sexta-feira

DOCE LAR

DOCE LAR (Sweet home Alabama, 2002, Touchstone Pictures, 108min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: C. Jay Cox, história de Douglas J. Eboch. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Troy Takaki, Tracey Wadmore-Smith. Música: George Fenton. Figurino: Sophie de Rakoff Carbonell. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Fottrell, Jon Jashni, Wink Mordaunt. Produção: Stokely Chaffin, Neal H. Moritz. Elenco: Reese Witherspoon, Patrick Dempsey, Josh Lucas, Candice Bergen, Fred Ward, Mary Kay Place, Jean Smart, Melanie Lysnkey, Ethan Embry, Dakota Fanning. Estreia: 27/9/02

Não é difícil compreender o enorme êxito de bilheteria de "Doce lar" nos EUA, onde arrecadou mais de 180 milhões de dólares. Em primeiro lugar, é uma comédia romântica açucarada (gênero que se mantém como um dos mais populares mesmo no cínico século XXI). Depois, é o tipo de filme que não ofende ninguém e nem tenta reinventar a roda (e todo mundo sabe que sempre é bom recorrer aos mesmos clichês de sempre vez ou outra). E em terceiro (e talvez mais importante) existe o fator Reese Witherspoon. Desde que "Legalmente loira" fez um inesperado sucesso em 2001, a jovem atriz - à época ainda casada com Ryan Phillippe - tornou-se um dos nomes mais quentes da "nova Hollywood". Carismática, talentosa e dona de uma beleza nada ameaçadora (ou seja, perfeita para agradar às mulheres que levam os namorados ao cinema), Witherspoon é o centro do filme de Andy Tennant e a responsável por torná-lo um agradável e descompromissado entretenimento.

Assumindo o papel que seria de Charlize Theron antes que ela pulasse fora para participar do infame "Encurralada", Witherspoon interpreta Melanie Carmichael, uma promissora estilista de moda que vive o melhor momento de sua vida: além de estar dando os primeiros passos rumo à sua realização profissional, ela acaba de ser pedida em casamento por um dos mais cobiçados solteiros de Nova York, o bem-sucedido Andrew Hennings (Patrick Dempsey), filho da prefeita da cidade (vivida com graça por Candice Bergen). O problema é que, apesar de aparentar ser uma cosmopolita e sofisticada cidadã nova-iorquina, ela na verdade é uma caipira fugida do Alabama, seu estado natal. E o pior ainda: é casada com um namorado da adolescência, Jake Perry (Josh Lucas), que se recusa a conceder-lhe o divórcio. Desesperada para esconder do noivo seu passado (e com o objetivo de exigir de Jake a separação formal), Melanie volta à sua cidade, mas acaba descobrindo que ainda é o objeto dos sonhos de seu ex-marido e que suas raízes são mais fortes do que ela imaginava.



"Doce lar" é mais uma comédia romântica da estirpe politicamente correta que tomou conta da América nos anos 90. Sua ideologia mal-disfarçada não deixa de ser um tanto desconfortável, contrapondo a vida pacata e "verdadeira" do interior do país à correria hedonista e "fútil" das grandes cidades (e fazendo com que todas as personagens relacionadas ao noivo mauricinho soem como pastiches de uma sociedade vazia enquanto sua família e seu ex-marido servem quase como exemplo de pureza e integridade). No entanto, para a sorte do espectador, o roteiro consegue fazer com que tudo seja facilmente assimilável graças a diálogos rápidos e algumas piadas realmente engraçadas, em especial as relacionadas ao amigo de infância de Melanie, o jovem Bobby Ray (Ethan Embry), que precisa lidar com sua homossexualidade em um cenário não especialmente simpático à sua causa. Também é pouco justo com a personagem de Patrick Dempsey (voltando aos poucos ao estrelato que culminaria na série "Grey's anatomy") rivalizá-lo com Josh Lucas em um papel que explora ao máximo seu charme rústico. Não é preciso mais do que dez minutos de Lucas em cena para que a plateia perceba os rumos da história.

É impossível dizer que "Doce lar" é um grande filme. É previsível, é ideologicamente questionável (se bem que ninguém assiste a comédias românticas pensando sobre essas coisas) e não apresenta maiores novidades. Mas é agradável, é simpático e tem Reese Witherspoon fazendo o que faz de melhor. Os fãs não reclamarão jamais!

quinta-feira

POSSESSÃO

POSSESSÃO (Possession, 2002, USA Films/Warner Bros, 102min) Direção: Neil Labute. Roteiro: David Henry Hwang, Laura Jones, Neil LaBute, romance de A.S. Byatt. Fotografia: Jean-Yves Scoffier. Montagem: Claire Simpson. Música: Gabriel Yared. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Len Amato, David Barron. Produção: Barry Levinson, Paula Weinstein. Elenco: Gwyneth Paltrow, Aaron Eckhart, Jeremy Northam, Jennifer Ehle, Lena Headey. Estreia: 16/8/02

Quem diria? Neil LaBute, o responsável pela misoginia em estado puro de "Na companhia de homens", também tem um coração e sabe falar de amor... Diferente de todos os seus trabalhos anteriores - e a lista inclui o chato "Seus vizinhos, seus amigos" e a brilhante comédia "A enfermeira Betty" - o drama romântico "Possessão", baseado em um livro de A.S. Byatt, não apenas costura duas histórias de amor separadas por gerações mas também dá ao ator-fetiche de LaBute, o competente Aaron Eckhart, a chance de mostrar seu lado galante e sedutor sem ter que utilizar de seu charme cafajeste. Fracasso de bilheteria nos EUA (onde arrecadou menos da metade de seu orçamento relativamente pequeno de 25 milhões de dólares), é um filme com personagens reprimidas e aprisionadas a suas próprias regras de conduta. Não é exatamente o tipo de romance que os fãs de Meg Ryan consideram popular.


A despeito do título - idêntico ao do elogiado francês estrelado por Isabelle Adjani em 1981 - "Possessão" não é um filme de terror e nem ao mesmo flerta com qualquer ideia de reencarnação ou ideias afins. O roteiro apresenta ao público duas relações amorosas aparentemente sem maiores ligações que convergem para um final que equilibra o feliz com o melancólico. Eckhart está à vontade como Roland Michell, um americano com ambições de tornar-se um nome respeitado junto aos acadêmicos de literatura britânicos. Em uma pesquisa quase banal, ele dá de cara com um conjunto de cartas de amor escritas pelo poeta Randolph Ash (Jeremy Northam) na era vitoriana. O conteúdo das cartas leva Roland a suspeitar que a destinatária de tal dedicação não era a esposa de Ash mas sim outra poeta de renome, Christabell LaMotte (Jennifer Ehle). Para provar sua teoria, ele procura uma especialista na escritora, a inglesa Maude Bailey (Gwyneth Paltrow), que a princípio desacredita no romance por saber que Christabella tinha uma relação com outra mulher, a possessiva Blanche Glover (Lena Headey). Quando as investigações avançam e o relacionamento entre os dois poetas se transforma de uma possibilidade em uma certeza, os dois estudiosos acabam por perceber que também estão se apaixonando.



Neil LaBute consegue, em "Possessão", unir duas maneiras aparentemente conflitantes de narrativa sem tornar-se confuso ou incoerente. Enquanto investiga a trágica e romanesca relação entre Ash e Christabella ele se serve de todo a tonalidade dramática que a trama exige, usando e abusando da trilha sonora claustrofóbica de Gabriel Yared para sublinhar a sensação de sufocamento que o amor impossível entre os dois causa a eles e àqueles a seu redor. Quando concentra sua atenção no titubeante romance entre Roland e Maude, porém, ele dá à fotografia e à direção de arte tons menos quentes e mais sóbrios, com o objetivo de reiterar a distância imposta pela britânica em relação ao americano, a quem ela considera alguém inferior culturalmente (suposição que se torna cada vez mais forte conforme ele vai mostrando suas atitudes pouco éticas mas muito passionais em relação ao objetivo de sua busca). Talvez essa frieza seja um tanto excessiva (mas muito bem representada por Paltrow, com um belo sotaque em cena) a ponto de fazer com que a química entre a atriz e Aaron Eckhart não seja tão poderosa quanto deveria, mas de certa forma serve de contraponto ao vulcão prestes a explodir entre os dois poetas vitorianos. É quase como se o roteiro quisesse dizer que os dois modernos, jovens e atraentes pesquisadores do século XXI não sabem aproveitar a sorte que tem de poder viver sua história sem devastar as vidas de outras pessoas.

O fracasso de "Possessão" não foi justo. É um romance elegante, sofisticado e adulto que merecia mais sorte e menos críticas negativas. Tem defeitos, sim (e eles são nítidos, em especial quando se percebe a quase falta de jeito de seu diretor em abraçar a tragédia), mas levando-se em consideração a péssima qualidade da maioria dos filmes que tentam conquistar o público através de amores proibidos (quase sempre apelando para os mais vergonhosos clichês), eles são ínfimos. É difícil não se emocionar com o belo final (que proporciona à audiência uma pequena surpresa) e é sempre um prazer ver Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart em cena.

quarta-feira

SINAIS

SINAIS (Signs, 2002, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Barbara Tulliver. Música: James Newton Howard. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowat. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Cherry Jones, Rory Culkin, Abigail Breslin, M. Night Shyamalan. Estreia: 29/7/02

Em primeiro lugar é necessário elogiar o talento que o diretor/roteirista/produtor (e neste filme também ator) M. Night Shyamalan tem em criar climas aterradores. Desde que encantou o mundo com "O sexto sentido", o cineasta indiano (mas criado perto da Filadélfia) encontrou a fórmula para criar, através do som e de imagens cuidadosamente desenhadas, um patamar de suspense que poucos diretores conseguiram atingir. Ainda que tenha sofrido uma queda vertiginosa de qualidade em sua filmografia a partir de "A vila", de 2004, Shyamalan não pode ser acusado de trair suas referências no gênero. E elas estão claramente presentes em "Sinais", seu último filme até hoje que foi realmente capaz de empolgar os cinéfilos (ou ao menos parte deles).

Mais uma vez o clima é o principal elemento que Shyamalan utiliza para estarrecer a audiência e deixá-la grudada na poltrona. Sem apelar para sustos desnecessários (mas nunca evitando a tensão que explode em pulos do sofá) ou para monstros sanguinários, o cineasta volta a provar o grande poder da sugestão em detrimento do explícito. Ao preferir concentrar-se na complexidade dramática de suas personagens (sempre bem escritas e desenvolvidas com delicadeza) e na maneira com que elas agem em circunstâncias adversas (e "adversas" aqui é até eufemismo), o homem que revelou Haley Joel Osment ao mundo exige de sua plateia apenas a empatia necessária para que se embarque na trama sem pestanejar. E faz isso aos poucos, delicadamente, dando tempo para que todas as circunstâncias se apresentem (e façam todo o sentido do mundo nas cenas finais). Cada diálogo escrito por Shyamalan, cada detalhe visual e cada minuto de filme não estão ali à toa. Poucos cineastas conseguem ser tão enxutos sem ser apressados quanto ele. E isso faz toda a diferença.



"Sinais" começa quando os dois filhos pequenos de Graham Hess (Mel Gibson em uma das melhores atuações de sua carreira) descobrem, na plantação de milho de sua fazenda no interior da Pensilvânia, círculos misteriosos semelhantes a outros que estão sendo descobertos pelo mundo todo. A princípio descrente da ameaça que o mistério pode representar, o ex-reverendo (que abandonou a batina após o acidente de carro que matou sua mulher, seis meses antes) aos poucos se deixa convencer pela mídia e por seu irmão caçula Merrill (Joaquin Phoenix) de que tudo é a preparação para uma invasão alienígena de grande porte e violência. Sozinho na fazenda com sua família, ele tenta reencontrar a fé perdida para sobreviver à tragédia.

É interessante perceber, em "Sinais", a forma com que o roteiro se desenrola diante dos olhos do espectador sem que ele se dê conta exatamente do que está acontecendo (o grande trunfo também de "O sexto sentido"). Até perto dos créditos de encerramento tudo leva a crer que trata-se de um suspense de ficção científica que abdica de efeitos especiais exorbitantes (e é inegável que o orçamento generoso de mais de 70 milhões de dólares pagaria por um visual menos pobre dos alienígenas) para homenagear clássicos do gênero, como a primeira versão de "Invasores de corpos". Seu desfecho, porém, mostra uma ambição maior de seu diretor: ele quer questionar a fé de seu público, assim como questionou de suas personagens. Explicar a forma com que ele lança a pergunta ao público seria estragar a surpresa de quem ainda não o assistiu, mas não há problema em dizer que NADA que aconteceu na vida de Hess foi por acaso e tudo estava apenas o levando à situação extrema em que ele se encontra.

Desde sua abertura - com a trilha sonora tonitruante de James Newton Howard emulando o melhor Bernard Herrman de "Psicose" - até suas cenas finais, "Sinais" é (mais) um belo exemplo da seriedade com que M. Night Shyamalan trata o cinema e seu público. O cuidado na direção de atores - incluindo um Mel Gibson em sua melhor forma, em um papel rejuvenescido para combinar com sua idade (Paul Newman e Clint Eastwood foram pensados para o projeto), um Joaquin Phoenix bastante diferente do vilão que interpretou em "Gladiador" e dois atores mirins em ótima forma (Rory Culkin, irmão de Macaulay, e Abigail Breslin, que despontaria para a fama quatro anos depois no ótimo "Pequena Miss Sunshine") - a inteligência na utilização do som e a opção em contar toda a história pelo restrito ponto de vista de uma pequena família comprovam o enorme talento de seu criador. Torçamos para que ele volte a nos encantar novamente muito em breve!

terça-feira

POR UM FIO

POR UM FIO (Phone booth, 2002, Fox 2000 Pictures, 81min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Larry Cohen. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Gil Netter, David Zucker. Elenco: Colin Farrell, Forest Whitaker, Katie Holmes, Rhada Mitchell, Kiefer Sutherland. Estreia: 10/9/02 (Festival de Toronto)

Em 2001, Joel Schumacher deu ao ator irlandês Colin Farrell sua primeira grande chance no cinema, escolhendo-o para ser o protagonista de "Tigerland, a caminho da guerra", que agradou aos críticos mas foi ignorado pelo público (boa parte devido a sua péssima distribuição nos cinemas americanos). Um ano depois, Farrell retribuiu o favor, estrelando uma produção barata (13 milhões de dólares) dirigida por Schumacher que tornou-se um sucesso inesperado. Depois de ter seu lançamento adiado nos EUA por cinco meses (estreou no Festival de Toronto em setembro de 2002 e só chegou às salas ianques em abril de 2003), "Por um fio" arrecadou quase cem milhões só no mercado americano e, em se tratando de uma obra de Joel Schumacher surpreendeu também por ter uma consistência rara.

Filmado em apenas duas semanas - e em ordem cronológica - "Por um fio" é um one man-show de Farrell, que carrega nas costas todo o suspense e o drama da história criada por Larry Cohen, também autor do roteiro de "Celular", estrelado por Kim Basinger e Chris Evans pouco tempo depois. Substituindo Jim Carrey, Mel Gibson e Will Smith (todos interessados no papel), o jovem ator mostra uma segurança ímpar na pele de Stuart Shepard, um divulgador de entretenimento que mora em Nova York com a esposa Kelly (Radha Mitchell) e que vive de humilhar o assistente, de passar a perna nos clientes e tentar se dar bem sem fazer muito esforço. Sua arrogância e egocentrismo não lhe bastam, porém, quando ele acaba caindo em uma armadilha inesperada: depois de falar com a aspirante a atriz Pam (Katie Holmes) - que ele quer levar para a cama o mais rápido possível com promessas de conseguir-lhe uma chance no cinema - de uma cabine telefônica ele atende o telefone e acaba sendo feito de refém por um misterioso atirador que sabe tudo de sua vida e ameaça matá-lo ou à sua mulher se ele desligar. O que parecia uma brincadeira de péssimo gosto vira um pesadelo quando o atirador (com a voz de Kiefer Sutherland) mata um gigolô na frente de testemunhas e Stu torna-se o principal suspeito do crime. Quando a mídia chega ao local, juntamente com o Capitão Ed Ramey (o sempre competente Forest Whitaker), o circo está armado.



Contado em enxutos 81 minutos - o que elimina cenas supérfluas e dá ao filme um ritmo extremamente ágil mas nunca apressado - "Por um fio" mais uma vez mostra que Joel Schumacher se dá muito melhor quando é menos ambicioso. Assim como em "Tigerland" (que também contava com a mesma equipe técnica), ele foca sua atenção no desempenho dos atores e não em mirabolantes pirotecnias ou marketing excessivo."Por um fio" é tenso na medida certa e surpreende a audiência com uma história que foge do previsível sempre que pode - o que em termos de filme de suspense é um ingrediente cada vez mais difícil de encontrar. O duelo entre Farrell e Sutherland (cuja voz foi acrescentada na pós-produção) é empolgante e muito dessa eletricidade vem do trabalho impecável de Colin, cujo personagem passa da arrogância e da auto-confiança ao desespero e ao medo em um piscar de olhos, sem que seja necessário muito mais do que puro e simples talento.

"Por um fio" não mudou a história do cinema e provavelmente com um ator menos capaz que Farrel seria apenas mais um filme a ser reprisado nas sessões noturnas da TV aberta. Mas graças à força que o ator imprime em sua atuação torna-se um produto acima da média em seu gênero.

segunda-feira

ESTRADA PARA PERDIÇÃO

ESTRADA PARA PERDIÇÃO (Road to Perdition, 2002, Dreamworks SKG, 117min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: David Self, HQ de Max Allan Collins, Richard Piers Rayner. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Joan Bradshaw, Walter F. Parkes. Produção: Sam Mendes, Dean Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Tyler Hoechlin, Stanley Tucci, Daniel Craig, Jennifer Jason Leigh, Ciaran Hinds, Dylan Baker, Liam Aiken. Estreia: 12/7/02

6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Newman), Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Fotografia

Quem achava que o Oscar de direção por "Beleza americana" tinha sido sorte de principiante do inglês Sam Mendes foi obrigado a segurar o queixo com o lançamento de "Estrada para Perdição", seu segundo longa. Enquanto seu filme de estreia analisava com um olhar estrangeiro as entranhas dos subúrbios ianques sua adaptação da HQ de Max Allan Collins investiga a fundo os elementos básicos de outro gênero caro à plateia norte-americana (e a todas aquelas que cultuam o cinema hollywoodiano): os filmes de gângster. Ao lançar um olhar europeu sobre essa história de traição, vingança e violência (vagamente baseada em uma história real ocorrida com o gângster irlandês John Looney nos anos 30), Mendes construiu uma peça rara de ourivesaria visual e dramática, provando que, além de sensibilidade para as mazelas humanas, tem um apuradíssimo senso estético. "Estrada para Perdição" é um dos filmes mais deslumbrantes de seu tempo, e a fotografia do veterano Conrad R. Hall (que morreu logo após as filmagens) não mereceu seu Oscar injustamente.

Não existe nenhum plano ou sequência de "Estrada para Perdição" que não seja claramente planejado para causar um efeito específico na audiência (mesmo que às vezes esse objetivo seja bastante discreto a ponto de não ser percebido em uma primeira sessão) ou reiterar a visão de Mendes do roteiro de David Self (um exemplo disso é a maneira como os closes nos protagonistas vão se tornando frequentes à medida em que a relação entre eles também começa a se estreitar). Esse cuidado extremo do cineasta em encantar pelo visual em detrimento de um ritmo mais ágil e uma violência mais gráfica é, ao mesmo tempo, a qualidade maior de seu filme e seu calcanhar de Aquiles. Aparentemente Mendes nega aos fãs do gênero os tiroteios sangrentos que fizeram a glória de nomes como James Cagney e Paul Muni nos primórdios do cinema (e de banhos de sangue como o hiperbólico "Scarface" de Brian de Palma), porém o que ele faz (com invejável competência) é revestir-lhes com um uma poesia em forma de imagens. E, ao contar mais do que uma simples história de revanche - preferindo focalizar seus trunfos na relação conflitante entre um pai distante e silencioso e um filho pré-adolescente que anseia por uma figura paterna mais acessível e próxima.



A trama de "Estrada para Perdição" se passa em 1931, quando os EUA estão passando pela Grande Depressão causada pela queda da bolsa de valores de 1929. É a época da Lei Seca, onde gente como Al Capone faz fortuna em negócios escusos. Em Illinois, quem manda neste setor é o irlandês John Rooney (Paul Newman em sua última e esplêndida atuação, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), um homem que não se conforma com a falta de talento e personalidade do único filho, Connor (Daniel Craig) e vê em seu protegido Michael Sullivan (Tom Hanks) a esperança de um substituto à sua altura. Sua atitude em relação a ele irá se transformar radicalmente quando Connor mata um empregado suspeito de roubo e o filho mais velho de Sullivan, Mike (Tyler Hoechlin) testemunha o crime às escondidas. Temendo as consequências que a situação pode trazer, o veterano gângster manda exterminar o menino, mas quem acaba morto por engano é seu irmão caçula, em companhia da mãe. Desesperado pela tragédia, Sullivan une-se ao filho em uma viagem na qual pretende vingar a morte de sua família. No caminho, ele acaba se aproximando do garoto, com quem sempre teve uma relação quase fria e precisa protegê-lo de um matador contratado pelos Rooney, o apavorante fotógrafo Harlen Maguire (Jude Law, irreconhecível).

"Estrada para Perdição" funciona lindamente em todos os seus níveis dramáticos. Enquanto filme de gângster é formalmente tradicional, apesar de evitar ferozmente a violência explícita. Como conflito familiar emociona ao aproximar pai e filho de maneira delicada e melancólica (ainda que sua opção por não exagerar no dramalhão o afaste um pouco de um público desacostumado a sutilezas). Visualmente é um espetáculo (cortesia também da direção de arte e do figurino caprichados). A trilha sonora de Thomas Newman é marcante e adequada e o elenco é de aplaudir de pé: Tom Hanks escapa pela primeira vez de sua persona carismática para viver um Michael Sullivan fechado e sorumbático (mesmo que esteja longe de ser um vilão como parte da mídia pintou è época da estreia do filme) e Jude Law mostra que não precisa mostrar seu sorriso luminoso para chamar a atenção. Mas é, acima de tudo, um belíssimo filme que melhora a cada revisão e marca o adeus de um mito absoluto, o grande Paul Newman. Convenhamos, não é pouca coisa!!!

quinta-feira

MINORITY REPORT, A NOVA LEI

MINORITY REPORT, A NOVA LEI (Minority report, 2002, 20th Century Fox/Dreamworks SKG, 145min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Scott Frank, Jon Cohen, conto de Philip K. Dick. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Gary Goldman, Ronald Shusett. Produção: Bonnie Curtis, Gerald R. Molen, Walter F. Parkes. Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Max Von Sydow, Samantha Morton, Lois Smith, Tim Blake Nelson, Peter Stormare. Estreia: 17/6/02

Indicado ao Oscar de Edição de Som

É o ano de 2054, e o índice de criminalidade da cidade de Washington despencou vertiginosamente. O responsável por esse milagre é um projeto chamado "Pré-crime", que permite à força policial antecipar-se aos homicídios premeditados e evitar os crimes graças às premonições de três poderosos videntes, mantidos em constante cuidado pelo departamento de polícia. O chefe da equipe "Pré-crime" é o detetive John Anderton (Tom Cruise), um homem assombrado pelo desaparecimento do filho pequeno anos antes e que encontra no vício em drogas uma forma de escapar da depressão. Às vésperas de uma votação popular que irá consagrar definitivamente o projeto e torná-lo nacional, Anderton - um policial de extrema competência e ética - se vê envolvido em um apavorante pesadelo kafkiano: em menos de 36 horas ele será o responsável pelo assassinato de um homem cuja existência ele nem mesmo tem conhecimento. Desesperado para provar sua inocência (em um crime ainda não cometido), ele sequestra Agatha (Samantha Morton), a mais dotada das videntes e parte em busca da verdade. Atrás dele está principalmente Danny Witwer (Colin Farrell), que quer encontrar falhas no sistema.

Baseado em um conto do escritor Philip K. Dick - cuja mente fértil deu ao cinema as histórias de "Blade Runner" e "O vingador do futuro" - "Minority report, a nova lei" marca o reencontro de Steven Spielberg com a ficção científica, gênero do qual estava afastado desde seu megasucesso "ET", de 1982 - isso se "Jurassic Park" não for considerado como tal. Nos vinte anos que separam os dois filmes, a tecnologia do cinema alterou-se drasticamente - boa parte devido aos filmes do próprio cineasta - e Spielberg tornou-se um diretor respeitado, vencedor de 2 Oscar. Portanto, é lógico que exista uma diferença abissal entre a ingenuidade oitentista da clássica história da amizade entre o menino Elliot e seu extra-terrestre de estimação e a distópica visão de mundo do filme estrelado por Cruise. Realizado a um custo altíssimo - mais de cem milhões de dólares - "Minority report" é uma ficção científica noir, ao estilo de "Blade runner", mas sem espaço para a filosofia melancólica do filme de Ridley Scott.



Se dá para comparar "Minority report" com algum outro filme baseado em Dick, este é "O vingador do futuro", estrelado por Arnold Schwarzenegger em 1990, mas mesmo assim o trabalho de Spielberg ganha pontos em não se deixar contaminar pelo certo ar cafona da produção dirigida pelo holandês Paul Verhoeven. Seus efeitos especiais são mais discretos, dando espaço bem mais à história complexa (bastante modificada do conto original, diga-se de passagem) do que a mirabolantes pirotecnias visuais, que estão presentes mas em um nível muito mais sutil. A fotografia espetacular do premiado Janusz Kaminski é estourada, dando à imagem um aspecto feio e descuidado que combina à perfeição com o objetivo do cineasta de passar ao público uma sensação de angústia. E angústia é o que não falta: durante suas mais de duas horas e meia de duração, "Minority report" não dá tréguas ao espectador, levando-o como testemunha do calvário de seu protagonista em direção à verdade. O roteiro cria transplantes de olhos, aranhas que dão choque, propagandas personalizadas, caixas de cereais animadas e tudo que um escritor criativo pode imaginar, mas não se deixa nunca fugir do mais importante: a história empolgante e surpreendente.

Muito mais inteligente do que a maioria dos filmes de ação com pretensões comerciais que aportam nos cinemas americanos na temporada de verão - bem na época em que foi lançado - "Minority report" tem a seu favor também o carisma de Tom Cruise, ainda no auge de seu sucesso. Ainda que não explore como poderia as possibilidades dramáticas de sua complexa personagem, Cruise é competente o bastante para conquistar a simpatia do público, fator essencial para o êxito do filme, mesmo porque seu rival em cena é o irlandês Colin Farrel - que, em 2002 era considerado a grande promessa do início do século. É Cruise quem sustenta toda a mirabolante trama - que envolve até mesmo o veterano Max Von Sydow - e mantém a atenção da plateia suspensa até os minutos finais. O equilíbrio exato entre cenas da mais alta ação (inclusive com uma sequência que Hitchcock declarou certa vez que sonhava fazer, em uma fábrica de automóveis) com o misterioso homicídio a ser perpetrado por John Anderton é que faz com que o filme seja mais do que um simples entretenimento passageiro.

E seria injusto elogiar "Minority report" sem citar Samantha Morton. Na pele de Agatha, a talentosa vidente que desencadeia todo o drama (e cujo nome é uma homenagem à escritora Agatha Christie), a jovem atriz nem precisa falar muito para transmitir toda a vasta gama de emoções que permeia sua personalidade. Vinda de uma indicação ao Oscar de coadjuvante (pelo ótimo "Poucas e boas", de Woody Allen), Morton consegue roubar a cena e ser tão memorável quanto os inventivos efeitos visuais e a rocambolesca trama central.

quarta-feira

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.

terça-feira

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

A SOMA DE TODOS OS MEDOS (The sum of all fears, 2002, Paramount Pictures, 124min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Paul Attanasio, Daniel Pyne, romance de Tom Clancy. Fotografia: John Lindley. Montagem: Nicholas de Toth, Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Tom Clancy, Sttarton Leopold. Produção: Mace Neufeld. Elenco: Ben Affleck, Morgan Freeman, James Cromwell, Ken Jenkins, Ron Rifkin, Bridget Monayhan, Liev Schreiber, Philip Baker Hall, Bruce McGill. Alan Bates, Colm Feore. Estreia: 31/5/02

Jack Ryan, fictício analista da CIA criado pelo escritor Tom Clancy apareceu pela primeira vez nas telas de cinema na pele de Alec Baldwin. Era 1990 e o filme "A caçada ao Outubro Vermelho" fez um enorme sucesso. Não demorou para que outros livros de Clancy protagonizados por Ryan chegassem às telas, mas como quem manda em Hollywood é o dinheiro, em "Jogos patrióticos" (1992) e "Perigo real e imediato" (1994) ele tinha o rosto ainda mais popular de Harrison Ford. Em 2002, porém, Ford estava um pouco velho demais para voltar à personagem e saiu de fininho de um novo filme estrelado pela personagem, sem divulgar os seus motivos. A despeito das qualidades e carisma de Ford, porém, sua substituição pelo bem mais jovem Ben Affleck mostrou-se acertada. "A soma de todos os medos" é um belo thriller de ação que joga com os temores de uma guerra nuclear de grandes proporções a seu favor. E é também uma das poucas vezes em que Affleck não consegue estragar um filme com sua costumeira apatia.

Quando a empolgante trama criada por Clancy - que queixou-se depois de inúmeros erros técnicos cometidos pelo roteiro - começa, os EUA estão em sério conflito com a Rússia a respeito da Chechênia. Quando o presidente russo morre repentinamente e é substituído pelo discreto Nemerov (Ciaran Hinds), a paranoia se instala em todos os setores do governo americano. O presidente, Robert Fowler (James Cromwell) logo passa a ser aconselhado por seus assessores diretos, que insistem no fato de que uma guerra nuclear é iminente. Quem não compartilha dessa opinião é o jovem analista Jack Ryan (Ben Affleck), mas quando uma bomba explode em Baltimore ele precisa provar que sua teoria - a de que uma facção terrorista tenciona iniciar uma guerra entre os dois países - é correta, antes que o mundo corra o risco de um holocausto nuclear.



O maior acerto de "A soma de todos os medos" seja justamente o de privilegiar o suspense em detrimento da ação pura e simples. As intrigas político-governamentais assumem relevância crucial na história, assim como as sequências extremamente bem realizadas de explosões e destruição que fazem a glória do gênero. Para isso, é louvável a escalação de um elenco coadjuvante repleto de atores excepcionais como Morgan Freeman, James Cromwell e Liev Schreiber, bem como a escolha certeira do irlandês Ciarán Hinds para o central papel do presidente russo Nemerov. Com seu olhar misterioso e sua voz aterrorizante, o ator rouba as cenas em que aparece e até faz a audiência esquecer que o pretenso protagonista (Jack Ryan) aparece bem menos do que nos outros filmes da série. E para quem questiona o fato de Affleck viver Ryan mesmo sendo bem mais jovem do que Harrison Ford a resposta parece ser uma só: assim como acontece volta e meia no cinema, "A soma de todos os medos" não é nem uma continuação nem um prequel e sim uma espécie de novo início (como aconteceu com "Superman" nos anos 2000).

"A soma de todos os medos" pode não ser o melhor filme do gênero realizado em Hollywood, mas é inegável que tem qualidades redentoras e uma tensão quase palpável. Convenhamos, é muito mais do que se pode esperar de produções comerciais que normalmente só oferecem violência e piadinhas infames.

segunda-feira

FALE COM ELA

FALE COM ELA (Hable con ella, 2002, Espanha, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodóvar. Elenco: Javier Câmara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin, Lola Dueñas. Estreia: 15/3/02

2 indicações ao Oscar: Diretor (Pedro Almodóvar), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

No universo do cineasta espanhol Pedro Almodovar - como bem sabem seus inúmeros fãs - nada é preto no branco. Não existem mocinhos e bandidos e nem atos corretos ou errados (ao menos dentro da concepção tradicional do termo). Na obra de Almodovar nada é exatamente o que parece à primeira vista e, dentro de seu mundo particular (onde circulam com desenvoltura personagens da mais alta complexidade) um enfermeiro com características aparentes de homossexualidade é capaz de um ato tresloucado e machista, ainda que revestido de um romantismo distorcido. Nos filmes de Almodovar nenhum amor é normal. Quando alguém se apaixona dentro de um roteiro seu ou rapta a mulher amada (como em "Atame!") ou a estupra, como acontece em "Fale com ela", uma de suas obras-primas, merecidamente premiada com o Oscar de roteiro original.

Surpreendentemente deixada de lado pela Academia em sua lista dos indicados a Melhor Filme Estrangeiro - apesar de ter levado o Golden Globe da categoria - "Fale com ela" de certa forma compensou a esnobada concorrendo em duas categorias nobres e levando a importante estatueta de roteiro (batendo nomes fortes como o belo "Longe do paraíso" e o favorito "Gangues de Nova York"). Na verdade, dar o prêmio a qualquer outro candidato seria impensável: se em seu filme anterior, o incensado "Tudo sobre minha mãe" (que por sua vez levou o Oscar de filme estrangeiro) Almodovar já brindava o espectador com seu estilo próprio de fazer cinema misturando imagens poderosas com tramas e personagens fortes, em "Fale com ela" ele chega a um nível de sofisticação narrativa ainda maior. Ao contrário de muitos filmes cuja trama pobre pode ser resumida em uma única frase, o 14º longa do diretor nascido em uma pequena cidade do interior da Espanha em 1949 é uma prova inconteste de que a imaginação e a poesia ainda são os maiores aliados de um roteirista.



"Fale com ela" conta, na verdade, duas histórias de amor que se transformam em uma bela história de amizade. Depois de ter criado, em "Tudo sobre minha mãe", meia dúzia de personagens femininas de se tirar o chapéu, agora Almodovar presenteia o público com duas personagens masculinas intensas, imprevisíveis e melhor ainda, críveis e humanas. Benigno Martin (o ótimo Javier Câmara) é um enfermeiro dedicado que passa seus dias cuidando de Alicia (Leonor Watling), que entrou em coma depois de ser atropelada em um dia de chuva. Apaixonado pela jovem desde os tempos em que a observava de sua janela enquanto ela fazia aulas de balé na academia em frente à sua casa, Benigno de certa forma aproveita a chance de manter-se perto dela mesmo sabendo da possibilidade de sua inconsciência ser permanente. Sua rotina - para ele doce, ainda que rotina - é alterada quando ele conhece Marco Zuluaga (Dario Grandinetti), um jornalista que chega ao hospital acompanhando a namorada, Lydia Gonzalez (Rosário Flores), uma famosa toureira atingida em plena arena. Solitário, logo Benigno torna-se o confidente de Marco, um homem fechado e profundo a quem ele tenta convencer a manter conversas com a namorada inconsciente.

Como normalmente acontece na obra de Pedro Almodovar, o início de "Fale com ela" - o pontapé inicial de seu roteiro, digamos assim - é apenas um esboço de tudo que virá pela frente. Não demora muito para que o cineasta embaralhe as cartas de seu jogo, emprestando a Benigno características viris e impulsivas que se poderia esperar de Marco e dando a este momentos de uma pureza e sensibilidade próprias de alguém como Benigno. Enquanto o enfermeiro afeminado é capaz de um ato a príncipio brutal (através do qual a vida retorna, de forma irônica), o jornalista viril é capaz de desmanchar-se em lágrimas diante de um número de dança (com a participação especial da alemã Pina Bausch) ou de uma bela canção de amor (interpretada por Caetano Veloso), além de sofrer sem medo da opinião alheia. É o amor dos dois pelas mulheres em coma - mas que mesmo mudas e inertes empurram a trama pra frente - que une Benigno e Marco, que os completam como yin e yang. Mas não são os dois que tem o mesmo equilíbrio e a mesma força de lidar com suas paixões, e é daí, dessa fragilidade passional, que nasce a trágica poesia do filme.

E poesia é o que não falta em "Fale com ela", seja visualmente, através da inspirada fotografia de Javier Aguirresarobe, que transforma a violência das touradas em um balé (que remete às danças de Alicia e aos números de abertura e encerramento da projeção) ou em alguns diálogos de cortar o coração (que citam inclusive Tom Jobim, cuja bela "Por toda a minha vida" na voz de Elis Regina, ilustra lindamente uma tourada de Lydia). Até mesmo a homenagem de Almodovar ao cinema mudo (em uma sequência aparentemente sem importância que dá grandes pistas sobre o que vem a seguir) é um exemplo de concisão e inteligência: a história do "amante minguante" que entra no corpo da mulher que ama é a metáfora perfeita para o desfecho de uma das histórias de amor contadas pelo diretor, que ainda faz o grande favor de não entregar tudo mastigadinho à audiência. O público, encantado, agradece!

sexta-feira

CIDADE DE DEUS

CIDADE DE DEUS (Brasil, 2002, 130min) Direção: Fernando Meireles. Roteiro: Braulio Mantovani, romance de Paulo Lins. Fotografia: Cesar Charlone. Montagem: Daniel Rezende. Música: Antonio Pinto, Ed Cortes. Figurino: Bia Salgado, Inês Salgado. Direção de arte/cenários: Tulé Peak. Produção executiva: Ronald K. Ranvaud, Walter Salles. Produção: Andrea Barata Ribeiro, Mauricio Andrade Ramos. Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Jonathan Haagensen, Alice Braga, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Graziela Moretto, Phellipe Haagensen, Daniel Zetel, Roberta Rodrigues, Gero Camilo. Estreia: 30/8/02

4 indicações ao Oscar: Diretor (Fernando Meirelles), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Quatro indicações ao Oscar (incluindo Melhor Diretor e Roteiro Adaptado).BAFTA de melhor edição. Indicação ao Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro.Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro para as Associações de Críticos de Toronto, Vancouver e Chicago. Eleito, em 2009 pelo site de cinema IMDB (um dos mais famosos e influentes) como um dos mais importantes da década (ficando em terceiro lugar, atrás apenas dos espetáculos hollywoodianos "Batman, o cavaleiro das trevas" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei", ambos realizados com centenas de milhares de dólares). E uma influência absurda em todo e qualquer filme brasileiro com um mínimo de ação e crítica social que veio posteriormente. Tem alguém que ainda duvida das qualidades de "Cidade de Deus"?

Dirigido por Fernando Meirelles - oriundo da publicidade e que tinha apenas outro longa no currículo, o divertido "Domésticas, o filme" - "Cidade de Deus" mudou a cara e a auto-estima do cinema brasileiro, não apenas por sua vasta aceitação mundial mas principalmente porque mostrou à audiência nacional que um filme feito aqui, com atores daqui (e não necessariamente estrelas televisivas) e que mostrasse a realidade social triste e violenta que nos cerca não só pode ser importante mas também pode ser empolgante em todos os sentidos. "Cidade de Deus" pode ser visto como um estudo sociológico (sem as partes chatas) mas é, acima de qualquer obrigação de cunho social, cinema da mais alta qualidade, realizado com a melhor técnica que se pode esperar e, melhor ainda, com uma verdade que dificilmente passa batida.



Cru, violento, realista e por incrível que pareça com momentos de genuíno bom-humor, "Cidade de Deus" é o filme que todo cineasta que se preza sonha em assinar. Influenciada nitidamente por trabalhos antológicos como "Z", do grego Costa-Gavras e "JFK", de Oliver Stone (em especial graças à sua montagem ágil e inteligente), a versão para as telas do extenso livro de Paulo Lins passou de um aparente pesadelo logístico (desde condensar todas as várias histórias do livro em um roteiro coeso até filmar na própria favela onde se passa a trama) a uma obra-prima sem precendentes na história da sétima arte no Brasil. Tecnicamente impecável - deixando de lado o quase amadorismo que por muitos anos caracterizou a produção brazuca - "Cidade de Deus" deixou meio mundo de queixo caído com sua edição estonteante (no bom sentido), sua fotografia sutil (que se molda discretamente às cenas e divide com clareza as épocas distintas em que se passa a história) e sua trilha sonora inspirada (em que músicas originais se mesclam com clássicos como "Preciso me encontrar", de Candeia). Mas, à parte o capricho visual e técnico e o roteiro brilhante de Bráulio Mantovani, foi o elenco selecionado por Meirelles e sua co-diretora Katia Lund que fez ainda mais barilho.

Quando "Cidade de Deus" começou a ser filmado não havia, dentre seus atores, nenhum astro de potencial comercial. Matheus Nachtergaele - que vive o traficante Cenoura - ainda não havia estourado no Brasil com sua genial atuação em "O auto da Compadecida", de Guel Arraes e todo os demais atores foram escolhidos a dedo por Meirelles e Lund na própria favela. O resultado é estarrecedor: poucas vezes se viu, no cinema, algo tão fascinante quanto a força que os jovens atores não-profissionais imprimem a suas personagens, complexas e dolorosamente reais. Quando Leandro Firmino da Hora entra em cena com seu assustador Zé Pequeno o que a audiência testemunha não é apenas o surgimento de um grande ator, e sim o nascimento de uma personagem antológica, em uma sequência digna de figurar em qualquer lista de fãs de cinema. Quando Douglas Silva interpreta o pequeno - mas cruel - Dadinho, é a dura realidade maquiada pelos telejornais que vemos cara a cara. E assim por diante, em uma sucessão de belas cenas vividas com garra e dedicação por nomes tão díspares quanto o cantor Seu Jorge e os irmãos Jonathan e Phellipe Haagensen e conduzidas com uma segurança invejável por um cineasta que em seguida teria seu talento reconhecido da forma mais óbvia: uma carreira internacional com filmes de extrema qualidade, como "O jardineiro fiel" e "Ensaio sobre a cegueira".

"Cidade de Deus" é um marco no cinema internacional, tanto por sua coragem em tratar de temas espinhosos como a violência e a desigualdade social - discussão que culminou no mega-sucesso "Tropa de elite 2" - quanto por sua extraordinária qualidade técnica e artística. Sua câmera trepidante, sua veracidade, sua crueldade neutra e sua crítica social que jamais se torna panfletária - o roteiro quer apenas contar uma história e não mudar o mundo - viraram referência absoluta. E se até os acadêmicos e quadrados eleitores do Oscar chegaram perto de se curvar definitivamente a ele, como recusar a glória a Fernando Meirelles e seu vencedor time? Se "Central do Brasil" é o filme que nos faz chorar, "Cidade de Deus" é que nos choca. Finalmente podemos ter orgulho do nosso cinema.

quinta-feira

UM GRANDE GAROTO

UM GRANDE GAROTO (About a boy, 2002, Universal Pictures, 101min) Direção: Chris Weitz, Paul Weitz. Roteiro: Peter Hedges, Chris Weitz, Paul Weitz, romance de Nick Hornby. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Nick Moore. Música: Badly Drawn Boy. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Lynn Harris, Nick Hornby. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert De Niro, Brad Epstein,Jane Rosenthal. Elenco: Hugh Grant, Toni Colette, Nicholas Hoult, Rachel Weisz, Natalia Tena. Estreia: 08/5/02

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

"Todo homem é uma ilha. Eu sou Ibiza!" Assim se descreve Will Freeman, protagonista de "Um grande garoto", mais uma obra de Nick Hornby adaptada para o cinema, depois do pouco visto "Febre de bola" e do (merecidamente) cultuado "Alta fidelidade". Levado para as telas pelas mãos dos irmãos Chris e Paul Weitz - cujo passado inclui o infame mas imensamente popular "American pie" - o romance que fala da amizade inesperada entre Freeman - um solteirão convicto, rico e superficial - e o pré-adolescente Marcus Brewer- deslocado, solitário e desajustado - transformou-se em um filme legitimamente engraçado, surpreendentemente delicado e melhor ainda, palatável a todos os tipos de plateia.

Will Freeman é um bon-vivant que passa seus dias dedicando-se à pessoa que mais ama no mundo: ele mesmo. Vivendo dos direitos autorais de uma canção natalina composta por seu falecido pai, Freeman é também um mulherengo incorrigível, incapaz de envolver-se em um relacionamento sério (mais por opção do que por qualquer outro motivo). Quando o filme começa, ele tem a brilhante ideia de frequentar clubes de mães solteiras (ou abandonadas), com o objetivo de encontrar sexo fácil. O que poderia ser divertido, porém, torna-se mais complicado quando, durante um passeio dominical, ele trava conhecimento com Marcus (Nicholas Hoult), o filho da amiga de uma paquera. A mãe de Marcus, Fiona (Toni Colette, sempre competente), é depressiva com tendências suicidas e o jovem vê em Freeman a figura paterna que nunca teve. Chantageando-o após descobrir suas mentiras para conquistar as mulheres do clube, Marcus passa a frequentar o apartamento descolado de Will, que aos poucos inicia um processo de amadurecimento e conexão com o menino e sua mãe. Quando se apaixona por Rachel (Rachel Weisz), o eterno solitário percebe de vez que "ilhas fazem parte de arquipélagos".



É surpreendente que "Um grande garoto" tenha sido dirigido pelos irmãos Weitz: sua sutileza e elegância estão a anos-luz do humor vulgar e escatológico de "American pie", que a despeito de seu sucesso comercial não passa de uma chanchada adolescente. Nessa adaptação do livro de Hornby os cineastas demonstram uma mão leve ao tratar de assuntos espinhosos - depressão, suicídio, bulliyng - e um sofisticado timing cômico (o que deve ser muito legado ao trabalho extraordinário do escritor inglês ao tratar de relações humanas de maneira pop). Nada em "Um grande garoto" é exagerado ou de mau-gosto e, se as piadas podem não ser engraçadíssimas de um ponto de vista mais raso, elas são esplendidamente adequadas à trama e às personagens, tratadas com especial carinho pelo roteiro bastante fiel à sua origem literária, um dos melhores livros do homem que viria a escrever o excelente roteiro de "Educação", em 2009. Poucos escritores são tão simples e sarcásticos quanto Hornby quando se trata de pessoas de verdade, e isso fica lógico quando se lê seus trabalhos ou até quando se assiste a suas adaptações, mesmo quando alguns pontos cruciais são modificados.

Em "Um grande garoto" acontece uma dessas mudanças que, feitas de maneira leviana, poderia ser o tiro de misericórdia ao trabalho. Felizmente os roteiristas conseguiram evitar a tragédia de maneira criativa e, se não ficou tão bom quanto poderia, ao menos salvaram-se todos no final. Explica-se: o clímax do livro de Hornby acontece com o suicídio de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana que era o ídolo de Ellie (Nat Gastian Tena), colega de escola por quem Marcus é apaixonado. A trama se encaminha para o final a partir daí (e o título original do livro é uma homenagem a uma canção do grupo, "About a girl"). Provavelmente devido a problemas de direitos autorais (Courteney Love, por exemplo) toda e qualquer menção a Cobain e sua banda foram devidamente limadas, e a menina virou fã de rap. Certamente a mudança enfraqueceu o universo do romance original, mas é preciso que se dê a mão à palmatória: o filme continua sendo muito bom.

E, logicamente seria injusto não louvar a atuação de Hugh Grant, perfeito no papel central - que chegou a ser oferecido a Brad Pitt. Will Freeman parece ter sido escrito especialmente para Grant, que se sai muito melhor que a encomenda com uma interpretação confortável e muito, mas muito engraçada. Sua parceria com o ótimo Nicholas Hoult é encantadora, assim como suas cenas com Rachel Weisz e Toni Colette, mais uma vez ameaçando roubar todas as sequências em que aparece. A trilha sonora moderna comenta a estória de forma suave e é difícil não se emocionar com o desfecho de toda a aventura romântico-pessoal de Will Freeman. A história é "sobre um garoto". Mas talvez este garoto não seja o adolescente Marcus e sim o eterno meninão Freeman, que se apaixona pela vida ao perceber como ela pode ser melhor quando dividida. Um belo filme, para ver e rever!

quarta-feira

ARMADILHAS DO CORAÇÃO

ARMADILHAS DO CORAÇÃO (The importance of being Earnest, 2002, Miramax Films, 97min) Direção: Oliver Parker. Roteiro: Oliver Parker, peça teatral homônima de Oscar Wilde. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Guy Bensley. Música: Charlie Mole. Figurino: Maurizio Millenotti. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Uri Fruchtmann. Produção: Barnaby Thompson. Elenco: Colin Firth, Rupert Everett, Reese Witherspoon, Frances O'Connor, Judi Dench, Tom Wilkinson. Estreia: 17/5/02

É triste perceber que um escritor do porte de Oscar Wilde nunca conseguiu ter uma obra sua adaptada decentemente para o cinema. Dono de um estilo próprio, em que mescla uma feroz crítica à Inglaterra de sua época a frases espirituosas e mordazes, o autor irlandês da obra-prima "O retrato de Dorian Gray" foi também um dramaturgo repleto de recursos, assinando comédias hilariantes (dentro do conceito inteligente de hilariante) como "O marido ideal", que foi levado às telas em 2000 pelo inglês Oliver Parker sem fazer muito alarde (apesar de contar com um elenco estelar que incluía Cate Blanchett, Julianne Moore e Rupert Everett). O mesmo Parker tentou de novo, em 2002, adaptando "The importance of being Earnest", que no Brasil levou o estúpido título de "Armadilhas do coração" e nem chegou a ser exibido comercialmente, saindo direto em DVD. O fracasso comercial do filme é injusto, comparado com o número sem fim de comédias sem graça que faturam centenas de milhares de dólares, mas Wilde merecia coisa melhor.

O maior problema de "Armadilhas do coração" é exatamente o que acomete a vasta maioria das "traduções" teatrais para o cinema. Apesar de explorar com segurança os vastos exteriores ingleses, Parker não consegue fugir da impressão de estar realizado teatro filmado - em parte porque os diálogos são muito mais importantes do que a ação, em parte porque em certos momentos tudo soa muito artificial. Ainda que esse exagero no artificial talvez seja proposital (afinal, trata-se de uma farsa), o que funciona em um palco normalmente perde o impacto em uma tela de cinema e é isso que acontece nessa comédia de erros que, apesar do elenco brilhante e de alguns bons momentos de humor, é bem menos engraçada do que poderia ser.


Os dois protagonistas do filme são o milionário Jack Worthing (Colin Firth) e o mimado Algernon Moncrieff (Rupert Everett), amigos inseparáveis que frequentam as mesmas festas calorosas da Londres dos anos 1890. Para sair de sua propriedade no interior sem despertar fofocas, Jack inventa um irmão fictício chamado Ernest, que precisa de suas visitas constantes, e em uma dessas visitas à cidade se apaixona por Gwendolen (Frances O'Connor), prima de Algernon que é criada rigidamente pela mãe, Augusta Bracknell (Judi Dench). Bracknell, uma dama da alta sociedade, exige que Jack (que por engano todos pensam chamar-se Earnest) descubra suas origens antes de ceder a mão da filha a um homem sem pai nem mãe, e o rapaz passa a investigar seu passado. Enquanto isso, Algernon o visita em sua fazenda, assumindo a identidade de Earnest, o irmão problemático, e se encanta por Cecily (Reese Witherspoon), de quem Jack é tutor. O encontro dos dois amigos - em um fim-de-semana em que também estão presentes Gwendolen e sua mãe - se transforma, então, em uma tentativa de esconder suas inúmeras mentiras e mal-entendidos.

Logicamente "Armadilhas do coração" funciona maravilhosamente em um teatro - sua carpintaria dramatúrgica é perceptível até ao mais desatento espectador. Cinema, porém, exige mais do que isso, e Oliver Parker parece não ter aprendido quase nada desde sua estreia como cineasta, adaptando "Otelo", de Shakespeare (que, a despeito de ser a primeira versão com um ator negro no papel central, era fraquinho de doer): não existe, em seu filme, nada que o eleve acima de um entretenimento meramente agradável estrelado por nomes de grande talento. Não há movimentos de câmera, não há nada de novo na edição e até mesmo a trilha sonora parece um tanto deslocada. Se há alguma qualidade redentora ela vem do original de Wilde: suas personagens revolucionárias (as mulheres fumam e são bem mais ativas do que normalmente acontecia em sua época), suas reviravoltas melodramáticas tratadas com deboche e os diálogos irônicos. E enquanto Judi Dench passeia com tranquilidade em sua praia, Reese Witherspoon parece perdida com sua Cecily (bem mais jovem do que a intérprete). Felizmente a química entre Colin Firth e Rupert Everett é excelente e dá bons motivos para arriscar uma conferida.

Oliver Parker voltou a adaptar Oscar Wilde em "O retrato de Dorian Gray", onde se mostrou um tanto mais feliz em algumas escolhas acertadas. Infelizmente o roteiro criou situações que não existiam e que esvaziaram a trama poderosa. Definitivamente, Wilde ainda não encontrou uma adaptação à sua altura. Porém, apesar dos pesares, "Armadilhas do coração" é, no minimo, agradável.

terça-feira

HOMEM-ARANHA

HOMEM-ARANHA (Spiderman, 2002, Columbia Pictures/Marvel Enterprises, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: David Koepp, HQ de Stan Lee, Steve Ditko. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Danny Elfman. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Karen O'Hara. Produção executiva: Avi Arad, Stan Lee. Produção: Ian Bryce, Laura Ziskin. Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, Rosemary Harris, Dylan Baker, J.K. Simmons, Cliff Robertson. Estreia: 03/5/02

2 indicações ao Oscar: Efeitos Visuais, Som

Tudo começou com "X-Men". O enorme sucesso de bilheteria do filme que contava as aventuras dos mutantes criados por Stan Lee deu coragem à Columbia Pictures para tocar adiante um projeto ainda mais ambicioso: levar às telas uma adaptação de uma das mais queridas e famosas personagens do universo Marvel, o Homem-aranha. Depois de anos no limbo - durante o qual foram considerados para a direção nomes díspares como James Cameron, Ang Lee, David Fincher e Tony Scott - a história do adolescente nerd que se torna super-herói chegou aos cinemas americanos cercada de grandes expectativas e não decepcionou nem ao mais ambicioso produtor: ao redor do mundo, mais de 800 milhões de dólares foram arrecadados, dando início a uma espécie de fenômeno pop. A partir daí, histórias em quadrinhos e cinema se tornaram definitivamente parceiros muito rentáveis.

O maior sucesso de bilheteria de 2002 mereceu o barulho que fez. Deliciosamente pop, agradável, engraçado e leve, é um filme que consegue agradar espectadores de todas as idades, em especial àqueles que se permitem embarcar sem medo no mais puro entretenimento hollywoodiano. Ao assumir as rédeas do filme, o diretor Sam Raimi (responsável pela bizarra e popular série "Evil Dead", que mudou a forma de fazer cinema de terror) imprimiu à história de Peter Parker um senso de diversão descompromissada e quase auto-paródica que faz dele um programa imperdível (e que ficaria ainda melhor no segundo episódio, mais caro e que fez ainda mais sucesso). E é necessário que se elogie a escalação certeira de Tobey Maguire para o papel central.

Mais conhecido por seus trabalhos sérios em filmes oscarizados como "Regras da vida" e "Garotos incríveis", Maguire ficou com um dos papéis jovens mais cobiçados da época (que quase ficou nas mãos de Leonardo DiCaprio) e não fez feio. Com seu jeito aparvalhado, ele criou um Peter Parker bastante próximo do público adolescente que lotou as salas de exibição (apesar de já estar com 25 anos durante a produção). Seu Peter Parker frágil, tímido e apaixonado caiu como uma luva em seu tipo físico franzino e seu alter-ego heroico é convincente a ponto de a audiência comprar o conceito do filme sem pestanejar. Com um roteiro dinâmico e esperto, "Homem-Aranha" é uma aventura perfeita.


Pra quem não sabe - se é que existe alguém que não saiba - o protagonista é Peter Parker, um estudante órfão que mora com os tios idosos (Cliff Robertson e Rosemary Harris) e é apaixonado pela vizinha, a bela Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), cujo histórico de problemas domésticos não a impede de sonhar em tornar-se atriz. Durante uma excursão da escola, Parker - que é hostilizado pelos colegas e tem apenas um grande amigo Harry Osborn (James Franco) - é mordido por uma aranha geneticamente modificada e, a partir daí, passa a desenvolver poderes tais como escalar paredes e soltar teias de aranha, além de aumentar sua velocidade e força. Após praticamente testemunhar o assassinato do tio, ele decide dedicar-se à luta contra a violência, tornando-se herói da noite para o dia. Enquanto tenta esconder sua dupla personalidade da garota que ama - que começa a namorar Harry - Parker também precisa combater o cruel Duende Verde, a personalidade psicótica adquirida pelo milionário Norman Osborn (Willem Dafoe) após um acidente com suas experiências científicas.

A trama de "Homem-Aranha" é a desculpa ideal para Sam Raimi exercitar sua veia de fã de quadrinhos. Sua direção é respeitosa mas nunca quadrada, dando espaço para improvisos e mudanças que não ofendem os mais xiitas leitores do gênero (ainda que sempre haja algum espírito de porco disposto a discordar de algum detalhe). As cenas de ação, mesmo que não sejam impactantes ou inovadoras, são adequadas ao ritmo da trama e não chamam mais a atenção do que a trama que fala de responsabilidades e de renúncia. Esse subtexto - que também era o melhor que havia em "X-Men" - é o que faz com que "Homem-Aranha" escape lindamente da vala onde se encontram produções ambiciosas e sem fundamentos.

O sucesso de "Homem-Aranha" foi merecido. É um entretenimento inteligente e divertido, capaz de alegrar sessões da tarde por anos a fio. É a prova inconteste de que a soma de um bom diretor, um elenco adequado e um roteiro bem escrito podem efetuar milagres até mesmo com a pressão dos grandes estúdios.

segunda-feira

A FESTA NUNCA TERMINA

A FESTA NUNCA TERMINA (24 hour party people, 2002, Revolution Films, 117min) Direção: Michael Winterbottom. Roteiro: Frank Cottrell Boyce. Fotografia: Robby Muller. Montagem: Trevor Waite. Figurino: Stephen Noble, Steven Noble, Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Lucy Howe. Produção executiva: Henry Normal. Produção: Andrew Eaton. Elenco: Steve Coogan, Paddy Considine, Andy Serkis, Shirley Henderson, Sean Harris. Estreia: 18/5/02 (Festival de Cannes)

É preciso ter muito talento para misturar as linguagens documental e ficcional no mesmo filme sem atrapalhar a compreensão da audiência. Mas talento é o que não falta ao inglês Michael Winterbottom, que tem no currículo o denso "Paixão proibida" (adaptação do romance "Jude, o obscuro", de Thomas Hardy) e o polêmico "Bem-vindo a Sarajevo", lançado em 1997, em plena efervescência da guerra na Bósnia. Em "A festa nunca termina" o cineasta deixa um pouco de lado sua visão negativa de mundo para contar a história de um dos períodos mais férteis da música pop britânica, tendo a figura de Tony Wilson - dono da gravadora Factory, que deu ao mundo nomes como Joy Divison (mais tarde New Order) e Happy Mondays.

O filme escrito por Frank Cottrell Boyce - também autor de "Bem-vindo a Sarajevo" - não segue a tradicional estrutura das cinebiografias nem tampouco pode ser considerado um documentário. O protagonista é vivido com a necessária dose de sarcasmo e desespero pelo ótimo Steve Coogan, que assume a persona de Tony Wilson com propriedade para mostrar o surgimento de um dos movimentos mais importantes para a música dos anos 80 e 90 - para o bem e para o mal. Falando diretamente para a câmera, o Tony Wilson de Coogan não poupa comentários ácidos a respeito de amigos, conhecidos, inimigos e amantes, o que carrega o filme de um humor tipicamente inglês, ainda que um tanto restrito aos interessados no assunto. É pouco provável que um espectador que jamais tenha ouvido a respeito de Sex Pistols e Ian Curtis (se é que existe algum) possa chegar até "A festa nunca termina". Mas é justamente essa espécie de restrição que faz com que o filme de Winterbottom seja tão especial. Ele é quase como uma festa para poucos convidados.


Quando o filme começa o protagonista está encantado com a crueza do som da banda Sex Pistols e seu vocalista Sid Vicious (vivido com garra e paixão por Gary Oldman em "Sid & Nancy, o amor mata"). É o ano de 1976 e Wilson, repórter televisivo de uma emissora de Manchester, vê em Vicious e seus congêneres a possibilidade de um novo estilo de música, onde atitude conta tanto quanto a qualidade sonora. Incentivado pela namorada, Lindsay (Shirley Henderson) e por amigos, ele inaugura um clube noturno chamado Factory, que se torna um dos mais comentados e influentes da cidade. Entusiasmado com as bandas que fazem shows em seu palco, ele cria uma gravadora e dá a primeira chance a um grupo chamado Joy Divison, liderado pelo problemático Ian Curtis (Sean Harris). Tem início, então, a cena musical de Manchester, uma das mais criativas do final do século XX.

A câmera de Winterbottom passeia confortavelmente pela noite de Manchester, ciceroneada por Tony Wilson, uma personagem central muitas vezes perdida, mas inteligentemente perto do público. Falível e cheio de defeitos, Wilson não hesita em trair a namorada, em jogar-se às drogas e em administrar mal seus negócios, mas na pele de Coogan ele ri de si mesmo de maneira sardônica, nunca permitindo que se leve as coisas muito a sério. O tom irônico do filme só dá espaço a um drama real e poderoso quando conta a trágica história de Ian Curtis (também retratada no sensacional "Control", de Anton Corbjin): são nesses momentos que se percebe o carinho do cineasta e do roteirista pelo material que tem em mãos.

Repleto de imagens raras das bandas citadas no roteiro, com uma trilha sonora impecável e um senso de humor delicioso (que cede lugar a um tom nostálgico em seus momentos finais), " A festa nunca termina" é, acima de tudo, o documento de uma era onde a diversão ainda era o que importava e a criatividade musical estava em seus melhores momentos. Pode-se inclusive dizer que este filme de Michael Winterbottom é tudo o que "Studio 54" poderia ter sido e não foi. Para ver e sair pra dançar alucinadamente!

sexta-feira

ALI

ALI (Ali, 2001, Columbia Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson, Eric Roth, Michael Mann, história de Gregory Allen Howard. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: William Goldenberg, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Stuart Waks. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: John Myhre/Jim Erickson. Produção executiva: Howard Bingham, Lee Caplin, Graham King. Produção: Paul Ardaji, A. Hitman Ko, James Lassiter, Michael Mann, Jon Peters. Elenco: Will Smith, Jon Voight, Jamie Foxx, Mario Van Peebles, Ron Silver, Jeffrey Wright, Mykelty Williamson, Jada Pinkett-Smith, Bruce McGill, Giancarlo Esposito. Estreia: 25/12/01

2 indicações ao Oscar: Ator (Will Smith), Ator Coadjuvante (Jon Voight)

Em 2001 Will Smith já era um dos mais populares astros do cinemão comercial hollywoodiano, tendo participado de alguns dos maiores êxitos de bilheteria da década de 90, como "Independence Day" e "Homens de Preto". Mas como sempre acontece, sua ambição era outra: ser levado a sério como ator. O primeiro passo nessa direção foi o pouco visto "Lendas da vida", onde atuou ao lado de Matt Damon sob a direção de Robert Redford. Mas foi somente com "Ali", a cinebiografia do lutador Muhammad Ali, que Smith mostrou que, por trás de seu grande carisma e do sorriso fácil, havia um intérprete dramático de grande potencial. Mesmo que o filme tenha bombado nas bilheterias americanas (rendeu menos de 60 milhões contra os mais de cem do orçamento generoso), ninguém pode contestar a excelência do desempenho de seu protagonista.

Dirigido por Michael Mann logo após seu sucesso absoluto com "O informante" - que chegou a lhe dar uma indicação ao Oscar de direção - "Ali" não é uma cinebiografia no sentido tradicional. O roteiro inicial, que ultrapassava 200 páginas e mostrava toda a sua vida desde a infância foi amplamente reescrito por Mann e Eric Roth (os autores do script de "O informante") e passou a concentrar-se em um período específico da vida do lutador, justamente em seu auge e na fase mais polêmica de sua carreira, quando envolveu-se com o islamismo e perdeu o título de campeão mundial por recusar-se a ir para a guerra do Vietnã. Ao dedicar-se especificamente a esse ângulo da história o filme de Mann torna-se muito mais interessante, porque, através de seu protagonista e de suas lutas pessoais forma-se também um painel da história dos EUA, com seus problemas sociais e um racismo latente que fica óbvio através principalmente dos coadjuvantes da trama, como os conhecidos Malcolm X (em uma atuação acertada do cineasta Mario Van Peebles), Don King (Mykelty Williamson) e o repórter esportivo Howard Cosell (vivido por um irreconhecível Jon Voight).


Entre os acertos de "Ali" está também o tom sóbrio impresso por Mann, um cineasta elegante que não permite que a história resvale para o sentimentalismo nem mesmo quando todas as circunstâncias clamam por isso (e a interpretação do sempre ótimo Jamie Foxx como o empresário viciado em drogas de Ali é um perfeito exemplo dessa afirmação). E mesmo que as cenas de luta não sejam exatamente empolgantes (ainda que também não sejam más) o trabalho detalhista de Will Smith compensa qualquer falha. Merecidamente indicado ao Oscar, o jovem ator prova que seu desejo de ser considerado um ator de verdade não é apenas vaidade rasa. Encarar uma personagem tão maior que a vida quanto Muhammad Ali não é pra qualquer um, e Smith tira de letra o desafio auto-imposto (além de ter reduzido seu salário para que o filme pudesse ser feito).

Mesmo que tenha falhas em seu desenvolvimento (como a desnecessária duração excessiva e o superficialismo na relação de Ali com suas esposas), "Ali" tem mais qualidades do que defeitos. Seu relativo fracasso de bilheteria não condiz com o capricho de sua realização e a dedicação de seus colaboradores. Para as novas gerações Muhammad Ali tem o rosto de Will Smith. Não se pode dizer que seja injusto!

quinta-feira

FALCÃO NEGRO EM PERIGO

FALCÃO NEGRO EM PARIS (Black Hawk down, 2001, Jerry Bruckheimer Studios, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ken Nolan, livro de Mark Bowden. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer. Figurino: David Murphy, Sammy Howarth-Sheldon. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Eli Griff. Produção executiva: Branko Lustig, Chad Oman, Mike Stenson, Simon West. Produção: Jerry Bruckheimer, Ridley Scott. Elenco: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, William Fichtner, Ewen Bremner, Sam Shepard, Ron Eldard, Ioan Gruffud, Thomas Guiry, Jason Isaacs, Zeljo Ivanek, Orlando Bloom, Tom Hardy. Estreia: 28/12/01

4 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som

Depois de perder um Oscar quase certo pela direção de "Gladiador" - que levou pra casa os prêmios de Melhor Filme e Ator (Russell Crowe) - o cineasta inglês Ridley Scott embarcou numa canoa furada que parecia auspiciosa, a continuação de "O silêncio dos inocentes" chamada simplesmente "Hannibal". Apesar do sucesso comercial, porém, a crítica não gostou nem um pouco da sequência (e estava coberta de razão, uma vez que o filme é tenebroso na pior acepção do termo) e o homem que havia legado ao mundo filmes do porte de "Alien, o oitavo passageiro", "Blade Runner, o caçador de andróides" e "Thelma & Louise" estava em um perigoso momento da carreira (ainda que não pudesse reclamar da bilheteria de seus filmes). Foi então que mais uma vez surpreendeu os fãs com um imponente, violento e realista filme de guerra baseado em fatos reais. "Falcão negro em perigo" não apenas lhe devolveu elogios e uma bela carreira financeira, mas também lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de direção.

Filmado no Marrocos (que faz o papel de Mogadishu, Somália), "Falcão negro em perigo" é um filme caro, produzido por Jerry Bruckheimer, que leu o livro escrito pelo jornalista Mark Bowden antes de sua publicação e adquiriu os direitos imediatamente. Dirigido com realismo e crueza por Scott, é também uma obra que não faz muitas concessões ao comercial, apresentando sequências dolorosas e chocantes e fugindo do tradicional final feliz. "Falcão negro em perigo" não é um filme de Oliver Stone, portanto não há sentimentalismo no roteiro de Ken Nolan, que faz o possível para reduzir 18 horas de combate em palatáveis 144 minutos de duração - e cerca de 100 personagens em aceitáveis 39, vividos por um elenco excelente onde não há protagonistas, ainda que alguns nomes não precisem fazer muito esforço para se destacar.


O principal destaque do elenco de "Falcão negro em perigo" é o australiano Eric Bana, fazendo sua estreia em Hollywood. Recomendado a Scott por Russell Crowe, Bana consegue chamar a atenção da plateia sempre que entra em cena, mesmo que sua personagem não seja exatamente protagonista. Seu carisma esmaga Josh Hartnett (cujo rosto estampa o cartaz, provavelmente na expectativa de chamar a atenção do público feminino) a tal ponto que seu trabalho lhe rendeu convites para protagonizar o "Hulk" de Ang Lee e antagonizar Brad Pitt em "Tróia" (onde mais uma vez roubou a cena com uma personagem e uma atuação muito mais interessantes do que o galã máximo da América). Mas não é apenas o nome de Bana que enfeita os créditos de "Falcão negro em perigo". A seu lado estão nomes fortes como Ewan McGregor, Tom Sizemore, Sam Shepard e Orlando Bloom (além dos ainda pouco conhecidos Ioan Gruffud, Tom Hardy, Jeremy Piven e Hugh Dancy), todos envolvidos em uma trama tão empolgante e tensa que é difícil de crer que realmente tenha acontecido.

Tudo acontece no dia 03 de outubro de 1993, em Mogadishu, na Somália dominada pelo ditador Mohammed Farah Aidid. Um grupo de soldados americanos comandado pelo Major William Garrison (Sam Shepard) é escalado para fazer de reféns dois homens de confiança do ditador, em uma missão que a princípio levaria apenas uma hora. Quando um dos aviões americanos - um Falcão Negro - é abatido, porém, as coisas se complicam e quase 24 horas se passam até que os soldados sejam resgatados das mãos da milícia somali.

É difícil resumir tudo que acontece em "Falcão negro em perigo". O roteiro eletrizante de Nolan, somado à direção inspirada de Scott - chamado pelo elenco de "maestro do caos" durante as filmagens - e à equipe técnica impecável (justamente premiada com os Oscar de edição e som) fazem dele um programa obrigatório aos aficcionados do gênero e àqueles que sabem reconhecer bom cinema.

sexta-feira

ONZE HOMENS E UM SEGREDO

ONZE HOMENS E UM SEGREDO (Ocean's eleven, 2001, Warner Bros, 116min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Ted Griffin, roteiro original de Harry Brown, Charles Lederer. Fotografia: Steven Soderbergh (Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: David Holmes. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Bruce Berman, Susan Ekins, John Hardy. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Andy Garcia, Bernie Mac, Elliott Gould, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Don Cheadle, Angie Dickinson. Estreia: 05/12/01

A impressão que alguns filmes passam ao espectador é a de que o elenco está se divertindo tanto quanto o público. Em alguns casos isso é problemático, mas de vez em quando acaba se tornando um prazer a mais, como se a plateia estivesse sendo convidada a participar de uma festa particular - e muito animada. É mais ou menos isso que acontece com "Onze homens e um segredo", grande sucesso de bilheteria dirigido por Steven Soderbergh logo após seu Oscar pelo sério e compenetrado "Traffic". Refilmagem (muito) livre de um clássico estrelado por Frank Sinatra e Dean Martin em 1960, essa nova versão rendeu quase 200 milhões de dólares só no mercado americano e comprovou o talento versátil do cineasta que derrotou a si mesmo na festa da Academia (ele concorria também por "Erin Brockovich, uma mulher de talento").

A princípio (e sejamos honestos, é exatamente isto) "Onze homens e um segredo" é mais um filme sobre grandes golpes em que a plateia é levada a torcer fervorosamente pelo criminoso (e quando o criminoso é George Clooney fica tudo muito mais fácil). Clooney exercita todo o charme mezzo cafajeste/mezzo carente na pele de Danny Ocean, um bandido boa-pinta que sai em liberdade condicional já de olho em uma nova forma de burlar a lei - e, no caso, seu desafeto Terry Benedict (Andy Garcia), que, além de dono de três cassinos em Las Vegas casou-se com sua ex-mulher, Tess (Julia Roberts em um generoso e bem-humorado segundo plano). Para roubar os três cassinos na mesma noite - durante uma luta de boxe disputadíssima - ele sai em busca do time perfeito, que inclui seu braço-direito Rusty Ryan (um Brad Pitt encantador e hilário), o financiador do golpe Reuben Tishkoff (Elliot Gould, sensacional) e o golpista Linus Caldwell (Matt Damon). Quando a equipe chega a onze pessoas é hora de partir para a ação.



O mais divertido de "Onze homens e um segredo" nem é tanto o desenvolvimento da trama, mesmo porque no fundo todo mundo sabe "o que" irá acontecer (ainda que talvez não desconfiem "como"), mas sim a forma com que Soderbergh parece ter deixado o elenco improvisar e brincar em cima de uma história que se presta lindamente a esse tipo de brincadeira. O próprio filme original era um veículo para o chamado "Rat Pack" (grupo de amigos que incluía, além de Sinatra e Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop). A atualização do bando não poderia ser mais acertada, uma vez que é nítida a química entre os atores - e que suas duas continuações confirmaram ainda mais. Unindo o charme de Clooney ao humor debochado de Pitt e a sensualidade de Julia Roberts não tinha como dar errado. E não deu.

"Onze homens e um segredo" não é um filme para quem busca entretenimento sério e cerebral. É uma piada interna que funciona como diversão inofensiva - além de extremamente bem produzida e surpreendentemente bem escrita (alguns diálogos são engraçadíssimos). Bem fotografado (pelo próprio diretor sob o pseudônimo de Peter Andrews), agilmente editado e inteligente, é quase tudo que se espera de um filme com suas (des)pretensões.

quinta-feira

INFIDELIDADE

INFIDELIDADE (Unfaithful, 2002, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Alvin Sargent, William Broyles Jr., roteiro original de Claude Chabrol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Anne V. Coates. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Susan Tyson. Produção executiva: Lawrence Steven Meyers, Arnon Milchan, Pierre-Richard Muller. Produção: G. Mac Brown, Adrian Lyne. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe, Erik Per Sullivan, Michelle Monaghan, Myra Lucretia Taylor. Estreia: 10/5/02

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Lane)

Em 1986 o cineasta inglês Adrian Lyne inspirou centenas de casais mundo afora com as tórridas fantasias retratadas no cult "9 1/2 semanas de amor". No ano seguinte, apavorou homens casados e foi indicado ao Oscar por "Atração fatal" e em 1993 aproveitou o auge da beleza de Demi Moore para provocar polêmica com "Proposta indecente". Utilizando mais uma vez seus ingredientes "infalíveis" ele voltou à a baila com "Infidelidade", que mistura a sensualidade de "9 1/2" com a temática adulta de "Atração" e a controvérsia de "Proposta". O resultado é um filme que não se decide entre o drama, o erotismo e o suspense e que tem como maior trunfo a atuação irrepreensível de Diane Lane.

Lane mereceu uma surpreendente indicação ao Oscar por seu trabalho como Connie Sumner, uma dona-de-casa que leva uma vida tranquila e sem maiores sobressaltos em um subúrbio de Nova York, ao lado do marido, Edward (Richard Gere no atípico papel de marido sem sex-appeal) e do filho pequeno. Em uma tarde como outra qualquer em Manhattan, durante uma ventania ela esbarra no sexy Paul Martel (o inexpressivo francês Olivier Martinez), um comerciante de livros usados e vai pra casa dele cuidar de um ferimento no joelho. Intrigada com o rapaz, logo ela passa a encontrar-se regularmente com ele, iniciando um quente e passional relacionamento extra-conjugal. Em breve a relação começa a atrapalhar a rotina de Connie e despertar a suspeita do marido, que, desconfiado, contrata um detetive para seguir a mulher. Quando a verdade vem à tona, uma tragédia transforma a vida de todos.


O problema maior de "Infidelidade" é justamente sua falta de foco. O que parecia um drama familiar - casal sendo obrigado a lidar com a falta de novidades e uma traição - logo transforma-se em um romance com um erotismo tórrido e de bom gosto - marca registrada do diretor - e, no terço final, vira um filme de suspense de pouco alcance, que ainda consegue decepcionar com mais uma conclusão decepcionante e ambígua, que enfraquece o conjunto (e isso vindo do homem que não teve medo de fazer Glenn Close cozinhar um coelhinho de estimação!) Se tivesse se concentrado em qualquer uma das vertentes que a história - baseada em um filme de Claude Chabrol - oferece, Lyne com certeza teria tido mais sucesso, principalmente porque daria a seu elenco personagens menos unidimensionais e um tanto inverossímeis.

Mas para não dizer que não falei das flores, nem tudo é fraco em "Infidelidade". Como já foi dito, as cenas de sexo entre Diane Lane e Olivier Martinez são fotografadas com maestria por Peter Biziou - vencedor de um Oscar por "Mississipi em chamas" - e o clima de tensão que permeia o filme são realmente competentes. Mas é a presença luminosa de Lane que definitivamente salva a obra de Adrian Lyne da vala dos dramas corriqueiros que infestam as sessões de sábado à noite na televisão. Madura e bonita como nunca, ele consegue transmitir toda a gama de emoções que o roteiro limitado lhe proporciona (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que, em um trem, ela relembra o primeiro encontro sexual com o amante, uma cena filmada em um único take e que é suficiente para deixar claros os sentimentos da personagem). Apesar de todos os problemas do filme, ela vale cada minuto de projeção, em uma interpretação que lhe colocou entre os grandes nomes de sua geração.

quarta-feira

DIRIGINDO NO ESCURO

DIRIGINDO NO ESCURO (Hollywood ending, 2002, DreamWorks SKG, 112min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Wedigo von Schultzendorff. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenembaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Téa Leoni, Treat Williams, Mark Rydell, George Hamilton, Debra Messing, Aaron Stanford. Estreia: 03/5/02

Quando Woody Allen resolve falar sério e evoca um de seus ídolos máximos, Ingmar Bergman, ele conquista pela profundidade e por seu surpreendente entendimento da alma humana. Quando pretende apenas fazer rir, no entanto, é que o diretor nova-iorquino mostra porque é um dos mais prestigiados cineastas em atividade, capaz de arregimentar astros de todos os quilates para suas produções. Em "Dirigindo no escuro", ele não apenas faz rir como utiliza sua experiência de mais de três décadas no mundo do cinema para alfinetar a própria indústria.

O próprio Allen vive o protagonista, Val Waxman, um cineasta vencedor de dois Oscar que, em desgraça devido a seus ataques de estrelismo, tem a grande chance de voltar ao topo ao ser contratado para dirigir uma nova - e cara - produção. A princípio relutante em aceitar o trabalho - o produtor do filme, Hal Yaeger (Treat Williams) é o novo marido de sua ex-mulher (Tea Leoni) - Waxman acaba embarcando no projeto, disposto a tentar a ressurreição de sua carreira. Depois de contratar toda a equipe (inclusive um diretor de fotografia asiático cheio de manias e que não fala nenhuma palavra de inglês), ele descobre, na véspera do início das filmagens, que ficou cego. Impedido por seu agente (o cineasta Mark Rydell, de "A Rosa") de desistir do trabalho, Waxman dá início à produção do filme, sem contar a ninguém sua condição, contando apenas com a ajuda do intérprete contratado para auxiliar na comunicação com o fotógrafo.



É dificil ficar incólume a "Dirigindo no escuro", especialmente quando se é fã de cinema e percebe-se nele referências nominais - aos irmãos Weinstein, donos da então poderosa Miramax, por exemplo - e piadas geniais sobre a própria Hollywood e suas engrenagens mercenárias. Ao eleger como protagonista um cineasta que conduz um filme sem enxergar um palmo diante do nariz, o diretor mostra, com seu característico senso de humor, que nem é preciso ter uso de todos os cinco sentidos para se ter uma bem-sucedida carreira na terra do cinema.

Com um final irônico e à altura do desenvolvimento do roteiro, repleto de diálogos engraçadíssimos e piadas visuais há muito ausente das obras de Woody Allen - e com um elenco que conta com Debra Messing, a gracinha protagonista do seriado de TV "Will & Grace" - "Dirigindo no escuro" pode não ser o mais popular entre seus filmes, mas está (como sempre) muito à frente de comédias sem-graça que são servidas semanalmente ao público. Hilariante!

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...