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terça-feira

DESEJO PROIBIDO


DESEJO PROIBIDO (If these walls could talk 2, 2000, HBO Films/Team Todd, 96min) Direção: Jane Snderson ("1961"), Martha Coolidge ("1972"), Anne Heche ("2000"). Roteiro: Jane Anderson ("1961"), Sylvia Sichel, estória de Sylvia Sichel e Alex Sichel ("1972"), Anne Heche ("2000"). Fotografia: Peter Deming, Paul Elliott, Robbie Greenberg. Montagem: Margaret Goodspeed. Música: Basil Poledouris. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Nina Ruscio/Susan Mina Eschelnach, K. C. Fox, Mary E. Gullickson. Produção executiva: Ellen DeGeneres, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Produção: Mary Kane. Elenco: Vanessa Redgrave, Michelle Williams, Chloe Sevigny, Sharon Stone, Ellen DeGeneres, Paul Giamatti, Elizabeth Perkins, Marian Seldes, Nia Long, Natasha Lyonne, Heathe McComb, Rashida Jones, Regina King, Kathy Najimy. Estreia: 05/3/2000

Em 1996, a HBO lançou, com enorme sucesso de público e crítica, o polêmico "O preço de uma escolha", que trata, em três histórias distintas, de um assunto bastante controverso na sociedade norte-americana: o aborto. Com um elenco que contava com Demi Moore, Catherine Keener e Cher - também uma das diretoras -, o filme chegou a ser indicado a três Golden Globes e estabeleceu um alto parâmetro para as produções do canal. Quatro anos mais tarde, "Desejo proibido" tentou repetir o êxito, voltando a discutir uma questão delicada (ao menos para a audiência mais conservadora) e seguindo a mesma estrutura do original. Ao retratar a homossexualidade feminina - e a forma como ela é vista - em três tempos e enfoques distintos, a produção manteve o tom sério e respeitoso do primeiro filme, mas como normalmente acontece com antologias, não conseguiu escapar da irregularidade. Potente em sua primeira parte, interessante em sua segunda e leve em seu encerramento, "Desejo proibido" revela um panorama abrangente de seu tema, mas nem sempre consegue atingir todo o seu potencial.

O primeiro (e melhor) capítulo se passa em 1961 e apresenta a triste história de Edith Tree (Vanessa Redgrave), que vê sua vida desmoronar com a morte de Abby Hedley (Marian Seldes), sua parceira há mais de cinquenta anos. A tragédia fica ainda maior quando um sobrinho distante de Abby, o pouco afetivo Ted (Paul Giamatti) surge para reivindicar a propriedade onde elas moravam: sem o amparo legal que poderia lhe dar o direito de ficar com a casa que ajudou a pagar, Edith precisa lidar com questões práticas ao mesmo tempo em que experimenta a impensável dor da perda. A diretora e roteirista Jane Anderson é extremamente feliz em imprimir o tom de melancolia e amor maduro, valorizado pela atuação monstruosa de Vanessa Redgrave. Começando sua história já em grande estilo - com uma citação direta do clássico "Infâmia" (1961), em que Shirley MacLaine e Audrey Hepburn tinham sua escola atacada por insinuações de homossexualidade -, Anderson é elegante e romântica, ao mesmo tempo em que desperta no espectador toda a indignação possível diante da situação absurda. Destaca-se também o belo trabalho de Elizabeth Perkins, na pele de Alice, a fútil e insensível esposa de Ted, e a sutileza do roteiro, que vai apresentando camadas ao tema conforme a trama vai se desenhando: do medo de andar próximas na rua às burocracias médicas, tudo é tratado com delicadeza extrema, que eleva o primeiro episódio do filme ao status de pequena obra-prima.

 

Já o segundo segmento, dirigido por Martha Coolidge, peca por sua incapacidade (ou opção) de aprofundar um questionamento bastante relevante - inclusive dentro da comunidade gay. Em 1972, quando os movimentos feministas e homossexuais estavam em alta dentro da sociedade dos EUA, a jovem Linda (Michelle Williams), um tanto decepcionada com o preconceito que presencia junto às pretensamente liberadas e modernas ativistas, se envolve com Amy (Chloe Sevigny), a quem conhece em um bar frequentado por lésbicas. Apesar de morar com um amigas também gays, ela passa a conhecer a discriminação dentro da própria casa, já que Amy, ao contrário delas, se veste como homem e age de forma masculinizada. Sem saber como lidar com a diferença entre elas - e pressionada pelas colegas, pouco à vontade com sua nova namorada -, Linda passa a questionar até que ponto as aparências podem influir na saúde de seu relacionamento. Coolidge (que assinou o delicado "As noites de Rose", que indicou Laura Dern e Diane Ladd ao Oscar, em 1992) constrói uma obra de textura visual quase palpável, que mergulha o espectador no universo de suas personagens, mas tropeça na superficialidade do roteiro, que não sabe desenvolver a contento todas as possibilidades do tema e ainda surge com um desfecho artificialmente feliz e fácil. Michelle Williams - começando sua trajetória em interpretar mulheres sofridas e atormentadas - está bem, mas Chloe Sevigny - recém vinda de uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meninos não choram" (1999) - já apresenta alguns trejeitos e expressões que seriam comuns à toda a sua carreira posterior.

 

O ato final da produção, por sua vez, aposta na leveza, no bom humor e até no otimismo - como um aceno aos novos tempos que (todos esperavam) estavam por surgir. No ano 2000, um casal bem resolvido, feliz e apaixonado, resolve ter um filho e completar sua família não convencional. A princípio, Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) querem que um amigo seja o pai biológico de seu bebê, mas ao ver sua proposta recusada por Arnold (Mitchell Anderson) e Tom (George Newbern), passam a tentar outros modos de concepção. Para isso, buscam um doador anônimo de esperma (em um site especializado), inseminação artificial (em uma clínica conceituada) e meses de tensão enquanto esperam um resultado positivo. Enquanto isso, questionam (mas não muito) a ideia de por um filho em um mundo preconceituoso, violento e super povoado. Escrito e dirigido por Anne Heche (esposa de Ellen DeGeneres à época), o episódio é bem menos denso do que os primeiros, preferindo um tom positivo que encontra eco no desempenho solar de Sharon Stone e no sarcasmo de DeGeneres. Novamente faz falta um aprofundamento do tema, mas sua opção em seguir um caminho oposto ao drama dos dois primeiros segmentos não deixa de ser acertado, principalmente ao contrapor a dor do preconceito à esperança de um novo e mais tolerante mundo.

No cômputo final, "Desejo proibido" tem mais acertos do que erros. Em uma época em que a televisão ainda engatinhava em tratar de temas polêmicos - ao menos de forma tão explícita -, o filme tem a coragem não apenas de falar sobre a homossexualidade feminina em algumas de suas diversas formas, mas também de não esconder o amor das protagonistas em cenas veladas e/ou falsamente pudicas. Com sequências de sexo dirigidas com bom gosto e delicadeza (mesmo que limitadas pelo veículo) e sem medo de se posicionar ao lado contrário a qualquer tipo de intolerância, a produção posicionou a HBO como um importante aliado na causa gay e deu um passo à frente na caminhada da emissora pelo prestígio de que viria a desfrutar logo em seguida.

 

sexta-feira

DONNIE BRASCO

DONNIE BRASCO (Donnie Brasco, 1997, Sony Pictures/Mandalay Entertainment, 127min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Paul Attanasio, livro de Joseph D. Pistone, Richard Woodley. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Jon Gregory. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard, David Robinson. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Leslie Pope. Produção executiva: Alan Greenspan, Patrick McCormick. Produção: Louis DiGiaimo, Mark Johnson, Barry Levinson, Gail Mutrux. Elenco: Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, James Russo, Anne Heche, Bruno Kirby, Zeljko Ivanek, Paul Giamatti, Tim Blake Nelson. Estreia: 24/02/97

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Durante seis anos, entre 1978 e 1984, o agente especial do FBI Joseph Pistone trabalhou infiltrado entre os mafiosos de Nova York, quase sem contato com a própria família e conquistando a confiança de um dos integrantes do grupo, que passou a considerá-lo como um filho. Tal história, com seus desdobramentos talvez previsíveis mas sempre interessantes, estava pronta para ser contada no cinema desde o lançamento do livro "Donnie Brasco: my undercover life with the Mafia", publicado nos EUA em 1988. Escrito pelo próprio Pistone (cuja cabeça ainda está a prêmio) e o jornalista Richard Woodley, o livro estava nos planos de Hollywood a um bom tempo quando o inglês Mike Newell entrou no projeto: celebrado pelo enorme sucesso de seu "Quatro casamentos e um funeral" (94), Newell chegou com moral, substituindo outro britânico até então considerado para o trabalho (Stephen Frears) e injetando no filme uma elegância e uma sobriedade que possivelmente um cineasta americano não seria capaz de imprimir. Com o elenco liderado por Al Pacino e Johnny Depp - dois nomes populares e de prestígio junto ao público e à crítica - e pronto para estrear no Natal de 1996, "Donnie Brasco" acabou sendo vítima do próprio estúdio: com três outros filmes de grande visibilidade entrando em cartaz quase ao mesmo tempo (e lutando por indicações ao Oscar), a Sony empurrou seu lançamento para fevereiro de 1997. Deu mais ou menos certo: mesmo lançado longe da temporada de premiações, o filme de Newell arrebatou uma indicação na categoria de roteiro adaptado quase um ano depois de sua estreia - e as outras produções da Sony foram relativamente recompensadas pela Academia, em especial "Jerry Maguire: a grande virada", que levou a estatueta de ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.).

Se "Donnie Brasco" tinha mais chances de convencer a Academia do que seus irmãos de estúdio - "O espelho tem duas faces" (96) e "O povo contra Larry Flynt" (96) - é difícil dizer, especialmente em um ano em que as produções independentes foram mais felizes no resultado final. Mas é óbvio que, levando-se em consideração seu tema, seus valores de produção e os vastos elogios da crítica especializada, o filme de Newell tinha tudo para ter uma sorte bem maior se tivesse sido lançado no período adequado - inclusive nas bilheterias, já que não fez muito barulho em casa mas rendeu mais de 120 milhões pelo mundo, em grande parte devido à presença de Johnny Depp, então um jovem astro em ascensão, e Al Pacino, um dos maiores atores do cinema americano. Sua química é um dos motivos que fazem do filme uma das produções mais interessantes do final dos anos 90 - uma narrativa séria e minimalista que lembra os policiais da década de 70 (não por acaso também estrelados por Pacino). Cineasta pouco afeito a malabarismos estéreis, Newell se concentra em caprichar na ambientação e no desenvolvimento dos personagens - cortesia também do roteiro de Paul Attanasio, que equilibra admiravelmente a trama policial com os problemas domésticos do protagonista. Com um elenco coadjuvante igualmente brilhante, "Donnie Brasco" foge facilmente da limitação de gênero, alcançando níveis dramáticos que o elevam acima da média. 


A trama é centrada basicamente no relacionamento entre o jovem agente Joseph Pistone - que assume o pseudônimo de Donnie Brasco e é vivido por Johnny Depp de forma discreta, sem os habituais exageros que se tornaram característica de seus desempenhos - e o mafioso Lefty Ruggiero (Al Pacino), que, apesar de não ser o chefão do grupo, lhe serve como ponte de acesso a nomes, crimes e detalhes dos delitos cometidos por outros integrantes do bando, especialmente Sonny Black (Michael Madsen), que se torna o líder durante a temporada do rapaz como infiltrado. Enquanto vai se tornando parte integrante da quadrilha, Donnie vai se afastando da esposa, Maggie (Anne Heche) e das filhas, ao mesmo tempo em que fortalece laços de amizade e quase lealdade com Ruggiero - até que o cerco se fecha e ele precisa redobrar os cuidados para não ser desmascarado e completar sua missão (que inclui, obviamente, mandar seu mentor para a cadeia).

Narrado de forma correta e sem sobressaltos, "Donnie Brasco" é um filme que substitui as cenas de ação alucinantes por um tom de mais densidade psicológica e dramática. Seu registro quase cerebral pode aborrecer a quem procura um filme policial nos moldes mais tradicionais (leia-se tiroteios, perseguições e violência extrema), mas é justamente essa opção de Mike Newell que faz toda a diferença. Seria bastante diferente, por exemplo, se outros nomes cotados para o projeto tivessem assumido o papel central - como Alec Baldwin, Nicolas Cage ou John Cusack, que certamente dariam outro estilo à produção. Dotado de um ritmo atípico, é um filme que envolve o espectador aos poucos, o mergulhando gradativamente em uma trama que fala de amizade, dever, traição e paranoia em doses exatas e tratadas com o máximo de talento. Apesar de se alongar desnecessariamente nos minutos finais, é uma obra pela qual é difícil não se deixar conquistar, senão por sua história incrível, ao menos por sua direção elegante e pelo elenco em ótimo momento. Um dos grandes filmes de Pacino pós-Oscar - e talvez um dos mais subestimados de sua brilhante carreira.

quarta-feira

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO (Love & Mercy, 2014, River Road Entertainment, 121min) Direção: Bill Pohlad. Roteiro: Oren Moverman, Michael Alan Lerner. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dino Jonsater. Música: Atticus Ross. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Maggie Martin. Produção executiva: Jim Lefkowitz, Oren Moverman, Ann Ruark. Produção: Bill Pohlad, Claire Rudnick Polstein, John Wells. Elenco: Paul Dano, John Cusack, Paul Giamatti, Elizabeth Banks, Jake Abel, Kenny Wormald, Brett Davern. Estreia: 07/9/14 (Festival de Toronto)

Quando foi atender aquele homem excêntrico e gentil que procurava um carro novo naquele dia de 1986, a jovem Melinda Leadbetter jamais imaginaria que sua vida seria profundamente alterada: aquele homem era Brian Wilson, ex-integrante de um dos grupos musicais de maior sucesso dos anos 60, e sua relação com ele revelaria não apenas uma mente brilhante e à frente de seu tempo, mas também perturbada e controlada por um médico inescrupuloso que o impedia de levar uma vida normal. A relação entre Melinda e Brian - e o retrato do começo do desequilíbrio mental do artista - são o tema de "The Beach Boys: uma história de sucesso", uma cinebiografia quase convencional mas, acima de tudo, fiel aos fatos e dotada de uma alma que a torna irresistível aos fãs do grupo, que tem a oportunidade de conhecer um lado pouco glamouroso de um ídolo que substituiu os palcos e a fama por clínicas e paranoia. Com um roteiro inteligente que intercala fases distintas da vida de Wilson com (bons) atores se dividindo no papel, o filme de Bill Pohlad não deixa de ser um sopro de criatividade dentro de seu subgênero, optando por um foco narrativo específico ao invés de debruçar-se sobre uma vida inteira - o que fatalmente acabaria  na superficialidade.

Uma história repleta de acontecimentos dramáticos irresistíveis ao cinema, a trajetória de Brian Wilson através de seus problemas psicológicos já tinha flertado com as telas em duas ocasiões: na década de 80, com William Hurt na pele do músico e Richard Dreyfuss como seu médico particular, Eugene Landy, e nos anos 90, com Jeff Bridges no papel central. Nenhuma das duas tentativas conseguiu ultrapassar os limites das possibilidades - o que não deixa de ser um alívio, em especial se for considerado que o filme com Hurt e Dreyfuss teria o dedo do próprio Landy na produção, o que fatalmente alteraria profundamente a veracidade dos fatos narrados. Landy, afinal de contas, pode facilmente ser considerado o vilão da história: mantendo Wilson sob seu rígido comando, ele se aproveitava da fragilidade do paciente para manipulá-lo e afastá-lo de quem quer que pudesse realmente ajudar em sua recuperação. Foi assim, por exemplo, com a própria Melinda, que se viu no meio do fogo cruzado entre os dois assim que entrou na vida de Brian: fascinado por ela, o autor de algumas das canções mais amadas da história da música americana comprou uma briga com seu psicólogo para agarrar-se a uma espécie de último fiapo de esperança de manter-se são. Esse confronto entre Melinda e Landy se alterna, no roteiro escrito por Oren Moverman (indicado ao Oscar por "O mensageiro", de 2009) e Michael Alan Lerner, com a criação do mais radical álbum dos Beach Boys, o mal-compreendido "Pet Sounds" - surgido em meio aos demônios pessoais de seu compositor.


Na juventude - e em fase de total ebulição criativa - Brian Wilson é interpretado por Paul Dano, vencedor do prêmio de melhor ator pelos críticos de Nova York e indicado ao Golden Globe por seu desempenho hipnótico. Totalmente imerso no personagem, Dano entrega a melhor atuação de sua carreira, mesclando momentos de bravata com outros de puro desespero e angústia - fustigados por seu pai, um homem mais afeito ao lucro do que à arte e incapaz de uma palavra de afeto. Torturado por pensamentos aflitivos, o rapaz vai contra o óbvio e se afasta dos palcos para conceber um disco revolucionário em música e conceito - algo que nem todo mundo se esforçava para compreender em sua importância cultural. Vinte anos mais tarde, Wilson ganha a forma de John Cusack e, maltratado pelo tempo e por uma vida de excessos e remédios fortíssimos, é quase incapaz de dar um passo sem consultar seu médico/guru/guarda-costas Eugene Landy (interpretado com gosto por um excelente Paul Giamatti). Uma sombra do que poderia ter sido, Wilson vê em Melinda uma luz no fim do túnel, e mesmo com a saúde mental debilitada, se envolve em uma história de amor improvável e que pode lhe salvar a vida. Cusack está bem no papel, mas é quase eclipsado por Giamatti - que rouba todas as cenas em que aparece, como um parasita detestável e ameaçador (sua interpretação é tão admirável que o próprio Brian Wilson ficou pouco à vontade ao vê-lo em cena). No meio de tantos talentos, Elizabeth Banks surpreende em um papel sério e discreto - um porto seguro dentre tantas tormentas.

Pontuado por uma sutil trilha sonora de Atticus Ross - colaborador habitual de David Fincher - e editado de forma a manter o espectador interessado no desenrolar dos acontecimentos, "The Beach Boys: uma história de sucesso" é um conjunto de acertos. A direção de Bill Pohlad não tenta chamar mais a atenção do que a história ou os personagens, servindo como um fio condutor eficiente mas nunca maior do que a trama. Bem-sucedido produtor - de filmes oscarizados, como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) e "12 anos de escravidão" (2014) - e estreante como cineasta, Pohlad faz um primeiro trabalho primoroso em sua sutileza e delicadeza em tratar de assuntos desagradáveis sem afastar o público. Oferecendo uma cinebiografia que foge das narrativas convencionais, ele entrega um filme que consegue agradar aos fãs da banda e apresentá-la (ou ao menos introduzir sua música) a neófitos e/ou admiradores ocasionais. Um belo drama musical, embalado por canções das mais agradáveis já gravadas e com um elenco em dias inspirados. O que mais se pode esperar?

terça-feira

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA (Parkland, 2013, The American Film Company, 93min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, livro de Vincent Bugliosi. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Markus Czyzewski, Leo Trombetta. Música: James Newton Howard. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Rodney Becker. Produção executiva: Tobin Armbrust, Guy East, Brian Falk, Joe Ricketts, Ginger Sledge. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Matt Jackson, Bill Paxton, Nigel Sinclair. Elenco: Marcia Gay Harden, Zac Efron, Paul Giamatti, Ron Livingston, James Badge Dale, Billy Bob Thornton, Jacki Weaver, Gil Bellows, Tom Welling, Mark Duplass, Colin Hanks, Jackie Earle Haley, Rory Cochrane. Estreia: 01/9/13 (Festival de Veneza)

Em 22 de novembro de 1963, a cidade de Dallas, Texas, foi cenário do mais traumático e devastador espetáculo que os EUA testemunhou até o atentado ao World Trade Center, quase quarenta anos mais tarde: o assassinato do então presidente John Fitzgerald Kennedy não apenas mostrou aos americanos a fragilidade de sua segurança como também abalou os alicerces da política mundial de forma indelével e ainda hoje ressoante. Em 1991, Oliver Stone abordou a morte de Kennedy no fenomenal "JFK: A pergunta que não quer calar", que, em tom semi-documental, expunha teorias da conspiração de modo tão contundente que era impossível não acabar a sessão totalmente convencido de que o presidente havia sido morto por culpa da CIA, do FBI, da KGB e da própria Casa Branca. O trabalho de Stone concorreu ao Oscar de filme, direção e roteiro - e ganhou as estatuetas de fotografia e edição - e passou à história como um dos maiores thrillers políticos dos anos 90. Com um olhar completamente oposto ao espetáculo grandioso estrelado por Kevin Costner, o discreto e pouco conhecido "JFK: A história não contada" volta sua atenção não para a investigação do crime, mas para suas consequências imediatas junto às pessoas que atenderam o presidente no Parkland Memorial Hospital, seus seguranças e um lado da questão sempre esquecida por todos: a família daquele que é considerado o autor dos tiros, Lee Harvey Oswald.

Baseado no livro "Four days in November: The assassination of John F. Kennedy", escrito pelo promotor Vincent Bugliosi - tornado famoso graças ao julgamento de Charles Manson e seus seguidores - o filme de estreia do roteirista Peter Landesman renega as teorias propostas por Oliver Stone em seu trabalho e abraça a história oficial do atirador solitário. Assim como Emilio Estevez fez em "Bobby" (2006) - que apresentava uma dúzia de personagens presentes ao Hotel onde Robert Kennedy foi assassinado, em 1968 - a obra de Landesman se debruça sobre pequenas histórias paralelas (mas todas reais) que envolveram o homicídio, mas pouco se interessa em invadir as entranhas das investigações e das incoerências que cercavam o caso. Seu interesse humano é maior que o político - o que torna o resultado final um tanto irregular, ainda que fascinante para quem se interessa pelo assunto. Produzido por Tom Hanks e Bill Pullman - que primeiro pretendiam adaptar o livro de Bugliosi como minissérie de televisão - e com um elenco de rostos conhecidos do grande público, o filme custou meros 10 milhões de dólares, mas naufragou nas bilheterias e foi ignorado nas cerimônias de premiação, mesmo tendo estreado no concorrido Festival de Veneza e lançado comercialmente no aniversário de 50 anos da tragédia.


A morte de John Kennedy - na frente de centenas de pessoas, em uma via pública e de forma a abalar toda uma nação - é o ponto de partida de "JKF: A história não contada". A partir do momento em que o presidente chega à Dallas, os personagens da trama vão sendo apresentados aos poucos: surge Abraham Zapruder (Paul Giamatti), o homem que, com sua filmadora, irá registrar um dos momentos mais estudados do século. Aparecem os jovens médicos Charles Carrico (Zac Efron) e Malcolm Perry (Colin Hanks), que irão tentar salvar a vida do presidente, ao lado da enfermeira-chefe Doris Nelson (Marcia Gay Harden). São iluminados pela tela alguns dos homens do Serviço Secreto, dispostos a descobrir qualquer detalhe sobre a tragédia, como Forrest Sorells (Billy Bob Thornton) e Roy Kellerman (Tom Welling), assim como agentes do FBI encarregados de cuidar da segurança do presidente, como James Hosty (Ron Livingston) e Gordon Shanklin (David Harbour) - o primeiro sentindo-se culpado pelo fato de não ter dado a devida atenção a um homem que estava investigando, chamado Lee Harvey Oswald. A família de Oswald, inclusive, também é lembrada pelo roteiro, nas figuras marcantes de seu atônito irmão Robert (James Badge Dale, ótimo) e sua interesseira mãe Marguerite (Jacki Weaver).

Enquanto vai contando a história desses personagens - e outros menos marcantes mas igualmente importantes no processo que tirou o corpo de Kennedy do hospital de Dallas mesmo contra a vontade do médico legista Earl Rose (Rory Cochrane) - o filme de Landesman vai mostrando os efeitos do fatídico evento na vida de cada um deles, mas sem aprofundar-se satisfatoriamente em nenhum dos casos. Mesmo que sua intenção seja exatamente um recorte específico na trajetória dos personagens, é impossível não ficar com a sensação de que algo ficou faltando. É como se o filme todo fosse uma introdução - forte, interessante, realista - de uma obra que, no fim, não existe. Bom diretor de atores, Landesman consegue extrair atuações convincentes até de Zac Efron e Tom Welling - mais conhecidos como galãs do que como intérpretes sérios - e explora com deleite o trabalho fascinante de medalhões como Paul Giamatti, Billy Bob Thornton e Jacki Weaver, a melhor em cena, com uma atuação monstruosa da igualmente monstruosa mãe de Lee Harvey Oswald - que passou o resto da vida insistindo que o filme era um agente do governo americano, o que, consequentemente, ratifica as ideias de Oliver Stone e vai contra as conclusões de Vincent Bugliosi. Em todo caso, "JFK: A história não contada" não se propõe a investigar um caso de assassinato, mas sim em como essa morte afetou diretamente alguns personagens à margem da história. Um bom filme, ainda que aquém de todo o seu potencial.

domingo

WALT NOS BASTIDORES DE "MARY POPPINS"

WALT NOS BASTIDORES DE "MARY POPPINS" (Saving Mr. Banks, 2013, Walt Disney Pictures/Ruby Films/Essential Media & Entertainment, 125min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Kelly Marcel, Sue Smith. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Mark Livolsi. Música: Thomas Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Paul Trijbits. Produção: Ian Collie, Alison Owen, Philip Steuer. Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Rachel Griffiths, Jason Schwartzman, B.J. Novak, Kathy Baker, Paul Giamatti, Ruth Wilson, Bradley Whitford. Estreia: 20/10/13 (BFI London Festival)

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Não deve haver honra maior para um escritor de livros infantis do que ver seu trabalho transposto para as telas de cinema, especialmente sob o comando de um dos mais poderosos e respeitados nomes da indústria, certo? Errado, se seu nome for P (de Pamela) L. Travers, a autora do clássico “Mary Poppins”, que demorou mais de vinte anos para autorizar a adaptação de seu livro pelos Estúdios Disney – que, a rigor, era o mais apropriado para o trabalho, haja visto sua enorme contribuição ao universo infanto-juvenil através das décadas, com seus desenhos animados alegres, musicais e coloridos. Pois eram justamente essa alegria, essa música e esse colorido todo os principais empecilhos que separavam Disney de Poppins: avessa ao “estilo Disney” de cinema, Travers recusava-se terminantemente a vender os direitos de sua obra de estimação – uma teimosia que, na verdade, tinha raízes bem mais profundas e dramáticas do que uma simples birra intelectual, como mostra o belo e suave “Walt nos bastidores de ‘Mary Poppins’”, a dramatização da difícil relação travada entre a escritora australiana e o produtor hollywoodiano.
Uma deliciosa e melancólica comédia dramática dirigida por John Lee Hancock – que assinou o apenas razoável “À procura da felicidade” (06) e o sofrível “Um sonho possível” (09) – surpreende justamente pelo currículo de seu diretor, acostumado a exagerar na sacarose de seus filmes a ponto de torná-los quase indigestos. Em “Walt nos bastidores de ‘Mary Poppins’” (um título esdrúxulo que não é apenas pobre mas que também acaba com as nuances do original “Saving Mr. Banks”) ele não abre mão da emoção, mas talvez amparado por um roteiro recheado de um senso de humor inocente e principalmente pela atuação primorosa de Emma Thompson no papel de Travers, consegue escapar do sentimentalismo barato. Tudo bem que em um momento ou outro chega bem perto, mas tal opção não deixa de ser coerente com o espírito do estúdio e de seu criador, retratado no filme como um homem empreendedor, compreensivo e adorável – e, portanto, bem a cara de seu intérprete, Tom Hanks. Enquanto na verdade (e várias fontes confirmam a informação) Disney não era exatamente tão meigo – existem até acusações de misoginia em sua trajetória – no filme de Hancock, ele é a personificação das qualidades de seu império dos sonhos. Em um outro contexto soaria cínico. Dentro do universo do filme, chega a ser confortador.
Com exceção de um pequeno flashback que mais tarde fará parte de uma tela maior de ternas e tristes recordações da protagonista, “Saving Mr. Banks” começa em abril de 1961, em Londres, quando a escritora P. L. Travers (Emma Thompson, indicada ao Golden Globe e ignorada pelo Oscar) finalmente aceita, por motivações puramente financeiras – seus livros pararam de vender e ela não consegue escrever mais nada – viajar à Califórnia para negociar a venda dos direitos de sua mais querida obra, “Mary Poppins”, para uma adaptação cinematográfica. Depois de duas décadas negando-se terminantemente a ver seus personagens contracenando com desenhos animados e musicais coloridos, ela chega munida de uma boa dose de mau-humor e resistência para conversar pessoalmente com Walt Disney (Tom Hanks) e verificar se todas suas exigências serão cumpridas antes da assinatura do contrato. No entanto, o que surpreende não só à Disney mas ao roteirista Don DiGradi (Bradley Whitford) e aos compositores Dick (Jason Schwartzman) e Bob Sherman (B. J. Novak) nem é tanto o apego da escritora à sua criação, e sim a forma com que ela pretende sabotar o projeto: com pedidos cada vez mais absurdos (inclusive a não-utilização do vermelho no filme), Travers passa a enlouquecer os funcionários do estúdio, que nem de longe imaginam os motivos de tanta intransigência.




Tais motivos, no entanto, surgem diante dos olhos do espectador iluminados por flashbacks intercalados com a permanência de Travers na Califórnia. Nessas lembranças, fotografadas com um tom dourado que evoca um passado que mescla felicidade e desespero, surge a figura da escritora como uma criança que vê sua vida transformada pela queda de status econômico da família na Austrália do começo do século XX, pelo alcoolismo crônico do pai amoroso mas pouco responsável (Colin Farrell, brilhante) e pela chegada da ajuda de uma babá inesperada (Rachel Griffiths) – fonte de inspiração para sua inesquecível criação literária. Esses momentos, dotados de uma sensibilidade poética, contrabalançam o humor quase ingênuo com que o roteiro brinda o espectador, como a mostrar que, até mesmo por trás da mais alegre e inspiradora história infantil pode existir um mundo de tristeza e traumas. E esse equilíbrio é, de certa forma, uma das maiores qualidades do filme de Hancock.
Encapsuladas na atuação sublime de Emma Thompson – que comanda o espetáculo com sobriedade e uma sutileza que a confirma como uma das grandes atrizes de sua geração – as boas ideias do roteiro de “Saving Mr. Banks” encontram eco em um ritmo agradável e uma trilha sonora mais do que adequada de Thomas Newman, única indicação ao Oscar recebida pelo filme. Todas as cenas em que Travers se utiliza das prerrogativas de dona da bola são sensacionais – é brilhante quando Travers começa a implicar com as abreviações técnicas do roteiro, com rigorosamente todas as ideias do roteirista e principalmente com as canções e a possibilidade de inserir animação no filme – e encaminham a narrativa para um clímax emocionante, quando, sentada no escurinho do cinema, ela finalmente deixa fluir as lágrimas presas por anos e anos de uma saudade que somente a sétima arte pode curar – ao menos paliativamente. Esse final sozinho já vale a sessão. É um tanto piegas, mas é irresistível!

sexta-feira

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (12 years a slave, 2013, Regency Enterprises/River Road Entertainment, 134min) Direção: Steve McQueen. Roteiro: John Ridley, livro de Solomon Northup. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Joe Walker. Música: Hans Zimmer. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Alice Baker. Produção executiva: John Ridley, Tessa Ross, Bianca Stigter. Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Sarah Paulson, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Brad Pitt. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steve McQueen), Ator (Chiwetel Ejiofor), Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama 

A ainda curta filmografia em longa-metragem do cineasta Steve McQueen - até então restrita a dois nomes, os poderosos "Hunger" e "Shame" - ganhou um importante terceiro capítulo com "12 anos de escravidão", um filme que se utiliza de seu requintado senso estético para contar uma trama pungente e cruel sobre um dos períodos mais nefastos da história da humanidade. Baseado em um história real, seu trabalho - premiado com um Golden Globe de melhor drama e três estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme) - tem um apelo mais universal do que os anteriores, mas, assim como eles, prescinde dos clichês ao evitar o sentimentalismo fácil, armadilha na qual os filmes sobre o tema frequentemente caem. Se a intenção do espectador é emocionar-se com longas sequências de maus-tratos ao som de um música grandiloquente e discursos empolados sobre liberdade, o filme não é este. "12 anos de escravidão" é forte, sim, mas sua força reside justamente em seu distanciamento milimetricamente calculado para emocionar sem pieguice.

O roteiro repleto de elipses - o que tanto ajuda na agilidade quanto atrapalha na compreensão de alguns fatos para quem está acostumado à maneira quase didática com que Hollywood normalmente trata seu público - talvez seja o primeiro fator de estranhamento do filme de McQueen."12 anos de escravidão" já começa sem explicar muito, deixando a audiência tão atônita quanto o protagonista, que se vê, sem entender muito o que está se passando, como um escravo, muito tempo depois de já ter sido liberto e ter uma vida como um homem comum nos EUA pré-Guerra de Secessão. É aos poucos que a trama começa a ser explicada, e mesmo assim, não de maneira linear. O roteirista John Ridley (também oscarizado) parece ter compreendido exatamente o estilo do cineasta, preferindo mostrar a luta do protagonista pela reconquista da liberdade mais através de imagens poderosas do que por diálogos - não chega a ser nervosamente silencioso como seus filmes anteriores, mas aposta acertadamente nas sensações em detrimento da manipulação sentimental.


E é a opção de Steve McQueen em fugir da manipulação o grande diferencial de seu filme. Por ser negro - e consequentemente ter uma ligação bastante emocional com o tema da obra - seria previsível que McQueen se deixasse levar pela tendência a enfatizar o lado fisicamente cruel da narrativa, forçando o espectador a emocionar-se com uma música redundante e interpretações exageradas. Seguindo o caminho oposto, ele prefere documentar a história sem subterfúgios outros que não o absurdo da situação, acreditando - acertadamente - que não é necessário aumentar o que já é sofrido o suficiente. A tática dá certo? Sim e não. Sim porque oferece mais ao público do que o esperado em termos de qualidade narrativa. Não porque talvez esse mesmo público - mal-acostumado que está - tivesse em mente mais um espetáculo de sadismo do que um libelo delicado à liberdade.

E não dá para falar de "12 anos de escravidão" - e louvar suas inúmeras qualidades - sem mencionar o elenco excepcional escalado por Steve McQueen. Chiwetel Ejiofor, até então um ator relegado a papéis coadjuvantes em filmes grandes ("Simplesmente amor" e "2012") ou papéis importantes em filmes bons pouco vistos ("Coisas belas e sujas") entrega uma performance silenciosa e expressiva no papel de Solomon Northup, um homem determinado a encarar seu destino sem deixar de perder a dignidade de ser humano - mesmo diante de atrocidades e golpes baixos. A estreante Lupita Nyong'o dá um show como a desesperada Patsey, objeto de desejo de seu senhor - e por isso mesmo alvo da ira de sua senhora - em pelo menos uma grande cena (seu Oscar de atriz coadjuvante foi mais do que merecido). E, se o elenco masculino conta ainda com bons momentos de Paul Dano e a presença do produtor Brad Pitt, é novamente Michael Fassbender (em seu terceiro trabalho com o diretor) quem rouba todas as cenas em que aparece. Como o cruel Edwin Epps, o ator alemão comprova seu imenso talento em um personagem a anos-luz de distância de seu militante político de "Hunger" ou o viciado em sexo de "Shame". Basta que apareça em cena para que Fassbender convença a audiência de sua maldade inerente. Não é pouca coisa.

No final das contas, "12 anos de escravidão" é um grande filme, contado com elegância e emoção nas medidas certas e que tem a ousadia de manter o estilo de seu diretor mesmo que ele não seja o que a grande massa espera. Vai fazer história, independente de ter sido eclipsado na cerimônia do Oscar pelos efeitos especiais de "Gravidade" - não teve um orçamento milionário, mas tem um coração imenso.

quarta-feira

TUDO PELO PODER

TUDO PELO PODER (The ides of March, 2011, Cross Creek Pictures, 101min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, peça teatral "Farragut North", de Beau Willimon. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Leonardo DiCaprio, Guy East, Barbara A. Hall, Jennifer Kiloran, Stephen Pevner, Nigel Sinclair, Todd Thompson, Nina Wolarsky. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman. Estreia: 31/8/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Filmes sobre política, via de regra, são veneno de bilheteria. Mais afeitas a efeitos visuais, heróis mascarados e comédias óbvias de humor rasteiro, as plateias geralmente ignoram produções que tentam falar de assuntos mais sérios. Mesmo assim, tem gente que insiste. George Clooney é um integrante contumaz desse grupo de inconformados. Com o prestígio e o sucesso acumulado por anos de serviço à comunidade hollywoodiana – que perdoou até mesmo o fiasco que foi “Batman & Robin” (97) – Clooney conseguiu levar seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, “Boa noite, e boa sorte” (05), às indicações ao Oscar de filme e diretor, sem falar em outras produções de notável teor sócio-político que, sem sua presença, provavelmente nem teriam visto a luz dos projetores – desde a comédia de guerra “Três reis” (00) até o altamente combustível “Syriana” (05), que lhe rendeu a estatueta de ator coadjuvante. Por isso, não é de surpreender que: a) ele tenha voltado ao tema político em seu quarto filme, e b) tal filme, “Tudo pelo poder”, tenha naufragado solenemente nas bilheterias americanas a despeito de seu nome e do grande elenco que o acompanha. Não deixa de ser uma injustiça: baseado na peça de teatro “Farraguth North”, escrita por Beau Willimon – que também co-assina o roteiro, ao lado de Clooney e de seu habitual colaborador e produtor Grant Heslov – “Tudo pelo poder” é um filmaço sobre os bastidores da luta partidária e as desilusões que inevitavelmente vem à reboque de sua podridão.
Em um ano particularmente espetacular em sua carreira, o canadense Ryan Gosling supera toda e qualquer expectativa na pele de Stephen Meyers, um jovem idealista que faz parte do comitê de campanha de Mike Morris (George Clooney em pessoa), pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA. Morris, já aprovado como governador, é uma figura carismática, intensa e cuja plataforma eleitoral abarca os direitos civis, a ecologia e a pretensão de encerrar a sequência de guerras em que o país se viu envolvido. É também bem casado com uma mulher respeitável (Jennifer Ehle) e, mesmo não escondendo de ninguém seu ateísmo (um potencial problema em uma nação bastante religiosa), vê suas chances de ganhar a eleição aumentarem a cada dia. Convivendo diretamente com o chefe de campanha de Morris, o experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), Stephen vai tomando consciência de todos os meandros do mundo político, especialmente quando relacionados ao jogo sujo proporcionado pelo rival direto de Zara, o pouco confiável Tom Duffy (Paul Giamatti), que lhe acena com a possibilidade de mudar de time e passar a fazer parte da equipe rival. Trabalhando incansavelmente, Stephen encontra tempo para iniciar um romance com a estagiária Molly Stearns (Evan-Rachel Wood), despistar a onipresente repórter Ida Horowicz (Marisa Tomei) e descobrir, da pior forma possível, que até mesmo os mais impolutos ídolos tem pés de barro.


Sabendo da força da trama criada por Willimon – direta, simples, sem afetações e perigosamente realista – Clooney abriu mão de virtuosismos técnicos para concentrar seu foco no caminho de seu protagonista rumo à desilusão total e a consequente transformação de seu caráter diante do inesperado. O herói da história, Stephen Meyers – que Ryan Gosling vive com uma intensidade que se reflete em cada olhar, em cada expressão de angústia e desespero – serve como alter-ego do espectador, saltando de choque em choque em direção a trevas que ele jamais imaginou existir. Gosling executa com perfeição a transição de um jovem inocente e leal a uma raposa capaz dos atos mais baixos, como chantagem e mentira. É mérito do roteiro, inclusive, fazer com que essa transformação não soe repentina demais ou inverossímil: o público entende os motivos de Meyers. O público se solidariza com ele. E, para surpresa geral, o público aceita e aplaude quando a inocência se perde para sempre. No meio dos lobos, envolvido por conspirações subterrâneas, só o que resta a Meyers é tentar sobreviver da maneira mais eficiente – nem que para isso tenha que sacrificar a própria alma.
Esse pessimismo (realismo? cinismo?) do roteiro – que concorreu ao Oscar - não pode ser mais atual. Diante de uma política internacional que desrespeita até mesmo os mais óbvios conceitos de dignidade pessoal, a história de “Tudo pelo poder” soa não como um aviso, mas como um comentário ácido e perspicaz. Como forma de universalizar a trama, o roteiro foge da armadilha de tentar explicar a política americana, preferindo jogar seu foco nas relações humanas por trás dos palanques, um leque de relações tão ou mais revoltante. Para isso, conta com um elenco de coadjuvantes de ouro: Philip Seymour Hoffman dá olé em cada cena, Marisa Tomei nunca esteve tão bem, Paul Giamatti transmite com precisão o tom mefistofélico de seu personagem e Evan Rachel Wood está na medida certa de pureza e sedução. Mas o show é, sem dúvida, de Ryan Gosling. No mesmo ano em que criou o misterioso dublê envolvido com um perigoso grupo de criminosos no excepcional “Drive”, ele sustenta com firmeza de veterano um tratado doloroso sobre o desencanto. Merecia, no mínimo, uma lembrança da Academia. Mas seria esperar demais de um grupo tão conservador e arraigado a valores que o próprio filme faz questão de espatifar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...