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sábado

A ÓRFÃ


A ÓRFÃ (Orphan, 2009, Warner Bros./Dark Castle Entertainment, 123min) Direção: Jaume Collet-Serra. Roteiro: David Leslie Johnson, estória de Alex Mace. Fotografia: Jeff Cutter. Montagem: Tim Alverson. Música: John Ottman. Figurino: Antoinette Messam. Direção de arte/cenários: Tom Meyer/Daniel Hamelin, Martine Giguère-Kazermichuk, David Laramy, Cal Loucks. Produção executiva: Don Carmody, Michael Ireland, Steve Richards. Produção: Jennifer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Susan Downey, Joel Silver. Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, Isabelle Fuhrman, CCH Pounder, Jimmy Bennet, Margo Martindale, Aryana Engineer. Estreia: 21/7/2009

Nada como uma boa polêmica para chamar a atenção para um filme, certo? Que o digam os produtores de "A órfã", suspense produzido por (entre outros) Leonardo DiCaprio e que estreou no verão norte-americano de 2009. Antes mesmo de seu lançamento, o filme dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra conseguiu provocar indignação junto a entidades responsáveis por adoções. O motivo? Uma linha de diálogo mostrada no trailer. "Deve ser difícil amar um filho adotivo como se ele fosse seu próprio...", dizia a protagonista infantil da história, escandalizando (com certa razão) os ativistas e funcionando como um marketing inesperado e muito eficiente. Tal linha foi excluída do trailer - mas não do filme - e acabou despertando a curiosidade de muita gente: não por acaso, rendeu quase 80 milhões de dólares ao redor do mundo (metade disso só nos EUA) e entrou no inconsciente coletivo de forma como poucas produções do gênero são capazes de fazer a longo prazo. A trajetória de Esther, a menina órfã que transforma o sonho da adoção em um pesadelo familiar, tornou-se um dos filmes de suspense mais populares de sua época - e a boa notícia é que, apesar de alguns pequenos tropeços, merece toda essa repercussão.

Dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra - que posteriormente iniciou uma prolífica parceria com Liam Neeson em uma série de filmes de ação -, "A órfã" caiu no gosto popular por conseguir unir, em um único produto coeso, um filme de gênero, com todos os seus cânones, e um drama psicológico com desdobramentos sexuais surpreendentes para uma produção comercial. Seu tom adulto e a seriedade do roteiro - inspirado livremente em um caso real ocorrido na Ucrânia em 2010 – destoam da tendência de buscar plateias cada vez mais jovens (e, por conseguinte, menos exigentes e predispostas a banhos de sangue inconsequentes). Ao optar por uma trama quase elegante em seu desenvolvimento, Collet-Serra tenta fugir dos clichês – e consegue, em boa parte do tempo, principalmente por conta da direção segura, do roteiro que entrega os elementos aos poucos e do elenco acima de qualquer suspeita. Aclamados pela crítica e conhecidos do público, Vera Farmiga e Peter Sarsgaard oferecem ao resultado final um prestígio muito oportuno – e o fato de Leonardo DiCaprio ser um dos produtores não atrapalha em nada.

 

Farmiga e Sarsgaard vivem Kate e John Coleman, um casal jovem que vive o luto de ter perdido um bebê recém-nascido. Mesmo com outros dois filhos – o pré-adolescente Daniel e a pequena Max, que tem problemas de audição -, os entristecidos pais decidem aumentar a família e enterrar sua dor. A escolhida dos dois é Esther (Isabelle Fuhrmann), uma menina de nove anos educadíssima e gentil, que encanta John com seus modos nobres e inteligência. O que deveria ser um período de felicidade, porém, esbarra em uma série de problemas inesperados: aos poucos, Esther começa a demonstrar uma personalidade arredia e manipulativa – especialmente com as outras crianças – e, percebendo a instabilidade do casamento de seus novos pais, inicia uma perigosa batalha de nervos que a coloca em rota de colisão com Kate, que tenta recuperar-se de uma séria questão com o álcool.

Qualquer coisa que se saiba além da premissa inicial de “A órfã” pode ser prejudicial à sensação de descobrir a virada do roteiro – capaz de surpreender àqueles que tiverem a sorte de escapar dos spoilers. A mudança de rumo que surge no ato final – e deixa os atos anteriores de Esther quase previsíveis – é o grande trunfo do filme, mas seria injusto creditar apenas a ela o sucesso do resultado final. Orquestrado com delicadeza e grande senso de timing e estética, “A órfã” é um filme que resiste inclusive à uma revisão, graças principalmente ao brilhantismo de Collet-Serra em levar a sério a história que conta e evitar a tentação dos sustos fáceis. Mesmo que derrape em alguns lugares-comuns no meio do caminho, ele consegue fazer de uma produção que poderia ser apenas mais um exemplar raso de um gênero pouco afeito a experimentos uma pequena e marcante pérola.

sexta-feira

INVOCAÇÃO DO MAL 2

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The conjuring, 2016, New Line Cinema, 134min) Direção: James Wan. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson, estória de Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, personagens criados por Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Liz Griffiths, Sophie Neudorfer. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Peter Safran, James Wan. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Madison Wolfe, Lauren Sposito, Benjamin Haigh, Patrick McCauley. Estreia: 13/5/16

Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.

Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.


A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.

O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.

quarta-feira

O JUIZ

O JUIZ (The judge, 2014, Warner Bros/Team Downey, 141min) Direção: David Dobkin. Roteiro: Nick Schenck, Bill Dubuque, estória de David Dobkin, Nick Schenck. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Mark Livolsi. Música: Thomas Newman. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Bruce Berman, Robert Downey Jr., Herb Gains, Jeff Kleeman. Produção: David Dobkin, Susan Downey, David Gambino. Elenco: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Billy Bob Thornton, Vera Farmiga, Vincent D'Onofrio, Jeremy Strong, Balthazar Getty, David Krumholtz, Grace Zabriskie, Denis O'Hare. Estreia: 04/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Para marcar a estreia de sua produtora em sociedade com a esposa, Susan, o ator Robert Downey Jr. deixou de lado os heróicos personagens que vinham marcando sua carreira nos últimos anos - Sherlock Holmes e Homem de Ferro - para viver um homem comum, rodeado de problemas pessoais e que se vê, inesperadamente, diante de circunstâncias que não apenas o desafiam no lado profissional mas principalmente o obrigam a lidar com fatos familiares de um passado pouco agradável. Primeiro filme dramático do cineasta David Dobkin - que tem no currículo as comédias "Penetras bons de bico" e "Eu queria ter a sua vida" - e um filme de tribunal com todos os ingredientes necessários para conquistar a atenção do público, "O juiz" estreou sem muito alarde nos EUA, mas recobrou o fôlego com a indicação de Robert Duvall ao Oscar de coadjuvante. Mesmo que o veterano ator tenha tido poucas chances de faturar sua segunda estatueta - a primeira veio em 1983 por "A força do carinho" - seu desempenho como Joseph Palmer, o rígido juiz de uma pequena cidade do interior que é acusado de assassinato e passa a ser defendido pelo filho com quem mantém uma relação de estranhamento, é o maior destaque de um filme correto, mas que sofre de uma narrativa simples e esquemática ao extremo.

Downey Jr., bom ator como sempre, vive Hank Palmer, um bem-sucedido advogado de Chicago, nem sempre afeito às regras éticas que deveriam reger sua profissão. No meio de um caso importante, ele recebe a notícia da morte de sua mãe, a quem não vê há anos, e viaja para acompanhar seu funeral. Passando por um complicado caso de divórcio, Hank não tem a menor intenção de ficar com sua família, mas vê seus planos mudarem radicalmente quando seu pai - respeitado e, sem que ninguém saiba, morrendo de câncer - é acusado de matar um homem a quem havia condenado no passado. Mesmo contra a vontade do veterano jurista, com quem tem uma relação complicada que remete à sua juventude rebelde, ele assume sua defesa, o que acaba por forçá-los a uma nova etapa de seu relacionamento.


Equilibrando - nem sempre com muito sucesso - o drama familiar com a trama policial que envolve o julgamento, "O juiz" peca em muitos momentos por desviar o foco da história com tramas paralelas pouco interessantes, como aquela que envolve Hank com uma namorada de adolescência, Samantha (Vera Farmiga). Esses desvios da rota central não apenas tornam o filme mais longo do que o necessário - quase duas horas e meia de projeção - como enfraquecem o que a obra tem de mais forte (ainda que um tanto clichê): o relacionamento entre pai e filho, afastados pelos temperamentos arredios e reunidos pela paixão pela lei e pelo direito. Robert Duvall dá mais um show como o independente e por vezes seco Joseph Palmer, um homem forte que, por forças das circunstâncias acaba dependendo justamente do filho com quem tem mais arestas a aparar, e Downey Jr. comprova o que todo mundo sempre soube: é um ator que sai-se bem tanto em blockbusters descerebrados quanto em dramas que exigem mais do que simplesmente efeitos visuais.

Um filme capaz de agradar a todos os tipos de público, "O juiz" não ofende a inteligência de ninguém e pode até emocionar aos mais sensíveis. Quando foca na relação familiar, apresenta um show de atuações, mas quando parte para o filme de tribunal não apresenta maiores novidades. No fim das contas, não é um grande filme, mas é um digno representante do gênero.

terça-feira

INVOCAÇÃO DO MAL

INVOCAÇÃO DO MAL (The conjuring, 2013, New Line Cinema, 112min) Direção: James Wang. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: John R. Leonetti. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Sophie Neudorfer. Produção executiva: Katherine E. Beyda, Walter Hamada, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Tony DeRosa-Grund, Peter Safran. Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Lili Taylor, Ron Livingston, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King. Estreia: 08/6/13

Um dos gêneros mais massacrados em Hollywood, o filme de terror sofre com constantes altos e baixos: a cada nova ressurreição comercial segue-se um período negro, com produções que não empolgam nem ao menos os mais fiéis espectadores. Por isso não deixou de ser uma grata surpresa o sucesso acachapante de "Invocação do mal", que com um orçamento modesto (cerca de 20 milhões de dólares), chegou às telas sem muito alarde e terminou sua temporada com mais de 130 milhões arrecadados somente no mercado doméstico. Dirigido por James Wan - que já havia exercitado sua tendência ao suspense no apavorante "Sobrenatural" - o filme, baseado em fatos reais, conquistou público e crítica ao optar por um tom sério e clássico que, destoando do humor que frequentemente prejudica o clima em produções menos bem-sucedidas, casou perfeitamente com a tétrica história de fantasmas proposta pelo roteiro enxuto e que manipula com inteligência todos os clichês do gênero.

Fotografado de forma a lembrar as produções de terror dos anos 70, "Invocação do mal" se dá ao luxo de começar contando uma história avulsa - que posteriormente deu origem a outro filme, "Annabelle" - antes de realmente entrar no universo da família Perron, um numeroso clã que descobre, da pior maneira possível, que a espaçosa casa para onde se mudaram é assombrada por diversas gerações de fantasmas que tem origem em uma bruxa condenada pelos tribunais de Salém. Apavorados com as cada vez mais violentas manifestações que ameaçam suas cinco filhas, Roger e Carolyn (Ron Livingston e Lily Taylor) resolvem procurar os dois mais famosos parapsicólogos do país para solicitar ajuda. Envolvidos em diversos casos de possessão demoníaca, Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga) a princípio pensam em recusar o trabalho, mas assim que chegam na propriedade recém-adquirida pela família percebem a força descomunal do mal, que tem objetivos bem claros em relação à Carolyn. Começa, então, uma incansável batalha que trará à tona um traumático evento acontecido com Lorraine durante um exorcismo.


Utilizando todos os elementos clássicos do gênero - portas batendo, assoalhos rangendo, espectros surgindo do nada, luzes que se apagam nos momentos mais assustadores e uma trama repleta de maldições do passado - "Invocação do mal" brinca com maestria com os clichês e os transforma em personagens da narrativa, renovando-os de acordo com os anseios de uma plateia cada vez mais acostumada com descargas de adrenalina. Economizando nos sustos e apostando suas fichas no clima e no suspense menos gráfico - ao menos até seu terço final, quando não consegue fugir do óbvio e apela para as inevitáveis sequências de exorcismo que não acrescentam nada de novo aos espectadores mais experientes - o filme de Wan tem a seu favor, ainda, a dedicação de seu elenco, com atores absolutamente entregues a seus personagens. Um filme de terror tratado como drama psicológico, "Invocação do mal" se beneficia muito da seriedade de sua produção.

Enquanto Patrick Wilson já tem experiência no gênero - ele é o protagonista de "Sobrenatural" - seus colegas de cena embarcam sem reservas na história. Vera Farmiga - indicada ao Oscar de coadjuvante por "Amor sem escalas" e que depois viveria a mãe de Norman Bates na série de tv "Bates Motel" - vive uma Lorraine Warren suave e delicada, que contrasta com a atuação nervosa de Lily Taylor, excelente na pele da atormentada Carolyn Perron, que se vê, de uma hora para outra, sendo a maior ameaça para a sobrevivência da própria família. Dirigido por segurança por James Wan, o elenco rende mais do que o que se pode esperar em uma produção do gênero, o que justifica todo o entusiasmo da plateia e da crítica em relação ao resultado final, acima da média, certamente, mas nunca o filme sensacional que todos festejaram. A sequência já está pronta para estrear. Basta ver se tudo não foi apenas um golpe de sorte: o filme certo na hora certa.

quarta-feira

SOB O DOMÍNIO DO MAL

SOB O DOMÍNIO DO MAL (The Manchurian candidate, 2004, Paramount Pictures, 129min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Daniel Pyne, Dean Georgaris, roteiro de George Axelrod, romance de Richard Condon. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carol Littleton, Laura Rosenthal. Música: Rachel Portman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Scott Aversano. Produção: Jonathan Demme, Ilona Herzberg, Scott Rudin, Tina Sinatra. Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schrieber, Jon Voight, Jeffrey Wright, Ted Levine, Miguel Ferrer, Vera Farmiga, Kimberly Elise, Zeljko Ivanek. Estreia: 22/7/04

A palavra "remake" tem o poder de causar arrepios nos cinéfilos, escaldados com aberrações como o desnecessário "Psicose" que Gus Van Sant cometeu em 1998 e outras atrocidades que volta e meia assombram clássicos absolutos da sétima arte. Nem mesmo nomes consagrados como Jonathan Demme - vencedor do Oscar pelo sublime "O silêncio dos inocentes" - conseguiram sair ilesos pela prova de tentar renovar histórias pré-aprovadas pela audiência, como demonstrou no terrível "O segredo de Charlie", estrelado por Mark Wahlberg e Charlize Theron em 2002, releitura de "Charada". Mas como em Hollywood nada é definitivo, Demme voltou a buscar inspiração no passado quando aceitou comandar a refilmagem de "Sob o domínio do mal", filmaço de 1962 dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Frank Sinatra e Angela Lansbury. Percebendo na trama criada pelo romancista Richard Condon um reflexo ainda bastante atual da paranoia política - em especial pós-11 de setembro - Demme atualizou a história de forma inteligente, escalou um elenco impecável e criou um filme que, se não marcou época como seu original, ao menos tem o mérito de manter o interesse do espectador até o final com um tom opressivo e de suspense que raros cineastas conseguem atingir.

Enquanto no filme original - que Frankenheimer dirigiu no mesmo ano em que também lançou "O anjo violento", com Warren Beatty e "O homem de Alcatraz", com Burt Lancaster - a trama se apoiava no período posterior à Guerra da Coreia, a releitura de Demme tem como ponto de partida a Guerra do Golfo, de onde emerge o Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber, ótimo), que, assumindo o comando de seu pelotão depois de seu superior ter sido posto fora de combate, conseguiu salvar seus colegas soldados. Condecorado como herói de guerra, Shaw inicia uma promissora carreira política, seguindo os passos de seu falecido pai e de sua mãe, a ambiciosa senadora Eleanor Prentiss Shaw (Meryl Streep, estupenda como sempre). Adorado pelo público, ele é nomeado candidato à vice-presidente, substituindo o experiente Thomas Jordan (Jon Voight), pai de uma antiga namorada, com quem rompeu devido a maquinações de sua mãe. Porém, justamente quando começa sua escalada rumo à Casa Branca, Shaw passa a ser assediado por seu antigo superior, Tenente Ben Marco (Denzel Washington), que, torturado por pesadelos constantes, procura saber, através de Shaw ou qualquer outra pessoa ligada a seu período militar, o que realmente aconteceu durante os dias em que sua equipe esteve desaparecida.


Revelando aos poucos o horror da tramoia política que envolve Marco e Shaw - que tem ligações com empresas de tecnologia médica e a sede pelo poder no governo americano - Demme conta com uma edição que equilibra com inteligência momentos de pura claustrofobia e paranoia com cenas que demonstram de maneira quase cínica os meandros da política ianque (e por que não, mundial?). O público descobre junto com Marco - em atuação excepcional de Denzel Washington - toda a enorme teia de violência e interesses financeiros por trás de uma aparente trama de simples ambição. A partir do momento em que um colega de guerra (interpretado por um Jeffrey Wright assustador) chega até Marco e questiona suas lembranças, a audiência é mergulhada em um turbilhão de informações que podem ou não ser reais, em histórias que podem ou não ter acontecido, de pessoas que podem ou não ser dignas de confiança. É aí que o cineasta - que assombrou o mundo com seu Hannibal Lecter - mostra seu diferencial, contando sua história com sutileza visual, onde a iluminação e os enquadramentos dizem mais do que páginas de diálogo. Basta reparar na forma como Shaw e Marco, por exemplo, se comportam diante de forças que não podem controlar: uma pequena mudança de semblante, uma luz diferente e pronto... o suspense está instaurado!

Co-produzido por Tina Sinatra - que detinha os direitos do filme, herdados de Frank - "Sob o domínio do mal" tem também como destaque mais uma atuação irrepreensível de Meryl Streep, nitidamente se divertindo na pele da velha raposa política Eleanor Shaw, que deu a Angela Lansbury uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante de 1962. Elegante e fria, Streep cria uma dupla afinadíssima com Liev Schrieber, um ator subestimado que mostrou-se à altura de substituir Laurence Harvey e entrar em embates com a própria Streep e Denzel Washington, dois monstros sagrados do cinema americano. São os atores excelentes, somados à direção segura de Demme e à história perigosamente realista de Condon que fazem com que a nova versão de "Sob o domínio do mal" seja, mais do que uma refilmagem, um produto que resiste bravamente às comparações.

segunda-feira

O MENINO DO PIJAMA LISTRADO

O MENINO DO PIJAMA LISTRADO (The boy with the stripped pyjamas, 2008, Miramax Films, 94min) Direção: Mark Herman. Roteiro: Mark Herman, romance de John Boyne. Fotografia: Benoit Delhomme. Montagem: Michael Ellis. Música: James Horner. Figurino: Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Gabor Nagy. Produção executiva: Mark Herman, Christine Langan. Produção: David Heyman. Elenco: Asa Butterfield, Zac Matoon O'Brien, Vera Farmiga, David Thewlis, Rupert Friend. Estreia: 28/8/08 (Festival de Carnegie)

Trágicas histórias passadas em campos de concentração não são novidade no cinema, haja visto que é quase um subgênero dentro da indústria. Porém, com raras exceções - o clássico "O diário de Anne Frank" entre elas - poucas vezes esse capítulo chocante da história da humanidade foi retratado sob o ponto de vista das crianças. Essa é, talvez, uma das maiores qualidades de "O menino do pijama listrado", uma sensível e delicada adaptação do romance de John Boyne feita pelo inglês Mark Herman - comandante de algumas das mais festejadas produções inglesas dos anos 90, como "Laura, a voz de uma estrela". Discreto e direto, ele não interfere no desenvolvimento de uma trama que, por si só, já é chocante o bastante.

Recriando com competência a Alemanha da II Guerra Mundial, o filme de Herman é visto pela ótica de Bruno (Asa Butterfield), o filho caçula de um comandante da SS (vivido por David Thewlis) que se vê, contra a vontade de toda a família, transferido para uma propriedade no interior. Solitário e introspectivo, Bruno tenta entender, com toda a ingenuidade de seus oito anos de idade, o mundo à sua volta - logicamente tendo seus questionamentos oprimidos pelo pai e pelo professor que vai até sua casa ensinar-lhe a respeito do orgulho nacionalista pregado por Hitler. Enquanto sua irmã mais velha vai cedendo à ideologia nazista - em parte também por sua paixão por um jovem soldado (Rupert Friend) - ele acaba fazendo amizade com o pequeno Shmuel (Jack Scanlon), um menino judeu prisioneiro do campo de concentração perto de sua propriedade. Sua inocência é tamanha que ele imagina que o campo é apenas uma fazenda, e essa sua falta de conhecimento o leva a uma tragédia.


Narrado com sutileza e sem aprofundar-se na violência - afinal de contas o romance no qual é baseado tinha o público infanto-juvenil como alvo, além dos adultos - "O menino do pijama listrado"conquista exatamente pelo lirismo com que se apresenta diante do espectador, acostumado a filmes com essa temática bem mais contundentes visualmente - como "A lista de Schindler", de Steven Spielberg. A crueldade do nazismo é disfarçada com soluções narrativas inteligentes e com certa poesia, valorizadas pela fotografia simples e sutil de Benoit Delhomme e pela bela trilha sonora de James Horner, que mesmo nos momentos de maior tensão alivia a angústia do público na medida em que a trama se dirige a um final dramático e chocante.

Justamente por não apelar para a violência que tornou-se clichê quando se fala em nazismo e por manter o senso de inocência do romance que lhe deu origem, "O menino do pijama listrado" é uma pérola que merece ser descoberta e louvada. A amizade entre Bruno e Shmuel - que proporciona ao filme suas melhores cenas - são de uma beleza única no gênero e é impossível não sentir-se um tanto tocado quando começarem os créditos finais. Não é isso que fazem os bons filmes?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...