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quinta-feira

O ANJO MALVADO

 


O ANJO MALVADO (The good son, 1993, 20th Century Fox, 87min) Direção: Joseph Ruben. Roteiro: Ian McEwan. Fotografia: John Lindley. Montagem: George Bowers. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Daniel Rogosin, Ezra Swerdlow. Elenco: Macaulay Culkin, Elijah Wood, David Morse, Wendy Crewson, Daniel Hugh Kelly, Jacqueline Brookes. Estreia: 15/9/93

Poucos astros de cinema eram tão poderosos, no começo dos anos 1990, do que Macaulay Culkin. Diminuto em tamanho mas gigante em termos comerciais desde que "Esqueceram de mim" rendeu inacreditáveis 476 milhões de dólares pelo mundo todo, o ator-mirim era um dos nomes mais quentes do mercado, capaz de tornar uma produção despretensiosa como "Meu primeiro amor" em um sucesso de bilheteria apenas por estar em seu elenco. Como nem tudo eram flores, no entanto, para contar com o garoto em seus filmes, os estúdios precisavam lidar com uma questão delicada (para dizer o mínimo) chamada Kit Culkin: pai do prodígio que encheu os cofres da 20th Century Fox (e do próprio clã) de dinheiro, Kit transformou-se, em poucos anos, em persona non grata dentro da indústria, devido a exigências descabidas, ganância e ataques de estrelismo. Para deixar que seu filho assinasse o contrato para uma sequência de "Esqueceram de mim", por exemplo, o pouco simpático pai de família exigiu que o estúdio desse a ele o papel principal de "O anjo malvado", suspense que seria dirigido por Michael Lehmann - de "Atração mortal" (1988) e "Feito cães e gatos" (1996). Ciosos de suas finanças, os executivos aceitaram a imposição, viram Lehmann abandonar o projeto por conflitos com Kit - e ser substituído por Joseph Ruben - e acabaram por não se queixar quando o filme fez uma razoável carreira nas salas de exibição graças à presença da criança mais popular da época. Na verdade, com sua estreia quase um ano depois de "Esqueceram de mim: perdido em Nova York", "O anjo malvado" tornou-se o último sucesso de Macaulay, que logo em seguida entrou em diversos projetos ambiciosos e fracassados - por obra e mérito de seu genitor, que viu sua galinha de ovos de ouro perder o brilho a cada nova polêmica. 

"O anjo malvado" é uma produção corriqueira e banal, que, não fosse a presença de Culkin no auge de sua popularidade, passaria em branco e se tornaria - como mais tarde aconteceu - um sucesso nas videolocadoras e nas sessões da madrugada nas emissoras de televisão. Apesar do final instigante, é um filme que não ousa nem em sua narrativa (simples e previsível) e tampouco vai fundo no que se propõe: talvez por medo de chocar o público cativo de Macaulay Culkin, a obra de Ruben jamais ultrapassa os limites mais básicos dos filmes do gênero, entregando apenas o que agrada ao espectador médio, que rejeita a violência extrema e se contenta com um susto ou outro sustentado pela trilha sonora - algo que o próprio Ruben já havia oferecido em outro êxito comercial eficiente mas esquecível, "Dormindo com o inimigo", estrelado por uma Julia Roberts em franca ascensão, em 1991. Ao fazer de seu vilão uma criança, o roteiro até tenta mudar um pouquinho as regras do jogo, mas esbarra justamente nas limitações éticas de tal escolha (não se pode esquecer de certa caretice do cinema de Hollywood, que jamais permitiria o aprofundamento do tema em uma produção claramente comercial) e, pasmem, é prejudicado por aquele que, em tese, seria seu maior trunfo: carismático e encantador em "Esqueceram de mim", Macaulay Culkin revela, em "O anjo malvado", que nem todo o carisma do mundo é capaz de disfarçar uma atuação apática. Perto de seu colega de cena, Elijah Wood, o arrimo da família Culkin demonstra, sem espaço para dúvidas, de que nem tudo que reluz é ouro.


O filme de Ruben começa com a precoce morte da mãe do pequeno Mark (Elijah Wood), que, logo em seguida, se vê sem a presença do pai, que viaja a negócios para o Japão. Hospedado na casa dos tios e ainda abalado com a inesperada perda, o garoto não demora a fazer amizade com o primo, Henry (Macaulay Culkin), com quem regula em idade. Aos poucos, porém, Henry começa a demonstrar um comportamento violento e dissimulado, capaz de atos que vão da maldade mais banal até a extrema periculosidade. Desconfiado de que o menino pode ter sido responsável até mesmo pela morte do irmão pequeno, afogado durante o banho, Mark tenta alertar todos à sua volta, mas seus avisos passam a ser considerados parte do trauma familiar - e, se utilizando de seu poder de manipulação infantil, Henry leva os pais a acreditarem que o primo tem um lado sombrio e perigoso. As coisas ficam ainda mais complicadas quando Mark chega à conclusão de que o ciúme doentio de Henry em relação à mãe podem levar a um desenlace trágico e irreversível.

Dirigido burocraticamente por Joseph Ruben - um cineasta sem nada de espetacular no currículo mas razoavelmente capaz de manter o interesse do público menos exigente -, "O anjo malvado" carece principalmente de profundidade. Por mais que o roteiro tente acrescentar camadas psicanalíticas à personalidade do psicopata mirim vivido por Macaulay Culkin, tudo soa pasteurizado e preso às limitações daquilo que é, na verdade, um produto com ambições mais comerciais do que artísticas. O elenco adulto - cujo nome mais reconhecível é o de David Morse - pouco tem a fazer com os diálogos recheados de clichês e personagens sem nenhum desenvolvimento além do básico. É chocante, diante disso, descobrir que por trás deles está Ian McEwan, brilhante escritor britânico que faria sucesso anos depois com o sublime "Reparação": uma prova inconteste de que, em muitos casos, Hollywood sufoca grandes talentos para que melhor caibam em seus objetivos medíocres.

quarta-feira

INTRIGAS

 


INTRIGAS (Gossip, 2000, Warner Bros/Village Road Show Pictures, 90min) Direção: Davis Guggenheim. Roteiro: Gregory Poirier, Theresa Rebeck, história de Gregory Poirier. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Jay Cassidy. Música: Graeme Revell. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: David Nichols/Enrico A. Campana, Michelle Convey. Produção executiva: Bruce Berman, Joel Schumacher. Produção: Bobby Newmyer, Jeffrey Silver. Elenco: James Marsden, Lena Headey, Norman Reedus, Joshua Jackson, Kate Hudson, Edward James Olmos, Eric Bogosian. Estreia: 18/4/2000

A ideia até que é interessante, especialmente em uma época pré-redes sociais: um grupo de estudantes resolve monitorar o alcance e a circulação de um boato e descobrem, da pior maneira possível, que uma vez espalhado, um rumor pode ter resultados trágicos e imprevisíveis. Porém, na mão de um diretor mais afeito a um visual estiloso do que a consistência dramática, o suspense juvenil "Intrigas" resulta em um produto esteticamente atraente (ainda que datado) mas vazio em suas pretensões. Com uma premissa que se apresenta instigante até perto de sua metade e que descamba para um excesso de reviravoltas, o filme de estreia de Davis Guggenheim - que assinou episódios de séries de TV elogiadas, como "Plantão médico" e "Nova Iorque contra o crime" e depois levaria um Oscar pelo documentário "Uma verdade inconveniente" (2006) - estreou no lastro de produções de terror adolescente que viraram febre no final dos anos 1990, mas decepcionou em termos de bilheteria e tampouco teve cacife suficiente para tornar-se cult. Nem mesmo a presença de Kate Hudson (às vésperas de virar estrela com o brilhante "Quase famosos", lançado no mesmo ano) foi o bastante para que ele deixasse de ser uma promessa não cumprida.

Um dos maiores problemas do roteiro é fazer de seus três protagonistas personagens pouco simpáticos e nada agradáveis, o que de cara afasta a possibilidade de conexão. Cathy (Lena Headey, em papel oferecido a Jennifer Love Hewitt e Maggie Gyllenhaal) é uma jovem que sofre com o histórico de um romance mal-sucedido com um professor; Travis (Norman Reedus) vive em função de sua arte, que o torna quase antissocial; e Derrick (James Marsden), o galã do grupo, não aceita o fato de ser rejeitado pela colega de apartamento. Merecidamente renegados pelos mais populares estudantes - afinal, os três são perceptivelmente arrogantes -, eles inventam um projeto que, em sua concepção, é inovador e fascinante: criar uma história fictícia, espalhá-la pelo campus e ver o circo pegar fogo. A ocasião surge perfeita quando Derrick testemunha a bela Naomi Preston (Kate Hudson) e seu namorado, Beau (Joshua Jackson), fazerem sexo durante uma festa apesar do estado pouco sóbrio da moça. Em pouco tempo a história se espalha e vai sendo alterada, até que, de uma hora para outra, Beau é preso por estupro.

 

Sem saber exatamente que história quer contar, o roteiro de "Intrigas" cai na armadilha de levar-se a sério demais, abandonando sua ideia inicial para embarcar em um enredo que privilegia uma série de reviravoltas - nem todas verossímeis e até bem forçadas. Enquanto discute a força destrutiva de boatos o filme caminha bem, explorando com destreza os ambientes fúteis e glamorosos em que seus personagens circulam e desenvolvendo a contento suas personalidades quase vazias - a despeito da fragilidade das atuações. Quando muda de foco, no entanto, torna-se apenas mais uma produção que tenta atingir seu público-alvo - plateias jovens pouco exigentes - ao acumular situações pretensamente surpreendentes. Kate Hudson, carismática e boa atriz, é quem se sobressai, explorando as camadas de sua Naomi Preston dentro das poucas possibilidades do texto - é dela a cena mais intensa do filme, catalisadora das consequências mais trágicas da história. Já Lena Headey - que ficaria famosa mais de uma década depois, por "Game of thrones" - se esforça para dar consistência a uma personagem construída com fragilidade dramática. Joshua Jackson, por sua vez, pouco tem a fazer com seu Beau Edson, uma vítima inocente tanto dos protagonistas quanto do roteiro.

Fracasso comercial nos EUA, onde rendeu pouco mais de cinco milhões de dólares, "Intrigas" comprovou o desgaste da fórmula de suspenses juvenis que começou com "Pânico" (1996) e foi sendo explorada sem critério pelos estúdios e por cineastas pouco criativos. Mesmo que fuja um pouco do gênero - afinal não há um assassino mascarado trucidando adolescentes -, o filme de Guggenheim apresenta todos os elementos que levaram multidões aos cinemas, mas esquece do principal: uma trama envolvente e atores carismáticos. Até tenta impor um novo estilo, mas infelizmente fica aquém de sua (boa) ideia inicial.

quinta-feira

PRESO NA ESCURIDÃO

 


PRESO NA ESCURIDÃO (Abre los ojos, 1997, Sogetel/Las Producciones de Escorpion/Les Films Alain Sarde, 119min) Direção e roteiro: Alejandro Amenábar. Fotografia: Hans Burmann. Montagem: María Elena de Rozas. Música: Alejandro Amenábar, Mariano Marín. Figurino: Concha Solera. Direção de arte/cenários: Wolfgang Burmann/Carola Angula. Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda. Elenco: Eduardo Noriega, Penélope Cruz, Fele Martínez, Chete Lera, Najwa Nimri. Estreia: 17/12/97

Quando "Os outros" estreou, em 2001, o mundo todo ficou embasbacado com o talento de seu diretor/roteirista/produtor, o chileno Alejandro Amenábar. Porém, se boa parte do público que lotou as salas de cinema tinha a sensação de estar descobrindo um novo talento, um outro tipo de plateia já sabia o que esperar do cineasta: aqueles que conheciam suas obras anteriores, o perturbador "Morte ao vivo"- que lhe rendeu o Goya de melhor diretor estreante de 1996 - e o surpreendente "Preso na escuridão", que, lançado em 1997, colocou seu nome no mapa dos mais promissores realizadores do final do século. Ao misturar romance, suspense e ficção científica de forma orgânica e intrigante, Amenábar não apenas chamou a atenção da crítica, mas também de gente poderosa: impressionado com a trama estrelada por Eduardo Noriega e Penélope Cruz (por quem também se encantaria romanticamente), o astro Tom Cruise assumiu a produção e a protagonização de um remake americano e financiou o primeiro filme do jovem diretor em Hollywood - justamente "Os outros", com sua então esposa Nicole Kidman. O casamento de Kidman e Cruise acabou (assim como o relacionamento do ator com Penélope Cruz), o remake "Vanilla sky" (2001) foi um fiasco artístico e Amenábar ganhou um Oscar em 2005 pelo impecável "Mar adentro", mas nenhum de seus filmes posteriores teve a mesma coragem narrativa de "Preso na escuridão".

A trama, que segundo o diretor, surgiu durante pesadelos oriundos de uma gripe, é propositalmente elíptica, repleta de simbolismos e peças soltas que só fazem sentido no desfecho - quando o quebra-cabeças finalmente é revelado em sua totalidade. Tudo gira em torno de César (Eduardo Noriega), um jovem que, aos 25 anos de idade, tem tudo que qualquer um poderia ambicionar: é bonito, rico, charmoso, invejado - até mesmo pelo melhor amigo, Pelayo (Fele Martinez) - e conquista, sem muito esforço, qualquer mulher que deseja. E são justamente duas mulheres que formam o ponto de virada em sua vida sem sobressaltos. A primeira é a bela Sofía (Penélope Cruz), a quem conhece na festa de seu aniversário - e por quem se apaixona perdidamente - e a outra é Nuria (Najwa Nirmi), uma ex-namorada possessiva e obcecada que, ao sentir-se rejeitada por ele, tenta matá-lo junto com ela em um violento acidente de carro. Vivo mas desfigurado, César passa sem sucesso por uma série de cirurgias plásticas, sem nunca voltar a ter o mesmo rosto de antes, o que o deixa deprimido e revoltado. As coisas começam a mudar, no entanto, depois de uma noite em que, bêbado, ele chega a desmaiar em uma sarjeta: de uma hora para outra, César se vê novamente com a aparência antiga, ao lado de Sofia e levando a vida que sempre sonhou. Uma tragédia, porém, mais uma vez altera seu destino, e caberá a ele - preso por homicídio - tentar montar o quebra-cabeças em que se transformou sua existência.

 

O roteiro de Amenábar é um primor - assim como sua direção, que evita a previsibilidade e mergulha o espectador em uma atmosfera de pesadelo constante. Contando com a inspirada atuação de Eduardo Noriega, que transita com talento entre o playboy inconsequente e a trágica vítima de um amor obsessivo, o cineasta conduz sua trama com extrema segurança, utilizando-se, para isso, de um visual que acentua a sensação de labirinto em que se encontram seus personagens. É digno de nota, também, a forma com que o cineasta embaralha as cartas de seu jogo ao multiplicar a nuances dramáticas de cada jogador, oferecendo a seu elenco (uma jovem Penélope Cruz incluída) uma série de possibilidades, como um jogo de espelhos que reflete vários prismas sem deixar exatamente claro qual deles é o real. A trilha sonora discreta - também composta pelo diretor - pontua com precisão cada diálogo, cada sequência, cada reviravolta, e a edição - fator crucial para a manutenção do suspense - costura o enredo sem deixar pontas soltas (e, ao mesmo tempo, sem precisar recorrer a explicações óbvias, mesmo no angustiante clímax). Mesclando elementos de thriller e ficção científica, Amenábar homenageia ambos os gêneros ao mesmo tempo em que insere, dentro deles, uma personalidade moderna e uma personalidade muito bem-vinda - coisa que o remake dirigido por Cameron Crowe não soube fazer justamente por deixar de lado o fator surpresa do original.

Um belo cartão de visitas de um cineasta corajoso, com boas ideias e um raro domínio do suspense, "Preso na escuridão" recebeu dez indicações ao Goya (o Oscar espanhol), incluindo melhor filme, diretor, roteiro e ator, e demonstrou a força do cinema realizado fora de Hollywood, sem necessidade de prender-se a obrigações comerciais ao mesmo tempo em que não abandona completamente elementos clássicos de gêneros queridos pelo público. E se não bastasse tudo isso, ainda foi o filme que apresentou a beleza de Penélope Cruz para audiências internacionais - ainda demoraria para que ela deixasse de ser apenas uma linda mulher para se tornar uma atriz de prestígio e respeito, mas quando Sofía aparece diante de César, com seu sorriso irresistível, ninguém na plateia é capaz de julgar o rapaz pelos atos obsessivos que virão a seguir. Poucas atrizes tem esse poder!

terça-feira

REENCARNAÇÃO

 


REENCARNAÇÃO (Birth, 2004, New Line Cinema/Fine Line Features, 100min) Direção: Jonathan Glazer. Roteiro: Jonathan Glazer, Jean-Claude Carrière, Milo Addica. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Sam Sneade, Claus Wehlisch. Música: Alexandre Desplat. Figurino: John Dunn. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Xavier Marchand, Mark Ordesky, Kerry Ordent. Produção: Lizie Gower, Nick Morris, Jean-Louis Piel. Elenco: Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Huston, Lauren Bacall, Anne Heche, Arliss Howard, Peter Stormare, Cara Seymour, Ted Levine. Estreia: 08/9/2004 (Festival de Veneza)

Um dos filmes mais polêmicos da temporada 2004 de cinema começou sua trajetória de controvérsias já em sua estreia, no Festival de Veneza, quando foi recebido com vaias e críticas contundentes por parte da imprensa. Em pouco tempo, uma cena em que sua estrela, Nicole Kidman, dividia (nua) uma banheira com uma criança (igualmente sem roupa) tornou-se motivo de gritaria entre os mais conservadores, e acabou por eclipsar o que a própria atriz chamou de uma história sobre luto e vulnerabilidade. Dirigido por Jonathan Glazer - que vários anos depois seria indicado ao Oscar por "Zona de interesse" (2023) - e tendo entre seus corroteiristas o experiente Jean-Claude Carrière, "Reencarnação" demorou a ser visto sem a capa de imoral, imposta por uma parcela conservadora da plateia, e ter suas qualidades reconhecidas pelo público. É um filme que se equilibra com razoável destreza entre o drama psicológico e o suspense, amparado por um visual sóbrio e uma trilha sonora que reflete o tom inquietante de sua premissa - além de contar com uma das mais profundas e subestimadas atuações de Kidman, então recém premiada com o Oscar por "As horas" (2002).

De cabelos curtíssimos e uma elegância à toda prova, Kidman interpreta a delicada Anna, uma mulher arrasada pela morte repentina e precoce do marido, vítima de um ataque cardíaco. Depois de um ano de sofrimento e luto, ela finalmente parece estar disposta a prosseguir sua vida ao casar-se com um antigo apaixonado, Joseph (Danny Huston). Seus planos, porém, são interrompidos quando entra em cena o pequeno Sean (Cameron Bright), um menino de dez anos de idade que alega ser a reencarnação de seu falecido marido. Munido de informações a respeito de seu relacionamento com Anna que são apenas do conhecimento do casal, o garoto insiste em manter contato com a jovem viúva, que, para angústia de sua família - atônita com a situação -, passa a levar a sério a possibilidade de ter reencontrado o amor de sua vida. Se aproximando cada vez de Sean, Anna passa a questionar seu novo relacionamento e as escolhas de sua vida, enquanto Joseph tenta provar a ela que tudo não passa de um absurdo sem tamanho.

 

Se existe um adjetivo que acompanha "Reencarnação" em cada minuto, esse adjetivo é "elegante". Não apenas devido aos ambientes chiques de Nova York onde circulam seus personagens ou à sofisticação inerente à Nicole Kidman, no auge de sua fase mais etérea. Tampouco é responsabilidade apenas da fotografia de enquadramentos discretos de Harris Savides ou da trilha sonora marcante de Alexandre Desplat. A elegância do filme de Glazer advém principalmente de seu ritmo plácido, quase contemplativo, que reflete em imagens a alma melancólica de sua protagonista. Dotado de expressões minimalistas que transmitem de forma sutil o turbilhão de sua Anna, o rosto de Nicole Kidman é o instrumento perfeito do diretor para contar sua história, repleta de silêncios e mistérios que vão se revelando sem pressa diante dos olhos do público e de seus familiares - entre as quais uma subaproveitada Lauren Bacall. O único (e grande) senão é a mudança radical de rumo no terço final, quando a trama toma rumos que mudam tudo que se poderia imaginar até então. Para alguns uma reviravolta muito bem-vinda; para outros o enfraquecimento de um interessante estudo sobre a quebra de paradigmas e certezas absolutas.

Fascinante em seu modo de desenrolar a narrativa, provocando o espectador até o limite de seu conservadorismo - segundo a atriz Christina Applegate o roteiro final amenizou consideravelmente o teor sexual da trama, com a chegada de Nicole Kidman ao projeto -, "Reencarnação" já demonstrava em Jonathan Glazer um diretor sensível e atento aos detalhes visuais e dramáticos de seus trabalhos. Ao fugir do óbvio - como o fez em "Zona de interesse" quase duas décadas mais tarde -, ele imprime uma personalidade própria a seu filme, mesmo correndo o risco de ser incompreendido ou simplesmente taxado de chato. "Reencarnação" é lento. É sutil. E é ousado. Pode não ser um grande filme (talvez lhe falte coragem de encerrar dignamente), mas é um filme ainda subestimado por boa parte do público acostumado a mais do mesmo.

quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

REVELAÇÃO

 


REVELAÇÃO (What lies beneath, 2000, 20th Century Fox/DreamWorks Pictures, 130min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Clark Gregg, história de Clark Gregg, Sarah Kernochan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Rick Carter, Jim Teegarden/Karen O'Hara. Produção executiva: Joan Bradshaw, Mark Johnson. Produção: Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Harrison Ford, Michelle Pfeiffer, Miranda Otto, James Remar, Diana Scarwid, Katharine Towne. Estreia: 18/7/2000

Em 2000, quando dirigiu "Revelação", o cineasta Robert Zemeckis já tinha no currículo uma comédia adolescente ("Febre de juventude"), um clássico da ficção científica juvenil ("De volta para o futuro" e suas continuações), um marco na interação entre live action e animação ("Uma cilada para Roger Rabbit"), um vencedor de múltiplos Oscar ("Forrest Gump: o contador de histórias") e uma adaptação de Carl Sagan ("Contato"). Faltava ainda exercitar seu músculo hitchcockiano e a oportunidade chegou na pausa das filmagens de "Náufrago" - enquanto Tom Hanks sofria para emagrecer o necessário para a segunda etapa dos trabalhos do filme que lhe daria mais uma indicação à estatueta, Zemeckis mergulhou em seu desejo de assustar os espectadores com uma trama que mistura fantasmas, assassinatos... e um Harrison Ford deixando de lado a persona heroica para dar vida a um personagem no mínimo dúbio. 

A um custo estimado de cem milhões de dólares - recuperado facilmente nas bilheterias ao redor do mundo, seduzido pela presença de Ford e da estrela Michelle Pfeiffer -, "Revelação" é uma exibição das técnicas de Zemeckis como diretor, um filme repleto de jogos de câmera, cortes rápidos, uso generoso da trilha sonora e exploração inteligente do som e da fotografia. Mas é, também, um filme com sérios problemas de roteiro e um desfecho atolado em clichês - problemas disfarçados por uma embalagem luxuosa proporcionada pelo orçamento milionário e por seus astros fotogênicos. Pfeiffer, linda e exuberante, brilha a maior parte do tempo - mesmo quando o roteiro apela para explicações sobrenaturais pouco críveis para uma trama que se propõe séria. Ford, por sua vez, só é devidamente aproveitado na segunda metade da história - mas não consegue fugir do tom monocórdio da maioria de seus trabalhos que não Indiana Jones. A dupla de atores - escolhas únicas do cineasta desde a concepção do projeto - apresenta uma química interessante que vai crescendo a cada sequência, mas ambos esbarram na preferência de Zemeckis em abusar de seus virtuosismos visuais em detrimento da consistência da história que deseja contar.

 

"Revelação" gira em torno do casal Spencer. Ele, Norman, é um cientista respeitado que tenta desesperadamente fugir da sombra do pai, igualmente prestigiado pela comunidade. Ela, Claire, é uma violoncelista que abandonou a carreira para cuidar do marido e da filha e que, um ano depois de um violento acidente de carro, se vê diante da solidão causada pela viagem de sua filha adolescente à universidade. Sozinha e entediada, Claire começa a acreditar que seu vizinho (James Remar) assassinou a esposa (Miranda Otto), a quem testemunhou chorando através da cerca de sua propriedade. Tal certeza coloca seu casamento em crise - agravada ainda mais quando a bela dona-de-casa passa também a ouvir vozes misteriosas e sentir presenças ameaçadoras em sua bela casa à beira de um lago de Vermont. Norman tem certeza de que sua esposa está passando por uma séria crise de nervos, mas a situação muda completamente quando tais eventos começam a remeter à identidade de uma jovem estudante desaparecida - cujo destino parece intimamente ligado à mansão dos Spencer.

A história concebida pelo também ator Clark Gregg - que coescreveu o roteiro com Sarah Kernochan - apresenta várias possibilidades para o espectador, mas infelizmente não consegue equilibrá-las a contento. Ao mesclar uma narrativa policial tradicional com elementos do mais puro terror sobrenatural, o filme parece derrapar em dois gêneros que, em mãos mais seguras, podem ser complementares - mas que sob o comando de Zemeckis nem sempre conseguem dialogar entre si. De talento mais que comprovado, o cineasta perde a mão ao enfatizar o suspense visual e deixar de lado o desenvolvimento de seus personagens - talvez mais uma homenagem a Hitchcock, que privilegiava a manipulação dos nervos do público através de artifícios narrativos visuais e sonoros. Em especial no ato final, a tensão assume um protagonismo tal que a trama em si soa ainda mais insignificante, como se servisse unicamente como vitrine das peripécias estilísticas de seu diretor. No final das contas, "Revelação" se mostra um filme de suspense acima da média, mas que fica aquém do talento de seu time - ao menos em termos de roteiro e consistência.

segunda-feira

JOGOS DE ADULTOS

 


JOGOS DE ADULTOS (Consenting adults, 1992, Hollywood Pictures, 99min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Matthew Chapman. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Sam O'Steen. Música: Michael Small. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Gretchen Rau. Produção executiva: Pieter Jan Brugge. Produção: Alan J. Pakula, David Permut. Elenco: Kevin Kline, Mary Elizabeth Mastrantonio, Kevin Spacey, Forest Whitaker, Rebecca Miller. Estreia: 16/10/92

Em 1982, o diretor Alan J. Pakula assinou uma de suas obras-primas, "A escolha de Sofia", que rendeu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep e marcou a estreia de Kevin Kline no cinema. Dez anos depois, cineasta e astro voltaram a se encontrar em "Jogos de adultos" - mas, já com Kline consagrado com uma estatueta de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (1988), o reencontro ficou muito longe de ser memorável. Vindo do sucesso apenas razoável de "Acima de qualquer suspeita" (1990) - que tornou anêmico o romance best-seller de Scott Turow - e antes de unir Julia Roberts e Denzel Washington na versão cinematográfica de "O Dossiê Pelicano", de John Grisham, Pakula decepcionou crítica e público com uma produção insossa que em momento algum lembra o brilhantismo de seus melhores trabalhos. Com um roteiro preguiçoso que praticamente evita qualquer tipo de suspense e uma direção quase mecânica, "Jogos de adultos" falha em todos os quesitos - e nem a presença de um iniciante Kevin Spacey oferece maiores motivos de entusiasmo.

A trama começa de forma promissora: entediados com a vida doméstica e com a solidão a dois imposta pela ida da filha à universidade, o casal formado por Richard e Priscilla Parker (Kevin Kline e Mary Elizabeth Mastrantonio) vê sua rotina alterada pela chegada à vizinhança de outro casal, bem menos convencional. Eddy e Kay Otis (Kevin Spacey e Rebecca Miller) não apenas se tornam amigos próximos mas também apresentam aos vizinhos um estilo de vida mais leve e divertido - e até mesmo quando Eddy demonstra não ser exatamente uma pessoa muito ética profissionalmente isso não atrapalha suas relações. A coisa começa a mudar de figura, porém, quando o simpático e sedutor novo amigo surge com uma ideia ousada: percebendo a atração de Richard por sua mulher e ele próprio encantado por Prsicilla, Eddy propõe uma troca de casais. Depois de muito hesitar, Richard aceita a proposta - mas quando Kay aparece violentamente assassinada, ele passa a ser o principal suspeito. Certo de que Eddy tem responsabilidade pelo crime, o até então pacato compositor de jingles comerciais luta para provar sua inocência e comprovar a culpa de seu carismático vizinho - agora viúvo e apaixonado por Priscilla.

 

Chega a ser inacreditável que um cineasta do porte de Pakula, que dotou produções como "A trama" (1974) e "Todos os homens do presidente" (1976) de um senso impecável de ritmo, seja o mesmo de "Jogos de adultos": com uma direção sem criatividade e uma edição monótona que impede qualquer chance de despertar interesse no espectador, seu filme sofre de uma absoluta falta de energia. Anêmico a ponto de anestesiar até mesmo aos normalmente bons atores que tem em mão - além dos dois Kevins o elenco conta ainda com Forest Whitaker -, o compasso do roteiro de Matthew Chapman (que mais tarde cometeria o problemático "A cor da noite", estrelado por Bruce Willis em 1994) não permite qualquer envolvimento do público, perdido (no pior sentido da palavra) em uma trama cuja reviravolta é previsível ainda no primeiro ato. Sem aprofundar nenhuma das questões levantadas em seu começo - a crise no casamento dos protagonistas, a personalidade dúbia do vilão, as engrenagens da justiça -, sua história peca principalmente ao negar à audiência os principais elementos de um filme de suspense: o mistério e a catarse: fica evidente desde os primeiros minutos que Eddy não é flor que se cheire e que sua insistência em movimentar a vida amorosa dos dois casais tem segundas e terceiras intenções, e o roteiro não faz a menor questão de subverter expectativas ou tomar rumos que não os mais óbvios. E isso sem falar no ato final, de uma pobreza criativa sem tamanho.

É uma pena que a soma de tantos talentos não impeça que "Jogos de adultos" seja uma produção tão esquecível - para não dizer medíocre. Nem mesmo Kevin Kline e Kevin Spacey, conhecidos por seus dotes dramáticos, conseguem oferecer qualquer tipo de energia que amenize a sensação de apatia que perpassa todos os 99 minutos (que parecem ser mais longos do que o normal) de projeção. Uma mancha desnecessária no currículo de todos os envolvidos.

quinta-feira

ENCAIXOTANDO HELENA

 


ENCAIXOTANDO HELENA (Boxing Helena, 1993, Mainline Pictures/MGM Pictures, 107min) Direção: Jennifer Chambers Lynch. Roteiro: Jennifer Chambers Lynch, estória de Philippe Caland. Fotografia: Bojan Bazelli, Frank Byers. Montagem: David Finfer. Música: Graeme Revell. Direção de arte/cenários: Paul Huggins/Sharon Braunstein. Produção executiva: James R. Schaeffer, Larry Sugar. Produção: Philippe Caland, Carl Mazzocone. Elenco: Julian Sands, Sherilyn Fenn, Bill Pullman, Art Garfunkel, Betsy Clark, Kurtwood Smith. Estreia: Janeiro/93 (Festival de Sundance)

Antes mesmo de chegar às telas - o que aconteceu no Festival de Sundance de 1993 -, o filme de estreia da diretora Jennifer Lynch já estava nas páginas das publicações sobre cinema. Nem tanto pela curiosidade a respeito do primeiro trabalho da filha do prestigiado David Lynch mas sobretudo a respeito dos problemas de bastidores, que incluíam um clamoroso processo contra a atriz Kim Basinger  e a escolha por um elenco sem grandes astros depois da possibilidade de contar com Ed Harris ou John Malkovich no principal papel masculino. Fracasso de bilheteria que dividiu a crítica e comprometeu a nascente carreira da cineasta - que assinou alguns longa-metragens de pouca repercussão antes de dedicar-se à televisão -, "Encaixotando Helena" esbarrou principalmente na indecisão entre ser uma perturbadora história de amor ou um filme de suspense erótico: não agradou a nenhum público-alvo e entrou para a história mais como curiosidade do que exatamente por suas qualidades artísticas.

Segundo a própria Jennifer, seu roteiro foi escrito em dois meses quando ela tinha apenas dezenove anos. Não é de duvidar, a julgar pela superficialidade da trama e pela construção de seus personagens repleta de clichês. O protagonista, Nicholas Cavanaugh (Julian Sands) pode até carregar traumas de infância causados pelo excesso de sensualidade de sua mãe - algo que atrapalha sua relação com a colega de profissão, Anne Garret (Betsy Clark), disposta a um compromisso mais sério -, mas tais sentimentos jamais ultrapassam o óbvio. A bela Helena (Sherylin Fenn), apesar de demonstrar uma personalidade forte e uma certa prepotência em seu relacionamento com Ray O'Malley (Bill Pullman), não repete tais atitudes quando confrontada com um destino pouco feliz nas mãos de Nicholas. E toda a tensão sexual fetichista advinda da situação central não consegue escapar de um tom de fantasia machista, prejudicado pela estética pouco sofisticada e pela trilha sonora invasiva de Graeme Revell. O fato de Lynch ter recebido o aval do produtor Carl Mazzocone para assumir a direção do filme para que ele tivesse um olhar feminino não altera a percepção de que, apesar das intenções, "Encaixotando Helena" não passa de uma tentativa mal-sucedida de mesclar horror gótico, romance e sexo.


 

A trama engendrada por Jennifer Lynch gira em torno de Nick Cavanaugh, um médico bem-sucedido profissionalmente, atormentado por lembranças de uma infância dominada pela sensualidade avassaladora da mãe. Com a morte da matriarca, ele se transfere para a isolada mansão da família e se entrega a uma obsessão por Helena, por quem se apaixonou perdidamente depois de um breve encontro. Nem mesmo seu namoro hesitante com uma colega de trabalho, Anne, o afasta dos pensamentos constantes de reconquistar a bela e sedutora jovem, que simplesmente ignora suas tentativas de aproximação e o trata com um desprezo quase debochado. A relação entre eles sofre uma reviravolta, no entanto, quando um acidente de carro joga Helena nos braços de Nick - depois de amputar as duas pernas de sua musa, ele a esconde em sua propriedade e começa um intensivo jogo de sedução, com o objetivo de convencê-la de seu amor e dedicação. A princípio chocada com sua nova situação, Helena aos poucos vai percebendo que não há maneira de fugir de sua triste sina.

Helena, a heroína trágica criada por Jennifer Lynch, parecia, no começo dos anos 1990, por pouco não caiu nas mãos de Madonna, então em sua cruzada sensual que incluía o álbum "Erotica" e o livro de fotografias "Sex". A saída da estrela pop do projeto abriu espaço para outro símbolo sexual inquestionável do momento, Kim Basinger, parte do inconsciente popular masculino desde suas aventuras ao lado de Mickey Rourke no cult movie "9 1/2 semanas de amor" (1986). Basinger chegou a se comprometer com a produção até que, inesperadamente, abandonou o barco, para fúria dos produtores, que foram à justiça e a condenaram ao pagamento de uma multa de nove milhões de dólares. A saída, tanto de Madonna quanto de Basinger, alterou o tom de "Encaixotando Helena", que tornou-se mais explícito com a chegada de Sherilyn Fenn, cujo rosto angelical já havia sido explorado pelo pai de Jennifer, David, em sua série de televisão "Twin Peaks". Deslumbrante, mas sem alcance dramático o bastante para driblar as falhas do roteiro e a insegurança da direção, Fenn faz pouco mais do que enfeitar a tela, deixando o esforço maior para Julian Sands, que tenta ao máximo extrair verossimilhança em uma trama que, apesar da ousadia de sua premissa, se acovarda em um final decepcionante. Prometendo muito mais do que entrega (em termos de trama e resultado final), "Encaixotando Helena" pode até lembrar, em sua atmosfera onírica, a obra de David Lynch. Mas a estreia de Jennifer ficou muito aquém do que o DNA poderia sugerir.

quarta-feira

PREMONIÇÕES


PREMONIÇÕES (Premonition, 2007, TriStar Pictures/MGM, 96min) Direção: Mennan Yapo. Roteiro: Bill Kelly. Fotografia: Torsten Lippstock. Montagem: Neil Travis. Música: Klaus Badelt. Figurino: Jill Ohanneson. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Raymond Pulmilia. Produção executiva: Nick Hamson, Andrew Sugerman, Lars Sylvest. Produção: Ashok Amritraj, Jennifer Gibgot, Jon Jashni, Sunil Perkash, Adam Shankman. Elenco: Sandra Bullock, Julian McMahon, Nia Long, Kate Nelligan, Peter Stormare, Shyann McClure, Courtney Taylor Burness. Estreia: 12/3/2007

Quando "Premonições" estreou, no começo de 2007, a carreira de Sandra Bullock estava em uma encruzilhada. Seus dias como "a nova Julia Roberts" já estavam encerrados - sua última comédia a levar multidões às salas de exibição, "Miss Simpatia" já tinha sete anos de idade - e ela ainda não havia se reinventado como a atriz séria que levaria um Oscar por "Um sonho possível" (2009). Nesse meio do caminho entre a popularidade e o prestígio, alguns filmes buscavam um novo sucesso com artifícios variados, como continuações ("Miss Simpatia 2: armada e poderosa", de 2005) e o reencontro com Keanu Reeves ("A casa do lago", de 2006). Dirigida pelo alemão Mennan Yapo - conhecido pelo sucesso "Adeus, Lênin" (2000) -, a trama de suspense com lances místicos não chegou a ser um estouro de bilheteria, mas rendeu quatro vezes seu orçamento de 20 milhões de dólares e, se não agradou completamente à crítica, se mostrou acima da média dentro de um gênero perigosamente à beira do esgotamento.

Usando e abusando das caras e bocas que lhe renderam fama e dinheiro, Bullock interpreta Linda Hanson, a feliz esposa do executivo Jim (Julian McMahon) e mãe de duas pré-adolescentes no auge da energia. Sua rotina em uma bela casa no subúrbio é radicalmente alterada quando ela recebe a trágica notícia de que seu marido morreu em um acidente de carro. Devastada e inconsolável, Linda está prestes a entrar em uma severa depressão quando, para sua surpresa, acorda no dia seguinte ao funeral de Jim e descobre que ele está vivo. Sua confusão aumenta ainda mais nos dias seguintes, que parecem alternar-se em duas realidades alternativas: em uma delas, é preciso lidar com a dor da perda e descobertas a respeito das mentiras que sustentavam seu casamento; em outra, a vida como ela conhece permanece a mesma, sem o fantasma do acidente pairando sobre suas cabeças. O que na verdade está acontecendo - e Linda chega a essa conclusão mesmo sendo considerada desequilibrada pelos amigos e familiares - é que, por alguma razão, os dias estão fora de ordem cronológica, e ela precisa encontrar uma maneira de reverter o triste destino de sua história de amor.


 

Feliz em estabelecer sua intrigante premissa, o roteiro de Bill Kelly - autor da comédia "De volta para o presente", estrelado por Brendan Fraser e Alicia Silverstone em 1999 - falha, no entanto, em oferecer uma explicação plenamente satisfatória a ela. Apelando para um misticismo que pode não agradar a todos, deixa no ar uma sensação de potencial não completamente desenvolvido, apesar do terço final relativamente tenso e com um clímax surpreendente. Sandra Bullock exagera em boa parte dos 96 minutos de sessão, intercalando expressões de tristeza e assombro sem maiores nuances ou sutileza, mas é inegável que seu status de estrela segura bastante o interesse pela trama, assim como a presença de Julian McMahon, então astro da série "Nip/Tuck", que pouco tem a fazer em cena além de desfilar charme. Com personagens pouco aprofundados, tanto ele quando Bullock fazem o possível para dar-lhes uma consistência e uma coerência que muito faz falta no resultado final.

Para quem é fã de Sandra Bullock ou de produções de suspense com tons místicos e/ou sobrenaturais, "Premonições" é um prato cheio. Conduzido com segurança por Yapo - que resiste à tentação do caminho mais fácil e dribla com destreza os clichês do roteiro (mesmo que por momentos os utilize de forma sutil) - e recusando o tom de ironia que muitas vezes enfraquece as produções do gênero, o filme instiga o espectador desde os minutos iniciais com uma história que fala sobre amor, perdão e segundas chances. Não chega a ser brilhante, mas cumpre boa parte do que promete e deu a Sandra Bullock a oportunidade de mostrar-se competente o suficiente para uma nova (e mais séria) fase na carreira.

 

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

quinta-feira

MEU FILHO

 


MEU FILHO (My son, 2021, Une Hirondelle Productions/Wild Bunch International/Sixteen Films, 95min) Direção: Christian Carion. Roteiro: Christian Carion, Laure Irrmann. Fotografia: Eric Dumont. Montagem: Loic Lallemand. Música: Laurent Perez Del Mar. Figurino: Carole Miller. Produção executiva: Adam Fogelson, John Friedberg, Robert Simonds, Kimberly Fox. Produção: Marc Butan, Christian Carion, Brahim Chioua, Noémie Devide, Marc Gabizon, Laure Irrmann, Vicent Maraval, Rebecca O'Brien. Elenco: James McAvoy, Claire Foy, Tom Cullen, Gary Lewis. Estreia: 15/9/2021 (Internet)

Em 2017, o cineasta Christian Carion surpreendeu o público francês com "Meu filho", uma produção que, apesar da sinopse não exatamente original, fugia da narrativa tradicional ao negar a seu ator principal, Guillaume Canet, o roteiro que conduzia a trama. As reações de Canet ao que era proposto pelos colegas de cena é que levavam a história adiante - e transmitiam a sensação de desorientação necessária à construção do suspense. Quatro anos mais tarde, ciente das limitações que um filme não falado em inglês encontra no mercado internacional, Carion envolveu-se pessoalmente no remake de sua obra - com um ator britânico (James McAvoy) e uma mudança de cenário (da França para as montanhas escocesas) - e, com o máximo de fidelidade possível, fez de sua refilmagem um produto que, se não chega a revolucionar o gênero, ao menos envolve o espectador em um espiral de intrigas e mistérios que vai se desenrolando aos poucos até o final que infelizmente não consegue escapar do clichê.

A trama já começa com a chegada de Edmond Murray (James McAvoy) às buscas de seu filho de sete anos, desaparecido de um acampamento nas montanhas escocesas. Chamado pela ex-mulher, Joan (Claire Foy) - de quem está separado há alguns anos e que já está em uma nova relação -, Edmond não consegue deixar de sentir-se culpado pelo fato de ser um pai ausente, em constantes viagens a trabalho, inclusive por países em situações de conflito. Questionado pela polícia, que suspeita de um sequestro com vítima escolhida a dedo, Edmond não se conforma em apenas fazer parte das equipes que procuram o menino pelas matas. Assumindo uma investigação própria e com métodos não ortodoxos, ele se depara com pistas falsas, suspeitos bastante dúbios e até com a possibilidade de ter responsabilidade indireta com o desaparecimento. A cada passo que dá adiante, porém, o tempo vai se esgotando - e o final de sua procura vai ficando com chances cada vez maiores de não ser bem-sucedida. 

Avassalador no papel principal, James McAvoy demonstra, mais uma vez, sua capacidade aparentemente infinita de se reinventar nas telas - vale lembrar que o ator inglês já deu vida a um psicopata com problemas mentais ("Fragmentado"), um soldado da I Guerra tentando retomar a vida depois de uma acusação injusta de assédio ("Desejo e reparação"), um inexperiente médico que se torna o homem de confiança do ditador Idi Amin ("O último rei da Escócia") e o jovem Professor Xavier (na segunda trilogia dos X-Men), apenas para citar alguns. É ele, com sua garra e dedicação, que faz com que o filme de Carion saia da vala comum dos filmes de ação para se tornar um passatempo bastante digno - ao menos em seus dois primeiros terços. É nessa primeira parte que a ideia do cineasta em esconder de seu ator central o roteiro faz toda a diferença: conforme vai tomando conhecimento de fatos que cercam o possível crime, Edmond vai sendo surpreendido com informações novas, que mudam o rumo das investigações e de sua própria vida - e é o mesmo que acontece com McAvoy, que vai descobrindo a trama através do que é lançado diante de seus olhos. Da tristeza à preocupação, da raiva à coragem, do desespero à desconfiança de todos a seu redor, o astro tira de letra todos os desafios impostos pelo diretor e vai chegando, junto com o público, a um desfecho que, esse sim, deixa no ar uma sensação de anti-clímax.

Depois de dois terços de uma ação aflitiva e de uma tensão crescente, que vai envolvendo o espectador de maneira gradual, "Meu filho" chega a seu último ato caindo na armadilha fácil do exército de um homem só e abandonando o tom de suspense psicológico que vinha adotando até então. A resolução do mistério - preguiçosa e clichê - só serve para justificar um embate entre Edmond e seus algozes, que, é preciso reconhecer, fotografado com elegância e inteligência pelas câmeras de Eric Dumont, que com uma textura quase palpável, enfatiza o tom sombrio e claustrofóbico da trama e valoriza a construção metódica de uma história desesperadora para qualquer pai. Mesmo não sendo um filme completamente memorável - exceção feita ao trabalho de McAvoy, brilhante do início ao fim -, "Meu filho" é o programa ideal para os fãs de suspense e ação. Não muda a vida de ninguém, mas tampouco é uma perda total de tempo.

sexta-feira

O ENFERMEIRO DA NOITE


O ENFERMEIRO DA NOITE (The good nurse, 2022, FilmNation Entertainment/Netflix, 121min) Direção: Tobias Lindholm. Roteiro: Krysty Wilson-Cairns, livro de Charles Graeber. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Adam Nielsen. Música: Biosphere. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Alyssa Winter. Produção executiva: Glen Basner, Ignacio de Medina, Jonathan Filley, Ari Handel, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Michael Jackman. Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Noah Emmerich, Kim Dickens, Nnmandi Asomugha. Estreia: 11/9/2022 (Festival de Toronto)

Pode um filme falar sobre um serial killer que matou provavelmente centenas de pessoas contar sua história sem mostrar uma única gota de sangue? "O enfermeiro da noite", baseado na trajetória assassina de Charles Cullen - encerrada com sua prisão, em 2003 - prova que a resposta é positiva. Lançado no Festival de Toronto de 2022 cerca de um mês antes de estrear na Netflix, em outubro do mesmo ano, o primeiro longa-metragem em inglês do dinamarquês Tobias Lindholm foca na investigação policial que levou Cullen à cadeia, e é conduzido com sobriedade e discrição, evitando o sensacionalismo normalmente atrelado a produções do gênero. Com sua experiência na condução de dois episódios da série "Mindhunter", Lindholm se aproveita do talento de seu elenco e do roteiro conciso, baseado em um livro investigativo de Charles Graeber, para envolver o espectador em um drama claustrofóbico, cuja elegância visual não consegue disfarçar a tensão inerente a uma trama perturbadora.

O filme começa - logo depois de um prólogo que dá uma ideia do que está por vir - quando o jovem enfermeiro Charles Cullen (Eddie Redmayne) é contratado para trabalhar no turno da noite do Parkfield Memorial Hospital, localizado em Nova Jersey (estabelecimento fictício que substitui o verdadeiro Somerset Medical Center). Solícito, gentil e dedicado, não demora para que Charles se torne amigo da colega Amy Loughren (Jessica Chastain), que divide seu tempo entre o trabalho, os cuidados com as duas filhas pequenas e a luta para curar um problema cardíaco. A amizade entre os dois vai se aprofundando com o tempo, e Amy passa a contar com o novo colega em suas batalhas diárias. As coisas mudam, porém, quando pacientes sob a supervisão de Cullen, independentemente da idade e em condições razoáveis de saúde, começam a morrer inexplicavelmente. Desconfiada de que seu amigo pode estar por trás dos óbitos, a enfermeira resolve colaborar com a polícia, nas figuras de Tim Braun (Noah Emmerich) e Danny Baldwin (Nnmandi Asomugha).


 

Com uma história que praticamente implora por um tom sensacionalista, "O enfermeiro da noite" encontra, na direção de Tobias Lindholm, um viés mais intimista, que opta pelas crises pessoais de seus protagonistas, em detrimento às regras mais óbvias em um filme de suspense. Para isso, conta com a presença sempre potente de Jessica Chastain, em papel mais discreto do que aquele que lhe rendeu um Oscar, por "Os olhos de Tammy Faye": em um trabalho quase silencioso, que explora o olhar e o corpo mais do que longos diálogos, Chastain empresta à Amy Loughren atitudes estoicas e corajosas que despertam a imediata empatia do público, e bate de frente com mais um desempenho econômico e eficiente de Eddie Redmayne. Longe dos trejeitos que poderiam fazer de seu Charles Cullen um monstro clichê, o ator vencedor do Oscar por "A teoria de tudo" (2014) expressa a personalidade transtornada de Cullen através de sorrisos melífluos, atitudes gentis e a aparência de um homem absolutamente normal - como qualquer psicopata -, mas, de forma inteligente, nunca deixa de fazer com que seus gestos soem ameaçadores, o que fica claro em sua última conversa com Amy, uma sequência elaborada com precisão para deixar a plateia com a respiração suspensa. Além disso, somada às atuações exemplares de seus atores centrais, a fotografia acinzentada deixa no ar a sensação constante de pesadelo monocromático e sufocante, que dialoga com o desenvolvimento apropriadamente lento do filme de Lindholm.

Roteirista de filmes premiados, como "A caça" (2012) e "Druk: mais uma rodada" (2020), Lindholm faz sua estreia como diretor de longa-metragens em inglês com o pé direito. Ao renegar qualquer lugar-comum de filmes sobre psicopatas, o cineasta  afirma sua personalidade própria, que busca o envolvimento do espectador sem artifícios que não a objetividade. Sua decisão em focar a narrativa na relação entre Amy e Charles foge do padrão "mortes+investigação+confronto" para inserir, na receita,  um ritmo mais comum em dramas do que em filmes de suspense - o que pode desnortear os cinéfilos mais puristas, mas que acrescenta uma profundidade maior à sua obra. Por mais que em alguns momentos "O enfermeiro da noite" soe como um telefilme, sua seriedade em lidar com um tema complexo e polêmico merece aplausos - especialmente se, junto com ela, é possível testemunhar mais um trabalho admirável de Jessica Chastain, uma das melhores atrizes de sua geração, e Eddie Redmayne, em franca ascensão dentro da indústria hollywoodiana. 

 

terça-feira

NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA


NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (Don't worry, darling, 2022, Warner Bros, 123min) Direção: Olivia Wilde. Roteiro: Katie Silberman, estória de Carey Van Dyke, Shane Van Dyke, Katie Silberman. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: John Powell. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachael Ferrara. Produção executiva: Richard Brener, Catherine Hardwicke, Celia Khong, Alex G. Scott, Carey Van Dyke, Shane Van Dyke. Produção: Roy Lee, Katie Silberman, Olivia Wilde, Miri Yoon. Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Kiki Layne, Gemma Chan, Nick Kroll, Sydney Chandler, Kate Berlant, Asif Ali, Douglas Smith, Timothy Simons. Estreia: 05/9/2022 (Festival de Veneza)

Não deixa de ser estranho quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção da mídia e do público do que seu resultado final. É o caso de "Não se preocupe, querida", segundo longa-metragem dirigido pela atriz Olivia Wilde, que estreou no Festival de Veneza de 2022 depois de uma chuva de fofocas a respeito dos inúmeros conflitos ocorridos durante as filmagens. Uma distopia aos moldes de "As mulheres perfeitas", de Ira Levin - que deu origem a duas versões cinematográficas, em 1968 e 2005 - e temperado com uma paranoia digna dos melhores filmes realizados em Hollywood nas décadas de 1950 e 1960 -, a obra de Wilde não teve a mais entusiasmada das recepções da crítica em seu lançamento, mas, apesar de não ser tão empolgante quanto seu primeiro trabalho atrás das câmeras - a comédia "Foras de série" (2019) -, é bem menos desastroso do que se poderia supor, diante da generalizada má-vontade da imprensa e de boa parte do público.

Com influência declarada de "A origem (2010) e "O show de Truman: o show da vida" (1998), o filme de Olivia Wilde também cita, de uma forma ou outra, obras aparentemente díspares, como os livros "Frankenstein", de Mary Shelley, e "Alice no país das maravilhas", de Lewis Carroll. Com uma direção de arte elaborada de maneira a soar claustrofobicamente simétrica e soluções visuais criativas e inteligentes - que homenageiam os clássicos números musicais coreografados por Busby Berkeley na Hollywood dos anos 1930 -, "Não se preocupe, querida" demonstra, em certos aspectos, uma evolução da diretora em termos de ambição e técnica. Substituindo a simplicidade de sua primeira obra por uma narrativa mais rebuscada e repleta de camadas, Wilde exige mais do espectador do que simplesmente acompanhar sua trama - um roteiro intrincado que apresenta inúmeras perguntas e não faz questão de respondê-las de forma simples. Valorizado pela fotografia de Matthew Libatique - que sublinha o desespero da protagonista ao mesmo tempo em que ilustra o tom monocromático de seu ambiente - e pela edição do brasileiro Affonso Gonçalves - que deixa pistas pelo caminho, indicando ao espectador os rumos da história -, "Não se preocupe, querida" também ousa fugir do óbvio ao enveredar, em seu terço final, por uma mudança de gênero que surpreende e o deixa ainda mais instigante: por mais que se suspeite do que pode estar acontecendo, o desfecho não deixa de ser um choque.

 

A trama se passa em algum momento da década de 1950, e apresenta o jovem e apaixonado casal Alice (a sensacional Florence Pugh) e Jack Chambers (o cantor britânico Harry Styles se saindo bastante bem), que estão vivendo um feliz momento de seu casamento. Jack está em franca ascensão profissional, ainda que sua bela esposa não saiba exatamente qual seu ramo de atuação. O que ela sabe - assim como as outras esposas que vivem em sua vizinhança, em uma idílica cidade californiana chamada Victory - é que todos os maridos trabalham sob as asas do poderoso e carismático Frank (Chris Pine) e que tudo relacionado à empresa é envolto em mistério, sob a alegação de segurança nacional. A vida repetitiva de Alice - que suas companheiras consideram um bálsamo - consiste de cuidar da casa, beber à beira da piscina com as amigas, aulas de balé e ocasionais jantares frequentados sempre pelos mesmos convidados. De uma hora para outra, no entanto, Alice começa a ter pesadelos e visões estranhas, que a atormentam a ponto de incomodar seu relacionamento e a lei do silêncio que perpassa sua rotina. Quando uma outra esposa começa a se comportar de forma inconveniente e é violentamente silenciada, Alice resolve desafiar as regras - e entra em um território assustador.

Olivia Wilde consegue conduzir seu filme com segurança o bastante para manter o interesse do público até seus minutos finais - apesar de seu ritmo por vezes um tanto hesitante - e extrair de seus atores performances notáveis, mesmo com todos os problemas nos bastidores, que começaram com a demissão de Shia LaBeouf, cuja saída de cena nunca chegou a ser devidamente explicada. Algumas fontes creditavam tal situação a um conflito de agendas, mas não demorou muito para que surgisse a informação de que LaBeouf havia sido despedido por causa de uma série de embates com a diretora e o elenco - o que confirmava a reputação de difícil que sempre precede o ator. Um terceiro round, porém, veio à tona quando o ator afirmou que ele mesmo havia abandonado o projeto apesar dos apelos de Wilde, que queria mantê-lo no papel principal mesmo diante da falta de harmonia entre ele e Florence Pugh - que, por sua vez, foi escolhida para o elenco graças a seu desempenho em "Midsommar: o mal não espera a noite" (2019). Um vídeo chegou a vazar na Internet com os pedidos de Wilde para que ele permanecesse no filme -  mas mais tarde, textos entre Pugh e o ator, também disponibilizados online, não demonstravam pistas de tal conflito entre eles. Não bastasse tanta confusão por trás das câmeras, o romance entre Wilde e seu novo ator central, Harry Stles, caiu como uma bomba: a atriz/diretora estava recém saindo de um casamento de sete anos com o ator Jason Sudeikis e o novo namoro pareceu atrapalhar sua concentração nos sets - o que resultou em constantes rusgas entre a cineasta e sua protagonista feminina, que, por acaso ou não, não demonstrou o menor esforço em promover o filme além do expressamente necessário. 

O fato é que, apesar dos problemas fora das telas, "Não se preocupe, querida" é um filme que sobrevive aos pequenos escândalos durante seu processo de realização. Intrigante, inteligente e visualmente atraente, é um filme que merece ser apreciado por suas qualidades - e não rechaçado por questões alheias a seus méritos artísticos.

NÃO FALE O MAL


NÃO FALE O MAL (Speak no evil, 2022, Profile Pictures/OAK Motion Pictures/Det Danske Filminstitut, 97min) Direção: Christian Tafdrup. Roteiro: Christian Tafdrup, Mads Tafdrup. Fotografia: Erik Molberg Hansen. Montagem: Nicolaj Monberg. Música: Sune Kolster. Figurino: Louize Nissen. Direção de arte/cenários: Sabine Hvidd/Jeanett Brahe, Floris Eysink Smeets. Produção executiva: Ditte Milsted. Produção: Jacob Jarek. Elenco: Morten Burian, Sidsel Siem Koch, Fedja van Huet, Karina Smulders, Liva Forsberg, Marius Damslev. Estreia: 21/01/2022 (Festival de Sundance)

Em certa ocasião, enquanto passava férias na Toscana, o cineasta e roteirista dinamarquês Christian Tafdrup e sua família travaram conhecimento com uma família holandesa, com quem se deram imediatamente bem. Logo depois do final do período de férias, Tafdrup recebeu um convite dos novos amigos para que passassem um período em sua casa. O cineasta chegou a considerar a ideia, mas acabou recusando a oportunidade - afinal de contas, ficar por um período em outro país, com pessoas que ele mal conhecia, poderia ser um tanto estranho. Tal acontecimento, no entanto, nunca saiu de sua cabeça e, como bom roteirista, ele não demorou a imaginar o que poderia ter acontecido caso tivesse aceito o inusitado convite. Surgia, então, a história de "Não fale o mal", um dos filmes mais incômodos e perturbadores de 2022, e um sucesso imediato no Festival de Sundance do mesmo ano. Em pouco mais de 90 minutos, Tafdrup simplesmente aterroriza a plateia com um thriller psicológico que vai aos poucos construindo uma atmosfera de tensão - para chegar a um clímax desolador.

O ponto de partida de "Não fale o mal" é justamente o que aconteceu com o cineasta em suas férias: o casal dinamarquês Bjorn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) conhece, durante um verão na Toscana, um casal holandês bastante simpático e agradável, Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders). Logo surge uma identificação entre as duas famílias e, um tempo depois, Bjorn e Louise são convidados para passar um tempo na Holanda - Patrick e Karin insistem no chamado, alegando que, além deles, seu filho pequeno, Abel (Marius Damslev), está com saudades da filha do casal, Agnes (Liva Forsberg). A princípio pouco propensos a aceitar a aventura, logo eles topam a viagem e chegam à casa dos amigos, uma bela propriedade afastada da cidade. Não demora, no entanto, para que as diferenças entre todos comecem a se mostrar maiores que sua identificação - enquanto os dinamarqueses são mais formais e sérios, os holandeses parecem mais dispostos a curtir a vida sem maiores preocupações. Sentindo-se pouco confortáveis - os anfitriões não demonstram cuidado ou atenção a suas particularidades -, eles decidem ir embora antes do previsto. E então descobrem que, para soarem educados e gentis, entraram em uma situação da qual é muito complicado sair.

 

Sem maiores spoilers: o que começa com pequenos incômodos - dirigir em alta velocidade e bêbado, música alta, carne servida a vegetarianos - vai se avolumando conforme o tempo vai passando. O fato do pequeno Abel ter uma condição médica que lhe impede de falar (ele não tem parte da língua) é a menor das aflições propostas pelo roteiro tenso criado por Christian Tafdrup e seu irmão, Mads: a cada cena, em cada momento de desconforto sublinhado pela trilha sonora impecável e pela fotografia claustrofóbica, o filme parece desnudar, aos olhos do espectador, um pesadelo cujas consequências são inimagináveis. Quase uma fábula a respeito da tendência do ser humano em ser sociável - independentemente do que isso pode acarretar -, o filme transforma a atmosfera festiva de seus primeiros minutos em um sombrio conto de horror, onde os monstros não são seres do além ou assassinos mascarados, e sim o vizinho, o amigo, o colega de trabalho. E para isso, conta com duas duplas de atores sensacionais, que extrapolam sua aparência civilizada em sequências de deixar qualquer um se retorcendo na poltrona.

Casados na vida real, assim como no filme, Fedja van Huêt e Karina Smulders brilham como o casal anfitrião, transitando entre a docilidade e a opressão com sutileza rara. Na pele dos dinamarqueses pegos de surpresa em uma viagem praticamente surreal, Morten Burian e Sidsel Siem Koch vão do constrangimento ao desespero - levando junto o espectador, descrente do turbilhão de violência emocional que se acumula diante de seus olhos. Assim como em "Violência gratuita", que Lars Von Trier lançou com controvérsia em 1997, a angústia que surge em "Não fale o mal" não vem do horror explícito ou do sangue escorrendo: é a sensação da maldade, a certeza de que algo irrecuperável irá irromper na tela é que constrói toda a estrutura do filme. Aqueles que preferem um ritmo ágil, com reviravoltas a cada quinze minutos certamente irá se aborrecer com a confecção precisa da direção de Tafdrup, mas aqueles que procuram formas mais sutis de mexer com os nervos não conseguirá tirar da mente seu final ríspido e seco como um bom soco no estômago.

OS OLHOS DE LAURA MARS


OS OLHOS DE LAURA MARS (Eyes of Laura Mars, 1978, Columbia Pictures, 104min) Direção: Irvin Kershner. Roteiro: John Carpenter, David Zelag Goodman, estória de John Carpenter. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: Michael Kahn. Música: Artie Kane. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/John Godfrey. Produção executiva: Jack H. Harris. Produção: Jon Peters. Elenco: Faye Dunaway, Tommy Lee Jones, Brad Dourif, Rene Auberjournois, Raul Julia. Estreia: 02/8/78

No final dos anos 1970,  John Carpenter, então um cineasta à procura do primeiro grande sucesso, vendeu à Columbia Pictures um roteiro com o título de "Eyes", que contava a história de uma fotógrafa que tinha o poder paranormal de ver através dos olhos de um assassino. Quando tal roteiro finalmente chegou às telas, em agosto de 1978, sob a direção de Irvin Kershner, pouco restava de suas ideias originais: além das alterações propostas pelo estúdio e pelo diretor, o desfecho era diferente do imaginado por Carpenter, que, apesar de tantas modificações, manteve o crédito como autor da trama e se viu, dois meses depois, alçado à condição de ícone do cinema de terror com seu "Halloween", lançado em outubro do mesmo ano. E se o primeiro capítulo das matanças promovidas por Michael Meyers é, ainda hoje, um clássico do gênero, seu roteiro renomeado como "Os olhos de Laura Mars" tampouco pode ser subestimado. Estrelado por Faye Dunaway pouco depois de seu Oscar por "Rede de intrigas" (1976), o filme se mantém como um suspense eficiente, a despeito de seu visual um tanto datado e de sua narrativa por vezes lenta em excesso.

O filme conta a história de Laura Mars, uma fotógrafa influente, celebrada e que vive o auge da carreira com suas imagens que vinculam arte, sexo e violência. Sem ter consciência do fato, Laura criou sua obra a partir de visões que frequentemente surgiam em sua mente. Tal dom, no entanto, torna-se um fardo quando ela começa a perceber que tem o poder de ver através dos olhos de um criminoso. Quando várias pessoas a seu redor começam a morrer violentamente assassinadas diante de seus olhos - sem que ela possa impedir -, ela resolve buscar a ajuda da polícia, que, por motivos compreensíveis, faz pouco caso de suas informações. O único a acreditar em sua narrativa é John Neville (Tommy Lee Jones), um tenente que se apaixona por ela durante as investigações. Apavorada com a possibilidade de ser a próxima vítima do assassino, Laura inicia um processo de paranoia que envolve a todos que conhece - incluindo seu violento ex-marido, Michael Reisler (Raul Julia), e seu motorista, Tommy Ludlow (Brad Dourif), cujo passado criminoso pode ter voltado à tona.


 

"Os olhos de Laura Mars" caiu nas mãos de Irvin Kershner depois da saída de Michael Miller, que abandonou o projeto devido às tradicionais "diferenças criativas" entre ele e o estúdio. Nem mesmo a estrela inicialmente pensada para o papel central, Barbra Streisand, se manteve - apesar de Barbra emprestar sua bela voz na canção-tema, "Prisoner", que toca nos criativos créditos iniciais. Antes que Faye Dunaway assumisse o protagonismo, nomes tão díspares quanto Jane Fonda, Diane Keaton, Goldie Hawn e Catherine Deneuve chegaram a ser cogitadas. A entrada de Dunaway, no auge do sucesso, acabou oferecendo à produção uma seriedade até então rara em filmes do gênero e ajudou muito no êxito comercial do filme - com um orçamento estimado em sete milhões de dólares, rendeu quase três vezes no mercado internacional. A seu lado, um então jovem Tommy Lee Jones - que dois anos depois estaria no elenco do oscarizado "O destino mudou sua vida", com Sissy Spacek -, Brad Dourif (indicado à estatueta de ator coadjuvante por "Um estranho no ninho", de 1975) e Raul Julia, antes de tornar-se um dos atores latino-americanos mais celebrados de Hollywood.  

Com um visual típico dos anos 1970 - com sua fotografia granulada, figurinos exóticos e uma narrativa sóbria mesmo quando apela para a sanguinolência -, "Os olhos de Laura Mars" conquista justamente por levar-se a sério, evitando o tom de deboche que viria a infestar o gênero na década seguinte. Ao localizar sua trama no ambiente sofisticado das fotografias de moda, Irvin Kershner usa e abusa de ângulos criativos para mergulhar o espectador no universo de pesadelo vivido por sua protagonista. Interpretada com garra por Dunaway - que três anos mais tarde escorregaria na caricatura ao interpretar Joan Crawford no polêmico "Mamãezinha querida" (1981) -, Laura Mars é uma heroína típica de sua época, quando as mulheres assumiam as rédeas do próprio destino: apesar de contar com a ajuda do policial vivido por Lee Jones, a fotógrafa jamais se deixa acomodar na posição de vítima, lutando pela sobrevivência ao mesmo tempo em que corre atrás da identidade do assassino que a persegue - uma revelação que não escapa do clichê mas não compromete o resultado final. Talvez a única questão que incomoda no roteiro é o romance entre os dois personagens principais, que soa um tanto deslocado e forçado (mas faz certo sentido nos momentos finais).

 E se existe uma prova da perenidade cultural de "Os olhos de Laura Mars" é o fato de, em 2002, quase vinte e cinco anos depois de seu lançamento, sua protagonista ter sido citada na canção "Gold dust", da cantora Tori Amos (parte de seu álbum "Scarlet's walker"). Não é toda personagem de filmes de suspense que merece tal reconhecimento!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...