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sexta-feira

ESTRADA PERDIDA


ESTRADA PERDIDA (Lost highway, 1997, CiBy 2000, 134min) Direção: David Lynch. Roteiro: David Lynch, Barry Gifford. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Leslie Morales. Produção: Deepak Nayar, Tom Sternberg, Mary Sweeney. Elenco: Bill Pullman, Balthazar Getty, Patricia Arquette, Robert Blake, Louis Eppolito, Gary Busey, Natasha Gregson-Wagner. Estreia: 15/01/97 (França) 

A maneira com que ideias surgem na mente de criadores é sempre uma incógnita. Autores costumam ser inspirados por canções, acontecimentos reais, pessoas que conhecem, livros ou até mesmo por sonhos - e nenhum deles se arriscaria a afirmar sua receita como a melhor ou mais acertada. Que o diga David Lynch, que viu o roteiro de seu "Estrada perdida" surgir de dois acontecimentos completamente aleatórios. Segundo o cineasta, tudo começou com um incidente estranho ocorrido em sua própria casa, quando uma voz desconhecida declarou, através do interfone, que uma pessoa que ele não conhecia estava morta - para simplesmente desaparecer depois da notícia. Além disso, durante o processo de escrita, Lynch teve (segundo ele mesmo, de forma inconsciente) a influência de um dos julgamentos mais rumorosos dos EUA na década de 1990: o caso O.J. Simpson, levado aos tribunais pelo duplo homicídio de sua ex-mulher e um amigo. De posse desses dois elementos díspares, um dos mais íntegros e fascinantes realizadores de Hollywood surgiu com seu oitavo longa-metragem, aquele que foi definido pela revista Entertainment Weekly como um dos mais assustadores filmes de todos os tempos. Cruel e angustiante na mesma medida, "Estrada perdida" é, também, um exercício de estilo dos mais impressionantes.

Enigmático como boa parte da filmografia de David Lynch, "Estrada perdida" já desnorteia o espectador de cara, assim como o faz com seus protagonistas, o saxofonista Fred Madison (Bill Pullman, colhendo os louros do sucesso de bilheteria de "Independence Day" (1996) e sua bela esposa, Renee (Patricia Arquette, morena): passando por uma série crise em seu casamento, enfatizada pelo constante ciúme de Fred, o casal ainda precisa lidar com a chegada constante de fitas de vídeo deixadas à sua porta, que mostram cenas do interior de sua casa. Nem mesmo a polícia é capaz de fazer algo para resolver a situação - que pode ou não estar relacionada ao violento assassinato de Renee, pelo qual seu marido acaba por ser responsabilizado e condenado. Se até então Lynch brincava com a percepção do público a respeito de seu par central de personagens - cujas personalidades não são aprofundadas propositalmente -, o segundo ato embaralha as cartas de forma radical: do nada, de dentro de sua cela, Fred se transforma em outra pessoa, mais jovem, com outro nome, outro rosto e outra profissão. A partir de então ele é Pete Dayton (Balthazar Getty), mecânico preso por crimes menores e que, fora da cadeia, irá se envolver em um romance arriscado com Alice (Patricia Arquette, dessa vez loura), amante de um perigoso gângster. Mas afinal de contas, qual a relação entre Fred Madison e Pete Dayton? Ou mais importante ainda: há alguma relação entre eles? E quem mandava as fitas para Madison e Renee? E quem é Dick Laurant - cujo anúncio de morte feito via interfone para o saxofonista dá início ao jogo?

Quem conhece a obra de David Lynch sabe que nem todas as perguntas criadas em suas tramas tem respostas óbvias - frequentemente cada espectador tem uma resposta própria e razoavelmente coerente com suas percepções. Em "Estrada perdida" não é diferente: amparado pela trilha sonora hipnótica de Angelo Badalamenti - em sua quarta colaboração juntos - e pela edição claustrofóbica de Mary Sweeney, o cineasta conduz a plateia por uma jornada aflitiva e aparentemente caótica cujos elementos só fazem sentido quando unidos em um panorama maior. Assim como faria em seus filmes seguintes, "Cidade dos sonhos" (2002) e "Império dos sonhos" (2006), o diretor apresenta suas armas gradativamente, jogando luz sobre detalhes que se repetem em circunstâncias contraditórias e/ou complementares. Um filme de Lynch não é apenas um passatempo esquecível: reafirmando seu modo peculiar de enxergar o mundo, o homem que fez o planeta se perguntar quem matou Laura Palmer - na antológica série "Twin Peaks" - faz de uma sessão de pouco mais de duas horas se transformar em uma experiência sensorial completa, em que nada é o que parece ser, personagens desafiam a lógica pré-estabelecida pelas regras narrativas e atores mostram lados até então novos de suas personas artísticas. É assim que Bill Pullman se transforma em um Fred Madison angustiado, paranoico e torturado e Patricia Arquette abandona suas personagens maluquetes - de filmes como "Amor à queima-roupa" (1993), "Ed Wood" (1994) e "Procurando encrenca" (1996) - para entregar não apenas uma, mas duas atuações densas, que chegam ao limite entre o sensual e o macabro.

Chegar a uma conclusão definitiva sobre qualquer trabalho de David Lynch é tarefa inglória. Por mais que sempre exista um caminho para decifrar seus enigmas - montados como um pesadelo pictório - e no final das contas as coisas possam fazer sentido dentro de um quadro maior, quebrar a cabeça com mil teorias faz parte da viagem que é assistir a filmes como "Estrada perdida". Toda imagem, todo diálogo, todo personagem, são peças essenciais para que o conjunto se torne, no final da sessão, uma espécie de experiência única e avassaladora. Em "Estrada perdida" há uma explicação lógica e simples por trás da profusão de problemas apresentados - mas a forma como se chegar a essa explicação é que faz disso tudo um momento único. Embalado por uma trilha sonora jazzística que mistura David Bowie, Lou Reed, Marilyn Manson, Trent Reznor e Tom Jobim - uma miscelânea que já dá pistas sobre o estilo iconoclasta do currículo do cineasta - e por um tom aterrador de suspense que jamais permite ao público antecipar o que virá pela frente, "Estrada perdida" é mais um ponto alto da carreira de seu realizador, ainda que apeteça muito mais a seu público cativo do que eventuais neófitos.

sábado

IMPÉRIO DOS SONHOS

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006, StudioCanal, 180min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: David Lynch. Montagem: David Lynch. Figurino: Karen Baird. Direção de arte/cenários: Christina Wilson/Melanie Rein. Produção executiva: Keith Kjarval, Marek Zydowicz. Produção: David Lynch, Mary Sweeney. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux, Grace Zabriskie, Harry Dean Stanton, Diane Ladd, William H. Macy, Julia Ormond, Mary Steenburgen, Nastassja Kinski, Laura Harring. Estreia: 06/9/06 (Festival de Veneza)

Um belo dia, a atriz Laura Dern recebeu um telefonema do diretor David Lynch - com quem já havia trabalhado nos filmes "Veludo azul" e "Coração selvagem" - e ouviu dele uma proposta tão estranha quanto irresistível: "Você quer experimentar?", perguntava a voz de um dos cineastas de maior prestígio do cinema americano independente. Intrigada e disposta a mergulhar novamente no universo onírico do criador de Laura Palmer, Dern topou a brincadeira. Surgia assim o mais hermético, bizarro e assustador de Lynch, "Império dos sonhos". Quem considerava sua obra fascinante, envolvente e poética a seu modo particular ganhou mais uma obra-prima. Aqueles que o rechaçavam como um diretor capaz de construir climas e imagens instigantes mas vazias de conteúdo tiveram mais munição. Mas o fato é que seu filme - o último até agora - parece ser tese final de décadas de estudo sobre a natureza complexa e muitas vezes maligna do ser humano. Você pode até não entender absolutamente nada do filme - assim como a própria Dern e seu colega de elenco Justin Theroux - mas é impossível ficar incólume à toda a carga de angústia, tensão e excitação intelectual que ele transmite a cada cena.

Quem começar a assistir a "Império dos sonhos" em busca de um filme com começo, meio e fim lógicos e bem definidos certamente irá decepcionar-se. Assim como "A estrada perdida" (99) e "Cidade dos sonhos" (02), seu filme se presta a inúmeras interpretações - e todas elas certamente estarão corretas, uma vez que o próprio David Lynch não faz a menor questão de esclarecer totalmente a trama, borrando deliberadamente as fronteiras entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o palpável e o onírico. Contando com uma atuação assombrosa de Laura Dern, o cineasta mistura a uma história, já intrincada por natureza, imagens do mais puro nonsense - uma família de coelhos comporta-se como seres humanos em uma sitcom, por exemplo - e sequências de dar orgulho a qualquer discípulo de Jung. Usando e abusando de lentes grande-angulares, distorções de imagem e ruídos perturbadores, ele arquiteta um gigantesco painel de neuroses, culpas e violência que joga as pistas no colo do espectador, desafiando-o a montar um quebra-cabeças que talvez não se utilize de todas as peças - ao menos da maneira convencional.


A história - ou pelo menos o fio narrativo que dá o empurrão inicial - começa quando a atriz Nikki Grace (vivida por Laura Dern em estado de graça) aceita o papel principal de um filme romântico que está prestes a ser rodado pelo diretor Kingsley Stewart (Jeremy Irons). Antes do começo das filmagens, ela é procurada por uma nova vizinha (Gracie Zabriskie, de "Twin Peaks"), que a adverte em relação ao novo papel e, através de códigos, a alerta a respeito das consequências que a decisão de realizá-lo pode trazer. Ignorando os avisos, Nikki se envolve de cabeça no projeto e acaba por se apaixonar por seu colega de cena, o ator Devon Berk (Justin Theroux, o sr. Jennifer Aniston) - o que espelha a trama do filme que estão fazendo, na verdade o remake de um original que nunca chegou a ser finalizado porque seu casal de protagonistas morreu assassinado. Tal descoberta afunda Nikki ainda mais em um estado em que ela passa a confundir a realidade com a ficção.

Em seu terço inicial, "Império dos sonhos" até consegue enganar o público, com uma narrativa onde expõe alguns dos elementos com os quais irá jogar mais adiante. Não demora muito, porém, para que as pistas comecem a se acumular sem explicações plausíveis, o que transmite a exata sensação de desespero de sua protagonista, perdida em um mundo sem entradas e saídas facilmente definíveis. Na desordem organizada de Lynch frases são repetidas em momentos diametralmente opostos, situações aparentemente contraditórias completam uma a outra, personagens de épocas e mundos diferentes convivem pacificamente e atores consagrados fazem pontas quase imperceptíveis (caso de Diane Ladd, William H. Macy e Nastassja Kinski). No mundo feérico do diretor, a lógica como a conhecemos no dia-a-dia não se aplica. Tal característica - que a tantos confunde e afasta - é uma qualidade das maiores em um cinema cada vez mais estéril como o de Hollywood. Só isso já faz de "Império dos sonhos" um programa imperdível.

quarta-feira

UMA HISTÓRIA REAL

UMA HISTÓRIA REAL (The Straight story, 1999, Asymmetrical Productions/Canal +/Channel Four Films, 112min ) Direção: David Lynch. Roteiro: John Roach, Mary Sweeney. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman, Michael Polaire. Produção: Neal Edelstein, Mary Sweeney. Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Jane Galloway Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wiegert, Everet McGill, Harry Dean Stanton. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Farnsworth)

Antes de começar uma sessão de "Uma história real" é preciso esquecer que seu diretor, David Lynch, é o cérebro por trás de obras perturbadoras como "Veludo azul" e "Coração selvagem" - além da telessérie "Twin Peaks", que mudou de forma definitiva a maneira como a televisão era feita nos EUA em 1991. Pela primeira dirigindo um roteiro alheio (e baseado em uma história verídica), Lynch demonstrou um lado sensível, carinhoso e delicado que pegou de surpresa até mesmo a seus fãs mais fiéis, que viram nele uma faceta menos macabra e bizarra de seu realizador. Até mesmo a Academia de Hollywood se viu obrigada a reconhecer a excelência do resultado final, dando ao protagonista do filme, Richard Farnsworth, a indicação ao Oscar de melhor ator. Aos 79 anos na ocasião, Farnsworth tornou-se o mais velho indicado da categoria em todos os tempos, e infelizmente, meses depois da cerimônia que premiou Kevin Spacey - por "Beleza americana" - suicidou-se ao saber de um diagnóstico de câncer.

Em uma atuação que equilibra fragilidade física com extrema força emocional, Farnsworth transforma a odisseia de um homem em busca de reatar laços familiares perdidos em um um comovente tratado sobre a velhice, a solidão e a força da solidariedade entre desconhecidos. Comandando o espetáculo a bordo de uma máquina de cortar grama adaptada a um trator, o veterano ator conquista o público e os personagens que cruzam seu caminho sem muito esforço, graças também ao script fluente e à edição que, fugindo da pressa habitual do cinema americano da década de 90, contempla e retrata com suavidade a placidez a trajetória do seu protagonista rumo a seu objetivo principal. Traçado como uma linha reta e simples - mas jamais simploria ou rasa - o roteiro de Sweeney e John Roach cativa a audiência justamente pela ausência de artifícios ou reviravoltas: a história de Alvin Straight é formada apenas por sua férrea determinação e por sua inusitada viagem rumo à paz de espírito.


Alvin Straight, o protagonista do filme, é um senhor de 73 anos de idade, aposentado, que vive em uma zona rural do estado de Iowa ao lado de uma de suas filhas, Rose (Sissy Spacek) - uma mulher com problemas mentais que não se conforma com a perda da guarda dos filhos. Ao ficar sabendo que seu irmão mais velho, Lyle (com quem está sem falar há dez anos, desde que tiveram uma briga) sofreu um enfarte, ele resolve procurá-lo, com o objetivo de reatar a relação. Fisicamente prejudicado pela idade, ele é desencorajado por todos ao seu redor, mas, inabalável em sua decisão, ele transforma seu cortador de grama em um pequeno trator e inicia uma viagem até o Wisconsin, enfrentando chuva, sol e problemas mecânicos no caminho. Suas dificuldades, porém, são amenizadas graças às amizades que vai fazendo no trajeto - que o fazem refletir sobre sua vida, sua família e a transitoriedade dos problemas frente à grandeza do universo.

É surprendente como David Lynch consegue se reinventar como diretor em "Uma história real": abandonando totalmente as características que lhe deram fama e prestígio, ele apresenta ao espectador um drama desprovido de qualquer tipo de truque sentimental ou de narrativa. Limpa e sem excessos, sua direção apenas deixa nas mãos (e nos olhos) extremamente competentes de Richard Farnsworth o maior trabalho, e é impossível não se deixar envolver por ele. Recitando diálogos aparentemente simples mas repletos de significados poéticos e de uma profundidade dramática rara no cinema norte-americano, ele encarna um Alvin Straight dolorosamente real e comovente, que cruza com outros personagens igualmente impactantes, como uma jovem grávida incapaz de lidar com a própria família, um homem de idade atormentado pelos fantasmas da guerra e uma mulher desesperada com o fato de atropelar veados com uma frequência muito maior do que poderia suportar - uma cena, aliás, que poderia resvalar no mau-gosto mas que, sob a visão de Lynch, acaba se tornando uma metáfora perfeita sobre a brevidade da vida.

Uma pequena obra-prima de delicadeza e sensibilidade perdida em uma filmografia frequentemente assustadora e chocante, "Uma história real" é um dos melhores trabalhos de David Lynch, e um deslumbrante canto do cisne de Richard Farnsworth. Imperdível!

sexta-feira

O HOMEM ELEFANTE

O HOMEM ELEFANTE (The elephant man, 1980, Brooksfilms, 124min) Direção: David Lynch. Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, livros "The elephant man and other reminiscences", de Frederick Treves e "The elephant man: a study in human dignity", de Ashley Montagu. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Morris. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Bob Cartwright. Produção executiva: Stuart Cornfeld. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Hannah Gordon. Estreia: 03/10/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lynch), Ator (John Hurt), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece os trabalhos mais célebres de Mel Brooks - como as amalucadas comédias "O jovem Frankenstein" (74) e "Banzé no Oeste" (74) - talvez fique estarrecido ao final de uma sessão de "O homem elefante". O humor característico do diretor inexiste completamente na recriação cinematográfica da história de Joseph Carey Merrick, jovem inglês que, devido a deformidades de nascença, foi tratado como aberração de circo na Londres do século XIX, até ser resgatado do sofrimento por um médico interessado em sua doença. Ao produzir o segundo filme do diretor David Lynch - depois do cultuado mas pouco visto "Eraserhead" (77) - Brooks chegou a tirar seus nomes dos créditos, temeroso de que o público julgasse que a trama seguisse seu estilo cômico. O resultado é um fenomenal e arrebatador drama de época capaz de emocionar sem, no entanto, apelar para o sentimentalismo barato.

Filmado em deslumbrante preto-e-branco pelo veterano Freddie Francis - retornando ao cinema depois de 16 anos afastado - "O homem elefante" tem seu roteiro inspirado principalmente nas memórias do Dr. Frederick Treves (um Anthony Hopkins uma década antes do triunfo de "O silêncio dos inocentes"), o responsável por tirar Merrick de um destino cruel como atração de um show de aberrações e levá-lo para um hospital público de Londres dirigido pelo rígido mas sensível  Dr. Carr Gomm (John Gielgud). Apesar disso - e de também ter contado com outros escritos a respeito do protagonista - o script não se furta a fazer alterações na história real, para fins dramáticos. Isso não diminui, no entanto, sua força excepcional como arte cinematográfica, que mostra o talento que David Lynch amadureceria posteriormente a ponto de ganhar uma Palma de Ouro em Cannes por "Coração selvagem", em 1990. Trabalhando pela primeira vez em um filme com pretensões comerciais (apesar do tema e do enfoque), Lynch viu sua obra concorrer merecidamente a oito Oscar. Infelizmente, a Academia preferiu a versão suburbana do drama familiar de "Gente como a gente", de Robert Redford - e se for levado em consideração que outro concorrente na principal categoria era "Touro indomável", de Martin Scorsese, percebe-se que erros no resultado final do Oscar não são novidade.


Trabalhando debaixo de uma maquiagem pesadíssima que demandava de sete a horas para aplicar - e que causou polêmica por não ter sido indicada ao Oscar, que ainda não tinha uma categoria fixa para a categoria - o ator John Hurt fez de seu desafio uma grande chance para brilhar. Como uma espécie de monstro de Frankenstein - um ser que esconde um enorme coração sob um visual aterrorizante - seu John Merrick (o nome real já estava modificado nos escritos do dr. Trevers) conquista o espectador sem fazer esforços, vítima que é de constantes crueldades, seja de seu "dono" Bytes (Freddie Jones), do público que paga para testemunhar suas deformidades ou do funcionário canalha do hospital (Michael Elphick) que faz excursões da boemia londrina a seu quarto com o objetivo de ganhar trocados (e de quebra humilhá-lo). O que mais emociona o público, porém, não é tanto seu sofrimento, mas sim seus momentos de felicidade. É difícil conter as lágrimas, por exemplo, na cena em que Merrick acompanha a atriz (Anne Bancroft) em um trecho de "Romeu e Julieta" ou quando ele encontra a esposa de Trevers pela primeira vez - "Desculpe, mas eu não estou acostumado com tanta gentileza vinda de mulheres tão bonitas." Também é arrepiante a sequência que mostra o primeiro encontro entre Merrick e seu futuro médico (e amigo): a lágrima solitária de Anthony Hopkins ao encarar algo jamais visto em sua profissão diz mais do que páginas e páginas de diálogos.

"O homem elefante" é uma pequena obra-prima. Visualmente deslumbrante, interpretada com sentimento e dirigida com inteligência, a história de John Merrick (ou Joseph, se for considerado seu real nome) é daquelas de apertar o coração e ficar na memória por um bom tempo. Mais do que isso, Lynch apresenta em seu trabalho um otimismo inesperado, mostrando como a bondade de poucas pessoas pode representar muito mais na vida de alguém do que a maldade de várias. A delicadeza ímpar de suas sequências finais comprova a afirmação, transformando o que poderia ser um desfecho catártico em uma poesia visual e delicada. Para quem duvida que Lynch é mais do que um cineasta esquisito, nada melhor do que "O homem elefante" para comprovar o contrário.

quinta-feira

CIDADE DOS SONHOS

CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001, Les Films Alain Sarde, 147min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman. Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde, Mary Sweeney. Elenco: Naomi Watts, Laura Haring, Ann Miller, Dan Hedaya, Robert Forster, Justin Theroux, Lee Grant. Estreia: 16/5/01 (Festival de Cannes)


Indicado ao Oscar de Melhor Diretor (David Lynch)
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (David Lynch) no Festival de Cannes

O cineasta David Lynch pode ser classificado de qualquer coisa - de excêntrico a hermético - mas de uma coisa o homem jamais pode ser acusado: de ser previsível. Previsibilidade é provavelmente o único ingrediente que não consta na receita de filmes como "Veludo azul", "Coração selvagem", "A estrada perdida" e neste "Cidade dos sonhos", que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2001 e uma indicação ao Oscar na mesma categoria - no ano em que Ron Howard papou o prêmio pelo acadêmico "Uma mente brilhante". Idealizado como piloto de uma série de TV que não chegou a ser aprovada, seu filme volta a utilizar os elementos oníricos que tanto lhe deram fama e acrescenta a eles uma dose de suspense erótico que o eleva a uma experiência única.

Nada é o que parece em uma primeira sessão de "Cidade dos sonhos". O filme começa quando uma bela mulher (a ex-Miss EUA Laua Elena Harring) escapa de uma tentativa de homicídio graças a um acidente de carro em Mulholland Drive (estrada de Los Angeles que dá título à obra). Sem lembrança alguma de seu passado, ela para em um condomínio onde acaba de chegar do Canadá a ingênua aspirante a atriz Betty (Naomi Watts). Juntas, elas tentarão descobrir a identidade da moça - auto-nomeada Rita em homenagem a um poster de "Gilda" que orna o apartamento onde moram - e, no caminho, cruzarão com tipos bizarros típicos da obra de Lynch, como um cineasta independente (Justin Theroux) e vários executivos misteriosos da indústria do cinema.



Ao contrário dos filmes anteriores de Lynch, em que uma trama linear era ocupada por personagens excêntricos, em "Cidade dos sonhos" o cineasta não somente recheou sua história com tipos absurdos mas também criou uma narrativa repleta de símbolos, imagens dúbias e um roteiro de dar nós na cabeça do mais antenado espectador. Realizado com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo, o filme do criador de Laura Palmer leva o público a uma viagem sensorial, com reviravoltas com clima de pesadelo, onde nenhuma cena deve ser vista apenas pelo que parece e sim pelo que pode significar. Complicado? Talvez. Genial? Sempre. Cada detalhe visual e cada linha de diálogo de "Cidade dos sonhos" faz parte de um conjunto maior, que só faz sentido total em suas cenas finais, cruas e diretas, que parecem contradizer os primeiros 2/3 do filme, quando tudo é APARENTEMENTE simples. Difícil é descrever cada ideia excepcional do roteiro, da direção precisa de Lynch e do trabalho de seus colaboradores.

Contando com a habitual parceria do compositor Angelo Badalamenti na trilha sonora, que mistura canções pop dos anos 50 com uma estranhíssima versão em espanhol da bela "Crying", de Roy Orbison - apresentada na mais forte e deslumbrante cena do filme - e uma fotografia que expressa com nervosismo as intenções jamais óbvias da intrincada história, Lynch ainda tem em mãos um enorme trunfo. Na pele de Betty, a sonhadora atriz iniciante que almeja a glória em Hollywood e se vê envolvida em uma confusa relação com uma misteriosa mulher, a bela Naomi Watts revela-se uma espetacular escolha para um papel complexo e que exige muito mais do que um rostinho bonito. Especialmente na última fase do filme, quando a inocente Betty mostra - ou talvez não - sua verdadeira face, o trabalho de Watts atinge um nível de brilhantismo poucas vezes visto no cinema de David Lynch. Com seu rosto angelical, seu cabelo louro e sua personalidade fragmentada, ela é a personificação de uma musa de Hitchcock transmutada para a geração século XXI - com a sexualidade muito, mas muito mais explícita do que Grace Kelly e Ingrid Bergman.

E, para aqueles que insistem em afirmar que não entendem o roteiro (ou que ele não faz sentido, ou que é apenas um pretexto para cenas de lesbianismo) fica a recomendação para uma nova sessão, com a devida atenção às pistas deixadas pelo diretor logo nas primeiras cenas e o espírito preparado para um filme que, felizmente, foge dos padrões insossos da Hollywood comercial.

quarta-feira

CORAÇÃO SELVAGEM

CORAÇÃO SELVAGEM (Wild at heart, 1990, Polygram Filmed Entertainment, 125min) Direção e roteiro: David Lynch, romance de Barry Gifford. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte: Patricia Norris. Casting: Johanna Ray. Produção executiva: Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Mony Montgomery, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd, Willem Dafoe, Isabella Rossellini, J.E. Freeman, Crispin Glover, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie, Sheryl Lee, Sherilyn Fenn, Pruitt Taylor Vince. Estreia: 17/8/90

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Diane Ladd)
Palma de Ouro Melhor Filme Festival de Cannes

Dando seguimento à sua obsessão em devassar o espírito americano em filmes que unem o sublime e o bizarro, o corriqueiro com o exagerado, David Lynch surpreendeu o mundo em 1990, levando a Palma de Ouro do Festival de Cannes com "Coração selvagem", em que ele vai ainda mais fundo em seu objetivo, ao subverter um gênero caro ao imaginário cinematográfico: as histórias de amor.

Sim, "Coração selvagem" É uma história de amor. Mas antes que alguém acuse Lynch de ter ficado sensível e apaixonado, é preciso que se olhe com atenção seu filme: nunca um casal esteve tão longe das convenções quanto Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern, em seu segudo filme com o diretor). Na primeira cena do filme, Sailor arrebenta a cabeça de um desafeto, com uma violência poucas vezes vista no cinema. Preso por homicídio, ele sai da cadeia alguns anos depois e reencontra sua amada, para que enfim possam ser felizes juntos. O que o alegre casal não pode imaginar é que a mãe de Lula (uma enlouquecida Dianne Ladd, mãe de Laura Dern também na vida real), apaixonada por Sailor, não tem a menor intenção de deixar que eles sejam felizes e, para isso, contrata matadores de aluguel para acabar com seu idílio amoroso.

 


Só mesmo a mente doentia de David Lynch seria capaz de homenagear o singelo "O mágico de Oz" da maneira como o faz. Shery Lee, a Laura Palmer de sua famosa série "Twin Peaks", surge como uma fada boa, que aconselha Sailor a não abandonar a sua meta de ficar com Lula e no meio de seu caminho surgem personagens e cenas que fazem sentido apenas no universo todo particular do diretor. O público é brindado com uma Isabella Rossellini desleixada no meio do deserto, Sherylin Fenn morrendo em um acidente de carro e preocupada com o cabelo e um Willem Dafoe com a dentadura mais asquerosa da história do cinema tentando seduzir Laura Dern em um quarto de hotel cheirando a vômito. Sim, é uma estética desagradável, mas é ao mesmo tempo hipnotizante e coerente com a carreira sui-generis do cineasta.

"Coração selvagem" não é para qualquer estômago. Mas se até a normalmente sisuda Academia de Hollywood rendeu-se à excêntrica atuação de Dianne Ladd, indicando-a ao Oscar de atriz coadjuvante, é sinal de que de vez em quando seus membros conseguem surpreender. Até mesmo o extremismo do cinema de Lynch - que não poupa o espectador de personagens bizarros, violentos e idiossincráticos - é fascinante, em "Coração selvagem". Nicolas Cage, do alto de sua canastrice e Laura Dern - uma atriz bem distante dos padrões de beleza hollywoodianos - formam um dos casais mais estranhos a cruzar as telas e Ladd se entrega de forma corajosa a uma personagem difícil e ingrata. Nem mesmo a imagem de Cage cantando "Love me tender" vestindo uma jaqueta de couro de jacaré - símbolo de sua liberdade pessoal - é capaz de tirar da mente a viagem fora do comum comandada por David Lynch.

sábado

VELUDO AZUL


VELUDO AZUL (Blue velvet, 1986, De Laurentiis Entertainment Group, 120min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Edward 'Tantar' LeViseur. Casting: Pat Golden, Johanna Ray. Produção executiva: Richard Roth. Produção: Fred Caruso. Elenco: Isabella Rosselini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, Hope Lange, Brad Dourif. Estreia: 19/9/86

Indicado ao Oscar de Diretor (David Lynch)

O “american way of life”, tão louvado em filmes de diretores como Frank Capra sofreu um duro golpe, pelo menos da maneira como estamos acostumados a vê-lo, em 1986. E quem fez a plateia perceber que por trás de cada cerca branca dos subúrbios americanos pode-se esconder muito mais do que podemos imaginar foi um diretor que concorreu ao Oscar por um filme em preto-e-branco chamado “O homem elefante” e que, ao contrário do que se poderia supor, não se deixou levar pelo mainstream. Em “Veludo azul” David Lynch fez um filme sobre aparências. E parece que sua intenção era apenas desmascará-las.

O jogo de aparências de “Veludo azul” já começa em sua estrutura. Aparentemente, é um filme noir, com mocinhos honestos, vilões crudelíssimos e mulheres fatais. Na verdade, é bem mais complexo em termos de certo e errado do que supõe a vã filosofia do espectador acostumado a maniqueísmos típicos do gênero. O herói da história, Jeffrey Beaumont (vivido por Kyle MacLachlan) é um jovem que chega a cidade onde vive sua família para visitar seu pai, vítima de um enfarte. Por mais bizarro que possa parecer (e bizarro é uma palavra que pode definir “Veludo azul” como um todo), Jeffrey encontra em um terreno baldio uma orelha humana. Essa orelha o levará, com a ajuda de Sandy (Laura Dern), a filha do chefe de polícia do local, até a cantora Dorothy Vallens (a bela Isabella Rossellini, gélida e enlouquecida como convém), cujo relacionamento doentio com o misterioso Frank (Dennis Hopper, em um dos mais assustadores vilões da década de 80) ultrapassa todos os limites da normalidade.

À primeira vista, Jeffrey é o herói do filme. Mas, ao contrário do que normalmente se espera em filmes assim, ele não é exatamente um santo. Enquanto inicia um tímido romance com Sandy, ele também fica fascinado pela beleza misteriosa de Dorothy e por seus traumas psicológicos que a levam a exigir violência durante o ato sexual. E Dorothy, aparentemente uma dama fatal, não deixa de ser a principal vítima de uma rede de obsessões, perversidades e medo.

Em uma cena do filme, Jeffrey diz que o mundo é estranho. Tudo bem, de certa forma ele está certo. Mas é inegável que um mundo dirigido por David Lynch (que recebeu nova indicação ao Oscar por este filme) é ainda mais estranho. Afinal, em que mundo considerado normal alguém (mesmo que seja um exageradamente maquiado Dean Stockwell) começa, do nada a dublar Roy Orbison e um maníaco seja tarado por um pedaço de veludo azul? O mundo de David Lynch é muito estranho... e nós gostamos dele!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...