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sexta-feira

HELENO: O PRÍNCIPE MALDITO

 


HELENO: O PRÍNCIPE MALDITO (Heleno: O príncipe maldito, 2012, Downtown Filmes, 116min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Felipe Bragança, Fernando Castets, José Henrique Fonseca, colaboração de L.G. Bayão, Roberto Ceuninck. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Berna Ceppas. Figurino: Rita Murtinho, Valeria Stefani. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Beto Bruno, Eliane Ferreira. Produção: José Henrique Fonseca, Eduardo Pop, Rodrigo Santoro, Rodrigo Teixeira. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Othon Bastos, Erom Cordeiro, Herson Capri. Estreia: 30/3/2012

Décadas antes que jogadores de futebol se tornassem notícia mais por seus escândalos fora de campo do que por seu desempenho profissional - o que de certa forma já faz parte do cotidiano de quem acompanha o esporte -, um atleta talentoso e ídolo absoluto da torcida ilustrava páginas de jornais por seus ataques de estrelismo, suas rumorosas noitadas regadas a mulheres, álcool e drogas... e, nas horas vagas, por jogadas geniais que o marcaram indelevelmente no imaginário dos fãs. Heleno de Freitas, nascido em 1920 e morto em 1959 - com apenas 39 anos de idade - foi o maior ídolo alvinegro antes de Garrincha e um dos maiores artilheiros da história do Botafogo, além de formar, em 1945, junto com Zizinho, Jair da Rosa Pinto Tesourinha e Ademir de Menezes, um quinteto de ataque considerado como o melhor jamais escalado para a Seleção Brasileira. Suas façanhas profissionais, no entanto, por mais importantes, foram ofuscadas por seu comportamento errante nos bastidores - e sua luta contra os próprios demônios é o foco de "Heleno: o príncipe maldito", estupendo retrato de sua glória e decadência, sob a lente do cineasta José Henrique Fonseca e com a presença hipnotizante de Rodrigo Santoro no papel-título.

Heleno de Freitas não era um jogador de futebol comum. Filho do dono de um cafezal que também tinha negócios com papel e chapéus, tinha amigos na alta sociedade carioca, além de conviver com juristas, diplomatas e empresários. Formado em Direito pela UFRJ, foi descoberto quando jogava futebol na praia e tornou-se ídolo do Botafogo assim que chegou ao time, em 1940. Objeto de uma das maiores transações financeiras do futebol da época, chegou a jogar na Argentina antes de retornar ao Brasil - pelo Vasco da Gama - e dedicar seus últimos anos de carreira pulando de time em time (e arrumando problemas em todos eles). Casado com a bela Ilma (que no filme foi rebatizada como Sílvia e encontrou uma intérprete fabulosa em Alinne Moraes), Heleno nunca abandonou a boemia, as mulheres e os vícios em álcool e drogas como éter e lança-perfume - uma vida desregrada que cobrou um preço alto: internado em um sanatório nos últimos anos de sua vida, o ex-jogador viu a sífilis destruir completamente sua saúde física e mental, sofrendo de alucinações até seus momentos finais. 

Um dos produtores do filme, Santoro mais uma vez se entrega de corpo e alma, construindo um Heleno de Freitas sedutor e autodestrutivo na mesma medida, um homem capaz de encantar torcedores com a mesma desenvoltura com que passava as noites envolvido com todo tipo de excessos. Indo além da mera transformação física - que enfatiza o contraste entre seu auge como atleta e seu declínio como vítima de sífilis -, o ator busca a empatia do público através de uma atuação que evita ao máximo os clichês e encontra brechas emocionas mesmo tendo em mãos um personagem facilmente detestável. Poucos atores conseguiriam angariar simpatia para alguém tão arrogante e autocentrado, mas Santoro se aproveita de seu carisma e experiência para amenizar as características negativas de um anti-herói que era a cara de seu tempo. Sua química com Alinne Moraes (belíssima e sempre ótima atriz) amplia ainda mais o alcance catártico proposto pelo roteiro, que se sobressai como uma das mais dignas e bem cuidadas cinebiografias nacionais, enquanto foge da armadilha de um tema ainda pouco explorado a contento no cinema brasileiro, o futebol. E mesmo quando se propõe a investigar a maior paixão nacional, o filme de Fonseca não faz feio: graças à espetacular fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho e à edição precisa de Sérgio Mekler, "Heleno" é praticamente uma experiência imersiva, que simplesmente coloca o espectador no meio do gramado, acompanhando seu protagonista em decisivos momentos da carreira. São momentos em que a técnica se sobrepõe à emoção - e é impossível não se deixar conquistar pelo talento do cineasta em unir os dois extremos, especialmente quando são contrapostos de forma inteligente e elegante, com o auxílio luxuoso da maquiagem do mexicano Martin Macias Trujillo.

"Heleno" é um filme repleto de qualidades - técnicas e dramáticas. Isso não significa, porém, que não tem pequenos defeitos - que não comprometem o resultado final, mas o impedem de ser uma obra-prima. O excesso de vai-e-voltas do roteiro, por exemplo, atrapalha o ritmo - mas, ao mesmo tempo, sublinha a diferença entre o apogeu e a queda do jogador. A linha do tempo também não chega a ser exatamente clara, e quem não conhece detalhes e cronologia da história do atleta corre o risco de ficar perdido - mesmo que o roteiro tente ser o mais didático possível sem interromper o fluxo narrativo. Apesar disso, o visual deslumbrante e o elenco impecável - até mesmo nos menores papéis - comprovam o apurado senso estético e artístico de José Henrique Fonseca - filho do escritor Rubem Fonseca e com os ótimos "Traição" (1998) e "O homem do ano" (2003) no currículo. Um exemplo inequívoco das potencialidades do cinema brasileiro, "Heleno: o príncipe maldito" é também um ponto alto na carreira de Rodrigo Santoro.

quarta-feira

EU, TONYA

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, AI-Film/ClubHouse Pictures, 120min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Steven Rogers. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: Peter Nashel. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jade Healy/Adam Willis. Produção executiva: Len Blavatnik, Zanne Devine, Aviv Giladi, Ben Giladi, Craig Gillespie, Toby Hill, Vince Holden, Rosanne Korenberg. Produção: Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Margot Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney), Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Allison Janney) 

O início dos anos 1990 foi pródigo para os tabloides sensacionalistas norte-americanos. Primeiro Lorena Bobbitt arrancou o pênis do marido e jogou pela janela do carro, tornando-se um símbolo do feminismo e da luta contra a violência doméstica. Depois, os irmãos Menendez - filhos de um executivo do entretenimento - foram presos e julgados, acusados do assassinato dos pais, e revelaram um histórico de abusos sexuais, em um julgamento que parou o país. E por fim, o mundo do esporte também apresentava seu escândalo, quando a patinadora artística Nancy Kerrigan foi cruelmente atacada por um homem que, segundo apuraram as investigações, tinha ligações com o marido de sua maior rival, Tonya Harding. A história, que ilustrou páginas e mais páginas de jornais do mundo todo, tornou-se icônica e entrou para os anais do esporte, e parecia estranho que Hollywood tivesse demonstrado pouco interesse por uma trama com todos os ingredientes necessários para capturar a atenção do público. Mais de vinte anos se passaram até que "Eu, Tonya" - uma visão ácida, sarcástica e ainda assim emocionante - finalmente visse a luz dos refletores. Com um roteiro espertíssimo de Steven Rogers (considerado um dos melhores scripts não filmados de 2016) e a direção inspirada do australiano Craig Gillespie (do ótimo e sub-apreciado "A garota ideal", de 2007), o filme, produzido e estrelado por Margot Robbie, tornou-se uma das produções mais premiadas de sua temporada - e pode ser considerado uma das mais criativas cinebiografias já realizadas pelo cinema americano.

Sem desrespeitar sua protagonista, mas extraindo dela todas as suas possibilidades - tanto dramáticas quanto cômicas -, o filme de Gillespie assume a forma de um documentário informal, com os lances trágicos da história sendo mostrados ao público pelos olhos dos próprios personagens (às vezes sendo confirmados pela edição ágil e bem-humorada, às vezes sendo traídos pelas contradições mais óbvias). Buscando inspiração em programas policiais sensacionalistas como "Hard Copy" e ousando na forma de apresentar uma história já devidamente vasculhada e requentada diversas vezes em duas décadas, o roteiro não se furta a investir em um senso de humor macabro ao mesmo tempo em que tenta chegar ao fundo das razões que levaram ao trágico acontecimento. Surpreendendo a plateia ao não se deter no "incidente" em si e sim nas relações doentias de Tonya - com sua mãe amarga e super-protetora e com seu marido violento -, o filme é muito mais psicologicamente profundo do que seu verniz cômico deixa aparentar, e boa parte de seu êxito em transcender os rótulos vem dos brilhantes trabalhos de Robbie e Allison Janney - esta última premiada com praticamente todos os troféus do ano, incluindo o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante.


Um dos maiores méritos do roteiro de Steven Rogers é não fixar-se exclusivamente no caso Harding-Kerrigan, mas sim investigar, através da biografia de sua protagonista, os fatos que levaram a tal desfecho. De uma infância reprimida e controlada com mão de ferro por sua mãe, Lavona (Allison Janney em atuação impecável) até o casamento turbulento e agressivo com Jeff Gillooly (Sebastian Stan, muito bem aproveitado pela direção de Gillespie), o filme acompanha uma trajetória repleta de altos e baixos físicos e psicológicos, que forjaram a personalidade complexa de Tonya. Deixando de lado o glamour dos ringues de patinação e se concentrando no dia-a-dia pesado da atleta, o filme rompe com a estrutura convencional do "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e se mostra uma produção ousada em retratar seus personagens sem condescendência ou julgamentos morais. É sintomático que Nancy Kerrigan mal apareça em cena - o roteiro é centrado justamente em Tonya e seu relacionamento com as duas pessoas mais próximas (e por coincidência mais tóxicas). Quando se assiste ao filme, é difícil não imaginar como Harding não sofreu destino ainda pior.

Com uma edição inteligente, que evita o tradicional e acentua o tom sarcástico do roteiro, "Eu, Tonya" também brilha em outros aspectos: a trilha sonora repleta de sucessos da época, a caracterização impecável e a direção segura de Gillespie, porém, não fazem sombra ao desempenho arrebatador de Margot Robbie no papel principal. Saltando de papéis coadjuvantes em filmes elogiados como "O lobo de Wall Street" (2013) para o estrelato em um trabalho difícil e exigente, a bela atriz surpreendeu crítica e público com uma interpretação nunca aquém de brilhante. Mesmo que efeitos visuais a substituam nas cenas em que Harding está no ringue, é Robbie quem dá consistência dramática e irônica à personagem, inserindo um toque de humanidade essencial a uma trama na qual ela poderia facilmente ser acusada de monstro insensível e frio. Desviando das armadilhas sentimentais e evitando o humor fácil, a atriz fez por merecer os elogios unânimes e a indicação ao Oscar - e deu um novo rumo a uma carreira que promete oferecer à plateia muitos outros trabalhos dignos de prêmios. "Eu, Tonya" é um feliz casamento entre um roteiro sagaz, uma direção inspirada, uma trama inacreditavelmente verdadeira e um elenco excepcional. Imperdível!

segunda-feira

PROGRAMADO PARA VENCER

PROGRAMADO PARA VENCER (The program, 2015, Working Title Films, 89min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: John Hodge, livro de David Walsh. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alex Heffes. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Amelia Granger, Ron Halpern. Produção: im Bevan, Eric Fellner, Tracey Seaward, Kate Solomon. Elenco: Ben Foster, Chris O'Fowd, Dustin Hoffman, Guillaume Canet, Jesse Plemons, Lee Pace, Denis Ménochet. Edward Hogg, Elaine Cassidy, Laura Donnelly. Estreia: 13/9/15 (Festival de Toronto)

No mundo do ciclismo profissional nenhum nome é mais conhecido - e celebrado, apesar de tudo - do que Lance Armstrong. Primeiro porque curou-se de um câncer no testículo (e tumores no pulmão e no cérebro) que o atingiu quando estava começando a ascender na carreira. Depois, por tornar-se campeão absoluto da famosa Tour de France, vencendo a competição por sete anos consecutivos (entre 1999 e 2005), um recorde absoluto. E, por fim e por uma razão menos admirável, por ter sido desmascarado como usuário recorrente de doping - mais precisamente uma droga chamada EPO (eritropoetina), que, aumentando a produção de glóbulos vermelhos no sangue, torna o metabolismo mais rápido. Tal descoberta, tornada pública após uma confissão do esportista no programa de TV de Oprah Winfrey, em janeiro de 2013 - e forçada por uma exaustiva investigação do FBI - jogou Armstrong no chão. Depois de perder todos os títulos conquistados, ter todas as homenagens feitas retiradas e ser banido do esporte pelo resto da vida, um dos maiores heróis do esporte norte-americano passou de mocinho a bandido, o que nem mesmo sua instituição criada para pesquisas contra o câncer ajudou a amenizar. E é justamente da história de Armstrong - entre o céu e o inferno - que trata "Programado para vencer", uma das cinebiografias mais subestimadas da temporada 2015 e um dos filmes menos aplaudidos do elogiado Stephen Frears.

Lançado no Festival de Toronto como um dos prováveis candidatos às cerimônias de premiação de final de ano nos EUA, "Programado para vencer" passou em brancas nuvens, sendo esnobado mesmo com o nome de Frears lhe servindo como cartão de visitas. Diretor de filmes admirados, como "Ligações perigosas" (88), "Os imorais" (90) e "A rainha" (2007), o britânico - que emplacaria Meryl Streep na corrida do Oscar pelo pouco memorável "Florence: quem é essa mulher?" no ano seguinte - não conseguiu o destaque esperado e tampouco chamou a atenção do público, que praticamente ignorou sua passagem pelos cinemas. Quem saiu mais prejudicado, no entanto, além dos produtores, foram os espectadores, que perderam a oportunidade de testemunhar (mais) uma atuação impecável de Ben Foster e conhecer os detalhes de uma história quase inacreditável, contada com um ritmo ágil e uma seriedade acima de qualquer suspeita.


Em uma interpretação irretocável, Ben Foster, um dos atores mais talentosos de sua geração, vive um Lance Armstrong repleto de nuances - da arrogância ao medo, da autoconfiança ao cinismo - com segurança ímpar. O roteiro, baseado no livro "Seven deadly sins: my pursuit of Lance Armstrong", do jornalista David Walsh (vivido por Chris O'Dowd no filme), acompanha a carreira do ciclista desde seus primeiros passos até sua decadência moral, dando ênfase em sua vida profissional e aos detalhes relacionados à sua relação com as drogas que acabaram por encerrar sua vitoriosa carreira. Mesmo que muitas vezes a narrativa precise utilizar-se de momentos mais didáticos para explicar ao público como funcionava a tática do atleta e seu médico italiano, Michele Ferrari (Guillaume Canet), a edição criativa de Valerio Bonelli não permite tempos mortos. Intercalando cenas de arquivo com sequências filmadas para a produção, "Programado para vencer" envolve a audiência sem fazer maiores esforços, principalmente graças a um visual atraente, uma trilha sonora eficaz e um elenco coadjuvante que conta até mesmo com o veterano Dustin Hoffman em uma participação especial - pequena mas crucial para marcar o início da queda do protagonista. Além dele, o jovem Jesse Plemmons - uma das novas promessas de Hollywood - também mostra que pode ir bastante longe na carreira ao dar vida a Floyd Landis, um colega (e posteriormente testemunha ocular dos abusos) do ciclista.

Mesmo sendo considerada uma obra menor na filmografia de Stephen Frears - um cineasta eclético, que flerta com todos os gêneros e normalmente sai-se muito bem em todos eles -, "Programado para vencer" tem muito mais qualidades do que defeitos. Pode-se dizer que por vezes soa como um telefilme ou que dá a impressão de ser um pouco superficial em sua reta final, quando os acontecimentos parecem atropelar-se, mas nada disso atrapalha o prazer de ver em cena grandes atores, uma história importante e um tema a ser discutido com seriedade e sem sensacionalismos. Ben Foster, nunca é demais dizer, brilha no papel central, e certamente merecia maior reconhecimento por isso, e Frears mais uma vez prova sua elegância natural em injetar sutileza e certo humor em um tema tão árduo. Um filme que precisa ser visto e recomendado!

sábado

CREED: NASCIDO PARA LUTAR

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, MGM/Warner Bros/New Line Cinema, 133min) Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington, estória de Ryan Coogler, personagens criados por Sylvester Stallone. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Goransson. Figurino: Antoinette Messam, Emma Potter. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Amanda Carroll. Produção executiva: Nicolas Stern. Produção: Robert Chartoff, William Chartoff, Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, David Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Andre Ward, Tony Bellew. Estreia: 19/11/15

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)

Em 1977, "Rocky, um lutador" surpreendeu aos desavisados e saiu da cerimônia do Oscar com os prêmios de filme e direção - contra obras como "Taxi driver", "Rede de intrigas" e "Todos os homens do presidente". Desde então, seu criador e intérprete, Sylvester Stallone vem passando por altos e baixos, intercalando sucessos de bilheteria e crítica com bombas que quase acabaram com sua carreira. Para sua sorte, porém, seu personagem mais famoso - ao lado do questionável John Rambo - volta e meia ressurge para dar um novo gás à sua carreira. Em 2006, por exemplo, ele parecia ter encerrado sua trajetória, com o êxito quase inesperado de "Rocky Balboa", que ele mesmo estrelou e dirigiu e que arrecadou mais de 150 milhões de dólares mundo afora - provando que sua popularidade ainda estava longe de diminuir. Mas eis que, quase uma década mais tarde, um jovem cineasta negro chamado Ryan Coogler, aplaudido por um filme-denúncia de grande importância - "Fruitvale Station: a última parada" - resolveu que ainda não era hora de aposentar o icônico lutador. Depois de muito insistir com o próprio Stallone, Coogler finalmente o convenceu a abençoar o projeto de "Creed: nascido para matar" - onde Balboa, para surpresa de muitos, é um personagem coadjuvante. Tal demonstração de humildade do ator não passou despercebida - ele levou pra casa o Golden Globe, foi unanimemente elogiado pela imprensa e só não ganhou o Oscar porque Mark Rylance, de "Ponte dos espiões", lhe passou a perna na última hora.

Na verdade, o projeto de "Creed" surgiu antes mesmo da estreia de "Fruitvale Station" - e foi o sucesso do filme, baseado em uma história real, que fez com que o desejo de Ryan Coogler se tornasse realidade. A princípio relutantes em retornar ao universo de Rocky Balboa, tanto Sylvester Stallone quanto o produtor Irwin Winkler só aceitaram diante da ideia proposta pelo jovem diretor: contar não mais uma história sobre Balboa, mas sim utilizá-lo como uma ponte para a introdução de um outro personagem, consistente com a  mitologia dos filmes e de fácil comunicação até mesmo com a plateia que não foi criada tendo Rocky como referência cultural. Surgia assim a história de Adonis Creed, filho bastardo de um antigo rival e amigo do lutador, o igualmente memorável Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros capítulos da série), que aparece na vida de Rocky como uma lembrança do passado e inicia com ele uma relação de pai e filho que ajuda o aposentado atleta a enfrentar uma batalha ainda mais dolorosa e aparentemente invencível: um câncer.


A relação entre Creed e Balboa acabou sendo o principal atrativo para Stallone, que durante a pré-produção teve que lidar com um golpe dos mais devastadores: a morte de seu filho Sage, aos 36 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. Em uma ironia das mais cruéis, o veterano ator estava em vias de fazer um filme que tinha como um dos principais temas um relacionamento paternal e tinha sua vida pessoal virada do avesso com uma perda irreparável. Inteligente, Coogler usou tal tristeza a seu favor: não apenas fez o ator perceber que o trabalho lhe faria bem como explorou ao máximo o sentimento de finitude que ele vinha experimentando. O resultado não poderia ter sido melhor, e a crítica reconheceu: desde "Copland" (97), Stallone não recebia elogios tão calorosos a uma atuação, e a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (na condição inédita de favorito) apenas coroou um sucesso também comercial. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares apenas no mercado doméstico, "Creed" comprovou a perenidade de Rocky Balboa no coração do público.

Mas, apesar do apelo de Stallone junto às plateias, é injusto creditar apenas a ele o êxito de "Creed": com um roteiro que não tenta inventar a roda e faz uso apropriado de todos os clichês que fizeram da série um fenômeno cultural, Ryan Coogler  criou uma história universal de amor - aos amigos, à família, à namorada, ao esporte. E de quebra , acertou em cheio ao escolher seu ator principal. Carismático e talentoso, Michael B. Jordan já havia trabalhado com o diretor em "Fruitvale Station" - e foi responsável por boa parte da recepção positiva ao filme. Em "Creed" ele demonstra ainda mais poder de fogo ao dividir suas cenas com um monstro sagrado como Stallone e não se deixar eclipsar. Na pele de Adonis Creed, o jovem ator vai da fúria à tristeza, da solidão à paixão e do medo à ousadia em um piscar de olhos - e leva a plateia junto, até o final (quase previsível, mas ainda assim emocionante como nos melhores momentos dos filmes da série). Uma bem-vinda injeção de sangue novo em um personagem constantemente em reinvenção, "Creed: nascido para lutar" é um programa e tanto para os fãs - e até para aqueles raros espectadores que nunca ouviram falar em Rocky Balboa.

segunda-feira

PUNHOS DE AÇO

PUNHOS DE AÇO (Hands of stone, 2016, Fuego Films/Epicentral Studios/La Piedra Films, 111min) Direção e roteiro: Jonathan Jakubowicz. Fotografia: Miguel Ioann Littin Menz. Montagem: Ethan Maniquis. Música: Angelo Milli. Figurino: Bina Daigeler. Direção de arte/cenários: Tomas Voth/Denise Camargo, Amy Williams. Produção executiva: Ricardo Del Rio, Robin Duran, George Edde, David Glasser, Bill Johnson, Max Keller, Kamel Krifa, Jim Seibel, Benjamin Silverman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Sammy Weisleder. Produção: Carlos Garcia de Paredes, Claudine Jakubowicz, Jonathan Jakubowicz, Jay Weisleder. Elenco: Edgar Ramírez, Robert DeNiro, Usher Raymond IV, Ruben Blades, Ellen Barkin, John Turturro, Ana de Armas. Estreia: 16/5/16 (Festival de Cannes)

Em 1980, o ator Robert DeNiro conquistou as melhores críticas de sua carreira (além de muitos e cobiçados prêmios, incluindo o Oscar) por seu desempenho inesquecível do lutador Jake LaMota, em "Touro indomável", dirigido por Martin Scorsese. Trinta e seis anos mais tarde, já consagrado como intérprete mas constantemente subaproveitado pela indústria hollywoodiana, ele mudou de lado: em "Punhos de aço" De Niro vive Ray Arcel, um dos mais notáveis treinadores de boxe da história do esporte, e o primeiro a ser homenageado no Hall da Fama do Boxe, em 1991. Substituindo a primeira escolha para o papel - seu colega de geração e admiração dos fãs de cinema, Al Pacino - e aceitando modestamente ficar em segundo plano em um roteiro que retrata Arcel como coadjuvante, o veterano ator quase rouba a cena no filme do venezuelano Jonathan Jakubowicz - só não o faz porque quem lidera o elenco, na pele do boxeador Roberto Duran, é o excelente Edgar Ramírez (que, por sua vez, também foi a segunda escolha do cineasta, depois da desistência de Gael García Bernal).

Já conhecido pelo público dos festivais de cinema graças a seu desempenho em "De coração aberto" (de 2012, atuando ao lado de Juliette Binoche) e na elogiada minissérie "Carlos, o Chacal" (2010), Ramírez mostra que tem talento o suficiente para não se deixar intimidar pela presença de DeNiro e entrega uma performance fascinante. Mesmo que o roteiro de Jakubowicz não seja exatamente um primor de criatividade e ousadia, o trabalho de seu protagonista consegue transformar leite em pedra: em boa parte devido à história emocionante e surpreendente de Roberto Duran (um ídolo do esporte panamenho) e sua improvável trajetória, Ramírez dribla com competência os clichês do gênero e as armadilhas melodramáticas e entrega uma atuação memorável, valorizada pela direção discreta e pela edição ágil. Dividindo sua narrativa em duas partes bem definidas - que valorizam qualidades diferentes de seu personagem principal - e sem tentar esconder sua admiração pelo protagonista, "Punhos de aço" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo drama sobre esportes e uma interessante e imprevisível lição de vida (sem nunca escorregar no açúcar).


Um ídolo do Panamá (onde sempre foi visto como uma espécie de Robin Hood, distribuindo dinheiro e ajuda para a população mais carente), Roberto Duran é o protagonista ideal para uma história de superação: começando a lutar com apenas 16 anos de idade para fugir de uma vida de criminalidade, tornou-se um campeão por esforço próprio, desafiando seus oponentes com a mesma ironia e desembaraço que apresentava nos ringues. O filme de Jakubowicz centra sua história (com exceção de alguns flashbacks) na relação entre Duran e Ray Arcel (DeNiro), um dos mais respeitados treinadores de boxe de sua geração, que entra na vida do ousado lutador para conduzí-lo à vitória contra o famoso Sugar Ray Leonard (o cantor Usher, assinando como Usher Raymond IV). O resultado da disputa é surpreendente - e o que vem depois disso é ainda mais inacreditável. Mesmo sendo uma história real (e de certa forma razoavelmente conhecida, especialmente pelos fãs do esporte), a luta de Duran para voltar aos ringues é emocionante na medida certa: não apela para lágrimas fáceis nem tampouco minimiza os acontecimentos. Edgar Ramírez está impecável em todas as transições que seu personagem exige - e elas são muitas - e convence sem aparentar muito esforço: é difícil não acreditar que ele "é" Roberto Duran, desde seus ataques de arrogância até suas crises de insegurança; de seus momentos em família e de sua relação quente com aquela que seria sua esposa, Felicidad (Ana de Armas).

Um filme honesto e realizado com o coração, "Punhos de aço" acabou por ser praticamente ignorado nas bilheterias americanas, onde mal passou dos sete milhões de dólares de arrecadação (contra um custo estimado de vinte). Mais um sinal do lançamento sem grande pompa do que reflexo de suas qualidades, a falta de sucesso comercial apenas impediu que o público tivesse acesso a uma produção simpática e que conta uma história que merece ser conhecida, tanto por sua força dramática quanto por seus personagens fortes e carismáticos. Uma pequena pérola a ser devidamente reconhecida - talvez não como um grande filme, mas ao menos como um filme bem-intencionado que consegue o que é cada vez mais raro: comunicar-se com a plateia, seja ela qual for.

sábado

SANGUE PELA GLÓRIA

SANGUE PELA GLÓRIA (Bleed for this, 2016, Verdi Productions, 117min) Direção: Ben Younger. Roteiro: Ben Younger, estória de Ben Younger, Pippa Bianco, Angelo Pizzo. Fotografia: Larkin Seiple. Montagem: Zachary Stuart-Pontier. Música: Julia Holter. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Kay Lee/Kim Leoleis. Produção executiva: David Gendron, Michael Hansen, Myles Nestel, Joshua Sason, Martin Scorsese, Michelle Verdi, Lisa Wilson. Produção: Bruce Cohen, Noah Kraft, Pamela Thur, Emma Tillinger Koskoff, Chad A. Verdi, Ben Younger. Elenco: Miles Teller, Aaron Eckhart, Ciarán Hinds, Katey Sagal, Ted Levine, Amanda Clayton. Estreia: 02/9/16 (Festival de Teluride)

Em 2005, o diretor Ben Younger lançou a comédia romântica "Terapia do amor", estrelada por Meryl Streep e Uma Thurman - que revelava um senso de humor inteligente e com altas doses de realismo. Demorou, no entanto, mais de dez anos para que o cineasta voltasse para trás das câmeras - e surpreendentemente, com um filme radicalmente diferente do anterior. Uma história real, dramática e inspiradora, "Sangue pela glória" pode não ser exatamente original, revolucionário ou mesmo marcante, mas, realizado pela mísera quantia de seis milhões de dólares e filmado em meros 24 dias (segundo o próprio Younger), é uma produção honesta e simpática, valorizada pela atuação de Miles Teller, um jovem ator em ascensão que demonstra comprometimento e dedicação a cada novo trabalho. Assumindo de corpo e alma o protagonismo de uma história tão inacreditável quanto emocionante, Teller demonstra segurança necessária para tornar críveis mesmo algumas reviravoltas que, em mãos menos competentes, poderiam soar totalmente inverossímeis - apesar de terem realmente acontecido.

Parte de uma série de filmes que inclui os já clássicos "Rocky, um lutador" (1976), "Touro indomável" (1980) e "Menina de ouro" (2004), "Sangue pela glória" nem de longe tenta ser ousado em sua narrativa, seja ela visual ou verbal. O roteiro - escrito pelo próprio diretor - é simples, linear e sem grandes arroubos de criatividade, preferindo manter seu diálogo direto com a plateia ao invés de buscar artifícios modernosos. A edição segue a mesma ideia, assim como a fotografia naturalista, que evita filtros e efeitos para concentrar-se no desenvolvimento da trama: tudo no filme segue a mesma linha de extrema discrição, o que é uma espécie de alento em uma época em que qualquer produção sonha em ser épica. No entanto, essa sutileza em excesso também acaba por prejudicar um pouco o resultado final: por mais talentoso que Teller seja, por mais dramática que seja a história contada, sua conexão sentimental com a plateia não é tão satisfatória quanto poderia: ao abdicar de grandiosidade, Younger também opta por fugir do sentimentalismo - por consequência, impede uma maior empatia do público com seu personagem central.


Vinny Pazienza é um jovem lutador de boxe, talentoso e quase arrogante, que se dedica ao esporte com a mesma intensidade com que costuma apostar em cassinos e desafiar campeões de sua categoria. No auge de sua ascensão profissional, no início da década de 90, ele sofre um violento acidente de carro e, em consequência disso, vê ameaçada até mesmo a possibilidade de voltar a andar. Depois de passar por um doloroso e sacrificante tratamento, porém, Vinny resolve provar a todos que é capaz não apenas de caminhar novamente, mas de voltar aos ringues. Com a ajuda de seu treinador, Kevin Rooney (Aaron Eckhart), o rapaz desafia o próprio destino e surpreende a família, os amigos e o público ao anunciar que está pronto para voltar ao boxe - em uma categoria superior àquela de antes do acidente. Seu pai, Angelo (Ciarán Hinds), a princípio temeroso dos resultados da quase irresponsabilidade do filho, acaba por ser de crucial importância para sua autoconfiança - que inspira todos à sua volta.

Quem assistir à "Sangue pela glória" procurando por um grande filme, inesquecível e intenso, certamente irá se decepcionar, uma vez que o roteiro apresenta todos os clichês possíveis do gênero (herói sofredor que dá a volta por cima, o treinamento desgastante, o treinador compreensivo, o clímax final). Porém, quem buscar um entretenimento rápido e competente dentro de suas limitações, irá encontrar nele uma pequena pérola. Miles Teller tem carisma o bastante para conquistar o espectador, Aaron Eckhart está irreconhecível como Rooney, as cenas de luta são dirigidas com cuidado e em nenhum momento a narrativa escorrega no piegas. Não é um marco do cinema, mas tampouco uma produção frouxa e desinteressante: é um daqueles filmes que passam rápido, mas que também desaparecem rapidamente da memória. Mas vale pela volta de Younger, um talento a ser desenvolvido.

domingo

UM HOMEM ENTRE GIGANTES

UM HOMEM ENTRE GIGANTES (Concussion, 2015, Sony Pictures, 123min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, artigo "Brain's game" de Jeanne Marie Laskas. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: David Crank/James V. Kent. Produção executiva: Greg Basser, Bruce Berman, David Crockett, Michael Schaefer, Ben Waisbren. Produção: Elizabeth Cantillon, Giannina Scott, Ridley Scott, Larry Shuman, David Wolthoff. Elenco: Will Smith, Alec Baldwin, Albert Brooks, Gugu Mbatha-Raw, David Morse, Arliss Howard, Mike O'Malley, Eddie Marsan, Paul Reiser, Luke Wilson. Estreia: 10/11/15

"Um homem entre gigantes" é um filme corajoso. Não apenas porque dá a Will Smith a chance de mostrar-se um competente ator dramático - mesmo porque ele já fez isso outras vezes, chegando a concorrer ao Oscar de melhor ator em duas ocasiões, por "Ali" (2001) e "À procura da felicidade" (2006). A maior ousadia do filme - que tem Ridley Scott como um de seus produtores - é bater de frente com uma das maiores potências financeiras dos EUA: o futebol americano. Na verdade, quem primeiro teve esse peito foi o médico legista Bennet Omalu, um nigeriano que, sem a paixão pelo esporte cultivada desde o berço, apresentou uma estarrecedora verdade científica que pôs em risco uma das maiores instituições ianques - assim como sua própria vida e de sua família ainda começando. As conclusões de Omalu foram publicadas na matéria "Brain's game", escrita por Jeanne Marie Laskas para a revista GQ, e ficaram à disposição do público interessado, mas colocar um astro do porte de Smith no papel principal de um filme de um grande estúdio (Sony Pictures) para contar uma história que desmistifica uma paixão tão forte não deixa de ser uma atitude valente, e p resultado não poderia ter sido outro: com um orçamento discreto de 35 milhões de dólares, "Um homem entre gigantes" naufragou nas bilheterias americanas, sem cobrir nem mesmo seu custo de produção - e só não passou totalmente em branco nas cerimônias de premiação mais conhecidas porque conseguiu arrancar uma indicação ao Golden Globe de melhor ator dramático. Como se pode perceber, coragem demais às vezes dá muito errado!

Porém, se fracassou comercialmente e em conquistar o voto dos viciados eleitores da Academia, "Um homem entre gigantes" merecia sorte muito melhor. Não apenas é um empolgante drama médico - com elementos de suspense muito bem dosados pelo roteiro do também diretor Peter Landesman - como também é de suma importância por tratar de um assunto normalmente ignorado pela grande mídia: as sérias e fatais consequências de um estilo de vida considerado glamouroso e excitante, mas que esconde, por trás de seus capacetes, a decadência mental e física. Landesman - que tratou sobre o assassinato de John Kennedy no igualmente pouco visto "JFK: a história não contada" (2013) - sabe equilibrar com destreza tanto o lado médico da trama (sem cair em didatismos aborrecidos) quanto o drama pessoal e profissional de seu protagonista (um imigrante negro que bate de frente com a poderosa liga de futebol americano, a temida e respeitada NFL). Acertando em cheio no tom sério e urgente da narrativa, o cineasta (ainda em seu segundo filme) não cai na armadilha do sensacionalismo e foge com inteligência de questões raciais, apelando para os problemas pessoais de Omalu quando estritamente necessário ao andamento da história. Jornalista investigativo antes de tornar-se cineasta, Landesman mantém a sobriedade de sua primeira vocação, com uma produção satisfatória tanto informativa quanto dramaticamente - mérito também do excelente elenco.


Se Will Smith mais uma vez mostra sua competência como ator sério - embora às vezes fique a centímetros do exagero - os coadjuvantes de "Um homem entre gigantes" também são dignos de nota, a começar por David Morse, quase irreconhecível como Mike Webster, o primeiro ex-jogador cujo cadáver cai nas mãos de Bennet Omalu, dando início a uma investigação estarrecedora: morto aos 50 anos, Webster (um ídolo do futebol americano, adorado pelos torcedores e admirado pela sociedade em geral) demonstra, em sua necropsia, severos danos cerebrais, incompatíveis com sua idade. Mesmo indo contra ordens superiores, o médico resolve fazer exames mais detalhados - e outras duas mortes de jogadores aposentados que apresentavam comportamento errático e mentalmente desequilibrado o levam até a conclusão de que todos sofriam de um mal causado pelas constantes concussões sofridas durante as partidas de futebol. Apoiado por outros médicos, ele conta também com a ajuda de Julian Bailes (Alec Baldwin), que fica a seu lado quando a liga de futebol americano resolve desacreditá-lo - ou, pior ainda, usar de ameaças reais para impedi-lo de revelar a verdade e colocar em risco uma das mais sólidas instituições do país.

Até mesmo quando se distancia um pouco do tema central e inclui uma história de amor no roteiro - Omalu se apaixona e casa com a jovem Prema (Gugu Mbatha-Raw), imigrante a quem ele hospeda a pedido de amigos -, o filme de Landesman não perde o ritmo e o interesse. Ao contrário de ser apenas um alívio romântico, o relacionamento entre o casal serve para definir o tamanho das perdas a que o protagonista se arrisca quando entra como um Davi na luta contra o Golias representado pelo corporativismo das instituições esportivas norte-americanas. Os momentos de suspense surgem quando Prema, grávida,  passa a ser o principal alvo dos inimigos do marido, cada vez mais ávido em provar não apenas que está certo (e que se não houver mudanças outras mortes irão ocorrer) mas também em mostrar que sua formação na África não faz dele um médico com menos qualidades e competência do que seus colegas americanos. Essa forma sutil de tocar ainda no preconceito é outro pequeno grande trunfo de "Um homem entre gigantes", um filme que merece ser valorizado por suas qualidades dramáticas, por sua temática relevante e pela coragem de expor ao grande público uma verdade que - apesar de tudo - parece não ter mudado muita coisa na mentalidade dos magnatas do esporte. Um belo filme e mais uma bela atuação de Will Smith!

terça-feira

NOCAUTE

NOCAUTE (Southpaw, 2015, Escape Artists/Fuqua Films, 124min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Melissa Lombardo. Produção executiva: David Bloomfield, Cary Cheng, Jonathan Garrison, Stuart Parr, David Ranes, Paul Rosenberg, David Schiff, Dylan Sellers, Kurt Sutter, Ezra Swerdlow, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Gillian Zhao. Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Antoine Fuqua, Alan Riche, Peter Riche, Steve Tisch, Jerry Ye. Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris, Victor Ortiz. Estreia: 15/6/15 (Festival de Xangai)

A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.

A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.


Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.

Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.

quinta-feira

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

quarta-feira

RUSH - NO LIMITE DA EMOÇÃO

RUSH: NO LIMITE DA EMOÇÃO (Rush, 2013, Imagine Entertainment/Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tobin Armbrust, Tim Bevan, Guy East, Todd Hallowell, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Andrew Eaton, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard, Peter Morgan, Brian Oliver. Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Bruhl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Pierfrancesco Favino, David Calder. Estreia: 02/9/13 (Festival de Londres)

O diretor Ron Howard tem uma forte tendência a recriar, em seus filmes, histórias reais de superação e/ou rivalidade. Foi assim em "Apollo 13", "Uma mente brilhante", "A luta pela esperança" e "Frost/Nixon". É assim também em "Rush, no limite da emoção", que ilumina a rivalidade levada às raias da obsessão entre os pilotos de Fórmula 1 James Hunt e Niki Lauda, concentrando sua narrativa na emocionante temporada de 1976, uma das mais sensacionais da história do automobilismo. Contando com um roteiro enxuto e direto de Peter Morgan - autor dos scripts de  "O aviador", "A rainha" e "Frost/Nixon", entre outros menos cotados - o filme de Howard é uma aula de narrativa visual, que consegue conquistar a admiração e a atenção até mesmo daqueles que veem o esporte que consagrou Ayrton Senna com absoluta indiferença.

Apesar de começar sua narrativa quando os protagonistas ainda estão engatinhando na Fórmula 3 - até como forma de estabelecer a idade de sua rivalidade, concentrada basicamente em seus diferentes modos de ver a carreira e lidar com a pressão das montadoras - "Rush" tem o bom senso de não tentar contar toda a história de vida dos dois pilotos, preferindo ater-se à tensão da temporada 1976, quando sua briga atingiu o auge. Contando sua história com imagens poderosas e uma edição impecável, Howard equilibra com perfeição os momentos mais pessoais dos protagonistas - como suas relações matrimoniais - com sequências abismais de corrida, fotografadas como nenhuma outra até hoje, que praticamente leva o espectador para o meio das pistas. O realismo das cenas é um dos maiores méritos do filme, que, além disso, não deixa de lado a construção dramática de seus personagens e dá a seus atores chances extraordinárias de mostrar serviço.


Se Chris Hemsworth consegue deixar pra trás seu personagem mais famoso até então, o super-heroi Thor, em um trabalho bastante eficiente - apesar de seu James Hunt ser extremamente apropriado a seu físico e à persona que ele vem construindo em sua carreira - é Daniel Bruhl quem brilha na pele do rígido e focado Niki Lauda, um homem obcecado com sua profissão a ponto de arriscar a vida para provar seu talento. Injustamente esquecido pelas indicações ao Oscar de coadjuvante - apesar de ser tão protagonista (ou mais) quanto Hemsworth, foi nessa categoria que ele concorreu ao Golden Globe - Bruhl está irreconhecível sob a maquiagem que o transforma no piloto austríaco e não tem medo de retratá-lo como alguém quase desagradável, em especial diante do carisma de Hunt. Sempre que estão juntos em cena, os dois atores fascinam o público, com uma química de causar faíscas, bastante valorizada pelos ótimos diálogos de Morgan, que enfatizam sem didatismo as diferenças cruciais entre os dois - e suas semelhanças óbvias.

A rivalidade entre os dois - que remete, guardadas as devidas proporções, ao multipremiado "Amadeus", de Milos Forman, que falava sobre Mozart e Salieri - é o ponto alto de "Rush". É sua discussão sobre as diferentes formas com que os gênios lidam com seus dons que move o filme, que permanece na memória do espectador como o melhor retrato da Fórmula 1 já mostrado no cinema. Mesmo que o final da história seja conhecido - ou de fácil acesso em tempos de Internet - é impossível tirar os olhos da tela. Graças ao conjunto de qualidades, é um dos melhores filmes da temporada 2013, infelizmente ignorado pela Academia até mesmo nas categorias técnicas - um trabalho irretocável e admirável. Um filme que certamente será valorizado ainda mais com o passar dos anos.

quinta-feira

INVICTUS

INVICTUS (Invictus, 2009, Warner Bros, 134min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Anthony Peckham, livro "Playing the enemy: Nelson Mandela and the game that made a nation", de John Carlin. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox, Gary D. Roach. Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: James J. Murakami/Leon Van Der Merwe. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Morgan Freeman, Tim Moore. Produção: Clint Eastwood, Robert Lorenz, Lori McCreary, Mace Neufeld. Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge. Estreia: 03/12/09

2 indicações ao Oscar: Ator (Morgan Freeman), Ator Coadjuvante (Matt Damon)

Desde que "Os imperdoáveis" saiu da festa de entrega do Oscar 93 com quatro estatuetas - incluindo melhor filme e diretor - o cineasta Clint Eastwood tornou-se figurinha fácil nas cerimônias da Academia. O sucesso de filmes como "Sobre meninos e lobos" (que premiou Sean Penn como melhor ator e Tim Robbins como coadjuvante), "Menina de ouro" (que lhe deu mais um prêmio de direção, além de ter conquistado também as láureas de melhor filme, atriz - Hilary Swank - e ator coadjuvante - Morgan Freeman) e "Cartas de Iwo Jima" (que perdeu o Oscar principal para "Os infiltrados", de Scorsese, mas chegou aos cinco finalistas) apenas confirmou o carinho dos votantes por sua filmografia, caracterizada pela simplicidade técnica e força dramática. Quando "Invictus" chegou às telas, então, a especulação sobre novas indicações nas categorias principais do Oscar era das maiores: além do nome de Eastwood na direção, havia Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela, e o roteiro, baseado em fatos reais, falava sobre tolerância e união entre os diferentes - tema socialmente relevante e apropriado às ambições da Academia. Porém, para surpresa de muitos, mesmo em um ano em que o número de indicações a Melhor Filme dobrou de cinco para dez, a obra do eterno Dirty Harry ficou de fora das principais categorias, sendo lembrado apenas para melhor ator (Freeman) e ator coadjuvante (Matt Damon). Foi justo. Apesar de tecnicamente impecável, a adaptação do livro de John Carlin é um filme repleto de boas intenções, mas carregado de clichês.

Resumido à sua essência, "Invictus" conta como Nelson Mandela, presidente recém-eleito da África do Sul, contou com a seleção de rúgbi de seu país - um esporte considerado de elite e distante do povo que o elegeu - para unir todos os seus conterrâneos, brancos e negros, em uma mesma sintonia. Porém, não é apenas a história, forte e inspiradora por si mesma, que interessa a Eastwood em seu filme. Ao falar de tolerância, união e persistência, o cineasta entrega à plateia mais do que simplesmente uma produção sobre esportes ou uma propaganda pacifista: assim como em grande parte de seu currículo como diretor, seu filme discorre, nas entrelinhas, sobre pessoas e suas interrelações, sobre sentimentos nobres e boa vontade a respeito das diferenças. Surpreendentemente é como, ao contrário do que acontece na vasta maioria de sua filmografia - que versam, entre outras coisas, sobre o lado mesquinho do ser humano, sobre o peso das decisões e a inevitabilidade do destino - ele se permite, em "Invictus", um otimismo raro e muito bem-vindo.


Mesmo com todas as suas boas intenções e suas cenas de rúgbi esplendidamente fotografadas e editadas, falta a "Invictus" a coragem de sair da zona do previsível. Extremamente didático e muitas vezes beirando um sentimentalismo quase constrangedor, o filme cresce quando deixa que a emoção silenciosa ultrapasse os diálogos - é particularmente intensa, por exemplo, a sequência em que a equipe de rúgbi visita as instalações onde Mandela esteve preso antes de sua eleição. Ao mesmo tempo, é admirável como o filme consegue, mesmo resvalando constantemente nos clichês, agradar ao público, oferecendo a ele uma história contada sem novidades, mas de forma redonda e embalada em um visual atraente o bastante para que seus defeitos passem despercebidos. Além disso, Morgan Freeman, excelente ator que é, constroi um Nelson Mandela carismático e, se não chega a arrebatar como o fez Forest Whitaker na pele de Idi Amin em "O último rei da Escócia", entrega à audiência o que é esperado dele. O que é discutível é a indicação de Matt Damon ao Oscar de ator coadjuvante: na pele de François Pienaar - principal aliado de Mandela em seu objetivo de unir o país através do esporte - o vencedor do Oscar pelo roteiro de "Gênio indomável" pouco tem a fazer em termos de atuação, servindo quase como apoio a Freeman.


Em suma, "Invictus" é um filme com a qualidade narrativa e o cuidado que se espera de um filme de Clint Eastwood. É conduzido com elegância e bom gosto, carrega na sensibilidade sem soar piegas, apresenta uma parte técnica irrepreensível - a partida final disputada pela seleção africana é mostrada de forma eletrizante - e um elenco formidável. Mas peca em se deixar levar pelo didatismo em momentos cruciais e forçar a emoção com diálogos empolados e pouco naturais. Ainda assim, uma obra acima da média.

terça-feira

O LUTADOR

O LUTADOR (The wrestler, 2008, Wild Bunch/Protozoa Pictures, 109min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcostt. Direção de arte/cenários: Tim Grimes/Theo Sena. Produção executiva: Vincent Maraval, Agnès Mentre, Jennifer Roth. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin. Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis. Estreia: 05/9/08 (Festival de Veneza)

2 indicacões ao Oscar: Ator (Mickey Rourke), Atriz Coadjuvante (Marisa Tomei)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Drama (Mickey Rourke), Canção ("The wrestler") 

Poucos atores tiveram seu auge e decadência tão nitidamente marcados diante do público quanto Mickey Rourke. O símbolo sexual que mexeu com a cabeça e a libido das mulheres em "9 1/2 semanas de amor" e o ator intenso e talentoso que entusiasmou a crítica no barra-pesada "Coração satânico" - ambos de 1986 - parecia ter um futuro brilhante pela frente, até que escolhas equivocadas na carreira, uma vida pessoal atribulada (com escândalos frequentes a respeito de violência doméstica) e uma surpreendente tentativa de tornar-se boxeador enterrou sua credibilidade e tornou seu rosto - que tanto havia encantado as plateias - uma triste constatação dos males provocados pelos excessos. Quando tudo aparentava estar perdido, porém, Rourke pegou o mundo de surpresa: primeiro ressurgiu em "Sin City, a cidade do pecado" na pele do anti-heroi Marv, um dos maiores destaques do filme de Robert Rodriguez. E três anos depois, ressurgido das cinzas, saiu louvado do Festival de Veneza por seu trabalho em "O lutador", de Darren Aronofsky, que foi eleito o melhor filme - só não carregou a estatueta de melhor ator porque as regras do festival impediam que a mesma obra fosse homenageada em ambas as categorias. Em um papel que caiu como uma luva para seu momento, Rourke calou a boca daqueles que consideravam sua carreira encerrada e ainda, de quebra, ganhou o Golden Globe e foi indicado ao Oscar - que perdeu para Sean Penn, outro rebelde domado. Uma volta por cima como Hollywood adora - mas que infelizmente não teve continuidade graças ao comportamento errático do próprio ator.

Esse comportamento irresponsável de Rourke, aliás, quase lhe custou a chance de retornar às boas graças da crítica e do público: mesmo sabendo que o papel principal havia sido escrito com o ator em mente, o estúdio produtor não tinha a menor intenção de tê-lo no elenco, a ponto de Nicolas Cage ter começado a fazer pesquisas para estrelar o filme e Aronofsky ter considerado Sylvester Stallone como astro. A sorte parecia estar do lado de Rourke, no entanto: Cage desistiu do projeto por achar que não teria tempo suficiente para preparar-se, e o diretor chegou à conclusão de que a escalação de Stallone faria o filme ficar perigosamente semelhante à "Rocky Balboa" (06) - com quem divide o tom elegíaco e a trama familiar. Quando teve a chance de contar com Rourke, no entanto, o cineasta se surpreendeu com uma recusa - o ator não gostou do roteiro e nem era especialmente simpático às lutas livres profissionais. Insistente, Aronofsky alterou boa parte dos diálogos... e finalmente "O lutador" tinha seu protagonista. Exímio diretor de atores - foi ele quem levou Ellen Burstyn e Natalie Portman ao páreo do Oscar por "Réquiem para um sonho" e "Cisne negro", respectivamente - Aronofsky arrancou de Rourke uma atuação visceral, sensível e forte, capaz de, ao mesmo tempo, chocar e emocionar como nunca antes em sua carreira.


As semelhanças entre personagem e intérprete são perceptíveis já na trama central: Rourke vive Robin Ramzinski, um ídolo das lutas-livres profissionais nos anos 80 que, na meia-idade, sobrevive às custas de um remoto passado de glórias, participando de feiras para poucos fãs e lutas comemorativas das quais participa apenas como convidado de honra - mas que não lhe pagam bem o bastante para que ele não precise complementar o orçamento trabalhando como balconista de um supermercado. Um fracassado em todas as frentes, ele costuma afogar as mágoas no bar de strip-tease onde trabalha a mãe solteira Cassidy (Marisa Tomei, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), por quem sente-se atraído romanticamente e a quem tenta desajeitadamente conquistar. É ela quem irá encorajá-lo a consertar outra parte deficiente de sua vida: a filha Stephanie (Evan Rachel Wood), com quem mantém uma relação de fria distância e com quem irá buscar uma aproximação, principalmente depois de um enfarte que pode encerrar sua carreira e sua vida.

Sem medo de retratar o ambiente totalmente desprovido de glamour dos bastidores da luta-livre - e de mostrá-lo de forma dolorosamente realista, sem filtros e meias-verdades - Darren Aronofsky desconstroi todo o romantismo dos filmes do gênero, em cenas cruas e regadas a uma melancolia típica de personagens perdedores e desiludidos. Embalados por uma inspirada trilha sonora - Axl Rose cedeu os direitos de sua "Sweet child o'mine" para o filme por ter gostado do roteiro e Bruce Sprinsgteen compôs a bela canção-título vencedora do Golden Globe e injustamente esquecida pelo Oscar - os lutadores que gravitam ao redor do protagonista são tão desajustados quanto ele, homens que ganham a vida através de uma violência de mentira e são incapazes de romper com um universo opressivo e rarefeito. Esse tom de pessimismo, equilibrado com sensibilidade e as atuações acima da média fazem de "O lutador" um dos dramas mais intensos de sua época, com ou sem Oscar no currículo.

HURRICANE - O FURACÃO

HURRICANE - O FURACÃO (The Hurricane, 1999, Universal Pictures, 146min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Armyan Bernstein, Dan Gordon, livros "The 16th Round", de Rubin "Hurricane" Carter e "Lazarus and the Hurricane", de Sam Chaiton e Terry Swinton. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Christopher Young. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gordon Sim. Produção executiva: Marc Abraham, Irving Azoff, Thomas A. Bliss, Rudy Langlais, Tom Rosenberg, William Teitler. Produção: Armyan Bernstein, Norman Jewison, John Ketcham. Elenco: Denzel Washington, Deborah Kara Unger, Liev Schrieber, John Hannah, Dan Hedaya, Vicellous Reon Shannon, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Debbi Morgan. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Denzel Washington)

Em 1966, o lutador de boxe Rubin "Hurricane" Carter, forte candidato ao título de campeão mundial de peso médio, foi preso, acusado de múltiplo homicídio. Condenado a três penas de prisão perpétua, ele nunca cansou de clamar inocência, chamando a atenção dos ativistas pelos direitos civis dos negros e de personalidades como o lutador Muhamad Ali, a atriz Ellen Burstyn e o cantor Bob Dylan, que inclusive compôs uma canção de protesto narrando os fatos que levaram o atleta à prisão e levantando a clara hipótese de perseguição racial. Tal história, um dos mais contundentes retratos das diferenças sociais dos EUA na década de 60 rendeu dois livros: um, escrito pelo próprio Carter, narrava sua vida repleta de preconceito e violência. O outro, mais inspirador, revelava a relação entre ele e um adolescente negro chamado Lesra, que, se identificando com a biografia do boxeador, convenceu seus tutores canadenses a colaborar na tentativa de um novo julgamento, mais de 30 anos depois de sua condenação. Essa história - escrita pelos professores do rapaz - foi o que serviu de base para "Hurricane, o furacão", a versão cinematográfica que quase deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2000. Dirigido pelo veterano Norman Jewison - cujo "No calor da noite" também tinha o preconceito racial como mote dramático - a história de Rubin Carter chegou às tela cercada de elogios, mas não passou incólume ao teste da realidade: acusado de distorcer os fatos em favor do protagonista, o filme sofre de uma parcialidade que dilui sua denúncia (apesar de não diminuir seu valor como arte).

Fabuloso na pele de Rubin Carter, Denzel Washington levou o Golden Globe de melhor ator dramático, mas perdeu o Oscar para Kevin Spacey, brilhante em "Beleza americana". Alguns chegaram a culpar as controvérsias geradas pelo roteiro do filme - como a criação do personagem Della Pesca, vivido por Dan Hedaya, uma espécie de Javert (de "Os miseráveis", de Victor Hugo) em sua busca incessante pela condenação do protagonista desde sua infância - para enfatizar a conotação racial da perseguição. É possível que tais polêmicas tenham realmente respingado em Denzel, mas o fato é que nem mesmo sua atuação visceral consegue esconder a irregularidade do trabalho de edição e da fragilidade da estrutura do roteiro, que muda de tom e foco repentinamente, prejudicando inclusive o ritmo empolgante de sua primeira hora. Contando praticamente dois filmes em um só - a divisão fica clara entre os dois livros que lhe deram origem - Jewison não consegue manter a unidade de sua narrativa, deixando de lado, por exemplo, a montagem fora de ordem cronológica de seus primeiros minutos, que conquistam a audiência sem muito esforço. O terço inicial do filme, forte e dramático, logo é substituído por um tom mais ameno e pacifíco que, se corresponde às mudanças espirituais do protagonista em seu processo de amadurecimento na cadeia, deixa o produto final com menos força do que poderia se mantivesse a fúria do começo.


A trama já começa com a prisão de Carter, em 1966, juntamente com um amigo, igualmente negro, pela morte de três pessoas em um bar. Reconhecido por uma testemunha ocular retratada no filme como incapaz de tal - e coagida por um policial que persegue o lutador desde que ele ainda era uma criança, ele é imediatamente preso e, depois de um julgamento pouco mostrado em cena (o que dá margem às dúvidas sobre a veracidade de seu rigor histórico) é condenado e, rebelde, impõe sua forte personalidade junto às autoridades policiais, trocando o dia pela noite, estudando seu próprio caso e escrevendo sua biografia, chamada "O 16º round". O livro se torna um sucesso e, sete anos depois, cai nas mãos de um jovem negro chamado Lesra (Vicellous Reon Shannon), que, identificando-se com a história do famoso presidiário, inicia com ele uma correspondência fraternal. Morando no Canadá com três tutores que veem nele um futuro que estava ameaçado pelo descaso paterno e familiar, Lesra acaba por convencer seus amigos a iniciarem uma campanha que exija um novo julgamento para Carter - com base em incoerências durante o processo, eles desejam anular as sentenças.

É difícil não gostar de "Hurricane, o furacão": a direção de atores de Norman Jewison é certeira, extraindo de cada ator a expressão mais correta e apropriada, a trilha sonora de Christopher Young é eficaz, e a história é contada de forma emocionante, ainda que burocrática em seus dois terços finais. Além do mais, Denzel Washington entrega uma performance avassaladora, equilibrando fúria e desespero nas medidas certas. Mas talvez com mais ousadia no roteiro e na direção um filme bom poderia ter se transformado em uma pequena obra-prima. A falta de coragem dos produtores talvez tenha sido o golpe fatal para suas intenções. Mesmo assim, é um dos grandes filmes da temporada 99.

quinta-feira

GUERREIRO

GUERREIRO (Warrior, 2011, Lionsgate, 140min) Direção: Gavin O'Connor. Roteiro: Gavin O'Connor, Anthony Tambakis, Cliff Dorfman, estória de Gavin O'Connor, Cliff Dorfman. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Sean Albertson, Matt Chessé, John Gilroy, Aaron Marshall. Música: Mark Isham. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Dan Leigh/Ron von Blomberg. Produção executiva: Lisa Ellzey, John J. Kelly, David Mimran, Michael Paseornek, Jordan Schur. Produção: Gavin O'Connor, Greg O'Connor. Elenco: Tom Hardy, Joel Edgerton, Nick Nolte, Jennifer Morrisson, Kevin Dunn. Estreia: 09/9/11

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Nick Nolte)

Tommy Riordan (Tom Hardy) volta à sua cidade natal depois de um afastamento de treze anos e reencontra o pai, Paddy (Nick Nolte) tentando abandonar o vício do álcool. Seu retorno tem um objetivo claro: ele quer ser novamente treinado para vencer o Grand Prix de MMA a ser realizado em Las Vegas e, com o dinheiro, cumprir a promessa feita à esposa de seu melhor amigo, morto em combate na Guerra do Iraque. Brendan Conlon (Joel Edgerton) é um professor de Física que está prestes a perder a casa onde mora com a esposa e as filhas pequenas (uma das quais tem uma doença cardíaca) e que vê no Grand Prix a chance de recuperar a propriedade e o amor-próprio - e apesar de ser considerado um azarão, jamais perde a esperança de vencer o torneio. Os dois homens, com interesses extremos na glória e no dinheiro, chegam juntos à disputa. Os dois tem um passado complicado - Tommy cuidou sozinho da doença da mãe, e Brendan ficou ao lado do pai mesmo sabendo não ser seu preferido. E os dois tem algo mais em comum: são irmãos.

Não deixa de ser fascinante perceber que, mesmo com todo o poderoso marketing que define o que deve ou não ser visto pelo público ainda seja possível descobrir pérolas que foram ignoradas injustamente pelo público. É o caso de "Guerreiro", que apesar de ter estreado em setembro de 2011 nos EUA saiu diretamente em DVD no Brasil. Injustiça pura! O filme do irlandês Gavin O'Connor (que também é ator e faz uma pequena participação como comentarista do torneio) é um emocionante drama esportivo que utiliza a seu favor todos os clichês do gênero e os entrega ao público com absoluta sinceridade. Sem jamais dedicar-se somente ao esporte que enfoca (cada vez mais popular no Brasil, como provam os UFC da vida), o roteiro cede espaço o bastante para que o espectador compactue com os problemas pessoais de seus protagonistas, se envolvendo aos poucos com suas vidas e sentimentos. Comparado por boa parte da crítica com "Rocky, um lutador", o filme de O'Connor - que também falou de problemas familiares em "Força policial" - é superior ao oscarizado trabalho estrelado por Sylvester Stallone em muitos fatores.


O principal fator de dá vantagem a "Guerreiro" em relação a "Rocky" é o fato de seus protagonistas serem mais críveis do que a personagem de Stallone. Enquanto Rocky era quase um deficiente mental com sua ingenuidade excessiva, Tommy e Brendan tem personalidades fortes e bem definidas, com raivas, rancores e sentimentos muito mais interessantes (não deixa de ser fascinante também o fato de o público ficar dividido no clímax do filme). No roteiro co-escrito pelo diretor não há heróis ou vilões e sim pessoas com defeitos e qualidades. É sintomático que, além das cenas de luta extremamente bem coreografadas, os momentos dramáticos sejam também bastante comoventes (em especial quando se conta com o trabalho excepcional de Nick Nolte, merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante).

"Guerreiro" é um filmaço, capaz de emocionar e empolgar qualquer tipo de audiência (até mesmo aquelas que não fazem a menor ideia do que seja MMA ou UFC). É humano e verdadeiro como "O vencedor" tentou ser e não chegou a conseguir. E ainda conta com dois atores centrais que ainda vão dar muito o que falar: Tom Hardy fez o vilão Bane em "O Cavaleiro das Trevas ressurge" e Joel Edgerton roubou a cena de Leonardo DiCaprio e Tobey Maguire na versão de "O grande Gatsby" dirigida por Baz Luhrmann. Juntos em cena, eles deixam impossível ao espectador desviar os olhos.

sábado

O VENCEDOR

O VENCEDOR (The fighter, 2010, Closest to the bone Productions, 116min) Direção: David O. Russell. Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, estória de Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Pamela Martin. Música: Michael Brook. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Gene Serdena. Produção executiva: Darren Aronofsky, Keith Dorrington, Eric Johnson, Tucker Tooley, Leslie Varrelman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo. Estreia: 10/12/10

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams/Melissa Leo), Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)

“O vencedor” não é apenas o primeiro da série de três filmes do cineasta David O. Russell que conquistou a Academia de Hollywood a ponto de chegarem a concorrer aos Oscar de filme, direção e roteiro: é, também, o que melhor soube se aproveitar do estilo despojado e espontâneo do diretor, depois tornado regra e, consequentemente, diluído nos bastante inferiores “O lado bom da vida” (12) e “Trapaça” (13). Baseado no drama real do lutador de boxe Dicky Ecklund – uma lenda em sua comunidade e que viu sua carreira escorrer pelo ralo graças ao vício em heroína – o filme de Russell faz uso inteligente das atuações viscerais e orgânicas de seu elenco principal (seu principal destaque) ao contar uma história onde o esporte divide espaço com as relações familiares de um clã tão disfuncional e problemático quanto interesseiro. Deixando sua câmera circular por um ambiente suburbano quase palpável em sua decadência, o cineasta acerta no registro que beira o documental, mas peca em deixar que tanta liberdade atrapalhe o ritmo da narrativa. No fim das contas, “O vencedor” é um filme acima da média, mas bastante irregular.
 Um diretor adepto do naturalismo – o que contraria a condução de seu trabalho mais conhecido até então, a comédia de guerra “Três reis” (00), realizada dentro dos padrões mais tradicionais do gênero – Russell frequentemente deixa que o trabalho de seus atores comande a dinâmica das cenas de seus filmes, e tal tendência fica extremamente clara em “O vencedor”, uma obra totalmente calcada em seus (ótimos) atores e que em determinados momentos sofre de uma evidente fragilidade de estrutura dramática. A opção estética de Russell em tratar sua história em forma semi-documental remete à maior das obras-primas sobre o mundo do boxe, o brilhante “Touro indomável” (80), de Martin Scorsese (que também privilegia a energia dos atores em detrimento de um andamento mais convencional), mas é covardia comparar os dois filmes: enquanto Scorsese mergulha fundo na alma e nos demônios de Jake La Motta (interpretação inesquecível de Robert DeNiro), Russell prefere se manter à margem dos dramas de seu protagonista – que surpreendentemente, não é Dicky Ecklund, e sim seu irmão mais jovem, Micky Ward, interpretado com segurança por Mark Wahlberg – como uma espécie de voyeur de luxo. É inegável que tal opção combina com seus métodos de direção, mas também é flagrante que é somente em alguns (raros) momentos em que se permite um pouco mais de emoção que o filme realmente conquista seu público.


Na maior parte do tempo “O vencedor” acompanha a complicada tentativa de Micky em tornar-se um campeão de boxe, a despeito da pressão exercida sobre ele por sua mãe, a ambiciosa e por vezes cruel Alice (Melissa Leo) e pelo resto de sua família – um grupo de irmãs cafonas e histéricas e seu patético irmão mais velho, Dicky, que passa os dias enchendo o organismo de drogas enquanto relembra um passado que considera glorioso. Considerando-se os donos de Micky, Dicky e Alice armam uma cruzada impiedosa contra sua nova namorada, Charlene (Amy Adams), uma garçonete que não tem medo de enfrentar a corja que cerca o rapaz e o conduz em direção ao sucesso no esporte. Dividindo seu tempo entre as brigas entre os dois lados da questão (com muita gritaria, tapas e desaforos) e as batalhas de Micky dentro dos ringues, “O vencedor” flui sem maiores problemas – graças à edição competente também indicada ao Oscar – mas poucas vezes chega a realmente encantar. Para sorte de Russell, seu elenco se responsabiliza por segurar (e muito bem) as pontas.
Na pele de Charlene, Amy Adams foi indicada à estatueta de coadjuvante feminina, mas perdeu para sua colega de cena Melissa Leo, que rouba a cena sempre que surge na pele da peruíssima e desagradável Alice. Brilhante, Leo teve sua vitória contestada devido à feroz campanha feita por ela junto aos membros eleitores – algo não exatamente proibido pelas regras da Academia, mas no mínimo constrangedor – porém é difícil não reconhecer sua entrega ao papel, especialmente quando precisa fazer frente à interpretação impecável de Christian Bale, que levou o Oscar de ator coadjuvante. Macérrimo na pele de Dicky, o ator inglês confirma com sua atuação o que todo mundo já conseguia antever desde sua estreia aos onze anos de idade, em “Império do sol” (87): o fato de que, por trás de sua tão falada arrogância (que o digam os técnicos agredidos por ele nas filmagens de “O exterminador do futuro 4”), existe um ator excepcional, capaz de equilibrar grandes produções comerciais como a trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan com obras menos imponentes e centradas em personagens mais próximos da realidade. A cena em que Melissa e Bale abrem seus corações cantando “I started a joke” é um exemplo perfeito de como “O vencedor” poderia ter sido ainda melhor se lhe tivesse sido permitido ser mais emocional do que racional. 

Para os fãs de boxe “O vencedor” não irá decepcionar – as lutas são bem filmadas, ainda que não cheguem perto da energia de outros filmes com a mesma temática, como “Rocky, um lutador” (76) e “Menina de ouro” (04). Mas é um filme indeciso entre abraçar o lado emotivo de sua história ou focar na glória (ou na decadência) de um esporte cujas possibilidades dramáticas são imensas. Ficando no meio-termo acaba por tornar-se apenas mais um dentre muitos, a despeito de sua calorosa receptividade junto à Academia – que, além dos prêmios de Leo e Bale, ainda lhe indicou às estatuetas de filme, direção, roteiro, atriz coadjuvante (Amy Adams) e edição. Um exagero que o tempo há de deixar ainda mais explícito, apesar das qualidades do filme.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...