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segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

quinta-feira

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT


AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, New Line Cinema, 125min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Louis Begley. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Teresa Visinare. Produção executiva: Bill Badalato, Rachel Horovitz. Produção: Michael Besman, Harry Gittes. Elenco: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb. Estreia: 22/5/2002 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Kathy Bates)

Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro 

Quando Jack Nicholson subiu ao palco na cerimônia de entrega dos Golden Globes 2003 para receber sua estatueta não conseguiu esconder certa surpresa: segundo ele, foi inesperado ser eleito o melhor ator dramático do ano por um filme que ele considerava uma comédia. Parte da responsabilidade de tal confusão, na verdade, é do diretor Alexander Payne: assim como acontece em toda a sua filmografia, o cineasta não hesita, em "As confissões de Schmidt", em borrar as fronteiras que separam o riso das lágrimas, criando um adorável híbrido que aproxima, como raramente acontece, o espectador de seus personagens - quase todos críveis e humanos apesar de suas idiossincrasias. É um bálsamo para seus elencos - não à toa seus intérpretes chegam à corrida do Oscar - e um oásis para seu público, exposto a tramas e situações que, corriqueiras ou não, soam refrescantes diante de uma dieta abarrotada de blockbusters com personagens rasos e enredos indigentes. Frequentemente encontrando material na literatura, Payne é, também, um roteirista excepcional, capaz de extrair o melhor de suas fontes originais - ou, em alguns casos, alterá-las para que melhor caibam em seu universo. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Louis Begley, "As confissões de Schmidt" tem mudanças substanciais em sua história - feitas com o objetivo de encaixá-las em um argumento original do diretor e aliviar um pouco a personalidade talvez polêmica em excesso do personagem principal -, mas mantém o tom irônico do autor do romance e permite a Nicholson que exercite uma persona quase rara em sua carreira: um homem comum.

Primeira e única opção de Payne para o papel de Warren Schmidt, um homem confrontado com a solidão e a relação difícil com a filha única, Nicholson apresenta à plateia um lado frágil que lhe permite exercitar a comédia e o drama com iguais medidas. Enquanto o roteiro não se furta a apelar para momentos de humor - a briga com um colchão d'água e um encontro inesperado em uma jacuzzi, por exemplo, são sensacionais - tampouco foge de revelar os sentimentos mais sinceros do personagem em cenas cruciais. À vontade como há muito não conseguia estar, Nicholson encontra em Kathy Bates a parceira ideal para um embate dos mais fascinantes - não por acaso Bates arrebatou uma indicação ao Oscar de coadjuvante e protagoniza uma das cenas mais memoráveis do filme (aquela que conta com a jacuzzi). Construindo seu Schmidt com detalhes sutis e sem implorar pela empatia do público - pelo contrário, o personagem soa até desagradável em algumas situações -, o ator volta a encantar aos fãs com um desempenho irretocável, em que disfarça até mesmo os tiques que colecionou em sua longa carreira. No fim das contas, apesar de todos os defeitos - e principalmente por causa do carisma de Nicholson - é fácil simpatizar com o protagonista, um homem com quem se pode cruzar em qualquer supermercado.

 

Funcionário dedicado de uma seguradora, Warren Schmidt não sabe exatamente o que fazer com a chegada da aposentadoria. Sua vida tediosa consiste em trabalhar e conviver com a esposa, Helen (June Squibb) - em quem, segundo confessa, não reconhece a mulher com que se casou quase quarenta anos antes. Sua filha, Jeannie (Hope Davis) há muito não mora com os pais e está de casamento marcado com Randall Hertzel (Dermot Mulroney), de quem Warren não tem a melhor opinião. Quando Helen morre subitamente, Schmidt precisa lidar não apenas com a solidão inesperada e com o descaso da filha - ele precisa encontrar um novo motivo para seguir seus dias, algo além da adoção à distância de um pequeno órfão africano, com quem se corresponde com surpreendente sinceridade. Viajando do Nebraska até o Colorado para o casamento de Jeannie, ele vai encontrar no caminho pessoas que vão lhe abrir os olhos em relação a tudo que o cerca - especialmente Roberta (Kathy Bates), a personalíssima mãe de Randall, uma mulher cuja independência chega a assustar seu conservadorismo.

Ignorando os dois últimos livros da trilogia de Louis Begley, Alexander Payne faz de "As confissões de Schmidt" um filme coerente com sua obra, tanto em termos temáticos quanto visuais. Explorando personagens distantes de qualquer glamour e demonstrando por eles um carinho disfarçado de ironia, o cineasta convida o espectador a uma visita à vida de gente comum, com problemas ordinários e nem sempre com soluções perfeitas para eles. O final agridoce sublinha o tom melancólico da narrativa, mas jamais força o público à emoção barata. Seu estilo distante pode soar seco, mas no fundo Payne é um humanista, um autor que consegue enxergar a beleza e a generosidade até mesmo no mais impenitente misantropo. Os fãs de histórias sobre gente como a gente só podem agradecer seus presentes ao cinema.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

segunda-feira

A GUERRA DE HART

A GUERRA DE HART (Hart's war, 2002, MGM Pictures, 125min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Billy Ray, Terry George, romance de John Katzenbach. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Rachel Portman. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Patrick Cassidy. Produção executiva: Wolfgang Glattes. Produção: David Foster, Gregory Hoblit, David Ladd, Arnold Rifkin. Elenco: Bruce Willis, Colin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Linus Roache, Marcel Iures, Vicellous Shannon, Sam Jaeger, Rory Cochrane, Sam Worthington, Adrian Grenier. Estreia: 15/02/02

Parecia que tudo estava no caminho certo: um ator veterano (Bruce Willis) com a carreira ressuscitada por um imenso sucesso comercial ("O sexto sentido", de 1999), um jovem astro em ascensão (Colin Farrell, revelado por Joel Schumacher em "Tigerland: a caminho da guerra", de 2000), um assunto sempre fascinante e capaz de despertar a atenção do público (a II Guerra Mundial) e um gênero querido pela plateia desde sempre (filmes de tribunal) - dirigido por um cineasta que já tinha experiência no ramo (Gregory Hoblit, que assinou o ótimo "As duas faces de um crime", de 1996). Alguma coisa, porém, não correu como o esperado para "A guerra de Hart": com um custo estimado de 70 milhões de dólares, o filme simplesmente se espatifou nas bilheterias americanas (rendeu menos de 20 milhões em toda a sua carreira comercial) e não cativou nem mesmo o público internacional (arrecadou pouco mais de 13 milhões em todo o mundo). Não bastasse o fracasso financeiro, a crítica igualmente não ficou entusiasmada com o resultado final - e a produção acabou sendo relegada a um tímido segundo plano nas trajetórias de seus dois atores principais. O pior é que, ao contrário de muitos fracassos injustos que volta e meia assombram Hollywood, "A guerra de Hart" mereceu seu destino: apesar dos valores de produção caprichados, é um filme preguiçoso e sonolento, que não acrescenta nada ao gênero.

Baseado em um romance de John Katzenbach - livro, aliás, que um dos roteiristas, Billy Ray, admite não ter lido, uma vez que embarcou no projeto quando várias versões da trama já existiam, escritas pelo veterano Terry George - e inspirado pelo tempo em que o pai do escritor, Nicholas Katzenbach, passou como prisioneiro durante a II Guerra Mundial, "A guerra de Hart" se ressente, também, de um foco narrativo mais claro. Ao misturar vários gêneros, acaba se perdendo em um emaranhado de reviravoltas e tentativas de clímax que, ao contrário de surpreender o espectador, apenas deixam a estória ainda mais confusa e sem sentido. Começa como um drama de guerra, transforma-se em um filme de tribunal e acaba com uma mistura muito estranha dos dois estilos - com um desfecho morno que desperdiça até mesmo o talento de coadjuvantes excelentes, como Terrence Howard e Marcel Iures, perdidos em um texto quase esquizofrênico.


A trama se passa no final da II Guerra, quando o jovem Tenente Tommy Hart (Colin Farrell) é capturado por soldados alemães e, depois de alguns dias preso e interrogado, é enviado a um campo de prisioneiros, onde trava contato com o Coronel William McNamara (Bruce Willis) - o oficial superior que ainda mantém sua autoridade sobre os soldados norte-americanos aprisionados. Não demora muito para que Hart, um burocrata da guerra, perceba a realidade do conflito mesmo dentro de sua estalagem - onde colegas não são exatamente exemplos de solidariedade e companheirismo. As coisas ficam ainda mais explosivas quando chegam ao local dois pilotos negros, Lincoln Scott (Terrence Howard) e Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon), uma presença inesperada que deixa bem claro o tom racista dos soldados e oficiais. A morte injusta de Archer e a prisão de Scott - acusado de assassinar um colega - acentuam a tensão, especialmente quando McNamara convoca Hart (um estudante de Direito) a ser o advogado de defesa de Scott em uma corte marcial. O julgamento começa, sob a supervisão do comandante alemão Oberts Werner Visser (Marcel Iures) - mas nem tudo é exatamente o que parece, e Hart irá precisar de todo o seu código de ética para desviar-se de um veredicto já facilmente previsível.

A princípio um projeto de Alfonso Cuarón, "A guerra de Hart" acabou nas mãos de Gregory Hoblit quando o cineasta mexicano optou por uma produção mais pessoal, o elogiado "E sua mãe também" - que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original. A entrada de Hoblit, porém, parecia um tiro certo - logo que entrou em cena, nomes como Edward Norton e Tobey Maguire foram cotados para integrar o elenco, no papel que mais tarde ficaria com Colin Farrell, um nome que começava a tornar-se conhecido do público, principalmente por dividir a tela com Tom Cruise em "Minority report: a nova lei", dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Farrell, no entanto, não poderia imaginar que seria tão subaproveitado: sofrendo ao tentar dar dignidade e coerência a um roteiro indeciso, o ator irlandês não consegue nem ao menos demonstrar o carisma revelado em seus trabalhos anteriores, preso a uma direção frouxa e um personagem incapaz de conquistar a torcida do espectador - e também não ajuda ter Bruce Willis no piloto automático e um final decepcionante. No fim das contas, "A guerra de Hart" é um filme que tinha tudo para marcar época mas que terminou vítima de uma grave crise de identidade. Só recomendado para os fãs incondicionais dos atores!

sexta-feira

FORA DE CONTROLE

FORA DE CONTROLE (Changing lanes, 2002, Paramount Pictures, 98min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Chap Taylor, Michael Tolkin, estória de Chap Taylor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: David Arnold. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Debra Schutt. Produção executiva: Ron Bozman, Adam Schroeder. Produção: Scott Rudin. Elenco: Samuel L. Jackson, Ben Affleck, Toni Collette, Sydney Pollack, Richard Jenkins, William Hurt, Amanda Peet, Dylan Baker. Estreia: 07/4/02

Doyle Gipson precisa chegar ao tribunal para provar ao juiz que acaba de dar entrada em uma casa onde seus filhos pequenos poderão morar com a mãe - o que evitaria que fossem de mudança com ela para longe de Nova York. Gavin Banek é um jovem e bem-sucedido advogado que também tem um compromisso importante, que fará com que sua firma (cujo principal sócio é seu sogro) assuma a administração de um fundo milionário de um cliente já morto. No meio do caminho, os dois carros batem um no outro e, na pressa, Banek deixa Gipson para trás, sem dar-lhe tempo de resolver seu grande problema - e, consequentemente, salvar-se da separação dos filhos. Porém, o destino não brinca em serviço: assim que chega no tribunal, Banek descobre que um importantíssimo documento (crucial para sua vitória) ficou nas mãos de Gipson - que, por sua vez, não tem a menor intenção de devolvê-lo antes que seu prejuízo seja sanado. Essa guerra de nervos, que retrata o tênue limite entre a civilidade e a barbárie, é o tema de "Fora de controle", dirigido por Roger Michell como seu projeto seguinte ao grande sucesso da comédia romântica "Um lugar chamado Notting Hill" (1999). Ao contrário do solar e delicado filme estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant, porém, "Fora de controle" mostra um lado amargo, pessimista e cínico da humanidade - daí, talvez, o motivo de seu fracasso comercial nos EUA mesmo com o elenco liderado por Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mesmo conseguindo cobrir seu custo estimado de 45 milhões de dólares, o filme nem chegou à marca dos 70 milhões no mercado doméstico - o que também pode ser creditado ao marketing equivocado, que vendia um thriller dramático como um suspense de ação.

O trailer de "Fora de controle" realmente prometia à plateia uma trama eletrizante, com cenas repletas de tensão - e a presença de Ben Affleck, então um ator em ascensão e vindo direto de "Pearl Harbor" apenas aumentava essa impressão. O que Michell apresenta, no entanto, é um filme de ritmo bem mais lento do que o esperado, com uma pegada bem menos dinâmica e violenta do que se poderia supor. Não é um defeito - a narrativa é fluida e evita com inteligência o óbvio - mas de forma alguma se conecta com aqueles que procuram uma produção calcada em perseguições de carro, tiroteios ou a velha e boa troca de socos. A intenção do diretor (apoiado em um roteiro repleto de diálogos a respeito de ética, civilidade e tentativas de manter a esperança em um mundo com armadilhas à espreita em cada esquina) é fazer pensar, mais do que injetar adrenalina no espectador. Poderia ter dado mais certo se um dos protagonistas não fosse interpretado por Ben Affleck, notadamente um dos atores mais inexpressivos de sua geração - o que fica ainda mais evidente diante do show de seu parceiro de cena, o sempre espetacular Samuel L. Jackson.


Descoberto pelo público com sua atuação hipnotizante em "Pulp fiction: tempo de violência" (94), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Jackson teve, a partir de então, um novo recomeço de carreira - iniciada no começo dos anos 70 e finalmente reconhecida na década de 90, graças ao cineasta Spike Lee, que lhe deu o papel de um viciado em drogas no filme "Febre da selva" (91), responsável por um prêmio de coadjuvante no Festival de Cannes (uma categoria, aliás, criada exclusivamente naquela edição do Festival e nunca mais repetida). Parceiro constante também de Quentin Tarantino - seu trabalho em "Jackie Brown" (98) resultou em um prêmio no Festival de Berlim - e dono de um típico físico marcante, o ator empresta ao desiludido mas ainda esperançoso Doyle Gipson nuances que vão se avolumando com o desenrolar da narrativa: é um homem comum que se vê sem alternativa quando vê, diante de si, a possibilidade de perder tudo que lhe é mais caro. Jackson passeia com maestria entre diferentes estados de espírito - a esperança, a raiva, o desespero, a ternura, a angústia - e leva o público junto com ele por todo o caminho. O mesmo não acontece com Affleck - que ainda tem o azar de ter ficado com um personagem bem menos gostável.

Quando fez "Fora de controle", Affleck já era um nome conhecido dos cinéfilos, graças a filmes como "Gênio indomável" (que lhe deu o Oscar de roteiro original, dividido com o amigo Matt Damon), "Armageddon" (98), "Forças do destino" (99) e "Pearl Harbor" (2001), superprodução de Michael Bay que, ao invés de tornar-se um novo "Titanic", decepcionou crítica e público. Frequentado capas de revistas mais por seus casos amorosos - com as atrizes Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez - do que exatamente por seus dotes artísticos, Affleck é um ator que funciona razoavelmente quando bem dirigido, mas que, sob um comando menos rígido, demonstra toda a fragilidade de seu talento como ator. Roger Michell enquadra-se na segunda categoria, o que acaba por minar a potência de sua trama: quando os dois protagonistas estão juntos em cena, a fúria e o desespero de Jackson é palpável, mas tudo que vem de Affleck soa artificial e forçado. Não ajuda nem mesmo colocar como coadjuvantes atores excelentes como William Hurt, Richard Jenkins e Toni Collette (subaproveitada como uma colega de trabalho e ex-amante de Gavin): servindo apenas como peões em uma trama centrada basicamente no duelo entre os dois personagens centrais, eles não conseguem disfarçar o fato óbvio de que, com um ator com mais recursos para fazer frente à Samuel L. Jackson, nem mesmo o equívoco na hora de vender "Fora de controle" ao público seria um pecado tão mortal. Do jeito que está, o filme de Michell é um bom entretenimento, com qualidade dramática e uma história que faz pensar nos rumos de uma sociedade cada vez mais intolerante e sem empatia - mas é pouco diante do grande filme que poderia ter sido.

quarta-feira

EDIFÍCIO MASTER

EDIFÍCIO MASTER (Edifício Master, 2002, Videofilmes, 110min) Direção e roteiro: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Cheuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Estreia: 03/10/02

Quem conhece a obra do cineasta Eduardo Coutinho sabe de sua quase sobrenatural capacidade de arrancar declarações inesperadas de seus entrevistados - e até mesmo de transformar a mais comum das pessoas em um personagem inesquecível e fascinante. Esse talento único está em grande forma em um dos seus melhores trabalhos, "Edifício Master", lançado em 2002 e referência obrigatória para todos os fãs do gênero. Parte da lista dos 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos elaborada pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) em 2015 e premiado nos festivais de Gramado e Havana, além da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), o brilhante trabalho de Coutinho reflete como poucos a diversidade do país, utilizando-se para isso um prédio de apartamentos residenciais, localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro. Ao contrário da imagem de glamour e luxo que o endereço pode transmitir em um primeiro momento, os moradores escolhidos pelo diretor para contarem um pouco a respeito de suas vidas são pessoas simples e idiossincráticas, que compõem um panorama eclético e emocionante de uma parte numerosa e frequentemente ignorada do Brasil: a classe média baixa, com seus altos e baixos pessoais, profissionais e familiares.

Ao dar voz a indivíduos aparentemente simples mas dotados de complexidades que são reveladas gradualmente, conforme as entrevistas vão se desenrolando, Eduardo Coutinho deixa claro ao espectador que, mais do que buscar a excentricidade de cada um, ele procura suas banalidades - e, por consequência, sua humanidade mais radical. Com uma variada gama de personalidades em mãos, o cineasta faz do público o voyeur não apenas de um vizinho qualquer, mas de quase quatro dezenas deles, devassando suas intimidades e pensamentos mais honestos. Desfilam pela tela tanto jovens sonhadores e/ou presos a doenças psicológicas ou sociais, casais com histórias de amor variadas, um veterano ator de televisão, uma garota de programa, pessoas de meia-idade amarradas a um passado saudoso que não volta mais, uma ex-dançarina que fez fama no Japão na juventude e vários outros rostos desconhecidos que vão revelando suas grandezas e mesquinharias sem medo de julgamentos ou críticas. Dotado de momentos emocionantes - como o morador que canta "My way", de Frank Sinatra, com os olhos marejados de lágrimas - e outros bastante curiosos - a jovem maníaco-depressiva que tem fobia de pessoas e não consegue sequer olhar nos olhos de Coutinho, por exemplo - "Edifício Master" é um fascinante compêndio sobre a natureza humana, repleto de uma verdade de que somente os melhores documentários conseguem atingir.


Mesmo que tenha escolhido um número relativo pequeno de moradores - 37, de um universo de cerca de 500 à época das filmagens - Eduardo Coutinho comprova, com sua inteligente amostragem, que existem sentimentos que unem todos os seres humanos. A solidão, por exemplo, é uma constante participante das entrevistas, tanto nos personagens mais jovens quanto naqueles mais experientes - tanto nos solteiros quanto nos casados. O que Coutinho faz com admirável destreza é escancarar as portas de cada apartamento, convidando o público a penetrar em vidas de completos estranhos que, alguns minutos mais tarde, tornam-se quase íntimos. Nenhuma história soa pequena diante do vasto interesse do diretor na alma humana: da senhora assaltada que não consegue livrar-se do trauma, da jovem expulsa grávida da casa dos pais e que recomeça a vida no prédio, dos jovens músicos em busca de uma oportunidade, de uma rígida imigrante que acredita que o trabalho duro é a única forma de manter a sanidade física e financeira e do casal de viúvos apaixonados depois de se conhecerem em um anúncio de jornal, tudo é matéria-prima para a curiosidade carinhosa do documentário, que prescinde de artifícios narrativos para atingir seu objetivo: não há nada mais no cinema de Coutinho do que ele mesmo, seus convidados, uma câmera e a emoção que surge em cada minuto. É simples, direto e extremamente eficiente.

Um prédio de 12 andares com 276 apartamentos e que já foi o lar de nomes como Rogéria, Elke Maravilha e Leila Diniz, o Edifício Master passou por mudanças radicais desde o lançamento do filme. Se no momento da realização ele já não era mais o lar de prostitutas, drogados e cafetões que foi por um período de tempo - graças à uma administração mais séria e menos liberal - mais de uma década depois as coisas estavam ainda mais atraentes para seus moradores. O preço dos apartamentos, por exemplo, disparou de cerca de R$ 35 mil em 2002 para R$ 700 mil em 2015, ano em que Eduardo Coutinho morreu assassinado pelo próprio filho, vítima de esquizofrenia. O porteiro ganhou uniforme, as câmeras de vigilância ficaram mais sofisticadas e os moradores tornaram-se, por algum tempo, celebridades do bairro, sendo reconhecidas nas ruas e supermercados como estrelas de cinema. Suas solidões encontraram eco na plateia, que descobriu, graças à imensa sensibilidade que escorre de cada entrevista, que seres humanos são, essencialmente, uns iguais aos outros, com suas dores e delícias. Uma obra-prima atemporal e universal!

sexta-feira

TIROS EM COLUMBINE

TIROS EM COLUMBINE (Bowling for Columbine, 2002, United Artists, 120min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Wolfram Tichy. Produção: Charles Bishop, Jim Czarnecki, Michael Donovan, Kahtleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 16/5/02 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário

Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.

Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.


Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.

"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!

terça-feira

FEMME FATALE

FEMME FATALE (Femme fatale, 2002, Quinta Communications, 114min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Bill Pankow. Música: Ryuichi Sakamoto Figurino: Olivier Beriot. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Mark Lombardo. Produção: Tarak Ben Ammar, Marina Gefter. Elenco: Rebecca Rojmin-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote. Estreia: 30/4/02 

Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").

Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.


E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).

Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.

quarta-feira

SPIDER - DESAFIE SUA MENTE

SPIDER, DESAFIE SUA MENTE (Spider, 2002, Odeon Films/Capitol Films, 98min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Patrick McGrath, romance de sua autoria. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Andrew Sanders/Marina Morris, Clive Thomasson. Produção executiva: Jane Barclay, Charles Finch, Simon Franks, Victor Hadida, Sharon Harel, Zygi Kamasa, Martin Katz, Hannah Leader, Luc Roeg. Produção: Catherine Bailey, David Cronenberg, Samuel Hadida. Elenco: Ralph Fiennes, Miranda Richardson, Gabriel Byrne, Lynn Redgrave, John Neville. Estreia: 21/5/92 (Festival de Cannes)

Capgras é uma síndrome psicológica real: seus portadores acreditam, sem sombra de dúvidas, que pessoas próximas a eles foram substituídas por impostores idênticos. Tal distúrbio é o ponto central de "Spider, desafie sua mente", mais um brilhante e perturbador filme do cineasta canadense David Cronenberg. Com roteiro do escritor Patrick McGrath inspirado em um romance de sua autoria, o filme acompanha os desvãos da mente distorcida de seu protagonista sem preocupar-se em ser didático, imergindo o público em um emaranhado de memórias alteradas, violência e adultério comandados por uma avassaladora interpretação de Ralph Fiennes. Silencioso, minimalista e assustador, o ator inglês entrega uma das maiores performances de sua carreira, injustamente ignorada por todas as cerimônias de premiação da temporada - e hipnotiza a plateia desde sua primeira aparição em cena.

Seu personagem, Dennis Clegg, é um homem que, depois de ter passado mais de vinte anos em uma instituição psiquiátrica, volta ao convívio da sociedade apesar de seu diagnóstico de esquizofrenia aguda. Com a ajuda de seus médicos, ele encontra um lar na pensão da Sra. Wilkinson (Lynn Redgrave), um local que abriga vários outros doentes mentais em graus diversos de patologia. Introvertido e paranoico, ele pouco interage com os demais moradores da pensão, preferindo, ao invés disso, descrever em um diário todas as suas impressões e lembranças - em um idioma que só ele consegue compreender. Torturado por suas lembranças, Clegg - cujo apelido de infância é Spider - passa os dias caminhando pelos arredores de sua antiga casa, tentando refazer em seu pensamento todos os acontecimentos que o levaram à instituição quando ainda era uma criança. Frequentando os bares e parques do bairro, ele volta a viver o drama de pertencer à uma família disfuncional desfeita por uma tragédia.


Na Londres dos anos 50, Clegg é um menino aparentemente normal, ainda que extremamente tímido. Filho único, ele presencia frequentemente as brigas entre seus pais, uma dona de casa dedicada (Miranda Richardson) e um encanador mulherengo e alcóolatra (Gabriel Byrne) conhecido em todos os bares das redondezas - e pelas prostitutas locais. É uma dessas mulheres (também vivida por Richardson, em um desempenho extraordinário) que acaba sendo a catalisadora da grande mudança na vida do garoto, quando, depois da violenta morte de sua mãe (assassinada depois de flagrar o marido com outra mulher), se casa com seu pai e passa a morar com os dois. Na mente traumatizada do pequeno Spider ela é exatamente igual fisicamente à sua amada e falecida mãe, o que acaba o levando a uma situação de confusão psicológica que tem um desfecho ainda mais trágico.

Sem deixar ao espectador uma linha clara entre o que é realidade e o que é apenas fruto da imaginação conflituosa de Spider, o roteiro de McGrath e a direção de Cronenberg borra propositalmente os limites entre as duas situações, transformando seu filme em uma experiência fascinante. Com seu olhar alucinado e vazio, Ralph Fiennes carrega nas costas a responsabilidade de intrigar e surpreender a audiência, e o faz com a segurança de sempre, construindo um personagem complexo com uma riqueza de detalhes (físicos e emocionais) impressionante - desde a forma como anda até a maneira como se relaciona com os colegas da pensão, tudo é minimamente calculado para dar consistência a um papel que, em mãos mais propensas a exageros, cairia fatalmente no ridículo ou no exagerado. Sua economia dramática, além do mais, encontra eco na fantástica interpretação de Miranda Richardson, que se divide em duas personagens antagônicas com uma naturalidade chocante: se Fiennes é a alma de "Spider", ela é o corpo e a culpa, capaz de deixar qualquer um de queixo caído.

Tenso, pesado, complexo - mas por isso mesmo brilhante, inteligente e melancólico - "Spider, desafie sua mente" é um dos trabalhos mais sensíveis de David Cronenberg, que deixa de lado sua tendência ao bizarro e ao escatológico para mergulhar em um universo ainda mais surreal e apavorante: a mente de um esquizofrênico. Graças ao roteiro inteligente e aos atores em momentos inspirados, criou um de seus melhores filmes.

terça-feira

GANGUES DE NOVA YORK

GANGUES DE NOVA YORK (Gangs of New York, 2002, Miramax, 167min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan, estória de Jay Cocks. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferreti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Maurizio Grimaldi, Michael Hausman, Michael Ovitz, Bob Weinstein, Rick Yorn. Produção: Alberto Grimaldi, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Liam Neeson, John C. Reilly, Jim Broadbent, Henry Thomas, Brendan Gleeson, Gary Lewis, Stephen Graham, Eddie Marsan, Cara Seymour. Estreia: 09/12/02

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("The hands that built America"), Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Martin Scorsese), Canção ("The hands that built America") 

Um dos projetos de estimação do cineasta Martin Scorsese, "Gangues de Nova York" começou a ser gerado ainda nos anos 70, quando o diretor ainda era uma jovem promessa, vindo do sucesso de crítica de seu "Taxi driver". Mais de duas décadas depois - e após uma sucessão de altos e baixos e uma bem-sucedida parceria artística com Robert DeNiro - parecia-lhe que enfim era chegada a hora de mostrar nas telas um pouco das origens da mais famosa cidade do mundo, com toda a sua violência sanguinária substituindo o glamour e o charme da metrópole tão querida por ele. Com base em uma estória do roteirista Jay Cocks desenvolvida por anos e anos, surgiu então um filme que, a despeito de todos os talentos envolvidos e das expectativas geradas por tanta espera, não atinge todo o seu potencial. Mesmo com um orçamento generoso de mais de 80 milhões de dólares, falta a ele uma alma e um foco narrativo mais atraente do que uma simples história de vingança tendo como pano de fundo as cruéis batalhas que pavimentaram o solo da Grande Maçã durante a Guerra de Secessão.

Obcecado pela história de Nova York desde que descobriu, no início de 1970, um livro escrito por Herbert Asbury, Scorsese dedicou tempo, paixão e energia a descobrir uma forma de contar cinematograficamente parte de uma longa e complicada história envolvendo os conflitos entre americanos protestantes e irlandeses católicos que encharcavam de sangue as calçadas da cidade com o objetivo de controle. Foi somente na década de 90 que surgiu a ideia de concentrar a trama em um personagem real - Bill "The Butcher" Poole - e, modificando alguns detalhes de sua biografia (mais significativamente a data de sua morte, ocorrida antes dos fatos mostrados no filme), envolvê-lo em uma história de vingança familiar. Tomava forma, assim, a estrutura final de uma obra complicada, cara e que se tornou um dos lançamentos mais ansiosamente aguardados de 2001 - e que, devido a constantes atrasos em seu cronograma de filmagens, só chegou às telas no final de 2002, dividindo a opinião do público, da crítica e até das cerimônias de premiação: indicado a dez Oscar, "Gangues de Nova York" testemunhou de mãos vazias a festa de "Chicago" e "O pianista", mesmo tendo sido agraciado pelos Golden Globes de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e canção (a bela "The hands that built America", da banda irlandesa U2).


Interpretado com a dedicação habitual por Daniel Day-Lewis - em uma atuação que empresta um tom caricato a um personagem de nuances trágicas e épicas - Bill, o Açougueiro é o líder de uma das gangues que controlam um dos distritos de Nova York na metade do século XIX. Durante uma das sangrentas batalhas entre elas, ele não hesita em matar cruelmente um rival, o irlandês "Priest" Vallon (Liam Neeson), sob os olhos do filho deste, uma criança que, órfã e criada em um orfanato católico, cresce com o desejo de vingança como principal objetivo de vida. Dezesseis anos mais tarde, o menino, chamado Amsterdam (e na pele de Leonardo DiCaprio em sua primeira colaboração com Scorsese, de quem se tornaria parceiro artístico constante) volta às ruas de sua cidade e a encontra sob uma constante tensão racial e social, com os políticos tentando de qualquer maneira conquistar os votos dos imigrantes, que são tratados como seres insignificantes por gente com Bill. Em sua gana de vingar a morte do pai, Amsterdam se aproxima do temido líder e se torna seu homem de confiança - até ser traído inesperadamente e ser obrigado a enfrentar seu inimigo em plena Revolta do Alistamento (quando a comunidade pobre, inconformada com o alto custo da taxa que liberava os jovens do alistamento militar).

Tecnicamente impecável, com uma reconstituição de época brilhante - as filmagens aconteceram na Cinecitta, na Itália - e a direção sempre vigorosa e detalhista de Scorsese, "Gangues de Nova York"  é um superespetáculo visual, repleto de sequências criativas, fortes e marcantes, mas infelizmente derrapa nas suas boas intenções. O roteiro - co-escrito pelo oscarizado Steven Zaillian e por Kenneth Lonergan, conhecido por seus filmes independentes - falha em conectar seus protagonistas, negando ao público a chance de se deixar envolver pela vingança de Amsterdam ou compreender a contento todas as nuances da história da cidade. Até mesmo a inclusão de uma desnecessária personagem feminina, a punguista Jenny Everdeane (a sempre insossa Cameron Diaz, nome imposto pelos produtores para incrementar as chances comerciais do filme) soa como uma tentativa desastrada de aliviar a violência do enredo, com um romance também pouco convincente. Indeciso entre narrar batalhas sangrentas, um drama familiar ou uma história de amor, Scorsese acaba por ficar no meio-termo em todas as frentes, prejudicando tanto o ritmo quanto a profundidade daquela que poderia ser a sua obra-prima. Para isso colabora também a atuação de Leonardo DiCaprio - que no mesmo ano protagonizou o divertido "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg: apesar de elogiado por boa parte da crítica, o jovem ator não consegue transmitir, em seu trabalho, todas as possibilidades de seu personagem.

No entanto, apesar dos pesares, "Gangues de Nova York" é um típico Martin Scorsese, o que faz dele programa obrigatório para qualquer cinéfilo. Mesmo longe de tudo que poderia ser - em parte porque o orçamento não comportou toda a grandeza do roteiro final - o filme tem qualidades em número mais do que suficiente para agradar a quem procura uma produção caprichada, com bons atores e comandada por um cineasta cuja paixão transpira em cada fotograma.

segunda-feira

COISAS BELAS E SUJAS

COISAS BELAS E SUJAS (Pretty dirty things, 2002, BBC Films, 97min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Steven Knight. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Mick Audsley. Música: Nathan Larson. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyc-Wyhowski/Linda Wilson. Produção executiva: Julie Goldstein, Teresa Moneo, Allon Reich, Tracey Scoffield, Paul Smith, David M. Thompson. Produção: Robert Jones, Tracey Seaward. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Audrey Tautou, Sergi Lopez, Sophie Okonedo, Benedict Wong, Zlatko Buric. Estreia: 05/09/02 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Duas chagas da sociedade europeia estão retratadas em "Coisas belas e sujas", primeiro filme em língua inglesa da atriz Audrey Tautou, a eterna Amélie Poulain: a imigração ilegal e o mercado negro de órgãos. Com base em um roteiro esperto e enxuto que acabou sendo indicado ao Oscar mais de um ano depois de sua estreia no Festival de Veneza de 2002, o diretor inglês Stephen Frears - autor de obras tão diversas como "Ligações perigosas", "Os imorais", "Herói por acidente" e "O segredo de Mary Reilly" - construiu um filme instigante, austero e sensível que equilibra os elementos de um bom thriller com aspectos de denúncia social, além de uma comovente e discreta história de amor. Equilibrando sua história entre hotéis de luxo e as sarjetas do submundo ilícito dos estrangeiros que lutam por uma vida digna longe de seus países de origem, Frears conta com um fabuloso elenco internacional para dar vida a um conto muitas vezes cruel, mas dotado de uma ponta de esperança que o salva de tornar-se mais um petardo doloroso e cínico sobre as mazelas humanas. Para isso, nada colabora mais do que o rosto angelical de Tautou, que imprime delicadeza mesmo aos mais pútridos atos.

No entanto, apesar de ser o rosto de Tautou que enfeita o cartaz, o real protagonista de "Coisas belas e sujas" é Chiwetel Ejiofor - que alcançaria fama com sua indicação ao Oscar por "12 anos de escravidão", mais de uma década depois. Ele interpreta Okwe, um imigrante nigeriano que trabalha em Londres dirigindo um táxi durante o dia e como recepcionista de um hotel à noite. No meio-tempo ele dorme (ou tenta descansar, já que faz uso de ervas medicinais para manter-se acordado durante o horário comercial) no sofá do apartamento de uma colega, a turca Senay (Audrey Tautou), que sonha em viajar para Nova York mas precisa trabalhar sem visto tanto no hotel quanto em uma fábrica de roupas cujo dono a obriga a favores sexuais a despeito de sua virgindade. Senay é apaixonada por Okwe, que não percebe tal sentimento e esconde uma tragédia pessoal em seu passado - além do fato de ser formado em Medicina em seu país de origem. E é justamente esse detalhe profissional que irá empurrar o dedicado nigeriano em um pesadelo kafkiano: ao desentupir o vaso do banheiro de um dos quartos do hotel onde trabalha, ele encontra um coração humano. Intrigado com tal acontecimento bizarro - e com a indiferença com que tal é tratado por seu superior, Juan (Sergi Lopez) - o rapaz passa a investigar e descobre, para seu choque, um esquema de tráfico de órgãos do qual o próprio Juan faz parte.




Fotografado pelo veterano Chris Menges em tons pastel que reforçam o sentimento de claustrofobia, "Coisas belas e sujas" passa, com elegância, de um drama sobre os problemas dos imigrantes ilegais, sujeitos a humilhações e inseguranças constantes, a um suspense concebido com inteligência e altas doses de melancolia - um detalhe que o distancia de seus congêneres e o destaca como um dos melhores trabalhos da carreira de Frears. Substituindo o herói intocável e incorruptível por um ser humano passível de erros e dilemas éticos, o filme aproxima o espectador de seus personagens, se esgueirando por seus apartamentos minúsculos, seus subempregos, seus dramas pessoais e suas soluções frequentemente equivocadas sem fazer nenhum tipo de julgamento de juízo. Comovendo com a história de amor delicada entre Okwe e Senay - um romance casto, ingênuo e repleto de dores e decepções - e surpreendendo com os devios da trama de suspense - que envolve uma sequência perto do final de deixar qualquer um tenso na poltrona - o roteiro jamais escorrega na esquizofrenia, equilibrando com maestria os dois fios narrativos a fim de encerrá-los com coerência e delicadeza.

Intenso e bem dirigido, emocionante e interpretado com extrema força, "Coisas belas e sujas" é um filme subestimado ao extremo. Sua indicação ao Oscar - perdeu para o sensível "Encontros e desencontros", de Sofia Coppola - apenas destacou uma de suas inúmeras qualidades, mas a Academia errou em deixar de fora a direção precisa de Stephen Frears, a fotografia excelente de Menges, a edição impecável e a atuação de Chiwetel Ejiofor, que transmite com um único olhar uma variedade insana de sentimentos. Merece ser descoberto e aplaudido.

domingo

AMÉM

AMÉM (Amen., 2002, Canal +/K.G. Productions, 132min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras, Jean-Claude Grumberg, peça teatral "Del stellvertrer", de Rolf Hochhuth. Fotografia: Patrick Blossier. Montagem: Yannick Kergoat. Música: Armand Amar. Figurino: Edith Vesperini. Direção de arte/cenários: Ari Hantke/Carmen Pasula. Produção: Andrei Boncea, Michèle Ray-Gavras. Elenco: Ulrich Tukur, Mathieu Kassovitz, Ulrich Muhe, Michel Duchaussoay, Ion Caramitru, Marcel Iures. Estreia: 13/02/02 (Festival de Berlim)

Diretor de alguns dos mais contundentes exemplares do chamado "cinema político" - o que inclui o oscarizado "Z" e o aclamado "Missing, o desaparecido" - o grego Constantin Costa-Gavras foi o cineasta ideal para levar às telas a peça do dramaturgo alemão Rolf Hochhuth, lançada em 1963 já sob a aura da polêmica. Falando sobre um tema ainda fresco e desconfortável - como ainda hoje o é - "Amém" tratava da passividade da Igreja católica diante das atrocidades cometidas contra os judeus nos campos de concentração nazistas durante a II Guerra Mundial. Não foi surpresa, portanto, que o Vaticano tenha fechado suas portas para a realização do filme, que escancara sem pena nem dó os motivos egoístas e ditos diplomáticos da alta cúpula cristã no período em que Hitler esteve no comando alemão. Com uma narrativa direta e sem espaço para sentimentalismos, Costa-Gavras mergulha na consciência de um oficial da SS e no desespero de um jovem padre para contar à plateia uma história de horrores e indiferença, capaz de revoltar ao mais pacato dos espectadores.

A primeira sequência já é Costa-Gavras puro: durante um congresso da ONU em 1936, um jornalista entra sorrateiramente distribuindo panfletos e, antes de tirar a própria vida com um tiro no peito, alerta os presentes sobre os crimes cometidos contra o povo judeu pelo governo alemão. É o ponto de partida para uma trama centrada em dois personagens fortes e determinados o bastante para lutar contra o status quo, mesmo que isso faça deles dois proscritos em suas carreiras. O primeiro a ser apresentado ao público é Kurt Gerstein (Ulrich Tukur), cientista alemão recrutado pela SS como engenheiro sanitarista. À princípio pensando que seu trabalho é purificar a água consumida pelo exército alemão e depois criar um gás que permita exterminar qualquer tipo de animal pestilento dos campos de concentração, ele descobre, transtornado, que seu trabalho está sendo utilizado para matar milhares de judeus que o governo nazista insiste em afirmar que está apenas deslocando para outros países. Determinado a revelar ao mundo a criminosa farsa - por questões éticas e humanistas, já que foi criado como cristão - Gerstein tenta chamar para seu lado os intelectuais e religiosos amigos de sua família, mas percebe que está sendo tratado como traidor. Sua caminhada só encontra apoio em Riccardo Fontana (Mathieu Kassovitz, o galã de "O fabuloso destino de Amélie Poulain"), um padre com relações estreitas com o Vaticano - seu pai é amigo antigo do Papa Pio XII.


Com a entrada de Riccardo em cena, a ação se transfere dos escritórios da SS para os corredores luxuosos do Vaticano e afins. Ciente do genocídio cometido pela Alemanha, ele usa de seu poder em transitar pelos meandros do poder religioso para convencer a todos ao seu redor do tamanho do estrago, sendo sempre repelido, ignorado ou simplesmente ridicularizado. Percebendo chocado que a indiferença da Igreja tem a ver com seus próprios interesses econômicos e políticos, o jovem acaba virando as costas para os dogmas católicos e, munido apenas de sua crença na justiça e nas informações divulgadas a ele por Gerstein - que não hesita em oferecer-se como testemunha ocular caso seja necessário - deixa de lado a teoria e parte para a ação, arriscando a vida para impedir uma desgraça ainda maior junto ao povo judeu. É desnecessário dizer que embarca sozinho nessa perigosa missão.

Tratando o tema com sobriedade e firmeza, Costa-Gavras foge do didatismo e da mesmice dos filmes do gênero ao concentrar seu foco nos dois protagonistas, apenas ocasionalmente virando sua câmera para retratar os horrores dos campos de concentração, tantas vezes já vistos no cinema - é o caso da sufocante sequência em que Gerstein toma conhecimento do mal que sua ciência vem fazendo aos prisioneiros de guerra. Seu filme é feito de diálogos, palavras, sentimentos e frustração, em contraponto a obras que se dedicam a explorar o assunto com imagens brutais ou líricas. Tal opção o afasta dos filmes de guerra convencionais - a guerra é travada dentro da mente dos personagens e em cenários menos amplos do que campos de batalha ou de concentração - e o aproxima do espectador comum, que sente-se uma testemunha privilegiada de um combate histórico e poucas vezes discutido com tanta clareza e coragem. Sem medo de despertar discussões, "Amém" é importante e imprescindível, mesmo que não tenha o mesmo brilhantismo das melhores obras do diretor.

sábado

CÁLCULO MORTAL

CÁLCULO MORTAL (Murder by numbers, 2002, Warner Bros/Castle Rock Entertainment, 115min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Tony Gayton. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Clint Mansell. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Sandra Bullock, Jeffrey Stott. Produção: Richard Crystal, Susan Hoffman, Barbet Schroeder. Elenco: Sandra Bullock, Ben Chaplin, Ryan Gosling, Michael Pitt, Agnes Bruckner, Chris Penn. Estreia: 19/4/02

Se alguém estranhar a presença de Sandra Bullock no papel principal do suspense policial "Cálculo mortal" basta dar uma olhada nos créditos de abertura para descobrir que ela é também um dos produtores executivos do filme de Barbet Schroeder: somente assim dá pra entender porque a atriz - que até funciona em comédias românticas ou papéis mais leves mas é incapaz de convencer interpretando personagens dramáticos (apesar do Oscar inexplicável por "Um sonho possível" em 2010). Na pele da detetive Cassie Mayweather, uma mulher traumatizada por um trágico acontecimento no passado que tenta desvendar o assassinato aparentemente sem motivos de uma jovem encontrada morta à beira de um rio, Bullock mais uma vez apresenta seu arsenal de caras, bocas e trejeitos, enfraquecendo uma história já banhada em clichês. Seu trabalho pouco inspirado só não consegue diluir totalmente o suspense da trama porque Schroeder consegue tirar leite de pedra e porque um dos atores jovens do elenco, Ryan Gosling, já demonstra, em um de seus primeiros filmes, que seu talento em roubar a cena.

Anos antes de tornar-se um galã requisitado e um ator dos mais elogiados de sua geração, Gosling chama a atenção pela intensidade que empresta ao jovem estudante Richard Haywood, cujo carisma petulante (e os pais milionários) sempre ajudaram a conquistar qualquer coisa. Por puro tédio e para provar a teoria de que o crime perfeito existe, ele se une a um colega de escola, Justin Pendleton (Michael Pitt, sempre estranho), um nerd desajustado e tímido que vê nele um ídolo e um modelo a ser seguido. Juntos, eles tramam a morte de uma desconhecida, planejam com antecedência cada passo e, como chave de ouro, deixam junto ao corpo traços que levam os detetives ao faxineiro da escola, Ray Feathers (Chris Penn), previamente condenado por agressão e tráfico de drogas. Quem não compra a solução do caso é Cassy, uma policial dedicada que desconfia quase obsessivamente de Richard e desafia seus superiores e seu parceiro, Sam Kennedy (Ben Chaplin), na tentativa desesperada de provar seu ponto de vista.


O ponto de partida de "Cálculo mortal" é dos melhores e mais inspiradores: dois jovens tentando praticar o crime perfeito - algo que lembra bastante "Festim diabólico", de Alfred Hitchcock, inclusive com alguns tons homoeróticos não explorados por Schroeder. O problema é que o roteiro acaba se desviando de sua premissa inicial sempre que passa a explorar os dramas pessoais de Cassie, fantasmas que não necessariamente tem conexão com a trama e que servem apenas para frear o ritmo da narrativa e dar à Sandra Bullock a chance de tentar mostrar-se capaz de segurar um papel com consistência dramática - o que ela não consegue, a não ser que se considere uma boa interpretação um trabalho recheado de esgares nitidamente forçados e gemidos exagerados para demonstrar medo e fragilidade (coisas que ela fez também em "Gravidade" e pelo qual conseguiu uma nova indicação ao Oscar). Sempre que a trama muda de foco e sai da investigação do crime para explorar os dramas pessoais de Cassie, o filme cai perigosamente no tédio e no lugar-comum, que culmina com a protagonista dormindo com o colega de trabalho apenas para mostrar que é descolada e independente. Mais chavão impossível. Interpretado por Sandra Bullock, então, chega às raias do insuportável.

Felizmente há mais elementos em "Cálculo mortal" do que sua mocinha sonolenta. O plano criado pelos dois rapazes é empolgante e a relação entre eles, ainda que pouco aprofundada pelo roteiro, é muito mais interessante do que o drama da policial que os investiga. Além do mais, Schroeder - diretor de filmes de prestígio como "O reverso da fortuna" e de sucessos de bilheteria como "Mulher solteira procura..." - é um cineasta inteligente, que tenta, mesmo quando o roteiro não lhe permite, contar suas histórias de forma a manter o interesse da plateia até o último minuto. Aqui, há inclusive uma reviravolta final, que, mesmo não sendo genial, consegue surpreender e livrar o espectador da sensação de tempo perdido. Pode não ser inesquecível, mas é um filme policial decente e que cumpre o que promete. Apesar de Sandra Bullock.

sexta-feira

HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES

HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES (Houve uma vez dois verões, 2002, Casa de Cinema de Porto Alegre, 75min) Direção e roteiro: Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Música: Leo Henkin. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Ana Luiza Azevedo/Fiapo Barth. Produção: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Elenco: André Arteche, Ana Maria Mainieri, Pedro Furtado, Júlia Barth, Marcelo Aquino, Jananína Kremer Motta. Estreia: 2002

Bem-sucedido roteirista de televisão e internacionalmente premiado com seu curta-metragem "Ilha das flores", o gaúcho Jorge Furtado fez a escolha certa quando resolveu estrear no comando de um longa: deixando de lado toda e qualquer pretensão, ele escolheu um gênero querido pelo público (a comédia romântica adolescente), abdicou de astros da telinha carregados de vícios artísticos e resolveu cantar seu quintal - mais especificamente, o litoral do Rio Grande do Sul e sua capital, Porto Alegre - na história de idas e vindas de um amor juvenil embalada por uma trilha sonora vibrante (também recheada de músicos do sul) e banhada em um humor quase ingênuo. "Houve uma vez dois verões" - cujo sabor de nostalgia já começa no título que homenageia o clássico "O verão de 42", de Robert Mulligan - é um trunfo de simplicidade e delicadeza, capaz de agradar sua plateia sem fazer muito esforço.

Tudo começa no final de um verão em uma praia do litoral gaúcho, quando o adolescente Chico (André Arteche, ótimo), virgem, tímido e romântico, conhece a extrovertida e sedutora Roza (Ana Maria Mainieri) em um fliperama. De um flerte desajeitado surge sua primeira experiência sexual, mas a menina desaparece assim como surgiu, deixando-o sem uma única pista sobre sua localização. Alguns meses mais tarde, já em Porto Alegre, o rapaz é procurado por sua ex-futura namorada, que lhe revela estar grávida e pede dinheiro para realizar um aborto. Mesmo triste com a situação, o rapaz lhe dá a grana, apenas para descobrir, logo em seguida, que ela desapareceu novamente. Quando descobre, junto ao amigo Juca (Pedro Furtado, filho do diretor), que ela deu o mesmo golpe em vários outros homens, Chico decide procurá-la novamente para tirar satisfações. É aí que tem início uma história repleta de idas e vindas, em que seu amor será testado diversas vezes.


Enxuto e de narrativa ágil - pouco mais de 75 minutos de projeção - "Houve uma vez dois verões" usa e abusa da maior qualidade do Jorge Furtado roteirista (diálogos afiados e inteligentes, com um senso de humor de fácil assimilação mas nunca simplório) e demonstra a segurança do Jorge Furtado diretor. Tirando interpretações espontâneas e simpáticas do elenco jovem - em especial do iniciante André Arteche, que transmite sem dificuldade toda gama de sentimentos de seu personagem, demonstrando pleno domínio de seu ofício - o cineasta faz um pequeno inventário de gírias, sotaques e costumes de seu estado, registrando com sua câmera paisagens conhecidas dos gaúchos e apresentando-as a uma plateia mais ampla, com carinho e sensibilidade. De comunicação direta com seu público, Furtado faz rir de situações cotidianas e banais, ressaltando sempre o ridículo de cada momento sem tirar-lhe a essência humana: até mesmo personagens secundários são tratados com respeito por seu roteiro, uma espécie de treino para seu filme posterior, o ótimo "O homem que copiava", bem mais ambicioso e igualmente bem-sucedido em seus objetivos de entreter sem compromisso.

Com uma trilha sonora que mistura rock, pop, regravações de clássicos americanos e que une músicos gaúchos e de projeção nacional (Pato Fu e Cássia Eller em sua última gravação, uma releitura de "Nasci para chorar") para acompanhar as aventuras e desventuras românticas de Chico e Roza, "Houve uma vez dois verões" é uma espécie de excelente ensaio para Jorge Furtado antes de afileirar-se entre os melhores cineastas brasileiros de sua geração. Engraçado, leve e modesto, é também uma comédia de deixar qualquer um com um sorriso estampado nos lábios. Seu único defeito é ser tão curto.

quinta-feira

O PIANISTA

O PIANISTA (The pianist, 2002, R.P. Productions/Heritage Films, 150min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Ronald Harwood, livro de Wladyslaw Szpilman. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze. Música: Wojciech Kilar. Figurino: Anna Sheppard. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Wieslawa Chojkowska, Gabrielle Wolff. Produção executiva: Timothy Burrill, Henning Molfenter, Lew Rywin. Produção: Robert Benmussa, Roman Polanski, Alain Sarde. Elenco: Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Emilia Fox, Michal Zebrowski, Ed Stoppard, Maureen Lipman. Estreia: 24/5/02 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roman Polanski), Ator (Adrien Brody), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Roman Polanski), Ator (Adrien Brody), Roteiro Adaptado
Palma de Ouro (Melhor Diretor) no Festival de Cannes: Roman Polanski

Diretor de obras aclamadas e queridas pela crítica e pelo público, como "O bebê de Rosemary" (68) e "Chinatown" (74), o polonês Roman Polanski - cuja vida pessoal é tão ou mais trágica e atribulada do que as tramas de seus trabalhos para as telas - declarou, em um documentário de 2011 chamado "Roman Polanski: a film memoir" que, dentre todos os seus filmes, o seu preferido é "O pianista", que ele lançou no Festival de Cannes de 2002 e que lhe rendeu a Palma de Ouro e o Oscar de melhor diretor. Não é para menos: assim como "A lista de Schindler" serviu para que Steven Spielberg fizesse as pazes com suas origens judaicas - e com a Academia - a história real do músico Wladyslaw Szpilman foi a desculpa perfeita para que Polanski (que perdeu a mãe em um campo de concentração durante a II Guerra Mundial) também voltasse os olhos para um período negro de sua vida como forma de catarse. O resultado é, em contraste com a força sentimental do filme de Spielberg, um retrato seco e cruel ao estilo pouco lírico do diretor que quase acabou com a festa de "Chicago" na cerimônia do Oscar de 2003 - além de Polanski, foram premiados o roteiro de Ronald Harwood e a atuação minimalista de Adrien Brody, que, aos 29 anos, tornou-se o mais jovem premiado da categoria.

Desde a primeira sequência - em que Szpilman mantém-se concentrado em terminar a peça musical que está tocando mesmo com a explosão de bombas que ameaçam o prédio da emissora de rádio onde trabalha, na Polônia de 1939 - fica claro que a intenção de Brody e Polanski é enfatizar a paixão do protagonista por sua arte, independente das circunstâncias nefastas que o cercam. Assim como todos os judeus de sua Varsóvia - incluindo sua família - ele se vê repentinamente privado de suas propriedades, de sua honra e de seus direitos de cidadão. Conforme a situação vai gradativamente piorando, ele vê famílias sendo destruídas, pessoas sendo assassinadas cruelmente nas ruas e, chocado, presencia a transferência de centenas de conhecidos para campos de concentração. Por obra do acaso - na figura de um amigo que o livra de tal destino - ele arruma emprego como pianista de um restaurante, mas logo é obrigado a levar uma vida clandestina, fugindo e se escondendo da impiedosa polícia nazista enquanto testemunha com cada vez maior pavor o aniquilamento de sua antiga vida.


Fotografado em tons cinzentos que contribuem para sublinhar o tom pessimista e melancólico da história, "O pianista" abdica das cenas lacrimosas para mostrar com austeridade os horrores da guerra sob o ponto de vista de uma de suas vítimas. Com seu olhar perdido e o ar desesperado, Szpilman atravessa a calamitosa - e longa - fase de sua vida não como um herói, mas como uma pessoa comum, um homem incapaz de fugir das armadilhas que lhe surgem pela frente sem sofrer na alma cada perda e cada angústia. A interpretação de Brody - frequentemente silenciosa e intimista - encaixa com perfeição na quase passividade do personagem, que justamente por não lutar contra a tempestade que cai em seus ombros chega quase a enervar a plateia. É mérito dele que haja o envolvimento emocional com a forma quase documental com que o roteiro é tratado - inclusive Polanski mesmo incluiu nos relatos de Szpilman suas próprias recordações de acontecimentos que presenciou na infância, o que aprofunda ainda mais a experiência dolorosa que é assistir-se ao filme.

"O pianista" é um filme forte, intenso e cruel, como toda a obra de Roman Polanski. Porém, é ainda mais excruciante por tratar de maneira realista e desprovida de sentimentalismo um período de trevas e dor que dizimou a vida e a esperança de milhares de pessoas. Talvez seja mal-entendido por aqueles que esperavam um novo "A lista de Schindler", mas é, ao lado dele, um dos mais poderosos retratos do holocausto e dos crimes da II Guerra Mundial, visto por quem estava dentro do furacão. De inegável impacto, não surpreende ser o preferido de seu autor.

quarta-feira

INSÔNIA

INSÔNIA (Inmsonia, 2002, Alcon Entertainment, 118min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Hilary Seitz, roteiro original de Nikolaj Frobenius, Erik Skjoldbjaerg. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Dody Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Tish Monaghan. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção executiva: George Clooney, Kim Roth, Charles J.D. Schlissel, Steven Soderbergh, Tony Thomas. Produção: Broderick Johnson, Paul Junger Witt, Andrew A. Kosove, Edward L. McDonnell. Elenco: Al Pacino, Robin Williams, Hilary Swank, Martin Donovan, Maura Tierney, Nicky Katt, Paul Dooley. Estreia: 03/5/02 (Festival de Tribeca)

Christopher Nolan ainda não era o cineasta reconhecido por ter transformado Batman em uma das mais lucrativas séries da história do cinema quando assumiu a direção de "Insônia", refilmagem de um suspense sueco que reunia três atores vencedores do Oscar - Al Pacino, Hilary Swank e Robin Williams, este último exercitando sua escolha por papéis de vilão que direcionou sua carreira depois de alguns fracassos de bilheteria. A escolha de Nolan para a direção, no entanto, não foi gratuita: quando entrou no projeto, ele já havia assinado um filme policial que deixou de queixo caído a crítica e o público, além de ter concorrido ao Oscar de roteiro original, o fabuloso "Amnésia". Talentoso, criativo e ousado, o cineasta transformou uma trama policial comum em um instigante estudo sobre culpa, obsessão e ética que, mesmo sem ter sido um estrondo de bilheteria mostrou que o diretor tinha a manha de conseguir injetar qualidade e inteligência a um entretenimento popular - o que se comprovaria com os filmes do homem-morcego e seus demais trabalhos.

Para adaptar a trama a uma lógica convincente, "Insônia" teve o cenário de seu original - a Suécia - transferido para uma pequena cidade do Alasca chamada Nightmute. É para lá que se dirigem dois policiais de Los Angeles, Will Dormer (Al Pacino, fenomenal) e Hap Eckhart (Martin Donovan), com o objetivo de investigar o assassinato de uma adolescente local. Entre interrogatórios com os colegas e familiares da vítima, Dormer e Hap contam com a ajuda de dois colegas locais, a dedicada Ellie Burr (Hilary Swank) e o caipira Fred Duggar (Nicky Katt), que ignoram o fato de que os dois forasteiros estão passando por um turbilhão profissional: Hap está em vias de revelar a seus superiores irregularidades cometidas por seu parceiro em um caso antigo e tal possibilidade está deixando sua amizade em uma perigosa corda-bamba. Quando, durante a perseguição a um dos suspeitos do crime Dormer mata o colega com um tiro, ele entra em uma séria crise de insônia, agravada pelo fato de a cidade não ter noites. Para piorar a situação, ele passa a ser chantageado pelo criminoso, o escritor de livros de suspense Walter Finch (Robin Williams), que testemunhou o acontecido e ameaça denunciar-lhe por homicídio.


Um suspense policial bem construído e centrado em personagens fortes mais do que em uma trama rocambolesca, "Insônia" mergulha o espectador em um universo claustrofóbico de mentiras, meias-verdades e tênues divisões entre o bem e o mal, sublinhadas por diálogos de substância e uma direção firme, que nunca resvala para o clichê. Concentrando seu foco nas relações entre Dormer e Finch - e sua possível conexão forjada através das mortes a que estão ligados - e entre Dormer e a idealista Ellie Burr - que vê nele um exemplo a ser seguido até que passa a desconfiar que seu herói tem tantos defeitos quanto qualidades e se vê diante de um dilema ético e moral - o roteiro de Hilary Seitz (que sofreu alterações feitas pelo próprio Nolan) desvia-se com segurança da linha de investigação criminal que lhe jogaria fatalmente na vala das produções banais do gênero para buscar mais consistência dramática - sem nunca deixar de lado, porém, o tom de tensão necessário para manter o espectador grudado na poltrona. Ao mesmo tempo em que acompanha o trabalho policial dos personagens, o público é brindado com uma história séria e intensa a respeito dos meandros da lei e de como é flexível o limite entre o certo e o errado quando o assunto é a violência.

E para sorte de Nolan o elenco responde à altura do roteiro, com interpretações que dão o peso exato à cada diálogo e à cada cena. Se Hilary Swank pouco tem a fazer com sua personagem até o terço final, quando torna-se peça fundamental para o desfecho, Robin Williams e Al Pacino - especialmente o último - dão um show à parte, elevando o nível do filme bem acima da média do gênero. A conversa entre policial e criminoso em um barco, por exemplo, é hipnótica e é um exemplo perfeito da química espetacular entre os dois grandes atores em um ótimo momento de suas carreiras, assim como a ótima sequência em que um devastado Dormer confessa à gerente do hotel onde está hospedado (e tentando dormir há dias, sem sucesso) os fatos trágicos que levaram à morte de seu parceiro. É drama de primeira, unido a uma história policial que não subestima a inteligência da plateia. Mesmo sem o brilhantismo dos filmes posteriores de Nolan, é um passatempo de primeira categoria.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...