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quarta-feira

O MISTÉRIO DE AGATHA


O MISTÉRIO DE AGATHA (Agatha, 1979, Sweetwall/First Artists/Warner Bros, 105min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Kathleen Tynan, Arthur Hopcraft, estória de Kathleen Tynan. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Jim Clark. Música: Johnny Mandel. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Shirley Russell. Produção: Jarvis Astaire, Gavrik Losey. Elenco: Vanessa Redgrave, Dustin Hoffman, Timothy Dalton, Helen Morse, Celia Gregory, Paul Brooke. Estreia: 09/02/79

Em dezembro de 1926, no auge do sucesso de seu primeiro romance policial, "O assassinato de Roger Ackroyd", a escritora inglesa Agatha Christie simplesmente desapareceu por onze dias, dando origem a uma busca cujas respostas, mesmo depois de seu reaparecimento e décadas depois de sua morte, ainda permanecem incógnitas. Fascinada com o incidente, a britânica Kathleen Tynan surgiu com a ideia de um documentário que traria a história às novas gerações - mas viu suas pretensões sucumbirem diante da falta de financiamento. Ainda obcecada, deu asas à imaginação e criou uma obra fictícia, na qual Christie assumia o papel de protagonista em um mistério romântico. O roteiro caiu nas mão David Puttnam, um dos produtores mais poderosos de Hollywood no final dos anos 1970 e não demorou para que outros nomes de prestígio estivessem envolvidos no projeto. O que poderia ser um sonho para Tynan - seu roteiro levado às telas por gente graúda e com visibilidade grande o bastante para chamar a atenção do público de uma forma que um documentário dificilmente conseguiria - logo tornou-se uma tormenta. E o responsável por problemas que complicaram a produção era justamente aquele cuja presença no elenco pareceu, a princípio, uma bênção: Dustin Hoffman.

No final da década de 1970, Hoffman já era um ator consagrado. Em seu currículo apresentava sucessos de público e crítica - além de três indicações ao Oscar de melhor ator. Sua entrada no projeto, então, apontava um caminho de êxito para a produção. O problema era que o papel de Hoffman na trama era praticamente inexistente - e não fazia sentido, na visão dos produtores, contratar uma estrela de seu porte para aparecer na tela por poucos minutos. A solução, então, pareceu óbvia: aumentar sua participação na história e alterar substancialmente o script de Kathleen Tynan. Para isso, Hoffman, a essa altura promovido a produtor, chamou seu amigo Murray Schisgal - que acabou não sendo creditado como roteirista - e passou a expandir consideravelmente sua importância na trama. Tantas modificações acabaram por incomodar Puttnam, que saiu do projeto jurando nunca mais trabalhar com o ator, e levando a produção ao perigoso caminho dos atrasos, estouros de orçamento e processos legais - sim, o espólio de Agatha Christie não ficou nem um pouco feliz com a ideia de relembrar o caso e ameaçou paralisar as filmagens, até que, protegido pela classificação de "obra de ficção", o filme pode finalmente seguir seu curso até sua estreia (adiada em alguns meses), em fevereiro de 1979.

 

Não se sabe exatamente como era o roteiro original de Kathleen Tynan, mas é perceptível que a interferência de Dustin Hoffman levou a trama a um caminho romântico que provavelmente não constava na sinopse - ou ao menos com tanta importância. O filme, dirigido por Michael Apted, não demora a voltar sua atenção não apenas às dúvidas existenciais de Agatha (Vanessa Redgrave, bem mas um tanto deslocada) mas a uma improvável história de amor entre ela e o jornalista Wally Stanton (Hoffman), que descobre seu paradeiro em um spa. Fugindo de um divórcio do marido, o Coronel Archibald Christie (Timothyy Dalton), a escritora se mantém sob pseudônimo na afastada propriedade, mas acaba se deixando seduzir pelo repórter, que finge não tê-la reconhecido para cavar uma história exclusiva. Uma trama inverossímil e pouco criativa que esbarra, também, na falta de química entre Redgrave e Hoffman - dois grandes intérpretes em momento pouco inspirado de suas carreiras - e no ritmo claudicante, que faz seus 105 minutos parecerem três longas horas.

No final das contas, entre mortos e feridos salvaram-se todos. Dustin Hoffman - que ameaçou abandonar as filmagens em determinado ponto, sendo acalmado por Apted - estava realmente em um período difícil na carreira, até então em franca ascensão. Praticamente decidido a abandonar o cinema e dedicar-se apenas ao teatro, mudou de ideia depois de um encontro, ainda durante as filmagens em Londres, com o produtor Stanley R. Jaffe e o diretor Robert Benton, que lhe ofereceram o papel principal de "Kramer vs Kramer" - que lhe renderia seu primeiro Oscar. Vanessa Redgrave, em seu primeiro desempenho pós-Oscar de atriz coadjuvante por "Julia" (1977), foi eclipsada por uma trama sem força o bastante para exigir dela todo o seu potencial, mas logo em seguida apagou a má impressão com seu trabalho irretocável no televisivo "Amara sinfonia de Auschwitz" (1980). E Michael Apted, em pouco tempo se tornou figurinha fácil nas cerimônias da Academia, com filmes de sucesso como "O destino mudou sua vida" (1980) e "Nas montanhas dos gorilas" (1988). Menos marcante do que poderia ter sido - levando-se em conta sua equipe de grandes talentos -, "O mistério de Agatha" pode até ser uma curiosidade para os fãs da escritora, mas fica devendo muito em termos de cinema.

sexta-feira

PAPILLON (1973)


PAPILLON (Papillon, 1973, Allied Artists/Columbia Pictures, 151min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Dalton Trumbo, Lorenzo Semple Jr., livro de Henri Charrière. Fotografia: Fred Koenekamp. Montagem: Robert Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Masters. Produção executiva: Ted Richmond. Produção: Franklin J. Schaffner. Elenco: Steve McQueen, Dustin Hoffman, Victor Jory, Don Gordon, Anthony Zerbe. Estreia: 16/12/73

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Era a receita para um grande sucesso. Um best-seller internacional de não-ficção. Um cineasta recém saído da consagração de uma chuva de Oscar. Um dos maiores e mais populares astros de Hollywood. E um ator em ascensão. Tudo estava a favor de "Papillon", adaptação do livro escrito por Henri Charrière que contava (com fartas licenças poéticas) seu período na famigerada Ilha do Diabo - uma das prisões mais seguras do mundo, localizada na Guiana Francesa. Depois de passar pelas mãos de Richard Brooks (que sonhava em ter Alain Delon e Jean-Paul Belmondo nos papéis centrais) e Roman Polanski (cujo projeto ruiu quando Warren Beatty recusou fazer parte do elenco), a produção finalmente chegou a Franklin J. Schaffner, que, do alto de seus Oscar de melhor filme e diretor por "Patton: rebelde ou herói?" (1970), pareceu a escolha mais acertada para transformar em imagens um roteiro que explorava tanto a relação de confiança e amizade os entre protagonistas quanto momentos da mais pura adrenalina. O resultado foi mais que positivo: elogios entusiasmados da crítica e sucesso de bilheteria. Porém, nem tudo foram flores durante as filmagens - e a esperança de colecionar mais algumas estatuetas morreu por motivos bem pouco relacionados à qualidade final da produção.

Os problemas começaram quando os produtores descobriram que, apesar da contratação de Dustin Hoffman pelo salário de 1,25 milhão de dólares, seu personagem no livro de Charrière era muito menor do que eles esperavam (uma questão que poderia ter sido evitada com uma leitura prévia do material original). A solução foi fazer com que o roteiro, escrito pelo premiado Dalton Trumbo e Loreno Semple Jr., expandisse sua importância no filme para acomodar o novo status de estrela do ator. E então, não bastassem os episódios de furtos nos sets construído na Jamaica (prejuízos que custaram cerca de trinta mil dólares à produção), uma crise de egos instalou-se nos bastidores quando chegou aos ouvidos de Hoffman (já então um ator considerado "difícil") a informação de que, apesar do mesmo destaque nos créditos que seu colega de cena Steve McQueen, seu salário era consideravelmente menor (a McQueen, já estabelecido como um dos grandes nomes de Hollywood, foram pagos 2 milhões de dólares). Tal revelação não ajudou em nada a relação entre os dois atores, que, a partir daí, tornou-se unicamente profissional, sem direito sequer a qualquer tipo de confraternização fora das câmeras. Nem mesmo a presença de Henri Charrière em pessoa nas filmagens ajudou a melhorar o clima, prejudicado pelo fato de que Schaffner e Trumbo ainda não estavam com o roteiro completo no início dos trabalhos: em encontros diários, os dois trabalhavam no que seria feito durante o dia de trabalho - o que resultou no fato de "Papillon" ter sido filmado quase todo em ordem cronológica, uma ajuda e tanto para o desempenho de seus atores.

 

E se Hoffman brilhou como o estelionatário Louis Dega, responsável por financiar as tentativas de fuga de seu companheiro Papillon, foi Steve McQueen quem recebeu os maiores elogios da crítica - principalmente por sua entrega ao papel a ponto de dispensar dublês em sequências perigosas. Porém, sua atuação, louvada unanimemente, não foi o suficiente para lhe garantir uma esperada indicação ao Oscar: apesar de concorrer ao Golden Globe de melhor ator dramático, McQueen se viu esnobado pela Academia e não demorou para que fofocas a respeito de sua vida pessoal servissem como explicação para a situação. Mulherengo contumaz, o ator não era bem visto pelos maridos da indústria, temerosos que seu charme viril pudesse causar o estrago que havia feito no casamento do produtor Robert Evans, um dos mais poderosos de então: durante as filmagens de "Os implacáveis" (1972), sua mulher, a atriz Ali McGraw, encantou-se pelo ator, seu colega de cena, e nem pensou duas vezes em pedir divórcio e abandonar os ambiciosos projetos do marido para viver sua história de amor. Certamente tal escândalo em um ambiente tão sexualmente hipócrita minou as chances de McQueen de ganhar uma estatueta, principalmente quando se percebe que "Papillon" foi seu último grande trabalho - ao menos o último a chamar a atenção do público e explorar seu carisma e talento em igual medida.

A despeito das questionáveis afirmações de Henri Charrière sobre seu período na prisão localizada na Guiana Francesa, a trama de "Papillon" empolga justamente pela presença de McQueen, um ator que se utilizava de um tom naturalista para aproximar-se do espectador mesmo em personagens de caráter duvidoso: mesmo que afirme ser inocente do homicídio que o condenou, o protagonista da história não oferece ao público maiores explicações sobre seu passado, deixando no ar toda e qualquer certeza a respeito de seu caráter. Ao roteiro tampouco interessa detalhes anteriores à sua condenação - o filme de Schaffner se dedica a equilibrar-se entre as tentativas de fuga de Papillon e suas consequências, muitas delas bastante violentas. O ritmo é um tanto problemático - uns vinte minutos a menos faria milagres pela narrativa - mas a química entre McQueen e Hoffman é admirável, especialmente quando se sabe da relação pouco amistosa entre ambos fora de cena. Com belas sequências de ação e bons momentos dramáticos, "Papillon" não chegou a ser visto por Carrière, morto de câncer no pulmão em julho de 1973, menos de seis meses antes da estreia, e nunca emplacou sua continuação, "Banco", nas telas. Mas tornou-se clássico o suficiente para merecer um remake em 2017, estrelado por Charlie Hunnam e Rami Malek. É um filme cult, ainda hoje capaz de envolver a plateia com seu misto de ação e homenagem à resistência humana.

segunda-feira

PROGRAMADO PARA VENCER

PROGRAMADO PARA VENCER (The program, 2015, Working Title Films, 89min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: John Hodge, livro de David Walsh. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alex Heffes. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Amelia Granger, Ron Halpern. Produção: im Bevan, Eric Fellner, Tracey Seaward, Kate Solomon. Elenco: Ben Foster, Chris O'Fowd, Dustin Hoffman, Guillaume Canet, Jesse Plemons, Lee Pace, Denis Ménochet. Edward Hogg, Elaine Cassidy, Laura Donnelly. Estreia: 13/9/15 (Festival de Toronto)

No mundo do ciclismo profissional nenhum nome é mais conhecido - e celebrado, apesar de tudo - do que Lance Armstrong. Primeiro porque curou-se de um câncer no testículo (e tumores no pulmão e no cérebro) que o atingiu quando estava começando a ascender na carreira. Depois, por tornar-se campeão absoluto da famosa Tour de France, vencendo a competição por sete anos consecutivos (entre 1999 e 2005), um recorde absoluto. E, por fim e por uma razão menos admirável, por ter sido desmascarado como usuário recorrente de doping - mais precisamente uma droga chamada EPO (eritropoetina), que, aumentando a produção de glóbulos vermelhos no sangue, torna o metabolismo mais rápido. Tal descoberta, tornada pública após uma confissão do esportista no programa de TV de Oprah Winfrey, em janeiro de 2013 - e forçada por uma exaustiva investigação do FBI - jogou Armstrong no chão. Depois de perder todos os títulos conquistados, ter todas as homenagens feitas retiradas e ser banido do esporte pelo resto da vida, um dos maiores heróis do esporte norte-americano passou de mocinho a bandido, o que nem mesmo sua instituição criada para pesquisas contra o câncer ajudou a amenizar. E é justamente da história de Armstrong - entre o céu e o inferno - que trata "Programado para vencer", uma das cinebiografias mais subestimadas da temporada 2015 e um dos filmes menos aplaudidos do elogiado Stephen Frears.

Lançado no Festival de Toronto como um dos prováveis candidatos às cerimônias de premiação de final de ano nos EUA, "Programado para vencer" passou em brancas nuvens, sendo esnobado mesmo com o nome de Frears lhe servindo como cartão de visitas. Diretor de filmes admirados, como "Ligações perigosas" (88), "Os imorais" (90) e "A rainha" (2007), o britânico - que emplacaria Meryl Streep na corrida do Oscar pelo pouco memorável "Florence: quem é essa mulher?" no ano seguinte - não conseguiu o destaque esperado e tampouco chamou a atenção do público, que praticamente ignorou sua passagem pelos cinemas. Quem saiu mais prejudicado, no entanto, além dos produtores, foram os espectadores, que perderam a oportunidade de testemunhar (mais) uma atuação impecável de Ben Foster e conhecer os detalhes de uma história quase inacreditável, contada com um ritmo ágil e uma seriedade acima de qualquer suspeita.


Em uma interpretação irretocável, Ben Foster, um dos atores mais talentosos de sua geração, vive um Lance Armstrong repleto de nuances - da arrogância ao medo, da autoconfiança ao cinismo - com segurança ímpar. O roteiro, baseado no livro "Seven deadly sins: my pursuit of Lance Armstrong", do jornalista David Walsh (vivido por Chris O'Dowd no filme), acompanha a carreira do ciclista desde seus primeiros passos até sua decadência moral, dando ênfase em sua vida profissional e aos detalhes relacionados à sua relação com as drogas que acabaram por encerrar sua vitoriosa carreira. Mesmo que muitas vezes a narrativa precise utilizar-se de momentos mais didáticos para explicar ao público como funcionava a tática do atleta e seu médico italiano, Michele Ferrari (Guillaume Canet), a edição criativa de Valerio Bonelli não permite tempos mortos. Intercalando cenas de arquivo com sequências filmadas para a produção, "Programado para vencer" envolve a audiência sem fazer maiores esforços, principalmente graças a um visual atraente, uma trilha sonora eficaz e um elenco coadjuvante que conta até mesmo com o veterano Dustin Hoffman em uma participação especial - pequena mas crucial para marcar o início da queda do protagonista. Além dele, o jovem Jesse Plemmons - uma das novas promessas de Hollywood - também mostra que pode ir bastante longe na carreira ao dar vida a Floyd Landis, um colega (e posteriormente testemunha ocular dos abusos) do ciclista.

Mesmo sendo considerada uma obra menor na filmografia de Stephen Frears - um cineasta eclético, que flerta com todos os gêneros e normalmente sai-se muito bem em todos eles -, "Programado para vencer" tem muito mais qualidades do que defeitos. Pode-se dizer que por vezes soa como um telefilme ou que dá a impressão de ser um pouco superficial em sua reta final, quando os acontecimentos parecem atropelar-se, mas nada disso atrapalha o prazer de ver em cena grandes atores, uma história importante e um tema a ser discutido com seriedade e sem sensacionalismos. Ben Foster, nunca é demais dizer, brilha no papel central, e certamente merecia maior reconhecimento por isso, e Frears mais uma vez prova sua elegância natural em injetar sutileza e certo humor em um tema tão árduo. Um filme que precisa ser visto e recomendado!

MARATONA DA MORTE

MARATONA DA MORTE (Marathon man, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: William Goldman, romance de William Goldman. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jim Clark. Música: Michael Small. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/George Gaines. Produção: Sidney Beckerman, Robert Evans. Elenco: Dustin Hoffman, Laurence Olivier, Roy Scheider, William Devane, Marthe Keller. Estreia: 06/10/76

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier) 

Pode-se dizer, sem medo de errar, que existe o cinema policial e o cinema policial americano dos anos 70, com características próprias que o diferenciam substancialmente de outros exemplares do gênero. Não apenas pelo visual inconfundível - fotografia granulada, figurino típico da época - mas também e principalmente pelo estilo seco e direto de contar uma história, apostando na inteligência do espectador e apontando para temas relevantes e realistas. Al Pacino foi um dos grandes ícones do período, estrelando obras-primas como "Um dia de cão" (75) e "Serpico" (73), ambos dirigidos por Sidney Lumet. Não por acaso, Pacino, com seu jeito de homem comum, foi a primeira escolha do cineasta inglês John Schlesinger para protagonizar "Maratona da morte", adaptação do romance de William Goldman que tinha todos os elementos necessários a um eletrizante exemplar do gênero. O problema é que o produtor do filme, o todo-poderoso da Paramount Pictures, Robert Evans, não era exatamente um fã de Pacino - a quem tentou demitir das filmagens de "O poderoso chefão" (72) e apelidou maldosamente de "anão" - e vetou a ideia de Schlesinger, indicando outro pequeno grande ator para o papel do frágil protagonista Babe Levy: Dustin Hoffman.

Repetindo a parceria com o diretor que havia lhe dado o inesquecível Ratzo de "Perdidos na noite" (69), Hoffman entrega mais uma memorável atuação, tornando crível até mesmo o fato de, aos 38 anos, interpretar um estudante universitário muitos anos mais jovem - algo que já havia feito com propriedade em sua estreia nas telas, "A primeira noite de um homem" (67). Ele está completamente à vontade como Thomas "Babe" Levy, um rapaz que cursa a faculdade de História como forma de honrar a memória do pai, que cometeu suicídio após ter a reputação arruinada pela perseguição política no período do infame macarthismo - a caça aos comunistas que tomou conta dos EUA nos anos 50. Inteligente e dedicado, ele vê sua pacata rotina completamente alterada quando o inesperado retorno de seu irmão mais velho, Doc (Roy Scheider), acaba em uma tragédia que o transforma em alvo de uma misteriosa organização que tem ligações com o temível Christian Szell (Laurence Olivier), um criminoso nazista que abandona seu exílio para buscar, em Nova York, um valioso tesouro em diamantes. Nessa situação ambígua e aflitiva, ele não consegue confiar nem mesmo na nova namorada, a suíça Elsa Opel (Marthe Keller), que parece saber mais do que aparenta.


Inserindo aos poucos as informações a respeito de seus personagens e sua trama - uma aposta arriscada que o público atual, mal acostumado com roteiros quase didáticos - Schlesinger não poupa a plateia de cenas bastante violentas e uma dose de crueldade quase excessiva. Sua sequência mais famosa, em que Szell tortura Babe com uma broca de dentista, por exemplo, chegou a ter sua duração cortada na edição final, depois de reclamações sobre seu conteúdo, apesar de figurar, hoje em dia, em seletas listas que elegem as melhores cenas da história do cinema. Boa parte de sua tensão vem da forma como o cineasta constrói sua narrativa, com cortes secos e um senso de desorientação que aproxima a audiência do protagonista, uma pessoa normal diante de um turbilhão de violência inesperado e angustiante. O roteiro, adaptado pelo próprio William Goldman - que modificou, a contragosto, o final da história - não facilita as coisas para o público, que passa quase metade do filme sem ter a menor ideia de como personagens tão díspares - um estudante, um criminoso nazista e um executivo constantemente em viagens ao exterior - podem estar conectados. A paciência, porém, oferece um prêmio a partir da entrada de Laurence Olivier em cena: seu Christian Szell, é, sem dúvida, uma de suas maiores criações no cinema - e isso que ele fez todas as suas cenas sob forte medicação para tratamento de um câncer que todos acreditavam que seria fatal. Não apenas Olivier sobreviveu à doença como levou um Golden Globe e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho - e só morreu em 1989, aos 82 anos de idade.

A presença de Olivier no elenco de "A maratona da morte", no entanto, quase não aconteceu. Preocupados com seu estado de saúde precário, os executivos da Paramount não sentiam-se seguros em tê-lo em seu elenco. Foi preciso que Robert Evans apelasse aos veteranos David Niven e Merle Oberon para que eles pressionassem uma companhia de seguros londrina para que o grande intérprete shakespereano finalmente pudesse assinar contrato para interpretar o cruel Christian Szell. Demonstrando seu talento acima do normal, Olivier não deixou que sua condição médica ficasse em seu caminho - nem sua dificuldade de lembrar seus diálogos, consequência dos efeitos colaterais de seus remédios para dor - e entregou uma performance assustadora que ficou em 34º lugar em uma enquete feita pelo AFI (American Film Institute) sobre os maiores vilões na ocasião do centenário do cinema. Seu trabalho consegue até mesmo ofuscar a intensa atuação de Dustin Hoffman - em um de seus melhores momentos na carreira, diga-se de passagem - e disfarçar o ritmo um tanto lento da primeira hora de duração do filme. Não é injusto dizer que "A maratona da morte", apesar de suas qualidades, deve boa parte de sua permanência na memória graças à potência de Olivier como ator, em um show inesquecível. O filme como um todo pode não agradar a todo mundo, mas sua atuação chega a ser milagrosa.

sexta-feira

CHEF

CHEF (Chef, 2014, Aldamisa Entertainment/Kilburn Media, 114min) Direção e roteiro: Jon Favreau. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: Denise Pizzini/Bryan John Venegas. Produção executiva: Molly Allen, Marina Bespalov, James D. Brubaker, Craig Chapman, Philip Elway, Gleb Fetisov, Jerry Fruchtman, Peter Fruchtman, Karen Gilchrist, Jere Hausfater, Mark C. Manuel, Ted O'Neal, Jason Rose, Dylan Russell, Anne Sheehan, Tim Smith, Scott Steindorff, Boris Teterev, Oleg Teterin. Produção: Sergei Bespalov, Jon Favreau. Elenco: Jon Favreau, John Leguizamo, Bobby Cannavale, Emjay Anhony, Sofía Vergara, Dustin Hoffman, Scarlett Johansson, Oliver Platt, Amy Sedaris, Robert Downey Jr.. Estreia: 07/3/14 (South by Southwest Film Festival)

É impossível não traçar um paralelo entre o diretor e roteirista Jon Favreau e o protagonista de sua comédia dramática "Chef", o chefe de cozinha Carl Casper: cineasta criado no universo do cinema independente - no qual estrelou e coproduziu o cultuado "Swingers, curtindo a noite" em 1996 - ele aos poucos foi se introduzindo no miolo da indústria, acabando por assinar o ambicioso (e bem-sucedido) "Homem de ferro", lançado em 2008 com todo o aparato de uma super-produção. Em 2010 dirigiu a sequência das aventuras do super-herói com ainda mais êxito e em 2011 arriscou-se no ousado "Cowboys & Aliens", que decepcionou a crítica e não fez metade do barulho que se esperava. Acuado pelo sucesso e pela ambição de seus filmes mais populares, Favreau resolveu então voltar às origens e lançar um filme pequeno e despretensioso que mostrasse suas qualidades de criador sem o apoio de efeitos visuais. Em "Chef" - o filme escolhido para tal retorno - o protagonista passa por situação semelhante: de promessa ele passa ao sucesso. Do sucesso ele cai em desgraça. Da desgraça nasce um homem ainda mais talentoso e feliz.

Sim, a trama parece clichê - e até é, de certa forma. Mas "Chef" é dotado de uma leveza, de uma despretensão e de uma empatia tão grande que é difícil não embarcar sem reservas na história (cortesia também de um elenco muito bem escalado) e de uma edição ágil que transporta a audiência a uma viagem bem-humorada de redescobrimento pessoal e reunião familiar. Quem promove tal viagem é o personagem interpretado pelo próprio Jon Favreau, que dá vida à Carl Casper, o chef de cozinha de um respeitado restaurante bem frequentado de Los Angeles. Sentindo-se preso a menus sem a criatividade ou a ousadia que lhe marcaram o início da carreira, ele não consegue convencer seu patrão, Riva (Dustin Hoffman) a variar as ofertas da casa e acaba entrando em rota de colisão com o crítico mais influente da Internet, Ramsey Michel (Oliver Platt), que percebe sua estagnação profissional e faz uma resenha destruidora em seu site. Furioso, Carl faz uma cena histérica em pleno restaurante - fato que vai parar na rede e causa sua demissão - e, sem enxergar uma saída para a crise que se instala em sua vida, aceita viajar com a ex-mulher, Inez (Sofía Vergara) e o filho pequeno, Percy (Emjay Anthony) para Miami. É lá que ele finalmente aceita a ideia de Inez de recomeçar do zero e passa a ser o orgulhoso dono de um food-truck. Com a ajuda do amigo Martin (John Leguizamo) e do filho pequeno - com quem passa a ter uma relação mais profunda e de admiração - Carl redescobre o prazer de cozinhar, especialmente quando seu negócio se transforma em sucesso absoluto graças ao poder das redes sociais.


Utilizando de forma inteligente a forma com que a Internet interfere na vida das pessoas mesmo que elas não percebam - fazendo ao mesmo tempo um elogio e uma crítica às redes sociais - "Chef" busca (e consegue) a cumplicidade da plateia contando apenas com seu roteiro dinâmico e moderno e com a química entre seus atores. Fugindo da tentação de acrescentar um toque de romance à trama - a atração entre o protagonista e a recepcionista do restaurante, Molly (Scarlett Johansson) não vai além de umas poucas cenas - e mergulhando o público no universo dos bastidores da culinária (uma febre que o sucesso dos reality shows do gênero apenas comprova), o filme ainda aproveita do tempero latino da presença de John Leguizamo e Sofía Vergara (linda como sempre) no elenco para rechear suas cenas com uma trilha sonora contagiante e uma fotografia exuberante e colorida, que toma conta da história a partir do momento em que a vida de Casper sai do escuro da depressão para a vitalidade de uma nova vida. Sem forçar a mão no drama nem exagerar na comédia, Favreau equilibra sua narrativa com maestria, e o resultado é deliciosamente agradável.

Com um elenco repleto de rostos conhecidos do grande público - até o Homem de Ferro em pessoa, Robert Downey Jr., dá as caras em uma participação especial como um rival do protagonista - "Chef" é uma lufada de ar fresco na carreira de Jon Favreau como diretor, mostrando seu talento em retratar pessoas simples em situações corriqueiras. Não muda a vida de ninguém, mas é simpático e solar, otimista e radiante. Em um mundo às vezes tão sombrio e pesado, um filme assim soa como um oásis no deserto.

domingo

O QUARTETO

O QUARTETO (Quartet, 2012, Headline Pictures/BBC Films, 98min) Direção: Dustin Hoffman. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sarah Wittle. Produção executiva: Christoph Daniel, Jamie Laurenson, Xavier Marchand, Marc Schmidheiny, Thorsten Schumacher, Dickon Stainer, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Stewart Mackinnon. Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Pauline Collins, Michael Gambon, Billy Connolly, Gwyneth Jones, Sheridan Smith. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Um dos maiores atores de sua geração, Dustin Hoffman tem seu nome nos créditos de alguns dos filmes fundamentais da história do cinema, como "A primeira noite de um homem", "Sob o domínio do medo", "Todos os homens do presidente", "Tootsie" e dezenas de outros - isso sem contar nas duas produções que lhe deram o Oscar, "Kramer X Kramer" e "Rain Man". Com isso em vista, é difícil acreditar que somente em 2012 ele tenha finalmente utilizado toda a experiência adquirida em décadas de carreira para fazer sua estreia na direção. Porém, quando se assiste a seu primeiro filme, "O quarteto", é impossível não pensar que essa demora foi providencial. Dotado de uma maturidade profissional que o impede de cometer excessos ou cair na armadilha do egocentrismo, Hoffman entrega à plateia uma deliciosa ode à arte, à experiência e à amizade, embalada por uma trilha sonora à base de clássicos absolutos e estrelada por um elenco de veteranos visivelmente à vontade em seus papéis.

O roteiro de Ronald Harwood - premiado com o Oscar por "O pianista" - é baseado em uma peça teatral de sua própria autoria e, nas sensíveis mãos de Hoffman, vira uma declarada homenagem a todos os artistas que, mesmo longe dos palcos, ainda tem a música e o dom no coração e na alma. Assim são os moradores da Beecham House, uma casa de repouso para artistas aposentados que, como sempre acontece com lugares assim, sofre com a constante falta de patrocínio para manter-se. Para arrecadar um dinheiro que pode aliviar as finanças por um bom tempo, os moradores costumam realizar um concerto anual - no dia do aniversário de Giuseppe Verdi - e assim conquistar a simpatia e a atenção do público em geral. A paz e a tranquilidade comuns à rotina da casa são perturbados, no entanto, com a chegada de Jean Horton (Maggie Smith, fantástica mais uma vez), uma festejada cantora lírica afastada dos holofotes há décadas para manter a aura de diva. Sua entrada em cena entusiasma seus antigos colegas, que resolvem convidá-la para juntar-se a eles em uma apresentação de "Rigoletto". A recusa de Jean em tomar parte da programação, porém, não diz respeito somente a seu medo de fracassar em público, e sim a seu reencontro com Reggie (Tom Courtenay), com quem foi brevemente casada no passado e por quem ainda nutre fortes sentimentos.


Contando sua história de forma serena - com a ajuda da trilha sonora da melhor qualidade - Dustin Hoffman faz uso exemplar dos diálogos ora sardônicos ora sensíveis do roteiro de Harwood, deixando que cada ator os transforme em pequenas pérolas. Pauline Collins quase rouba a cena como a doce Cissy Robson - uma artista delicada e à beira da demência - e Billy Connolly tira proveito da personalidade dionisíaca de seu Wilf Bond para deitar e rolar com tiradas engraçadíssimas a respeito do ato de envelhecer e perder toda a libido da juventude. Tom Courtenay é o mais contido do quarteto, principalmente porque seu Reggie serve como o contraponto sensato do grupo, e suas cenas com Maggie Smith (indicada ao Golden Globe por seu desempenho) banham de humanidade e sensibilidade uma trama que tem nesses elementos sua principal qualidade. Sem apelar para piadas vulgares ou dramas forçados, o filme de Hoffman conquista principalmente pelo otimismo.

Assim como "O exótico Hotel Marigold" jogava luz sobre personagens cujo perfil etário é o oposto do que reina em Hollywood, "O quarteto" tem orgulho do histórico de seus atores e personagens. Hoffman faz questão de homenagear, nos créditos finais, todos os artistas aposentados que fazem parte do elenco de apoio de seu filme, como uma forma de enfatizar ainda mais sua admiração por sua obra. Falando de velhice, nostalgia e arte sem recorrer à melancolia, Dustin Hoffman faz de sua estreia na cadeira de diretor uma ensolarada e carinhosa cortesia à experiência e ao talento. "O quarteto" é uma delícia de se assistir e revela que o "pequeno grande homem" parece ser tão bom atrás das telas quanto diante delas. Bravo!

terça-feira

O QUARTO PODER

O QUARTO PODER (Mad city, 1997, Warner Bros, 115min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Tom Matthews, história de Tom Matthews, Eric Williams. Fotografia: Patrick Blossier. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Jan Pascale. Produção executiva: Stephen Brown, Wolfgang Glattes, Jonathan D. Krane. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson. Elenco: Dustin Hoffman, John Travolta, Alan Alda, Mia Kirschner, Blythe Danner, Robert Prosky. Estreia: 10/10/97

A nociva combinação entre a mídia e a ambição humana sempre encontrou nas telas de cinema vários exemplos e no mínimo um clássico indiscutível, o genial "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Essa receita explosiva pareceu irresistível para o cineasta grego Constatin Costa-Gavras, autor de filmes seminais do cinema político, como o oscarizado "Z" (69) e "Missing, o desaparecido" - estrelado por Jack Lemmon em 1982 - que viu na história de um homem comum sendo manipulado por um repórter sensacionalista em sua gana por audiência mais um potencial sucesso para sua bem-sucedida e provocativa carreira. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, "O quarto poder" - a união da instigante trama com o talento para a polêmica do diretor - caiu no vazio das boas intenções. Fracasso de bilheteria e ignorado pela crítica, o filme estrelado por Dustin Hoffman e John Travolta peca pela superficialidade, pelo ritmo irregular e pasmem, pela direção apática de Costa-Gavras, que em nenhum momento consegue atingir a plateia com a contundência de suas obras anteriores.

O protagonista do filme é Max Brackett (Dustin Hoffman aparentemente no piloto automático), um repórter televisivo que já teve seus momentos de glória, mas que caiu em desgraça depois de um desentendimento com Kevin Hollander (Alan Alda), âncora de um famoso telejornal de alcance nacional que o relegou a um noticiário pouco visto em uma cidade do interior. Em constante conflito com seu chefe por buscar notícias mais empolgantes do que meros factoides de interesse restrito, ele vê cair em suas mãos, inesperadamente, uma situação que pode lhe render a grande chance dessa fase ruim de sua carreira. Durante uma entrevista tediosa em um museu da cidade, ele testemunha um funcionário demitido, Sam Baily (John Travolta com as mesmas caras e bocas de sempre), invadir o local armado com uma espingarda e exigindo seu emprego de volta. Raposa velha do jornalismo, ele fareja um furo na história, especialmente quando, por acidente, a arma dispara atingindo um segurança do museu - negro, o que atiça ainda mais os ânimos politicamente corretos que veem nisso um crime de ódio - e o atarantado Sam resolve manter como reféns todas as crianças que estão em visita ao prédio. Conquistando aos poucos a confiança de Sam, o repórter conta com a ajuda de sua assistente, a ambiciosa Laurie (Mia Kirschner), para chamar a atenção da mídia nacional e transformar o fato em circo, retomando o destaque de seus dias mais felizes.


Como nem sempre as coisas funcionam da maneira esperada, no entanto, Max se vê diante de um dilema moral quando seu arquirrival Kevin surge em cena, querendo a protagonização da história. Com ainda menos escrúpulos, o famoso âncora passa a manipular as entrevistas feitas por Laurie, com a intenção de transformar Sam de vítima das circunstâncias em um vilão desequilibrado capaz de matar um homem negro pai de família e manter um grupo de crianças como refém. Percebendo as artimanhas de Hollander, Max passa a questionar sua própria ambição e tenta ajudar Sam a sair da armadilha que ele mesmo preparou, chegando à conclusão de que talvez as coisas tenham saído demais do seu controle. Enquanto isso, a população é manipulada facilmente pelo noticiário e cerca o museu, à espera do desfecho do sequestro.

Costurando vários focos de narrativa ao mesmo tempo - a relação entre Max e Sam, a manipulação comandada por Hollander, as entrevistas de Laurie, a manifestação da plateia ávida por sangue - o roteiro acaba por não dar conta de uní-las de maneira satisfatoria, dando a impressão de buracos pouco confortáveis entre uma e outra que nem mesmo a direção consegue disfarçar. A trama central - instigante, inteligente - se perde diante de tantos desvios, esvaziando seu tom de denúncia quando resolve dedicar boa tarde de seu terço final à crise de consciência de Max, em uma reviravolta otimista e forçada que não condiz com o cinismo ácido de seu início promissor. Nem mesmo o final - que acaba sendo previsível e anti-climático - salva o show de virar o aborrecido e banal retrato de uma sociedade doentia e manipulável pela mídia. Não é uma desgraça total - Dustin Hoffman sempre vale uma espiada, mesmo quando não está em seus melhores dias - mas vindo de um diretor do porte de Costa-Gavras é bastante decepcionante.

quarta-feira

EPIDEMIA

EPIDEMIA (Outbreak, 1994, Warner Bros, 127min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Laurence Dworet, Robert Roy Pool. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Hoy, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Neil Travis. Música: James Newton Howard. Figurino: Erica Edel Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Duncan Henderson, Anne Kopelson. Produção: Gail Katz, Arnold Kopelson, Wolfgang Petersen. Elenco: Dustin Hoffman, Rene Russo, Morgan Freeman, Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Patrick Dempsey. Estreia: 06/3/95

Um filme sobre um ameaçador vírus capaz de matar em poucas horas - e que está perigosamente se espalhando pelos EUA - dirigido por Ridley Scott, estrelado por Robert Redford e Jodie Foster e chamado "Hot zone" estava em preparação na Fox quando a notícia de que uma produção similar estava em andamento na Warner. O fato de dois filmes semelhantes estarem em desenvolvimento nem é tão raro em uma terra de poucas ideias realmente originais quanto Hollywood, mas tornou-se uma batalha aberta, com os dois estúdios ansiosos pela primazia nas bilheterias. Porém, ao contrário do que acontece na maioria das vezes (quando mais de um filme sobre o mesmo assunto realmente chega a estrear e disputar público), "Epidemia", a produção da Warner, dirigida por Wolfgang Petersen e estrelada por Dustin Hoffman e René Russo acabou por abortar o trabalho de Scott, Redford e companhia e chegar sozinho às telas. Embalado pela epidemia do vírus Ebola na África poucos meses antes - um marketing macabro mas bastante eficiente - o filme se deu bem nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares mundo afora.

Ficando com o papel que seria de Harrison Ford em uma primeira versão do roteiro, Dustin Hoffman faz sua estreia em um filme de ação na pele de Sam Daniels, um coronel do exército norte-americano encarregado de investigar o surgimento de uma epidemia de febre hemorrágica oriunda da África. Como responsável pelo USAMRIID (Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas dos EUA), ele alerta as autoridades sobre o possível alcance da doença em território americano, mas vê seus conselhos ignorados por seu superior, o General Billy Ford (Morgan Freeman), que afasta a possibilidade de uma epidemia em seu país. O que Daniels não sabe é que o mesmo Ford, em conluio com outro general, Donald McClintock (Donald Sutherland) já sabia da existência de um vírus semelhante, surgido no Zaire em 1967 - e que ambos juraram ter extinguido depois da ordem de explodir a aldeia que apresentava a doença, em uma ação secreta do governo. Vinte e cinco anos depois, porém, o vírus está de volta, transmutado, mais potente e ameaçando o país, onde chegou através de um pequeno macaco contrabandeado. Quando uma pequena cidade torna-se o centro da epidemia, cabe a Daniels impedir que a mesma decisão seja tomada: com a ajuda do jovem Major Salt (Cuba Gooding Jr.) e da ex-mulher Robby (René Russo) - cientista por quem ainda é apaixonado - ele tem que localizar o hospedeiro, encontrar uma cura e salvar a vida de centenas de pessoas.


Dividindo seu foco entre as pesquisas científicas, a busca pelas causas da epidemia, as conspirações governamentais de gabinete e as trágicas consequências da epidemia, o filme de Wolfgang Petersen surpreendentemente não se torna uma obra sem personalidade. O roteiro equilibrado permite à plateia que se envolva com cada uma das histórias contadas, que, unidas, formam um conjunto coeso e bastante interessante, especialmente porque escapa do sensacionalismo quase inevitável do tema. Petersen evita inclusive imagens muito gráficas, preferindo a sugestão ao invés do óbvio: claro que há cenas que mostram as vítimas agonizando e com o corpo perdendo sangue profusamente, mas até mesmo nesses momentos há uma elegância e uma discrição que o afasta dos slasher movies sanguinolentos. Não interessa ao diretor apavorar o público com imagens cruéis e sim prendê-lo na poltrona com uma história de tensão e ação com inteligência acima da média. E isso ele consegue sem fazer muita força.

A maior qualidade de "Epidemia", no entanto, vem do fato de ele conseguir ser um filme de puro entretenimento a respeito de um assunto sério e assustador. Sem a intenção de ser didático, ele é apenas um filme de ação, realizado com toda a competência de que um cineasta como Petersen é capaz. Além do mais, apresenta um elenco de competência indiscutível - além de Hoffman, Morgan Freeman e Donald Sutherland, há ainda um Kevin Spacey pré-consagração - e um senso de ritmo dos mais felizes. O terço final, quando Daniels está em vias de encontrar o macaco hospedeiro e o governo já está mandando aviões acabarem com a pequena cidade onde a epidemia está se descontrolando, é um primor de suspense, enfatizado pela trilha sonora de James Newton Howard e pela edição soberba, capaz de deixar qualquer espectador com a respiração suspensa. E, além de tudo, não é sempre que o público tem a chance de testemunhar um dos maiores atores do cinema - Dustin Hoffman - brincar de herói de filme de ação. Um diferencial a mais em um filme que cumpre o que promete.

segunda-feira

DICK TRACY

DICK TRACY (Dick Tracy, 1990, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Jim Cash, Jack Epps Jr., personagem criado por Chester Gould. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Richard Marks. Música: Danny Elfman. Canções: Stephen Sondheim. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Rick Simpson. Produção executiva: Art Linson, Floyd Mutrux, Barrie M. Osborne. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Al Pacino, Madonna, Glenne Headley, Charles Durning, Dustin Hoffman, William Forsythe, Mandy Patinkin, James Caan, Charlie Korsmo, Estelle Parsons, Kathy Bates. Estreia: 14/6/90

7 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Al Pacino), Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Sooner or later"), Maquiagem, Som
Vencedor de 3 Oscar: Canção ("Sooner or later"), Direção de Arte/Cenários, Maquiagem 

Depois que "Batman", dirigido por Tim Burton e estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson tomou o mundo de assalto em 1989, surpreendendo até mesmo as mais altas e megalômanas expectativas da Warner, ninguém duvidava que outros filmes de super-heróis das histórias em quadrinhos surgissem no horizonte, pegando carona no sucesso do homem-morcego. E nem demorou muito até que uma produção caprichada, sob os auspícios da Disney e comandada por um dos mais confiáveis homens da indústria dominasse as atenções: Dick Tracy, o detetive de queixo quadrado criado por Chester Gould em 1931, chegou às telas em pleno verão americano de 1990, dirigido, produzido e estrelado por Warren Beatty, na companhia de nomes de peso, como Al Pacino e Madonna (com quem o astro esteve envolvido durante as filmagens, como era de seu feitio). Com um custo estimado de 46 milhões de dólares, o filme pode não ter repetido o êxito da obra de Burton, mas com uma renda superior a 100 milhões somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), não decepcionou nem o estúdio - que queria encher os bolsos - nem o público - que buscava entretenimento puro e simples.

A bem da verdade, apesar de seu roteiro frouxo - que mistura vários vilões criados por Gould em uma única trama - "Dick Tracy" pode ser considerado um passo à frente do Batman de Burton, que só conseguiria equilíbrio entre visão pessoal e comercial com sua sequência, "Batman, o retorno" (92). A começar por sua estupenda direção de arte (merecidamente premiada com o Oscar), a visão de Beatty dos quadrinhos de Gold se aproxima genialmente do original, anos antes que "Sin City, a cidade do pecado" (05) tornasse tão tênue a fronteira entre o cinema e os comic books. Colorido ao ponto de quase ferir os olhos, fotografado com precisão pelo veterano Vittorio Storaro (que também chegou a concorrer à estatueta da Academia) e com uma galeria de tipos recriados com um preciosismo fascinante pela maquiagem de John Caglione Jr. - que deixa atores conhecidos como Al Pacino e Dustin Hoffman irreconhecíveis atrás da maquiagem - o visual do filme é, sem dúvida, seu maior e mais saboroso atrativo. Mesmo que Warren Beatty tenha preferido (acertadamente) deixar de lado em sua caracterização o queixo proeminente que é a marca de Tracy, todo o resto é absolutamente apaixonante, feito com o objetivo claro de seduzir a audiência pela visão. Uma pena, porém, que o roteiro, com dito anteriormente, deixe muito a desejar.


Dick Tracy, o protagonista vivido por Beatty com seu habitual ar blasé, é o detetive mais corajoso de uma cidade cada vez mais dominada pelos gângsteres, que, depois de um desentendimento mais violento do que o normal, passam a ser liderados por Big Boy Caprice (Al Pacino, nitidamente se divertindo aos montes em um papel atípico que lhe deu uma indicação ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano em que ele merecia uma lembrança na categoria principal por "O poderoso chefão, parte 3").  Incorruptível, Tracy tenta de todas as maneiras acabar com a festa de Caprice, inclusive tentando cooptar para seu lado a sensual Breathless Mahoney (Madonna), principal atração do night-club utilizado pelos bandidos como quartel-general. A aproximação entre o detetive e Mahoney - cujo comportamento ambíguo ao mesmo tempo o repele e seduz - passa a incomodar sua eterna namorada, a fiel e dedicada Tess Trueheart (Glenne Headley) e até o pequeno Kid (Charlie Korsmo), um menino de rua que o admira e que tem intenções de ser adotado por ele. Não bastasse tudo isso, Tracy ainda é preso, vítima de uma armadilha criminosa, e a cidade passa a ser ameaçada por um misterioso bandido sem rosto.

A superficialidade da trama de "Dick Tracy" de certa forma combina com o tom de entretenimento ligeiro proposto por Warren Beatty e companhia, mas não deixa de ser um balde de água fria naqueles que procuram no filme algo mais do que um simples passatempo inócuo. Além de ter um começo um tanto confuso, o roteiro não desenvolve a contento nenhum personagem - nem mesmo seu protagonista - deixando a plateia órfã daqueles sentimentos tão procurados em um blockbuster: a identificação com o herói e a torcida pela derrota do vilão. Aqui, tanto o Tracy de Beatty soa quase apático a maior parte do tempo quanto o Big Boy de Pacino - apesar da performance inspirada do ator - arranca no máximo gargalhadas. Nem mesmo a identidade do misterioso criminoso sem rosto chega a causar alguma reação, talvez por sua previsibilidade. Sobra para o deleite do público, então, o visual acachapante, a curiosidade de ver Madonna como atriz (e, apesar de genial artista sobre os palcos ela não chega a convencer no papel de Mahoney) e as belas canções do veterano compositor da Broadway Stephen Sondheim - uma delas, a balada "Sooner or later" também chegou a ser premiada com o Oscar. Para um filme com tantas ambições, é pouco.

quinta-feira

LENNY

LENNY (Lenny, 1974, United Artists, 111min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Julian Barry, peça teatral homônima de Julian Barry. Fotografia: Bruce Surtees. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Nicholas Romanak. Produção executiva: David Picker. Produção: Marvin Worth. Elenco: Dustin Hoffman, Valerie Perrine, Jan Miner, Stanley Beck, Frankie Man, Rashel Novikoff. Estreia: 13/11/74

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Dustin Hoffman),  Atriz (Valerie Perrine), Roteiro Adaptado, Fotografia
Palma de Ouro de Melhor Atriz (Valerie Perrine) - Festival de Cannes

Lenny Bruce foi um dos mais controversos comediantes stand-up dos EUA dos anos 60, quando o gênero ainda estava em sua pré-história. Suas piadas, repletas de palavras de baixo calão e piadas frequentemente de mau-gosto, que não poupavam nada nem ninguém, incomodaram o establishment americano a tal ponto que em pouco tempo ele não apenas era famoso por suas qualidades histriônicas, mas também pelos inúmeros processos a que respondeu. Entrando e saindo da cadeia, ofendendo os mais suscetíveis e sendo aplaudido por aqueles que o consideravam um espécime raro no humor normalmente inofensivo dos palcos - entre os quais a banda REM, que o citou nominalmente na letra de "It's the end of the world as we know it" - Bruce deu origem a uma premiada peça teatral da Broadway, escrita por Julian Barry e ao material escolhido por Bob Fosse para seu primeiro filme após o Oscar ganho por seu trabalho em "Cabaret". Amparado por uma atuação (mais uma) irretocável de Dustin Hoffman e uma deslumbrante fotografia em preto-e-branco de Bruce Surtees, "Lenny" é uma homenagem séria a seu protagonista e um libelo pró-liberdade de expressão.

Contado em formato de flashback pela ex-esposa de Lenny, a stripper Honey (Valerie Perrine, indicada ao Oscar e premiada como melhor atriz no Festival de Cannes), "Lenny" é valorizado pela coragem do roteirista em não fazer de seu protagonista uma pessoa menos desagradável que ele realmente era na vida real, não deixando de fora da trama nem seu vício em drogas nem suas orgias sexuais - que o acabaram afastando da mulher que amava. Construindo um Lenny Bruce constantemente à beira do abismo, Dustin Hoffman dá seu costumeiro show, tanto nas recriações de suas apresentações - das quais o público nunca sabia o que viria - como em seus momentos mais intimistas. Falando desde doenças sexualmente transmissíveis até política e problemas sociais e raciais, o humorista tinha uma acidez que ainda hoje é capaz de perturbar, e Hoffman caminha no fio da navalha para fazer dele alguém que se possa simpatizar mesmo quando suas atitudes não são nada louváveis. Para sua sorte, encontrou em Valerie Perrine uma parceira de cena capaz de pontuar com correção seu dedicado trabalho.


Sem maiores créditos no currículo até sua surpreendente vitória em Cannes e a subsequente indicação ao Oscar, Perrine ficou com o papel de Honey Bruce depois da recusa de Raquel Welch, que não se considerava à altura do desafio. Sua atuação pode parecer discreta em comparação com o desempenho avassalador de Dustin Hoffman, mas é no minimalismo que Perrine encontrou seu caminho. É seu olhar quem fala mais, mostrando ao público todo o turbilhão porque passa sua personagem, que se apoia no amor incondicional pelo marido como forma de superar todas as barreiras emocionais, físicas e morais pelas quais tem que passar em sua trajetória - que inclui desde o encontro com sua tradicional família judaica até o início do vício em heroína e suas inclinações sexuais pouco ortodoxas. Como narradora da história, é do ponto de vista de Honey que o público tem contato com a personalidade confusa de Lenny, e Perrine dá conta do recado com segurança - ainda que a Palma de Ouro em Cannes soe um tanto exagerada.

"Lenny" não é um filme para qualquer público. Sua narrativa é um tanto lenta - o que de certa forma contrasta com a velocidade de "Cabaret" - e o roteiro não apresenta grandes lances dramáticos exceto aqueles velhos conhecidos dos filmes do gênero, sendo quase didático. No entanto, é preciso louvar a edição de Alan Heim, que aproveita cada fantástico ângulo de Bruce Surtees para cadenciar o ritmo conforme as piadas de seu protagonista e a direção precisa de Bob Fosse, mostrando que seu Oscar não foi apenas uma questão de sorte. Assim como acontecia com as piadas de Lenny Bruce, é preciso mergulhar nas boas intenções sua cinebiografia para usufruí-la com todas as suas qualidades. Questão de gosto.

sexta-feira

SOB O DOMÍNIO DO MEDO

SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw dogs, 1971, ABC Pictures, 113min) Direção: Sam Peckinpah. Roteiro: David Zelag Goodman, Sam Peckinpah, romance "The siege of Trencher's farm", de Gordon M. Williams. Fotografia: John Coquillon. Montagem: Paul Davies, Tony Lawson, Roger Spotiswoode. Música: Jerry Fielding. Direção de arte/cenários: Ray Simm/Ken Bridgeman. Produção: Daniel Melnick. Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan, T.P. McKenna, Del Henney, Jim Norton, Donald Webster, Len Jones, Peter Arne. Estreia: 93/11/71

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Não é à toa que Sam Peckinpah recebeu o apelido de Mestre da Violência. Se em "Meu ódio será tua herança" (69) ela ainda aparecia de certa forma estilizada e quase poeticamente, em "Sob o domínio do medo", seu filme seguinte, nada disfarça a forma cruel e inexorável com que ela invade a vida e a consciência de um homem pacato e até então avesso a qualquer tipo de manifestações crueis. Um dos filmes mais polêmicos dos anos 70 - que chegou a ver seu lançamento em vídeo e DVD banido na Inglaterra entre os anos de 1984 e 2002 - também coloca um dos atores-símbolo da época, Dustin Hoffman, em um papel atípico em sua carreira. Avesso a qualquer tipo de violência, Hoffman sempre assumiu que aceitou o papel de David Sumner apenas por dinheiro - ficando com um papel que foi considerado para Donald Sutherland, Jack Nicholson e até Sidney Poitier e que até hoje é lembrado como um dos mais importantes de seu currículo. Sua presença física diminuta e quase desconfortável diante dos caipiras gigantescos que transformam sua vida não poderia ter sido melhor aproveitada por Peckinpah, que filma sua metamorfose de cidadão comum em um vingador ensandecido e truculento com a dose certa de voyeurismo e sadismo. Esse ângulo da questão - que convida o espectador a testemunhar e torcer pela violência - talvez seja o aspecto mais controverso do filme. E é também o mais interessante.

David Sumner (Hoffman em seu melhor estilo "gente como a gente") é um matemático americano que acaba de chegar à cidadezinha da Inglaterra litorânea que é a terra de sua jovem e desejável esposa, Amy (Susan George). O que ele deseja é paz de espírito e tranquilidade para terminar um livro, mas logo percebe que as coisas não serão exatamente como ele espera: logo de cara ele conhece um ex-namorado de Amy, Charlie Venner (Del Henney), que demonstra claramente ter esperanças de reconquistar a amada. Sempre acompanhado de dois primos mal-encarados, Charlie acaba sendo contratado por David para fazer os reparos necessários na fazenda onde o casal está se instalando. Aos poucos, fica evidente que a relação entre David e Amy está passando por uma fase difícil, o que facilita a aproximação de Charlie - que passa a perseguir o matemático e, em uma ocasião em que o afasta de casa, estupra Amy, junto com um colega. Amy esconde o fato do marido, mas não consegue esquecer a violência - que ela acredita ter causado, uma vez que encorajava a aproximação do ex-namorado.


Tudo se transforma em uma descida ao inferno logo em seguida, porém, justamente na noite em que a igreja local oferece uma festa aos moradores. O deficiente mental da cidade, Henry Niles (David Warner) - praticamente proscrito por acusações de pedofilia - acidentalmente mata uma jovem adolescente e, em sua fuga, é atropelado por Donald, que, sem saber do ocorrido, o leva para casa. Enfurecido com a tragédia, Charlie e um grupo de homens armados fica sabendo da localização do ex-presidiário e cerca a propriedade de David, forçando-o a entregá-lo ao que fica claro tratar-se de um provável linchamento. Ciente das consequências de tal ato, o matemático recusa-se a ceder e precisa, então, defender sua casa, sua vida e sua mulher de uma escalada de violência cada vez maior à sua volta. Nesse meio-tempo, ele precisa, também, contar com a ajuda de Amy, que não tem tanta certeza que manter Niles a salvo será bom para eles.

O ato final de "Sob o domínio do medo", quando Peckinpah finalmente mostra suas armas, é de arrepiar. Se até então o cineasta apenas insinuava a crueldade e a beligerância de seus personagens - através de atos covardes como a morte de um gato e um estupro que, a princípio, parecia sexo consensual - em seus trinta minutos finais ele solta as amarras e entrega à audiência um suspense de primeira linha, tanto em termos visuais quanto psicológicos. É especialmente hipnotizante a sequência em que Amy, traumatizada com a violência sofrida, não consegue separá-la da festa religiosa a que está presente, quase como se Peckinpah estivesse preparando o público para o festival de sangue que virá a seguir. A transformação de David Sumner em um bárbaro violento e vingativo é mostrada com coerência e não é difícil prever que boa parte dos espectadores compartilha de sua mudança e de seu desejo de vingança. Quanto mais violência vem a seu encontro, mais capaz de atos quase desumanos ele é, em um processo de desumanização - ou volta à barbárie - que é, ao mesmo tempo, chocante e fascinante. Não é de se estranhar, portanto, que no final do filme ele mesmo assuma que não sabe mais o caminho de volta para casa - ou para o seu antigo "eu", pacífico e contemporizador.

Visto hoje, uma época em que qualquer filmeco de terror apresenta esquartejamentos sem o menor pudor para plateias que os assistem enquanto comem pipoca, "Sob o domínio do medo" pode parecer quase pueril. Mas ainda é, para os fãs do verdadeiro cinema, uma aula de narrativa de suspense e violência - tanto que virou refilmagem nas mãos de Rod Lurie ("A conspiração"), estrelada por James Marsden. A iniciativa de apresentar a história às novas gerações é louvável. O resultado ainda deixa muito a desejar em relação ao original.

quarta-feira

TINHA QUE SER VOCÊ

TINHA QUE SER VOCÊ (Last chance Harvey, 2008, Overture Films, 93min) Direção e roteiro: Joel Hopkins. Fotografia: John de Borman. Montagem: Robin Sales. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jawal Nga. Produção: Tim Perell, Nicola Usbourne. Elenco: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins, Kathy Baker, Liane Balaban, James Brolin. Estreia: 25/12/08 

Caso raro entre os filmes românticos americanos - que privilegia a juventude e a previsibilidade em detrimento de personagens interessantes - a comédia "Tinha que ser você" é o perfeito exemplo de que nem só de mulheres casadoiras e rapazes indecisos vive o cinema. Ao contar uma história simples e desprovida de quaisquer artifícios obtusos para conquistar a plateia, o filme do inglês Joel Hopkins oferece ao público uma hora e meia de uma narrativa que dá atenção ao que falta na maioria dos romances que chegam às telas: bons diálogos, personagens críveis e atuações afiadas de um dupla central que dispensa apresentações.

Depois de trabalharem juntos no elogiado "Mais estranho que a ficção" - mesmo que seus personagens nunca se cruzem em cena - Dustin Hoffman e Emma Thompson resolveram, para o bem do público, que deveriam se reencontrar nas telas. O roteiro de Hopkins pareceu, no mínimo, a melhor desculpa, e pelo que se vê diante do resultado final, a escolha não poderia ter sido melhor. Ambos indicados ao Golden Globe por seus desempenhos, Hoffman e Thompson mostram uma química invejável, com personagens que lhe dão todas as chances de brilhar sem que precisem apelar para as doenças fatais, mortes redentoras ou cenas catárticas que tanto agradam à Academia de Hollywood - que já lhes deram, no total, quatro estatuetas.


Hoffman está confortável no papel do desajustado Harvey Shine, um compositor de singles publicitários que vem sentindo o efeito do tempo em seu trabalho, sendo frequentemente substituído por profissionais mais jovens e "modernos". Em vias de ser demitido, ele embarca para Londres para assistir ao casamento da única filha, com quem mantém uma relação um tanto distante desde seu divórcio, anos antes. Seu inferno astral mostra-se maior do que o imaginado quando ele descobre, já na Inglaterra, que a jovem irá subir ao altar ao lado do padrasto (James Brolin) - o que o deixa ciente de sua solidão. Arrasado, ele esbarra em Kate Walker (Emma Thompson), uma solteirona que trabalha no aeroporto e não tem maiores surpresas na vida. A princípio relutante, ela acaba aceitando o convite de Harvey para acompanhá-lo à festa de casamento e entre eles acaba surgindo uma relação sensível e madura.

Equilibrando cenas de uma doçura emocionante - crédito do trabalho sempre delicado e sutil de Thompson, que comove especialmente quando sua personagem relembra um trauma do passado sem derramar mais do que poucas lágrimas - com um humor discreto, "Tinha que ser você" não foge do tradicional esquema "homem-encontra-mulher-e-depois-de-vários-desencontros-eles-se-acertam", mas o faz com propriedade e inteligência, sem jamais subestimar a capacidade da audiência em envolver-se com personagens mais próximos da realidade do que princesas e milionários excêntricos. Sem apelar para nada mais do que acontecimentos triviais, Joel Hopkins constroi um filme capaz de agradar a todos sem ofender a ninguém, coisa rara em tempos tão agressivos. E ver Hoffman e Thompson juntos é uma delícia rara.

sexta-feira

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO



MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO (Stranger than fiction, 2006, Columbia Pictures, 113min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Zach Helm. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Cheese. Música: Britt Daniel, Brian Reitzel. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Joe Drake, Nathan Kahane, Eric Kopeloff. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson, Dustin Hoffman, Queen Latifah. Estreia: 05/10/06 (Festival de Chicago)

Em uma área árida de boas e criativas ideias como Hollywood, um roteiro original e fresco é motivo de grandes celebrações. Não foi à toa que Charlie Kaufman tornou-se um dos mais celebrados autores da primeira década do século, graças a filmes como "Quero ser John Malkovich", "Confissões de uma mente perigosa", "Adaptação" e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" - que lhe rendeu um justíssimo Oscar. E em sua busca desesperada por nomes capazes de sacudir a indústria, a capital do cinema logo se assanhou com Zach Helm, autor do script de "Mais estranho que a ficção": ao mesclar com inteligência e bom humor a metalinguagem com os conhecidos ingredientes da comédia, o jovem roteirista encantou a crítica especializada, que lhe concedeu o prêmio do National Board Review. Não foi sem motivos, já que seu roteiro é a maior qualidade do filme dirigido por Marc Forster, o homem por trás de obras tão díspares quanto "Em busca da Terra do Nunca", "A última ceia" e "A passagem".

Demonstrando um insuspeito senso de humor, Forster deixa que o roteiro de Helm e seu elenco de sonhos brilhe mais do que sua direção, o que por si só já é um mérito dos maiores. Sem interferir com ângulos complicados ou inovadores, o cineasta é apenas o sóbrio narrador da trajetória de Harold Crick (Will Ferrell no melhor papel de sua carreira), um auditor da Receita Federal que, de uma hora pra outra descobre ser a personagem de um livro que, para seu desespero, está em vias de morrer. Sua descoberta - através da narração de uma voz feminina que ele passa a ouvir repentinamente - o leva a uma busca angustiada atrás de uma solução que ele nem mesmo sabe se existe. Tentando descobrir quem é a autora do romance que narra a sua tediosa vida, ele chega até o veterano professor de Literatura Jules Hilbert (Dustin Hoffman, divertindo-se notadamente no papel), que passa a guiar sua investigação. Enquanto isso, Crick tenta levar sua vida normalmente, mas se apaixona por Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a dona de uma confeitaria que tem suas próprias ideias a respeito dos impostos cobrados em seu país. Sua nova paixão e a consciência de seu fim próximo levam o antes certinho executivo a mudar a sua vida.


Além de contar com a ajuda preciosa de Ferrell e Hoffman, "Mais estranho que a ficção" tem ainda uma trama paralela tão interessante (ou até mais) do que as desventuras de Harold Crick. Na pele de uma Emma Thompson sem maquiagem e desprovida do humor ácido que a caracteriza, a escritora Karen Eiffel é talvez a melhor personagem criada por Zach Helm. Mentora do romance que conta a vida de Crick, ela é insegura, melancólica e utiliza sua profissão e talento em criar ficção para fugir de sua própria existência um tanto solitária e é genial a maneira com que a narrativa do filme vai inserindo o espectador dentro de sua mente, imaginando o desfecho trágico que se anuncia no início do filme - e que pode ou não ser alterado de acordo com a imaginação da autora.

Fugindo das gargalhadas óbvias - o que a presença de Will Ferrell como protagonista poderia fazer pressupor - "Mais estranho que a ficção" é quase uma comédia de humor negro com toques de uma melancolia muito bem-vinda. Ao utilizar com propriedade ingredientes de outros gêneros caros ao público - comédia romântica e até um pouco de suspense - o filme de Forster o confirma como um cineasta pau-pra-toda-obra, característica também de seu contemporâneo James Mangold. Logo depois desse híbrido um tanto estranho mas muito eficaz, ele assinaria o drama "O caçador de pipas" e o 007 "Quantum of solace". Nada mal para um diretor chamado pejorativamente de "sem estilo".

quinta-feira

EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA




EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (Finding Neverland, 2004, Miramax Films, 106min) Direção: Marc Foster. Roteiro: David Magee, peça teatral "The man who was Peter Pan", de Allan Knee. Fotografia: Robert Schaefer. Montagem: Matt Cheesee. Música: Jon A. P. Kaczmarek. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Trisha Edwards. Produção executiva: Gary Binkow, Neal Israel, Michelle Shy, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Nellie Bellflower, Richard N. Gladstein. Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman, Julie Christie, Radha Mitchell, Freddie Highmore, Kelly McDonald, Ian Hart. Estreia: 04/9/04 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Johnny Depp), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

É fácil emocionar a plateia quando se fala de temas comoventes como fantasia, doenças fatais e crianças em busca da felicidade e inocência eternas. Mas é difícil tocar nesses assuntos sem escorregar rumo à pieguice e ao sentimentalismo barato. Por isso não deixa de ser louvável o fato de Marc Foster – do econômico “A última ceia” – ter transformado “Em busca da Terra do Nunca”, um roteiro repleto de armadilhas emocionais, em um filme delicado sem exageros e em uma obra ingênua sem ser simplória. Indicado a sete Oscar – inclusive de Melhor Filme – a adaptação da peça teatral de Allan Knee levou apenas a estatueta de Trilha Sonora, mas ganhou audiências do mundo inteiro graças a suas qualidades inegáveis.

A trama se passa em Londres, em 1903, quando o dramaturgo James Barrie (um Johnny Depp controlado mas inexplicavelmente indicado ao Oscar de melhor ator) está amargando um grande fracasso de crítica e público. Pressionado por seu empresário (uma simpática participação de Dustin Hoffman) e por sua esposa Mary (Radha Mitchell), ele passa horas de seu dia em um parque da cidade, aguardando por inspiração. Ela surge de maneira imprevisível quando ele conhece a bela viúva Sylvia Llewelyn Davies (Kate Winslet excelente como sempre) e seus quatro filhos pequenos. Fascinado pela família que luta contra suas dificuldades financeiras, Barrie começa a escrever uma peça de teatro em que conta a história de um menino que se recusa a crescer, unindo a suas idéias elementos bastante diferentes como fadas, piratas e crocodilos. Quando a estréia está prestes a acontecer, o escritor tem que lidar com a doença fatal de Sylvia e de como esse fato irá repercutir junto ao pequeno Peter (a revelação Freddie Highmore), o mais sensível e carente de seus filhos.

         

É quase impossível não render-se à simpatia de “Em busca da Terra do Nunca”. O roteiro equilibrado de David Magee conquista pelo humor, pela delicadeza e até mesmo pela emoção, passando perto de tornar-se lacrimoso. Graças à engenhosidade do diretor e do editor Matt Chesse, as histórias de Barrie e sua esposa e de sua relação com a família Davies nunca chegam a se atropelar, e o mundo de fantasia criado pelo escritor junto às crianças serve como metáfora de uma forma de escape do mundo injusto e triste a que elas são obrigadas a submeter-se. Ancorado em um elenco em plena sintonia, o roteiro prende a atenção do público, para então entregar-lhe um final arrasador, de arrancar lágrimas do mais empedernido ser humano.

Pode até parecer bobinho, superficial e sentimentaloide, mas "Em busca da Terra do Nunca" é muito mais do que isso: é uma obra centrada em pessoas, seres humanos buscando fugir de uma realidade triste e acinzentada em busca de um lugar colorido, onde fadas convivem harmoniosamente com crianças que não querem nunca crescer e descobrir sua finitude. Uma pequena obra-prima!

domingo

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

quinta-feira

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA

SLEEPERS, A VINGANÇA ADORMECIDA (Sleepers, 1996, Baltimore Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 147min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Barry Levinson, livro de Lorenzo Carcaterra. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Stu Linder. Música: John Williams. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Beth A. Rubino. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Steve Golin, Barry Levinson. Elenco: Brad Pitt, Jason Patric, Kevin Bacon, Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Billy Crudup, Ron Eldard, Brad Renfro, Vittorio Gassman, Terry Kinney, Bruno Kirby, Joseph Perrino, Geoffrey Vigdor, Jonathan Tucker. Estreia: 18/10/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Alguns filmes marcam pelo romantismo ingênuo e feliz que transmitem. Alguns filmes ficam na memória da audiência devido às mensagens positivas que passam através de suas tramas. Outros ainda encantam pela beleza estética ou pela força de seus roteiros. No entanto, alguns (bons) filmes também podem tornar-se inesquecíveis por sua melancolia intrínseca, pela tristeza poderosa que emana de suas histórias, normalmente focadas em personagens tão reais quanto a plateia. Um filme que se encaixa nessa última categoria é "Sleepers, a vingança adormecida", um petardo emocional dirigido por Barry Levinson e pretensamente inspirado em uma história verdadeira. Baseado em um livro de Lorenzo Carcaterra - que o escreveu em forma de memórias - o filme causou polêmica quando teve sua veracidade questionada por investigações posteriores. No entanto, verdadeira ou não, sua história é forte o bastante para suscitar discussões e pesar feito um tijolo na memória dos espectadores.

Ao falar de pedofilia, abuso sexual, perjúrio, violência doméstica e delinquência juvenil, o oscarizado Barry Levinson enfrentou ainda mais controvérsia do que em seu filme anterior, "Assédio sexual", que fez sucesso de público (mas não de crítica) e que serviu apenas como veículo para o sex-appeal de Demi Moore. Sensível e talentoso, Levinson conseguiu revestir de sutileza uma trama pesada e angustiante, e o que é mais surpreendente, fez com que o público questionasse verdades até então estabelecidas como imutáveis. Sim, em "Sleepers" a plateia torce para que um padre cometa perjúrio para inocentar dois réus que - todo mundo viu - mataram a tiros um homem enquanto este jantava em um restaurante. Por que? É aí que a polêmica começa.

"Sleepers" tem início em 1966, em Hell's Kitchen, um bairro nova-iorquino onde se misturavam descendentes de italianos, irlandeses e todo tipo de pequenos e grandes marginais. É lá que quatro amigos adolescentes vivem esperando a idade adulta: Michael Sullivan (Brad Renfro), Lorenzo Carcaterra (Joseph Perrino), John Reilly (Geoffrey Wigdor) e Tommy Marcano (Jonathan Tucker) são unidos e encontram em sua amizade um oásis em meio às crises domésticas que os rodeiam. Em uma tarde quente de verão, como forma de passar um dia tedioso, eles decidem passar a perna em um vendedor de cachorro-quente e a brincadeira acaba tragicamente. Condenados a passar um ano presos em um reformatório, eles encontram apoio apenas na amizade do Padre Robert Carillo (Robert DeNiro). Encarcerados na instituição penal, eles começam a sofrer maus-tratos, abusos sexuais e extrema violência por parte dos guardas, em especial do líder deles, Noakes (Kevin Bacon).

A história, então, dá um pulo até 1981, quando, entregues à marginalidade, John (Ron Eldard) e Tommy (Billy Crudup, estreando no cinema) dão de cara com Noakes em um restaurante e o executam com meia dúzia de tiros. Levados à julgamento, eles se surpreendem ao descobrir que o promotor do caso é seu amigo de infância Michael (Brad Pitt), que, na verdade, contando com a ajuda de Lorenzo (Jason Patric) - agora um jornalista - tem um plano detalhado de vingança contra seus agressores, que envolve um advogado de defesa contratado pela Máfia (Dustin Hoffman) e Carol (Minnie Driver), amiga de infância do grupo.


Barry Levinson conduz de maneira correta sua história de perda da inocência, mas não consegue evitar a queda de ritmo em sua segunda metade, quando o elenco jovem sai de cena para que o segundo ato - o da vingança propriamente dita - comece. Contando com atores juvenis extraordinariamente capazes de despertar a simpatia e a compaixão da audiência, ele estabelece o tom sombrio já antes dos créditos de abertura, com a narração em off de Jason Patric (o menos carismático de todo o elenco). Quando a segunda parte do filme começa há uma espécie de quebra que a edição tem certos problemas em resolver - ainda que ecoe o trabalho de Thelma Schoonmaker em "Os bons companheiros" e "Cassino" em sua hora inicial, a montagem carece de um ritmo mais ágil depois do assassinato de Nokes (diga-se de passagem, vivido com maestria por Kevin Bacon). Talvez o problema seja também a falta de entusiasmo do maior astro do filme: na pele de Michael, o até então infalível Brad Pitt demonstra um cansaço que, apesar de ajudar na construção da personagem, soa como desinteresse aos olhos do público. Para sua sorte, Dustin Hoffman está inspirado como sempre e Robert DeNiro não precisa falar muito para passar seu recado (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que ele ouve, estupefacto, a descrição dos horrores pelos quais seus meninos passaram na casa de correção). No mínimo por Hoffman e DeNiro já seria obrigatória uma sessão de "Sleepers". Mas a boa notícia é que os rapazes da primeira metade também são sensacionais.

Com exceção de Jonathan Tucker, que se mantém em atividade em filmes como "72 horas" e Brad Renfro - que prometia tornar-se astro mas morreu precocemente aos 25 anos, em 2008 - os jovens "sleepers" (gíria que designa rapazes que cumpriram pena em instituições correcionais) não foram muito felizes em suas escolhas profissionais: Geoffrey Wigdor, que vive o frágil John Reilly, faz participação em séries de TV, assim como Joseph Perrino, que interpreta o narrador da história, Lorenzo Carcaterra. Juntos, os quatro são o destaque absoluto no elenco de uma obra que não dá tréguas ao espectador em momento algum. Do início ao fim não há espaço para o humor ou o romantismo (que surge nas cenas de Minnie Driver com Brad Pitt, mas apenas como mais um elemento melancólico). Mas, apesar dos pesares, "Sleepers" é um filme que melhora a cada revisão.

Fotografado claustrofobicamente por Michael Ballhaus e pontuado por uma trilha sonora discreta de John Williams, "Sleepers" é um trabalho denso e um tanto depressivo, mas feito com honestidade e talento E alguns filmes marcam justamente pela coragem de tocar em assuntos difíceis de forma contundente e real.

quarta-feira

HERÓI POR ACIDENTE

HERÓI POR ACIDENTE (Hero, 1992, Columbia Pictures, 117min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: David Webb Peoples, história de Laura Ziskin, Alvin Sargent, David Webb Peoples. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Dustin Hoffman, Geena Davis, Andy Garcia, Joan Cusack, Chevy Chase, Stephen Tobolowski, Tom Arnold. Estreia: 02/10/92

"Quando a lenda é mais interessante do que a história, publica-se a lenda." A célebre frase, dita no filme "O homem que matou o facínora", parece ser o lema que orienta o roteiro de "Herói por acidente", ácida e cínica comédia dirigida pelo inglês Stephen Frears que falhou vergonhosamente em suas intenções de arrebatar prêmios nas cerimônias de 1992. Uma espécie de sátira ao estilo Frank Capra - repleto de ironias, mas sem as lições de moral dos filmes deste - o filme escrito por David Webb Peoples (autor de "Os imperdoáveis") não encontrou nem mesmo sua audiência, estacionando em uma bilheteria de menos de 20 milhões de dólares, a despeito de seu cartaz estampar os nomes de Dustin Hoffman e Geena Davis - ela então no auge da carreira depois do sucesso de "Thelma & Louise".

Davis interpreta Gale Gayley, uma repórter dedicada e ambiciosa, capaz de entrevistar suicidas momentos antes de seus atos finais. Durante um vôo de volta de Nova York - onde havia ido para receber um prêmio - seu avião sofre um acidente e os passageiros são resgatados por um homem misterioso, com o rosto sujo de lama e sem um pé de sapato. Não demora para que esse herói receba, na mídia, o apelido de "O anjo do vôo 104" e passe a ser procurado para entrevistas e glórias. Quando uma recompensa de 1 milhão de dólares é oferecida, porém, o novo astro surge: o mendigo John Bubber (Andy Garcia) assume o posto e torna-se ídolo das multidões, chegando inclusive a ensaiar um romance com a repórter. O problema maior é que Bubber não é o verdadeiro salvador: quem realmente merece as honras é Bernie LaPlante (Dustin Hoffman), um homem que vive de expedientes, sem emprego fixo e que foi parar na cadeia logo depois do acidente, acusado de revender objetos roubados. LaPlante tenta provar que ele é o verdadeiro herói, mas tem que lutar contra o fato de que Bubber é bonito, simpático e bem mais apropriado às intenções da mídia.

Um feroz ataque à futilidade da mídia, "Herói por acidente" esbarra, em certos momentos, em um cinismo exagerado. Ainda que a intenção do roteiro seja justamente ampliar os erros cometidos em nome do sucesso - afinal de contas é isso que faz uma comédia - às vezes a coisa parece sair do controle. Excelente diretor, Frears escorrega em carregar nas tintas das personagens, a ponto de nem mesmo o público saber discernir entre o que é verdadeiro ou não em suas personalidades. O romance entre Gale e John Bubber, por exemplo, não encanta justamente por esse motivo. Por melhores atores que sejam, Geena Davis e Andy Garcia saem-se muito melhor nas sequências menos dramáticas do filme - Garcia está sublime em seus momentos de demagogia explícita (ainda que o roteiro nem sempre se decida se ele é honesto ou não em suas intenções).

Mas Dustin Hoffman, mais uma vez, brilha intensamente. Apesar de manter alguns tiques de seu "Rain Man", ele dá a seu Bernie LaPlante nuances que o fazem driblar as armadilhas do roteiro um tanto maniqueísta. O protagonista criado por David Peoples não tem nada que o faça ser mais do que um ser humano um tanto desagradável, um pai relapso (mas amoroso) e um ex-marido decepcionante. Ainda assim, o carisma de Hoffman contorna as falhas de caráter de sua personagem, levando o público a torcer por sua vitória. A longa sequência em que ele conversa com um suicida John Bubber é um primor de inteligência, e seu diálogo esperto e realista compensa plenamente os percalços do roteiro até então.

Dizer que "Herói por acidente" é ruim é um pecado, bem como incensá-lo como uma obra-prima. É um filme de rara inteligência e sarcasmo, mas que resvala em alguns exageros. Não mereceu ser ignorado e deve ser redescoberto, ao menos para que a crítica furiosa que faz ao quarto poder não caia no vazio.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...