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sábado

INDISCRIÇÃO

INDISCRIÇÃO (Christmas in Connecticut, 1945, Warner Bros, 101min) Direção: Peter Godfrey. Roteiro: Lionel Houser, Adele Commandini, estória de Aileen Hamilton. Fotografia: Carl Guthrie. Montagem: Frank Magee. Música: Frederick Hollander. Figurino: Milo Anderson. Direção de arte/cenários: Stanley Fleischer/Casey Roberts. Produção executiva: Jack L. Warner. Produção: William Jacobs. Elenco: Barbara Stanwyck, Dennis Morgan, Sydney Greenstreet, Reginald Gardiner, S. Z. Sakall, Robert Shayne, Una O'Connor, Frank Jenks, Joyce Compton, Dick Elliott. Estreia: 11/8/45

O fim da II Guerra Mundial, em agosto de 1945, não foi um alívio apenas econômico e social: parecia que finalmente, com a derrota da Alemanha nazista, as coisas iriam voltar ao normal, inclusive em Hollywood. Era hora de comemorar a vitória e ter esperanças de um futuro mais auspicioso - e antes que filmes sobre o conflito e seus personagens começassem a pipocar nos cinemas, contando a história já com gostinho de ufanismo, nada mais certeiro do que agradar ao público com comédias leves e despretensiosas, que combinassem com o novo astral. E um dos primeiros filmes a se beneficiarem dessa euforia não poderia caber melhor nessa receita: dirigido pelo britânico Peter Godfrey (um nome reconhecido dos palcos ingleses), "Indiscrição" é uma deliciosa comédia romântica, estrelada por uma atriz mais lembrada por seus papéis dramáticos do que por seus dotes cômicos. Uma bela surpresa para muitos, o show maior do filme de Godfrey é de Barbara Stanwyck, que herdou a protagonista com a saída de Bette Davis do projeto.

Recém saída de "Pacto de sangue" (1944), um de seus filmes mais populares - e onde encarnou uma típica femme fatale do cinema noir -, Stanwyck se reinventa como heroína cômico/romântica, um papel que, futuramente, poderia tranquilamente ser encarnado por Meg Ryan ou Katherine Heigl (mas talvez sem o mesmo resultado). Sem apoiar-se na beleza ou sensualidade, a atriz constrói sua Elizabeth Lane a partir de uma série de mal-entendidos que vão revelando, aos poucos, sua verdadeira natureza sentimental: a princípio uma mulher sem interesses na vida doméstica ou familiar, Lane vai, aos poucos, se apresentando diante do público como uma típica protagonista do gênero - ainda que muito mais independente e geniosa que a maioria delas. Ligeiramente inspirada em uma personalidade real - uma colunista chamada Gladys Taber, colaboradora da revi, sta Family Circle, então popular -, Lane é a antítese da mulher desprotegida e ingênua: conhecida nacionalmente por sua coluna na revista Smart Housekeeping, ela mantém a imagem de dona-de-casa exemplar, encantando seus leitores com a descrição de uma vida simples ao lado do marido, do filho e de um grande talento na cozinha. Acontece que, na verdade, esta imagem não corresponde à verdade, uma vez que ela não apenas é solteira como jamais morou na fazenda onde diz morar e tampouco saber fritar sequer um ovo. Tudo poderia ficar eternamente dessa forma, mas uma inesperada situação muda completamente sua rotina.


Às vésperas do Natal, o editor da revista, Alexander Yardley (Sydney Greenstreet), lhe comunica que, como uma espécie de ação de marketing, irá proporcionar a um soldado recém chegado da guerra que passe os feriados de final de ano junto com a família de Elizabeth. Pior ainda: ele mesmo irá unir-se ao grupo, no que considera um grande e feliz evento. Com medo da possibilidade de ser desmascarada e perder o emprego, a colunista toma uma atitude desesperada e aceita se casar com um dedicado pretendente, John Sloan (Reginald Gardiner) - dono de uma fazenda no interior de Connecticut. Seu plano é tentar manter as aparências até o fim do feriado, com a ajuda do amigo Felix Bassenak (S. Z. Sakall), um chefe de cozinha que é o verdadeiro dono das receitas que ela publica - mas as coisas saem do previsto quando ela se apaixona pelo soldado, Jefferson Jones (Dennis Morgan), e põe em risco o teatro. A partir daí, é um festival de troca de bebês, diálogos inspirados, mal-entendidos e um toque de romance na medida certa.

Apesar do título original - "Natal em Connecticut" - e do tema, "Indiscrição" estreou nos EUA no mesmo mês de agosto que decretou o final da guerra. Teve sorte: fez um enorme sucesso de bilheteria, principalmente pelo tom alto astral e pela despretensão. Com o objetivo único de entreter e fazer esquecer (ao menos por 100 minutos) os horrores de um conflito que já durava anos, o filme encontrou seu público e rendeu muito mais do que seu estúdio, a Warner, esperava. Foi um sucesso merecido: é engraçado, leve, dinâmico e inteligente como um bom passatempo deve ser. Não é dos clássicos mais conhecidos, mas até mesmo quem tem preconceito contra o gênero pode perceber suas qualidades. É um filme que merece ser redescoberto!

O VINGADOR INVISÍVEL

O VINGADOR INVISÍVEL (And then there were none, 1945, Rene Clair Productions, 97min) Direção: Rene Clair. Roteiro: Dudley Nichols, romance de Agatha Christie. Fotografia: Lucien N. Andriot. Montagem: Harvey Manger. Música: M. Castelnuovo-Tedesco. Figurino: René Hubert. Direção de arte/cenários: Ernst Fegte/Edward Boyle. Produção: Rene Clair. Elenco: Barry Fitzgerald, Walter Huston, Louis Hayward, Roland Young, June Duprez, Judith Anderson, Mischa Auer, C. Aubrey Smith, Richard Haydn, Queenie Leonard. Estreia: 31/10/45


Publicado como romance em 1939 e lançado como peça de teatro em 1944 – com o título modificado para “Os dez indiozinhos” – o instigante “O caso dos dez negrinhos” adquiriu, com o tempo, a aura de uma das mais surpreendentes e brilhantes tramas policiais de todos os tempos. Escrita pela inglesa Agatha Christie, merecidamente conhecida como A Rainha do Crime, a história de um justiceiro misterioso que se propõe a executar um grupo de pessoas culpadas de outros assassinatos recebeu inúmeras versões para a TV e o cinema, mas nunca atingiu a todas as suas possibilidades dramáticas. Quem mais perto chegou de ser bem-sucedido na missão foi o francês René Clair, já trabalhando em Hollywood. Com “O vingador invisível”, ele foi o mais fiel possível ao enredo proposto pela escritora, pecado apenas por alterar sensivelmente seu desfecho – erro no qual todos os remakes incorreram – e apostar em um senso de humor que, se combina com a nacionalidade da autora, acaba por suavizar desnecessariamente o suspense.

Assim como a peça e o livro – cujo título foi alterado para “E não sobrou nenhum” para evitar as acusações de racismo feitas à época – a história de "O vingador invisível" começa com a chegada de oito pessoas, desconhecidas entre si, à uma ilha, respondendo ao chamado de um misterioso Mr. Owen, que, logo todos irão descobrir, não é conhecido de nenhum deles. A essa primeira surpresa logo sucedem-se outras, principalmente quando, na hora do jantar, todos os convidados (e o casal de empregados contratados especificamente para a ocasião) são acusados, através de uma gravação, de terem cometidos assassinatos e saído impunes de tais atos. Chocados e surpreendidos, eles demoram a perceber outro objetivo radical de seu anfitrião: somente depois da morte de dois dos presentes – em circunstâncias que refletem uma cantiga infantil conhecida de todos – é que surge a realidade: eles estão presos na ilha e irão morrer assassinados pela misteriosa pessoa que os convidou – e que provavelmente é um deles.


Um dos maiores pecados do roteiro de Dudley Nichols é diluir a tensão psicológica do texto original e esvaziar boa parte do drama dos personagens – que no filme servem, de certa forma, a ser apenas potenciais vítimas de um dos primeiros psicopatas da história da literatura policial a ser tratado com inteligência. É assim que quase nenhum dos personagens criados por Agatha Christie consegue envolver o público a ponto de causar empatia. Até mesmo o romance surgido entre a jovem secretária Vera Claythorne (June Duprez) e Philip Lombard (Louis Hayward) não convence, enquanto a tentativa de fazer humor com algumas sequências de pastelão envolvendo o empregado Thomas Rogers (Richard Haydn) e o Príncipe Nikita Starloff (Mishca Auer) surgem como desvios de foco desnecessários e bobos. A opção de René Clair em evitar o sangue também enfraquece o resultado – nenhum corpo é mostrado explicitamente, e o que poderia ser um diferencial interessante e elegante em relação aos baldes de sangue despejados pelo cinema atual, acaba por ser anticlimático.

E por falar em anticlímax, é imprescindível dizer que o desfecho da trama também não faz jus à obra original. Por mais que seja o mais próximo que o cinema já chegou do livro, o final criado pelo cineasta decepciona o leitor apaixonado e tira de quem nunca teve contato com o romance o impacto de um desenlace dos mais corajosos da literatura policial. Ainda que um livro e um filme tenham necessariamente linguagens diferentes – e o encerramento do livro certamente é um desafio a qualquer roteirista – nada justifica a falta de força dos momentos finais do filme. Até mesmo um dos grandes trunfos de suspense da história (a destruição dos bonecos em forma de índios que enfeitam a sala de jantar e que acontece a cada morte) é tratado banalmente por Clair, um cineasta cujo currículo inclui obras festejadas, como “A nós, a liberdade” – que inspirou Chaplin a criar seu “Tempos modernos” - mas que, apesar do sucesso de crítica, não conseguiu ter a mesma desenvoltura em sua tentativa de adaptar Agatha Christie. Ainda assim, é bom que se diga, “O vingador invisível” é a melhor das adaptações do romance e da peça – que ainda espera um filme à altura de sua genialidade.

sexta-feira

QUANDO FALA O CORAÇÃO

QUANDO FALA O CORAÇÃO (Spellbound, 1945, Selznick International Pictures, 111min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ben Hecht, adaptação de Angus MacPhall, romance "The house of Dr. Edwardes", de Frances Beeding. Fotografia: George Barnes. Música: Miklós Rozsa. Direção de arte: James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming. Estreia: 31/10/45

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alfred Hitchcock), Ator Coadjuvante (Michael Chekhov), Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original (Drama ou Comédia), Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Drama ou Comédia) 

Poderia esperar-se tudo de um filme que reunisse a maestria técnica de Alfred Hitchcock, o surrealismo consagrado de Salvador Dali e as ainda revolucionárias ideias de Sigmund Freud. Mas "Quando fala o coração", o projeto que conseguiu tal proeza acabou por não assumir a importância devida na filmografia do mestre do suspense. Soterrado sob obras-primas incontestáveis como "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e "Psicose" - entre vários outros, ao gosto do freguês - o longa que misturou no mesmo pacote suspense, psicanálise e Ingrid Bergman acabou ficando marcado principalmente pela breve sequência imaginada por Dali, uma ideia de Hitchcock acatada pelo produtor David O. Selznick mais pelas possibilidades comerciais de tal encontro do que exatamente pela coragem de experimentação.

Levemente inspirado no romance "The house of Dr. Edwardes", de Frances Beeding - uma obra muito mais radical em termos de mergulho na loucura - "Quando fala o coração" surgiu basicamente da ideia de Hitchcock em flertar com a psicanálise, um assunto ainda pouco abordado pelo cinema. Com os direitos do livro comprados por 40 mil dólares e um elenco formado por escolhas que não eram as originais - Gregory Peck no lugar de Joseph Cotten e Cary Grant, e Ingrid Bergman substituindo Dorothy McGuire e até uma Greta Garbo não convencida pelo cineasta a abandonar sua precoce aposentadoria - o filme acabou por decepcionar muita gente. Hitchcock o considerava apenas "mais uma história sobre a caçada a um homem, mas dessa vez envolvida em psicanálise". O fotógrafo William Cameron Menzies, responsável pelas cenas criadas por Salvador Dali, pediu que seu nome fosse retirado dos créditos por não ter ficado satisfeito com o resultado final. O diretor não se contentou com a atuação de Gregory Peck - que por sua vez não se enquadrava com os métodos do cineasta, que ia de encontro à sua forma de construção de cada cena. E, não bastasse tudo isso, até mesmo o produtor Selznick teve sua cota de desgosto, implicando com a trilha sonora de Miklós Rozsa - que, por ironia, ganhou o Oscar da categoria, batendo a si mesmo pela partitura de "Farrapo humano" (que ele preferia).


Abrindo seu filme com uma citação de Shakespeare - "A culpa não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos", de "Júlio César" - Hitchcock volta a utilizar uma história de amor como base para uma trama de suspense. É o amor que move a dra. Constance Peters (Ingrid Bergman) - psicanalista dedicada - quando ela descobre que o novo diretor do hospital psiquiátrico no qual trabalha, o misterioso dr. Edwardes (Gregory Peck), não é quem diz ser. Amnésico, ele assumiu a identidade do médico e passa a acreditar que o matou. Apaixonada, Constance junta-se a ele na busca pela verdade, e para isso, faz uso de seu conhecimento de psicanálise, assim como da ajuda de um antigo professor (Michael Chekhov, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Seu objetivo, além de descobrir quem é de verdade o homem que ama e os motivos de seu trauma, é desvendar o desaparecimento e a morte do verdadeiro diretor do hospital.

Longe do brilhantismo de seus melhores trabalhos, Hitchcock parece ter se apaixonado tanto pelas teorias psicanalíticas do roteiro de Ben Hetch que muitas vezes deixa que longos diálogos substituam a ação que tanto marcou sua trajetória. Mesmo que algumas sequências sejam uma amostra do melhor do cineasta - quando Constance encara o verdadeiro criminoso e a câmera mostra a arma que ele porta através de seu ponto de vista, por exemplo - é inegável que o resultado é aquém de seus grandes filmes. Centrando suas forças na atuação sempre forte de Ingrid Bergman e nas reviravoltas do roteiro, Hitch acaba por abdicar das maiores qualidades de seu cinema. Mas é claro que, em se tratando de quem é, ele jamais decepciona totalmente - qualquer filme seu, por menor que seja, sempre é uma aula de narrativa e técnica. É impossível não se envolver com seus personagens ou suas histórias - e contar com a ajuda luxuosa de Dali e Freud não tem como atrapalhar.

quarta-feira

FARRAPO HUMANO

FARRAPO HUMANO (The lost weekend, 1945, Paramount Pictures, 101min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, romance de Charles R. Jackson. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Doane Harrison. Música: Miklós Rósza. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hans Dreier, A. Earl Hedrick/Bertram Granger. Produção: Charles Brackett. Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard da Silva, Doris Dowling. Estreia: 16/11/45

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland)
Vencedor de 2 prêmios no Festival de Cannes: Ator (Ray Milland), Grande Prêmio 


Com medo das possíves consequências financeiramente desastrosas de um filme que abordasse sem meias-verdades o drama do alcoolismo, a indústria de bebidas dos EUA chegou até a Paramount Pictures em 1945 com uma proposta inusitada: comprar os negativos do novo filme de Billy Wilder por 5 milhões de dólares para impedir seu lançamento nos cinemas. É lógico que o estúdio declinou da oferta, e Wilder, irônico como sempre, declarou anos mais tarde que se tivesse sido ele o destinatário de tão generosa oferta a resposta teria sido positiva. Uma piada, é claro, já que sem “Farrapo humano” o cineasta austríaco não teria se firmado como um dos maiores diretores de Hollywood de todos os tempos – e de quebra, não teria ganho também seu primeiro Oscar (e o segundo, também, já que dividiu com seu parceiro habitual Charles Brackett a estatueta de roteiro). Incensado por crítica e pelo Festival de Cannes, “Farrapo humano” ainda saiu da cerimônia da Academia com dois outros importantes prêmios: melhor filme e ator (Ray Milland).

Até então um ator popular mas pouco levado a sério, Milland hesitou em aceitar dar a virada que sua carreira tanto precisava. O mundo estava saindo da II Guerra e um filme sério e pesado sobre o vício em álcool e seus efeitos não parecia algo que o público fosse adotar para fins de entretenimento. Essa não era, no entanto, a opinião de Billy Wilder, que, depois de ler o romance “The lost weekend”, de Charles R. Jackson, em uma viagem de trem, decidiu que sua adaptação seria seu filme seguinte ao noir “Pacto de sangue”, baseado no livro de Raymond Chandler. Ainda impressionado com as dificuldades que passou com Chandler durante a feitura do roteiro do filme – o escritor sofria de alcoolismo – Wilder imediatamente convenceu seu amigo Charles Brackett a acompanhá-lo no desafio de fazer do anti-heroi criado por Jackson um protagonista simpático o suficiente para não afugentar as plateias das salas de exibição. Depois que Cary Grant e José Ferrer recusaram estrelar a produção – talvez por medo que ela pudesse fracassar e matar suas carreiras – o estúdio acabou convencendo Ray Milland de que o papel poderia ser um divisor de águas em sua trajetória de ator. Mergulhado com dedicação na busca por uma atuação convincente, Milland acabou por passar por dificuldades inusitadas – internado espontaneamente na ala para dependentes de álcool em um hospital nova-iorquino, ele tentou fugir apavorado com o que viu e demorou a convencer os funcionários de que era apenas laboratório – e se viu, no fim do processo, não só com o Oscar de melhor ator, mas também com o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o Golden Globe.


Não é para menos: na pele de Don Birman, um escritor em meio a uma enorme crise criativa que tanto foi o catalisador de seu vício quanto sua consequência, Milland entrega uma performance de intensidade rara. Era a primeira vez que o cinema americano mostrava uma vítima de alcoolismo sem apoiar-se no humor ou como parte do elenco de coadjuvantes. Mais do que isso, o roteiro de Wilder e Brackett tampouco caía na tentação de fazer de seu protagonista um bêbado engraçadinho ou simpático, vítima das circunstâncias. Birman não hesita em mentir e roubar para sustentar seu vício, chegando a ser humilhado e sofrer na pele desde o desespero da abstinência até as temidas alucinações - que lhe chegam durante sua internação em um hospital que o faz tomar contato com outro lado de sua doença: a partir dali ela não é mais parte de um universo de bares e conversas inconsequentes ou subterfúgios que o fazem disfarçar o problema e minimizá-lo. Enfatizadas pela angustiante trilha sonora de Miklós Rozsa - também indicada à estatueta da Academia - as cenas em que Birman anda pelas ruas de Nova York tentando empenhar sua máquina de escrever para arrumar dinheiro para a bebida e quando rouba a bolsa de uma cliente de um bar são de uma força ainda hoje admiráveis e fascinantes. O "fim-de-semana perdido" do título original - que se refere aos dias em que Birnam aproveita uma viagem do irmão para entregar-se sem medo a seu vício - se escora na trêmula fotografia de John F. Seitz para carregar consigo uma plateia até então desacostumada a viagens tão realistas.

E justamente por causa do realismo de tais cenas, dirigidas com a firmeza e a inteligência características de Billy Wilder, não deixa de ser irônico que, à época de seu lançamento, o filme tenha sofrido tantos ataques. Não bastasse a reação totalmente negativa do público na primeira exibição do filme - segundo o diretor houve risadas do início ao fim da projeção - e o medo da Paramount a respeito de uma história tão pesada, entidades de combate ao vício do álcool se posicionaram contra "Farrapo humano" por acreditar que ele poderia incentivar o consumo da bebida. Quase engavetado pelo estúdio, a produção só chegou às telas devido ao respeito e ao prestígio de Wilder - e para surpresa de todos, o que parecia mais um projeto destinado ao fracasso acabou caindo nas graças da crítica e da Academia. De algo arriscado e corajoso, o filme marcou época, ganhou quatro dos sete Oscar a que foi indicado, levou 3 Golden Globes, dois prêmios no Festival de Cannes e se fixou na memória do público como a mais importante e relevante produção a respeito do tema. Graças ao roteiro conciso (que substituiu a homossexualidade do protagonista por um simples bloqueio criativo sem perder a força da trama), a direção criativa e à atuação milagrosa de Ray Milland, "Farrapo humano" é, ainda hoje, um filme irretocável e moderno.

terça-feira

DESENCANTO

DESENCANTO (Brief encounter, 1945, Cineguild, 86min) Direção: David Lean. Roteiro: Noel Coward, peça teatral "Still life", de sua autoria. Fotografia: Robert Krasker. Montagem: Jack Harris. Direção de arte: L.P. Williams. Produção: Noel Coward. Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey, Cyril Raymond. Estreia: 26/11/45

3 indicações ao Oscar: Diretor (David Lean), Atriz (Celia Johnson), Roteiro
Vencedor do Grande Prêmio do Festival de Cannes 

Não é à toa que o nome do britânico David Lean está atrelado, na mente dos fãs de cinema, a grandes produções épicas: com sua assinatura, filmes como "Lawrence da Arábia" (62), "Doutor Jivago" (65) e "A filha de Ryan" (70) ganharam o carinho da crítica e das multidões - além de estarem sempre na briga pelo Oscar. Mas nem só de grandes orçamentos foi feita a carreira de Lean - um cineasta cujos pais quakers o proibiam, até a adolescência, de assistir a filmes. Um dos exemplos mais fascinantes de sua capacidade de transitar com maestria também entre o intimismo de pessoas comuns surgiu um pouco antes de sua aplaudida versão de "Grandes esperanças", de Charles Dickens. Traindo sua admiração pelo dramaturgo Noel Coward - de quem adaptou três peças teatrais - e seu senso romântico, Lean construiu, em 1945, logo ao gim da II Guerra Mundial, uma sinfonia de olhares e emoções reprimidas chamada "Desencanto".

Baseado em um espetáculo curto de Coward chamado "Still life", "Desencanto" é um drama romântico arrebatador, idealizado e filmado na Inglaterra - ou seja, longe dos domínios do cinema de estúdio de Hollywood. Mais do que uma simples constatação geográfica, tal localização serve também como guia para que se perceba que, apesar de tratar-se de uma história de amor, o filme de Lean está longe de ter como protagonistas um casal glamouroso e acima dos padrões de beleza e charme. Nem a dona-de-casa Laura Jesson (a ótima Celia Johnson, indicada ao Oscar de melhor atriz) nem o médico Alec Harvey (Trevor Howard) são especialmente lindos e muito menos levam vidas excitantes. É impossível à plateia não identificar-se com sua rotina e seus anseios justamente por causa dessa simplicidade cotidiana. E Lean, com extrema competência, sublinha tais mediocridades diárias aos poucos, enfatizando com pequenos gestos o turbilhão emocional de seus personagens principais a partir de seu primeiro e fortuito encontro.


Tal encontro - surgido de um inocente cisco no olho - não é a primeira cena de "Desencanto". De forma brilhante, o roteiro apresenta seus personagens já em meio a seu drama. O bar de uma estação de trens londrina é o cenário do que parece ser apenas uma conversa inofensiva entre um casal de amigos, ambos casados com outras pessoas, enquanto aguardam a chegada da condução do rapaz, que está em vias de embarcar para uma viagem profissional internacional. Antes que possam despedir-se, uma amiga da moça, falante e inconveniente, senta com eles e impede um adeus menos frio. Não seria nada demais se, pouco menos de uma hora e meia depois, o cineasta não mostrasse ao público o que levou os personagens àquela mesa - e o que aquele leve toque no ombro realmente significa. É diante do marido, horas depois, que Laura Jesson irá relembrar, em um doloroso monólogo, tudo que mudou em sua vida nas últimas semanas, desde que seu destino esbarrou, sem querer, no do doutor Alec Harvey.

Assim como Neil Jordan faria mais de cinco décadas mais tarde em "Fim de caso" - baseado no livro de Graham Greene - David Lean usa e abusa da delicadeza ao narrar a história de amor entre Laura e Alec. Casados e até então ciosos de seus deveres conjugais e familiares, ambos relutam em aceitar a paixão que sentem e, posteriormente, tentam esconder inclusive de si mesmos tais sentimentos até então inéditos. São closes nos olhos de Johnson (uma atriz que resistiu por muito tempo antes de abraçar o cinema) e Howard (em seu primeiro papel importante nas telas) que contam, com detalhes, o desenrolar da trama, levando com eles o coração e a atenção da plateia até a peça final do quebra-cabeças, que finalmente dá a real dimensão da cena inicial - que surge após uma série de acontecimentos aparentemente banais capazes de transformar duas vidas.

Belo, devastador e dolorosamente realista, "Desencanto" foi banido por anos na Irlanda, por, segundo os censores locais, mostrar uma adúltera sob um olhar simpático. Mas isso não impediu que o filme fosse lançado em outros países, fizesse grande sucesso, fosse indicado a três Oscar, ganhasse um importante prêmio no Festival de Cannes (ainda engatinhando) e tivesse um forte impacto no futuro cineasta Robert Altman, que o assistiu aos 21 anos de idade e ficou profundamente tocado com a realidade mostrada na tela. Depois do final de uma sessão de "Desencanto" tal reação é plenamente justificável. É uma pequena obra-prima, mais arrasadora do que as brancas areias de "Lawrence da Arábia" e a neve de "Doutor Jivago". Nem só de super produções vive o cinema, afinal.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...