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terça-feira

UM CLARÃO NAS TREVAS


UM CLARÃO NAS TREVAS (Wait until dark, 1967, Warner Bros, 108min) Direção: Terence Young. Roteiro: Robert Carrington, Jane Howard-Hammerstein, peça teatral de Frederick Knott. Fotografia: Charles Lang. Montagem: Gene Milford. Música: Henry Mancini. Direção de arte//cenários: George Jenkins/George James Hopkins. Produção: Mel Ferrer. Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Efrem Zimbalist Jr., Jack Weston, Samantha Jones, Julie Herrod. Estreia: 26/10/67

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Audrey Hepburn)

Durante a II Guerra Mundial, a então adolescente Audrey Hepburn, de 16 anos de idade, servia como enfermeira voluntária em um hospital holandês. Quando vários soldados aliados chegaram em busca de cuidados depois da batalha de Arnhem, a futura bonequinha de luxo cuidou de um jovem paraquedista inglês chamado Terence Young - sem jamais poder imaginar que, mais de vinte anos depois, ele seria o diretor de seu primeiro e único filme de suspense, "Um clarão nas trevas". Último filme de Hepburn antes de um hiato autoimposto de quase uma década - ela só voltaria às telas em "Robin e Marian", de 1976 -, a adaptação da peça teatral de Frederick Knott foi um dos grandes êxitos de bilheteria de 1967, em parte graças à engenhosa campanha de marketing que remetia aos ensinamentos de Hitchock, e em parte devido à curiosidade do público em acompanhar uma de suas atrizes mais queridas rumo à escuridão de um gênero que, a despeito de seu sucesso comercial, nunca foi considerado dos mais nobres pela indústria de Hollywood. O fato de Hepburn ter arrebatado uma indicação ao Oscar por seu desempenho - ao lado de Anne Bancroft ("A primeira noite de um homem"), Faye Dunaway ("Bonnie& Clyde: uma rajada de balas") e Katharine Hepburn (a vencedora, por "Adivinhe quem vem para jantar") - diz mais sobre o prestígio da estrela do que pela boa vontade da Academia em homenagear uma produção cujo maior objetivo é assustar a plateia - ainda que ela faça isso com extrema destreza.

Young, cujos créditos incluem três filmes de James Bond dos anos 1960 - "O satânico Dr. No" (1962), "Moscou contra 007" (1963) e "007 contra a chantagem atômica" (1965) - se demonstra um artesão competente ao explorar todas as possibilidades visuais de roteiro que nem sempre consegue escapar de suas origens teatrais - no palco a peça de Knott contava com as presenças de Lee Remick e Robert Duvall. O excesso de diálogos (nem todos indispensáveis) é o maior problema, uma vez que outra característica típica de produções adaptadas do teatro (o cenário único) serve para ampliar o tom claustrofóbico da trama e encaminhar o filme para seu clímax - minutos onde a tensão atinge seu nível máximo especialmente quando assistidos no escuro (daí a campanha de marketing que insistia que todas as salas e exibição ficassem completamente às escuras para melhor resultado). Este último ato, que apresenta o confronto entre mocinha e vilão com inteligência e impecável senso narrativo, compensa o ritmo irregular da produção até então e oferece ao público o que de melhor o cinema de suspense pode oferecer.

 

"Um clarão nas trevas" começa com a única sequência fora do cenário principal do filme, quando o espectador é apresentado a uma boneca recheada de heroína que chega à Nova York, vinda do Canadá, pelas mãos de uma atraente jovem (Samantha Jones), que, por motivos não revelados, a entrega a um desconhecido. Este desconhecido é (Efrem Zimbalist Jr.), um fotógrafo casado com Susy (Audrey Hepburn), uma mulher ainda tentando acostumar-se com sua nova rotina como deficiente visual, consequência de um acidente de carro. O que o casal não sabe é que tal boneca é o objeto do desejo de uma gangue perigosa e violenta, liderada pelo cruel Harry Roat (Alan Arkin), que não hesita em matar quem quer que atravesse seu caminho. Com a ajuda de seus dois companheiros, o sedutor Mike (Richard Crenna em papel para o qual foi Robert Redford foi considerado) e o quase atrapalhado Galindo (Jack Weston), ele se introduz no universo de Susy disposto a recuperar o artefato - e encontra uma resistência completamente inesperada.

Realizado como uma tentativa de salvar o casamento de Audrey Hepburn e do produtor Mel Ferrer, "Um clarão nas trevas" não obteve sucesso neste ponto específico - o relacionamento acabou no ano seguinte - mas tornou-se um campeão de bilheteria e reafirmou o poder comercial da atriz. É bem provável que nem mesmo Julie Andrews (também cotada para o papel central), no auge de sua popularidade na década de 1960, fosse capaz de atrair o público da mesma forma que Hepburn. Não deixa de ser sintomático que, anos mais tarde, o ator Alan Arkin tenha revelado que só ficou com o papel porque nenhum ator queria ficar marcado por um personagem capaz de machucar a atriz (mesmo na ficção). Arkin chegou a declarar, em tom de brincadeira, que um dos motivos pelos quais não foi indicado ao Oscar de coadjuvante por sua atuação (segundo Stephen King, uma das melhores encarnações do mal no cinema) tem a ver com o fato de que "ninguém é indicado ao Oscar por ser mau com Audrey Hepburn!" Brincando ou não, Arkin até tem um pouco de razão. Seu personagem até pode causar arrepios no espectador, mas é Hepburn quem domina o filme e justifica seu sucesso de bilheteria. Sua única incursão no suspense é, também, um dos vários pontos fortes de sua carreira.

sábado

PRIMAVERA PARA HITLER


PRIMAVERA PARA HITLER (The producers, 1967, Alied Artists, 88min) Direção e roteiro: Mel Brooks. Fotografia: Joseph Coffey. Montagem: Ralph Rosenblum. Música: John Morris. Figurino: Gene Coffin. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/James Dalton. Produção executiva: Joseph E. Levine. Produção: Sidney Glazier. Elenco: Zero Mostel, Gene Wilder, Dick Shawn, Kenneth Mars, Estelle Winwood, Christopher Hewett, Andreas Voutsinas, Lee Meredith. Estreia: 27/11/67 

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Gene Wilder), Roteiro Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Original 

Parte do público o considerava vulgar a ponto de comentar a opinião diretamente com o diretor. Uma das atrizes do elenco chegou a falar dele como um filme terrível a que ela mesma não conseguia assistir - e que ele apenas comprovou que não se pode subestimar o mau gosto do público. E até mesmo seu produtor executivo chegou a afirmar que não iria lançá-lo por ter dúvidas a respeito de seu humor e pensar que ele iria causar mais problemas do que dinheiro. Por incrível que pareça, uma das comédias mais cultuadas de Hollywood correu sério risco de jamais ver a luz dos refletores - e de nunca ter se tornado uma das maiores surpresas da cerimônia do Oscar de 1968, ao levar a estatueta de melhor roteiro original, batendo o prestigiado "2001: uma odisseia no espaço", de Stanley Kubrick. Primeiro filme dirigido por Mel Brooks, "Primavera para Hitler" derrubou o preconceito da Academia em relação a comédias e foi o tom mais ameno de uma temporada recheada de petardos dramáticos como "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski, "Romeu e Julieta", de Franco Zefirelli, e ""O leão no inverno", de Anthony Harvey.

Bem antes do ouro do Oscar, porém, a trajetória de "Primavera para Hitler" em direção ao prestígio passou por maus bocados. O maior responsável por suas dificuldades era, sem dúvida, seu tema: pouco mais de vinte anos depois do fim da II Guerra, uma comédia que citava o nome do chanceler alemão em tom de brincadeira não parecia algo muito auspicioso em termos comerciais - em especial quando um dos personagens era explicitamente nazista e não era condenado pelo roteiro (apesar de soar bastante patético, como aliás todos os demais personagens). Além disso, mostrar Hitler dançando ao lado de seus fiéis aliados não parecia uma boa ideia quando se pensava que (como aconteceu, mais tarde, por um tempo) países, como a própria Alemanha, poderiam banir o filme de seu território. Brooks, um diretor estreante com total controle criativo sobre sua obra - um caso raro na indústria -, não abriu mão de suas decisões e foi adiante com o projeto, desafiando o produtor executivo Joseph E. Levine inclusive na escolha do jovem Gene Wilder para um dos papéis cruciais para o filme. Levine não gostava do trabalho de Wilder e chegou a oferecer um extra de 35 mil dólares para que o cineasta escolhesse outro ator para viver o tímido contador Leo Bloom - mas de nada adiantou, para sorte do filme.

Bloom, o segundo personagem masculino mais importante do filme, chegou a ser oferecido a um iniciante Dustin Hoffman - que tinha preferência em outro papel, o do dramaturgo Frank Liebkind (que ficou com Kenneth Mars). Hoffman acabou por ser escolhido para liderar o elenco de "A primeira noite de um homem" (1967), o que possibilitou que Mel Brooks confirmasse o convite feito a Gene Wilder três anos antes das filmagens, quando o ator ainda era apenas um amigo e colega de Anne Bancroft (mulher do diretor) na peça "Mãe Coragem", de Brecht. Wilder quase não pode acreditar na sorte - estava praticamente falido e ainda não tinha um único filme no currículo, já que "Bonnie & Clyde: uma rajada de balas", no qual faz uma pequena participação, ainda não havia estreado - e aceitou, sem pestanejar, uma parceria que ainda lhe renderia bons momentos nas telas. O que Wilder não poderia imaginar, então, era que seu maior medo - ser recusado pelo protagonista da produção, Zero Mostel - não tinha o menor fundamento: assim que deu de cara com o apavorado jovem ator, Mostel imediatamente tornou-se seu protetor, contrariando sua fama de ditatorial e agressivo. O resultado foi uma química explosiva e rara, que deu ao filme um trunfo dos mais brilhantes.


 

Mas se a relação entre Mostel e Wilder era das melhores, o mesmo não poderia ser dito de sua rotina com Mel Brooks: frequentes embates a respeito de decisões criativas tornaram o relacionamento entre ambos um tanto difícil, ainda que respeitoso. Mostel, um experiente astro dos palcos e das telas, dava vida a Max Bialystock, um produtor de teatro que, em eternas dificuldades financeiras, encontrava no contador Leo Bloom o parceiro ideal para um golpe infalível: montar uma peça teatral (a pior possível) para que ela fracasse e lhes possibilite ficar com o dinheiro das financiadoras - um grupo de idosas com quem ele se relaciona por interesse. O texto escolhido, "Primavera para Hitler", é de autoria de um autor com sérios problemas mentais, e o diretor, Roger De Bris (Christopher Hewett), tem no currículo uma série de fracassos de bilheteria. Com uma equipe selecionada a dedo - entre os piores de cada função - e com um tema polêmico, não tem como dar certo. Mas nem sempre teatro é um investimento previsível, e os dois produtores podem ver sua fraude ir por água abaixo quando o público leva tudo na brincadeira - e tornam o espetáculo um surpreendente hit.

Pronto para ser lançado, "Primavera para Hitler" sofreu um baque inesperado: decepcionado com o humor pouco sofisticado do filme, seu produtor executivo ameaçou desistir da estreia. A decisão já estava praticamente tomada quando a sorte sorriu para Brooks e seus colegas. Cotado para interpretar Leo Bloom no começo da produção, o ator Peter Sellers não pode aceitar o papel, mas acabou por se tornar imprescindível na história do filme. Em uma de suas sessões de cinema privadas, com um grupo de amigos, o popular astro da série "Pantera cor-de-rosa" assistiu a uma cópia do filme, gostou muito do que viu e, ciente de que ele corria o risco de nunca ser lançado, conseguiu convencer a Allied Artists a estreá-lo. O fraco resultado das bilheterias até poderia ser a confirmação de que o instinto do executivo estava correto, mas o Oscar subsequente (e uma indicação a Gene Wilder como ator coadjuvante) e sua metamorfose em um cult movie, a partir dos anos 1970, deram a palavra final. Divertido, infame e construído a partir de um roteiro milimetricamente estruturado, "Primavera para Hitler" - rebatizado como "The producers" em seu lançamento - é uma das comédias mais insanas já feitas em Hollywood. Uma pérola que sobrevive ao tempo - e que deu origem a um musical da Broadway, que, por sua vez, rendeu uma versão para o cinema estrelada por Nathan Lane, Matthew Broderick e Nicole Kidman, lançado em 2005 e sem o mesmo impacto.

quinta-feira

A BELA DA TARDE

A BELA DA TARDE (Belle de jour, 1967, Robert et Raymond Hakim Productions, 100min) Direção: Luis Buñuel. Roteiro: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière, romance de Joseph Kessel. Fotografia: Sacha Vierny. Montagem: Louisette Houtecoeur. Figurino: Hélène Noury. Direção de arte/cenários: Robert Clavel. Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim. Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page, Pierre Clementi, Françoise Fabian. Estreia: 24/5/67
 
Não é difícil entender o fascínio que "A bela da tarde" vem despertando nos cinéfilos do mundo inteiro desde sua estreia, em 1967. Além de contar com a beleza estonteante de Catherine Deneuve - no auge da carreira - e ser dirigido pelo prestigiado Luis Buñuel, mestre do surrealismo no cinema, o filme, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, ficou décadas longe dos olhos do público, devido a problemas de direitos autorais e, até 1995, através de uma campanha liderada por Martin Scorsese, manteve inalterada sua aura de filme cult. Quando voltou a seu lugar de direito - os braços da plateia e o coração dos críticos - ganhou uma nova geração de fãs e reabriu discussões a respeito de seus simbolismos e questionamentos. Maior sucesso comercial da carreira de Buñuel e admirado até mesmo por Alfred Hitchcock - o que não é nenhuma surpresa, haja visto o histórico do cineasta inglês a respeito de louras sensuais -, "A bela da tarde" é, também, o mais acessível dos trabalhos do diretor espanhol: mesmo que faça uso de elementos narrativos pouco convencionais em alguns momentos, é uma produção muito menos complexa do que, por exemplo, "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" (77), dois dos mais ambíguos de seus filmes - e, sintomaticamente, dois de seus maiores êxitos profissionais.

Polêmico e sensual, "A bela da tarde" é, também, um presente para estudantes de psicologia, que vem, desde seu lançamento, se prestando a longos debates a respeito de suas metáforas visuais e sonoras - além da riqueza de seus personagens, desde a protagonista até os coadjuvantes mais efêmeros na trama. Construído alternando uma atmosfera de sonho com uma realidade crua, o roteiro de Buñuel e Carrière segue uma estrutura convencional, mas que abre espaço para digressões psicanalíticas e/ou sexuais que casavam com perfeição com o momento histórico e social pelo qual passava o mundo (e mais precisamente a Europa) no final dos anos 60. Retratando a hipocrisia da alta sociedade e questionando o papel da mulher como puro objeto, o filme subverte as expectativas e apresenta uma heroína que vai contra os ideais femininos mais clássicos. Séverine (interpretada por uma Catherine Deneuve no limite entre a castidade e o furor) pode até parecer como a mais devotada e compreensiva esposa, mas por dentro é um vulcão de desejos secretos, os quais exorciza primeiro em forma de sonhos eróticos pouco banais, e depois através de uma atitude radical: a prostituição de luxo. O que pode parecer apenas a realização de voyeurismo barato, porém, torna-se material rico de possibilidades nas mãos inteligentes e iconoclastas de Buñuel.


Fotografado com requinte pelo experiente Sacha Vierny, "A bela da tarde" já mostra a que veio na primeira sequência, em que um idílico momento entre um atraente e jovem casal dá lugar a uma situação de violência e submissão sexual. Logo se descobre que o acontecimento é apenas parte dos sonhos de Séverine, que vive uma relação tranquila e asséptica com o marido, Pierre (Jean Sorel). Os dois chegam a dormir em camas separadas, e seu casamento é o retrato do tédio amoroso - o que não reflete os constantes desejos da esposa, recheados de fetiches pouco triviais. A solução que ela encontra para dar vazão a tais sentimentos sem que precise acabar com seu relacionamento surge na figura de Madame Anais (Geneviève Page), a dona de uma casa de alta prostituição, que a recebe de braços abertos. Linda, sexy e exalando classe, Séverine recebe a alcunha de A Bela da Tarde - ela necessariamente precisa deixar o trabalho às cinco da tarde para voltar à vida normal. Nos períodos em que passa na casa de Madame Anais, Séverine entra em contato com clientes com os mais variados tipos de fantasia - até que encontra Marcel (Pierre Clementi), um marginal do submundo que se torna obcecado por ela e ameaça quebrar a harmonia entre as aparências e a realidade.

Com simbolismos facilmente decodificáveis até para o menos experiente dos espectadores, Luis Buñuel conduz a trajetória de Séverine como uma espécie de coleção de anedotas a respeito de seus clientes - todos levemente bizarros e ao menos um francamente assustador - e suas aspirações sensuais. Apesar da beleza de Deneuve, o filme não se permite em ser um inventário de taras e cenas de sexo gratuitas, muito pelo contrário: a atriz só aparece nua em uma cena (envolta em um véu preto) e o erotismo é apenas sugerido, nunca explícito. Através de sons e imagens cuidadosamente escolhidas, o cineasta convida a plateia a penetrar em um mundo tanto excitante quanto sombrio - mesmo que o filme jamais pese a mão na violência e no estudo da psique humana. Ao optar por apenas contar uma história e apresentar seus personagens, sem julgá-los ou forçar uma compreensão óbvia, "A bela da tarde" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo e elegante drama sobre sexo e uma obra de arte que atravessou gerações e continua, ainda hoje, atual e visualmente atraente. Seu final, em aberto, apenas confirma tudo que foi mostrado antes: uma obra inteligente e perspicaz, mas nem por isso vazia e superficial. Um belo e indispensável filme - uma porta de entrada para a curiosa filmografia de seu irrequieto diretor.

terça-feira

NO CALOR DA NOITE

NO CALOR DA NOITE (In the heat of the night, 1967, The Mirisch Corporation/United Artists, 110min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Stirling Silliphant, romance de John Ball. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Hal Ashby. Música: Quincy Jones. Figurino: Alan Levine. Direção de arte/cenários: Paul Groesse/Robert Priestey. Produção: Walter Mirisch. Elenco: Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates, Lee Grant, Larry Gates, James Patterson, William Schallert, Beah Richards. Estreia: 02/8/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Ator (Rod Steiger), Roteiro Adaptado, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Rod Steiger), Roteiro Adaptado, Montagem, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Rod Steiger), Roteiro 

Às vezes o destino age de forma cruel ou irônica até mesmo em Hollywood. Em abril de 1968 o assassinato de Martin Luther King adiou pela segunda vez na história a cerimônia de entrega do Oscar. Dois dias depois da data prevista, quase como uma homenagem involuntária ao líder do movimento pelos direitos civis da população negra, a estatueta de melhor filme de 1967 - além de outros quatro prêmios, incluindo melhor ator e roteiro adaptado - era anunciada para "No calor da noite", uma produção polêmica que retratava, sem meias-palavras, o racismo latente e violento do sul dos EUA. Através de uma trama policial baseada em um livro de John Ball, o filme de Norman Jewison remexe na profunda ferida da discriminação se utilizando de todas as regras consagradas do gênero - e acaba por fazer um gol de placa ao casar de forma exemplar um entretenimento de primeira categoria com um estudo cru e desprovido de sentimentalismos de um dos problemas sociais mais graves do país. Tudo isso amparado em atuações admiráveis de Sidney Poitier e Rod Steiger, como dois improváveis parceiros profissionais.

Filmado principalmente em Sparta, uma cidade do estado do Illinois, já que Potier já havia recebido ameaças de morte pela Ku Klux Klan do sul do país, "No calor da noite" acabou por tornar-se o filme preferido do ator, dentre os vários projetos em que atuou. Claramente, motivos não faltam: além do tom condenatório do racismo proposto pelo roteiro, o personagem do maior astro negro de sua geração (e um dos maiores ídolos do cinema dos anos 60) foge bravamente do vitimismo ou de qualquer situação condescendente em relação a sua cor. Em uma das cenas mais impactantes - e dá pra imaginar ainda hoje o tamanho de sua importância dentro do contexto social em que surgiu -, o detetive de polícia Virgil Tibbs, interpretado por Poitier, devolve uma bofetada recebida, sem pensar duas vezes. Detalhe: o autor da agressão era um homem branco e poderoso da cidade onde se passa a história. O choque provocado por tal atitude nas telas foi, certamente, um dos motivos que fizeram com que o filme atingisse tão diretamente o coração dos EUA: uma cena que fez com que o próprio diretor, Norman Jewison, percebesse o tamanho de sua responsabilidade junto ao público. Mas, é claro, tal cena não existe sozinha, e faz parte de um conjunto repleto de acertos que conduziu a produção à mais cobiçada estatueta de Hollywood.


Sem o subtexto racial que é imprescindível a seu desenvolvimento dramático, o roteiro de "No calor da noite" seria apenas mais um dentre tantos que surgem frequentemente dentro da indústria de cinema americano. Porém, ao eleger como um dos principais pontos de sua narrativa a problemática relação entre um xerife branco, ríspido e conservador e um detetive urbano, inteligente, refinado e negro, a trama de John Ball, adaptada com precisão por Stirling Silliphant (vencedor, com merecimento, do Oscar da categoria), escapa do lugar-comum e garante um lugar de honra entre os mais relevantes momentos do cinema na década de 60. Tudo começa com o assassinato de um proeminente homem de negócios da pequena Sparta: vindo para a cidade para construir uma nova fábrica, o empresário batia de frente com o todo-poderoso Endicott (Larry Gates), que passa a ser o principal suspeito do crime logo depois que o irascível xerife Gillespie (Rod Steiger) se convence que o misterioso forasteiro Virgil Tibbs (Sidney Poitier) não apenas é inocente como é também o principal detetive de polícia da Filadélfia. Mesmo hesitante em contar com sua ajuda - o rapaz é negro e por isso passível de sofrer discriminação na racista região do sul dos EUA -, o xerife acaba cedendo ante os pedidos da viúva da vítima (Lee Grant), que acredita no talento e na intuição do visitante. Porém, as coisas não serão tão simples, já que os temores de Gillespie se mostram bastante realistas quando Tibbs se torna persona non grata na cidade.

Equilibrando com inteligência a trama policial - coerente e surpreendente na medida certa - com os lances dramáticos a respeito do preconceito, "No calor da noite" é um filme de ação que é também um divisor de águas dentro do cinema americano. Pela primeira vez mostrando em um filme comercial um herói negro sem que ele precise ser subserviente ou uma cópia de personagens brancos, a produção de Norman Jewison - que voltaria a trabalhar com o tema do racismo em "A história de um soldado" (84) e "Hurricane: o furacão" (99) - é corajosa, contundente e, acima de tudo, envolvente como um bom entretenimento precisa ser. Editado com destreza pelo futuro cineasta Hal Ashby e fotografado com extremo cuidado pelo veterano Haskell Wexler - pela primeira vez na história trabalhando com uma iluminação própria para atores com a pele escura -, é um marco absoluto, um filme de gênero que consegue sobressair-se a suas limitações óbvias e permanecer como uma excelente diversão acima de tudo.

quarta-feira

DESCALÇOS NO PARQUE

DESCALÇOS NO PARQUE (Barefoot in the park, 1967, Paramount Pictures, 106min) Direção: Gene Sacks. Roteiro: Neil Simon, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: William Lyon. Música: Neal Hefti. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Arthur Krams. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Robert Redford, Jane Fonda, Charles Boyer, Mildred Natwick, Herbert Edelman, Mabel Albertson. Estreia: 25/02/67

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Mildred Natwick)

Um dos mais populares dramaturgos americanos de sua geração, Neil Simon nem precisava ir muito longe para buscar inspiração para seus textos, sempre recheados de fina ironia e um senso de humor inteligente. Seus casamentos, por exemplo, forneciam matéria-prima mais do que suficiente para suas peças de teatro, invariavelmente bem-sucedidas tanto nos palcos quanto nas telas de cinema. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "Descalços no parque", que escreveu inspirado nas primeiras semanas de seu relacionamento com a dançarina Joan Bain. Lançada como espetáculo da Broadway em 1963 (dirigida por Mike Nichols) e adaptada para o cinema pelo próprio autor, a história de amor e desavença entre um casal que descobre que casamento é mais do que a lua-de-mel acabou por se tornar o primeiro sucesso de bilheteria das carreiras de dois então jovens atores que não demorariam em virar ídolos: Robert Redford e Jane Fonda.

Redford já tinha defendido seu personagem, o advogado certinho Paul Bratter, nos palcos, e sua presença no filme de estreia do diretor Gene Sacks revelava um inesperado timing cômico que seria ainda mais depurado em dois de seus filmes mais populares que viriam a seguir - "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69) e "Golpe de mestre" (73), ambos ao lado do colega Paul Newman. Enquanto isso, a filha de Henry Fonda vinha de produções que nem de longe exploravam todo o seu potencial como atriz e mulher bonita, como "Até os fortes vacilam" (60), com Anthony Perkins e "Dívida de sangue" (65), realizado ao lado de Lee Marvin. Na pele da descolada e vivaz Corie, cuja espontaneidade contrasta radicalmente com a rigidez do marido, Jane deu o primeiro passo em direção ao sucesso de público e crítica que viria a lhe render dois Oscar na década de 70, juntamente com uma sucessão de polêmicas envolvendo sua militância contra a Guerra do Vietnã. Em 1967, quando o filme estreou, ambos eram apenas talentosos jovens atores em busca de um lugar ao sol - e seus desempenhos exalavam um frescor perceptível ainda hoje, a despeito do fato de o filme não ter mantido o mesmo nível de atemporalidade de suas atuações.


"Descalços no parque" começa logo após a cerimônia de casamento dos jovens, belos e saudáveis Paul e Corie Bratter, que vão demorar menos de uma semana para perceberem que a vida de casados não se resume aos seis dias que passam trancados no quarto de um hotel. Logo que se mudam para o minúsculo apartamento no quinto andar de um prédio sem elevadores - escolhido por Corie em sua ânsia de aventurar-se na rotina matrimonial - os dois passam a encarar crise após crise, seja devido ao tamanho reduzido de seu lar, seja por causa da vizinhança bizarra ou até mesmo por começarem a notar um no outro traços de personalidade pouco atraentes. Corie despreza o jeito conservador do marido, que, por sua vez, percebe na esposa um desejo quase infantil de aproveitar cada prazer da vida - inclusive ao lado do excêntrico vizinho, Victor Velasco (Charles Boyer), que ela pretende casar com sua mãe, Ethel (Mildred Natwick, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). A crise, que aparenta ser passageira, acaba por estender-se mais do que o esperado, e ambos serão obrigados a questionar seu casamento.

Analisado friamente, "Descalços no parque" não acrescenta nada ao gênero comédia romântica - ainda que mereça crédito por subverter a fórmula "rapaz encontra moça" e já começar sua narrativa com o casal de protagonistas casado. Porém, alguns diálogos brilhantes e o elenco impecável compensam certos momentos mais lentos e desnecessários. Muito do que funciona - as referências constantes às escadas que levam ao apartamento, por exemplo - vem do talento de Neil Simon em extrair humor do cotidiano e da química faiscante entre Robert Redford e Jane Fonda em seu terceiro filme juntos - eles ainda contracenaram em "O cavaleiro elétrico", em 1979, já consagrados. Eles são tão agradáveis e carismáticos que sempre que estão em cena fazem esquecer a perda de ritmo de determinadas situações criadas pelo roteiro e transformam um filme simples e despretensioso em um entretenimento acima da média. Para assistir em um domingo chuvoso nada melhor.

segunda-feira

TODAS AS NOITES ÀS NOVE

TODAS AS NOITES ÀS NOVE (Our mother's house, 1967, Filmways/Heron Film Productions, 104min) Direção: Jack Clayton. Roteiro: Jeremy Brooks, Haya Harareet, romance de Julian Gloag. Fotografia: Larry Pizer. Montagem: Tom Priestley. Música: Georges Delerue. Direção de arte/cenários: Reece Pemberton/Ian Whittaker. Produção executiva: Martin Ransohoff. Produção: Jack Clayton. Elenco: Dirk Bogarde, Margaret Lecrere, Pamela Franklin, Louis Sheldon Williams, John Gugolka. Estreia: 09/10/67

Em 1961, o cineasta britânico Jack Clayton honrou a prosa do escritor Henry James com um dos mais assustadores contos de terror da década, o impressionante "Os inocentes", baseado no conto "A volta do parafuso". Seis anos depois, mais uma vez voltou sua atenção para as possibilidades dramáticas e amedrontadoras da infância com um filme perturbador e desconfortável chamado "Todas as noites às nove". Baseado em romance de Julian Gloag e dessa vez sem apelar para o sobrenatural, Clayton construiu uma narrativa frequentemente incômoda, que mergulhava o espectador em um brutal suspense psicológico que tinha como protagonistas um grupo de órfãos excêntricos que, aos poucos, passam da inocência para a violência, catalisada pela presença inesperada de um estranho no ninho. Com uma trama sombria e imprevisível em mãos, Clayton nem precisou de grandes nomes internacionais em seu elenco - apenas Dirk Bogarde era conhecido do grande público, e mesmo assim dificilmente poderia ser considerado um astro de primeira grandeza - para prender a atenção da plateia até seus minutos finais. E boa parte desse êxito vem do elenco infantil, coeso e intenso como necessário.

A trama de "Todas as noites às nove" começa com a morte da religiosa e frágil matriarca da família Hook, que vive em uma espaçosa localizada em Londres. Sua morte, depois de um longo tempo de doença, não chega a surpreender suas sete crianças, que vivem sem a presença do pai, que as abandonou há muito tempo. Temendo que, sendo órfãos, sejam separados e levados para instituições diferentes, os irmãos resolvem, então, esconder a morte da mãe, enterrando seu corpo no jardim, demitindo a empregada, Sra. Quayle (Yootha Joyce), e fingindo levar uma vida normal. Falsificando a assinatura da responsável pela casa em seus cheques e frequentando rotineiramente as aulas, as crianças ainda conseguem comunicação com a falecida através de mensagens que ela manda por intermédio de uma das filhas mais velhas, Diana (Pamela Franklin). É lógico que algumas pessoas começam a desconfiar da situação, mas o inesperado retorno do pai da família, Charlie (Dirk Bogarde), põe tudo nos devidos lugares - ao menos externamente, já que sua volta irá acarretar ainda mais problemas e conflitos dentro do casarão. Inconsequente, beberrão e mulherengo, Charlie aos poucos passa a mandar no dia-a-dia do clã, o que passa a incomodar aos antigos líderes: os filhos mais velhos.


Competente em dirigir crianças - como bem comprovado em "Os inocentes" - Jack Clayton escolheu a dedo um elenco infanto-juvenil, sabendo que seriam os atores mirins que dariam consistência ao filme apesar da experiência e do nome de Bogarde. Dos sete atores principais, poucos seguiram uma carreira de sucesso na vida adulta, e mesmo assim, com sucesso apenas relativo - Pamela Franklin, que interpretou Diana, a irmã que conseguia comunicar-se com a mãe morta, marcou presença no elenco de produções importantes como "Primavera de uma solteirona" (69) e "A casa da noite eterna" (73), e Mark Lester, o gago Jiminee, que falsificava a assinatura da morta para descontar seus cheques, assumiu a protagonização do oscarizado "Oliver" (68), mas abandonou as telas no início da década de 80. Mesmo assim, é impressionante a coesão atingida por Clayton, que faz grandes intérpretes de todos os pequenos atores, tanto nos momentos mais emotivos quanto nas cenas de maior tensão: a primeira parte do filme, quando aparentemente as mensagens do além querem dominar a família, é repleta de uma tensão constante e sutil, e é surpreendente a entrega de todo o elenco.

Com um visual obviamente um tanto datado - desde a fotografia até o figurino deixam claro sua origem sessentista - "Todas as noites às nove" é um típico filme cult, capaz de agradar em cheio aos espectadores que procuram por obras de suspense que não se escoram em sangue ou vísceras. Mesmo que por vezes dê a impressão de parecer muito mais lento do que precisa, é uma produção inteligente e dotada de sutileza, além de abrir espaço para discussões sobre poder e submissão. Não é uma obra-prima como "Os inocentes", mas tem clima, tensão e uma dose extra de desconforto com que muitas produções atuais nem sequer pensam em transmitir, além de mais uma grande atuação de Dirk Bogarde, um dos atores mais subestimados de sua geração. Vale a pena a experiência!

domingo

A DANÇA DOS VAMPIROS

A DANÇA DOS VAMPIROS (Dance with the vampires, 1967, FilmWay Pictures, 108min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Christopher Komeda. Figurino: Sophie Devine. Direção de arte/cenários: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Martin Ransohoff. Produção: Roman Polanski. Elenco: Jack McGowran, Roman Polanski, Alfie Bass, Jessie Robbins, Sharon Tate. Estreia: 13/11/67

Depois de fazer um primeiro filme em inglês que conquistou a crítica com um suspense psicológico milimetricamente calculado - "Repulsa ao sexo" (65) - e uma obra mais pessoal, repleta de um humor negro perturbador - "Armadilha do destino" (66) - o cineasta polonês Roman Polanski mais uma vez pegou todo mundo de surpresa com seu filme seguinte. Uma subversão ao mito dos vampiros, recheado de humor nonsense e realizado com um visual camp dos mais deliciosos, "A dança dos vampiros" foi uma lufada de ar fresco dentro da filmografia de Polanski, até então carregada de paranoia, tensão extrema e angústia. Apelando para o humor puro e simples, o diretor e seu corroteirista Gérard Brach, da forma mais iconoclasta e debochada possível, resolveram brincar com os paradigmas do cinema de horror britânico - em especial os filmes dos estúdios Hammer, especialista no gênero - e construíram um cult de nascença, tornado ainda mais macabramente famoso depois da violenta morte de uma de suas estrelas, a atriz Sharon Tate, assassinada aos oito meses de gravidez, em agosto de 1969, menos de dois anos depois de sua estreia.

Casada com Polanski, Sharon Tate morreu nas mãos de um grupo de jovens comandados de forma cega por Charles Manson - que se achava a reencarnação de Cristo e pregava uma supremacia branca que o levaria ao poder - e viu sua fama, ainda tímida, catapultada aos céus graças à morbidez da imprensa. Seu trabalho em "A dança dos vampiros" - como a bela e pouco recatada Sarah, objeto de desejo do personagem do próprio diretor - foi um dos primeiros a conquistar atenção da crítica e do público, e revelava nela uma presença de cena bastante forte e hipnótica que se confirmaria em um de seus filmes seguintes, a adaptação cinematográfica do best-seller "O vale das bonecas", de Jacqueline Susan - filmado por Mark Robson e lançado pouco mais de um mês depois. Substituindo a escolha inicial de Polanski para o papel, Tate aparece relativamente pouco em cena, mas é, sem dúvida, um dos maiores atrativos do filme, com sua beleza serena e uma docilidade que contrasta com o tom satírico do roteiro e das imagens criativas do cineasta, que fogem do humor óbvio ao apostar no riso discreto mas constante.


A trama se passa, como não poderia deixar de ser, na Transilvânia, mais precisamente em um remoto vilarejo onde chegam o Professor Abronsius (Jack MacGowran), especialista em morcegos, e seu tímido e atrapalhado assistente, Alfred (Roman Polanski, com bom timing para comédia). O veterano mestre procura provar a existência de vampiros e, seguindo pistas e estudos de colegas, se hospeda na pensão do misterioso Shagall (Alfie Bass), decorada com enorme quantidade de dentes de alho e frequentada por alguns habitantes locais bastante misteriosos. Abronsius passa a ter certeza acerca das criaturas que procura quando a bela filha do dono da pensão, Sarah (Sharon Tate), é sequestrada pelo assustador Conde Von Krolock (Ferdy Mayne), que a leva para sua tétrica mansão, localizada no alto de uma montanha coberta de neve. Movido pelo desejo de exterminar o vampiro, o veterano estudioso parte rumo ao castelo, acompanhado do apaixonado Alfred, que quer salvar o objeto de seu afeto de um trágico destino. Chegando no lar do monstruoso Krolock, os dois se descobrem presos e em vias de tornarem-se, eles próprios, as próximas vítimas do sanguessuga - e o que é pior, em um baile que reunirá dezenas de outros vampiros.

Transformado em espetáculo musical lançado em 1997 na Áustria em uma montagem dirigida pelo mesmo Roman Polanski do filme original, "A dança dos vampiros" é uma comédia atípica, que usa e abusa do humor visual e do deboche às regras estabelecidas dos filmes de terror. Sem poupar nada e nem ninguém, o roteiro apresenta seus heróis como dois inaptos atrapalhados, capazes de ficarem entalados em janelas ou incapazes de cravar estacas em seus algozes - além de criar um vampiro gay hilariante que não hesita em dar em cima do despreparado Alfred enquanto seu líder prepara o baile de gala que justifica o título em português. Contando ainda com uma trilha sonora discreta de Christopher Komeda - que depois criaria a tétrica música de "O bebê de Rosemary" (68) - e um ritmo que destoa substancialmente das comédias realizadas em Hollywood, que privilegiam o riso fácil, "A dança dos vampiros" não é exatamente um filme para todas as plateias, mas é capaz de divertir a quem procura subversões e criatividade. E ainda tem Sharon Tate, linda e carismática.

sábado

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (Guess who's coming to dinner, 1967,Columbia Pictures Productions, 108min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: William Rose. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Robert C. Jones. Música: De Vol. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy/Frank Tubble. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah Richards. Estreia: 11/12/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Spencer Tracy), Atriz (Katharine Hepburn), Ator Coadjuvante (Cecil Kellaway), Atriz Coadjuvante (Beah Richards), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Original

Não deixa de ser uma coincidência poética o fato de meros dois dias separarem a morte do ator Spencer Tracy e a decisão por unanimidade da Suprema Corte norte-americana em declarar inconstitucional a lei que considerava crime, em 14 estados dos EUA, o casamento interracial: o último filme do consagrado ator - e que ele havia finalizado apenas 17 dias antes de morrer - punha em discussão justamente uma das maiores chagas do país que veria, menos de um ano depois, o assassinato de Martin Luther King: o racismo muitas vezes mascarado pela hipocrisia e pelo verniz do liberalismo da classe média. Dirigido por Stanley Kramer, um dos mais politizados cineastas de sua época, "Adivinhe quem vem para jantar" marcou também a última colaboração - de nove - entre Tracy e Katharine Hepburn, um dos casais não oficiais mais queridos e respeitados de Hollywood e a primeira vez que um filme com um assunto tabu como a miscigenação deixou pra trás o fracasso de bilheteria e tornou-se um grande sucesso comercial e de crítica. Mas, à parte a importância do tema, dos veteranos atores e da competência de Kramer em tornar palatável até o mais controverso dos assuntos, o grande trunfo do filme, e o que fez neutralizar todo e qualquer risco, tinha um nome: Sidney Poitier.

Um dos nomes mais populares entre as plateias norte-americanas dos anos 60, Sidney Poitier representava o que para muitos era a epítome do bom-moço, e sua penetração junto inclusive às camadas mais preconceituosas do público era derivada justamente dessa figura respeitável, honesta e bem-sucedida que seus personagens transmitiam a cada filme. Seu sucesso era tão inquestionável que até mesmo um Oscar de melhor ator ele chegou a ganhar, em 1963, pelo filme "Uma voz nas sombras" - vale lembrar que até então nenhum ator negro havia chegado a tanto e isso era um feito considerável em um país ainda em convulsão com as frequentemente sangrentas lutas pelos direitos civis. Como era de se esperar, porém, o sucesso de Poitier e sua persona forjada ao prazer e gosto de uma audiência branca encontrava resistência justamente junto a seus pretensos semelhantes: ativistas dos movimentos negros rechaçavam com desprezo a pasteurização de sua cultura para melhor fruição de um público predominantemente WASP - branco, anglo-saxão, protestante. O filme "O mordomo da Casa Branca" (2014), de Lee Daniels, exemplifica a questão, em uma discussão entre o protagonista (Forest Whitaker), dedicado aos presidentes do país, e seu filho (David Oyleomo), radical ativista do grupo Panteras Negras que via em Poitier um exemplo a ser renegado pelo povo afro-americano. A importância do ator na indústria do entretenimento ianque é inegável - mas também o são os questionamentos levantados pelos não-entusiastas. E essa dubiedade é, talvez, o cerne de "Adivinhe quem vem para jantar", um filme repleto de boas intenções mas que, de certa forma, esbarra em um muro de escolhas questionáveis em sua narrativa.


Diretor de filmes de suma importância social e política, como "O vento será tua herança" (60) - sobre um professor do interior dos EUA que vai parar no banco dos réus por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin aos alunos - e "Julgamento em Nuremberg" - que tratava da batalha para condenar criminosos nazistas da II Guerra Mudial - o inteligente Stanley Kramer sabia que o tema de "Adivinhe quem vem para jantar" era controverso e poderia melindrar os mais conservadores (leia-se preconceituosos) do país. Foi com esse pensamento em vista que resolveu transformar seu protagonista negro em alguém que pudesse ser mais palatável a essa parcela do público - a quem, de certa forma, a mensagem era dirigida. Entra em cena, então, Sidney Poitier, com seu jeito polido, educado, inofensivo até. No filme, ele vive o dr. John Prentice, médico bem-sucedido, viúvo e repleto de boas intenções que entra na vida da família Drayton - brancos, cultos, inteligentes e aparentemente liberais - como uma tempestade inesperada: ele é apresentado pela jovem Joey (Katharine Houghton) como seu noivo, por quem se apaixonou perdidamente durante uma viagem ao Havaí. Mais do que simplesmente um namoro inconsequente, a relação entre os dois se revela séria e urgente, já que pretendem casar-se em poucos dias. Os até então modernos Matt (Spencer Tracy) - editor de um jornal de grande circulação - e Christina (Katharine Hepburn) - dona de uma galeria de arte - se veem, então, diante de uma situação que põe em xeque suas convicções e teorias. Quando os pais de John também entram na jogada, para um jantar ao qual também comparece um padre católico (Cecil Kellaway, indicado ao Oscar de coadjuvante), a noite se transforma em um debate onde se discute não apenas o futuro do casal, mas também o amor em geral e a situação social de um país inteiro.

A questão de John Prentice ser o protótipo do bom-moço - como se apenas se ele cumprisse todas as regras impostas por uma sociedade branca ele fosse apto a receber seu aval - ainda é muito discutida, como forma de diminuir o impacto de "Adivinhe quem vem para jantar" à época de sua estreia. Lógico que não foi a escolha ideal em termos ideológicos - é o mesmo que hoje em dia se fazer um filme com personagens gays que vivem sob normas heteronormativas como forma de não chocar a audiência e angariar sua simpatia - mas é injusto não reconhecer que Kramer, juntamente com o roteirista William Rose, fez um trabalho bastante corajoso e importante, além de não esquecer jamais dos ingredientes que fazem um bom filme: uma história interessante, um roteiro ágil e vivaz, uma direção firme e um elenco de sonhos. O último dueto entre Spencer Tracy e Katharine Hepburn é digno de seus melhores trabalhos, e fica na história como um testemunho de dois astros inteligentes, talentosos e engajados. É só deixar de lado a ideia de que poderia ter sido diferente e assistir ao filme pelo que ele é para apreender sua relevância e deleite.

domingo

UM CAMINHO PARA DOIS

UM CAMINHO PARA DOIS (Two for the road, 1967, 20th Century Fox, 111min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Frederic Raphael. Fotografia: Christopher Challis. Montagem: Madèleine Gug, Richard Marden. Música: Henry Mancini. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Stanley Donen. Elenco: Audrey Hepburn, Albert Finney, Eleanor Bron, William Daniels, Claude Dalphin, Nadia Gray, Jacqueline Bisset. Estreia: 27/4/67

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Para TT...

Perdido entre vários filmes adorados pelos fãs de Audrey Hepburn - principalmente "Bonequinha de luxo" e "My fair lady" - a comédia romântica dramática "Um caminho para dois" quase nunca é mencionado como um favorito. Sofisticado dramaturgicamente e dotado de uma melancolia que perpassa inclusive seus inúmeros momentos cômicos, o filme de Stanley Donen - um dos homens por trás do sucesso de "Cantando na chuva" - é um retrato doloroso e realista do declínio de um relacionamento aparentemente indestrutível, que só não é mais angustiante por conta da química entre Hepburn e Albert Finney, pela edição inteligente e pelo tom bem-humorado que o afasta da indigesta catarse no qual poderia se transformar em mãos menos hábeis.

Contado através de três linhas temporais que se intercalam graças à edição ágil e esperta de Madèleine Gug e Richard Marden, "Um caminho para dois" conta a história de amor, decepção, traição e momentos inesquecíveis entre Joanna (Hepburn) e Mark (um jovem Albert Finney). Quando se encontram, durante uma viagem à Europa, ela é uma corista em busca da realização profissional e ele um arquiteto iniciante. Os dois se apaixonam perdidamente e se envolvem em um casamento repleto de momentos de eletrizante felicidade, mesmo quando precisam contar moedas e passam por situações constrangedoras devido à falta de dinheiro. Conforme o tempo passa e a família aumenta, os problemas também começam a mostrar sua cara, o que os leva fatalmente a crises cada vez mais sérias, em oposição à ascensão de Mark em sua carreira. Quando o filme começa, eles estão a caminho de uma festa na França, onde terão que finalmente decidir que rumo tomar em suas vidas - fato este que os faz também relembrar todos os bons e maus dias de seu relacionamento.


O roteiro de Frederic Raphael, indicado ao Oscar da categoria, é um primor de sensibilidade e inteligência, equilibrando com especial maestria cenas do mais divertido humor visual com a ironia certeira de diálogos mais apurados e sofisticados, além de alcançar as notas certas também nas sequências mais dramáticas. Sua estrutura, fundamentada basicamente em três road-movies simultâneos contados fora de ordem cronológica - fato que a princípio pode confundir um pouco o espectador mas depois mostra-se crucial para a apreciação do panorama geral proposto pela sinopse - é rica em ironia, ao comparar, frequentemente, um passado financeiramente difícil mas feliz, com a realização monetária acompanhada de crises na relação. Por mais que pareça apontar uma espécie de simplismo com essa opção (como se o dinheiro fosse o culpado pelos males do casamento), a trama de Raphael não se deixa cair nessa armadilha, apontando outros fatores para o desgaste sem nunca abdicar de deixar bem claro o amor que une os protagonistas.

E, se o roteiro bem escrito e a direção leve de Donen - que sai-se melhor nos momentos alegres, traindo seu currículo anterior - são dignos dos mais rasgados elogios, a química perfeita entre Hepburn e Finney não fica atrás. Hepburn, que aceitou o papel apenas depois de ler o roteiro inteiro - antes ela havia recusado por medo de fazer mais um filme que rompia com as regras estabelecidas pelo cinema comercial americano como havia sido seu mal-sucedido "Quando Paris alucina" - era uma atriz cheia de nuances, todas elas exploradas com carinho pela direção: durante o filme, vemos sua Joanna apaixonada, decepcionada, triste, feliz, raivosa, arrependida e esperançosa, sem que nunca caia na mesmice ou na repetição. Finney - que ficou com um papel oferecido a Paul Newman e Michael Caine e cobiçado por Tony Curtis - demonstra maturidade e desenvoltura em criar um Mark que deixa transparecer seu amadurecimento sem perder sua essência. São Audrey e Finney quem sustentam todas as bases do roteiro, que dão respaldo a cenas emocionantes (quando lembram da distância que percorreram entre seu primeiro dia juntos e o impasse de seu casamento, quando se identificam com casais que ficam em silêncio durante as refeições, quando veem sua praia particular destruída pelo progresso representado por um prédio construído pelo próprio Mark) e que elevam o status do filme a mais do que simplesmente uma comédia romântica.

"Um caminho para dois" merecia estar entre os filmes mais populares de Audrey Hepburn. É deliciosamente engraçado, comoventemente romântico e dolorosamente triste, tudo na medida certa. É preciso mais que isso?

sexta-feira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM


A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (The graduate, 1967, Universal Pictures, 105min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry, baseado no romance de Charles Webb. Fotografia: Robert Surtess. Montagem: Sam O'Steen. Música: Dave Grusin, canções de Paul Simon. Produção: Lawrence Turman. Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Elizabeth Wilson, Murray Hamilton, Brian Avery. Estreia: 21/12/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Dustin Hoffman), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Katharine Ross), Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (Mike Nichols)
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Diretor (Mike Nichols), Atriz Comédia/Musical (Anne Bancroft), Most Promising Newcomer Male (Dustin Hoffman), Most Promising Newcomer Female (Katharine Ross)


Não é difícil entender os motivos que levaram "A primeira noite de um homem" a tornar-se um dos filmes de maior sucesso de sua época e um dos mais influentes dramas geracionais de Hollywood. Quando o filme foi lançado, em 1967, a juventude americana encontrava-se em um estado que abandonava a letargia dos anos pós-guerra e começava a questionar seu país - envolvido em uma muito mal-explicada guerra no Vietnã - sua estrutura familiar e o estado social em que se encontravam - vale lembrar que Martin Luther King ainda vivia e liderava movimentos em prol dos direitos civis. Os jovens que estavam começando a entrar na faixa dos vinte anos sentiam-se sufocados pelas expectativas dos pais e perdidos quanto a um futuro que parecia cada vez mais incerto. Sufocado e perdido também estava Benjamin Braddock, o protagonista do livro de Carl Webb e do filme de Mike Nichols. Não tinha como não haver uma identificação imediata.

Ligeiramente diferente de sua versão literária - um pouco menos passiva - a personificação de Benjamin Braddock no filme de Nichols ainda assim mantém sua essência confusa e sem norte. Quando a história começa, o jovem Braddock (às vésperas de completar 21 anos) está de volta à casa dos pais, depois de formar-se na universidade. Sem saber o que fazer com seu futuro e nada sutilmente cobrado pela família e pelos amigos dela - um grupo de bem-sucedidos homens de negócios e mulheres que frequentam a alta sociedade - Benjamin fecha-se cada vez mais em si mesmo. Sua vida dá uma virada quando ele é seduzido pela Mrs. Robinson do título da canção de Paul Simon. Vivida magistralmente por Anne Bancroft, a sexy mulher mais velha, com idade para ser sua mãe lhe apresenta aos prazeres do sexo, que lhe foram negados por um casamento sem amor e uma maternidade indesejada. Absolutamente não-romântica, a experiente e prática esposa de um dos amigos de seu pai parece ser exatamente o que o jovem precisa em seus momentos de descoberta do mundo, mas acaba se tornando uma pedra em seu sapato quando ele conhece e se apaixona pela jovem Elaine (Katharine Ross em papel oferecido a Natalie Wood e para o qual foram testadas Candice Bergen e Sally Field). Doce e delicada, a bela jovem também se apaixona por ele, mas o romance esbarra em um grave problema: ela é filha da sedutora sra. Robinson.


Dustin Hoffman já tinha quase 30 anos de idade quando interpretou Benjamin Braddock, de apenas 21. Isso não o impediu, no entanto, de criar uma das personagens mais interessantes de sua carreira, um jovem inseguro e com uma dose de inocência e romantismo que ia de encontro à praticidade e o cinismo de sua amante. A atuação de Anne Bancroft é antológica, equilibrando genialmente a amargura de uma mulher cuja vida não seguiu o rumo sonhado com uma certa dose de egoísmo. A sra. Robinson não tem apenas ciúme da relação da filha com Benjamin e sim considera o rapaz indigno de ficar com ela. A complexidade da personagem encontra em Bancroft a atriz perfeita, o que não dá margem a qualquer dúvida sobre o acerto em sua escalação para o papel, uma vez que ela era apenas seis anos mais velha que Hoffman. É impossível imaginar alguém melhor, mais inteligente e mais sensível - e isso que inúmeras atrizes foram sondadas e/ou cotadas para vivê-la, nomes que iam de Jeanne Moreau e Ava Gardner até a Doris Day e Judy Garland. A química entre os dois protagonistas é preciosa e as cenas inicias de sua conquista são de figurar em qualquer antologia de diálogos geniais da história do cinema. Unidos à bela trilha sonora - que apresenta as clássicas instântaneas "Mrs. Robinson" e "The sound of silence" - e a um elenco coadjuvante impecável (onde até mesmo um jovem Richard Dreyfuss faz uma figuração de luxo), Hoffman e Bancroft elevam o filme a um patamar acima do corriqueiro.

"A primeira noite de um homem" é bem mais profundo do que mostra em sua superfície. Em um primeiro momento, é apenas a história do despertar de um homem em relação à sua sexualidade e ao amor. No entanto, como o próprio título original - a graduação, em bom português - sugere, fala sobre acordar para a vida, para um caminho que talvez não seja o mais seguro, mas ainda assim, é o que foi escolhido e não pré-determinado. Com seu jeito loser de ser, Dustin Hoffman é a perfeita encarnação de um rapaz abismado com o mundo à sua volta, que não sabe caminhar com as próprias pernas sem que alguém o empurre e que, de repente, nota que optar pelo que deseja é o caminho certo, mesmo que não saiba como agir depois de fazer suas escolhas. Nem Warren Beatty, nem Jack Nicholson nem Robert Redford - todos cotados para o papel - fariam melhor.

quarta-feira

À SANGUE FRIO


À SANGUE FRIO (In cold blood, 1967, Columbia Pictures, 134min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, baseado no livro de Truman Capote. Fotografia: Conrad Hall. Montagem: Peter Ziner. Música: Quincy Jones. Direção de Arte / Cenários: Robert Boyle / Jack Ahern. Produção: Richard Brooks. Elenco: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Jeff Corey, John McLiam. Estreia: 14/12/67

4 indicações ao Oscar: Diretor (Richard Brooks), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original

Em 2005 o cineasta Benett Miller lançou "Capote", que deu a Philip Seymour Hoffman o merecido Oscar de melhor ator. O filme, baseado na biografia escrita por Gerald Clarke, contava o envolvimento do famoso escritor em um polêmico caso de homicídio ocorrido no Kansas em 1960 e o processo de escrita do livro "À sangue frio", que tornou-se sua obra-prima e até hoje é leitura indispensável aos fãs do bom jornalismo. Lançado em 1965, o resultado da exaustiva pesquisa de Capote ficou famoso como o primeiro "romance de não-ficção" da história e chegou às telas de cinema meros dois anos depois de sua publicação. Dirigida por Richard Brooks (que também escreveu o roteiro do filme), a adaptação cinematográfica de "À sangue frio" chegou aos cinemas em 1967, beneficiando-se do fato de a brutal história ainda estar fresca no inconsciente do povo americano. À parte seu timing perfeito em termos de estreia, no entanto, possui qualidades outras que o mantém, ainda hoje, entre os grandes dramas policiais realizados por Hollywood.

O roteiro de Brooks é bastante fiel ao livro de Truman Capote - também autor do texto original de "Bonequinha de luxo" - e conta uma história surpreendentemente verídica; em 1960, uma pequena cidade do Kansas fica chocada com o brutal assassinato da família do fazendeiro Clutter.Ele, sua esposa e seu casal de filhos são violentamente assassinados em casa, sem motivos aparentes. Enquanto a polícia busca pistas para solucionar o caso, os dois criminosos, Perry Smith (Robert Blake) e Dick Hickock (Scott Wilson) partem atrás da realização de seu sonho encontrar um tesouro cujo mapa está em suas mãos. No entanto, como todo e qualquer assassinato, rastros são deixados para trás e os dois ex-colegas de prisão são capturados e julgados, condenados ambos à morte.


A começar pela competente fotografia em preto-e-branco indicada ao Oscar, que mostra a desolação e a angústia dos personagens, quase tudo funciona maravilhosamente bem no resultado-final - é especialmente impressionante a sequência, já no final do filme, em que Smith recorda de sua infância e parece chorar, quando na verdade o que estamos vendo é o reflexo da chuva na vidraça do presídio (um efeito casual, segundo a produção, mas que emociona de verdade). O livro de Capote deu material suficiente para que o roteiro seja extremamente farto de informações e ao mesmo tempo, enxuto e direto, auxiliado pela música potente de Quincy Jones e a edição excepcional de Peter Zinn. As personalidades dos assassinos são mostradas aos poucos e, mesmo que o público saiba que eles são frios e até cruéis, não deixa de ter uma certa compaixão por suas vidas fracassadas e desesperançadas. Contribui muito para isso a interpretação dos atores, em especial a de Robert Blake, que construiu um Perry Smith torturado pelo físico mutilado e a alma destroçada por uma infância sofrida. Por mais talentoso que fossem, é pouco provável que Paul Newman e Steve McQueen - as primeiras escolhas da Columbia Pictures para os papéis - conseguissem deixar de lado suas personas já conhecidas e consagradas para dar veracidade a personagens tão controversos. E veracidade era a palavra de ordem no projeto de Brooks.

Em busca do máximo de realismo possível, “À sangue-frio” foi filmado em vários locais onde realmente os fatos mostrados ocorreram, como a fazenda dos Clutter e o tribunal onde os assassinos foram julgados. Até mesmo seis dos jurados originais participaram das cenas, e o juiz que condenou a dupla só não fez parte do elenco porque morreu pouco antes das filmagens.

“À sangue-frio” não faz julgamentos morais. O diretor Richard Brooks quer apenas contar uma história forte e emocionalmente impactante por sua natureza. Consegue. Não faz jus à majestade do livro que lhe deu origem, mas jamais peca pela mediocridade e/ou auto-complacência. Um filme definitivo e obrigatório!

terça-feira

BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS


BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie & Clyde, 1967, Warner Bros, 112min) Direção: Arthur Penn. Roteiro: David Newman, Robert Benton. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Dede Allen. Música: Charles Strouse. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte / Cenários: Dean Tavoularis / Raymond Paul. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder. Estreia: 04/8/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Penn), Ator (Warren Beatty), Atriz (Faye Dunaway), Ator Coadjuvante (Gene Hackman, Michael J. Pollard), Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Roteiro Original, Fotografia, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Fotografia


Segundo o sensacional livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood", de Peter Biskind (Editora Intrinseca), "Bonnie & Clyde, uma rajada de balas" foi o filme que marcou a ruptura entre a "velha" Hollywood, com seu sistema de estúdios, códigos de censura e classicismo exagerado e a "nova" Hollywood, onde os diretores virariam os astros - principalmente se tivessem o talento de "auteur" que a revista francesa "Cahièrs du Cinéma" já há algum tempo exaltava. Ainda segundo Biskin, foi graças à coragem do produtor Warren Beatty e do cineasta Arthur Penn que foram abertas as portas que deram entrada no mundo do cinema comercial, de nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Hal Ashby, Steven Spielberg e Robert Altman. Só por isso "Bonnie & Clyde" já merecia figurar com honra em qualquer antologia sobre cinema. Mas se não bastasse essa sua importância histórica, o filme de Penn é um estupendo trabalho de direção e um dos melhores filmes de gângsters já produzidos nos EUA.

"Bonnie & Clyde" começa em 1931, quando o jovem Clyde Barrow (Warren Beatty, que assumiu o papel quando o cantor Bob Dylan não o aceitou) acaba de sair da prisão por assalto à mão armada. Ao tentar roubar um carro, ele conhece a bela Bonnie Parker (Faye Dunaway no auge da beleza), que trabalha tediosamente como garçonete mas deseja ardorosamente uma vida mais agitada. Logo que ela realmente acredita que o rapaz diz ser o que é, ela resolve juntar-se a ele, e o casal passa a roubar bancos. No meio do caminho junta-se a eles o jovem frentista W.C. Moss (Michael J. Pollard) e mais adiante o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua mulher, Blanche (Estelle Parsons). Pouco depois, a gangue já é conhecida e procurada em boa parte do país, tornando-se famosa e de certa forma admirada pela população.

Como era de se esperar, o roteiro de David Newman e Robert Benton (que contou com a não-creditada ajuda de Robert Towne) não é totalmente fiel aos fatos reais da vida de seus protagonistas (W.C.Moss, por exemplo, é uma mistura de três pessoas), mas tenta seguir ao máximo a cronologia dos acontecimentos e a história verdadeira. O relacionamento entre o casal central é um dos pontos mais dissonantes da realidade: segundo historiadores, Clyde era bissexual - o primeiro roteiro claramente apresentava uma espécie de romance entre ele e Moss - enquanto no filme, sua incapacidade de consumar o ato sexual com Bonnie advém do fato de ele ser impotente. Não deixa de ser interessante, contudo, ver que a violência, os roubos e a adrenalina das perseguições de certa maneira substitui, para ela, os orgasmos que não tem com o homem que ama - o primeiro beijo deles acontece quando ela o assiste assaltar uma mercearia, o que não deixa de reiterar a afirmação.


Idealizado em preto-e-branco (ideia rejeitada ferozmente pela Warner), "Bonnie & Clyde" tem um estilo semi-documental que, apesar da violência um tanto excessiva pra época - mortes acontecem a todo instante e sem disfarces de edição - ainda arruma espaço para uma espécie de humor negro. A trilha sonora impecável de Charles Strouse casa perfeitamente tanto nas cenas mais densas quanto nas sequências mais leves, em um tom espirituoso que lembra o cinema mudo e impede o produto final de tornar-se indigesto a um público ainda não acostumado com o vigor apresentado pelo cineasta. Inclusive, Penn - que concorreu ao Oscar por seu magnífico trabalho - substituiu ninguém mais ninguém menos do que o francês François Truffaut, que esteve envolvido diretamente em mais de uma etapa da produção do filme, mas o abandonou na última hora para cuidar de seu projeto de estimação, "Fahrenheit 451".

E não foi só Truffaut quem poderia ter seu nome intimamente ligado à "Bonnie & Clyde": além de Bob Dylan ter sido considerado para viver o protagonista masculino, a personagem feminina central também teve nomes cotados antes que Dunaway agarrasse o trabalho com unhas e dentes: Jane Fonda não quis deixar a França onde morava na época, Cher despertou a ira do seu então marido Sonny Bono por tentar um papel em um filme tão controverso e Shirley MacLaine saiu de cena por razões óbvias quando Beatty assumiu como Clyde, uma vez que não seria apropriado ter dois irmãos vivendo um casal nas telas de cinema.

Apropriado, aliás, o filme não pareceu nem um pouco quando estreou. Lançado pelo estúdio como um filme B, sem maior divulgação e sem alarde, ele recebeu algumas críticas massacrantes - em especial a do principal resenhista da revista "Newsweek", Joseph Morgenstern - e não parecia ter um futuro promissor. Quando, no entanto, jovens começaram a lotar as sessões e outros críticos passaram a tecer loas entusiasmadas à obra, tudo mudou. Não só o estúdio relançou o filme em maior escala como até mesmo Morgenstern voltou atrás, declarando estar completamente errado em sua primeira impressão. As dez indicações ao Oscar apenas confirmaram o que qualquer espectador poderia perceber assim que as polaróides da abertura do filme apareciam na tela: ali estava um clássico atemporal.

Sexy, violento e amoral, "Bonnie & Clyde" é um dos filmes mais fascinantes sobre a América pós-1929 e um dos mais importantes exercícios de estilo do cinema americano de todos os tempos. Tão interessante agora quanto há 43 anos, é um exemplo de técnica, talento e coragem a ser seguido por qualquer cineasta que preze sua integridade artística.

OS DOZE CONDENADOS


OS DOZE CONDENADOS (The dirty dozen, 1967, MGM Pictures, 150min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Nunnally Johnson, Lukas Heller, baseado no romance de E. M. Nathanson. Fotografia: Edward Scaife. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Produção: Kenneth Hyman. Elenco: Lee Marvin, Ernest Borgnine, Richard Jaeckel, George Kennedy, Robert Ryan, John Cassavetes, Charles Bronson, Telly Savallas, Donald Sutherland, Trini Lopez, Jim Brown, Clint Walker, Tom Busby, Ben Carruthers, Stuart Cooper, Colin Maitland. Estreia: 15/5/67

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Cassavetes), Montagem, Som, Efeitos Sonoros

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


As feministas que perdoem a afirmação, mas existe, sim, "filme de homem". E um exemplo claríssimo disso é "Os doze condenados", dirigido pelo mesmo Robert Aldrich que domou Bette Davis e Joan Crawford em "O que terá acontecido a Baby Jane?". Baseado em um romance de E.M. Nathanson, "Os doze condenados" é uma explosão de testosterona em cada fotograma, não abrindo espaço para nenhum tipo de sentimentalismo, dramas desnecessários ou senso de humor. É um grande filme, mas com um público-alvo específico - os fãs de filmes de guerra à moda clássica.

"Os doze condenados" começa em março de 1944, em Londres. O Major Reisman (Lee Marvin em papel recusado por John Wayne) é chamado à presença de um superior para receber uma nova e atípica missão. Conhecido por seus modos rebeldes e contrários à hierarquia, ele é escolhido para ser o comandante de uma missão aparentemente suicida - invadir um castelo na França onde os alemães guardam sua munição, explodí-lo e matar todos os soldados nazistas que estiverem presentes (assim como quem mais estiver por perto). Como seus comandados, o Major terá uma equipe de doze homens que pouco tem a perder - uma dúzia de condenados pela justiça militar (alguns à morte, outros à prisão perpétua) que, se bem sucedidos em sua perigosa batalha, estarão absolvidos de seus crimes. Entre os escolhidos por Reisman encontram-se o ex-soldado Wladislaw (Charles Bronson) - preso por atacar um superior -, Jefferson (Jim Brown) - um ativista dos direitos dos negros -, Franko (John Cassavetes) - um gângster rebelde -, Maggot (Telly Savallas) - um psicopata que mata mulheres que fogem dos padrões cristãos - e Pinkley (Donald Sutherland) - um homem com problemas mentais.

A primeira providência de Reisman é unir seus homens e fazer deles uma equipe coesa e sólida. Para isso, ele reúne a todos em um campo de treinamento rígido e implacável. É neste campo que os prisioneiros transformados em soldados tornam-se um time, deixando suas diferenças de lado em prol de um mesmo objetivo. Logo em seguida, depois de provarem ao superior de Reisman que são capazes de cumprir o que lhes foi proposto - mesmo quando chegam perto de perder sua possibilidade de perdão graças a uma festinha particular com algumas garotas de programa - chega a hora de partir para o ataque. Com suas vidas em jogo, a dúzia de imundos do título original se entregam de corpo e alma ao plano criado por seu líder.



"Os doze condenados" é um filme que vale por três. Seus três atos claramente delimitados poderiam facilmente ser produtos isolados e seriam interessantes o suficiente. Primeiro, o treinamento: é pouco provável que o espectador mais ligado não vá perceber semelhanças entre esta parte inicial com o primeiro ato de "Nascido para matar", de Stanley Kubrick - logicamente sem a violência deste último. Inúmeros filmes de guerra de certa forma utilizaram deste artifício para apresentar suas personagens e o trabalho de Aldrich é exemplar: com o encerramento do capítulo inicial, o público já está torcendo por seus "heróis", mesmo que saiba que eles são todos criminosos. É interessante notar que o roteiro não se detém em explicitar detalhadamente as razões que levaram os protagonistas à cadeia, o que por um lado os torna mais simpáticos à plateia, mas ao mesmo tempo enfraquece suas personalidades. O público, de certa forma, tem acesso apenas ao que está vendo, esquecendo já na metade do filme que está torcendo por homens que, em produções menos corajosas, seriam os vilões.

A segunda parte da trama mostra como os homens contatados por Reisman provam sua competência em relação ao que foi planejado e como tornaram-se realmente unidos. É talvez a parte menos empolgante do filme, mas que serve de ponte para a esperada e catártica terceira fase do roteiro de Nunnally Johnson e Lukas Heller: a missão propriamente dita.

É difícil descrever a elegância de Robert Aldrich em dirigir o terço final de "Os doze condenados". Sem apelar para uma violência exagerada - ainda que o tema e a proposta permitissem que ele fizesse isso - o cineasta rege uma sucessão de pequenas cenas que, concatenadas, formam um extraordinário clímax, que, revisto hoje, parece claramente ter inspirado Quentin Tarantino em seu "Bastardos inglórios": ao recusar-se a cortar uma cena crucial - que envolvia mulheres e crianças alemãs - o diretor demonstrou uma bravura louvável, que, dizem, lhe custou uma indicação ao Oscar.

"Os doze condenados" é um filme de guerra exemplar. Ao fugir do clichê de mostrar as batalhas em si, ele apresenta um lado até então inédito do conflito e cede espaço para algumas criações raras em obras do gênero: John Cassavetes, por exemplo, concorreu ao Oscar de ator coadjuvante por seu trabalho como o rebelde Franko e Donald Sutherland (herdando um papel recusado por outro ator), carimbou seu passaporte para um dos papéis principais de "M.A.S.H.", de Robert Altman - que lhe transformou em astro. Isso sem falar na atuação de Lee Marvin, ele mesmo um veterano da II Guerra, assim como Telly Savallas, Charles Bronson e Ernest Borgnine.

Maior sucesso de bilheteria da MGM no ano de 1967, "Os doze condenados" rendeu três sequências feitas para a TV e tem um remake marcado para 2012. É esperar para conferir o que a tecnologia moderna pode oferecer para melhorar ainda mais a incrível história criada por Nathanson.

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