Mostrando postagens com marcador HISTÓRIA REAL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HISTÓRIA REAL. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

ROCKETMAN

 


ROCKETMAN (Rocketman, 2019, Paramount Pictures/New Republic Pictures/Marv Films, 121min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: George Richmond. Montagem: Chris Dickens. Música: Matthew Margeson. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Judy Farr. Produção executiva: Michael Gracey, Elton John, Karine Martin, Tommaso Marzotto, Brian Oliver, Claudia Vaughn, Steve Hamilton Shaw, Danny Zamost. Produção: Adam Bohling, David Furnish, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Stephen Graham, Steven Mackintosh, Tom Bennett. Estreia: 16/5/2019 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Canção Original ("I'm gonna love me again")

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Taron Egerton), Canção Original ("I'm gonna love me again")

É inacreditável, mas um ano depois de ter homenageado o sofrível "Bohemian Rhapsody" com quatro (!!!) Oscar - incluindo para o desempenho medonho de Rami Malek -, a Academia de Hollywood simplesmente ignorou aquele que realmente merecia todos os elogios e estatuetas possíveis. Cinebiografia do cantor e compositor Elton John (também um dos produtores executivos do filme e autor de sua canção-tema), "Rocketman" é não apenas a tradução para as telas de sua vida caótica, mas principalmente uma celebração energética, empolgante e emocionante de uma das obras mais importantes da música popular do século XX. Sem medo de tocar em pontos polêmicos de Elton - sua sexualidade, o abuso de drogas e álcool, a relação conflituosa com os pais - e amparada em uma atuação nunca aquém de espetacular de Taron Egerton, a produção dirigida por Dexter Fletcher não cai nas armadilhas tão frequentes em filmes do gênero ao optar por uma visão mais lúdica e não naturalista, que permite a ruptura narrativa tradicional. Em tom ópera-rock (valorizada pelos figurinos excêntricos que recriam o visual do cantor desde a década de 1960), "Rocketman" é absurdamente bom. E, apesar dos Golden Globes (ator e canção original), extremamente subestimado. 

Escrito pelo mesmo Lee Hall do excelente "Billy Elliot" (2000), "Rocketman" já começa quebrando toda e qualquer expectativa de se ver uma cinebiografia tradicional: vestido em um de seus exuberantes e clássicos trajes - recriados com excelência por Julian Day -, o cantor Elton John entra em uma reunião onde anônimos trocam experiências a respeito de seu vício em drogas. Cansado de viver em negação e sofrendo com os problemas inerentes a adicção, o cantor começa a relembrar toda a sua vida, desde sua infância nos anos 1950 em uma pequena cidade do interior da Inglaterra. Ainda com o nome de Reginald Dwight (e interpretado pelo ótimo ator mirim Matthew Illesley), o futuro astro vivia no meio da relação inconstante entre um pai distante, Stanley (Steven Macintosh), e uma mãe pouco afeita a atos de carinho, a quase fria Sheila (Bryce Dallas Howard). Contando com o apoio da avó, Ivy (Gemma Jones), e sentindo-se deslocado, ele encontra um caminho na música e, com o passar do tempo, passa dos estudos na Royal Academy of Music para os palcos de pubs noturnos. Descoberto por um empresário mais dedicado ao dinheiro do que à arte em si, Dick James (Stephen Graham), Elton assume um nome artístico, conhece o jovem compositor Bernie Taupin (Jamie Bell) e inicia uma das carreiras mais longevas e populares da história. Misturando sua vida profissional com a pessoal, se envolve amorosamente com outro empresário, John Reid (Richard Madden) e mergulha nas drogas e no álcool.

 

Assumindo com coragem e quase orgulho todas as nuances que fazem de Elton John um dos mais longevos e influentes ícones pop da história, "Rocketman" abraça o exagero e o camp como forma de traduzir, em duas horas de duração, o consagrado estilo do cantor, famoso por suas roupas, seus óculos, seus sapatos e principalmente por suas atitudes no palco, que incendiava com apresentações nunca menos que antológicas. O roteiro, ágil e informativo na medida certa, se utiliza com perfeição das canções de Elton e Taupin, que ilustram cada momento com humor, emoção e uma energia que ultrapassa a tela. A direção de Dexter Fletcher - que assinou também o subestimado "Voando alto" (2015) - usa e abusa de cores e texturas, aproximando o espectador do universo alucinante e alucinado de seu protagonista, vivido com dedicação e gosto por Taron Egerton. Egerton, aliás, é provavelmente a melhor escolha da produção: carismático e talentoso, o jovem ator britânico tem um desempenho exemplar, funcionando à perfeição como ator, cantor e dançarino, oferecendo um show particular que justifica plenamente seu Golden Globe e deixa ainda mais injusta sua esnobada junto à Academia. Ficando com um papel para o qual estavam cotados James McAvoy, Daniel Radcliffe e Justin Timberlake - preferido de Elton John desde sua participação no videoclipe de "This train don't stop here anymore", de 2001 -, Egerton se transforma no cantor sem deixar-se levar pelo caminho fácil da imitação e/ou caricatura.

Sem querer esconder do público os pontos mais polêmicos da vida e da carreira de Elton John, "Rocketman" mescla os elementos tradicionais das cinebiografias com a irreverência típica do músico. Ao contar sua história através de canções e números musicais - bem coreografados e produzidos com extrema competência -, Dexter Fletcher demonstra uma segurança ímpar em um gênero difícil, em que qualquer excesso (ou carência) pode por tudo a perder. Repleto de canções icônicas em momentos emocionantes e sem pesar a mão mesmo quando se encaminha para uma fase menos colorida na trajetória pessoal do protagonista, o filme de Fletcher é um programa sem contraindicações, ideal para os fãs e para quem ainda não conhece a potência de um ídolo atemporal.

ELVIS

 


ELVIS (Elvis, 2022, Warner Bros/Bazmark Films/Roadshow Entertainment, 159min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, Sam Bromell, Jeremy Doner, estória de Baz Luhrmann, Jeremy Doner. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Jonathan Redmond, Matt Villa. Música: Elliott Wheeler. Figurino: Catherine Martin. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Karen Murphy/Shaun Barry, Beverly Dunn. Produção executiva: Toby Emmerich, Kevin McCormick, Andrew Mittman, Courtenay Valenti. Produção: Gail Berman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Patrick McCormick, Schuyler Weiss. Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Richard Roxburg, Kelvin Harrison Jr., Kodi Smith-McPhee, Chaydon Jay. Estreia: 25/5/2022 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Austin Butler), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Austin Butler

Quem conhece a filmografia do cineasta australiano Baz Luhrmann sabe que não se poderia esperar que "Elvis", seu longa-metragem sobre o rei do rock, fosse uma cinebiografia convencional e quadradinha. Rejeitando (pero no mucho) quase todas as regras de um gênero que raramente se arrisca a inovações, Luhrmann não se restringe a encapsular, em pouco mais de duas horas e meia de projeção, os 42 anos do célebre cantor: embaralhando todas as cartas à sua disposição - graças a uma edição magistral e a um roteiro que não se prende a cronologias -, o homem que deu ao mundo o visceral "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001) faz a sua homenagem não apenas ao artista Presley, mas também ao homem Elvis, à força transformadora e rebelde da música e - por que não? - a um período crucial da história sócio-política dos EUA, quando figuras seminais como Martin Luther King e Robert Kennedy dividiam espaço com personalidades infames como Charles Manson. Além disso, foge do previsível ao centrar seu foco na relação entre o cantor e seu empresário/mentor/amigo/algoz, Coronel Tom Parker - interpretado com a garra de sempre por um irreconhecível Tom Hanks (vítima de críticas pouco simpáticas por parte da imprensa).

Narrado por Parker - o que oferece uma dose a mais de ironia e cinismo à trajetória do rockstar -, "Elvis" percorre o caminho de Presley desde o começo de seu sucesso até sua trágica morte, em agosto de 1977. No entanto, o roteiro passa ao largo de momentos cruciais à carreira do protagonista - como sua carreira em Hollywood -, para concentrar-se em suas relações interpessoais (com os pais, com o empresário, com Priscilla) e em suas tentativas de fugir das regras morais de uma sociedade conservadora e racista. Isso não quer dizer, no entanto, que Luhrmann prive a plateia de números musicais: eles existem e são avassaladores, especialmente graças ao trabalho impecável de Austin Butler no papel-título. Praticamente desconhecido do grande público - apesar de ter o cultuado "Era uma vez.... em Hollywood" (2019) no currículo -, Butler foi a escolha perfeita do diretor: seu desempenho evita as armadilhas que uma mera imitação poderia trazer e envolve o espectador (e os fãs) ao iluminar um ser humano palpável e com sentimentos reais, a anos-luz de qualquer caricatura. Seja no palco, recriando as polêmicas coreografias que tanto incomodavam os puritanos, ou nos bastidores, em momentos mais intimistas, o jovem ator faz esquecer que, a princípio, pouco lembra fisicamente o verdadeiro Elvis. Sua entrega - que lhe rendeu um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - é o maior trunfo de um filme que tem muitos deles.
 
 
É inegável que "Elvis" peca na maneira de informar ou detalhar situações importantes da vida e da carreira de seu protagonista - a impressão é que muita coisa passa correndo na tela, mal dando tempo ao público de entender tudo de forma consistente. Porém, levando-se em conta o estilo festivo e espalhafatoso de Baz Luhrmann, tudo faz sentido. Um celebrante do kitsch desde seu primeiro trabalho para as telas - o cult "Vem dançar comigo" (1992) -, o cineasta encontrou no universo feérico das apresentações do cantor um terreno fértil para exercitar suas obsessões visuais. Não para menos, conta com sua fiel escudeira, Catherine Martin, na concepção artística do projeto - casada com o diretor desde 1997 e com quatro Oscar na prateleira (por "Moulin Rouge" e "O grande Gatsby", de 2013). Juntos, eles imprimem em seus filmes um estilo único, facilmente reconhecível e controverso: a cada fã deslumbrado com seus exageros estéticos, há um detrator insatisfeito com tamanha opulência. Tal divisão está, inclusive, no cerne de "Elvis": tudo que faz da filmografia de Luhrmann uma exceção dentro da indústria hollywoodiana está presente em seu sexto longa, para o bem ou para o mal. Em sua obra não há espaço para elocubrações psicológicas ou aprofundamentos dramáticos - o que importa é o que está diante dos olhos do espectador e como isso pode lhe afetar emocionalmente. Em "Elvis" isso está patente em cada escolha estética, em cada ângulo de câmera, em cada corte de edição. Interessa a Luhrmann soterrar a plateia de informações visuais e sonoras, para conduzí-la a uma viagem sinestésica. Quem iniciar o filme procurando uma narrativa comum certamente irá levar um choque. Quem sabe com quem está lidando vai se confrontar com uma produção caprichada, tecnicamente irrepreensível, emocional e reverente - à obra de Presley, à sua figura como ser humano e, aplausos a isso, à importância da cultura negra para sua música e seu sucesso.

"Elvis" é um grande filme. Tem defeitos claros - quem não conhece direito a história do roqueiro provavelmente ainda ficará com uma série de perguntas ao final da sessão -, mas tem qualidades o bastante para amenizar qualquer pecadilho. E, como bom produto cultural, despertou uma nova geração de fãs e reconquistou aqueles que o tempo havia espalhado pelo caminho. Merecidamente indicado a oito Oscar (incluindo melhor filme), acabou atropelado por uma alucinação coletiva chamada "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", mas qualquer fã de cinema é obrigado a reconhecer que é muito superior em todos os quesitos. Mais uma vez Baz Luhrmann foi roubado - e assim como aconteceu com "Moulin Rouge", ficou de fora dos candidatos à estatueta de melhor diretor. Coisas da Academia!

quinta-feira

STAR 80


STAR 80 (Star 80, 1983, The Ladd Company, 103min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, livro "Death of a playmate", de Teresa Carpenter. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Michael Bolton, Jack G. Taylor Jr./Ann McCulley, Kimberley Richardson. Produção: Wolfgang Glattes, Kenneth Utt. Elenco: Eric Roberts, Mariel Hemingway, Cliff Robertson, Carroll Baker, Roger Rees, Josh Mostel. Estreia: 10/11/83

Nascida em 28 de fevereiro de 1960, em Vancouver (Canadá), Dorothy Stratten teve uma meteórica carreira artística a partir do momento em que, pelas mãos do namorado Paul Snider, se viu diante de Hugh Hefner, o todo-poderoso dono do império Playboy - que lhe deu as primeiras chances como modelo -, e de Peter Bogdanovich, cineasta premiado e consagrado - que apaixonou-se por sua beleza e sua doçura e lhe prometeu fama e prestígio como atriz. Sua trajetória e seu trágico final foram relatados em "Death of a playmate", um artigo de Teresa Carpenter, publicado no jornal The Village Voice que ganhou o Pulitzer de 1981 e causou polêmica ao colocar tanto Hefner quanto Bogdanovich como corresponsáveis pelo crime que causou sua morte. O cineasta ainda tentou contar sua versão da história com o livro "The killing of a unicorn: Dorothy Stratten (1960-1980)", mas antes mesmo de seu lançamento a adaptação cinematográfica do texto de Carpenter já havia estreado, recebido uma indicação ao Golden Globe e causado comoção. Último filme dirigido por Bob Fosse, "Star 80" pode não ter tido o mesmo impacto de "Cabaret" (1972) ou "All that jazz: o show deve continuar" (1979), mas alcançou repercussão suficiente para abafar uma versão televisiva do mesmo tema, "Mulher ardente", levada ao ar em 1981 pela NBC e estrelada por Jamie Lee Curtis.

Apesar de ser baseada em uma história real, a trama de "Star 80" não escapa muito dos clichês que abundam em filmes que retratam os bastidores do show business - especialmente quando o foco é seu lado sombrio. Tudo começa em 1978, quando o ambicioso Paul Snider (Eric Roberts) conhece a muito jovem e bela Dorothy Stratten (Mariel Hemingway). Fascinado com a aura angelical e ao mesmo tempo sensual da estudante, Snider não apenas a seduz - indo contra os desejos da família - como a introduz em um mundo novo, que valoriza a imagem e a fama. O objetivo de Snider - ascender socialmente e tornar-se parte integrante de um círculo de dinheiro e prestígio - começa a tornar-se realidade quando sua musa (e já esposa) chama a atenção das pessoas certas e passa a frequentar as disputadas festas na mansão do milionário Hugh Hefner (Cliff Robertson), que a põe sob sua proteção pessoal. Aos poucos o sucesso de Dorothy passa a chamar a atenção de outros nomes influentes, o que a leva a começar uma tímida carreira de atriz. É nesse ponto que ela conhece o veterano cineasta Aram Nicholas (Roger Rees), que se apaixona por ela e lhe dá a grande chance de sua carreira artística. No ápice do ciúme, porém, Snider não se conforma com a suspeita cada vez maior de um caso entre sua mulher e o diretor - e passa a assumir um comportamento errático e ameaçador.

 

Realizado por Fosse mesmo depois dos apelos de Bogdanovich para que o projeto não fosse adiante, "Star 80" não ficou imune a polêmicas, especialmente devido a críticas do próprio diretor de "Essa pequena é uma parada" (1973) - cujo nome no filme foi alterado para Aram Nicholas - e pelo processo movido por Hugh Hefner, que não gostou nem um pouco da forma como foi retratado na montagem final (apesar da participação especial de seu filho caçula, Keith). Eric Roberts, unanimemente elogiado por seu desempenho como Paul Snider, chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor ator dramático - perdeu para o vencedor do Oscar da temporada, Robert Duvall, por "A força do carinho" -, enquanto a atuação de Mariel Hemingway - indicada ao Oscar de coadjuvante por "Manhattan" (1979) - reforçava seu status de ninfeta sexy que a atormentou por anos. A dupla é dona dos melhores momentos do filme - algo que poderia não ter acontecido se outros atores cotados para os papéis (Richard Gere como Snider, Melanie Griffith ou Daryl Hannah como Dorothy) tivessem sido escolhidos pelos produtores, e a participação especial de Carroll Baker como a mãe de Stratten não deixa de ser uma ironia inteligente: em 1956, aos 25 anos, ela causou celeuma ao protagonizar "Boneca de carne", de Elia Kazan, onde interpretava uma jovem vista exclusivamente como objeto de lascívia.

Bastidores e controvérsias à parte, "Star 80" é uma produção que, apesar de suas qualidades, é muito aquém da filmografia pregressa de Bob Fosse. Não há, nele, nada da ousadia narrativa de "All that jazz", da sofisticação visual de "Cabaret" ou mesmo a coragem quase suicida de "Lenny" (1974): linear e pouco inspirado, o roteiro do próprio diretor até tenta criar suspense a respeito do desenrolar da história (apesar do desfecho já amplamente conhecido), mas esbarra em uma inesperada falta de emoção - talvez pela atuação apática de Mariel Hemingway, talvez pelo tom semidocumental que impede uma maior aproximação entre o espectador e os personagens. Eric Roberts sai-se bastante bem na pele do desequilibrado Paul Snider, mas não consegue fugir do maniqueísmo que o retrata como um psicopata unidimensional. Tampouco é perceptível no resultado final o apuro estético que caracterizou as obras anteriores de Fosse - é como se o cineasta/roteirista estivesse mais interessado no material explosivo da história de Stratten do que em fazer dela uma obra de arte do mesmo nível de seus filmes premiados. Uma pena, já que foi seu derradeiro trabalho na cadeira de diretor.

Quanto ao pós-filme, não faltaram acontecimentos que dariam um novo longa-metragem. Sentindo-se parcialmente culpado pelo destino de Dorothy, o cineasta Peter Bogdanovich não apenas escreveu um livro sobre o assunto - o já citado "Death of a unicorn" - como tomou sua proteção a mãe e a irmã caçula da modelo, com quem se casou em 1988 (mesmo com uma diferença de 29 anos entre eles) e se divorciou em 2001. Além disso, foi acusado por Hugh Hefner de ter lhe causado um ataque cardíaco, devido às acusações feitas em seu livro - de que o milionário havia seduzido Stratten ao mesmo tempo em que a tratava como filha. Objeto também de uma canção do canadense Bryan Adams - "The best was yet to come", lançada em 1983 -, Dorothy Stratten permaneceu no inconsciente coletivo (especialmente dos EUA) por um bom tempo, como uma forma de lembrar sempre os perigos que sempre rondam o mundo da fama e da beleza, principalmente quando se trata de mulheres à mercê de seus algozes.

ALIANÇA DO CRIME

 


ALIANÇA DO CRIME (Black Mass, 2015, Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth, livro de Dick Lehr, Gerard O'Neill. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Tom Holkenborg. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Stefania Cella/Tracey Doyle. Produção executiva: Brett Granstaff, Gary Granstaff, Phil Hunt, Peter Mallouk, Ray Mallouk, Steven Mnuchin, James Packer, Brett Ratner, Compton Ross, Christopher Woodrow. Produção: Scott Cooper, John Lesher, Patrick McCormick, Brian Oliver, Tyler Thompson. Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, Juno Temple. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Veneza)

É difícil assistir a qualquer cena de "Aliança do crime" sem que o cinema de Martin Scorsese surja na memória do espectador. Não por sua qualidade (apenas razoável), mas porque, de uma forma ou outra, o cineasta nova-iorquino criou uma espécie de cânone em relação ao subgênero de filmes de gângster - ao menos aqueles menos épicos - do qual poucos diretores conseguem escapar. E, apesar da violência de sua trajetória e do número de vítimas que deixou em seu caminho, James "Whitey" Bulger - protagonista do filme de Scott Cooper - jamais poderia ser considerado um personagem glamoroso. Provavelmente o mais notável criminoso da história de South Boston (e irmão de um senador) foi beneficiado, durante anos, por um acordo com o FBI - que permitiu a ele expandir seus negócios escusos e aumentar sua lista de homicídios - e, em mãos ousadas como as de Scorsese poderia render uma pequena obra-prima (não por acaso há ecos de sua história em "Os infiltrados", vencedor do Oscar de 2007). Comandado por Scott Cooper, porém, o roteiro baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O'Neill acabou esbarrando em uma direção quase apática - tão influenciada por outras produções semelhantes que acaba por tornar-se pouco memorável, apesar do caprichado trabalho de Johnny Depp no papel central.

Substituindo Guy Pearce - que abandonou o projeto - e dedicando a ele um cuidado que chegou a planejar um encontro (nunca realizado) com o verdadeiro Bulger, Depp impressionou os consultores do filme, antigos associados do criminoso, parte da imprensa especializada (que o indicou a um Critic's Choice Awards) e de seus colegas de ofício (que o fizeram concorrer a um prêmio do Sindicato de Atores). Seu desempenho é realmente potente, enfatizado por uma caracterização impecável, que inclui a maquiagem, o figurino e a expressão corporal que o afastam de boa parte dos personagens exóticos que marcam sua carreira: por incrível que pareça, apesar da monstruosidade de seus atos, Bugler encontra, no trabalho de seu protagonista, um tom que evita o maniqueísmo absoluto - algo que nem mesmo o roteiro morno consegue impedir. Em um elenco repleto de ótimos atores - dentre os quais Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons e Joel Edgerton - o normalmente exagerado Depp consegue destacar-se sem apelar para a caricatura e entrega sua melhor atuação desde "Donnie Brasco" (1997) - coincidentemente outro filme sobre um infiltrado na máfia. Desta vez do lado do crime, o ator preferido de Tim Burton deita e rola com seu personagem, mesmo que o ritmo imposto por Cooper - que dirigiu "Coração louco" (2009) e deu a Jeff Bridges seu merecido Oscar - seja contemplativo demais para uma produção do gênero.

 

Assim como em seu "Tudo por justiça" (2013), em que a ação transcorria em um ritmo próprio, sem pressa e concentrado mais em seus personagens do que na narrativa propriamente dita, Scott Cooper imprime a "Aliança do crime" uma pegada menos ágil e mais dramática. Ainda há violência - é um filme sobre gângsters, afinal de contas -, mas ela não se restringe apenas a tiros, sangue e agressões físicas: interessa mais ao cineasta o turbilhão emocional de seus personagens, afetados (ou não) pela tensão constante à sua volta. Bulger não é uma ilha, e cercado por familiares e associados, enreda a todos em sua rotina de fora da lei, desde a mulher, Lindsey Cyr (Dakota Johnson) - um relacionamento fadado a uma tragédia que envolve o filho pequeno - até o irmão, Billy (Benedict Cumberbatch), senador que põe a própria carreira em risco devido a seus laços de sangue. É, aliás, o relacionamento de Bulger com o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton em papel herdado de Tom Hardy) que empurra a trama: amigo de infância do temido bandido, Connolly convence seus superiores a fazer um acordo com ele, dando-lhe relativa liberdade de ação em troca de informações sobre a máfia local (um inimigo em comum). Aos poucos Bulger vai se tornando mais e mais poderoso - mas as coisas mudam quando um novo procurador é designado para a área. Disposto a não mais fechar os olhos para os crimes do gângster, Fred Whysack (Corey Stoll) dá início à derrocada de um império.

Mesmo que o ritmo de "Aliança do crime" fuja da agilidade esperada de um filme do gênero - especialmente quando o público já está devidamente acostumado à adrenalina de obras como "Os bons companheiros" (1990) -, o filme de Scott Cooper cumpre boa parte do que promete. O roteiro por vezes confunde com seu excesso de personagens e a edição repleta de flashbacks do experiente David Rosenbloom nem sempre dá conta de lidar com tanta informação, mas é inegável que a atuação hipnotizante de Johnny Depp e a trama em si (inacreditável por natureza) são elementos fortes o bastante para sustentar uma produção que tem o cuidado de recriar a Boston dos anos 1970 com precisão - aplausos também para o figurino caprichado de Kasia Walicka Maimone (que depois faria parceria com Steven Spielberg em "Ponte dos espiões", de 2015) e a trilha sonora, que inclui Rolling Stones, Fletwood Mac, Blondie e Ella Fitzgerald. No saldo final, "Aliança do crime" pode não ser uma obra-prima, mas oferece ao espectador um conjunto suficiente de elementos para mantê-lo diante da tela e aproveitar suas inúmeras qualidades.

sexta-feira

HELENO: O PRÍNCIPE MALDITO

 


HELENO: O PRÍNCIPE MALDITO (Heleno: O príncipe maldito, 2012, Downtown Filmes, 116min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Felipe Bragança, Fernando Castets, José Henrique Fonseca, colaboração de L.G. Bayão, Roberto Ceuninck. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Berna Ceppas. Figurino: Rita Murtinho, Valeria Stefani. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Beto Bruno, Eliane Ferreira. Produção: José Henrique Fonseca, Eduardo Pop, Rodrigo Santoro, Rodrigo Teixeira. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Othon Bastos, Erom Cordeiro, Herson Capri. Estreia: 30/3/2012

Décadas antes que jogadores de futebol se tornassem notícia mais por seus escândalos fora de campo do que por seu desempenho profissional - o que de certa forma já faz parte do cotidiano de quem acompanha o esporte -, um atleta talentoso e ídolo absoluto da torcida ilustrava páginas de jornais por seus ataques de estrelismo, suas rumorosas noitadas regadas a mulheres, álcool e drogas... e, nas horas vagas, por jogadas geniais que o marcaram indelevelmente no imaginário dos fãs. Heleno de Freitas, nascido em 1920 e morto em 1959 - com apenas 39 anos de idade - foi o maior ídolo alvinegro antes de Garrincha e um dos maiores artilheiros da história do Botafogo, além de formar, em 1945, junto com Zizinho, Jair da Rosa Pinto Tesourinha e Ademir de Menezes, um quinteto de ataque considerado como o melhor jamais escalado para a Seleção Brasileira. Suas façanhas profissionais, no entanto, por mais importantes, foram ofuscadas por seu comportamento errante nos bastidores - e sua luta contra os próprios demônios é o foco de "Heleno: o príncipe maldito", estupendo retrato de sua glória e decadência, sob a lente do cineasta José Henrique Fonseca e com a presença hipnotizante de Rodrigo Santoro no papel-título.

Heleno de Freitas não era um jogador de futebol comum. Filho do dono de um cafezal que também tinha negócios com papel e chapéus, tinha amigos na alta sociedade carioca, além de conviver com juristas, diplomatas e empresários. Formado em Direito pela UFRJ, foi descoberto quando jogava futebol na praia e tornou-se ídolo do Botafogo assim que chegou ao time, em 1940. Objeto de uma das maiores transações financeiras do futebol da época, chegou a jogar na Argentina antes de retornar ao Brasil - pelo Vasco da Gama - e dedicar seus últimos anos de carreira pulando de time em time (e arrumando problemas em todos eles). Casado com a bela Ilma (que no filme foi rebatizada como Sílvia e encontrou uma intérprete fabulosa em Alinne Moraes), Heleno nunca abandonou a boemia, as mulheres e os vícios em álcool e drogas como éter e lança-perfume - uma vida desregrada que cobrou um preço alto: internado em um sanatório nos últimos anos de sua vida, o ex-jogador viu a sífilis destruir completamente sua saúde física e mental, sofrendo de alucinações até seus momentos finais. 

Um dos produtores do filme, Santoro mais uma vez se entrega de corpo e alma, construindo um Heleno de Freitas sedutor e autodestrutivo na mesma medida, um homem capaz de encantar torcedores com a mesma desenvoltura com que passava as noites envolvido com todo tipo de excessos. Indo além da mera transformação física - que enfatiza o contraste entre seu auge como atleta e seu declínio como vítima de sífilis -, o ator busca a empatia do público através de uma atuação que evita ao máximo os clichês e encontra brechas emocionas mesmo tendo em mãos um personagem facilmente detestável. Poucos atores conseguiriam angariar simpatia para alguém tão arrogante e autocentrado, mas Santoro se aproveita de seu carisma e experiência para amenizar as características negativas de um anti-herói que era a cara de seu tempo. Sua química com Alinne Moraes (belíssima e sempre ótima atriz) amplia ainda mais o alcance catártico proposto pelo roteiro, que se sobressai como uma das mais dignas e bem cuidadas cinebiografias nacionais, enquanto foge da armadilha de um tema ainda pouco explorado a contento no cinema brasileiro, o futebol. E mesmo quando se propõe a investigar a maior paixão nacional, o filme de Fonseca não faz feio: graças à espetacular fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho e à edição precisa de Sérgio Mekler, "Heleno" é praticamente uma experiência imersiva, que simplesmente coloca o espectador no meio do gramado, acompanhando seu protagonista em decisivos momentos da carreira. São momentos em que a técnica se sobrepõe à emoção - e é impossível não se deixar conquistar pelo talento do cineasta em unir os dois extremos, especialmente quando são contrapostos de forma inteligente e elegante, com o auxílio luxuoso da maquiagem do mexicano Martin Macias Trujillo.

"Heleno" é um filme repleto de qualidades - técnicas e dramáticas. Isso não significa, porém, que não tem pequenos defeitos - que não comprometem o resultado final, mas o impedem de ser uma obra-prima. O excesso de vai-e-voltas do roteiro, por exemplo, atrapalha o ritmo - mas, ao mesmo tempo, sublinha a diferença entre o apogeu e a queda do jogador. A linha do tempo também não chega a ser exatamente clara, e quem não conhece detalhes e cronologia da história do atleta corre o risco de ficar perdido - mesmo que o roteiro tente ser o mais didático possível sem interromper o fluxo narrativo. Apesar disso, o visual deslumbrante e o elenco impecável - até mesmo nos menores papéis - comprovam o apurado senso estético e artístico de José Henrique Fonseca - filho do escritor Rubem Fonseca e com os ótimos "Traição" (1998) e "O homem do ano" (2003) no currículo. Um exemplo inequívoco das potencialidades do cinema brasileiro, "Heleno: o príncipe maldito" é também um ponto alto na carreira de Rodrigo Santoro.

terça-feira

ACONTECEU EM WOODSTOCK

 


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock, 2009, Focus Features, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, livro de Elliot Tiber, Tom Monte. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Tim Squyres. Música: Danny Elfman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen De Jonge. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Celia Costas, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Demetri Martin, Emile Hirsch, Imelda Staunton, Henry Goodman, Jonathan Groff, Jeffrey Dean Morgan, Mamie Gummer, Eugene Levy, Dan Fogler, Andy Prosky, Skylar Astin, Paul Dano. Estreia: 16/5/2009 (Festival de Cannes)

As lendas e fatos a respeito do Festival de Woodstock todo mundo já conhece - seus números, seus artistas, seus imprevistos e principalmente seu legado à história da música e da cultura popular (sem falar nos desdobramentos sociais e políticos). O que, então, poderia haver de novo a ser explorado em um filme quarenta anos depois do evento? A resposta surgiu quando o diretor Ang Lee foi interpelado por Elliot Tiber durante a divulgação de seu "Desejo e perigo" (2007): autor de um livro sobre os bastidores da organização do festival, do qual foi parte crucial, Tiber ofereceu ao cineasta a chance de contar a história sob um novo ponto de vista - e com um viés mais humano, comum em sua obra. Com seus colaboradores de confiança (James Schamus no roteiro, Eric Gautier na direção de fotografia e Tim Squyres na edição), o já vencedor de um Oscar (por "O segredo de Brokeback Mountain") lançou, no Festival de Cannes de 2009 o esperado "Aconteceu em Woodstock". O resultado, porém, ficou aquém das expectativas - tanto em termos financeiros quanto artísticos - e acabou se tornando um dos trabalhos menos memoráveis de Lee, a despeito de suas notáveis qualidades

Elliot Tiber, o autor do livro que deu origem ao filme, é interpretado por Demetri Martin, comediante em seu primeiro trabalho no cinema - uma falta de experiência e carisma que atrapalha muito as possibilidades de conexão com o espectador. Em 1969, Tiber abandona uma carreira pouco feliz de design de interiores em Nova York e retorna para a pequena cidade de White Lake com o objetivo de ajudar seus pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter vivo seu pequeno e nada convidativo hotel. A missão é complicada, já que nenhum dos dois é exatamente competente nos negócios e nada no lugar chama a atenção dos turistas ocasionais. A salvação da lavoura surge, no entanto, quanto ele menos espera: ao saber que uma cidade vizinha voltou atrás ao permitir a realização de um festival de música para o público hippie, o jovem toma as rédeas da situação e, depois de fazer contato com os produtores, transforma seu pacato lugarejo no cenário de um dos mais importantes acontecimentos culturais da história. Para isso, porém, ele precisa lutar contra o preconceito local, os problemas logísticos que envolvem a realização de algo inesperadamente gigantesco e encarar sua própria sexualidade conflituosa.

 

Fugindo da tentação de fazer do festival seu protagonista, Ang Lee segue mantendo-se fiel à sua marcante característica de priorizar os sentimentos humanos e, com eles, criar um amplo mosaico de personagens interessantes, como a travesti interpretada por Liev Schreiber (que assume o posto de segurança informal do evento), o jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch e a idiossincrática mãe do protagonista (em um show particular de Imelda Staunton). Woodstock, na visão do cineasta, é apenas o pano de fundo (forte) para uma jornada de autodescobrimento, pincelada de momentos clássicos reproduzidos sutilmente pelo desenho de produção caprichado e pelo figurino, que dialogam com o tom onírico impresso pelo roteiro. A opção do filme em não mostrar absolutamente nenhum número musical - o que provavelmente é motivo de frustração para os fãs mais obcecados do festival - é surpreendente, mas condiz com o tom menos documental e mais emotivo da produção, que apesar disso falha em não aprofundar a contento todas as possibilidades que apresenta ao espectador. Tal problema impede que uma de suas maiores qualidades - o belo elenco - seja aproveitado em todo o seu potencial.

Quem começar uma sessão de "Aconteceu em Woodstock" com a intenção de ver Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix certamente irá se decepcionar. O filme de Ang Lee é para um público que procura obras sobre pessoas em busca de si mesmas - mesmo que para isso seja preciso fazer parte de um evento de proporções gigantescas que mudou o mundo (ou ao menos a concepção de muita gente sobre ele). Pode não ser uma obra-prima como alguns dos melhores trabalhos do cineasta, mas é simpático e honesto o bastante para não fazer feio em uma filmografia marcada pela sensibilidade e pelo carinho por seus personagens.

FANTASMAS DO PASSADO

 


FANTASMAS DO PASSADO (Ghosts of Mississippi, 1996, Columbia Pictures, 130min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Lewis Colick. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Karen A. O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Nicholas Paleogolos, Rob Reiner, Andrew Schneiman, Frederick Zollo. Elenco: Alec Baldwin, Whoopi Goldberg, James Woods, Craig T. Nelson, Virginia Madsen, Diane Ladd, Susanna Thompson, William H. Macy, Jerry Levine, Terry O'Quinn, James Pickens Jr., Lucas Black, Jerry Hardin. Estreia: 20/12/96

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (James Woods), Maquiagem

Quando "Fantasmas do passado" chegou aos cinemas, em dezembro de 1996, fazia apenas dois anos e meio que sua história havia tido seu desfecho. O  terceiro julgamento de Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Medgar Evers em 1963 - depois de dois outros anulados por uma série de circunstâncias que beneficiavam o réu  - tornou-se assunto dominante em Jackson, Mississippi no começo de 1994 e sua versão cinematográfica aproveitou-se da energia de revolta local para tentar transmitir ao espectador toda a força dos acontecimentos que foram um marco na luta pelos direitos civis na sociedade norte-americana. Não conseguiu completamente. A bilheteria pouco expressiva e a receptividade morna da crítica acabaram por relegar o filme a uma espécie de limbo na carreira do diretor Rob Reiner, apenas um meio-termo entre o sucesso de "Conta comigo" (1986), "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989), "Louca obsessão" (1990) e "Questão de honra" (1992) e o fracasso comercial de "O anjo da guarda" (1994) e "Alex & Emma: escrevendo sua história" (2003).  Mesmo assim, chamou a atenção o suficiente para render a James Woods uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante - a segunda de sua carreira.

Woods - na pele do venal Byron de la Beckwith - é o destaque absoluto do filme de Reiner. Mesmo com poucos minutos em cena, seu desempenho consegue eclipsar tanto a potente atuação de Whoopi Goldberg (tentando dar consistência às falas clichês de sua personagem) quanto o esforço de Alec Baldwin, ainda não exatamente reconhecido como o ator de respeito que se tornaria com o passar dos anos. Fugindo da tentação de fazer de Beckwith um vilão humanizado (basta ver entrevistas reais para perceber que isso é impossível), o veterano ator dá o seu melhor para transmitir, em cada aparição, todo o ódio e o desprezo que move o movimento supremacista do sul dos EUA - e do resto do mundo. Sempre que surge na tela, seu olhar maligno e sua expressão de desprezo pela justiça tornam impossível ignorar seu minucioso trabalho - algo que nem mesmo a maquiagem exagerada (inexplicavelmente indicada ao Oscar) consegue atrapalhar. Lamentável que o roteiro não lhe dê mais espaço e se concentre naquele que talvez seja o grande problema do filme: a figura do criticado white savior - termo que caracteriza, normalmente de forma pejorativa, uma pessoa branca que se torna o herói em uma luta racial. Ok, o advogado que levou Beckwith aos tribunais em 1994,Bobby DeLaughter, é branco. Mas fica, mesmo assim, a sensação de um foco inadequado a uma trama tão nitidamente específica.


 

Apesar de dar a Whoopi Goldberg o importante e crucial papel de Myrlie Evers, a viúva do ativista pelos direitos civis Medgar Evers (vivido no filme por James Pickens Jr., de "Grey's Anatomy"), o roteiro de "Fantasmas do passado" se concentra basicamente em Bobby DeLaughter, promotor do Mississipi que entra, quase por acaso, no caso do terceiro julgamento de um racista radical acusado pelo assassinato. Casado, pai de dois filhos e parte de uma família tradicional e respeitada, Bobby se deixa convencer pela persuasiva Myrlie de que trinta anos já é tempo suficiente para tentar novamente a condenação do homem que matou seu marido. Para conquistar sua confiança, o promotor põe em risco seu casamento, sua carreira e até mesmo sua vida. Sem o apoio daqueles que o rodeiam - todos profundamente enraizados nos preconceitos sulistas - e questionado até mesmo por Myrlie, ele descobre, no processo rumo ao tribunal, que condenar um homem tão abertamente preconceituoso e intolerante não é tarefa fácil, especialmente em seu contexto geográfico e social.

Assumindo um papel que foi cogitado para ser de Tom Cruise ou de Tom Hanks - ambos com potencial comercial bem maior -, Alec Baldwin sofre com a direção quase mecânica de Rob Reiner e com o roteiro esquemático e quase frio. Ao tentar evitar o sentimentalismo inerente à história, Reiner nega à plateia o tom emocional que poderia fazer de seu filme uma produção marcante e relevante. Lançado no mesmo ano do sucesso "Tempo de matar" e do fiasco "O segredo" - ambos com temática semelhante, ainda que relatos de ficção baseados em livros de John Grisham -, "Fantasmas do passado" passou praticamente em branco nos cinemas e dificilmente é lembrado mesmo nas filmografias de seus atores principais. Não deixa de ser uma injustiça: mesmo longe de ser um dos melhores filmes do diretor ou até mesmo sobre o tema, é um entretenimento decente - ainda que seu foco seja um tanto problemático.

quarta-feira

ARGENTINA, 1985

 


ARGENTINA, 1985 (Argentina, 1985, 2022, La Unión de los Ríos/Kenya Films/Infinity Hills, 140min) Direção: Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano Llinás, Martín Mauregui (colaborador). Fotografia: Javier Julia. Montagem: Andrés Pepe Estrada. Música: Pedro Osuna. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Micaela Saiegh. Produção executiva: Phin Glynn, Cindy Teperman. Produção: Victoria Alonso, Santiago Carabante, Chino Darín, Ricardo Darín, Axel Kuschevatzky, Agustina Llambi Campbell, Santiago Mitre, Federico Posternak, Ana Taleb. Elenco: Ricardo Darín, Peter Lanzani, Alejandra Fletchner, Paula Ransenberg. Estreia: 03/9/2021 (Festival de Veneza)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Internacional

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional 


As cicatrizes que a ditadura militar deixou na sociedade argentina ainda se fazem sentir no país, mesmo depois de quatro décadas após seu final. Pelo menos é que dizem filmes como "A história oficial" (1985), de Luis Puenzo - que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e o novo "Argentina, 1985", o fascinante petardo do diretor Santiago Mitre que concorreu ao Oscar 2023 na mesma categoria. Porém, enquanto a obra-prima de Puenzo direcionava suas câmeras a um olhar mais particular sobre o trágico período político encerrado em 1983 (com a história de uma professora descobrindo as origens de sua pequena filha adotiva), a produção de Mitre se debruça explicitamente sobre os crimes cometidos pelos militares - estupros, assassinatos, torturas - para fazer uma espécie de inventário de suas atrocidades e, por consequência, alertar sobre os perigos de que voltem a acontecer. Momentoso, sóbrio e inteligente, o filme, estrelado pelo sempre ótimo Ricardo Darín, surge na hora apropriada, mas seu sucesso não deve ser creditado somente à sua importância política: "Argentina, 1985" é cinema de primeira linha, um filmaço que consegue unir, em duas horas e meia de projeção, entretenimento e relevância histórica.

O filme de Mitre elege como protagonista o promotor público Julio Strassera (Ricardo Darín), escalado para ser o responsável pelo julgamento dos militares de alta patente acusados da violenta repressão  contra os críticos ao governo ditatorial que dominou o país entre 1963 e 1983. Contando com o apoio do jovem advogado Luis Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani) - que entra em rota de colisão com a família, formada por apoiadores do regime - e um grupo de estagiários cuja vontade de ganhar a causa é inversamente proporcional a sua pouca idade, Strassera aceita a missão contra a vontade, ciente das consequências de um julgamento tão polêmico. Porém, conforme as sessões avançam e as ameaças contra ele, sua mulher e seus filhos aumentam, ele vê aumentar cada vez mais sua sede de justiça - especialmente diante de depoimentos contundentes das vítimas, que estabelecem um grau de crueldade e violência impossíveis de ignorar. Strassera sabe que a condenação dos réus é a única forma de evitar que tal atrocidade venha a repetir-se.

 

Fugindo do tom semi-documental que fatalmente acomete produções de teor político, "Argentina, 1985" não abre mão, no entanto, de deixar bem clara as suas intenções de desenterrar o passado sombrio do país. O roteiro, perfeitamente equilibrado entre dramas pessoais e questões jurídicas que jamais descambam para a verborragia técnica que poderia afastar o espectador, não hesita em explicitar, através de testemunhas e documentos, toda a fúria sanguinária de homens que tentavam, através da força física e psicológica, destruir seus inimigos políticos da forma mais vil. São momentos como esses, em que vítimas narram suas dores, que fazem do filme de Santiago Mitre um petardo histórico e emocional, em contraponto à frieza de todas as sequências em que são discutidos detalhes de bastidores. Em especial no terço final da produção, o cineasta parece abraçar definitivamente o desejo de comover a plateia, encaminhando-a para um clímax arrepiante e, melhor ainda, perfeitamente acurado e fiel aos fatos.

É admirável que o roteiro de "Argentina, 1985" - escrito por Mitre e Mariano Llinás - consiga a façanha de ser, ao mesmo tempo, informativo e dramaticamente consistente. Apesar de dedicar boa parte de sua narrativa a um estudo fidedigno dos processos jurídicos retratados e dos documentos oficiais, a trama encontra espaço suficiente para humanizar seus protagonistas e aproximá-los do espectador mais comum. Enquanto Strassera precisa lidar com as ameaças que sofre para abandonar o julgamento - em sequências tensas e editadas com precisão -, Ocampo sente na pele as consequências de enfrentar um sistema de violência ao tornar-se um pária dentro da própria família. Para isso, o diretor recebe o auxílio impecável de um elenco exemplar, liderado por Ricardo Darín, mais uma vez brilhante: um dos produtores do filme (ao lado do filho, o também ator Chino Darín), o astro mais popular do cinema argentino faz mais um gol de placa - e com o Golden Globe em mãos, voltou com prestígio à cerimônia da Academia, que em 2010 premiou o hoje quase clássico "O segredo dos seus olhos". Forte e tocante, "Argentina, 1985" é nada menos que obrigatório.

terça-feira

BAR DOCE LAR


BAR DOCE LAR (The tender bar, 2021, Amazon Studios, 106min) Direção: George Clooney. Roteiro: William Monahan, livro de J.R. Moehringer. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Tanya M. Swerling. Música: Dara Taylor. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa M. Levander. Produção executiva: Barbara A. Hall, Ibrahim Hamdan, J. R. Moehringer. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Ted Hope. Elenco: Tye Sheridan, Ben Affleck, Lily Rabe, Christopher Lloyd, Daniel Ranieri, Briana Middleton. Estreia: 10/10/2021 (BFI London Festival)

Não deixa de ser triste perceber que George Clooney, anteriormente conhecido por escolher projetos de interesses político e social para sua carreira como cineasta, tenha entrado em um período pouco relevante. Filmes como "Confissões de uma mente perigosa" (2002), "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011) parecem ter ficado para trás, diante de produções esquecíveis ou simplesmente medíocres, como "Caçadores de obras-primas" (2014) e "Suburbicon: bem-vindos ao paraíso" (2017). Infelizmente seu projeto mais recente, "Bar doce lar", volta a não entusiasmar, apesar de algumas qualidades perceptíveis. Baseado em um livro de memórias de J.R. Moehringer, o filme é apenas mais uma história pouco original de amadurecimento, prejudicada por personagens pouco interessantes e por um roteiro irritantemente convencional - uma surpresa quando se sabe que seu autor é William Monahan, vencedor do Oscar por "Os infiltrados" (2006), uma obra-prima de estrutura e concisão.

O filme de Clooney conta a história de J.R., desde sua infância (quando é interpretado pelo encantador Daniel Ranieri) até a juventude (quando passa a ser vivido pelo promissor Tye Sheridan). Filho de uma batalhadora mãe solteira (Lily Rabe) e um pai radialista que só dá as caras esporadicamente e não faz a menor questão de um relacionamento mais profundo com ele, o menino não demora a estabelecer um vínculo emocional com o tio, Charlie (Ben Affleck), dono de um bar que assume, sem hesitar, a figura paterna para o sobrinho. É com Charlie que o pequeno J.R. aprende valores, dicas de sobrevivência emocional, macetes sociais e é a partir de suas conversas que surge nele o amor pelos livros e o desejo de tornar-se escritor. Sobrevivendo em meio a um quase caos - a casa do avô é frequentemente povoada por inúmeros tios e primos barulhentos -, J.R. cresce e, em busca de realizar seu sonho de escrever - e o de sua mãe, de que ele faça uma faculdade -, descobre um mundo que nem sempre é hospitaleiro e gentil. Apaixonado por uma colega, Sidney (Briana Middleton), ele entra também no mundo dos amores complicados.

 

Sem apresentar nada do que já tenha sido visto em vários outros filmes do gênero, "Bar doce lar" peca por sua narrativa morna e sem grandes momentos memoráveis. A cada cena um pouco mais interessante - o avô do menino salvando a comemoração de Dia dos Pais na escola do neto, o confronto de J.R. com os esnobes pais de Sidney, a melancólica espera do menino por um pai que nunca chega para levá-lo a um jogo - segue-se inúmeras outras repetitivas e que não despertam no espectador nada além de uma sensação de dèjà-vu constante. Para isso contribui muito o fato de que a história de Moheringer não é, a rigor, nem um pouco empolgante, e seu personagem principal tampouco cativa por uma personalidade marcante, apresentando, na maior parte do tempo, uma passividade que torna quase impossível ao público importar-se de verdade com seu destino. Nem mesmo o talento do jovem Tye Sheridan consegue dar profundidade suficiente para disfarçar a fragilidade da estrutura do roteiro de Monahan e a direção mecânica de Clooney. Quem de certa forma se destaca é Ben Affleck, que mesmo sem apresentar nada de novo em sua atuação, recebeu indicações ao Golden Globe e ao SAG Awards na categoria de ator coadjuvante - apesar de ser o primeiro nome nos créditos.

Dizer que "Bar doce lar" é um filme ruim é exagerar, já que tem uma produção cuidadosa, uma trilha sonora deliciosa e um elenco que se esforça ao máximo para extrair o melhor de cada momento. Porém, com o currículo acumulado por George Clooney atrás das câmeras, era de se esperar algo menos óbvio e tão pouco ambicioso. Falta de ambição nem sempre é defeito - muitas vezes, inclusive, pode ser uma grande qualidade -, mas dessa vez tal característica deixa no ar a sensação de oportunidade perdida: o cineasta poderia ter assinado uma produção emocional e nostálgica mas ficou muito aquém de suas expectativas. O resultado é uma produção correta mas passa longe de atingir o mesmo nível dos melhores filmes do diretor. Uma pena!

sexta-feira

O ENFERMEIRO DA NOITE


O ENFERMEIRO DA NOITE (The good nurse, 2022, FilmNation Entertainment/Netflix, 121min) Direção: Tobias Lindholm. Roteiro: Krysty Wilson-Cairns, livro de Charles Graeber. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Adam Nielsen. Música: Biosphere. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Alyssa Winter. Produção executiva: Glen Basner, Ignacio de Medina, Jonathan Filley, Ari Handel, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Michael Jackman. Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Noah Emmerich, Kim Dickens, Nnmandi Asomugha. Estreia: 11/9/2022 (Festival de Toronto)

Pode um filme falar sobre um serial killer que matou provavelmente centenas de pessoas contar sua história sem mostrar uma única gota de sangue? "O enfermeiro da noite", baseado na trajetória assassina de Charles Cullen - encerrada com sua prisão, em 2003 - prova que a resposta é positiva. Lançado no Festival de Toronto de 2022 cerca de um mês antes de estrear na Netflix, em outubro do mesmo ano, o primeiro longa-metragem em inglês do dinamarquês Tobias Lindholm foca na investigação policial que levou Cullen à cadeia, e é conduzido com sobriedade e discrição, evitando o sensacionalismo normalmente atrelado a produções do gênero. Com sua experiência na condução de dois episódios da série "Mindhunter", Lindholm se aproveita do talento de seu elenco e do roteiro conciso, baseado em um livro investigativo de Charles Graeber, para envolver o espectador em um drama claustrofóbico, cuja elegância visual não consegue disfarçar a tensão inerente a uma trama perturbadora.

O filme começa - logo depois de um prólogo que dá uma ideia do que está por vir - quando o jovem enfermeiro Charles Cullen (Eddie Redmayne) é contratado para trabalhar no turno da noite do Parkfield Memorial Hospital, localizado em Nova Jersey (estabelecimento fictício que substitui o verdadeiro Somerset Medical Center). Solícito, gentil e dedicado, não demora para que Charles se torne amigo da colega Amy Loughren (Jessica Chastain), que divide seu tempo entre o trabalho, os cuidados com as duas filhas pequenas e a luta para curar um problema cardíaco. A amizade entre os dois vai se aprofundando com o tempo, e Amy passa a contar com o novo colega em suas batalhas diárias. As coisas mudam, porém, quando pacientes sob a supervisão de Cullen, independentemente da idade e em condições razoáveis de saúde, começam a morrer inexplicavelmente. Desconfiada de que seu amigo pode estar por trás dos óbitos, a enfermeira resolve colaborar com a polícia, nas figuras de Tim Braun (Noah Emmerich) e Danny Baldwin (Nnmandi Asomugha).


 

Com uma história que praticamente implora por um tom sensacionalista, "O enfermeiro da noite" encontra, na direção de Tobias Lindholm, um viés mais intimista, que opta pelas crises pessoais de seus protagonistas, em detrimento às regras mais óbvias em um filme de suspense. Para isso, conta com a presença sempre potente de Jessica Chastain, em papel mais discreto do que aquele que lhe rendeu um Oscar, por "Os olhos de Tammy Faye": em um trabalho quase silencioso, que explora o olhar e o corpo mais do que longos diálogos, Chastain empresta à Amy Loughren atitudes estoicas e corajosas que despertam a imediata empatia do público, e bate de frente com mais um desempenho econômico e eficiente de Eddie Redmayne. Longe dos trejeitos que poderiam fazer de seu Charles Cullen um monstro clichê, o ator vencedor do Oscar por "A teoria de tudo" (2014) expressa a personalidade transtornada de Cullen através de sorrisos melífluos, atitudes gentis e a aparência de um homem absolutamente normal - como qualquer psicopata -, mas, de forma inteligente, nunca deixa de fazer com que seus gestos soem ameaçadores, o que fica claro em sua última conversa com Amy, uma sequência elaborada com precisão para deixar a plateia com a respiração suspensa. Além disso, somada às atuações exemplares de seus atores centrais, a fotografia acinzentada deixa no ar a sensação constante de pesadelo monocromático e sufocante, que dialoga com o desenvolvimento apropriadamente lento do filme de Lindholm.

Roteirista de filmes premiados, como "A caça" (2012) e "Druk: mais uma rodada" (2020), Lindholm faz sua estreia como diretor de longa-metragens em inglês com o pé direito. Ao renegar qualquer lugar-comum de filmes sobre psicopatas, o cineasta  afirma sua personalidade própria, que busca o envolvimento do espectador sem artifícios que não a objetividade. Sua decisão em focar a narrativa na relação entre Amy e Charles foge do padrão "mortes+investigação+confronto" para inserir, na receita,  um ritmo mais comum em dramas do que em filmes de suspense - o que pode desnortear os cinéfilos mais puristas, mas que acrescenta uma profundidade maior à sua obra. Por mais que em alguns momentos "O enfermeiro da noite" soe como um telefilme, sua seriedade em lidar com um tema complexo e polêmico merece aplausos - especialmente se, junto com ela, é possível testemunhar mais um trabalho admirável de Jessica Chastain, uma das melhores atrizes de sua geração, e Eddie Redmayne, em franca ascensão dentro da indústria hollywoodiana. 

 

quarta-feira

DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER


DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER (De-lovely, 2004, MGM Pictures, 125min) Direão: Irwin Winkler. Roteiro: Jay Cocks. Fotografia: Tony Piece-Roberts. Montagem: Julie Monroe. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/John Bush. Produção executiva: Simon Channing Williams, Gail Egan. Produção: Rob Cowan, Charles Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Line, Ashley Judd, Jonathan Pryce, Kevin McNally, Sandra Nelson, Allan Corduner, Kevin McKidd. Estreia: 22/5/2004 (Festival de Cannes)

Um dos mais influentes compositores populares dos EUA, Cole Porter deixou sua marca indelével de elegância e inteligência em centenas de canções antológicas, que ultrapassaram os limites dos palcos da Broadway, dos estúdios de Hollywood e de gravações clássicas de nomes como Frank Sinatra, Bing Crosby e Gene Kelly. Símbolo de um período de glamour que o surgimento de gêneros musicais bem menos sutis fez desaparecer, Porter viu sua vida ser transformada em filme - o romântico e pouco confiável "Canção inesquecível" (1946) - e morreu em 1964 depois de uma série de problemas de saúde e perdas irreparáveis que fizeram de seus últimos anos um período melancólico e pouco produtivo. E levando-se em conta sua importância para a cultura - tanto em termos locais quanto internacionais -, não deixa de ser surpreendente que tenham levado quatro décadas desde sua morte para que finalmente contassem sua história de forma digna. "De-lovely: vida e amores de Cole Porter" pode não ser a obra-prima que poderia, mas é uma produção que faz jus a tudo que seu protagonista representou, representa e representará no futuro, ao aproximar suas inesquecíveis canções do tom de modernidade que sempre foram sua maior característica. Com um Kevin Kline impecável no papel central - a ponto de cantar e dançar sem artifícios baratos -, o filme do bissexto Irwin Winkler (seis filmes em treze anos) é uma ode ao artista e ao homem, recheada de excelentes números musicais e com uma caprichada reconstituição de época.

Contada em formato de musical, como convém, a história de Cole Porter é mostrada, em "De-lovely", em três atos, através de flashbacks, onde o próprio Porter vê sua vida reconstituída enquanto um espetáculo sobre ele é montado sob a supervisão do atencioso Gabe (Jonathan Pryce). O primeiro ato se concentra nos primeiros anos do relacionamento entre o compositor e a socialite Linda Lee Thomas (Ashley Judd) - ela divorciada e presença frequente nas melhores festas da alta sociedade, ele notoriamente homossexual e a alma das recepções, com seu humor afiado e sofisticação à toda prova. Casado e compreendido, Porter se vê encorajado a tornar-se compositor profissional, depois de temporadas em Veneza e Nova York. O segundo ato já lhe mostra bem-sucedido na carreira, criando obras-primas para a Broadway e Hollywood, o que de certa forma aprofunda a crise no casamento - cada vez mais atraído pela boemia e por rapazes, Porter aos poucos passa a abandonar Linda e seu relacionamento mais estável. O terceiro e final ato - mais dramático e trágico - começa com um grave acidente, que irá determinar seus últimos anos de vida, além de reaproximá-lo de sua mulher e fortalecer de vez seus laços afetivos, principalmente quando ela também se descobre gravemente doente.


"De-lovely" é uma produção com inúmeras qualidades. O desenho de produção requintado e o figurino de Janty Yates conduz o público por uma viagem no tempo, pelo glamour das altas rodas da Europa e dos EUA desde o final da década de 1910 até os anos 1960, ocasião da morte de Porter. Os números musicais são preciosos, apresentando artistas contemporâneos como Alanis Morissette, Robbie Williams, Elvis Costelo, Sheryl Crow, Diana Krall, Lara Fabian e Natalie Cole entoando as canções imortais do compositor em sequências organicamente inseridas no contexto onírico criado pelo roteirista Jay Cocks - colaborador frequente de Martin Scorsese. Ashley Judd, apesar de jovem demais para o papel de Linda - na verdade quase uma década mais velha do que Porter -, sai-se muito bem no desafio de encarnar uma mulher à frente do seu tempo, ao mesmo tempo confiante o bastante para encarar um casamento com um homem cuja orientação sexual só poderia lhe trazer sofrimento e romântica o suficiente para acreditar que seu amor poderia evitar tais lágrimas. E Kevin Kline deita e rola em um papel capaz de mostrar à plateia - se é que ela ainda não sabe - todos os seus dotes como ator, cantor e dançarino. Mesmo assim, com tantos elementos admiráveis, algo falta ao filme de Irwin Winkler para torná-lo uma produção inesquecível. E não é difícil perceber o que.

Sem experiência na direção de musicais, Winkler não parece à vontade em comandar um filme do gênero, ficando no meio-termo entre um musical assumido ou um drama biográfico de narrativa clássica.. Logicamente seria inaceitável falar de Cole Porter sem que suas obras atravessassem a tela, e nesse ponto o filme de Winkler é feliz, sabendo espalhar canções pela tela sem deixar o programa cansativo. O problema é que, como frequentemente acontece com filmes que tentam abraçar vidas inteiras em poucas horas, é inevitável que haja falta de profundidade no desenvolvimento dos personagens. Até mesmo a relação entre Cole e Linda deixa dúvidas na mente do espectador - até que ponto a homossexualidade do compositor atrapalhava o casamento, por exemplo? E como ele passou de novato a estrela da Broadway? E como foi sua passagem pelo cinema, já que não é dada muita atenção a essa parte de sua carreira? Como o subtítulo em português deixa claro, o filme se dedica às relações interpessoais do músico - com sua esposa e seus ocasionais amantes -, mas mesmo elas não são desenvolvidas a contento. Resta a excelência visual, o desempenho de Kline e as canções, essas sim eternas.

sábado

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?


O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (O que é isso, companheiro?, 1997, Columbia Pictures/Luiz Carlos Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, livro de Fernando Gabeira. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Stewart Copeland. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte/cenários: Marcos Flaksman, Alexandre Meyer/Carlos Eduardo Mallet. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Alan Arkin, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Matheus Nachtergaele, Luiz Fernando Guimarães, Caio Junqueira, Selton Mello, Marco Ricca, Alessandra Negrini, Fernanda Montenegro, Lulu Santos, Luiz Armando Queiroz, Nelson Dantas, Maurício Gonçalves, Milton Gonçalves, Eduardo Moscovis, Othon Bastos. Estreia: 19/4/97

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Publicado em 1979 e logo alçado ao posto de um clássico contemporâneo, "O que é isso, companheiro?" narrava, em primeira pessoa, as experiências de Fernando Gabeira na luta armada contra a ditadura militar brasileira, sua participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sua prisão e seu exílio na Europa. Com mais de 250 mil exemplares vendidos, o livro foi peça fundamental na consolidação da carreira política do autor e uma das obras seminais a respeito de um dos períodos mais sombrios da história do país. Cinco anos depois de servir como uma das bases da minissérie global "Anos rebeldes" - um sucesso estrondoso que voltou a colocar os anos de chumbo em evidência - e quase duas décadas depois de seu lançamento, as memórias de Gabeira voltaram à tona com sua adaptação para o cinema. Com produção de Lucy e Luiz Carlos Barreto, direção de Bruno Barreto - já com carreira internacional consolidada - e coprodução da Columbia Pictures, a versão para as telas do infame sequestro de Elbrick ganhou a simpatia do público, da crítica e da Academia de Hollywood, que lhe indicou ao Oscar de melhor filme estrangeiro: não chegou a sair como vencedor - teve os planos atrapalhados pelo holandês "Caráter" -, mas foi um passo adiante do cinema brasileiro em direção ao respeito mundial.

O roteiro do experiente Leopoldo Serran - responsável pela adaptação de "O quatrilho", outra produção dos Barreto a ter concorrido ao Oscar, em 1996 - não abarca todo o livro de Gabeira, concentrando-se exclusivamente em seu elemento mais cinematográfico: sua entrada para o temido Movimento Revolucionário 8 de outubro (ou MR-8) e sua participação naquele que se tornaria um dos momentos mais emblemáticos da luta armada do final dos anos 1960. O próprio autor admite que sua personificação no filme (na pele do ótimo Pedro Cardoso) tem mais importância do que ele teve na realidade, mas a licença poética é plenamente compreensível em termos dramáticos: como elemento narrativo, é muito mais interessante um personagem como Fernando - um jovem sem experiência na luta que se vê no olho de um furacão e assume papel fundamental em um episódio muito maior que ele - do que um espectador passivo, servindo apenas de testemunha da história. Fernando é um homem de letras, de propensões intelectuais, e não alguém cuja índole previa pegar em armas e participar de assaltos (ou expropriações) e sequestros. É assim, graças a tal personalidade pacífica, que Fernando se aproxima do público, que se identifica com sua (falta de) vocação para a guerrilha ao mesmo tempo em que sabe que ela é a (talvez) única solução imediata. Ajuda, é claro, o talento de Pedro Cardoso em transmitir a insegurança de seu personagem e seu tom quase cômico mesmo em situações perigosas - e o grande elenco, tão incrível que pode se dar ao luxo de contar com Fernanda Montenegro em uma participação mínima mas crucial.


 

Em uma tentativa bem-sucedida de aproximar seu filme do público consumidor de programas de televisão, Bruno Barreto escolheu seu elenco a dedo. Dos consagrados Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães ao então novato Matheus Nachtergaele - passando por uma Cláudia Abreu no auge da popularidade e pelo norte-americano Alan Arkin -, a lista de créditos de "O que é isso, companheiro?" é admirável , com espaço até mesmo para pontas do cantor Lulu Santos como um militar. Se é questionável o fato de lotar o elenco de globais como forma de buscar o sucesso comercial - ainda que todos estejam excelentes em cena, independentemente de suas personas artísticas mais conhecidas -, o resultado foi bastante favorável. Além de dialogar com a audiência com mais facilidade, tal opção deu visibilidade o bastante ao filme em sua trajetória rumo a uma indicação ao Oscar - um objetivo para o qual contou também o nome de Bruno Barreto no exterior. Já bem instalado em Hollywood - principalmente graças ao êxito internacional de "Dona Flor e seus dois maridos" (1976) e produções de prestígio como "Assassinato sob duas bandeiras" (1990), estrelado por Amy Irving, com quem foi casado até 2005 -, Barreto nunca abandonou completamente suas raízes, e assim como seu irmão Fábio dois anos antes, chegou à corrida da estatueta com o apoio de nomes poderosos da indústria americana, como Steven Spielberg e a máquina de marketing da Columbia Pictures internacional. Não foi suficiente para arrebatar o prêmio - mas voltou a colocar o cinema brasileiro no mapa e jogar luz sobre um tema nunca desgastado.

Apesar de se passar durante a ditadura militar brasileira e contar uma de suas histórias mais emblemáticas, "O que é isso, companheiro?" dificilmente pode ser considerado um filme político. Longe dos questionamentos da filmografia de um Costa-Gavras, por exemplo - cujo "Z" (1969) é um cânone do gênero - e sem maior aprofundamentos do contexto histórico, o roteiro de Serran prefere focar-se na interrelação entre seus personagens, pressionados pela máquina governamental e diante da possibilidade de um fracasso que pode levá-los à morte. Boa parte da trama se passa durante o período do cativeiro do embaixador, interpretado com excelência por Alan Arkin - daí o título internacional, "Four days in September" - e são os vínculos entre os personagens que interessam a Serran e Barreto, mais do que os desdobramentos sociais e políticos de sua aventura. Tal escolha é válida, mas esbarra em alguns momentos um tanto quanto desconcertantes - como as crises de consciência do torturador a que Marco Ricca dá vida: Ricca é um ótimo ator e transmite verdade em suas cenas, mas é pouco crível que pessoas que ganham a vida com tal violência sejam tão suscetíveis a remorsos (em especial no calor do momento). Detalhes assim enfraquecem o filme como um todo - é uma tentativa não feliz em evitar o maniqueísmo - e o impedem de ter a potência que poderia. É uma produção caprichada - bem dirigida, com uma edição ágil e uma trilha sonora adequada - mas longe da obra-prima que se poderia esperar. Ainda assim, um belo produto do cinema nacional em sua fase de mesclar sucesso financeiro e prestígio internacional.

quinta-feira

BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA (Boy erased, 2018, Focus Features/Anonymous Content/Perfect World Pictures, 115min) Direção: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton, livro de Garrard Conley. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Mallorie Coleman, Adam Willis. Produção executiva: Nash Edgerton, Kim Hodgert, Tony Lipp, Ann Ruark, Rebecca Yeldham. Produção: Joel Edgerton, Steve Golin, Kerry Kohansky-Roberts. Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan, Madelyn Cline, Victor McKay, Flea, Cherry Jones. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

Em 2016, quando o livro "Boy erased" foi lançado, boa parte dos EUA ainda considerava legais as terapias de conversão sexual - conhecidas vulgarmente como "cura gay". Sem qualquer fundamento psicológico ou médico, setores ligados principalmente à religião praticamente torturavam jovens com pensamentos homossexuais (muitas vezes nem era necessário que tivessem passado à prática) com sessões de humilhação, rígidas regras de comportamento e tormento psicológico. Em seu livro de memórias, Garrard Conley narrava, mesmo que de forma quase poética, os tormentos pelos quais passou em seu período em um desses tratamentos. De seus escritos (pessoais e emotivos) nasceu um filme sensível e sóbrio, assinado por um ator/roteirista/diretor que promete grandes voos futuros e estrelado por um elenco nunca aquém de excepcional: apesar do fracasso comercial e de não ter chamado tanta atenção quanto se poderia esperar nas cerimônias de premiação, "Boy erased: uma verdade anulada" é uma pérola, um filme que já nasceu destinado a suscitar discussões e se tornar cult - além de ser um instrumento essencial na luta contra os abusos do conservadorismo criminoso que vem se alastrando perigosamente pelo Ocidente.

Dirigido pelo ator Joel Edgerton, que também escreveu o roteiro - depois que o próprio Conley declinou da oportunidade - e assumiu um dos papéis mais importantes da trama, "Boy erased" é um filme de emoções contidas, que raramente apela para o melodrama fácil. Graças à atuação discreta e introspectiva de Lucas Hedges (que vem se mostrando um dos melhores atores de sua geração) e ao tom suave imposto pela edição que não abusa dos flashbacks (mas os usa de forma eficiente), a produção escapa de ser apenas mais um filme-denúncia e se destaca como uma história de amor, respeito e tolerância - mesmo que, para que isso seja alcançado, tenha-se que se passar por pesadelos inimagináveis. Mesmo que não poupe o espectador de um constante desconforto (em especial quando mostra as sessões da malfadada busca pela "cura"), Edgerton evita pesar a mão em excesso: a fotografia de Eduard Grau (que cuidou do belo visual de "Direito de amar", de 2009) é luminosa em boa parte da narrativa (em contraste com o tema sombrio) e a trilha sonora (jamais invasiva) sublinha a ação de forma delicada, quase como um oásis diante da aridez do tema. E se por vezes o roteiro pode soar um tanto superficial (especialmente no desenho de alguns personagens), a falha é compensada pelo empenho de cada um dos atores selecionados pelo diretor (ele próprio incluído).

Lucas Hedges - já indicado ao Oscar de coadjuvante por "Manchester à beira-mar", de 2006 - encontra o tom ideal para seu Jared Eamons, um adolescente de 18 anos, filho de um pastor batista, aluno dedicado e responsável, que se vê obrigado pelos pais a participar do tal programa de "reabilitação", comandado pelo prepotente Victor Sykes (Joel Edgerton em pessoa, em uma caracterização precisa, que se equilibra com exatidão no limite do desprezível). Enquanto testemunha atrocidades no período em que fica isolado de qualquer contato com seu mundo anterior (como celulares, diários e afins), Jared é obrigado a revisitar seu passado e confrontar sua conflituosa sexualidade (oprimida pelos preceitos familiares, pela religião e pela culpa). A única pessoa que lhe dá apoio durante o processo - e mesmo assim sem saber exatamente como agir, dividida entre o amor pelo filho, a fé em Deus e o respeito pelas crenças do marido - é sua mãe, Nancy (Nicole Kidman, brilhante), que tenta servir como porto seguro às turbulências do rapaz. Kidman é dona de alguns dos melhores momentos do filme - como o clímax, inexistente no livro mas eficaz como cinema - e divide com Russell Crowe a difícil missão de oferecer consistência a personagens que poderiam ter sido melhor desenvolvidos pelo roteiro: Marshall e Nancy Eamons surgem apenas como os pais repressores (ainda que amorosos), sem maiores nuances dramáticas ou camadas extras. O mesmo acontece com Sykes, o teatral líder da clínica Love in Action, cujo desfecho - revelado apenas nos letreiros finais - é a irônica pá de cal nas ideias absurdas que servem de base à todo o conceito de reorientação sexual.

Prestes a ser lançado no Brasil no final de janeiro de 2019, "Boy erased" acabou tendo sua estreia cancelada - a distribuidora alegou como motivos para tal decisão o fraco desempenho do filme nas bilheterias internacionais e a falta das esperadas indicações ao Oscar, mas ficou no ar o cheiro de censura que chegava com o novo governo (para dizer o mínimo) conservador. Tal situação não deixa de ser uma demonstração clara da importância do filme, com suas discussões e seu tema se tornando cada vez mais urgentes e fundamentais. Pode não ser uma obra-prima, mas serve como base para longos e sérios debates - e, como cinema, confirma Joel Edgerton (cuja estreia como diretor, o suspense "O presente", de 2015, já tinha indiscutíveis qualidades) como um cineasta promissor e relevante, capaz de surpreender em um futuro próximo.

segunda-feira

O MAURITANO

 


O MAURITANO (The Mauritanian, 2021, Wonder Street/BBC Films, 129min) Direção: Kevin Macdonald. Roteiro: Michael Bronner (M. B. Traven), Rory Haines, Sohrab Noshirvani, livro "Guantánamo Diary", de Mohamedou Ould Slahi, Larry Siems. Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Justine Wright. Música: Tom Hodge. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Collett/Michele Barfoot. Produção executiva: Michael Bloom, Adam Fogelson, John Friedberg, Dan Friedkin, Rose Garnett, Micah Green, Robert Halmi, Ryan Heller, Zak Kilberg, Jim Reeve, Rober Simonds, Russell Smith, Daniel Steinman, Maria Zuckerman. Produção: Adam Ackland, Michael Bronner, Leah Clarke, Benedict Cumberbatch, Christine Holder, Mark Holder, Beatriz Levin, Lloyd Levin, Branwen Prestwood Smith. Elenco: Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Denis Ménochet. Estreia: 12/02/2021 

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster)

Nos meses imediatamente posteriores aos atentados de 11/9, o governo norte-americano tornou-se obcecado na caça aos responsáveis pela tragédia – conforme Kathryn Bigelow mostrou quase didaticamente em seu “A hora mais escura” (2012). No rastro desse apetite por vingança, nem sempre cumpriu à risca tudo aquilo que prega sob sua máscara de defensor ferrenho da democracia, e muitas vezes escorregou feio ao impor a força bruta em detrimento da inteligência – algo que o cineasta sul-africano Gavin Hood denunciou em “O suspeito”, seu subestimado thriller lançado em 2007. Os abusos cometidos pelos EUA em nome de justiça – e sua absoluta falta de escrúpulos em encontrar bodes expiatórios – volta às telas em “O mauritano”, contundente drama político dirigido pelo escocês Kevin Macdonald que deu à Jodie Foster o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante deste ano e nem tão surpreendentemente assim, levando-se em consideração seu tema, foi solenemente ignorado pela Academia.

Temas politicamente controversos não assustam Macdonald, um cineasta que tem em seu currículo o oscarizado documentário “Munique, 1972: um dia em setembro” (1999) – sobre o atentado terrorista que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique – e o elogiado “O último rei da Escócia” (2006) – que retratava sem pudor as atrocidades cometidas na Uganda sob o comando de Idi Amin. Tal característica faz dele o diretor ideal para um roteiro que, se não é exatamente inovador em suas revelações sobre o tratamento dado pelos EU a seus pretensos inimigos, ao menos não subestima a inteligência do público - nem tampouco evita ilustrar seus pontos de vista com sequências bastante incômodas. Assim como no filme que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker, em “O mauritano” não faltam cenas de violência explícita, ainda que coerentes com a trama e o clima denso da narrativa. Macdonald intercala momentos quase pacíficos – longos diálogos e manobras jurídicas – com explosões de uma crueldade física e psicológica capazes de revoltar ao mais zen dos espectadores. Para isso, conta com um time de colaboradores brilhantes: da trilha sonora angustiante de Tom Hodge à fotografia caprichada do alemão Alwin H. Kuchler (de “Steve Jobs”), tudo funciona para sublinhar a tensão constante do roteiro – que surpreende ao fugir dos clichês dos filmes de julgamento ao focar sua atenção não no tribunal, e sim em seus preâmbulos.


 Enquanto na maioria dos filmes hollywoodianos o clímax sempre acontece no embate entre defesa e promotoria – com revelações de última hora e reviravoltas inesperadas -, em “O mauritano” o jogo acontece muito antes que qualquer personagem surja diante de um juiz. Tudo começa quando, poucos meses depois do atentado ao World Trade Center, o mauritano Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) é preso e levado à prisão militar de Guantánamo, onde passa anos sofrendo de frequentes sessões de tortura e interrogatórios violentos. Largado na prisão por mais de uma década – sem ao menos uma acusação formal -, Mohamedou só vê uma luz no fim do túnel quando seu caso cai nas mãos de Nancy Hollander (Jodie Foster, competente como sempre), uma advogada especializada em causas humanitárias que usa de todas as suas armas e experiência para 1) ganhar a confiança do novo cliente, e 2) ter acesso aos documentos que podem lhe esclarecer (e aos tribunais) os motivos que levaram à sua prisão. O acusado, depois de anos de maus-tratos, não confia facilmente em sua nova defensora e até parece esconder alguns segredos cruciais – mas a justiça precisa ser feita e a lei, cumprida. E mesmo sem confiar plenamente na inocência de Mohamedou, Hollander entra em rota de colisão com o promotor Stuart Couch (Benedict Cumberbatch) – também pouco confortável com as meias-verdades da investigação.

Corajoso em enfrentar a imagem de defensor da democracia que os EUA tentam vender incansavelmente, “O mauritano” sofre com um ritmo irregular – apesar dos esforços da edição em criar vários tempos como forma de agilizar a narrativa. Jodie Foster, Benedict Cumberbatch e Shailene Woodley (como a advogada assistente de Hollander) são atores excepcionais, mas nem mesmo eles conseguem evitar uma certa queda de interesse em alguns momentos – especialmente quando comparados com todas as cenas em que Tahar Rahim está presente. Revelado no premiado “O profeta” (2009), Rahim apresenta um desempenho arrebatador, oferecendo consistência a um personagem cuja dubiedade é um de seus maiores trunfos. Às vezes simpático e ocasionalmente suspeito, Mohamedou é a prova viva de que, culpados ou inocentes, todos merecem o melhor e mais isento julgamento possível – algo que, conforme aponta o filme de Kevin Macdonald, nem sempre acontece nos domínios da terra do Tio Sam. Forte e contundente, “O mauritano” é um filme importante e relevante, uma história real que, mais do que apenas indignar e chocar, reafirma os reais bastidores da guerra ao terror imposta pelos EUA ao redor do mundo. Não é uma obra-prima, mas é suficientemente bem orquestrada para ressoar por um bom tempo na mente do público.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...