, em forma de ficção, a real história de seu casamento com o jornalista Carl Bernstein, o mesmo que, junto com Bob Woodward, expôs o escândalo Watergate e obrigou a renúncia do presidente Richard Nixon (e foi vivido por Dustin Hoffman no filme "Todos os homens do presidente" (86)). Mais conhecido pela bela canção-tema de Carly Simon, "Coming around again", o filme de Nichols é uma amarga e cínica análise de um relacionamento pouco saudável, que aposta no texto ácido de Ephron e no talento de Streep e Jack Nicholson para transformar o que poderia facilmente se tornar uma longa diatribe contra a instituição do casamento em um drama realista, ainda que com a mordacidade típica da roteirista e a elegância de sempre da direção de Nichols.

Quando o filme começa, a escritora nova-iorquina Rachel Samstat (Meryl Streep) e o jornalista Mark Formn (Jack Nicholson, substituindo Mandy Patinkin depois de dois dias de filmagens) se conhecem no casamento de um amigo em comum. Mesmo já tendo passado por relacionamentos não muito felizes, ambos acabam se apaixonando e, depois de deixar as reservas a respeito do assunto de lado, resolvem também subir ao altar. Como todo casal apaixonado, eles compram uma casa - que mais os estressa do que os deixa felizes, graças à sua interminável reforma - e tentam administrar a relação, já que ele continua trabalhando, mas ela abandonou o emprego para mudar-se com ele para Washington. A familia não demora a aumentar, mas nem mesmo a filha pequena impede Mark de embarcar em um caso extraconjugal que ameaça jogar tudo por terra. Traída, Rachel acaba por perdoar o marido, mas a confiança abalada mostra-se cada vez mais ameaçadora à tranquilidade do casal, especialmente com uma segunda gravidez na jogada.


Não é de surpreender que o roteiro de Ephron, assim como o livro que lhe deu origem, ponha a maior parcela de culpa no fracasso do casamento entre Rachel e Mark no jornalista, uma vez que a trama é contada quase do ponto de vista da personagem de Streep (que, mais uma vez, está soberba), mas é preciso admirar a forma como Nichols tenta fugir da tentação de apontar qualquer dedo, mostrando que em qualquer relação existe dois lados a considerar. Ter Jack Nicholson como a segunda metade do casal não atrapalha em nada, apesar do eterno ar cínico do ator complicar quando seu personagem tenta convencer Rachel - e por contrapartida a audiência inteira - de seu arrependimento. Mark Forman não é um papel simpático, e Nicholson faz o que pode para que a alta dose de maniqueísmo imposta pelo roteiro não prejudique sua comunicação com o público - não foi à toa que Dustin Hoffman recusou o papel, talvez também para não reviver com Meryl Streep um casamento fracasso como o que viveram em "Kramer x Kramer" (79). Segundo o roteiro, não existe algoz mais fatal para uma relação do que o adultério, mesmo que o tédio, a frutração profissional e a falta de tesão também estejam na equação, e esse quase simplismo acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme.

Com o talento de Ephron em tirar humor das mais trágicas e sérias situações - talento esse que ficaria patente com o sucesso de suas comédias românticas "Sintonia de amor" (93) e "Mensagem pra você" (98) - seria de esperar que "A difícil arte de amar" fosse um tanto menos pessimista. No entanto, como forma de catarse, é inegável que a radiografia da relação estragada entre Rachel e Mark funciona às mil maravilhas. Com diálogos escritos com extrema fluência - característica de Ephron - e interpretados por um elenco de sonhos que inclui ainda Jeff Daniels, Stockard Channing, o cineasta Milos Forman e um estreante Kevin Spacey em uma ponta impagável, o roteiro tem ritmo, consistência e um senso de verdade que somente uma história real que não apela para o sentimentalismo de doenças terminais consegue, o filme de Mike Nichols ainda por cima tem a luxuosa participação da trilha sonora charmosa de Carly Simon, que comenta a história com sua voz inconfundível e delicia o espectador. É ela um dos principais motivos para se assistir ao filme - se é que preciso motivos além de Meryl Streep e Jack Nicholson.

segunda-feira

A VIDA EM PRETO E BRANCO

A VIDA EM PRETO E BRANCO (Pleasantville, 1998, New Line Cinema, 124min) Direção e roteiro: Gary Ross. Fotografia: John Lindley. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção executiva: Michael De Luca, Mary Parent. Produção: Robert J. Degus, Jon Kilik, Gary Ross, Steven Soderbergh. Elenco: Tobey Maguire, Joan Allen, Jeff Daniels, Reese Witherspoon, William H. Macy, J.T. Walsh, Paul Walker. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original (Drama), Figurino, Direção de Arte/Cenários

De vez em quando, apesar da mesmice do cinemão americano, surge uma pequena pérola, um filme que, dentro de sua aparente simplicidade, conquista pela inteligência e pela delicadeza. Em 1998, esse filme foi "A vida em preto e branco", uma deliciosa comédia romântica que, por trás de uma sátira carinhosa aos seriados de televisão dos anos 50 - com suas famílias perfeitas e um mundo cor-de-rosa - esconde uma poderosa crítica ao fascismo moral e ao preconceito. Escrita e dirigida por Gary Ross - que cinco anos depois veria seu quadradinho "Seabiscuit, alma de herói" ser alçado à importante indicação ao Oscar de melhor filme - a co- produção de Steven Soderbergh é um deleite para os olhos e para a alma.

A princípio, parece bem bobinho - e talvez seja essa a intenção de Ross: um casal de irmãos gêmeos, a exuberante Jennifer (Reese Witherspoon antes da fama que acabou lhe rendendo um Oscar) e o introvertido David (Tobey Maguire) começam a brigar pela posse do controle remoto da televisão, cada um acreditando ter motivos mais fortes que o outro para ter o domínio da programação. Enquanto Jennifer espera assistir a um programa musical ao lado do colega de escola por quem tem uma forte atração, David prefere dedicar-se à "Maratona Pleasantville", que irá mostrar, sem interrupção, diversos episódios de sua série preferida - e acabar com um quiz que pode lhe dar um prêmio. A briga é interrompida quando o controle quebra e eles recebem a visita de um misterioso homem, que, ao invés de consertá-lo, joga os dois dentro do programa adorado por David. De uma hora pra outra, os dois adolescentes dos anos 90 - acostumados com refeições saudáveis e uma vida sem normas muito rígidas de comportamento social - se veem em um mundo totalmente diferente, tanto em termos morais quanto estéticos.


Enquanto David - acostumado com as regras desse novo mundo e ciente de todos os meandros de sua sociedade - sai-se bastante bem na suas tentativas de integrar-se a ele, Jennifer, rebelde por natureza, passa a questionar um por um dos itens que fazem da cidade um exemplo de convivência pacífica e apática. Seu desejo liberador por Skip Martin (Paul Walker) é o catalisador de uma profunda transformação na pacata Pleasantville, que nunca antes havia falado, pensado ou imaginado qualquer coisa relacionada à sexo ou sentimentos que pudessem abalar o status quo. Com a chegada dos irmãos, o mundinho em preto-e-branco da cidade começa a colorir-se conforme as pessoas passam a experimentar novas sensações - e até a mãe do casal, Betty (Joan Allen) descobre que amor é algo bem diferente da comodidade indiferente que sente ao lado do marido (em uma sequência genial onde ela encontra o caminho para a satisfação sexual em um banho de banheira que acaba dando trabalho aos bombeiros da cidade, que até então não faziam nada mais do que salvar gatinhos em árvores).

Utilizando-se de metáforas visuais para atacar o conformismo - e as tentativas ditatoriais para mantê-lo como forma de controle - "A vida em preto e branco" tem o mérito de não esquecer, em momento algum, que, antes de receber uma mensagem, o público procura uma boa história, narrada com coerência e clareza. E isso não é negado à plateia do filme de Ross, que testemunha, diante de seus olhos, uma trama delicada, por vezes engraçada e muito comovente, contada com recursos visuais deslumbrantes. Da fotografia de John Lindley até a criação de toda a Pleasantville - passando pela trilha sonora emocionante de Randy Newman, que comporta inclusive um versão de "Across the universe" na voz de Fiona Apple - tudo conflui para um resultado nunca aquém de soberbo, capaz de encantar qualquer audiência que se disponha a abrir o coração. Um pequena obra-prima.

sábado

BOA NOITE E BOA SORTE

BOA NOITE, E BOA SORTE (Good night, and good luck, 2005, Warner Independent Pictures, 93min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Jim Papoulis. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jim Bissell/Jan Mascale. Produção executiva: Marc Butan, Ben Cosgrove, Mark Cuban, Jennifer Fox, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Steven Soderbergh, Todd Wagner. Produção: Grant Heslov. Elenco: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Frank Langella, Ray Wise, Tate Donovan. Estreia: 23/9/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Clooney), Ator (David Strathairn), Roteiro Original, Fotografia, Direção de arte/cenários

Ser um dos mais populares atores de Hollywood tem suas vantagens e George Clooney sabe disso muito bem. Depois de ter conseguido sair incólume até mesmo do estrago geral causado pelo fracasso monumental de "Batman & Robin " o ex-galã de "Plantão médico" estreou na direção com o elogiado "Confissões de uma mente perigosa" , deu gordas bilheterias à Warner Bros com seus divertidos filmes como Danny Ocean e quando todo mundo achava que ele estava confortável em seu título de astro eis que ele resolve inovar novamente. Com o custo de apenas 7 milhões de dólares - o que não paga nem um terço de seu salário habitual - ele realizou uma pequena obra-prima que revelou suas preocupações políticas e sociais. Baseado em uma história real - e lançado em preto-e-branco - "Boa noite, e boa sorte" conquistou a crítica, o público (arrecadou uma bilheteria de mais de 30 milhões) e a Academia, conquistando seis indicações ao Oscar, incluindo filme, diretor, ator e roteiro original.

Assim como fez em seu primeiro filme como diretor - que contava a história do produtor de TV e agente da CIA Chuck Barris, mesmo que de forma anárquica - em "Boa noite, e boa sorte" Clooney optou por narrar uma história real, que não apenas mostra os bastidores da TV americana dos anos 50 como também lança luz sobre um dos períodos mais negros da política ianque: o macarthismo - quando o senador Joseph McCarthy comandou uma verdadeira caça às bruxas contra o comunismo ou uma simples suspeita relacionada a ele. O protagonista dessa vez é Edward R. Morrow (David Strathairn), apresentador de um dos programas jornalísticos mais populares da CBS que, em 1953 - no auge da histeria liderada pelo senador - resolve tomar partido contra ele, contando com o apoio de seu produtor, Fred Friendly (vivido pelo próprio ator/diretor). Mesmo sabendo que estão lutando contra uma causa perigosa que pode lhes custar os empregos e a liberdade, os dois batem de frente com McCarthy, com o objetivo de mostrar à população o enorme manancial de erros e ilegalidades que o político utiliza em sua cruzada.



Lançado em um período em que o governo americano não estava exatamente em seus melhores dias - com a rejeição aos desmandos de George W. Bush - "Boa noite, e boa sorte" recupera, em sua atmosfera e em seu roteiro enxuto e contundente, a importância de filmes engajados e de temática política (ainda que, felizmente, nunca tenha a intenção de soar didático ou panfletário). Inspirado em sua figura paterna (que era âncora de um telejornal da CBS), Clooney construiu um filme que vai se montando aos poucos, delicadamente, para dar à audiência uma visão ampla e fidedigna dos acontecimentos. A bela fotografia de Robert Elswit (indicada merecidamente ao Oscar) compõe o clima da obra, assim como a impecável reconstituição de época e os números de jazz simetricamente espalhados pela projeção. Dono também de um roteiro que confia na inteligência do seu público, o filme conta ainda com um elenco absolutamente excepcional, em que cada ator - por menos tempo que apareça em cena - colabora intensamente para o resultado final.

Além do próprio George Clooney em papel coadjuvante, "Boa noite, e boa sorte" apresenta em seus créditos nomes consagrados como Robert Downey Jr., Jeff Daniels, Frank Langella e Patricia Clarkson, além de uma interpretação espetacular de David Strathairn no papel de Edward R. Morrow. Sutil, econômico e no controle absoluto de seu desempenho, o vilão de "Los Angeles, cidade proibida" dá um show em sua primeira real oportunidade como protagonista - desde que não se contem seus trabalhos com o independente John Sayles, praticamente desconhecidos pelo grande público. Sua interpretação só não foi premiada com o Oscar porque esbarrou justamente em Philip Seymour Hoffman com seu desempenho espírita em "Capote" - e demonstra que mesmo sendo apenas uma atuação, ainda consegue ser mais crível do que as imagens do senador McCarthy: vários espectadores reclamaram que "o ator" que intrepretava o político era muito canastrão, ignorando se tratar de imagens de arquivo. E viva a arte!

segunda-feira

AS HORAS

AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

sexta-feira

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.



O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

quarta-feira

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.


Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...