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quinta-feira

A SUPREMA FELICIDADE

 


A SUPREMA FELICIDADE (A suprema felicidade, 2010, Ramalho Filmes, 121min) Direção: Arnaldo Jabor. Roteiro: Arnaldo Jabor, Ananda Rubinstein. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Leticia Giffoni. Figurino: Valeria Stefani. Produção executiva: Andréa Ramalho. Produção: Arnaldo Jabor, Francisco Ramalho Jr., Lucia Seabra. Elenco: Jayme Matarazzo, Michel Joelsas, Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Caio Manhente, Maria Flor, Elke Maravilha, João Miguel, Ary Fontoura, Maria Luísa Mendonça, Tammy Di Calafiori, Emiliano Queiroz. Estreia: 29/10/2010

Quem conhece a filmografia de Arnaldo Jabor deve ter levado um susto ao assistir a seu "A suprema felicidade": até pouco mais da metade do filme, quase nada leva a crer que o homem por trás de obras como "Eu te amo" (1980) e "Eu sei que vou te amar" (1986) - trabalhos verborrágicos, cínicos e sarcásticos - também é o autor de um olhar tão carinhoso e nostálgico sobre um Rio de Janeiro que só existe na memória e no coração de quem o conheceu. Ao deixar de lado o tom neurótico de suas produções mais celebradas e abraçar o caminho da saudade (que remete a Federico Fellini e seus mergulhos na metalinguagem), o polêmico cineasta acabou por revelar uma insuspeita simpatia à humanidade - através de sequências oníricas, personagens maiores que a vida (e paradoxalmente dotadas de grande sinceridade) e diálogos que se equilibram entre o poético e o mundano. Intercalando épocas distintas da vida de seu protagonista, o roteiro de Jabor (co-escrito por Ananda Rubinstein) apresenta um rico panorama pessoal e social das décadas de 40, 50 e 60, com um viés emocional que encontra respaldo na produção caprichada e em um elenco totalmente entregue à proposta do cineasta.

Sem filmar desde "Eu sei que vou te amar" - que deu à Fernanda Torres a Palma de Ouro no Festival de Cannes 1986 -, Arnaldo Jabor voltou ao cinema com um discurso mais suave, mais terno, mais delicado, quase radicalmente oposto a seus trabalhos anteriores, calcados em personagens à beira de constantes ataques de nervos. Seu protagonista em "A suprema felicidade" - uma espécie de alter ego pouco disfarçado - é Paulo, que, conforme vai amadurecendo, vai encontrando diversas formas de amor, desejo e solidão, em uma cidade capaz de lhe oferecer tanto momentos líricos quanto a dureza de uma civilização recém saída de uma guerra mundial. Aos oito anos de idade, Paulo é interpretado pelo carismático Caio Manhente - é 1945, o Brasil comemora o fim do conflito na Europa e o menino testemunha a relação ainda calorosa entre os pais, Marcos (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima), cuja história de amor remete a um passado mais feliz e colorido. Cinco anos mais tarde, é Michel Joelsas quem assume o posto de ator central, em uma fase onde o jovem começa a descobrir o amor ao mesmo tempo em que percebe as rachaduras na harmonia conjugal familiar. Aos dezenove (e justamente na fase mais crucial) quem interpreta Paulo é o fraco Jayme Matarazzo - e é nesse momento que a trama trai a autoria do diretor/roteirista: ao encarar a boemia carioca e seus desdobramentos, Paulo toma contato com prostitutas arriscando a vida, bêbados contumazes, uma possível amante do pai e a torturada Deise (Maria Flor) - uma típica personagem jaboriana, com traumas e neuroses que remetem diretamente a suas obras anteriores. 

 

Ao optar por uma estrutura narrativa que privilegia episódios independentes ao invés de uma trama sólida, com começo, meio e fim bem definidos, o roteiro impede o espectador de construir a conexão necessária com seu protagonista. Sua colcha de retalhos - com idas e vindas no tempo - dá vazão também à interessante ideia de homenagear (visual e tematicamente) estéticas cinematográficas nacionais, como a chanchada, musicais da Atlântida e o Cinema Novo: estão em cena os personagens caricatos da primeira, as marchas de carnaval de rua da segunda e o tom seco que acompanha a boemia trágica e crua da noite carioca que remete diretamente à influência do neorrealismo. Nem sempre todos esses elementos dialogam a contento, mas Jabor parece menos amargo do que em boa parte de sua filmografia, sendo capaz inclusive de lampejos de um otimismo quase piegas - uma sensação que só é eliminada graças à atuação impecável de Marco Nanini, que na pele do avô de Paulo, o idiossincrático Noel, rouba a cena com uma construção de personagem lúdica e comovente, capaz de minimizar os problemas do produto final.

E há problemas: o terço final de "A suprema felicidade" deixa claro a fragilidade do roteiro de Jabor e sua estrutura episódica. Paulo, seu protagonista, não tem a força necessária para angariar a simpatia incondicional do espectador, se comportando como a testemunha ocular de uma série aparentemente desconexa de acontecimentos e personagens soltos e rasos. A bem da verdade, não há uma história no filme, apenas situações que, juntas, compõem um álbum de recordações ora doces ora indigestos. Para sorte de todos - diretor e público - há um elenco que, apesar de tudo, alcança momentos de pura graça: Dan Stulbach e Mariana Lima estão soberbos como o casal que atravessa todas as fases de um casamento, e Maria Flor brilha como a neurótica Deise (talvez a única personagem que combina com o universo do cineasta). São eles (e de certa forma o acertado tom de leveza da fotografia e da edição) que impedem o último filme de Jabor (morto em 2022) de parecer anacrônico e superficial. Não deixa de ser irônico que um artista que deu ao mundo petardos como "Toda nudez será castigada" (1973) e "O casamento" (1975) - ambos baseados em obras de Nelson Rodrigues - tenha se despedido com um filme tão delicado e de bem com a vida.

sexta-feira

ROMANCE

ROMANCE (Romance, 2008, Globo Filmes/Natasha Filmes, 105min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Jorge Furtado. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Gustavo Giani. Música: Caetano Veloso. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Diogo Dahl. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Bruno Garcia. Estreia: 14/11/08

Um dos diretores mais respeitados do Brasil, com sucessos acumulados na TV ("A comédia da vida privada", "TV Pirata") e no cinema ("O Auto da Compadecida", "Lisbela e o prisioneiro"), Guel Arraes sempre pautou sua carreira cinematográfica voltando o olhar para o nordeste brasileiro e suas lendas e costumes. Em seu quarto longa-metragem, porém, ele resolveu mudar o tom de seus trabalhos anteriores e falar de amor. Com um registro bem mais próximo de sua experiência na televisão do que em seus bem-sucedidos trabalhos regionais mostrados na telona, ele lançou, em 2008, a comédia romântica "Romance", que escreveu em parceria com o também cineasta Jorge Furtado. Ao contrário do que se poderia esperar, porém, o filme não alcançou o êxito merecido, ficando relegado a um segundo plano na carreira do diretor. Injustiça que fica evidente quando se percebe a inteligência do roteiro, a delicadeza das interpretações do elenco excepcional e a fina ironia que permeia a história de amor entre dois atores que veem suas vidas transformadas pelo sucesso profissional.

Pedro (Wagner Moura em tom romântico a anos-luz de distância do Capitão Nascimento de "Tropa de elite") é um ator e diretor de teatro idealista, que acredita na superioridade do palco em relação à televisão. Durante os ensaios de sua nova peça, uma montagem de "Tristão & Isolda", ele se apaixona por sua colega de cena, Ana (Letícia Sabatella, excelente em todas as fases de sua personagem), que não tem as mesmas regras rígidas em relação à sua profissão. O romance idílico entre eles entra em crise quando Ana aceita fazer uma novela, traindo os ideais do namorado. Separados, eles seguem suas carreiras mas voltam a se encontrar quando ela sugere que ele seja o diretor de um especial de fim de ano da emissora onde ela trabalha. Mantendo-se fiel ao que acredita, Pedro aceita o trabalho, mas resolve criar uma versão de "Tristão & Isolda" no sertão nordestino, para desespero do executivo Danilo (José Wilker). Durante as filmagens, Ana e Pedro voltam a se aproximar, mas encontram dificuldades em retomar o romance graças a Orlando (Vladimir Brichta) - ator coadjuvante que se apaixona por ela - e Fernanda (Andréa Beltrão), assistente de Ana responsável pela escolha de Orlando para o elenco.


Mergulhando nos bastidores do mundo do teatro e da televisão, Guel Arraes mostra com desenvoltura o funcionamento de dois universos tão semelhantes quanto distantes. Através do idealismo de Pedro, o roteiro discute as dificuldades que o teatro tem de manter-se puro e independente do apelo da televisão - capaz de transformar uma atriz em estrela sem ao menos saber de seu real talento. Pela ótica de Ana, é possível perceber o preconceito nada velado em relação aos artistas que buscam o reconhecimento e o sucesso financeiro e profissional dividindo sua carreira entre o palco e os sets de gravação. Apesar de claramente demonstrar mais simpatia pelo modo ético de Pedro, o cineasta jamais impõe uma verdade universal, preferindo apostar na inteligência do público, que, em meio a isso, se diverte com alguns diálogos impagáveis - em especial quando entra em cena o ator/estrela Rodolfo (Marco Nanini, mais uma vez sensacional) - e algumas passagens lindamente românticas, que apresenta uma química perfeita entre Wagner Moura (cada vez melhor ator) e Letícia Sabatella (deslumbrante e com ótimo timing). Não bastasse tudo isso, os roteiristas ainda encontraram um jeito de contar sua história de forma a citar outros clássicos do teatro - como "Cyrano de Bergerac" - sem que o artifício soe um truque barato ou demonstração estéril de eruditismo.

Engraçado, sutil e exalando paixão, "Romance" peca apenas por parecer demais com um especial de televisão, armadilha da qual Guel sempre conseguiu escapar em seus trabalhos anteriores. Afora isso, é uma delícia de se assistir, repleto de momentos de grande inspiração e dono de um final criativo e capaz de estampar um sorriso no rosto da plateia. Os detratores não souberam entender e os que perderam sempre tem a chance de reparar o erro.

terça-feira

O AUTO DA COMPADECIDA

O AUTO DA COMPADECIDA (O auto da Compadecida, 2000, Globo Filmes/Lereby Productions, 104min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão, João Falcão, peça teatral de Ariano Suassuna. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Ubiraci Motta, Paulo Henrique Farias. Música: Sá Grama. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Lia Renha. Produção executiva: Eduardo Figueira. Produção: Guel Arraes. Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Virginia Cavendish, Luís Mello, Paulo Goulart, Lima Duarte, Rogério Cardoso, Marco Nanini, Denise Fraga, Diogo Vilela, Bruno Garcia, Enrique Diaz, Maurício Gonçalves. Estreia: 10/9/00

Ousadia e criatividade foram os dois adjetivos mais comumente ligados à figura do diretor Guel Arraes quando ele começou a mostrar sua personalidade artística na TV Globo, assinando desde telenovelas - como a primeira versão de "Guerra dos sexos", ao lado de Jorge Fernando - até séries que brincavam com a linguagem televisiva e tinham a cara de seu tempo - exemplo da saudosa "Armação ilimitada". Tão logo seu nome tornou-se uma marca reconhecida pelo público que buscava qualidade mesmo na limitada seara da TV aberta (notadamente menos afeita a experimentações estilísticas), era questão de tempo até que o cinema o chamasse com seu canto de sereia. A estreia na tela grande, então, aconteceu com um pé em cada barco: produzido pela Globo Filmes - que depois o exibiria expandido em forma de minissérie - o primeiro filme de Arraes, "O auto da Compadecida" tinha um brilhante elenco de nomes conhecidos pelo grande público, um aparato técnico caprichado e a certeza de sucesso em um meio ou outro. A boa notícia? Ao contrário de muitos outros nomes que saíram da televisão pro cinema, Guel mostrou-se plenamente ciente das diferenças entre as duas linguagens e apresentou à audiência um filme de primeiro nível, capaz de orgulhar e deixar qualquer detrator do cinema nacional sorrindo de orelha a orelha.

Sem abrir mão de suas marcas registradas - sua linguagem televisiva já utilizava frequentemente elementos cinematográficos, como deixa claro a série "A comédia da vida privada" - Guel Arraes não fugiu de mostrar o Brasil em seu filme de estreia. Utilizando-se do texto sensacional de Ariano Suassuna para seu "Auto da Compadecida" (montado pela primeira vez em 1956 e já filmado em 1969 com Regina Duarte no papel de Nossa Senhora), o diretor mesclou a trama que unia dois companheiros do Nordeste brasileiro e suas desventuras para sobreviver ainda que às custas de mentiras e golpes com situações de outras obras de Suassuna - o que seria pretexto para encontrar papel para sua mulher, a atriz Virginia Cavendish, porém, acabou mostrando-se providencial para dar um tom romântico inexistente no texto original. Com um ritmo impecável, recheado de boas ideias visuais e piadas no tom exato entre ingenuidade e malícia, o roteiro - coescrito pelo cineasta e pelo casal Adriana e João Falcão - é um achado, coerente de tal maneira a funcionar quando se assiste tanto à versão em formato de minissérie quanto em seus 104 minutos que chegaram aos cinemas - e, para surpresa de muitos, levaram multidões às salas de cinema.


Os protagonistas de "O auto da Compadecida" são João Grilo e Chicó (em atuações inesquecíveis de Matheus Nachtergaele e Selton Mello), dois pobres coitados que tentam ganhar a vida no sertão nordestino. Sobrevivendo de golpe em golpe, os dois se utilizam da enorme criatividade de João Grilo e da covardia de Chicó para armar situações absurdas, como o funeral de um cachorro - que envolve até mesmo o ganancioso clero da região. Entre as tentativas de Chicó de conquistar o amor da doce Rosinha (Virginia Cavendish) e a cilada em que ambos se metem quando se envolvem com o perigoso cangaceiro Severino de Aracaju (Marco Nanini), eles acabam sendo assassinados. No purgatório, são julgados por todos os seus golpes - assim como várias pessoas que cruzaram seu caminho - e, entre Jesus Cristo (Maurício Gonçalves) e o Diabo (Luís Mello), recorrem à bondade de Nossa Senhora (Fernanda Montenegro) para merecerem uma chance de redenção.

Equilibrando-se entre o humor matreiro de Suassuna - autor que retratou com poesia e malandragem sua região em sua obra - e um carinho visível por seus personagens, Guel Arraes constroi uma primeira obra cinematográfica impecável. O roteiro é primoroso, a direção é certeira e o elenco dispensa comentários. Fernanda Montenegro enaltece a tela sempre que aparece, com sua presença forte e carismática. Diogo Vilela e Denise Fraga ameaçam roubar o filme a cada momento. Marco Nanini é, sem dúvida, um dos grandes atores brasileiros e cria um Severino de Aracaju esplêndido - assim como Enrique Diaz faz com seu capanga de confiança. Mas, mesmo com um elenco de apoio nunca aquém do genial, "O auto da Compadecida" jamais teria a mesma força e o mesmo resultado sem Matheus Nachtergaele e Selton Mello: com uma química fantástica e atuações irretocáveis, eles fazem do filme uma produção memorável, engraçado e comovente na medida certa.

sábado

LISBELA E O PRISIONEIRO

LISBELA E O PRISIONEIRO (Brasil, 2003, Globo Filmes,106min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Pedro Cardoso, Jorge Furtado, peça teatral de Osman Lins. Fotografia: Uli Burtin. Montagem: Paulo Henrique Farias. Música: João Falcão, André Moraes. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte: Claudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Tereza Gonzalez, Mauro Lima, Ivan Teixeira. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Selton Mello, Débora Falabella, Marco Nanini, Virginia Cavendish, Bruno Garcia, Tadeu Mello, André Mattos, Lívia Falcão. Estreia: 22/8/03

Empolgado com a gigantesca receptividade de seu “O auto da Compadecida” – que nasceu como minissérie de TV e foi parar nas telas de cinema com igual sucesso – o diretor Guel Arraes não quis se arriscar em seu trabalho seguinte. Utilizando-se dos mesmos elementos que consagraram “Compadecida”, a comédia romântica “Lisbela e o prisioneiro” atinge um grau bastante louvável de acertos, ainda que seu diretor não tenha conseguido livrar-se totalmente dos tiques que traem sua inconfundível origem televisiva.

Baseado em uma peça de teatro escrita por Osman Lins – e que Arraes já havia adaptado para a TV na década de 90 em formato de especial – “Lisbela e o prisioneiro” conta a divertida história de amor entre Leléu (o sempre ótimo Selton Mello) e Lisbela (a bela e delicada Débora Falabella) no Nordeste brasileiro. Ele é um mascate que freqüenta cidades do interior enganando moradores e seduzindo esposas alheias. Ela é a filha única de um delegado viúvo (vivido com graça por André Mattos) e que sonha em viver um grande amor como os dos filmes a que assiste no cinema ao lado do noivo, o arrogante Douglas (Bruno Garcia, impagável). Quando os dois se encontram logo caem de amores um pelo outro, mas terão muitos obstáculos pela frente até poderem viver felizes para sempre.



Na verdade, gostar de “Lisbela e o prisioneiro” não é difícil. O roteiro – co-escrito pelo diretor, pelo cineasta Jorge Furtado e pelo ator Pedro Cardoso – é engraçado, ágil e esperto, valorizando sempre o que há de mais divertido em cada cena; a trilha sonora é uma personagem à parte, ainda que Arraes exagere em sua utilização em determinados momentos – a bela “Você não me ensinou a te esquecer”, gravada por Caetano Veloso tornou-se hit – e Guel é, sem dúvida, um diretor criativo e inteligente, que explora com sabedoria um elenco exemplar. Enquanto Selton Mello mais uma vez se mostra um dos melhores atores de sua geração e Débora Falabella encanta com a meiguice de sua personagem, a galeria de coadjuvantes ameaça roubar a qualquer cena em que aparecem, e isso serve tanto para intérpretes de papéis verdadeiramente pequenos – como Tadeu Mello, engraçadíssimo como um guarda em vias de consumar seu casamento fajuto – quanto para monstros sagrados como Marco Nanini, que engole tudo à sua volta na pele do matador Frederico Evandro, que busca limpar sua honra assassinando Leléu.

O problema de “Lisbela e o prisioneiro” – e pode-se dizer que é o único, ainda que bastante grande – é que ele ainda se demonstra muito preso à estética da televisão. Em inúmeros momentos, a impressão que se dá é que o público está diante de um especial global, tal a sucessão de assinaturas do veículo, como o excesso de closes e a trilha sonora que, apesar de bem produzida, acentua a impressão de ter sido criada apenas com a intenção de vender CDS. O exagero em tramas paralelas – o que inclui a desnecessária personagem de Virginia Cavendish como uma apaixonada por Leléu – tampouco ajuda o filme, trancando o desenvolvimento da história central e estendendo a duração sem que haja necessidade para tanto.

“Lisbela e o prisioneiro” é um típico produto de seu diretor. Para bem ou para o mal, Guel Arraes consolida uma maneira de filmar que aproxima o Brasil dos brasileiros de forma leve, engraçada e leve, sem o peso – necessário, por vezes – de obras sisudas e aclamadas como “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”. É uma vertente das mais populares da retomada do cinema nacional, mas corre o risco de repetir-se indefinidamente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...