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quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

REVELAÇÃO

 


REVELAÇÃO (What lies beneath, 2000, 20th Century Fox/DreamWorks Pictures, 130min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Clark Gregg, história de Clark Gregg, Sarah Kernochan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Rick Carter, Jim Teegarden/Karen O'Hara. Produção executiva: Joan Bradshaw, Mark Johnson. Produção: Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Harrison Ford, Michelle Pfeiffer, Miranda Otto, James Remar, Diana Scarwid, Katharine Towne. Estreia: 18/7/2000

Em 2000, quando dirigiu "Revelação", o cineasta Robert Zemeckis já tinha no currículo uma comédia adolescente ("Febre de juventude"), um clássico da ficção científica juvenil ("De volta para o futuro" e suas continuações), um marco na interação entre live action e animação ("Uma cilada para Roger Rabbit"), um vencedor de múltiplos Oscar ("Forrest Gump: o contador de histórias") e uma adaptação de Carl Sagan ("Contato"). Faltava ainda exercitar seu músculo hitchcockiano e a oportunidade chegou na pausa das filmagens de "Náufrago" - enquanto Tom Hanks sofria para emagrecer o necessário para a segunda etapa dos trabalhos do filme que lhe daria mais uma indicação à estatueta, Zemeckis mergulhou em seu desejo de assustar os espectadores com uma trama que mistura fantasmas, assassinatos... e um Harrison Ford deixando de lado a persona heroica para dar vida a um personagem no mínimo dúbio. 

A um custo estimado de cem milhões de dólares - recuperado facilmente nas bilheterias ao redor do mundo, seduzido pela presença de Ford e da estrela Michelle Pfeiffer -, "Revelação" é uma exibição das técnicas de Zemeckis como diretor, um filme repleto de jogos de câmera, cortes rápidos, uso generoso da trilha sonora e exploração inteligente do som e da fotografia. Mas é, também, um filme com sérios problemas de roteiro e um desfecho atolado em clichês - problemas disfarçados por uma embalagem luxuosa proporcionada pelo orçamento milionário e por seus astros fotogênicos. Pfeiffer, linda e exuberante, brilha a maior parte do tempo - mesmo quando o roteiro apela para explicações sobrenaturais pouco críveis para uma trama que se propõe séria. Ford, por sua vez, só é devidamente aproveitado na segunda metade da história - mas não consegue fugir do tom monocórdio da maioria de seus trabalhos que não Indiana Jones. A dupla de atores - escolhas únicas do cineasta desde a concepção do projeto - apresenta uma química interessante que vai crescendo a cada sequência, mas ambos esbarram na preferência de Zemeckis em abusar de seus virtuosismos visuais em detrimento da consistência da história que deseja contar.

 

"Revelação" gira em torno do casal Spencer. Ele, Norman, é um cientista respeitado que tenta desesperadamente fugir da sombra do pai, igualmente prestigiado pela comunidade. Ela, Claire, é uma violoncelista que abandonou a carreira para cuidar do marido e da filha e que, um ano depois de um violento acidente de carro, se vê diante da solidão causada pela viagem de sua filha adolescente à universidade. Sozinha e entediada, Claire começa a acreditar que seu vizinho (James Remar) assassinou a esposa (Miranda Otto), a quem testemunhou chorando através da cerca de sua propriedade. Tal certeza coloca seu casamento em crise - agravada ainda mais quando a bela dona-de-casa passa também a ouvir vozes misteriosas e sentir presenças ameaçadoras em sua bela casa à beira de um lago de Vermont. Norman tem certeza de que sua esposa está passando por uma séria crise de nervos, mas a situação muda completamente quando tais eventos começam a remeter à identidade de uma jovem estudante desaparecida - cujo destino parece intimamente ligado à mansão dos Spencer.

A história concebida pelo também ator Clark Gregg - que coescreveu o roteiro com Sarah Kernochan - apresenta várias possibilidades para o espectador, mas infelizmente não consegue equilibrá-las a contento. Ao mesclar uma narrativa policial tradicional com elementos do mais puro terror sobrenatural, o filme parece derrapar em dois gêneros que, em mãos mais seguras, podem ser complementares - mas que sob o comando de Zemeckis nem sempre conseguem dialogar entre si. De talento mais que comprovado, o cineasta perde a mão ao enfatizar o suspense visual e deixar de lado o desenvolvimento de seus personagens - talvez mais uma homenagem a Hitchcock, que privilegiava a manipulação dos nervos do público através de artifícios narrativos visuais e sonoros. Em especial no ato final, a tensão assume um protagonismo tal que a trama em si soa ainda mais insignificante, como se servisse unicamente como vitrine das peripécias estilísticas de seu diretor. No final das contas, "Revelação" se mostra um filme de suspense acima da média, mas que fica aquém do talento de seu time - ao menos em termos de roteiro e consistência.

AS BARREIRAS DO AMOR

 


AS BARREIRAS DO AMOR (Love field, 1992, Orion Pictures, 105min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Don Roos. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Jane Kurson. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Collen Atwood, Peter Mitchell. Direção de arte/cenários: Mark Freeborn/Jim Erickson. Produção executiva: George Goodman, Kate Guinzburg. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Michelle Pfeiffer, Dennis Haysbert, Stephanie McFadden, Brian Kerwin, Louise Latham, Beth Grant. Estreia: 11/12/92

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Michelle Pfeiffer)

Vencedor do Urso de Prata (Melhor Atriz) no Festival de Berlim (Michelle Pfeiffer) 

Coisas de Hollywood: pronto para ser lançado em 1990, o drama "As barreiras do amor" - primeiro filme da produtor da atriz Michelle Pfeiffer, a Via Rosa - acabou sendo guardado em uma gaveta da Orion Pictures enquanto o estúdio enfrentava uma série de dificuldades financeiras que quase o levaram à falência. Sua demora em estrear, no entanto, mostrou-se providencial: o desempenho de Pfeiffer acabou por dar a ela o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim e indicações ao Golden Globe e ao Oscar - um currículo que destaca o que a produção tem de melhor. Apesar de suas boas intenções, o filme de Jonathan Kaplan não consegue deixar de dar a impressão de ser um telefilme de luxo, com ritmo irregular e situações repletas de clichês. 

A trama se passa em 1963, durante um conturbado período, repleto de revoltas por direitos civis e por manifestações contrárias à Guerra do Vietnã. Praticamente alheia aos problemas do país, a cabeleireira Lurene Hallett (Michelle Pfeiffer) vive uma rotina centrada no trabalho, na vida conjugal ao lado do marido, Ray (Brian Kerwin), e principalmente em sua dedicação quase doente por Jackie Kennedy - a quem admira por, entre outras razões, ter sobrevivido dignamente a um aborto espontâneo, como ela. A chance de ver de perto a mulher por quem é quase obcecada acontece com a visita do presidente e da primeira-dama à sua cidade, Dallas - uma visita que acaba tragicamente, com o assassinato de JFK. Arrasada, Lurenne resolve comparecer ao funeral, em Washington, apesar da proibição do marido. No ônibus que a leva até a capital do país ela conhece Paul Cater (Dennis Haysbert), um rapaz negro que está viajando ao lado da filha pequena, Jonell (Stephanie McFadden), uma criança calada e estranhamente nervosa. Sentindo que há algo de errado na relação entre os dois, a jovem acaba por envolvê-los em um mal-entendido que os leva a virar alvo da polícia - pouco afeita a respeitar cidadãos a quem considera inferiores.

 

Ao relembrar ao público norte-americano um de seus maiores traumas - vale lembrar que foi realizado antes do estupendo "JFK: a pergunta que não quer calar" (1991), de Oliver Stone - e tocar em uma de suas feridas mais profundas (o racismo), "As barreiras do amor" acrescenta um elemento novo a um subgênero dos mais queridos do cinema - o road movie -, convidando o público a acompanhar personagens que vão revelando aos poucos camadas que fazem deles seres bem mais complexos do que em uma primeira constatação. Pfeiffer consegue sair facilmente do tipo femme fatale que a acompanhava até então ao imprimir em sua Lurenne um tom de futilidade e ingenuidade que vai sendo substituída gradualmente pela sensação de desamparo e percepção de um mundo que foge de seu dia-a-dia açucarado: seu trabalho é primoroso, especialmente na transição entre dona-de-casa deslumbrada para uma mulher que encara o próprio sofrimento e vê diante de si um mundo de injustiças e violência. Dennis Haysbert - substituindo Denzel Washington, que abandonou o projeto pelas famosas "divergências artísticas" - não fica atrás, com uma interpretação silenciosa e discreta, em que comunica mais com o olhar do que com longos diálogos (ainda que, quando necessário, também saiba demonstrar a dimensão de seu talento). Completando o trio de protagonistas, a pequena Stephanie McFadden não se deixa intimidar por seus colegas veteranos, transmitindo em suas feições delicadas um mundo de medo e traumas que vão se revelando conforme a estrada vai ficando para trás.

Uma pena, porém, que a direção de Jonathan Kaplan seja tão quadrada. Não é preciso que haja grandes ousadias em um filme cujo roteiro (escrito por Don Roos, que mais tarde assinaria a direção de "O oposto do sexo", de 1998, e "Finais felizes", de 2005) segue todas as regras já conhecidas pelo grande público, mas Kaplan simplesmente evita qualquer desvio no que se poderia esperar do percurso dos personagens - e uma edição mais enxuta talvez resolvesse parte do problema de ritmo que acomete a produção em seu segundo ato. Comentado por uma trilha sonora atípica de Jerry Goldsmith, "As barreiras do amor" é um filme agradável e bem realizado, mas que não atinge todo o seu potencial e não consegue escapar de seu destino de ser um trabalho pouco memorável na carreira dos envolvidos.

terça-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

SAÍDA À FRANCESA

 


SAÍDA À FRANCESA (French exit, 2020, Blinder Films/Elevation Pictures/Rocket Sciense/Sony Pictures, 113min) Direção: Azazel Jacobs. Roteiro: Patrick DeWitt, romance homônico de sua autoria. Fotografia: Tobias Datum. Montagem: Hilda Rasula. Música: Nicholas DeWitt. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Jean-Andre Carriere/Manon Lemay, Joelle Péloquin. Produção executiva: Matt Aselton, Ian Cooper, Patrick DeWitt, Azazel Jacobs, Adrian Love, Stuart Manashil, Vincent Maraval, Marc Marrie, Laurie May, Darrin Navarro, Thorsten Schumacher, Lars Sylvest. Produção: Trish Dolman, Olivier Glaas, Christine Haebler, Katie Holly, Christina Piovesan, Noah Segal. Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Tracy Letts, Valerie Mahaffey, Susan Coine, Imogene Poots, Danielle Macdonald. Estreia: 10/10/2020 (New York Festival)

Frances Price é viúva há mais de dez anos – mais de uma década em que convive com a desconfiança das pessoas em relação ao fato de ter demorado muito mais que o conveniente para tomar qualquer atitude diante do marido morto. Mais de uma década vivendo de uma herança que, como quase tudo, tem prazo para acabar. Sabendo que sua imagem de socialite está com os dias contados – sua vida perdulária e irresponsável finalmente cobra o preço depois de excentricidades irresponsáveis -, Frances resolve esconder sua nova situação e, passando a mão em seus últimos bens e no único filho, Malcolm, viaja para morar em Paris, no apartamento da única amiga que ainda lhe resta. Lá, ela pretende fugir do olhar crítico da alta sociedade a que um dia pertenceu – e viver discretamente seus derradeiros anos de vida.

Talvez a sinopse de “Saída à francesa” não seja exatamente entusiasmante. Porém, por mais paradoxal que isso pareça quando se trata de uma produção cinematográfica made in Hollywood, a intenção do diretor Azazel Jacobs seja justamente esta: demonstrar que nem sempre são necessárias ideias mirabolantes para se criar um filme interessante. E “Saída à francesa”, a despeito da simplicidade de sua trama, É um filme interessante. Por trás da história banal de uma mulher incapaz de abandonar seu status social mesmo quando já não há onde se amparar, há um roteiro repleto de ironias, peculiaridades e personagens complexos, capazes de surpreender ao espectador que se permitir embarcar em sua estranha narrativa.

 

Não que Jacobs aposte em uma atmosfera bizarra ou escorada em um realismo fantástico para contar sua história. O roteiro, porém, escrito pelo mesmo Patrick DeWitt autor do livro que lhe deu origem, brinca com o público ao intercalar, com uma séria crítica à decadência da burguesia norte-americana, um tom quase surreal que mistura espíritos que falam através de gatos (ou tudo não passa de fraude?), pessoas cuja solidão desesperada gritam por ajuda e as belíssimas paisagens parisienses. Paris, aliás, não é apenas um cenário gratuito: com seu ar sofisticado, é o destino ideal para que Frances desfile sua classe e suas idiossincrasias, e, de forma discreta, saia de cena sem chamar atenção demais – nem mesmo de seu dileto e passivo rebento, um rapaz cuja falta de atitude contrasta com os rompantes da mãe. Sem forças nem mesmo para desafiar os desejos maternos e assumir o noivado com a namorada, Malcolm soa, na vida de Frances, mais como um percalço do que um filho – uma relação cuja placidez da superfície guarda cicatrizes bem mais profundas e que remetem a um passado bem menos atribulado.

E se o roteiro de “Saída à francesa” trabalha bem em deixar escondidos os sentimentos de seus personagens, é um acerto gigantesco que seu elenco seja tão bem escalado. Se Lucas Hedges mais uma vez aposta em uma atuação quase invisível e os atores de apoio entregam exatamente o que se espera deles – com destaque para a ótima Valerie Mahaffey, como uma insuspeita amizade que surge no período francês da protagonista e que é dona de algumas das cenas mais engraçadas -, é inegável que o show aqui é de Michelle Pfeiffer. Indicada ao Golden Globe por seu trabalho (e seriamente cotada para concorrer ao Oscar, em previsões da crítica), Pfeiffer está em um dos melhores momentos da carreira, com um desempenho sutil, que deixa antever um subtexto rico e complexo. Mesmo quando se vê diante de situações em que uma atriz menos experiente poderia escorregar, a eterna Mulher-gato surpreende ao optar sempre pelo menos óbvio. Sua interpretação é o apoio mais que perfeito para uma obra que, evitando os clichês e a crítica fácil, faz uma caricatura sensível e carinhosa de uma geração cuja decadência nem sempre aconteceu com elegância.

domingo

MÃE!


MÃE! (mother!, 2017, Paramount Pictures, 127min) Direção e roteiro: Darren Aronofsky. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Wesiblum. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Larry Dias, Martine Kazemirchuck. Produção executiva: Mark Heyman, Josh Stern, Jeff Waxman. Produção: Scott Franklin, Ari Handel. Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig. Estreia: 05/9/2017 (Festival de Veneza)

Darren Aronofsky tem no currículo filmes muito particulares, como o cultuado "Pi" (1998), o elogiado "Réquiem para um sonho" (2000) e o oscarizado "Cisne negro" (2010). Mesmo assim, com todas essas produções polêmicas na bagagem - sem falar no ambicioso "Fonte da vida", que desconcertou crítica e público em 2006 -, o cineasta nova-iorquino nunca foi alvo de tanta controvérsia quanto a despertada por "Mãe!", seu sétimo longa-metragem. Cercado de segredos até sua estreia no Festival de Veneza 2017, o filme já chegou ao mundo dividindo ferozmente as opiniões: tanto aplaudido quanto vaiado na Itália, seu trabalho seguiu caminho sendo apedrejado (por muitos) e incensado (por bem menos). Não deixa de ser esperado: alegórico ao extremo e violento em demasia, o filme apostou alto na inteligência e sensibilidade de um público mal-acostumado e alimentado por blockbusters vazios e descobriu, da pior maneira, que seu pesadelo febril estava longe de despertar a curiosidade da plateia. Com uma renda tímida de pouco mais de 17 milhões de dólares (contra um custo estimado de 30), "Mãe!" acabou por mostrar-se uma grande dor de cabeça para a Paramount, que herdou o projeto da Fox e de outros estúdios e viu que nem mesmo a presença de Jennifer Lawrence e Javier Bardem como protagonistas puderam salvar o filme do fracasso comercial. Aliás, para surpresa de todos - até mesmo daqueles que reconheciam o elenco como única qualidade do filme -, "Mãe!" chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro (o oposto do Oscar) nas categorias de pior ator e pior atriz.

Mas, afinal, por que tanto ódio por um filme? Se o próprio Aronofsky já tinha experimentado um pouco da fúria dos católicos por sua versão pouco religiosa do dilúvio em "Noé" (2014), foi com "Mãe!" que ele realmente mergulhou fundo em um tema tão inflamável quanto religião. Não que "Mãe!" seja um filme óbvio sobre Deus e seus profetas, mas assim que os símbolos do roteiro são decifrados, fica bastante claro que o cineasta não está disposto a poupar nem os personagens nem tampouco os espectadores. Sob uma direção claustrofóbica e em um tom onírico de causar inveja a David Lynch, Aronofsky conduz o público por um caminho repleto de fanatismo, violência e desespero, sublinhados pela fotografia imersiva de Matthew Libatique, que acompanha a protagonista em seu espiral de angústia, através de um cenário que é quase um personagem a mais. É compreensível que boa parte da audiência sinta-se desconfortável com a ousadia narrativa do diretor, mas é chocante o quanto uma parcela da crítica foi capaz de rechaçar o filme com tanta truculência - mesmo antes de sua estreia.

 


Envolto em aura de mistério desde sua fase de pré-produção, "Mãe!" viu os mais diversos boatos a seu respeito surgirem na indústria. Havia quem jurasse que se tratava de um remake do clássico "O bebê de Rosemary", dirigido por Roman Polanski em 1968 - uma informação completamente equivocada, como mais tarde se veria. Com o título provisório de "Day 6", o filme era a culminância de uma longa gestação - que incluiu ensaios por três meses antes das filmagens e uma reunião de Aronofsky com Jennifer Lawrence, que resultou não apenas em uma parceria profissional, mas também em um romance entre o diretor e sua estrela. Lawrence, uma das atrizes mais respeitadas e premiadas de sua geração, embarcou em um projeto potencialmente perigoso - o que conta muitos pontos a seu favor - e saiu dele com uma costela quebrada e uma experiência devastadora emocionalmente. Não à toa, tirou um ano de férias após o final dos trabalhos - e viu o massacre em cima do filme, que se tornou, também, seu maior fracasso de bilheteria de estreia, com apenas 7,5 milhões de dólares arrecadados no primeiro fim-de-semana em cartaz. Para efeito de comparação, um de seus filmes mais bem-sucedidos, o primeiro "Jogos vorazes" (2012) saiu de sua estreia com mais de 150 milhões.

É difícil resumir "Mãe!" sem privar o público da sensação de estar descobrindo aos poucos tudo que está acontecendo na tela. Sem estragar nada, pode-se dizer que a trama gira em torno de um casal cujos nomes nunca são mencionados - vividos por Lawrence e Javier Bardem - que, durante o processo de restauração de sua bela casa isolada, vê seu relacionamento ameaçado pela chegada de outro par - Ed Harris e Michelle Pfeiffer, ótimos - e, posteriormente, por convidados barulhentos e hostis. O dono da casa é um aclamado e egocêntrico poeta que não se importa com o estrago feito por seus fãs, enquanto sua esposa tenta impedir os estragos que estão destruindo seu lar e seu relacionamento. Pronto. Sabendo-se que Bardem interpreta uma versão particular de Deus e Lawrence dá voz à Natureza, o resto vai se revelando de forma aterradora. É só prestar atenção que tudo está lá: Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, a criação do Novo Testamento, guerras religiosas, o nascimento de Cristo... Aronofsky merece ser aplaudido por sua coragem em criar algo tão fora do comum e tão radicalmente controverso. Logicamente não é um filme para qualquer público, mas só o fato de assumir isso sem medo já é motivo mais que suficiente para considerá-lo uma das obras mais importantes do cinema norte-americano recente.

sexta-feira

FRANKIE & JOHNNY

FRANKIE & JOHNNY (Frankie & Johnny, 1991, Paramount Pictures, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Terrence McNally, baseado em sua peça teatral "Frankie and Johnny in the Clair de Lune". Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jacqueline Cambas, Battle Davis. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Kathe Klopp. Produção executiva: Michael Lloyd, Charles Mulvehill, Alexandra Rose. Produção: Garry Marshall. Elenco: Michelle Pfeiffer, Al Pacino, Kate Nelligan, Hector Elizondo, Glenn Plummer. Estreia: 11/10/91

Quase uma década separa o primeiro encontro nas telas entre Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Em 1983, quando fizeram "Scarface", de Brian De Palma, Pacino já era um grande nome em Hollywood, com várias indicações ao Oscar e alguns clássicos no currículo, enquanto a bela Pfeiffer tentava emplacar no cinema e provar-se mais capaz do que simplesmente arrancar suspiros do público masculino. Oito anos mais tarde, muita coisa havia mudado: o veterano ator, depois de um exílio voluntário no teatro, retornava às telas com garra total (e elogios rasgados por filmes como "O poderoso chefão - parte 3" e "Dick Tracy", ambos de 1990), e a deslumbrante ex-modelo finalmente estava estabelecida como atriz de primeira grandeza, com duas indicações à estatueta e o respeito da indústria. Não é de admirar, portanto, que em "Frankie & Johnny", o filme responsável por seu reencontro, o que se veja é um amigável duelo de interpretações, entre dois astros consagrados e sem mais nada a provar a ninguém. O que surpreende, na verdade, é o quanto Michelle consegue se destacar mesmo diante de um monstro como Pacino!

Dirigidos por Garry Marshall - recém saído do estrondoso sucesso de "Uma linda mulher" (90) - e com base em uma peça teatral que contou com F. Murray Abraham e Kathy Bates em uma de suas montagens, "Frankie & Johnny" é um drama romântico que abre mão de vários dos clichês do gênero em busca de um tom mais realista e menos fantasioso. Os protagonistas, por exemplo, estão longe de serem jovens atléticos e milionários em busca de um romance de cinema: Johnny é um ex-presidiário solitário, que não tem coragem de reaproximar-se da ex-mulher e dos filhos mas deseja uma vida menos à margem da sociedade; e Frankie, depois de um relacionamento abusivo e violento, só quer ter paz para poder assistir a filmes no sossego de seu pequeno apartamento - e ocasionalmente divertir-se com o vizinho e melhor amigo, Tim (Nathan Lane). O encontro entre eles não se dá em um cenário paradisíaco e fotogênico de Nova York, mas sim no pequeno restaurante onde ela é garçonete e ele começa a trabalhar como cozinheiro. E não, não há intrigas e mal-entendidos durante o percurso entre seu primeiro contato e o amor que enfim surge: o autor da peça (e do roteiro), Terrence McNally, faz questão de manter tudo o mais perto possível do dia-a-dia, do mundano, do crível. Talvez por isso as plateias não tenham correspondido tão bem: com uma bilheteria de pouco mais de 20 milhões de dólares nos EUA, o filme de Marshall acabou conquistando apenas a crítica - e mesmo assim, com reservas. Pfeiffer foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, mas Pacino foi simplesmente ignorado por todas as cerimônias de premiação do ano.


É fácil compreender o motivo pelo qual Pfeiffer chamou mais a atenção do que seu experiente colega de cena: enquanto ela opta por um caminho mais sutil e delicado de atuação, de acordo com o passado e o presente de sua personagem, Pacino encara seu Johnny como um homem que, apesar dos pesares, ainda mantém o bom humor e a esperança, frequentemente exagerando em suas tentativas de conquistar Frankie através de sua personalidade despachada. Nem sempre Pacino acerta o tom, e essa irregularidade acaba por jogar luz no trabalho minimalista de Michelle, cujo sorriso reflete com segurança a complexidade interna de uma mulher que não acredita no amor, mas que de certa forma precisa dele para sentir-se completa. Os diálogos de McNally são inteligentes e certeiros - respeitam seus protagonistas e a plateia com sensibilidade e humor - e a direção de Marshall, apesar de quadradinha em excesso, não atrapalha a dinâmica de seu elenco ou a fluidez da trama: como sempre em sua filmografia, ele sabe como transformar cenas simples em momentos no mínimo agradáveis. E se, em determinadas passagens parece tudo verborrágico demais, é bom lembrar das origens teatrais do texto e embarcar em uma história que (felizmente) dispensa artifícios narrativos e lances folhetinescos.

"Frankie & Johnny" é, em suma, um drama romântico para adultos. Sensível, delicado e inteligente, peca apenas por ser simples demais em sua essência - o que muitas vezes afugenta um público acostumado com excessos de todo tipo. Ao contrário da maioria de seus congêneres, não é o final feliz a todo custo que almeja, mas sim a empatia com seus protagonistas, a compreensão de suas idiossincrasias e a torcida para que, no desfecho, tudo saia como eles procuram - independentemente se isso virá com eles juntos ou não. É louvável que seu diretor tenha conseguido realizá-lo logo em seguida a seu êxito maior - justamente uma comédia romântica típica - sem deixar-se contaminar por maneirismos: são dois filmes opostos, apesar de seu tema comum (o amor), e Marshall comprovou que talento em perceber o humano em cada personagem era algo que realmente não lhe faltava. Vale experimentar, mas sem esperar os lugares-comuns do gênero.

quinta-feira

ÍNTIMO & PESSOAL

ÍNTIMO & PESSOAL (Up close & personal, 1996, Touchstone Pictures/Cinergi Pictures Entertainment, 124min) Direção: Jon Avnet. Roteiro: Joan Didion, John Gregory Dunne, inspirado no livro de Alanna Nash. Fotografia: Karl Walter Lindenlaub. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Jeremy Conway/Doree Cooper. Produção executiva: John Foreman, Ed Hookstratten. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner, David Nicksay. Elenco: Robert Redford, Michelle Pfeiffer, Stockard Channing, Joe Mantegna, Kate Nelligan, Glenn Plummer, James Rebhorn, Scott Bryce. Estreia: 01/3/96

Indicado ao Oscar de Canção Original ("Because you loved me")



Primeiro foi o sucesso da Touchstone Pictures em conseguir os direitos do livro "Almost golden: The Jessica Savitch Story", escrito por Allana Nash. Depois, a expectativa em realizar um filme capaz de chamar a atenção do público e da crítica - além de faturar estatuetas douradas pelo caminho. E no fim, o desespero de perceber que o material que tinham em mãos era radicalmente o oposto do que se poderia esperar de uma produção com o selo Disney. É de imaginar o que um estúdio conhecido por seus filmes realizados para a família poderia pensar ao ler uma história sombria e trágica, com uma protagonista envolvida com álcool, drogas, maridos abusivos e até suicídio. Tendo isso em conta, é compreensível que a trajetória de Savitch - uma das primeiras mulheres a assumir o cargo de âncora em um telejornal nos EUA, no final dos anos 70 - tenha se metamorfoseado, então, em "Íntimo & pessoal", um açucarado drama romântico que em nada (ou quase nada) lembra sua origem dramática e que, por ironia, passou batido nas cerimônias de premiação e nem mesmo entusiasmou seu público-alvo. Um entretenimento apenas razoável, o filme de Jon Avnet (do bem-sucedido "Tomates verdes fritos", de 1991) só não é totalmente esquecível graças à beleza e ao carisma de sua estrela, Michelle Pfeiffer - que, por sua vez, deve ter sido a mais frustrada da história toda.

Recém saída de um parto e sem disposição para filmagens extensas e cansativas fora dos EUA, Pfeiffer recusou o papel principal de "Mistress of the sea" - um filme de ação sobre piratas do sexo feminino e que nunca chegou a ser realizado - para estrelar "Íntimo & pessoal" quando o filme de Avnet ainda era sobre Jessica Savitch e sua história, tragicamente encerrada em decorrência de um acidente de carro em outubro de 1983. Conhecida nacionalmente por seu trabalho como repórter e apresentadora, Savitch cobriu eventos importantes para o país, como as convenções dos partidos Democrata e Republicano de 1980 - mas era mais conhecida por seu carisma e pela naturalidade diante das câmeras (apesar de ter seu talento ser frequentemente questionado por detratores, que a consideravam apenas um rosto bonito). Poucas semanas antes de sua morte, em um incidente que muitos consideraram um forte indício de que ela poderia realmente estar abusando de drogas, Savitch fez uma desastrosa aparição ao vivo na NBC, parecendo completamente perdida e incoerente. Sua morte não encerrou as discussões sobre o assunto - mas sua vida pessoal era muito mais complexa do que todos pensavam, mas tudo que fazia dela tão especial em termos dramáticos foi simplesmente apagado do roteiro quando a Touchstone decidiu que, ao invés de explorar os demônios de sua protagonista, iria direcionar o foco do filme para uma história de amor que não tinha absolutamente nada a ver com a realidade.



Surgia assim, então, Sally Atwater, uma jovem e ambiciosa modelo que, disposta a tornar-se conhecida como repórter televisiva, abandona seu estado natal, a Pensilvânia, e parte para Miami. Contratada como assistente, ela não demora a demonstrar garra o bastante para ser escolhida como a "moça do tempo" da NBC - e, em seguida, passar a fazer pequenas reportagens para a emissora. Com o apoio do experiente Warren Justice (Robert Redford), Sally (já devidamente rebatizada como Tally) aos poucos começa a subir mais degraus na carreira, e os dois iniciam um romance maduro e honesto. O futuro do relacionamento, porém, é posto à prova quando Tally se torna um rosto conhecido no país inteiro - e Justice se vê diante de uma séria crise que lhe coloca em posição inferior no campo profissional. Enquanto Tally ascende cada vez mais, ele busca uma maneira de continuar trabalhando e encontrando desafios que o façam sentir-se vivo e importante.

Uma espécie de "Nasce uma estrela" dentro do jornalismo, "Íntimo & pessoal" é uma produção que não atinge todos os seus potenciais. Nem de longe perto do brilhantismo de seu "Tomates verdes fritos", Jon Avnet entrega um trabalho apenas correto, ainda que muitas vezes de uma simplicidade narrativa excessiva. Robert Redford não tem muito o que fazer na pele de Warren Justice, um personagem sem grande complexidade, e até mesmo Michelle Pfeiffer, apesar do carisma e do talento, não consegue ultrapassar os limites de uma protagonista retratada com insegurança pelo roteiro: na primeira metade do filme, Tally é uma personagem de comédia romântica, com direito até mesmo a cenas bem-humoradas (que nem sempre funcionam); e na reta final assume ares de heroína trágica, com momentos lacrimosos sublinhados pela bela "Because you loved me", na voz de Céline Dion. Essa quase esquizofrenia do filme é que dificulta à plateia envolver-se totalmente em sua história - pode até emocionar aos mais sensíveis, mas, perto do que poderia ter sido (especialmente com todos os dramas vividos por Savitch, sua inspiração original), é apenas um drama derivativo e previsível. Fácil de assistir, mas igualmente fácil de esquecer.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...