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quinta-feira

ALIANÇA DO CRIME

 


ALIANÇA DO CRIME (Black Mass, 2015, Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth, livro de Dick Lehr, Gerard O'Neill. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Tom Holkenborg. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Stefania Cella/Tracey Doyle. Produção executiva: Brett Granstaff, Gary Granstaff, Phil Hunt, Peter Mallouk, Ray Mallouk, Steven Mnuchin, James Packer, Brett Ratner, Compton Ross, Christopher Woodrow. Produção: Scott Cooper, John Lesher, Patrick McCormick, Brian Oliver, Tyler Thompson. Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, Juno Temple. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Veneza)

É difícil assistir a qualquer cena de "Aliança do crime" sem que o cinema de Martin Scorsese surja na memória do espectador. Não por sua qualidade (apenas razoável), mas porque, de uma forma ou outra, o cineasta nova-iorquino criou uma espécie de cânone em relação ao subgênero de filmes de gângster - ao menos aqueles menos épicos - do qual poucos diretores conseguem escapar. E, apesar da violência de sua trajetória e do número de vítimas que deixou em seu caminho, James "Whitey" Bulger - protagonista do filme de Scott Cooper - jamais poderia ser considerado um personagem glamoroso. Provavelmente o mais notável criminoso da história de South Boston (e irmão de um senador) foi beneficiado, durante anos, por um acordo com o FBI - que permitiu a ele expandir seus negócios escusos e aumentar sua lista de homicídios - e, em mãos ousadas como as de Scorsese poderia render uma pequena obra-prima (não por acaso há ecos de sua história em "Os infiltrados", vencedor do Oscar de 2007). Comandado por Scott Cooper, porém, o roteiro baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O'Neill acabou esbarrando em uma direção quase apática - tão influenciada por outras produções semelhantes que acaba por tornar-se pouco memorável, apesar do caprichado trabalho de Johnny Depp no papel central.

Substituindo Guy Pearce - que abandonou o projeto - e dedicando a ele um cuidado que chegou a planejar um encontro (nunca realizado) com o verdadeiro Bulger, Depp impressionou os consultores do filme, antigos associados do criminoso, parte da imprensa especializada (que o indicou a um Critic's Choice Awards) e de seus colegas de ofício (que o fizeram concorrer a um prêmio do Sindicato de Atores). Seu desempenho é realmente potente, enfatizado por uma caracterização impecável, que inclui a maquiagem, o figurino e a expressão corporal que o afastam de boa parte dos personagens exóticos que marcam sua carreira: por incrível que pareça, apesar da monstruosidade de seus atos, Bugler encontra, no trabalho de seu protagonista, um tom que evita o maniqueísmo absoluto - algo que nem mesmo o roteiro morno consegue impedir. Em um elenco repleto de ótimos atores - dentre os quais Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons e Joel Edgerton - o normalmente exagerado Depp consegue destacar-se sem apelar para a caricatura e entrega sua melhor atuação desde "Donnie Brasco" (1997) - coincidentemente outro filme sobre um infiltrado na máfia. Desta vez do lado do crime, o ator preferido de Tim Burton deita e rola com seu personagem, mesmo que o ritmo imposto por Cooper - que dirigiu "Coração louco" (2009) e deu a Jeff Bridges seu merecido Oscar - seja contemplativo demais para uma produção do gênero.

 

Assim como em seu "Tudo por justiça" (2013), em que a ação transcorria em um ritmo próprio, sem pressa e concentrado mais em seus personagens do que na narrativa propriamente dita, Scott Cooper imprime a "Aliança do crime" uma pegada menos ágil e mais dramática. Ainda há violência - é um filme sobre gângsters, afinal de contas -, mas ela não se restringe apenas a tiros, sangue e agressões físicas: interessa mais ao cineasta o turbilhão emocional de seus personagens, afetados (ou não) pela tensão constante à sua volta. Bulger não é uma ilha, e cercado por familiares e associados, enreda a todos em sua rotina de fora da lei, desde a mulher, Lindsey Cyr (Dakota Johnson) - um relacionamento fadado a uma tragédia que envolve o filho pequeno - até o irmão, Billy (Benedict Cumberbatch), senador que põe a própria carreira em risco devido a seus laços de sangue. É, aliás, o relacionamento de Bulger com o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton em papel herdado de Tom Hardy) que empurra a trama: amigo de infância do temido bandido, Connolly convence seus superiores a fazer um acordo com ele, dando-lhe relativa liberdade de ação em troca de informações sobre a máfia local (um inimigo em comum). Aos poucos Bulger vai se tornando mais e mais poderoso - mas as coisas mudam quando um novo procurador é designado para a área. Disposto a não mais fechar os olhos para os crimes do gângster, Fred Whysack (Corey Stoll) dá início à derrocada de um império.

Mesmo que o ritmo de "Aliança do crime" fuja da agilidade esperada de um filme do gênero - especialmente quando o público já está devidamente acostumado à adrenalina de obras como "Os bons companheiros" (1990) -, o filme de Scott Cooper cumpre boa parte do que promete. O roteiro por vezes confunde com seu excesso de personagens e a edição repleta de flashbacks do experiente David Rosenbloom nem sempre dá conta de lidar com tanta informação, mas é inegável que a atuação hipnotizante de Johnny Depp e a trama em si (inacreditável por natureza) são elementos fortes o bastante para sustentar uma produção que tem o cuidado de recriar a Boston dos anos 1970 com precisão - aplausos também para o figurino caprichado de Kasia Walicka Maimone (que depois faria parceria com Steven Spielberg em "Ponte dos espiões", de 2015) e a trilha sonora, que inclui Rolling Stones, Fletwood Mac, Blondie e Ella Fitzgerald. No saldo final, "Aliança do crime" pode não ser uma obra-prima, mas oferece ao espectador um conjunto suficiente de elementos para mantê-lo diante da tela e aproveitar suas inúmeras qualidades.

sábado

A ÓRFÃ


A ÓRFÃ (Orphan, 2009, Warner Bros./Dark Castle Entertainment, 123min) Direção: Jaume Collet-Serra. Roteiro: David Leslie Johnson, estória de Alex Mace. Fotografia: Jeff Cutter. Montagem: Tim Alverson. Música: John Ottman. Figurino: Antoinette Messam. Direção de arte/cenários: Tom Meyer/Daniel Hamelin, Martine Giguère-Kazermichuk, David Laramy, Cal Loucks. Produção executiva: Don Carmody, Michael Ireland, Steve Richards. Produção: Jennifer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Susan Downey, Joel Silver. Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, Isabelle Fuhrman, CCH Pounder, Jimmy Bennet, Margo Martindale, Aryana Engineer. Estreia: 21/7/2009

Nada como uma boa polêmica para chamar a atenção para um filme, certo? Que o digam os produtores de "A órfã", suspense produzido por (entre outros) Leonardo DiCaprio e que estreou no verão norte-americano de 2009. Antes mesmo de seu lançamento, o filme dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra conseguiu provocar indignação junto a entidades responsáveis por adoções. O motivo? Uma linha de diálogo mostrada no trailer. "Deve ser difícil amar um filho adotivo como se ele fosse seu próprio...", dizia a protagonista infantil da história, escandalizando (com certa razão) os ativistas e funcionando como um marketing inesperado e muito eficiente. Tal linha foi excluída do trailer - mas não do filme - e acabou despertando a curiosidade de muita gente: não por acaso, rendeu quase 80 milhões de dólares ao redor do mundo (metade disso só nos EUA) e entrou no inconsciente coletivo de forma como poucas produções do gênero são capazes de fazer a longo prazo. A trajetória de Esther, a menina órfã que transforma o sonho da adoção em um pesadelo familiar, tornou-se um dos filmes de suspense mais populares de sua época - e a boa notícia é que, apesar de alguns pequenos tropeços, merece toda essa repercussão.

Dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra - que posteriormente iniciou uma prolífica parceria com Liam Neeson em uma série de filmes de ação -, "A órfã" caiu no gosto popular por conseguir unir, em um único produto coeso, um filme de gênero, com todos os seus cânones, e um drama psicológico com desdobramentos sexuais surpreendentes para uma produção comercial. Seu tom adulto e a seriedade do roteiro - inspirado livremente em um caso real ocorrido na Ucrânia em 2010 – destoam da tendência de buscar plateias cada vez mais jovens (e, por conseguinte, menos exigentes e predispostas a banhos de sangue inconsequentes). Ao optar por uma trama quase elegante em seu desenvolvimento, Collet-Serra tenta fugir dos clichês – e consegue, em boa parte do tempo, principalmente por conta da direção segura, do roteiro que entrega os elementos aos poucos e do elenco acima de qualquer suspeita. Aclamados pela crítica e conhecidos do público, Vera Farmiga e Peter Sarsgaard oferecem ao resultado final um prestígio muito oportuno – e o fato de Leonardo DiCaprio ser um dos produtores não atrapalha em nada.

 

Farmiga e Sarsgaard vivem Kate e John Coleman, um casal jovem que vive o luto de ter perdido um bebê recém-nascido. Mesmo com outros dois filhos – o pré-adolescente Daniel e a pequena Max, que tem problemas de audição -, os entristecidos pais decidem aumentar a família e enterrar sua dor. A escolhida dos dois é Esther (Isabelle Fuhrmann), uma menina de nove anos educadíssima e gentil, que encanta John com seus modos nobres e inteligência. O que deveria ser um período de felicidade, porém, esbarra em uma série de problemas inesperados: aos poucos, Esther começa a demonstrar uma personalidade arredia e manipulativa – especialmente com as outras crianças – e, percebendo a instabilidade do casamento de seus novos pais, inicia uma perigosa batalha de nervos que a coloca em rota de colisão com Kate, que tenta recuperar-se de uma séria questão com o álcool.

Qualquer coisa que se saiba além da premissa inicial de “A órfã” pode ser prejudicial à sensação de descobrir a virada do roteiro – capaz de surpreender àqueles que tiverem a sorte de escapar dos spoilers. A mudança de rumo que surge no ato final – e deixa os atos anteriores de Esther quase previsíveis – é o grande trunfo do filme, mas seria injusto creditar apenas a ela o sucesso do resultado final. Orquestrado com delicadeza e grande senso de timing e estética, “A órfã” é um filme que resiste inclusive à uma revisão, graças principalmente ao brilhantismo de Collet-Serra em levar a sério a história que conta e evitar a tentação dos sustos fáceis. Mesmo que derrape em alguns lugares-comuns no meio do caminho, ele consegue fazer de uma produção que poderia ser apenas mais um exemplar raso de um gênero pouco afeito a experimentos uma pequena e marcante pérola.

EXPERIMENTOS

EXPERIMENTOS (Experimenter, 2015, BB Films Production, 98min) Direção e roteiro: Michael Almereyda. Fotografia: Ryan Samul. Montagem: Kathryn J. Schubert. Música: Bryan Senti. Figurino: Kama K. Royz. Direção de arte/cenários: Deana Sidney/Nadya Gurevich. Produção executiva: Lee Broda, Christa Campbell, Trevor Crafts, Rogerio Ferezin, Lati Grobman, Mark Myers, Jeff Rice, Cláudio Szajman. Produção: Danny A. Abeckaser, Michael Almereyda, Fabio Golombek, Isen Robbins, Aimee Schoof, Uri Singer. Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Anthony Edwards, John Leguizamo, Anton Yelchin, Lori Singer, Dennis Haysbert, Jim Gaffigan, John Palladino. Estreia: 25/01/15 (Festival de Sundance)

O nome do psicólogo Stanley Milgram pode não dizer muito à maioria das pessoas, mas em 1961, mesmo propenso a sofrer todo tipo de crítica de colegas e da população em geral, ele conduziu uma série de experiências a respeito do conformismo e do respeito incondicional dos seres humanos em relação a vozes de autoridade - como forma de entender, ainda que vagamente, o que levou gente aparentemente pacífica a condescender com o holocausto alemão na II Guerra Mundial. Sua série de testes - que foi expandida para outros tipos de questionamento conforme o tempo passava - é a base do roteiro de "Experimentos", filme escrito e dirigido por Michael Almereyda e que estreou no Festival de Sundance de 2015 - para depois fazer o circuito de festivais de cinema e só chegar a um lançamento oficial em outubro do mesmo ano. Estrelado pelo sempre competente Peter Sarsgaard e pela sumida Winona Ryder, "Experimentos" é uma produção inteligente e criativa, mas que peca por não aprofundar a personalidade de seu protagonista e focar-se muito mais em seus polêmicos trabalhos.

Sarsgaard, que já havia interpretado um pesquisador no ótimo "Kinsey: vamos falar de sexo?" (2004), nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Milgram, que, tentando encontrar uma relação de paz com sua origem judaica, se torna um dos psicólogos mais controversos de sua época. Logo de cara o público já descobre os motivos de tanta discussão: escondido em um anexo à uma sala comercial, Milgram analisa suas cobaias humanas, que nem de longe desconfiam estar sendo observados. Homens e mulheres, de idades e classes sociais diferentes, aceitam dar choques elétricos em uma pessoa desconhecida toda vez que ela errar a resposta para um teste simples de múltipla escolha - mesmo que, atrás da parede, a vítima peça para que a tortura pare. Na verdade, não existem choques, mas o interesse do psicólogo é confirmar como a maioria esmagadora da população não consegue rebelar-se contra ordens superiores ainda que isso cause dor e sofrimento aos outros. Taxado de sádico e desprezado por seus colegas, ele insiste em tentar provar seus pontos de vista com outras experiências - algumas bem menos radicais, mas igualmente provocativas e surpreendentes.


Com uma narrativa que foge do convencional quando quebra a barreira da quarta parede e faz com que Milgram converse com o espectador, explicando suas teorias e contando sua história de amor com a esposa, Sasha (Winona Ryder, pouco explorada), "Experimentos" é um filme de fácil diálogo com a plateia, mas que não deixa de causar certo estranhamento justamente por sua criatividade estilística. Por mesclar o discurso em primeira pessoa do protagonista com momentos narrativos tradicionais, o roteiro de Almereyda parece perder o foco em determinadas situações - o que acarreta problemas de ritmo que somente o talento do elenco consegue disfarçar. Além de Sarsgaard e Winona, rostos conhecidos do público fazem participações especiais - caso de John Leguizamo, Anthony Edwards, Anton Yelchin e Dennis Haysbert (na pele do ator Ossie Davis, que estrelou, ao lado de William Shatner, um filme baseado no livro mais famoso de Milgram) - e, apesar do interesse pela trama sofrer um baque no terço final (quando Sarsgaard apela para uma barba pouco convincente e seus experimentos deixam de ter o mesmo impacto), o filme é um passatempo bastante inteligente e sensível.

Premiado no Festival de Cinema de Los Angeles, "Experimentos" é uma produção que foge radicalmente dos orçamentos gigantescos para contar uma história importante e que vale a pena ser conhecida. Peter Sarsgaard está extremamente à vontade em cena, e sua parceria com Winona Ryder - já uma atriz madura, discreta e minimalista - é um acerto, ainda que pouco seja explorada. Conhecido por "Nadja" (94), um filme de vampiros que tornou-se cult na década de 90, Michael Almereyda assina um filme despretensioso, barato e eficaz. Não é marcante ou impactante como poderia, mas é um trabalho honesto e mais uma grande atuação de Sarsgaard - um ator subestimado e ainda pouco aproveitado em Hollywood.

quarta-feira

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

terça-feira

JACKIE

JACKIE (Jackie, 2016, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Noah Oppenheim. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Sebastián Sepúlveda. Música: Mica Levi. Figurino: Madeline Fontaine. Direção de arte/cenários: Jean Rabasse/Véronique Melery. Produção executiva: Martine Cassinelli, Charlie Corwin, Wei Han, Jayne Hong, Jennifer Monroe, Howard Owens, Lin Qi, Pete Shilaimon, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Pascal Caucheteaux, Scott Franklin, Ari Handel, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell. Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Carrol Lynch, Richard E. Grant, John Hurt, Beth Grant. Estreia: 07/9/16 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Natalie Portman), Trilha Sonora Original, Figurino

Quem conhece a filmografia do cineasta chileno Pablo Larraín já sabe o que esperar de "Jackie": não uma cinebiografia convencional da mais famosa primeira-dama dos EUA, mas uma tentativa de retratar diferentes ângulos de sua personalidade a partir da morte de John F. Kennedy, um dos mais traumáticos eventos da história do país, ocorrido em novembro de 1963, em Dallas. Com base em uma entrevista concedida pela jovem viúva ao repórter Theodore H. White - da revista Life - pouco depois do trágico acontecimento, o roteiro de Noah Oppenheim se recusa a seguir uma linha narrativa tradicional e constrói, através de silêncios, meias-verdades e declarações da protagonista, um perfil não completo, mas controverso e complexo de uma das figuras mais admiradas e influentes do século XX. Contando com uma atuação irretocável de Natalie Portman no papel central e uma reconstituição meticulosa de alguns momentos cruciais da história da família Kennedy durante sua estada na Casa Branca, "Jackie" é um filme acima da média, ainda que possa causar certo estranhamento àqueles que procuram uma produção nos moldes acadêmicos. Mas, como já afirmado, quem conhece a obra de seu diretor não irá se surpreender tanto assim.

Crítico ferrenho da política e da sociedade chilena, Pablo Larraín assinou filmes polêmicos e crus - como "Tony Manero" (2008) e "Post mortem" (2010) -, o indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira "No" (2012) e o controverso "O clube" (2015), que concorreu ao Golden Globe na mesma categoria. Em todos eles, há a tendência em tocar em feridas ainda não cicatrizadas - sejam elas quais forem, desde pedofilia na Igreja Católica até a traumática ditadura de Pinochet. Distante geográfica e emocionalmente da trajetória de Jacqueline Kennedy, Larraín pode exumar sem medo suas contradições e mecanismos de defesa, apresentando uma protagonista que deixa vislumbrar seus medos e inseguranças somente em momentos solitários - e em uma ou outra hesitação na voz e no olhar durante a famosa entrevista (no filme o repórter, vivido por Billy Crudup, não tem nome e nem a revista Life é citada, para maior liberdade artística). Louvada como ícone fashion e uma das mulheres mais elegantes do mundo, no filme de Larraín a elegante Jackie mostra outras facetas de si mesma: a mãe extremada e preocupada com o destino dos filhos, a viúva chocada com o fim trágico do marido diante de seus olhos, a primeira-dama exemplar posta na angustiante situação de ver-se desamparada e a mulher altiva que evita demonstrar sentimentos exagerados para o povo ainda aturdido com toda a situação. Natalie Portman se encarrega de dar vida a todas às nuances propostas pelo roteiro, mostrando que alguns males realmente vem para o bem: a primeira opção para o papel era Rachel Weisz, na época em que o projeto era do cineasta Darren Aronofsky - que dirigiu Portman em "Cisne negro" e se manteve como produtor mesmo depois de pular fora da direção: Weisz é uma boa atriz, mas Natalie simplesmente desaparece na pele de Jackie, em um trabalho de imersão que justifica plenamente sua indicação ao Oscar.


Amparada por uma caracterização impecável - em especial o figurino de Madelie Fontane, também concorrente ao Oscar - e pela decisão de Larraín em utilizar primordialmente os primeiros takes de cada cena e filmar com uma câmera de mão (como forma de extrair as emoções de maneira mais orgânica e claustrofóbica possível), a atuação de Natalie Portman faz esquecer que, na verdade, ela é bastante diferente fisicamente da verdadeira Jacqueline Kennedy. Sua empostação de voz, postura e trejeitos convencem o público assim que ela entra em cena, ainda abalada pela morte do marido, mas tentando, de todas as formas, manter uma classe e uma força interior que possa inspirar os fãs. Seus diálogos com o repórter mostram uma mulher estoica e conformada - e é aí que o roteiro dá seu pulo do gato, com flashbacks reveladores tanto de seus momentos imediatamente posteriores à morte do marido quanto de outra ocasião célebre: o tour televisionado pela Casa Branca, que aproximou a família presidencial do povo e tornou-a quase uma espécie de família real norte-americana. Misturando cenas reais do programa com takes filmados com o elenco liderado por Portman, Pablo Larraín volta a brincar com a dicotomia real/fictício que já havia imposto a "No", e a edição magistral torna a experiência ainda mais satisfatória.

Sempre que as imagens reais de Jacqueline, John Kennedy e seu entorno surgem na tela, Pablo Larraín faz questão de intercalar com cenas reconstituídas, explorando ao máximo o extremo cuidado em sua recriação e a mágica de transformar alguns momentos icônicos da história dos EUA em cinema de qualidade. Se Natalie Portman traduz a protagonista com perfeição, não se pode deixar de elogiar também o trabalho de Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy: igualmente pouco semelhante ao irmão do presidente (e que também foi assassinado, em 1968), Sarsgaard convence facilmente a plateia tão logo aparece, tamanha o seu talento em desaparecer sob o gestual formal e público do personagem. É também notável como o cineasta atinge plenamente seu objetivo de mostrar ângulos diversos de seus personagens, deixando a audiência vislumbrar, ocasionalmente, as pessoas por trás dos ícones - é para isso que estão em cena personagens cruciais, como a assistente e melhor amiga de Jackie, Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), e um padre católico que a ajuda a compreender e lidar com a dor da perda (John Hurt em um de seus últimos trabalhos): esses elos de Jackie com o mundo exterior lhe dão a chance de expor seus sentimentos, e o filme cresce a cada momento em que eles estão presentes, graças à inteligência dos diálogos e da sensibilidade do diretor.

Com uma bela e sutil trilha sonora - que também concorreu a uma estatueta dourada - e um respeito quase reverente à sua protagonista, "Jackie" é um filme que pode não agradar a todos os públicos, mas que resiste bravamente à tentação de ser mais uma compilação de fofocas de bastidores e se torna um retrato interessante e elegante de uma das figuras femininas mais importantes do século XX. Não é o grande filme que poderia ser, mas é bastante recomendável a quem procura cinema de qualidade.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...