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segunda-feira

OS PIRATAS DO ROCK

 


OS PIRATAS DO ROCK (The boat that rocked, 2009, Universal Pictures/Working Title Films/StudioCanal, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Emma E. Hickox. Música: Hans Zimmer. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Curtis, Debra Hayward. Produção: Hilary Bevan Jones, Tim Bevan, Eric Fellner. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy, Rhys Ifans, Kenneth Branagh, Emma Thompson, Tom Sturridge, Jack Davenport, Nick Frost, Chris O'Dowd, Gemma Arterton, January Jones, Will Adamsdale. Estreia: 01/4/2009

O ano era 1966. O rock britânico dominava as paradas de sucesso, as vendagens e os corações de milhares de jovens, encantados com a aura de rebeldia e liberdade. Em um movimento oposto a esse, no entanto, o governo local tentava impedir o avanço do que considerava uma cultura "perigosa", com uma lei que restringia a execução de música popular na rádio oficial do país a apenas uma hora por dia. Inconformadas com tal arbitrariedade, várias emissoras piratas entravam nos lares ingleses com uma programação recheada de sucessos - sintonizadas a partir de navios ancorados fora dos limites da Inglaterra. Uma dessas emissoras era a Radio Caroline, cujo estilo anárquico, debochado e informal ficou na mente do diretor e roteirista Richard Curtis - que, décadas mais tarde, resolveu homenageá-la com "Os piratas do rock", uma divertida e calorosa comédia que emula, de forma fictícia, sua personalidade e dia-a-dia. Narrado em forma anedótica e pontuado por uma trilha sonora das mais empolgantes - além de um elenco perfeitamente escalado -, o filme pode não ter feito um sucesso avassalador (na verdade nem chegou a pagar seu custo de produção), mas é, como o normal na carreira de Curtis, o equivalente cinematográfico a um abraço carinhoso.

Conhecido principalmente pelo roteiro de "Quatro casamentos e um funeral" (1994) - que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar e lhe abriu as portas para outras pérolas do gênero, como "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) e "O diário de Bridget Jones" (2001) -, Curtis estreou na direção com o sublime "Simplesmente amor" (2003) e tornou-se um cineasta de poucos mas consistentes filmes. "Os piratas do rock" é apenas seu segundo longa, mas já enfatiza seu estilo delicado e generoso de contar histórias centradas em seres humanos, com todas as suas idiossincrasias e possíveis tendências ao ridículo - até mesmo quando o personagem central é um barco. Com uma galeria de tipos capazes de arrancar risadas (e talvez até algumas discretas lágrimas), "Os piratas do rock" aposta em uma trama sem um protagonista único, que espalha seu foco em uma série de acontecimentos que, juntos, formam um retrato dos mais festivos de uma das mais prolíficas eras do rock - vista por seus bastidores mais distantes.

 

O cenário estabelecido por Curtis para contar sua história é a Rock Radio, uma das várias emissoras piratas que desafiavam a lei britânica para agradar a uma legião de fiéis fãs. O filme começa quando o adolescente Carl (Tom Sturridge), expulso da escola pelo supremo ato de rebeldia de fumar maconha, chega ao QG da rádio para passar uns tempos ao lado do padrinho, Quentin (Bill Nighy), o dono do lugar. Assim que chega, Carl se torna parte da rotina doméstica - que inclui duas visitas mensais de um grupo de mulheres para a diversão dos funcionários - e amigo dos radialistas, todos donos de personalidades distintas que dividem o amor pelo rock e pelas liberdades individuais. Dentre todas as bizarras situações que ele testemunha, destaca-se a nem sempre sutil rivalidade entre o americano The Count (Philip Seymour Hoffman) - um dos mais famosos de seu país - e o maior DJ da Inglaterra, o arrogante Gavin (Rhys Ifans) - que retorna depois de um período dedicado a prazeres ilícitos. Mas como a felicidade de uns é sempre o suplício de quem não é feliz, a existência da Rock Radio passa a ser ameaçada por Alistair Dormandy (Kenneth Branagh), homem de confiança do Primeiro Ministro, que faz da missão de acabar com as transmissões piratas a prioridade de seus dias.

"Os piratas do rock" não é tão redondo ou brilhante como os outros filmes de Richard Curtis - demora a engrenar e em alguns momentos sofre de uma perda de ritmo -, mas apresenta, como em todos eles, um humor contagiante. É difícil não torcer por seus anti-heróis, assim como é quase impossível não se deixar envolver por sua amizade e por sua busca por liberdade e arte. Ilustrado por uma bela trilha sonora (por vezes ligeiramente anacrônica, mas sempre funcional) e impregnado por uma ingenuidade encantadora, é uma comédia que foge do riso fácil e prefere sorrisos emocionados a gargalhadas vazias. Em suma, é tudo que a obra de seu diretor/roteirista/produtor sempre ofereceu às plateias: humor inteligente e sensibilidade.

quarta-feira

BOA SORTE, LEO GRANDE


BOA SORTE, LEO GRANDE (Good luck to you, Leo Grande, 2022, Searchlight Pictures, 97min) Direção: Sophie Hyde. Roteiro: Katy Brand. Fotografia e montagem: Bryan Mason. Música: Stephen Rennicks. Figurino: Sian Jenkins. Direção de arte/cenários: Miren Marañon/Fiona Albrow. Produção executiva: Katy Brand, Julian Gleek, Mark Gooder, Sophie Hyde, Nadia Khamlichi, Nessa McGill, Martin Metz, Alison Thompson. Produção: Debbie Gray, Adrian Politowski. Elenco: Emma Thompson, Daryl McCormack, Isabella Laughland. Estreia: 22/01/2022 (Festival de Sundance)

Em uma época em que mulheres são apedrejadas virtualmente por ousarem desafiar os limites impostos pela sociedade a sua idade e criticadas nem tão virtualmente assim por sua busca pela liberdade sexual e sentimental, não deixa de ser uma grande ousadia o lançamento de um filme como "Boa sorte, Leo Grande": com uma visão predominantemente feminina a respeito de assuntos relevantes e urgentes, o filme de Sophie Hyde é um triunfo em todos os pontos, capaz de fazer rir, pensar e emocionar através de uma estrutura aparentemente simples que esconde uma profundidade rara no cinema comercial. Ao tratar com naturalidade temas como sexo, solidão, família e hipocrisia, o roteiro de Katy Brand transforma o que poderia ser um tedioso e autoindulgente discurso em uma pérola de sofisticação e sensibilidade.

Que não se espere, em "Boa sorte, Leo Grande", piadas escatológicas e/ou fáceis, ainda que o roteiro não se furte a brincar com os contrastes entre seus protagonistas e suas idiossincrasias. Como em uma boa peça de teatro, seus personagens vão revelando aos poucos suas facetas, permitindo a eles mesmos - e ao público - que suas reais motivações e sentimentos só surjam nos momentos mais precisos. Alternando-se no domínio das conversas, a professora aposentada Nancy (Emma Thompson) e o garoto de programa Leo Grande (Daryl McCormack) desfilam, em pouco mais de uma hora e meia, seus sonhos e frustrações, em uma relação que permite tal profundidade somente por s saber efêmera - a princípio nenhum dos dois sabe a verdadeira identidade do outro, escondidos que estão sob as máscaras que a situação exige. Ela é uma viúva que sempre viveu sob as normas impostas por sua religiosidade e criação conservadora; ele disfarça sua profissão sui generis sob um verniz intelectual e gentil que o protege dos preconceitos inerentes à função. Ela quer conhecer, na prática, tudo aquilo de que apenas ouviu falar em sua vida sexual insossa - e tem inclusive uma lista escrita de tais desejos; ele sofre com a rejeição da mãe e oferece aos clientes mais do que apenas momentos de prazer físico - lhes oferta também o ombro amigo,e se mostra disposto a ouvir o quanto for necessário. Nenhum deles é imune à solidão - e aí está o pulo do gato do filme.

 

Tanto Nancy quanto Leo podem parecer, nos primeiros minutos, uma perigosa soma de clichês. Basta alguns momentos, no entanto, para que a inteligência do texto de Brand e a elegãncia da direção de Sophie Hyde apontem um caminho diferente para a narrativa. Sim, com exceção de uma única sequência perto do clímax, toda a ação se passa em um quarto de hotel, mas limitar "Boa sorte, Leo Grande" a teatro filmado é negar à construção estética de Hyde todos os seus inúmeros méritos. A fotografia de Bryan Mason (igualmente responsável pela edição enxuta) acompanha não só as mudanças climáticas e temporais, mas também a evolução do relacionamento entre os personagens. A trilha sonora, discreta, paira no ar como um comentário sutil aos diálogos, e o figurino serve como a confirmação visual à personalidade de cada um em cena. Leo, por exemplo, não abusa do previsível estilo sexy que poderia lhe definir, optando por uma sobriedade surpreendente - assim como Nancy, conservadora e tímida, aos poucos vai se permitindo uma liberdade maior até mesmo para se vestir.

Mas nada funcionaria em "Boa sorte, Leo Grande" se não fosse Emma Thompson. Uma das maiores atrizes de sua geração, a vencedora de dois Oscar - um deles pelo roteiro de "Razão e sensibilidade" (1995) - confirma sua versatilidade e maturidade artística ao abraçar uma personagem complexa com toda a intensidade de sua experiência. Ao injetar humanidade em uma protagonista cujos defeitos são óbvios e pouco adoráveis - ainda que explicáveis por sua criação machista e religiosa -, Thompson ultrapassa os limites da simples atuação e entrega ao espectador o retrato de uma pessoa verdadeira, repleta de falhas mas dotada de uma humanidade quase palpável. É uma de suas atuações mais memoráveis, merecidamente cotada para mais uma indicação à estatueta dourada. Resta saber se a Academia será tão corajosa quanto ela em homenagear um filme que celebra o prazer feminino como forma de libertação: ao aparecer completamente nua em cena, Thompson não apenas se liberta das amarras de uma ditadura estética claustrofóbica, mas também ensina o amor próprio, a autoconfiança e a liberdade de ser quem se é. Se isso não é empoderamento não sei o que mais pode ser...

quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

terça-feira

A BELA E A FERA

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast, 2017, Walt Disney Films, 129min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, roteiro da animação original de Linda Woolverton. Fotografia: Tobias Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Alan Menken. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Don Hahn, Thomas Schumacher, Jeffrey Silver. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci. Estreia: 23/02/17

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.

Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.


Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.

A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!

quarta-feira

PEGANDO FOGO

PEGANDO FOGO (Burnt, 2015, The Weinstein Company, 101min) Direção: John Wells. Roteiro: Steven Knight, estória de Michael Kalesniko. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Nick Moore. Música: Rob Simonsen. Figurino: Lyn Elizabeth Paolo. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tina Jones. Produção executiva: David Glasser, Claire Rudnick Polstein, Gordon Ramsay, Dylan Sellers, Michael Shamberg, Kris Thykier, Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Negeen Yazdi. Produção: Stacey Sher, Erwin Stoff, John Wells. Elenco: Bradley Cooper, Siena Miller, Daniel Bruhl, Omar Sy, Uma Thurman, Matthew Rhys, Alicia Vikander, Riccardo Scamarcio, Sam Keeley, Emma Thompson. Estreia: 18/10/15

 Em cinema, definitivamente há males que vem para o bem. Senão vejamos: em 2008, um roteiro escrito por Steven Knight - indicado ao Oscar por "Coisas belas e sujas", de 2004 - chegou às mãos do cineasta David Fincher, um dos mais inventivos e consistentes cineastas de sua geração. A notícia seria ótima se o ator escalado por Fincher para estrelar o projeto não fosse Keanu Reeves, não exatamente um exemplo de talento dramático (e que estava com a carreira em franca decadência). Como as coisas em Hollywood não andam em um ritmo muito ágil, o projeto estagnou e Fincher pulou fora - e Reeves também não foi adiante. Foi somente em 2012 que Bradley Cooper foi anunciado no papel principal - antes que começasse a ser respeitado pela crítica e pela Academia, que lhe indicou por três anos consecutivos ao Oscar -, comandado por Derek Cianfrance. Cianfrance, elogiado pela direção de "Namorados para sempre" (2010), porém, também não durou muito no posto e foi substituído por John Wells, um nome pouco conhecido do grande público mas com anos de experiência no leme de episódios de séries consagradas, como "Plantão médico" e "West Wing" e em vias de lançar "Álbum de família", que colocaria novamente Meryl Streep e Julia Roberts no páreo por uma estatueta dourada. No final das contas, a desistência de Fincher e Cianfrance acabaram por fazer bem ao filme: "Pegando fogo" é uma obra que não se encaixaria em nenhuma das duas filmografias, mas é um ponto de sofisticação e versatilidade na carreira de Wells - e uma prova de que Cooper é realmente bem mais que um simples galã.

Na verdade, Cooper, no auge do carisma, é o ponto alto de "Pegando fogo", não apenas por conseguir a simpatia do público mesmo com um personagem repleto de defeitos, como pelo fato de não se deixar eclipsar por atores de talento comprovado, como Uma Thurman, Emma Thompson e Daniel Bruhl. Completamente à vontade em cena, ele deita e rola na pele de Adam Jones, um chef de cozinha ao mesmo tempo sedutor e arrogante, obcecado pela profissão e por seu objetivo de reconquistar o autorrespeito e a admiração dos colegas - principalmente daqueles com quem tem um relacionamento marcado por desavenças e supostas traições. Na medida certa entre o cinismo e uma escondida autopiedade, ele conquista a plateia justamente por ser tão falível (e por vezes quase desagradável), um desafio do qual seu intérprete consegue se desvencilhar com segurança ímpar. Cooper só não vai ainda mais longe porque o roteiro, mesmo ágil, esperto e sem espaço para lágrimas fáceis, não se aprofunda o bastante para lhe dar um material mais forte. Mesmo assim, Adam Jones e Bradley Cooper formam um par perfeito.


Jones é um chef de cozinha autodestrutivo e prepotente que, depois de praticamente acabar com sua brilhante e ascendente carreira, resolve recomeçar a vida. Deixando para trás seu vício em drogas - e uma dívida com traficantes franceses - ele volta à Londres com o objetivo claro de comandar um restaurante e alcançar as ambicionadas três estrelas Michelin (o santo graal da gastronomia mundial). O restaurante que ele escolhe para ser o palco de sua redenção é comandado por um antigo conhecido, Tony (Daniel Bruhl) - que aceita, a contragosto, ajudá-lo, mais por ser apaixonado por ele e saber de seu talento do que por confiar em sua sobriedade. Adam começa, então, uma jornada para montar o time perfeito, e para isso, reúne dois antigos colegas: Max (o galã italiano Riccardo Scamarcio) - que está saindo da cadeia - e Michel (Omar Sy, do sucesso francês "Intocáveis"), que perdeu tudo o que tinha graças a uma situação armada pelo próprio Adam. A eles juntam-se o jovem David (Sam Keeley) e a promissora Helene (Siena Miller), uma mãe solteira se torna sua maior pedra no sapato dentro da cozinha. Juntos, eles tentarão alcançar a almejada cotação máxima para o restaurante - enquanto o chef briga com seus demônios particulares e a atração que sente por Helene.

Editado com agilidade e elegância, "Pegando fogo" é um filme de visual deslumbrante - todas as cenas em que aparecem os pratos sendo montados e degustados é de dar água na boca - e ritmo agradável. Ao mesmo tempo em que se utiliza da gastronomia como pano de fundo para uma história de reconquista da autoestima, ela é peça fundamental para a narrativa, fornecendo os elementos dramáticos da trama e se mostrando em todo o seu glamour e suas misérias. Buscando o máximo de realismo para as cenas que se passam na cozinha, Wells apresenta sequências apetitosas com outras de grande tensão, que refletem tanto o desafio profissional dos personagens (sempre em constante pressão) quanto o mundo interior do protagonista, a um passo de um ataque de nervos. Bom diretor de atores, Wells comanda o espetáculo com leveza, mas extrai atuações inspiradas de todo o seu elenco - e ainda dá espaço para uma química excelente entre Cooper e Siena Miller, que ficou com um papel para o qual foram cogitadas Michelle Williams e Marion Cottilard. O casal de atores - que já foram um casal também em "Sniper americano" (2014) - valoriza cada momento juntos, e acrescenta um tom romântico a uma história de redenção e amadurecimento. Não é um filme inesquecível, mas é um passatempo acima da média, tornado ainda melhor graças a um elenco impecável e uma direção discreta e eficaz. Um bom entretenimento!

domingo

WALT NOS BASTIDORES DE "MARY POPPINS"

WALT NOS BASTIDORES DE "MARY POPPINS" (Saving Mr. Banks, 2013, Walt Disney Pictures/Ruby Films/Essential Media & Entertainment, 125min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Kelly Marcel, Sue Smith. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Mark Livolsi. Música: Thomas Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Paul Trijbits. Produção: Ian Collie, Alison Owen, Philip Steuer. Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Rachel Griffiths, Jason Schwartzman, B.J. Novak, Kathy Baker, Paul Giamatti, Ruth Wilson, Bradley Whitford. Estreia: 20/10/13 (BFI London Festival)

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Não deve haver honra maior para um escritor de livros infantis do que ver seu trabalho transposto para as telas de cinema, especialmente sob o comando de um dos mais poderosos e respeitados nomes da indústria, certo? Errado, se seu nome for P (de Pamela) L. Travers, a autora do clássico “Mary Poppins”, que demorou mais de vinte anos para autorizar a adaptação de seu livro pelos Estúdios Disney – que, a rigor, era o mais apropriado para o trabalho, haja visto sua enorme contribuição ao universo infanto-juvenil através das décadas, com seus desenhos animados alegres, musicais e coloridos. Pois eram justamente essa alegria, essa música e esse colorido todo os principais empecilhos que separavam Disney de Poppins: avessa ao “estilo Disney” de cinema, Travers recusava-se terminantemente a vender os direitos de sua obra de estimação – uma teimosia que, na verdade, tinha raízes bem mais profundas e dramáticas do que uma simples birra intelectual, como mostra o belo e suave “Walt nos bastidores de ‘Mary Poppins’”, a dramatização da difícil relação travada entre a escritora australiana e o produtor hollywoodiano.
Uma deliciosa e melancólica comédia dramática dirigida por John Lee Hancock – que assinou o apenas razoável “À procura da felicidade” (06) e o sofrível “Um sonho possível” (09) – surpreende justamente pelo currículo de seu diretor, acostumado a exagerar na sacarose de seus filmes a ponto de torná-los quase indigestos. Em “Walt nos bastidores de ‘Mary Poppins’” (um título esdrúxulo que não é apenas pobre mas que também acaba com as nuances do original “Saving Mr. Banks”) ele não abre mão da emoção, mas talvez amparado por um roteiro recheado de um senso de humor inocente e principalmente pela atuação primorosa de Emma Thompson no papel de Travers, consegue escapar do sentimentalismo barato. Tudo bem que em um momento ou outro chega bem perto, mas tal opção não deixa de ser coerente com o espírito do estúdio e de seu criador, retratado no filme como um homem empreendedor, compreensivo e adorável – e, portanto, bem a cara de seu intérprete, Tom Hanks. Enquanto na verdade (e várias fontes confirmam a informação) Disney não era exatamente tão meigo – existem até acusações de misoginia em sua trajetória – no filme de Hancock, ele é a personificação das qualidades de seu império dos sonhos. Em um outro contexto soaria cínico. Dentro do universo do filme, chega a ser confortador.
Com exceção de um pequeno flashback que mais tarde fará parte de uma tela maior de ternas e tristes recordações da protagonista, “Saving Mr. Banks” começa em abril de 1961, em Londres, quando a escritora P. L. Travers (Emma Thompson, indicada ao Golden Globe e ignorada pelo Oscar) finalmente aceita, por motivações puramente financeiras – seus livros pararam de vender e ela não consegue escrever mais nada – viajar à Califórnia para negociar a venda dos direitos de sua mais querida obra, “Mary Poppins”, para uma adaptação cinematográfica. Depois de duas décadas negando-se terminantemente a ver seus personagens contracenando com desenhos animados e musicais coloridos, ela chega munida de uma boa dose de mau-humor e resistência para conversar pessoalmente com Walt Disney (Tom Hanks) e verificar se todas suas exigências serão cumpridas antes da assinatura do contrato. No entanto, o que surpreende não só à Disney mas ao roteirista Don DiGradi (Bradley Whitford) e aos compositores Dick (Jason Schwartzman) e Bob Sherman (B. J. Novak) nem é tanto o apego da escritora à sua criação, e sim a forma com que ela pretende sabotar o projeto: com pedidos cada vez mais absurdos (inclusive a não-utilização do vermelho no filme), Travers passa a enlouquecer os funcionários do estúdio, que nem de longe imaginam os motivos de tanta intransigência.




Tais motivos, no entanto, surgem diante dos olhos do espectador iluminados por flashbacks intercalados com a permanência de Travers na Califórnia. Nessas lembranças, fotografadas com um tom dourado que evoca um passado que mescla felicidade e desespero, surge a figura da escritora como uma criança que vê sua vida transformada pela queda de status econômico da família na Austrália do começo do século XX, pelo alcoolismo crônico do pai amoroso mas pouco responsável (Colin Farrell, brilhante) e pela chegada da ajuda de uma babá inesperada (Rachel Griffiths) – fonte de inspiração para sua inesquecível criação literária. Esses momentos, dotados de uma sensibilidade poética, contrabalançam o humor quase ingênuo com que o roteiro brinda o espectador, como a mostrar que, até mesmo por trás da mais alegre e inspiradora história infantil pode existir um mundo de tristeza e traumas. E esse equilíbrio é, de certa forma, uma das maiores qualidades do filme de Hancock.
Encapsuladas na atuação sublime de Emma Thompson – que comanda o espetáculo com sobriedade e uma sutileza que a confirma como uma das grandes atrizes de sua geração – as boas ideias do roteiro de “Saving Mr. Banks” encontram eco em um ritmo agradável e uma trilha sonora mais do que adequada de Thomas Newman, única indicação ao Oscar recebida pelo filme. Todas as cenas em que Travers se utiliza das prerrogativas de dona da bola são sensacionais – é brilhante quando Travers começa a implicar com as abreviações técnicas do roteiro, com rigorosamente todas as ideias do roteirista e principalmente com as canções e a possibilidade de inserir animação no filme – e encaminham a narrativa para um clímax emocionante, quando, sentada no escurinho do cinema, ela finalmente deixa fluir as lágrimas presas por anos e anos de uma saudade que somente a sétima arte pode curar – ao menos paliativamente. Esse final sozinho já vale a sessão. É um tanto piegas, mas é irresistível!

terça-feira

SEGREDOS DO PODER

SEGREDOS DO PODER (Primary colors, 1998, Award Entertainment/BBC Films, 143min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, livro de autor anônimo. Fotografia: Michael Ballahaus. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Ry Cooder. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Jonathan D. Krane, Neil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: John Travolta, Emma Thompson, Billy Bob Thornton, Kathy Bates, Adrian Lester, Larry Hagman, Maura Tierney, Diane Ladd, Paul Guilfoyle, Allison Janney, Rob Reiner. Estreia: 20/3/98

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Kathy Bates), Roteiro Adaptado

As semelhanças entre Bill Clinton e o fictício governador sulista Jack Stanton, personagem central do livro "Primary Colors" - de um autor anônimo que posteriormente revelou-se como Joe Klein, jornalista da revista Time - eram tão notórias e óbvias que, dizem as más línguas, Tom Hanks declinou do convite feito pelo cineasta Mike Nichols de interpretá-lo na sua versão para as telas por ser amigo do então presidente. Os temores de Hanks, porém, se mostraram infundados depois do lançamento do filme: não só Clinton tornou-se fã do resultado final como o retrato do protagonista é bem menos negativo do que se poderia imaginar quando se trata de um filme que vasculha os bastidores - quase sempre abarrotado de lama e cinismo - de uma campanha eleitoral. Talvez devido ao roteiro banhado em sarcasmo da ótima Elaine May e talvez pela direção firme do experiente Nichols, "Segredos do poder" escapa do ranço panfletário frequentemente aborrecido do gênero e revela à plateia um jogo de interesses, mentiras, ataques e contra-ataques empolgante, com direito a um elenco impecável e uma produção sofisticada que se dá ao luxo de ter entre seus atores duas vencedoras do Oscar, Emma Thompson e Kathy Bates - sendo que Bates quase arrebatou uma segunda estatueta por seu desempenho como Libby Holden, valente colaboradora de Stanton em seu caminho rumo à Casa Branca.

Como normalmente ocorre em tramas semelhantes, toda a ação chega ao espectador através dos olhos do ingênuo e idealista Henry Burton (Adrian Lester), neto de uma lenda pela luta pelos direitos civis que enxerga no governador - vivido com gosto por John Travolta - um homem capaz de se comprometer com causas populistas e relevantes e que aceita entrar em sua equipe de campanha. No decorrer do processo de conquista de votos, porém, Burton começa a notar detalhes nada dignificantes a respeito de seu novo chefe, como sua tendência ao adultério - sempre relevado tristemente por sua ambiciosa esposa, Susan (Emma Thompson, perfeita com sotaque americano) - e a confusões inerentes a esse traço de sua personalidade, como testes de paternidade e chantagens feitas por amantes ocasionais. O carisma de Stanton, no entanto, é mais forte do que suas escapadas sexuais, e o rapaz - cobrado por seus antigos companheiros de ativismo - vai se deixando levar pelo fascinante jogo que se desdobra à sua frente. As coisas ficam complicadas mesmo quando o principal rival de Stanton sofre um ataque cardíaco quase fatal e é substituído na campanha por outro carismático político, Fred Picker (Larry Hagman, o eterno J.R. da série "Dallas"), que retorna aos palanques anos depois de ter-se retirado da vida pública e se transforma em uma séria ameaça aos planos do galante governador.


Veterano em arrancar interpretações excepcionais dos atores com quem trabalha, Mike Nichols não faz diferente em "Segredos do poder": um dos maiores destaques do filme é o elenco, recheado de astros reconhecidos do grande público vivendo personagens que fogem do maniqueísmo habitual do cinemão hollywoodiano e portanto, são um desafio considerável a quem deseja conquistar uma plateia mal-acostumada com os simplismos rotineiros. John Travolta, por exemplo, apesar de não deixar de ser ele mesmo em nenhum momento, constroi um Jack Stanton encantador, mesmo que a audiência saiba de suas canalhices e suas demagogias. Emma Thompson brilha em uma Hilary Clinton mais pobre, uma mulher forte e determinada capaz de passar por cima do próprio orgulho por uma causa que considera mais importante: a vitória nas urnas. E Kathy Bates quase rouba a cena como Libby Holden, uma idealista e honesta partidária que vê seus princípios postos em xeque quando fica frente a frente com a verdade nua e crua dos bastidores sujos de seu meio - sua personagem certamente é a mais forte da história, oferecendo ao desfecho um senso ético e mordaz que transforma a fábula roteirizada por Elaine May - uma humorista experiente que preenche de sarcasmo e humor fino um drama que seria cômico se não fosse trágico.

Longe de ser um drama didático e aborrecido sobre os meandros da política norte-americana, "Segredos do poder" é um filme sobre a hipocrisia generalizada, sobre a podridão escondida nos bastidores do poder, sobre ideologias sendo esmagadas pelas circunstâncias. Em 2011, George Clooney lançou um filme ainda mais contundente sobre o assunto, "Tudo pelo poder", estrelado por ele mesmo e Ryan Gosling, mas este pequeno tratado de Mike Nichols ainda se mantém como uma das mais interessantes obras a respeito do pantanoso mundo político.

sexta-feira

VESTÍGIOS DO DIA

VESTÍGIOS DO DIA (The remains of the day, 1993, Merchant Ivory Productions/Columbia Pictures Corporation, 134min) Direção: James Ivory. Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala, romance de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Andrew Marcus. Música: Richard Robbins Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Paul Bradley. Produção: John Calley, Ismail Merchant, Mike Nichols. Elenco: Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve, James Fox, Ben Chaplin, Hugh Grant. Estreia: 05/11/93

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Ivory), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, o diretor James Ivory e os atores Anthony Hopkins e Emma Thompson trabalharam juntos em "Retorno a Howard's End", adaptação do romance de E.M. Forster que, a despeito dos elogios entusiasmados da crítica, dos inúmeros prêmios e do Oscar de melhor atriz, beirava a chatice extrema (uma verdade que os fãs do cineasta jamais irão reconhecer). Quando eles anunciaram que iriam se reencontrar nas telas em uma versão do livro "Vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro, todo mundo ficou esperando mais do mesmo: um longo e entediante drama sobre a Inglaterra do passado feito para encantar a Academia mas capaz de causar irreparável sono na plateia. Ledo engano. Um avassalador estudo sobre paixões reprimidas, a dedicação obsessiva a um ofício, as transformações políticas de um mundo pré-guerra e um delicado romance platônico, o filme não só arrebatou oito merecidas indicações ao Oscar - saiu de mãos vazias da cerimônia porque bateu de frente com Steven Spielberg e seu "A lista de Schindler" - como derreteu o coração dos espectadores com sua maturidade e sutileza.

Tendo silêncios eloquentes, lágrimas contidas e suspiros abafados como coadjuvantes de uma história de amor reprimido, "Vestígios do dia" acompanha com delicadeza o nunca consumado amor entre dois leais e dedicados serviçais de um aristocrata britânico em um país em vias de embarcar na II Guerra Mundial. Mesclando com rara inteligência comentários políticos que indicam claramente as inclinações nazistas que levaram Lord Darlington (James Fox, ótimo) à decadência moral pós-conflito e o romance devastador entre os protagonistas, o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala - colaboradora habitual do diretor - oferece material de sobra para o show de Hopkins e Thompson, em atuações cujo minimalismo é a principal qualidade. Não é preciso muito para que, juntos em cena, os dois atores transmitam uma imensidade de sentimentos apenas com o olhar. Ao público, resta se emocionar e aplaudir, se envolvendo sem reservas com dois personagens tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.


Narrado em flashback, "Vestígios do dia" começa na década de 50, décadas depois do auge da mansão Darlington Hall, de propriedade de um aristocrata inglês que viu nascer, em sua propriedade, a aliança europeia que apoiaria o social-nacionalismo alemão. Trabalhando para um milionário americano (Christopher Reeve), o copeiro Mr. Stevens (Anthony Hopkins) recebe uma carta escrita por uma antiga colega, Mrs. Kenton (Emma Thompson), que trabalhava como governanta e abandonou o emprego para casar-se. No caminho para reencontrar-se com ela, o dedicado empregado relembra sua trajetória profissional e sua dedicação cega a seu patrão - uma lealdade e uma seriedade auto-imposta que o impediu até mesmo de chorar devidamente a morte de seu pai, com quem compartilhava a seriedade. Extremamente rígido em relação a seus deveres, Stevens presencia as mudanças políticas de seu país com a mesma atenção que dispensa à limpeza da prataria e à disposição correta dos talheres à mesa. Tal comportamento o impede de declarar o amor que sente por Kenton, também apaixonada, mas presa às convenções sociais. O amor platônico entre os dois é responsável por cenas de apertar o coração, como a famosa sequência em que a governanta descobre, através de um livro de poesias, que existe um coração por trás da séria fachada do mordomo.

Centrado basicamente nas emoções contidas de seus dois protagonistas - e tendo o período político anterior à II Guerra como um poderoso e apropriado pano de fundo - o melhor filme de James Ivory também se beneficia de uma produção caprichada, que emoldura com perfeição os dolorosos momentos por que passam os personagens. A reconstituição de época - tanto a direção de arte quanto o figurino também concorrem à estatueta dourada - e a trilha sonora adequada são elementos utilizados com extrema sobriedade pelo cineasta, ilustrando a passagem de tempo e as dores de um amor não consumado como poucas produções de sua época. "Retorno a Howard's End" continua sendo uma chatice. Mas "Vestígios do dia" compensa - e muito - todos os pecados anteriores de seu criador.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...