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quarta-feira

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN (Billy Lynn's long halftime walk, 2016, Bona Film Group/Film4/Ink Factory, 113min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Jean-Christophe Castelli, romance de Ben Fountain. Fotografia: John Toll. Montagem: Tim Squyres. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brian Bell, Guo Guangchang, Jeff Robinov, Ben Waisbren. Produção: Stephen Cornwell, Ang Lee, Marc Platt, Rhodri Thomas. Elenco: Joe Alwyn, Garrett Hedlund, Arturo Castro, Mason Lee, Astro, Vin Diesel, Steve Martin, Kirsten Stewart, Chris Tucker, Tim Blake Nelson. Estreia: 14/10/16 (Festival de Nova York)

É incrível, mas mesmo um cineasta de imenso talento, como é o caso de Ang Lee (vencedor de dois Oscar de direção e um de filme estrangeiro) pode cometer grandes equívocos. O primeiro deles foi "Cavalgada com o diabo" (99), sobre a Guerra de Secessão e estrelado por Tobey Maguire. Depois, veio "Hulk" (2003), que apesar das qualidades é mais lembrado como um fracasso do que como um êxito comercial. E então, depois do enorme sucesso e dos prêmios por "As aventuras de Pi" (2012), surge "A longa caminhada de Billy Lynn", que não apenas naufragou nas bilheterias americanas (mal ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares de arrecadação, contra seu orçamento de 40) como também colecionou críticas nada amigáveis da imprensa, normalmente bastante gentil com os filmes do cineasta. Enfatizando seu ritmo lento em excesso, sua falha em transmitir as mensagens que deseja e a fragilidade do roteiro - baseado em romance de Ben Fountain - as resenhas negativas infelizmente tem razão: o filme de Lee é indubitavelmente chato, e na maior parte do tempo falha sensivelmente em transmitir sua principal mensagem contra a guerra no Iraque.

Ao contrário do que fez o inglês Sam Mendes, que também criticava a intervenção americana no Oriente Médio em seu "Soldado anônimo" (2005) - também fracasso de bilheteria, mas elogiado e prestigiado pela crítica - o trabalho de Ang Lee não consegue, em momento algum, conquistar a empatia da plateia para seu protagonista, interpretado pelo britânico Joe Alwyn em sua estreia no cinema. Apesar de demonstrar talento, Alwyn é inexperiente para desviar das constantes armadilhas de um roteiro confuso, sem emoção e que dá a impressão de não caminhar para lugar algum. Diretor sensível e inteligente, Lee consegue extrair bons desempenhos de seus atores mesmo quando a tarefa parece árdua, mas esbarra em uma surpreendente incapacidade de fazer com que sua história seja atraente para o público, o que não deixa de ser decepcionante quando se trata de um homem que transformou um filme de kung-fu em arte pura com "O tigre e o dragão" (2000) e emocionou o mundo com um romance entre cowboys homossexuais em "O segredo de Brokeback Mountain" (2005). Talvez focado em experimentar um formato novo - com um número de frames muito superior ao convencional - o cineasta tenha deixado escapar o que de melhor ele sempre apresentou em sua filmografia: o sentimento acima de qualquer outro elemento narrativo.


Mesmo em filmes como "As aventuras de Pi", filmado em 3D e recheado de efeitos visuais fascinantes, Ang Lee nunca abriu mão de dar extrema atenção à verdadeira alma de seus trabalhos: os personagens. Em "A longa caminhada de Billy Lynn", porém, parece que ele esqueceu de seu mandamento primordial: não apenas o protagonista como todos os coadjuvantes carecem de força e de empatia, impedindo a plateia de conectar-se a suas reações e emoções. Essa falta absoluta de identificação do público com o personagem central é imperdoável, uma vez que o centro da narrativa é justamente a trajetória emocional de Billy, iluminada através de flashbacks que nem sempre funcionam como deveriam e por vezes chegam a atrapalhar a condução da história, mais confundindo do que esclarecendo. O roteiro, por sua vez, insinua o tempo todo que algo grandioso está sendo preparado para seu clímax e quando tem a oportunidade de converter esse restinho de expectativa em algo que justifique as quase duas horas de duração do filme, entrega um desfecho tão decepcionante quanto o resto da produção - se é que alguém da audiência ainda tinha esperanças de um final menos morno.

O pior é que a sinopse do filme de Lee é até instigante: Billy Lynn, o protagonista, é um jovem de 19 anos de idade tornado uma espécie de herói de guerra depois de um ato de coragem cometido durante um confronto no Iraque. Com sua ação filmada e televisionada, ele e seu pelotão (intitulado Brave Squad) conquistam a admiração incondicional do povo norte-americano a ponto de haver interesse até mesmo de Hollywood em transformar sua trajetória em filme. Para capitalizar em cima da popularidade do grupo, o exército dos EUA programa uma espécie de turnê dos soldados, culminando com sua apresentação no show de intervalo de um jogo de futebol transmitido no Dia de Ação de Graças. Nesse meio-tempo, Lynn conhece as diferenças entre o que se fala a respeito do conflito no Oriente Médio e o que realmente acontece nos campos de batalha - enquanto relembra também sua relação com a família. Essa trama, porém, não engrena, deixando o espectador sempre esperando que a ação vá começar a qualquer momento, o que não acontece jamais. "A longa caminhada de Billy Lynn" é um grande passo em falso na carreira de Ang Lee e um dos filmes mais decepcionantes da temporada 2016.

sábado

OS PICARETAS

OS PICARETAS (Bowfinger, 1999, Universal Pictures, 97min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Steve Martin. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Richard Pearson. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jackson DeGovia/K.C. Fox. Produção executiva: Karen Kehela, Bernie Williams. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Eddie Murphy, Heather Graham, Robert Downey Jr., Terence Stamp, Christine Baranski, Jamie Kennedy, Adam Alexi-Malle. Estreia: 13/8/99

Quando o cineasta Frank Oz dirigiu Steve Martin ao lado de Michael Caine em "Os safados" (88) - refilmagem livre de "Dois farristas irresistíveis", com Marlon Brando e David Niven - a comédia norte-americana ganhou um clássico instantâneo, um filme repleto de humor inteligente e irônico que misturava a tradicional fleuma britânica de Caine com a picardia ianque e quase vulgar de Martin. Cineasta ciente dos meandros da comédia - um gênero que frequentemente escorrega no mau-gosto ou simplesmente na falta de graça - Oz voltou a colaborar com Martin em outras ocasiões, como no apenas simpático "Como agarrar um marido", mas foi somente em 1999 que os dois voltaram a acertar a mão juntos. Tendo os bastidores do cinema como pano de fundo e a adição luxuosa de Eddie Murphy ao time vencedor, "Os picaretas" não só fez mais sucesso que os outros filmes de Murphy lançados quase à mesma época - "Até que a fuga nos separe" e "O professor aloprado 2" - como recebeu elogios rasgados da crítica, que encantou-se com a mordacidade carinhosa com que a indústria de Hollywood foi retratada. Recheado de piadas engraçadíssimas, atuações inspiradas e um cinismo irresistível, "Os picaretas" é uma comédia sem contra-indicações.

O próprio Steve Martin escreveu a história de Robert K. Bowfinger, um produtor de filmes B que, decadente e sem perspectivas profissionais imediatas, vê sua grande chance de sair do marasmo quando põe os olhos no roteiro de um amigo, uma ficção científica chamada "Chuva gorda". Entusiasmado com a possibilidade de voltar aos sets de filmagens, ele reúne um grupo de antigos colaboradores - como a dedicada atriz Carol (Christine Baranski) e o leal Dave (Jamie Kennedy) - para levar a novidade adiante, mas percebe que, para conseguir competir como gente grande com produções de orçamentos milionários, precisa necessariamente de um grande astro. Entra em cena, então, Kit Ramsey (Eddie Murphy), um dos mais populares atores do momento: sem que ninguém saiba, Bowfinger resolve filmar o ator em seu dia-a-dia e forçar situações em sua rotina para encaixar no script. Assim, Ramsey - um astro paranoico e mulherengo que acredita estar sendo perseguido por extra-terrestres - entra à sua própria revelia na bagunça, que fica ainda mais complicada com a chegada de um sósia seu, o tímido Jiff (também Murphy), que serve como dublé nas cenas perigosas.


Criando situações cada vez mais insanas e contando com um elenco de personagens hilariantes, Martin fez do roteiro de seu "Os picaretas" uma comédia de muitas risadas, fato raro em uma Hollywood tomada por filmes formulaicos e pouco ousados, que tentam arrancar gargalhadas com piadas sobre fluidos corporais e constrangimentos dos mais variados. Sua trama, reta e simples, busca o humor na identificação com as várias referências (diretas ou não) com o mundo a que retrata - e a graça da piada fica ainda maior quando se sabe de onde ela vem. Daisy, a personagem de Heather Graham, por exemplo, pode ser apenas a ambiciosa moça do interior que sonha em tornar-se atriz e assim vai pulando de cama em cama para conseguir atingir seus objetivos como pode ser uma sátira à Anne Heche, que teve um caso com Martin e ficou famosa no final da década de 90 ao envolver-se com Ellen De Generes. Rindo ainda da moda dos astros em terem um guru espiritual - aqui representado pelo personagem do sempre sinistro Terence Stamp - e do vício em sexo do personagem de Murphy (que encaixou o filme em sua complicada agenda apenas por ser fã de Steve Martin), "Os picaretas" é, ainda, uma homenagem aos que fazem cinema por amor, sendo assim uma espécie de "Ed Wood" - filmaço de Tim Burton sobre o pior diretor de todos os tempos - que não se leva a sério.

Superando de longe a média das comédias lançadas em sua época, "Os picaretas" é uma pérola de humor que consegue ao mesmo tempo ser sofisticado e popular, um equilíbrio raro e louvável conquistado pela experiência de Oz - que recentemente havia marcado outro golaço com o sucesso "Será que ele é?", estrelado por Kevin Kline - e pelo talento de Martin e Eddie Murphy, este último em um de seus melhores trabalhos nas telas. Com um elenco coadjuvante afiadíssimo (com destaque para a sempre incrível Christine Baranski e uma participação especial de Robert Downey Jr. como um executivo da indústria de cinema) e uma história espertíssima que brinca com o cinema e com aqueles que o fazem, não deixa de ser também uma bela homenagem à sétima arte.

segunda-feira

E A VIDA CONTINUA

E A VIDA CONTINUA (And the band played on, 1993, HBO Pictures/Spelling Entertainment, 141min) Direção: Roger Spottiswoode. Roteiro: Arnold Schulman, livro de Randy Shilts. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Lois Freeman-Fox. Música: Carter Burwell. Figurino: Patti Callicott. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Diana Allen Williams. Produção executiva: Aaron Spelling, E. Duke Vincent. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Matthew Modine, Ian McKellen, Glenne Headly, Richard Gere, Anjelica Huston, Alan Alda, Charles Martin Smith, Phil Collins, Nathalie Baye, Richard Jenkins, Saul Rubinek, Donal Logue, Patrick Bauchau, Steve Martin, Swoozie Kurtz, Tchéky Karyo. Estreia: 11/9/93

Em 1989, o filme "Meu querido companheiro", de Norman René, já mostrava, através de um grupo de amigos de Nova York, o estrago que o vírus da AIDS fez junto à comunidade homossexual americana em seus primórdios, quando ainda era conhecido apenas como o "câncer gay". Com enfoque humanista e emocional, o filme deu a Bruce Davison uma indicação ao Oscar de coadjuvante e tornou-se o primeiro filme ianque a tratar abertamente do assunto - não por acaso, era uma produção independente, já que os grandes estúdios de Hollywood evitavam o tema como se fosse uma doença contagiosa (ops...).Foi somente com "Filadélfia", de Jonathan Demme, que os grandes orçamentos e astros bancáveis começaram a demonstrar um interesse que acabou, com o tempo, tornando-se o caminho fácil para o Oscar - que o diga Tom Hanks, Matthew McConaughey e Jared Leto. No mesmo ano em que o filme de Demme foi lançado, porém, outra produção fora dos limites do cinema comercial americano tocou no tema, de forma séria, pontual e quase didática. Baseado em um livro de Randy Shilts que narrava a odisseia dos médicos americanos e franceses em entender e combater uma doença cuja origem e desenvolvimento ainda eram grandes incógnitas, "E a vida continua" estreou no canal a cabo HBO em setembro de 1993 apresentando um elenco de rostos conhecidos e um capricho que, anos depois, se tornaria a marca registrada da emissora.

Com a longa duração de 141 minutos - sendo que os finais são dedicados a uma montagem com imagens de vítimas famosas (ou não) da doença sob a voz de Elton John cantando a bela "The last song" - "E a vida continua" evita o sentimentalismo ao tratar do assunto de forma quase jornalística, centrando seu foco em Don Francis (Matthew Modine, indicado ao Golden Globe por seu desempenho), um jovem médico infectologista que tenta, junto à equipe do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, desvendar o que está causando a morte de dezenas de homossexuais masculinos, que perdem a imunidade repentinamente e morrem devido a doenças oportunistas. Sem o apoio do governo - que parece não se importar com o fato de que uma epidemia está em vias de acontecer - e nem mesmo dos próprios gays (que se recusam a mudar seu estilo de vida por considerarem tal ato um retrocesso a seus direitos civis), o grupo de médicos parte em busca da ajuda de profissionais franceses, como o competente Luc Montagnier (Patrick Buchau) - que entra em confronto direto com outro americano, Robert Gallo (Alan Alda), o primeiro médico a descobrir um retrovírus e que pretende ficar com o mérito de também ter descoberto o vírus da nova doença.


Mostrando passo a passo a evolução tanto da epidemia quanto das conquistas médicas, o filme de Roger Spottiswoode - diretor burocrático mas pouco ousado que já havia tentado arrancar graça de Sylvester Stallone em "Pare, senão mamãe atira!", em 1992 - segue no rumo oposto a "Meu querido companheiro", preferindo dedicar sua atenção na batalha incansável travada pela Medicina do que em suas vítimas e nos efeitos arrasadores da epidemia junto à população homossexual. Enquanto Francis luta por financiamento, por ajuda do governo e pelo apoio do próprio grupo de risco, o filme desenha sem maior ênfase o destino de alguns pacientes, como o comissário de voo promíscuo (Jeffret Nordling) que ajuda os médicos a encontrarem uma trilha de contaminação, o jovem símbolo da doença (Donal Logue) que luta para chamar a atenção da população e o coreógrafo famoso (Richard Gere) que se descobre doente e faz uma generosa doação para as pesquisas. A presença de Gere no elenco, aliás, é um dos pontos de destaque do filme. Um dos mais populares astros da década de 90 - vindo de sucessos como "Justiça cega" e "Uma linda mulher" - Gere entrou no projeto por acreditar em sua importância social e sua atitude resultou em uma corrida desenfreada de atores querendo fazer parte da empreitada, mesmo que em papéis pequenos.

Foi assim que Anjelica Huston, Steve Martin, Ian McKellen e Alan Alda embarcaram em "E a vida continua", um filme de importância política e social inegável e que lançou luz a um tema até então considerado impróprio e desagradável para o grande público - e para a presidência do país, uma vez que foi preciso mais de uma década desde a primeira morte para que Ronald Reagan fizesse sua primeira menção à epidemia. De lá pra cá o cinema e a televisão vem explorando o assunto em produções de qualidades variadas - inclusive a mesma HBO lançou, em 2014, o sensacional "The normal heart", que dramatiza o mesmo período histórico sob um ponto de vista mais dramático e menos técnico - mas isso não lhe tira o mérito do pioneirismo.

quarta-feira

GRAND CANYON, ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO

GRAND CANYON, ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO (Grand Canyon, 1991, 20th Century Fox, 134min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Meg Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: Kevin Kline, Steve Martin, Danny Glover, Mary McDonnell, Mary-Louise Parker, Alfre Woodard, Jeremy Sisto, Tina Lifford, Clifton Collins Jr.. Estreia: 25/12/91

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 2005, quando o filme "Crash, no limite" foi lançado, muita gente elogiou sua coragem em tocar no assunto do racismo efervescente da cidade de Los Angeles ao contar várias histórias paralelas que se tocavam tenuemente. O filme de Paul Haggis, repleto de clichês, preconceituoso e superficial ao extremo, conseguiu enganar até mesmo aos membros da Academia, que o escolheram como o melhor filme do ano sobre o infinitamente superior "O segredo de Brokeback Mountain" - não que enganar os vetustos da Academia seja exatamente difícil, que o digam os produtores de "Dança com lobos" (90) e mais recentemente "O discurso do rei" (10). Mas o que pouca gente sabia é que, quase quinze anos antes, um filme mais corajoso, sutil, inteligente e bem escrito também já havia mexido nessa ferida tão dolorosa das diferenças sociais e raciais que flagelam a América. "Grand Canyon, ansiedade de uma geração", dirigido e co-escrito por Lawrence Kasdan, é um sensível e esperançoso retrato de um grupo de pessoas que, a despeito de suas angústias, tentam transformar o seu mundo - e principalmente o dos outros - em um lugar melhor para se viver.

Ao contrário de "Crash", que tinha uma visão pessimista da sociedade e de seus integrantes, fossem eles quais fossem, a visão de Kasdan é repleta de carinho e calor humano, retratando seus personagens como pessoas e não estereótipos rasos. Embora nenhum deles seja perfeito, existe neles um tom de humanismo comovente, que impede tanto o sentimentalismo quanto a generalização rasteira. E até mesmo a metáfora pertinente e esperta utilizada pelo roteiro - e que dá título ao filme - soa poética e como uma lufada de ar fresco diante de um mundo tão atribulado e povoado de mesquinharias. Segundo a visão otimista de Kasdan, o Grand Canyon mostra a real dimensão dos problemas humanos e da própria natureza insignificante de qualquer um diante da imensidão do universo. E é por essa medida que os personagens de seu filme irão avaliar o que o destino põe diante de seus olhos, seja na forma de uma mão que impedem um deles de ser estraçalhado por um ônibus ou do dono de um guincho que salva o mesmo personagem de ser vítima de uma gangue. Sim, existe gangues no universo criado por Kasdan e sua mulher, Meg, mas elas não estão no roteiro apenas para justificar uma teoria racista, e sim para evitar o maniqueísmo que poderia impor-se em uma trama tão, digamos assim, inspiradora.


Se existe um protagonista em "Grand Canyon" pode-se dizer que é Mack (Kevin Kline, ótimo como sempre), um advogado de imigração bem-sucedido, bem-casado com a analista Claire (Mary McDonnell) e pai de um adolescente ajustado e saudável. Uma noite, voltando de um jogo de basquete, ele resolve pegar um atalho para fugir do congestionamento e acaba vendo seu carro - moderno, bem equipado e caro - pifar no meio da rua deserta de um subúrbio nada afável. Quando está em vias de ser assaltado por um grupo de jovens agressivos, ele é salvo pelo gongo, na pele de Simon (Danny Glover), o dono do guincho que o resgata do perigo. De uma conversa casual entre eles surge a vontade irrefreável em Mack de ajudá-lo, seja arrumando uma moradia mais segura para sua irmã - que cria sozinha dois filhos, sendo o mais velho um projeto de marginal graças ao grupo que frequenta - ou apresentando-lhe uma colega de trabalho, Jane (Alfre Woodard). Enquanto isso, sua esposa, durante o tradicional cooper matinal encontra um bebê abandonado em um grupo de arbustos e resolve adotá-lo - mesmo enfrentando a hesitação do marido, que a questiona a respeito de tal vontade por julgar que não passa de uma tentativa de repor na casa o filho que está em vias de ir para a faculdade. Fechando o círculo, está Davis (Steve Martin), amigo de Mack que, produtor de filmes violentos, vê seu próprio mundo voltando-se contra ele depois que é assaltado e ferido gravemente e Dee (Mary-Louise Parker), secretária de Mack que, depois de uma noite com o patrão, se descobre perdidamente apaixonada.

Esse grupo de personagens, ligados por um roteiro compassado e discreto, que não abusa das emoções e nem enfatiza desnecessariamente as tragédias (maiores ou menores) que os acometem, é o centro de "Grand Canyon". Através deles - e das inspiradas atuações, em especial as de Kline e Mary McDonnell - o filme de Kasdan apresenta ao espectador um panorama de emoções discretas mas profundamente pertinentes à sua época, discutindo sem lugares-comuns temas como a violência urbana, a diferença de classes, a solidão e o vazio existencial. Pode-se dizer que seus personagens principais - Mack, Claire e Davis - pertencem a um nicho restrito de Los Angeles (aqueles que possuem bons empregos, carros e propriedades) e que suas ações soam como paternalistas, mas é inegável que existe neles uma boa vontade e um caráter admiráveis (com a possível exceção de Davis, em uma interpretação contida de Steve Martin), que deixam essa afirmação com um tom bastante cínico. Lawrence Kasdan quis mostrar em seu filme que o calor humano e os laços formados a partir deles são as únicas formas de comunicação em um mundo frio e frequentemente hostil a sentimentos mais nobres. Conseguiu com louvor, apesar do filme estender-se um pouquinho em seu terço final. É um belo filme - seu roteiro foi indicado ao Oscar e perdeu para o genial "Thelma & Louise" - que merecia ter tido mais sorte em seu lançamento.

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA (Parenthood, 1989, Universal Pictures, 124min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Ron Howard, Babaloo Mandel, Lowell Ganz. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: Randy Newman. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Todd Hallowell/Nina Ramsey. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Jason Robards, Mary Steenburgen, Dianne Wiest, Tom Hulce, Rick Moranis, Harley Kozak, Martha Plimpton, Keanu Reeves, Joaquin Phoenix. Estreia: 31/7/89

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Canção Original ("I love to see you smile")

Uma doce e terna homenagem às benesses da paternidade - título-original massacrado pelo absurdamente idiota e sem sentido "O tiro que não saiu pela culatra" - a comédia de Ron Howard que acompanha as aventuras e desventuras de uma família tipicamente americana (mas que poderia tranquilamente ser brasileira, italiana, francesa ou japonesa, com suas diferenças culturais à parte, obviamente) nasceu da conclusão de Howard (juntamente com o produtor Brian Grazer e os roteiristas Babaloo Mandel e Lowell Ganz) de que o fato mais importante que lhes aconteceu na vida foi terem sido pais. Relembrando situações embaraçosas, tristes ou engraçadas pelas quais passaram, eles conceberam a história de um clã tão disfuncional quanto caloroso, repleto de problemas mas igualmente cercado de carinho e compreensão, os Buckman. Representados por um elenco excepcional que tem em mãos um roteiro recheado de diálogos deliciosos e poeticamente realista, os Buckman são um retrato bastante fiel da plateia, que deixou nas bilheterias americanas cerca de 100 milhões de dólares e colocou Ron Howard no mapa dos diretores altamente comerciais de Hollywood - status que havia conquistado com "Splash, uma sereia em minha vida" (84) e perdido momentaneamente com o relativo fracasso de "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que naufragou nas bilheterias.

Contado em forma de anedotas cotidianas interligadas por uma história tênue e de uma simplicidade extremamente eficiente, "O tiro que não saiu pela culatra" concentra-se principalmente em Gil Buckman (Steve Martin, explorando todo o seu timing cômico em papel recusado por Dan Ayckroyd, Michael Keaton, Jeff Golblum e Tom Hanks), o segundo filho do patriarca Frank (Jason Robards), um homem que passou a vida dedicado ao trabalho e deixou a família de lado. Gil é casado com a doce Karen (Mary Steenburgen), luta para ser reconhecido profissionalmente e lida diariamente com seus três filhos - sendo que o mais velho, Kevin (Jasen Fisher), para surpresa dos pais, é considerado um garoto-problema na escola e precisa frequentar uma psicóloga. Sua irmã mais velha, Helen (Dianne Wiest), é separada de um ex-marido ausente e luta para ter uma relação afável com os filhos adolescentes, a rebelde Julie (Martha Plimpton) - que namora o desnorteado Todd (Keanu Reeves) - e o misterioso Garry (Joaquin Phoneix, ainda com seu nome real, Leaf, posto por seus pais hippies). A terceira irmã, Susan (Harley Kozak), é casada com o neurótico Nathan (o ótimo Rick Moranis), que quer transformar a filhinha de seis anos em um Einstein de saias e o irmão caçula, Larry (Tom Hulce) - de certa forma o preferido de Frank - pega toda a família de surpresa quando retorna de uma viagem acompanhado de um adendo inesperado: um filho pequeno que teve com uma dançarina de Las Vegas.


Com essa galeria de tipos idiossincráticos mas bastante próximos da realidade do espectador - tanto em termos emocionais quanto familiares -  Ron Howard cria uma pequena pérola do cinema mainstream, equilibrando com sensibilidade momentos de humor (como a hilariante cena em que Gil descobre, sem querer, o que consola sua irmã Helen em suas noites solitárias) com sequências banhadas em uma delicadeza quase europeia (sempre que Gil tem a chance de questionar as escolhas de sua vida e dá de cara com a estrutura familiar que construiu com Karen e os filhos). A trilha sonora de Randy Newman pontua com precisão as escolhas sutis de Howard, comentando a ação de forma discreta - sua canção-tema, "I love to see you smile", chegou a ser indicada ao Oscar da categoria. E o elenco é um show à parte, equilibrando atores já consagrados com os nomes mais quentes do humor cinematográfico americano da época - não deixa de ser injusto que apenas Dianne Wiest tenha sido lembrada pela Academia por seu desempenho como a solitária Helen (um papel no qual ela é especialista, haja visto pelo menos dois trabalhos sob o comando de Woody Allen, "A era do rádio" (87) e "Hannah e suas irmãs" (86), que lhe rendeu uma estatueta.

Se Steve Martin de certa forma comanda o espetáculo com seu Gil Buckman, ele encontra ao seu lado um grupo de atores em plena forma. Jason Robards transmite com exatidão as dúvidas de seu Frank, que descobre na velhice o quanto perdeu da juventude dos filhos e tenta remendar os erros passando a mão na cabeça do caçula irresponsável. Mary Steenburgen vive com placidez uma personagem sempre no meio do redemoinho mas sempre com a cabeça pronta para diminuir as tempestades. Dianne Wiest brilha como Helen, especialmente em seus duelos com a filha Julie (a ótima e eterna "goonie" Martha Plimpton). E Rick Moranis - popularíssimo nos EUA nos anos 80 e depois praticamente esquecido pelo público e pela indústria - quase rouba a cena como o alucinado pai com grandes expectativas intelectuais em relação ao rebento. Juntos, essa família de ótimos atores transforma o texto quase simples de "O tiro que não saiu pela culatra" (que alguns críticos consideraram pasteurizado e digno de sitcoms e não de um filme de um grande estúdio) em um trunfo do cinema familiar. É simples, é quase ingênuo e é também, reconheçamos, quase esquecível. Mas é, ao mesmo tempo, uma delícia como um grande pedaço de bolo de chocolate.

sábado

ROXANNE

ROXANNE (Roxanne, 1987, Columbia Pictures, 107min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: Steve Martin, peça teatral "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand. Fotografia: Ian Baker. Montagem: John Scott. Música: Bruce Smeaton. Direção de arte/cenários: Jack DeGovia/Kimberly Richardson. Produção executiva: Steve Martin. Produção: Daniel Melnick, Michael Rachmil. Elenco: Steve Martin, Daryl Hannah, Rick Rossovich, Shelley Duvall, John Kapelos, Damon Wayans. Estreia: 19/6/87

A peça "Cyrano de Bergerac", escrita pelo dramaturgo francês Edmond Rostand foi encenada pela primeira vez em 1897, e desde que o cinema a descobriu, em 1946, em uma produção francesa estrelada por Claude Dauphin, a história de amor entre o poético texto teatral e as inúmeras possibilidades das telas nunca mais se separaram: em 1950, José Ferrer levou o Oscar e o Golden Globe por sua interpretação e em 1990, Gérard Depardieu foi indicado à estatueta dourada, entre outras versões que incluem até mesmo uma produção japonesa com Toshiro Mifune. Em 1987, a trama repleta de mal-entendidos, amores frustrados e derramado romantismo chegou à Hollywood modificada pelo humor particular de Steve Martin. "Roxanne", escrito e estrelado pelo ator, é uma adaptação modernizada e simpática que respeita sua versão original - apesar de acertadamente limar a narrativa em formato de versos - sem nunca tornar-se teatro filmado. Contando com o timing perfeito de Martin e uma Daryl Hannah no auge da beleza, o filme ressente-se apenas de uma direção pesada demais para o gênero: o australiano Fred Schepisi sai-se muito bem em filmes dramáticos, como "Plenty, o mundo de uma mulher" (85) e o posterior "Um grito no escuro" (89) - ambos estrelados por Meryl Streep - mas carrega demais a mão no que poderia ser um de seus maiores cartões de visita comerciais.

Não que "Roxanne" tenha sido um fracasso, muito pelo contrário. Com uma renda de cerca de 40 milhões de dólares somente nos EUA, o filme foi responsável por, pela primeira vez em sua carreira, dar a Steve Martin o status de ator, substituindo sua definição anterior de comediante. Nada mais merecido, uma vez que é ele, do alto de sua versatilidade, que imprime a cada cena uma personalidade que dá a energia que move o filme, compensando a quase apatia de Rick Rossovich no papel do galã Chris. Martin brilha especialmente quando precisa utilizar-se de seu carisma em cenas como aquela em que, dentro de um bar lotado, faz piadas com seu próprio defeito físico. Esse senso de humor, aliado a um romantismo quase ingênuo, é que faz com que a plateia se deixe seduzir alegremente por uma história já tão conhecida - ainda que seu final tenha sido radicalmente modificado para deixar todo mundo feliz.


A versão light da obra de Rostand se passa em uma pequena cidade do interior de Washington, um lugar calmo e tranquilo que só dá trabalho ao corpo de bombeiros quando algum gato sobe em uma árvore e coisas do tipo. Isso não impede que o chefe do grupo, o simpático C. D. Bales (Steve Martin) seja admirado por toda a cidade, graças à sua inteligência e seu carisma. Seu único problema é o nariz gigantesco, que serve de alvo de constantes piadas e o impede de passar despercebido por qualquer lugar. Um dia, Bales cai de amores por Roxanne (Daryl Hannah), jovem astrônoma que chega ao local para passar o verão e estudar um astro recém descoberto. Bales, porém, sai da jogada assim que percebe que a bela forasteira está interessada em Chris (Rick Rossovich), novo integrante do grupo de bombeiros que, apesar de bonitão, não tem nenhum traquejo social e é burro como uma porta. Sua situação fica complicada quando Chris pede ajuda a ele para conquistar Roxanne e, através de cartas - onde declara toda sua paixão por ela - ele acaba unindo o casal. Como a mentira tem perna curta, porém, as coisas vão acabar indo por um caminho bem menos tranquilo.

"Roxanne" é um passatempo agradável e simpático como seu protagonista. Equilibra cenas bastante engraçadas - em especial as que envolvem os atrapalhados bombeiros liderados por Bales - com sequências de um romantismo delicado e repleto de senso de humor. Steve Martin foi indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical, além de ter empatado com Jack Nicholson como o melhor ator do ano pela Associação de Críticos de Nova York e ter sido eleito o vencedor pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema. Apesar de ter sido esnobado pelo Oscar - como normalmente acontece com atores cômicos - ele apresentou um dos mais consistentes trabalhos de atuação de 1987, e se o filme merece ser visto é, em boa parte, devido a seu enorme talento em transformar comédia em arte. Mesmo que seja por pouco mais de hora e meia de projeção.

domingo

CLIENTE MORTO NÃO PAGA

CLIENTE MORTO NÃO PAGA (Dead men don't wear plaid, 1982, Universal Pictures, 88min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Carl Reiner, George Gipe, Steve Martin. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Bud Molin. Música: Miklós Rózsa. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: John DeCuir/Richard Goddard. Produção: William E. McEuen, David V. Picker. Elenco: Steve Martin, Rachel Ward, Carl Reiner. Estreia: 21/5/82

Rigby Reardon, um detetive particular dos anos 40, com um passado traumático e uma queda por belas mulheres, recebe a visita de Juliet Forrest, a herdeira de um cientista morto em um acidente de carro que o contrata para investigar o caso, que ela acredita tratar-se de um homicídio. De posse apenas de um pedaço de papel que o leva a duas listas misteriosamente intituladas "Amigos de Carlotta" e "Inimigos de Carlotta", ele parte em busca da resolução, contando para isso com a ajuda de seu amigo Phillip Marlowe e cruzando o caminho de antigas paixões e novas tentações e perigos. Não, não se trata de um filme noir dirigido por Michael Curtiz ou Billy Wilder ou estrelado por Humphrey Bogart e Joan Crawford. Quer dizer, mais ou menos: "Cliente morto não paga" é uma brincadeira em preto-e-branco dirigida por Carl Reiner e Steve Martin que satiriza, em tom de homenagem, um dos mais queridos gêneros da velha Hollywood, utilizando-se, para isso, de imagens de arquivo de verdadeiras lendas do cinema. Fracasso de bilheteria, o filme, entretanto, é uma delícia para cinéfilos de plantão.

Cenas de nada menos que dezenove filmes aparecem em "Cliente morto não paga", com distintos graus de importância para o desenvolvimento da trama, que, é bom dizer, não passa de um bom McGuffin (termo criado por Hitchcock para definir uma história que no fundo é apenas pano de fundo para a estrutura narrativa). O que importa no roteiro - co-escrito por Martin, Reiner e George Gipe - não é a trama, e sim como ela se encaixará com a constelação de astros que desfila pela tela em pouco menos de hora e meia. De uma forma ou outra, Rigby (em inspirada atuação de Steve Martin) contracena com Alan Ladd, Humphrey Bogart (em seu papel de Phillip Marlowe), Bette Davis, Ray Milland, Joan Crawford, Ava Gardner, Charles Laughton, Vincent Price, Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Ingrid Bergman, Veronica Lake e Burt Lancaster em cenas de alguns de seus filmes mais famosos. Brilhantemente editado, o filme mostra Martin travestido de loura para uma impagável recriação da cena do supermercado entre Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em "Pacto de sangue", remonta um diálogo com Ray Milland em "Farrapo humano", toma um drink batizado com Ingrid Bergman em "Interlúdio" e divide um vagão de trem com Cary Grant em "Suspeita".


Último trabalho da figurinista Edith Head - uma lenda dos bastidores de Hollywood, vencedora de oito Oscar - "Cliente morto não paga" é inteligente também no uso que faz dos clichês do gênero que acarinha, jamais debochando de seus exageros, mas iluminando-os sob a luz da nostalgia. Criminosos nazistas convivem com femmes fatales, detetives tem insights geniais apenas com seu talento dedutivo, ambientes enfumaçados servem de ponto de encontro entre personagens de moralidade dúbia e situações de perigo aparentemente insolúveis milagrosamente se resolvem com auxílios inesperados. Quem conhece os meandros das tramas policiais que Hollywood filmou nos anos 30 e 40 certamente irá se deliciar mais com as referências diversas, mas não falta ao público neófito muito com o que se divertir, seja com o dom histriônico de Steve Martin ou com a beleza de Rachel Ward, saindo-se muito bem na pele da misteriosa Juliet Forrest, depois de ter arrasado o coração de Jeff Bridges em "Paixões proibidas".

Uma comédia que aposta mais nos sorrisos de reconhecimento e um show de técnica que presta um tributo admirável aos tempos dourados de uma Hollywood que se mantém viva no coração dos cinéfilos - como o próprio diretor Carl Reiner, pai do também cineasta Rob - "Cliente morto não paga" é o tipo de filme que acaricia a própria indústria e a paixão por fazer cinema. Para os fãs da sétima arte é um deleite em forma de celulóide.

quarta-feira

SIMPLESMENTE COMPLICADO


SIMPLESMENTE COMPLICADO (It's complicated, 2009, Universal Pictures, 120min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, David Moritz. Música: Hans Zimmer, Heitor Pereira. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth Rubino. Produção executiva: Suzanne Farwell, Ilona Herzberg. Produção: Nancy Meyers, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Alec Baldwin, Steve Martin, John Krasinski, Rita Wilson, Mary Kay Place, Zoe Kazan. Estreia: 10/12/09

É impressionante como Alec Baldwin conseguiu transformar o que parecia uma carreira acabada em uma bem-sucedida sucessão de prêmios, indicações e elogios da crítica e do público. Desde que foi indicado ao Oscar de coadjuvante por "The cooler", em 2004, o ex-marido de Kim Basinger colecionou Golden Globes e troféus afins graças a sua atuação na ótima série "30 Rock". Uma prova de sua boa fase? Ele rouba descaradamente a cena de Steve Martin em "Simplesmente complicado", de Nancy Meyers, e só não pega o filme e bota no bolso porque quem está a seu lado é Meryl Streep e ainda está pra estrear no cinema alguém que seja capaz disso.

Em "Simplesmente complicado", Baldwin e Streep vivem um ex-casal, divorciado há dez anos e pais de três jovens. Enquanto ele, Jake, seguiu sua vida, casando-se novamente, com uma mulher muitos anos mais nova e mãe de um pirralho insuportável de cinco anos, ela, Jane, tentou recomeçar como pode. Abriu uma confeitaria, tem boas amigas e finalmente está prestes a iniciar uma esperada reforma em sua casa, apesar de ter uma vida romântica e sexual nula. As coisas começam a mudar quando o arquiteto de sua reforma, o também divorciado Adam (Steve Martin) passa a dar sinais de que está interessado nela justamente quando seu ex-marido descobre, do nada, que ainda a ama. Sem saber exatamente o que fazer, Jane, que nutre por Jake sentimentos dúbios de amor e rancor, se entrega a um relacionamento ilícito e secreto com o pai de seus filhos.


Parece sério, e no fundo é. O roteiro de Nancy Meyers toca em assuntos sensíveis - divórcios doloridos, solidão, medo da velhice - mas o faz de maneira tão divertida que é difícil não abrir o coração e dar boas risadas. Assim como o fez divinamente em "Alguém tem que ceder", a diretora conta uma história de amor entre pessoas que fogem dos padrões de juventude e beleza impecável. As cenas de amor entre Meryl Streep e Alec Baldwin não são envoltas em fumaça, filtros de luz e lençóis esvoaçantes e sim, são instrumentos que ela utiliza para contar sua história e provocar gargalhadas saudáveis e legítimas - e não são apenas gargalhadas femininas, como normalmente acontece em filmes assim, "de mulherzinha". A química entre os protagonistas é impecável, o que relega Steve Martin a um surpreendente segundo plano - se bem que, sumido como estava, até foi uma boa oportunidade para ele voltar à ativa.

"Simplesmente complicado" rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas, o que comprova que ainda existe gente que gosta de filmes que que falam a pessoas normais acima de 18 anos (pelo menos mentalmente acima de 18 anos). Seu sucesso é, também e acima de tudo, merecido. É uma comédia romântica, sim, e não se deve exigir dela muito mais do que ela pode oferecer, mas é inteligente, realmente engraçada - com alguns diálogos especialmente hilários - e interpretada por quem entende de verdade do negócio (o genro de Streep no filme é vivido por John Krasinski, da hilariante série "The office"). Comédia é coisa séria! E que bom que Meryl Streep consegue brindar seu fiel público cada vez mais com papéis luminosos ao lado de petardos como "Dúvida".

domingo

OS SAFADOS


OS SAFADOS (Dirty rotten scoundrels, 1988, Orion Pictures, 110min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Dale Launer, Stanley Shapiro, Paul Henning. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stephen A. Rotter, William Scharf. Música: Miles Goodman. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Rosalind Shingleton. Casting: Donna Isaacson, John Lyons. Produção executiva: Charles Hirschlorn, Dale Launer. Produção: Bernard Williams. Elenco: Steve Martin, Michael Caine, Glenne Headley, Anton Rodgers, Barbara Harris, Dana Ivey. Estreia: 14/12/88

Uma coisa é certa: para que uma comédia funcione de verdade (o que significa permanecer engraçada mesmo depois de um primeiro contato) é necessário que seu roteiro seja realmente interessante ou que a química entre seus atores esteja além do estritamente corriqueiro. Quando esses dois fatores acontecem simultaneamente, não tem erro: diversão garantida para a plateia. E é exatamente isso que acontece com "Os safados". Dirigida por Frank Oz, essa refilmagem de "Dois farristas irresistíveis", estrelado em 1964 por Marlon Brando e David Niven consegue o feito de ser tão hilariante hoje quanto à época de seu lançamento. Tudo responsabilidade do roteiro impecável e de sua dupla de protagonistas. Juntos pela primeira e até agora única vez, Michael Caine e Steve Martin encantam a audiência da primeira à última cena.

A trama de "Os safados" se passa em um Beaumont Sur Mer, uma paradisíaca cidade litorânea da Riviera francesa. É lá que o inglês Lawrence Jamieson (Michael Caine, se divertindo claramente em cena) vive confortavelmente, às custas dos inúmeros golpes que aplica em milionárias carentes. Seu reinado e sua paz passam a ser ameaçados quando entra em cena Freddy Benson (Steve Martin), um escroque americano nem um pouco sofisticado que chega à cidade para buscar novas vítimas para suas armações. A princípio inimigos declarados, logo eles mudam de status: Benson pede a Jamieson que o ensine a ser mais sofisticado, sutil e elegante. Quando chega à cidade a "Rainha do Sabonete", Janet Colgate (Glenne Headly), eles tem a ideia perfeita para resolver sua rivalidade: uma aposta. Quem conseguir arrancar 50 mil dólares da milionária obriga o outro a ir embora para sempre.

A partir daí, o filme transforma-se em um show de seus protagonistas. Enquanto Michael Caine usa e abusa da fleuma britânica, Steve Martin mostra porque era o ator cômico mais festejado dos anos 80. O choque entre a elegância de Jamieson e a gaiatice de Benson, no entanto, é apenas uma das várias razões que fazem de "Os safados" uma das melhores comédias da década. A essa união entre dois tipos de humor une-se um roteiro inteligente, uma paisagem charmosa e cenas que buscam a graça mais nas situações do que em escatologia ou piadas regadas a sexo ou fluidos corpóreos. Politicamente incorreto, o roteiro brinca com doenças mentais, desigualdades sociais e invalidez física com a mesma desenvoltura com que cativa sua audiência fazendo-a se apaixonar por dois protagonistas totalmente sem caráter.

E talvez seja justamente a absoluta falta de caráter das personagens centrais que faz com que "Os safados" brilhe mais do que seus congêneres (tanto comédias quanto "filmes de golpistas"). A plateia se mantém concentrada em cada minuto da projeção, esperando os novos golpes que fazem com que Jamieson e Benson nunca sejam completamente vítimas ou totalmente vencedores. As incríveis - e surpreendentes - reviravoltas são a cereja de um bolo saboroso, capaz de botar um sorriso no rosto até mesmo dos mais exigentes espectadores.

Planejado para promover o encontro cinematográfico entre Mick Jagger e David Bowie, "Os safados" acabou se beneficiando muito da escalação de seus dois atores centrais. Dificilmente ele seria tão bom e tão memorável com qualquer outro elenco.

sexta-feira

UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM


UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM (All of me, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson, adaptação de Henry Olek, romance de Edwin Davis. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Bud Molin. Música: Patrick Williams. Direção de arte: Edward G. Carfagno. Produção: Stephen J. Friedman. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith. Estreia: 21/9/84

No início dos anos 80, um dos comediantes mais bem-sucedidos era Steve Martin. Oriundo do popular programa de TV "Saturday night live", ele esteve em uma sucessão de comédias que agradaram o público e/ou a crítica, como "O panaca" e "Cliente morto não paga", ambos dirigidos pelo veterano Carl Reiner. No entanto, nenhum de seus filmes anteriores com o cineasta conseguiu atingir o mesmo grau de êxito de "Um espírito baixou em mim", um imenso sucesso de bilheteria que ainda proporciou a ele os prêmio de melhor ator pela associação de críticos de Nova York e pela National Society of Film Critics, o que, levando-se em consideração a resistência da crítica em homenagear comédias em suas escolhas, apenas reitera o respeito com que ele era tratado na época.

"Um espírito baixou em mim" é uma comédia ligeira, sem pretensões outras a não ser fazer o espectador rir sem precisar exigir muito do cérebro - apesar de nunca subestimar a inteligência de seu público. A elegância com que Reiner conduz sua trama, sempre a um passo do nonsense, é uma prova de que fazer rir não necessariamente precisa de piadas sobre fluidos corporais. "Um espírito baixou em mim" mostra que um bom roteiro e um par de atores inspirados podem fazer milagres.

Steve Martin vive Roger Cobb, um advogado pouco feliz com sua profissão. Às vésperas de atuar em um caso que pode fazer sua carreira deslanchar - mesmo que atrapalhe seu noivado com a fútil Peggy (Madolyn Smith) - ele se vê obrigado a comparecer à mansão de Edwina Cutwater (Lily Tomlin), uma milionária arrogante e irascível que, às portas da morte, tem um plano infalível para transmigrar sua alma para o corpo de Terry (Victoria Tennant), filha de um empregado. Nutrindo uma antipatia à primeira vista pela moribunda, Cobb - cujo maior sonho é abandonar o direito e dedicar-se ao jazz - passa a viver os piores dias de sua vida quando, por um incidente na hora do procedimento de transmigração, recebe sua alma e passa a dividir seu corpo com ela. Até mesmo em meio a um julgamento, ele é metade Roger Cobb, metade Edwina Cutwater.

Só mesmo alguém muito mau-humorado é capaz de resistir ao humor de "Um espírito baixou em mim". O trabalho fabuloso de Steve Martin - dono de um raro timing para a comédia física - encontra sua cara-metade em Lily Tomlin, uma atriz especializada em um humor sarcástico e mordaz. A química perfeita entre os dois já é motivo suficiente para conferir o filme, que peca apenas por estender demais seu ato final ao invés de aproveitar o espetáculo-solo de Martin e a nítida adequação de Tomlin a seu papel de mulher ressentida e amargurada.

"Um espírito baixou em mim" não mudou a história do cinema - e nem tinha essa intenção. Mas é uma diversão honesta, inofensiva e extremamente engraçada, que apresenta o melhor trabalho da carreira de Steve Martin, um dos atores mais genuinamente engraçados dos anos 80.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...