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quinta-feira

O GRANDE DITADOR


O GRANDE DITADOR (The great dictator, 1940, Charles Chaplin Productions, 125min) Direção e roteiro: Charles Chaplin. Fotografia: Karl Struss, Roland Totheroh. Montagem: Willard Nico. Música: Charles Chaplin, Meredith Wilson. Direção de arte/cenários: J. Russell Spencer/Edward G. Boyle. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oackie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Grace Hayle. Estreia: 15/10/40

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Charles Chaplin), Ator Coadjuvante (Jackie Oackie), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Por um bom tempo Charles Chaplin desejou realizar um filme sobre Napoleão Bonaparte - e em 1936 já tinha inclusive um script em mente para dar vazão à sua ambição. A ascensão política de Adolf Hitler e Benito Mussollini, no entanto, mudou seus planos: ciente da persona dramática e exagerada do ditador alemão e de suas possibilidades cômicas - além de ter sido alertado do fato de dividir com ele algumas características físicas -, Chaplin resolveu desenvolver uma trama que ridicularizasse o nascente nazismo e seu líder. Nascia, assim, "O grande ditador", que se tornaria o maior sucesso de bilheteria de sua carreira e um dos maiores clássicos do cinema. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme, ator e roteiro original - e celebrado como uma obra-prima corajosa e visionária, o filme não escapou de polêmicas à época de seu lançamento (e muito tempo depois) e sobrevive, até hoje, como uma das realizações fundamentais de seu criador, um dos ícones do cinema m udo.

Primeiro filme totalmente falado de Chaplin, "O grande ditador" começou a incomodar antes mesmo de iniciar suas filmagens. Com medo das represálias que um tema político poderia acarretar em um momento tão crítico, os estúdios tentavam demover o cineasta da ideia de fazer um filme que tinha como protagonista uma representação pouco disfarçada de um dos líderes mundiais. Incentivado por ninguém menos que Franklin D. Roosevelt, porém - que mandou um representante oficial para lhe dar apoio -, Chaplin foi adiante e financiou sozinho uma produção arriscada, demorada (539 dias de filmagens) e cujo sucesso era completamente imprevisível. Mais adiante, o diretor/ator/produtor declararia que, caso soubesse da extensão das atrocidades cometidas em nome de Hitler, jamais teria feito piada sobre o assunto - uma informação negada por pessoas próximas a ele, que afirmam que o avanço do nazismo não o impediu de manter inalterado seu objetivo de criar uma comédia sobre um assunto tão sério. É fato, porém, que quando a produção começou de verdade, em 1937, a violência nazista ainda estava muito aquém daquela que seria nítida em 1940, quando o filme finalmente viu a luz dos refletores - nove meses depois do lançamento de "You natzy spy!", curta-metragem estrelado pelos Três Patetas que entrou para a história como a primeira sátira anti-nazismo do cinema.

 

Depois de pronto, "O grande ditador" tampouco deixou de gerar controvérsia, por motivos óbvios. Banido da Espanha, onde só pode estrear em 1976, meses depois da morte de Francisco Franco, e de todos os países ocupados pela Alemanha, o filme acabou sendo abraçado pelo governo britânico como uma valiosa peça de propaganda - uma bem-vinda mudança de atitude que só aconteceu com a entrada do país na guerra contra Hitler e seus aliados. Nem o próprio Hitler, aliás, segundo consta, deixou de assistir o trabalho de Chaplin: biografias de Eva Braun afirmam, por exemplo, que o veto da produção em todo o território alemão (que vigorou até 1958) não impediu o chanceler germânico de assistir à comédia no mínimo duas vezes - e se divertir com ela. O mesmo não aconteceu, no entanto, com um grupo de soldados que teve a oportunidade de conferir o resultado em uma sessão nos Balcãs - com uma cópia contrabandeada da Grécia, membros da resistência apresentaram o filme aos fieis seguidores de Hitler (ignorantes do conteúdo até depois do começo da sessão) e testemunharam uma revolta que, conforme relatos, resultou até mesmo em tiros em direção à tela. Um resultado até mesmo previsível - principalmente em vista do enorme sucesso comercial do filme, cuja mensagem final, de paz e liberdade, destoavam completamente da beligerante ideologia nazista. 

Mas nem só de ideologia e crítica social vive um filme, e "O grande ditador" é, acima de tudo, excelente cinema. Sem abrir mão de seu genial talento para o humor físico, Charles Chaplin se aproveitou das vantagens do som para criar uma obra-prima que mescla, de forma magistral, sequências visuais impagáveis - especialmente em sua primeira metade e na célebre cena em que o ditador dança com um globo - com piadas verbais fascinantes - os discursos do histérico Hynkel, completamente nonsense, são inesquecíveis. A declaração final do protagonista (o barbeiro judeu confundido com o ditador) não tornou-se um clássico à toa: insistindo em mantê-la na edição definitiva - apesar de conselhos contrários -, Chaplin deixou clara e indelével sua posição em relação à guerra e ao fascismo. Se hoje seu discurso soa tristemente atual, pode-se dizer que, à época, ajudou a construir a ideia de que o cineasta era simpatizante do comunismo - fato que o levou ao exílio voluntário, anos mais tarde. Indicado ao Oscar de melhor ator, perderia para James Stewart (por "Núpcias de escândalo") e só retornaria à cerimônia da Academia em 1972, para receber um prêmio honorário em homenagem à sua contribuição ao cinema. Em 1973, voltou a concorrer - pela trilha sonora de "Luzes da ribalta", realizado em 1952 mas lançado em Los Angeles somente vinte anos mais tarde - e, no Natal de 1977, morreu tranquilamente em sua casa na Suíça, deixando um legado inestimável a públicos de todas as gerações.

 

terça-feira

A CARTA


A CARTA (The letter, 1940, Warner Bros, 95min) Direção: William Wyler. Roteiro: Howard Koch, peça teatral de W. Somerset Vaughm. Fotografia: Tony Gaudio. Montagem: George Amy, Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Carl Jules Weyl. Produção executiva: Hal B. Wallis. Produção: William Wyler. Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson, Frieda Inescort. Estreia: 14/11/40

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Bette Davis), Ator Coadjuvante (James Stephenson), Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original


Em 1940, a Academia de Hollywood ainda era relativamente jovem, mas já tinha o nome de Bette Davis marcado em sua história: em 12 anos, a estrela já tinha dois Oscar para chamar de seu e continuava relevante a ponto de ser uma das maiores estrelas do star system de Hollywood. Seu nome era um chamariz de bilheteria tão poderoso que nem mesmo sua personalidade – forte a ponto de angariar muitos desafetos dentro da indústria – a impedia de ser uma das atrizes mais disputadas pelos grandes diretores de seu tempo. Um desses diretores, William Wyler, não apenas lhe dava a chance de grandes papéis – foi o responsável por “Jezebel” (1938), que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz  - como também não se importava em bater de frente com ela durante as filmagens. Seus épicos embates nos bastidores não atrapalhavam em nada o resultado de seus trabalhos – como se pode comprovar com “A carta”, que rendeu, a ambos, indicações à estatueta dourada e um enorme êxito comercial.

Fã ardorosa do filme – a que considera um de seus melhores trabalhos justamente pela direção de Wyler -, Davis teve um período complicado durante as filmagens, que foi além de seus conflitos com o cineasta. Se Wyler também tinha altercações violentas com outro membro do elenco – James Stephenson, que muitas vezes chegou a abandonar o set por causa de suas divergências artísticas e acabou recompensado com uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante -, Davis passou por maus bocados ao descobrir-se grávida na primeira semana de trabalho e, sem ter certeza do nome do pai da criança que esperava, fazer um aborto sem o conhecimento dos colegas. Nem Wyler – com quem ela já havia tido um romance anteriormente – soube de tais percalços, e nada disso impediu que a atriz entregasse mais um desempenho brilhante, quase mutilado pelos executivos da Warner, preocupados com o tom dúbio do caráter da protagonista, Leslie Crosbie.

  

Criada por W. Somerset Maughan como personagem principal de uma peça de teatro lançada em 1927, Crosbie realmente não cabe no panteão das mocinhas sofredoras e estoicas adoradas pelo público que lotava os cinemas no final da década de 1930 – ainda que a própria Davis fizesse questão de interpretar personagens que destoavam do senso comum da época. Logo na primeira sequência – pouco mais de dois minutos que demoraram um dia inteiro para ficar ao gosto do perfeccionista Wyler – Crosbie atira várias vezes, sem dó, em um homem que cai morto na frente de sua propriedade, uma fazenda de borracha em Cingapura. Esposa de Robert Crosbie (Herbert Marshall), um fazendeiro, ela alega que cometeu o crime como forma de proteger-se do assédio que sofreu durante a ausência do marido. Logo o advogado Howard Joyce (James Stephenson) é contratado para cuidar de seu caso – que tem tudo para ser tratado realmente como legítima defesa. No entanto, uma carta escrita por Leslie à vítima – com um teor romântico que desmente a alegação anterior – pode revelar a verdade sobre o homicídio.

Remake de um filme lançado com Jeanne Eagels em 1929 – que foi indicado ao Oscar de melhor atriz e tinha Herbert Marshall (o Robert da nova versão) no papel da vítima -, “A carta” é um misto de romance e filme pré-noir, com um clima de suspense que não chega a afastá-lo das características de um melodrama típico. Com um final alterado em virtude do famigerado Código Hays – que não permitia que personagens de caráter duvidoso tivesse qualquer possibilidade de final feliz – e uma protagonista que tirou o sono dos executivos da Warner Bros (que imploravam ao diretor que a tornasse mais simpática aos olhos do espectador), o filme de Wyler se escora basicamente em seu elenco impecável. Além de Davis – expressiva como nunca -, “A carta” revelou ao público um ator até então desconhecido e que infelizmente não teve a sorte de colher os louros de seu desempenho. Indicado por Jack Warner em pessoa, James Stephenson agradou em cheio o exigente William Wyler e ganhou o papel do advogado Howard Joyce – apenas para depois ver o próprio Warner recusar a escolha com medo de oferecer um papel tão importante a um ator sem poder de marquise. Coube a Wyler contornar a situação inusitada e convencer o presidente do estúdio de que Stephenson era a melhor opção. O resultado foi uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, um prestígio do qual não pode usufruir por muito tempo – Stephenson morreu inesperadamente, aos 53 anos, de ataque cardíaco, poucos meses depois da entrega das estatuetas. “A carta” acabou sendo seu legado artístico – e sendo ao lado de uma estrela da grandeza de Bette Davis não deixa de ser um senhor legado.

domingo

MINHA ESPOSA FAVORITA

MINHA ESPOSA FAVORITA (My favorite wife, 1940, RKO Radio Pictures, 88min) Direção: Garson Kanin. Roteiro: Bella Spewack, Sam Spewack, estória original de Bella Spewack, Sam Spewack, Leo McCarey. Fotografia: Rudolph Maté. Montagem: Robert Wise. Música: Roy Webb. Figurino: Howard Greer. Direção de arte/cenários: Van Nest Polglase/Darrell Silvera. Produção: Leo McCarey. Elenco: Cary Grant, Irene Dunne, Randolph Scott, Gail Patrick, Ann Shoemaker. Estreia: 02/5/40

3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Trilha Sonora, Montagem

Quando morreu precocemente, em agosto de 1962, a atriz Marilyn Monroe estava no meio das filmagens de "Something's got to give", uma comédia romântica que, logicamente, teve sua produção cancelada após a tragédia - até que, no ano seguinte, fosse rebatizada e, estrelada por Doris Day, chegasse aos cinemas com o título de "Eu, ela e a outra". Em determinada cena do filme - dirigido por Michael Gordon e co-estrelado por James Garner -, sua protagonista descreve a história de um clássico dos anos 40 chamado "Minha esposa favorita". O que poderia ser apenas uma pequena homenagem carinhosa é, na verdade, uma brincadeira dos roteiristas, já que é óbvio para qualquer espectador fã de Cary Grant que não é apenas a citação que remete à comédia romântica, produzida por Leo McCarey: "Eu, ela e a outra" é um remake pouco disfarçado de "Minha esposa favorita", de quem pega emprestado a trama e alguns diálogos literais. Se poucos lembram da produção de 1963, porém, o mesmo não pode ser dito do original: sucesso de bilheteria e crítica, o filme recebeu três indicações ao Oscar (incluindo melhor roteiro) e marcou a segunda colaboração entre Grant e Irene Dunne, um dos casais mais populares da época. Não é de estranhar: divertido e romântico na medida certa, é um passatempo adorável, que resiste ao tempo principalmente graças à química do casal central.

Na verdade, "Minha esposa favorita" deveria reunir não apenas Grant e Dunne, mas também o diretor Leo McCarey, que havia ganho o Oscar pelo filme anterior da dupla, "Cupido é moleque teimoso" (1937). Um violento acidente de carro, porém, tirou McCarey de jogada, para desespero do estúdio e do elenco, já pronto para começar as filmagens. Substituído por Garson Kanin - diretor e roteirista pouco conhecido do grande público -, McCarey permaneceu com o crédito de produtor, mas sem seu toque especial, repleto de sutilezas e um fino humor visual, o filme deixa de ser mais uma pequena obra-prima para ser apenas uma boa e competente comédia romântica, com sequências bastante interessantes dividindo espaço com momentos nem tão inspirados assim. Segundo consta, o grave estado de saúde de McCarey foi de extrema responsabilidade no resultado final: com notícias nada boas chegando a cada dia, o elenco e a equipe precisaram ir além de seu talento natural para manter o clima de alto astral, imprescindível para o sucesso de uma comédia. No final das contas, no entanto, tudo deu mais do que certo: McCarey se recuperou a tempo de realizar grandes sucessos de crítica ("O bom pastor", de 1943, lhe rendeu um segundo Oscar) e "Minha esposa favorita" superou os percalços para se tornar um clássico.





A trama é, por si só, digna das melhores comédias: viúvo há sete anos, desde que sua esposa morreu em um acidente de avião, Nick Arden (Cary Grant) finalmente recebe a oficialização de seu novo estado civil e, para celebrar, já engata novo casamento, dessa vez com Bianca Bates (Gail Patrick). Por uma nefasta coincidência, porém, sua primeira mulher, Ellen Wagstaff (Irene Dunne), como por mágica, reaparece, alegando ter passado os últimos anos presa em uma ilha deserta. Sem saber o que fazer para resolver a situação, Nick esconde o fato de Bianca e tenta lidar com o sentimento que ainda nutre por Ellen - especialmente quando descobre que, durante seu período de "férias", ela teve a companhia do charmoso Stephen Burkett (Randolph Scott), que não parece disposto a abrir mão de sua parceira de aventuras. Nesse meio-tempo, até mesmo o gerente do hotel onde Nick se hospeda com suas duas mulheres se vê envolvido em uma série de mal-entendidos e pequenas trapaças.


O roteiro de Bella e Sam Spewack é pródigo em criar situações hilariantes, que permitem ao elenco demonstrações de um timing preciso - especialmente quando se trata de Cary Grant e Irene Dunne, que deitam e rolam mesmo quando a trama soa um tanto inverossímil. Randolph Scott - que, segundo dizem, foi amante de Grant por mais de uma década - surge em cena como um rival sedutor e atraente, o que dá origem a algumas das melhores cenas do filme. Irene Dunne brinca com uma personagem que foge ao estereótipo da mulher ingênua ou passiva e Cary Grant esbanja carisma ao viver um galã mais atrapalhado do que romântico - que não consegue esconder o ciúme que sente da mulher ressuscitada e ao menos tempo não sabe o que fazer com a nova esposa. Juntos em cena, Grant e Dunne são uma delícia e fazem valer cada minuto. Podem não fazer do filme algo inesquecível, mas poucos casais da era de ouro de Hollywood funcionavam com tanta sintonia.

sábado

AS VINHAS DA IRA


AS VINHAS DA IRA (The grapes of wrath, 1940, 20th Century Fox, 129min) Direção: John Ford. Roteiro: Nunnally Johnson, romance de John Steinbeck. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Robert Simpson. Música: Alfred Newman. Figurino: Gwen Wakeling. Direção de arte/cenários: Richard Day, Mark-Lee Kirk/Thomas Little. Produção: Darryl F. Zanuck. Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, John Qualen. Estreia: 24/01/40

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Ford), Ator (Henry Fonda), Atriz Coadjuvante (Jane Darwell), Roteiro, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Diretor (John Ford), Atriz Coadjuvante (Jane Darwell)

Publicado em 1939, depois de exaustiva pesquisa que incluiu viagens do próprio autor junto àqueles que pretendia retratar, "As vinhas da ira", de John Steinbeck, não demorou para se tornar um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, especialmente por mostrar, em suas páginas, o doloroso destino do país durante a Grande Depressão, consequência da quebra da bolsa de valores de Nova York, ocorrida dez anos antes. Imaginar as palavras do livro em imagens cinematográficas talvez fosse um tanto árduo e deprimente, mas, vez ou outra, Hollywood consegue ousar e surpreender. Pelo pagamento vultoso de cem mil dólares, Steinbeck vendeu os direitos de filmagem de seu romance para a 20th Century Fox - exigindo, em troca, o máximo de fidelidade e respeito possível à obra original. Apaixonado pelo material, o chefão do estúdio, Darryl F. Zanuck, acatou os pedidos e, supervisionando o projeto de perto, como algo pessoal, realizou um de seus melhores trabalhos à frente do estúdio - um filme perfeitamente equilibrado entre entretenimento e arte, que não apenas emocionou o público como encantou a crítica e a Academia, que lhe indicou a sete Oscar e lhe premiou em duas importantes categorias, entre elas a de melhor diretor.

A estatueta de melhor diretor, entregue a John Ford, não deixou de ser uma surpresa: conhecido em Hollywood por sua visão política conservadora, o cineasta tampouco era famoso por sutilezas emocionais - seu maior sucesso até então havia sido "No tempo das diligências" (1939), que praticamente moldou as regras do western, gênero no qual ele se consagraria no futuro, muitas vezes acompanhado de John Wayne. Porém, de posse do material de Steinbeck e do roteiro preciso de Nunnally Johnson (editado por Zanuck em pessoa), Ford realizou um filme poderoso e emocionante, que não deixa de cutucar a política social da época mas busca principalmente contar uma história, forte e contundente o bastante para falar por si mesma. Fotografado com o cuidado de sempre por Gregg Toland (oscarizado por "O morro dos ventos uivantes", de 1939, e em vias de consagrar-se definitivamente com "Cidadão Kane", de 1941), "As vinhas da ira" é, também, assustadoramente atual em seus questionamentos e reivindicações. Se durante as filmagens o tema chamou a atenção dos paranoicos membros do governo norte-americano a ponto de Ford e Steinbeck serem investigados pelo Senado durante a época do infame macarthismo - que "caçava" comunistas atuantes na indústria de cinema -, hoje em dia seu grito a favor dos desfavorecidos e da luta por condições dignas de trabalho e qualidade de vida não soam nem um pouco obsoletos ou ultrapassados. Muito pelo contrário, é uma obra necessária e de suma importância histórica.


Em uma atuação antológica, Henry Fonda recebeu sua primeira indicação ao Oscar na pele de Tom Joad, o filho pródigo que retorna à fazenda da família, em Oklahoma, depois de quatro anos na prisão. Logo em sua chegada ele descobre, desolado, que a crise econômica do país está obrigando todos os proprietários do local a abandonarem suas casas - tomadas pelos bancos. Até mesmo a fazenda de seu tio já está perdida, e Joad se une a seus familiares em uma jornada atrás de uma vida mais digna na Califórnia, onde, segundo um anúncio distribuído pelas ruas, existem grandes possibilidades de trabalho. Em uma caminhonete caindo aos pedaços, Joad embarca com os pais, os avós, o tio, os sobrinhos e um amigo (ex-pastor) e vai testemunhando condições precárias de vida em acampamentos itinerantes, onde crianças, adultos e idosos passam por todo tipo de dificuldade com a esperança de melhores dias. Sofrendo perdas no percurso, Joad passa a tomar consciência social e se envolver em movimentos de resistência - para desespero de sua mãe (Jane Darwell), que tem medo de vê-lo novamente atrás das grades.

Fonda, que aceitou assinar um contrato longo com a 20th Century Fox apenas por ser apaixonado pelo personagem, é a intérprete ideal para Tom Joad. Seu rosto quase impassível transmite, através dos olhos, um turbilhão de sentimentos que faz com que sua atuação, silenciosa, reflita, através das imagens realistas de Gregg Toland, um período dos mais críticos dos EUA. John Steinbeck em pessoa louvou o desempenho de Fonda, e se tornou seu amigo pessoal, apaixonado pela forma com que o ator transformou suas palavras em ações. Nem mesmo o final - menos pesado do que no romance - chegou a incomodar o autor, que alguns anos mais tarde veria outro livro seu, "A leste do Éden", ser adaptado por Elia Kazan e estrelado por James Dean, com o nome de "Vidas amargas" (1955). Emocionante sem ser melodramático, político sem soar panfletário e clássico sem o peso do tempo a pesar sobre seus ombros, "As vinhas da ira" é, talvez, o melhor filme de John Ford - e, ironicamente, o mais atípico de sua carreira.

sexta-feira

JEJUM DE AMOR

JEJUM DE AMOR (His Girl Friday, 1940, Columbia Pictures, 92min) Direção: Howard Hawks. Roteiro: Charles Lederer, peça teatral "The front page", de Ben Hecht, Charles MacArthur. Fotografia: Joseph Walker. Montagem: Gene Haylick. Música: Sidney Cutner, Felix Mils. Figurino: Robert Kalloch. Direção de arte: Lionel Banks. Produção: Howard Hawks. Elenco: Cary Grant, Rosalind Russell, Ralph Bellamy, Gene Lockhart, Porter Hall, Ernest Truex, Helen Mack. Estreia: 11/01/40

Em 1929, a peça teatral "A primeira página", de Ben Hecht e Charles MacArthur, estreou na Broadway, onde fez enorme sucesso em quase 300 apresentações. Dois anos mais tarde, sua adaptação, dirigida por Lewis Milestone e produzida por Howard Hughes chegou aos cinemas e concorreu a três importantes Oscar (melhor filme, diretor e ator, para Adolphe Menjou). Seu êxito parecia afirmar que a trama - uma crítica corrosiva aos bastidores do jornalismo, mas ainda assim dotada de certo tom carinhoso - já estava muito bem representada em Hollywood por, no mínimo, algumas gerações. Mas, uma noite, em um jantar oferecido em sua casa, o cineasta Howard Hawks descobriu, por acaso, que havia ainda uma outra maneira de apresentar o enredo ao público. Com os direitos comprados de Hughes e a certeza de ter uma ideia brilhante em mãos, deu início à produção de "Jejum de amor" - e acrescentando, ao roteiro, um inesperado (e até então) inexistente toque romântico. Ao alterar o gênero de um dos dois protagonistas e adicionar uma camada extra de complexidade à sua relação, Hawks pegou público e crítica de surpresa - e, com o mesmo Cary Grant de seu "Levada da breca" (1938), adicionou mais um êxito comercial à sua bem-sucedida carreira de realizador.

Não é difícil entender porque "Jejum de amor" é considerado por Quentin Tarantino um de seus filmes prediletos: enquanto a média de palavras em um diálogo normal é de 90 por minuto, no filme de Hawks o número salta para impressionantes 240. A responsabilidade por tal diferença pode ser creditada à coragem de Hawks em incentivar o elenco a falar com mais naturalidade - não se esperava mais que um personagem parasse de falar para que outro começasse, por exemplo. Tal novidade não apenas desafiava as normas de até então, mas também complicou (e muito) a vida dos responsáveis pela gravação do som, que precisaram aprender a lidar, de uma hora para outra, com uma técnica de utilização de vários microfones na mesma cena. Logicamente esse transtorno se refletiu em atraso nas filmagens (relativamente curto) e em certo choque na plateia, acostumada a um ritmo menos intenso de palavras. O susto, porém, não atrapalhou o desempenho do filme, que tornou-se uma espécie de pioneiro e abriu as portas para roteiros menos formais - especialmente em comédias verbais, um dos gêneros mais populares da época.


Na verdade, a trama romântica quase eclipsa a crítica ao jornalismo sensacionalista que é o cerne da peça teatral. Ao colocar como protagonistas um ex-casal não exatamente disposto a abrir mão um do outro - e de sua bem-sucedida parceria profissional - o roteiro abre espaço para um tom menos agressivo e mais amplo, em termos de alcance de um público maior. Tal alteração também mexeu com os produtores de elenco em Hollywood. Depois da recusa de Jean Arthur e Ginger Rogers (que se arrependeu da decisão quando soube da escalação de Cary Grant no papel masculino), vários nomes foram cogitados para enfeitar o cartaz, entre as quais a inesperada Joan Crawford, Claudette Colbert e a parceira constante de Grant, a ótima Irene Dunne. A escolha final, Rosalind Russell, não era nem de longe a preferida do diretor (que queria Carole Lombard, mas desistiu da ideia por desacerto salarial), mas, emprestada da MGM, Russell mostrou-se extremamente eficiente e à altura de contracenar com um astro da estatura de Cary (que, aliás, também não foi a primeira opção, ficando com o papel para o qual haviam sido considerados Clark Gable e Bob Hope): mesmo que não surjam faíscas entre os dois personagens principais, Russell acaba por se destacar graças a um roteiro que, em determinado ponto, parece esquecer-se do Walter Burns interpretado pelo galã para dedicar-se às desventuras de sua Hildy Johnson na sua busca por um furo de reportagem.

A trama é simples e quase infantil: a talentosa Hildy Johnson (Rosalind Russell) procura seu ex-marido, Walter Burns (Cary Grant), editor do jornal The Morning Post, para avisá-lo de que está em vias de se casar novamente, dessa vez com o playboy Bruce Baldwin (Ralph Bellamy). Seu casamento, logicamente, a fará dedicar-se à vida doméstica e abandonar de vez o jornalismo, ofício pelo qual sempre foi apaixonada. Certo de que ainda ama a ex-mulher e que precisa dela também como repórter de seu jornal, Burns aproveita a comoção popular em torno da condenação à morte de um homem acusado de matar um policial para provocar o instinto profissional de Hildy. Enquanto ela tenta resistir ao impulso de cobrir a história - repleta de lances melodramáticos explorados à exaustão pela mídia -, seu noivo acaba por cair em uma série de armadilhas provocadas por Burns para impedir o casamento. Com esse enredo simples, "Jejum de amor" se baseia basicamente no carisma de seus atores, na direção inspirada de Howard Hawks e na revolução que provocou som sua forma de narrativa, moderna e ágil. É uma comédia romântica clássica, mas que evita o sentimentalismo e aposta mais no humor do que no amor. Talvez não seja a melhor comédia dos envolvidos, mas é um passatempo agradável e dos mais simpáticos.

quinta-feira

A PONTE DE WATERLOO

A PONTE DE WATERLOO (Waterloo Bridge, 1940, MGM, 108min) Direção: Mervin LeRoy. Roteiro: S.N. Behrman, Hans Rameau, George Froeschel, peça teatral de Robert E. Sherwood. Fotografia: Joseph Ruttenberg. Montagem: George Boemler. Música: Herbert Stothart. Figurino: Adrian, Gile Steele. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Produção: Sidney Franklin. Elenco: Vivien Leigh, Robert Taylor, Lucile Watson, Virginia Field, Maria Ouspenskaya, C. Aubrey Smith. Estreia: 17/5/40

2 indicações ao Oscar: Fotografia em P&;B, Trilha Sonora Original

Quando o filme "A ponte de Waterloo" foi lançado nos EUA, em 1940, a Polônia já havia sido invadida pelos alemães, e a França estava começando a passar pelo mesmo drama. Chegando aos cinemas em pleno desenvolvimento do conflito, o filme de Mervin LeRoy, adaptado de uma peça teatral de Robert E. Sherwood acabou por ser uma das primeiras produções que citava a tragédia enquanto ela ainda acontecia diante dos olhos do mundo. Estrelado por Vivien Leigh em seguida a seu sucesso estrondoso em "... E o vento levou", o filme é um melodrama romântico dos mais assumidos, repleto de lágrimas, segredos e um final capaz de deixar os mais sensíveis com lágrimas nos olhos. Não é à toa que é, dentre seus trabalhos, um dos preferidos de Leigh - que queria seu futuro marido Laurence Olivier no papel principal - e o favorito absoluto do protagonista masculino, Robert Taylor. Juntos, eles formam um dos pares românticos mais impactantes de sua época.

Narrado em forma de flashback - quando o oficial britânico Roy Cronin (Robert Taylor, simpático e envolvente) relembra a história ao passar pela ponte do título, durante os primeiros dias da II Guerra - a trama começa justamente nos primórdios do primeiro conflito mundial, quando ele conhece e se apaixona perdidamente pela jovem aspirante a bailarina clássica Myra Lester (Vivien Leigh). O romance entre os dois é avassalador, porque ele está em vias de viajar para a França, e ela sofre com a rigidez do treinamento da veterana Madame Olga Kirinova (Maria Ouspenskaya). Seu desejo de casar-se antes da viagem acaba sendo frustrado por motivos diversos, mas o rapaz promete manter seu compromisso assim que retornar. Um mal-entendido, porém, faz a moça julgá-lo morto - e, a partir daí, longe da companhia de balé e ao lado da amiga Kitty (Virginia Field), entra em um caminho de necessidades que a obriga a tomar decisões que irão mudar definitivamente sua vida.


Dirigido com sobriedade por Mervin LeRoy - autor de alguns clássicos indiscutíveis, como o drama policial "O fugitivo" (32) e o musical "Cavadoras de ouro" (33) - "A ponte de Waterloo" não tem vergonha de abraçar seu lado melodramático, talvez seu maior trunfo. Amparada pela belíssima trilha sonora de Herbert Stothart (indicada ao Oscar, assim como a fotografia de Joseph Ruttenberg), a trágica história de amor entre Roy e Myra é contada sem maiores arroubos criativos, mantendo o interesse da plateia graças principalmente ao roteiro linear e dramático bem ao gosto do público médio de sua época e à química entre seus dois atores centrais. Seja nas sequências em que veem seu amor surgir - em meio a bailes e a explosões de bombas pelas ruas londrinas - seja nos momentos de maior dramaticidade depois de seu reencontro, Leigh e Taylor esbanjam carisma e talento, o que torna fácil a qualquer um torcer por seu final feliz mesmo quando é inevitável que o destino já esteja planejando das suas para impedí-lo.

"A ponte de Waterloo" é, no final das contas, um grande e eficiente melodrama, realizado à moda antiga por um cineasta de grande talento em saber como seduzir seu público utilizando-se de todos os meios à sua disposição. Nem mesmo o fato de Laurence Olivier ter sido preterido pela MGM no papel principal masculino - ele acabou indo fazer Mr. Darcy em uma versão de "Orgulho e preconceito", baseado em livro de Jane Austen - enfraquece o resultado final. Quando Roy e Myra estão dançando e se apaixonando sob o testemunho do público, fica bem claro que Hollywood é especialista em criar grandes e dolorosas histórias de amor.

terça-feira

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Rebecca, 1940, Selznick International Pictures, 130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, adaptação de Philip MacDonald, Michael Hogan, romance de Daphne Du Maurier. Fotografia: George Barnes. Montagem: W. Donn Hayes. Música: Franz Waxman. Direção de arte: Lyle Wheeler. Produção: David O. Selznick. Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce. Estreia: 27/3/40

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alfred Hitchcock), Ator (Laurence Olivier), Atriz (Joan Fontaine), Atriz Coadjuvante (Judith Anderson), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários em P&B, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Fotografia em P&B

Todas as lendas que correm por Hollywood desde sempre dizem que a relação de Alfred Hitchcock com suas atrizes não era exatamente o que se pode chamar de saudável. Como uma espécie de confirmação nefasta de tais boatos, basta que se saiba o que o pai do suspense fez com Joan Fontaine durante as filmagens de "Rebecca, a mulher inesquecível", seu primeiro filme em terras americanas: sabendo que Fontaine era praticamente destratada por seu astro Laurence Olivier (que preferiria que o papel tivesse ficado com sua então esposa Vivien Leigh), o genial diretor teve a brilhante ideia - ao menos para ele - de fazer chegar aos ouvidos de Fontaine que não apenas Olivier a detestava, mas sim a equipe inteira. Não é preciso fazer um exercício muito grande de imaginação para entender que tal situação deixou a atriz incomodada, desconfortável e apavorada. Justamente como o diretor queria que ela fosse na pele da personagem!


Adaptado do romance homônimo de Daphne Du Marier - autora também de "Os pássaros", que Hitch dirigiu em 1963 - "Rebecca" marcou a estreia do cineasta no cinema americano em grande estilo, sob o comando do todo-poderoso produtor David O. Selznick, que havia comprado os direitos da obra de Maurier para ser estrelada por Carole Lombard e Ronald Colman. Quando Colman pulou fora do projeto - por achar as personagens femininas mais fortes e por desgostar do tom macabro da trama - Laurence Olivier, um dos maiores atores ingleses de todos os tempos foi escolhido. Acontece que Olivier queria que sua amada Vivien Leigh fosse a escolhida para o principal papel feminino, o que batia de frente com as opções do produtor: além de Anne Baxter e Loretta Young, Selznick também estava em dúvida entre duas irmãs que, como todos sabem, se odiavam além de qualquer limite, Olivia de Havilland e Joan Fontaine. Como Havilland não foi emprestada pela Warner - e também não estava nada feliz em disputar o papel com sua irmã - Fontaine acabou escolhida, para desgosto de muita gente na equipe, que não a considerava famosa o bastante para liderar um elenco. Hitchcock chegou no meio da tempestade - ele sempre quis filmar o livro mas não tinha condições financeiras de pagar os direitos - e, colocando pimenta nos bastidores, construiu um fenomenal suspense psicológico que lhe deu uma indicação ao Oscar de diretor (que perdeu para John Ford, por "As vinhas da ira") e deu a Selznick mais uma estatueta de melhor filme.


Joan Fontaine - que ganharia o Oscar de melhor atriz no ano seguinte com outro filme de Hitchcock, "Suspeita" - está na medida exata como a dama de companhia de uma desagradável senhora de idade que se apaixona perdidamente durante uma viagem pelo milionário Maxim de Winter (Laurence Olivier), um viúvo discreto e misterioso que a pede em casamento pouco tempo depois de conhecê-la. Inebridada de amor, ela aceita o pedido e, depois de casada, se vê diante da responsabilidade de administrar a imensa propriedade do marido, a fantástica Manderley, e todas as regras sociais que a circundam. Seu maior desafio, porém, será lidar com a memória da falecida esposa de Winter, a bela Rebecca, morta em um acidente de barco. Além da atmosfera sombria da mansão - em que tudo parece tenso e macabro - a lembrança de Rebecca é também sempre trazida à tona pela governanta, Mrs. Danvers (Judith Anderson), que faz questão de atormentar a nova patroa.

Para criar a atmosfera perfeita para Manderley - uma casa que é também personagem crucial para a trama - Hitchcock optou pela fotografia em preto-e-branco (também recompensada com um Oscar) e usou de artifícios simples mas extremamente eficazes em transmitir a tensão que rodeia a protagonista, cujo nome jamais é mencionado, também como forma de oprimí-la diante da opulência de sua nova vida. Assim, a apavorante Mrs. Danvers nunca é vista caminhando, sempre aparecendo diante dos olhos de sua patroa de uma hora para outra (além de nunca piscar em cena). Os duelos entre as duas atrizes estão entre os melhores momentos do filme, que não abdica nem mesmo das reviravoltas mirabolantes tão importantes nos melodramas literários. O espectro de Rebecca - que não, não aparece em forma de fantasma real, mas sim ilustrada pelo que é ainda mais assustador, a imaginação - permeia toda a narrativa, como uma ameaça tangível à felicidade da nova Sra. De Winters e a sutileza com que o diretor mostra tal fato é que faz a diferença entre o drama psicológico aterrador que apresenta e as dezenas de produções de terror que vieram logo após, extirpando a inteligência do gênero.

"Rebecca, a mulher inesquecível" é um Hitchcock quase atípico: não tem senso de humor, não toma partido de sequências técnicas de tirar o fôlego e tampouco é exatamente um filme de suspense, podendo até mesmo ser considerado um drama. Mas é mais um perfeito exemplo de como um cineasta de talento sempre foi e sempre será a principal razão do sucesso de um bom produto cinematográfico.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...