terça-feira

MEU PASSADO ME CONDENA

MEU PASSADO ME CONDENA (Victim, 1961, Allied Film Makers, 100min) Direção: Basil Dearden. Roteiro: Janet Green, John McCormick. Fotografia: Otto Heller. Montagem: John D. Guthridge. Música: Philip Green. Direção de arte: Alex Vetchinsky. Produção: Michael Relph. Elenco: Dick Bogarde, Sylvia Sims, Dennis Price, Anthony Nicholls, Peter Copley, Peter McEnery, John Barrie, John Cairney. Estreia: 08/61

O início é aflitivo. Um jovem rapaz inglês escapa desesperadamente da polícia e procura vários amigos na busca de ajuda para uma fuga iminente, sem, no entanto, conseguir com nenhum deles o necessário para uma viagem que lhe parece imprescindível. Demora um pouco até que o público finalmente consiga entender o que está se passando diante de seus olhos: Jack Barrett (Peter McEnery) é um homossexual que roubou uma considerável quantia da empresa onde trabalha para pagar uma chantagem. Explica-se: no início da década de 60, homossexualidade ainda era um crime passível de prisão, na Inglaterra - com o mesmo peso criminal de assalto à mão armada, por exemplo. Quando Barrett se suicida na cadeia, os policias descobrem sua ligação com Melvin Farr (Dick Bogarde), um exemplar advogado de 40 anos, casado e em ascensão na carreira, almejando inclusive uma vaga na Câmara dos Lordes. Torturado pela culpa de não ter atendido as ligações de Barrett antes de sua trágica morte, Farr - que teve um envolvimento emocional com o rapaz e cuja foto era o material da chantagem - resolve descobrir, por conta própria e com a ajuda de um dos amigos do rapaz morto, a identidade do chantagista.

Em ritmo de suspense hitchcockiano - o que inclui até mesmo o cuidado com detalhes irônicos, como uma reprodução do Davi de Michelângelo na parede de um dos chantagistas - o cineasta Basil Dearden causou polêmica com seu "Meu passado me condena", lançado em uma época em que o tema ainda era considerado um grande tabu, especialmente na Inglaterra, onde se passa a história. O roteiro inteligente mescla a trama policial da busca pelo chantagista - um criminoso que se aproveitava do fato de homossexualidade ser igualmente um crime, ironicamente menos aceito pelo status quo - com insights brilhantes sobre a sociedade de então (e assustadoramente distante apenas 50 anos de hoje). Desfilam pela tela um festival de preconceitos - velados ou não - que desenha de forma indelével uma parcela da sociedade muito mais doente do que os considerados assim. Surge o barman que trata os gays de forma amigável apenas por motivos comerciais mas que não hesita em fazer piadas pelas costas. Aparece o investigador de polícia que não vê mal nenhum em "ser puritano" - até ouvir de seu superior que houve um tempo em que isso também era contra a lei. E há o cunhado amigável que vira as costas assim que descobre a verdade sobre o marido da irmã - além da esposa de um dos amigos de Barrett, que o manda "ficar junto com os seus".


O desfile de preconceitos de "Meu passado me condena" - felizmente expostos sob uma lupa com objetivos claros de mostrá-los como a verdadeira anomalia de uma sociedade - apenas sublinha uma trama forte e contundente o bastante para que pudesse tranquilamente manter-se de pé sem eles. Dearden usa as convenções do thriller para contar uma história sobre discriminação, mas nunca deixa que lhe falte ingredientes para manter a audiência interessada em seu desfecho. O roteiro espalha pistas pelo caminho, apresenta suspeitos, surpreende o espectador constantemente com novas revelações - aquele homem aparentemente tão certinho no final de contas também é um alvo das chantagens - e, mais interessante de tudo, não tem vergonha de apostar na força do amor verdadeiro através da esposa de Farr, Laura, interpretada com convição e emoção por Sylvia Syms nas cenas mais comoventes do filme.

Se tem o mérito de ser o primeiro filme inglês a falar abertamente sobre homossexualidade e a chaga do preconceito, "Meu passado me condena" tem também a seu favor o carinho com que trata seus personagens. Todas as vítimas do chantagista, por exemplo, são vistos com ternura, com verdadeira compaixão e não como aleijões dignos de pena (o que poderia acontecer em mãos menos seguras). É particularmente emocionante ver como homens dignos, trabalhadores e honestos - alguns até mesmo de idade avançada - podiam ter suas vidas destruídas simplesmente por "amar errado". E a dignidade transmitida pelo filme deve muito à presença de Dick Bogarde, que ficou com um papel que foi cogitado até para James Mason, e entrega uma atuação visceral em sua discrição: são os olhos que falam por Melvin Farr, e neles se percebe claramente um turbilhão de dor, dúvidas e medo.

Em um período negro repleto de fundamentalistas cristãos que pregam o ódio, o preconceito, a discriminação e a violência contra os homossexuais, "Meu passado me condena" é obrigatório. Nunca um filme da década de 60 pareceu tão atual.

segunda-feira

O SOL POR TESTEMUNHA

O SOL POR TESTEMUNHA (Plein soleil, 1960, Robert et Raymond Hakim, 118min) Direção: René Clément. Roteiro: René Clément, Paul Gégauff, romance "O talentoso Ripley", de Patricia Highsmith. Fotografia: Henri Decae. Montagem: Françoise Javet. Música: Nino Rotta. Figurino: Bella Clément. Direção de arte: Paul Bertrand. Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim, Goffredo Lombardo. Elenco: Alain Delon, Maurice Ronet, Marie Laforêt, Billy Kearns, Erno Crisa. Estreia: 10/3/60

Em 1999, o cineasta e roteirista Anthony Minghella conquistou a crítica e o público com um suspense elegante, psicologicamente denso e interpretado com categoria por um elenco acima de qualquer suspeita que incluía Matt Damon, Jude Law e os oscarizados Philip Seymour Hoffman, Cate Blanchett e Gwyneth Paltrow. O filme, "O talentoso Ripley", era a adaptação quase fidelíssima de um romance policial clássico escrito pela mesma Patricia Highsmith que também legou ao cinema a história que inspirou Hitchcock e seu "Pacto sinistro", e, conforme o sabiam os mais informados e saudosistas, a refilmagem de um dos filmes franceses mais famosos e admirados dos anos 60. Estrelado por um galante e sedutor Alain Delon no auge da beleza, "O sol por testemunha" agradou em cheio até mesmo a própria Highsmith - que lamentou apenas a solução final do roteiro, que altera o romance original em nome de uma suposta moralidade que contradiz praticamente todo o tom niilista da trama engendrada com malícia e inteligência.

A história de "O sol por testemunha" é, logicamente, a mesma do filme de Minghella, salvo algumas alterações óbvias como a ausência da milionária vivida por Cate Blanchett na versão anos 90, que não existe no livro e servia para complicar ainda mais a já confusa teia de mentiras contada pelo protagonista, Tom Ripley. Enquanto no filme estrelado por Matt Damon o roteiro explicava passo a passo as circunstâncias que levaram o protagonista até a Itália atrás de um jovem bon vivant procurado por seu milionário pai, a obra de René Clément já começa em plena ação, mostrando os dois jovens (vividos por Delon e Maurice Ronet, semelhantes fisicamente mas radicalmente diferentes em suas almas) levando uma vida regada a festas, bebedeiras e diversões noturnas. Ripley - que está na Europa pago pelo pai de seu amigo Philippe - é constantemente humilhado pelo rapaz, a quem admira na mesma medida que inveja e, em um nível menos consciente, também odeia. Testemunhando a forma agressiva e egoísta com que Philippe trata até mesmo a sua noiva, a escritora Marge (Marie Laforêt), Ripley - que tem um talento fora do comum para a fraude e a mentira - acaba por desencadear uma tragédia que o obriga a assumir a identidade de seu suposto amigo e, consequentemente, envolver-se em uma espiral de violência e mentiras.


É quase impossível comparar "O talentoso Ripley" e "O sol por testemunha". Ainda que dividam o mesmo DNA, os dois filmes tem ambições distintas, soluções visuais diferentes - apesar de Minghella parecer ter querido homenagear Clemént em alguns momentos específicos de sua realização - e seguem caminhos bastante opostos na visão que tem de seu protagonista. Enquanto Minghella usava e abusava do tom homoerótico latente entre os dois protagonistas masculinos, Clemént praticamente ignora esse viés, concentrando-se basicamente em uma quase aversão de Ripley a Philippe, em uma espécie de inveja que justifica seus atos, por mais torpes e cruéis que possam parecer à primeira vista. O Ripley de Alain Delon soa bem mais frio e calculista do que o interpretado por Matt Damon: sua ambição é mais nítida, sem ser diluída por sentimentos mais perdoáveis como o ciúme e o amor. E, por melhor ator que seja, Matt Damon jamais conseguirá ter o mesmo charme magnético de Alain Delon - e talvez por isso a versão francesa da história aposte tanto no olhar extremamente azul de Delon, combinando com a cor do mar onde se dá o clímax da trama.

"O sol por testemunha" ditou moda à época de seu lançamento, incrementando até mesmo a venda dos sapatos brancos usados por seu ator central. Atravessou gerações como um dos filmes de suspense mais charmosos e surpreendentes de seu tempo e hoje, mesmo em comparação com produções caras e repletas de astros mundialmente conhecidos, se mantém como um filme forte e atraente. Mérito da direção segura de René Clemént, da bela trilha sonora do veterano Nino Rota, da esplêndida fotografia do Mediterrâneo e da hipnotizante atuação de Alain Delon - fatores que atenuam o final quase moralista proposto pelo roteiro. Um pecadilho insignificante diante de um clássico (ainda) moderno.

domingo

ANATOMIA DE UM CRIME

ANATOMIA DE UM CRIME (Anatomy of a murder, 1959, Carlyle Productions, 160min) Direção: Otto Preminger. Roteiro: Wendell Mayes, romance de Robert Traver. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Louis R. Loeffler. Música: Duke Ellington. Direção de arte: Boris Leven. Produção: Otto Preminger. Elenco: James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzarra, Arthur O'Connell, Eve Arden, George C. Scott. Estreia: 01/7/59

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (James Stewart), Ator Coadjuvante (Arthur O'Connell, George C. Scott), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem

Um filme que, em plena vigência do Código Hays - guia de regras morais impostas ao cinema americano entre os anos de 1930 e 1968 e que tentava controlar, de forma ditatorial, o conteúdo que se considerava desagradável ou impróprio ao público - se utilizava de termos como "calcinha", "estupro", "esperma", "penetração" e "vagabunda" já merecia figurar em qualquer lista de obras imprescindíveis para se melhor compreender a história do cinema hollywoodiano. Se o filme em questão ainda por cima for um drama de tribunal da melhor estirpe, adaptado do romance de um juiz da Suprema Corte, dirigido por um cineasta sério e estrelado por James Stewart e George C. Scott, então, tal merecimento se transforma em obrigação. Sendo assim, não é à toa que "Anatomia de um crime" siga, mais de meio século depois de seu lançamento, como uma das mais importantes produções americanas de todos os tempos.

O protagonista do filme é Paul Biegler (James Stewart), um advogado mais afeito às pescarias, ao jazz que volta e meia toca em seu piano e às suas longas conversas com o melhor amigo, Parnell McCarthy (Arthur O'Connell). O que acaba o retirando de sua semi-aposentadoria - e ainda assim meio à contra-gosto - é o telefonema de uma mulher chamada Laura Manion (Lee Remick em papel que quase foi de Lana Turner): ela o contrata para defender seu marido, o tenente do exército Frederick Manion (Ben Gazzarra). O jovem réu é acusado do assassinato de outro homem, mas Laura insiste que o crime aconteceu como forma de vingança, por a vítima tê-la violentado. Não demora muito para que Biegler passe a duvidar um pouco da história contada por seus clientes, uma vez que Laura não é exatamente uma mulher exemplar: vulgar, provocante e pouco arraigada a convenções sociais, ela pode ser um sério obstáculo à absolvição do marido. Para piorar as coisas, o promotor convocado para o caso é o vaidoso e ambicioso Claude Dancer (o ótimo George C. Scott, que faria história onze anos depois recusando seu Oscar por "Patton, rebelde ou herói?"), cujo estilo sóbrio contrasta ferozmente com o jeito simples e quase caipira de Biegler.



Longe de buscar o sensacionalismo que o tema poderia sugerir, "Anatomia de um crime" utiliza de maneira sóbria e inteligente os elementos que o destacam ainda hoje entre seus congêneres. Apesar de apresentar em seu roteiro tudo aquilo que atualmente pode ser considerado clichê, Wendell Mayes - indicado ao Oscar por seu meticuloso trabalho - não hesita em embaralhar as cartas do jogo, deixando no espectador a dúvida crucial que também acomete ao corpo de jurados: será que realmente a história contada pelo réu é verdadeira? Será que a vítima do estupro é tão inocente quanto se declara? Será que uma mulher flagrantemente pouco afeita ao puritanismo de sua cidadezinha merece ser julgada como criminosa? Ao estabelecer todas essas questões, tanto o roteiro de Mayes quanto a direção imparcial de Otto Preminger dão um passo à frente em questões até então varridas para debaixo do tapete da sociedade ianque.


À parte o fato de ter tido a coragem de desafiar o tal Código de Produção, com seu tema e seu roteiro sem meias-palavras ou suscetibilidades, "Anatomia de um crime" conquista o público por causa principalmente devido a suas qualidades dramáticas, que vão desde a direção segura de Otto Preminger - que trata a audiência como gente grande e capaz de tirar suas próprias conclusões, evitando o uso de flashbacks e mantendo a dubiedade da versão oficial da defesa - até a escalação certeira de um elenco inspiradíssimo. James Stewart poucas vezes esteve tão seguro em cena, especialmente nos confrontos com George C. Scott e nas cenas encharcadas de uma tensão sexual quase palpável com a Laura Manion de Lee Remick. Destaca-se também um jovem Ben Gazzarra, mostrando-se extremamente eficaz como o réu em constante estado de excitação violenta. Eles são as ferramentas que Preminger utiliza para construir sua obra-prima.

sábado

AS DIABÓLICAS

AS DIABÓLICAS (Les Diabolique, 1955, Filmsonor/Vera Films, 114min) Direção: Henri-Georges Clouzot. Roteiro: Henri-Georges Clouzot, Jérôme Géronimi, colaboração de René Masson, Frédéric Grendel, romance "Celle qui n'etait plus", de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Fotografia: Armand Thirard. Montagem: Madeleine Gug. Música: Georges Van Parys. Figurino: Carven. Direção de arte: León Barsacq. Produção: Henri-Georges Clouzot. Elenco: Simone Signoret, Vera Clouzot, Paul Meurisse, Charles Vanel, Jean Brochard. Estreia: 29/01/55

Quando "Diabolique" foi lançado, em 1996, muitos frequentadores eventuais de cinema ficaram chocados com a violência das críticas em relação ao filme, estrelado por uma Sharon Stone em curva ascendente e a estrela francesa Isabelle Adjani. O que esses espectadores talvez não soubessem é que todas as críticas, por mais agressivas que fossem, eram procedentes. Perto do filme que lhe deu origem, dirigido quatro décadas antes pelo Hitchcock francês, Henri-Georges Clouzot, o remake assinado por Jeremiah Chechik (que depois disso nunca mais dirigiu nada digno de nota no cinema, a não ser que se conte o equívoco chamado "Os vingadores", com Ralph Fiennes e Uma Thurman pagando mico) é apenas um risível pastiche de suspense que dilui as brilhantes sequências do original sem o mesmo cuidado e elaboração que ele apresentava - a um público que ainda não estava anestesiado com a dieta de violência gratuita e reviravoltas desnecessárias que tomou conta do gênero a partir dos anos 70. A obra original, "As diabólicas", sucesso internacional em 1955, tornou-se referência obrigatória, desde então, a todos os filmes de suspense que se prezavam, a ponto de ter cenas inteiras "homenageadas" por diversos cineastas de gerações posteriores.

Baseado em um romance da dupla de escritores Pierre Boileau e Thomas Narcejac que também era cobiçado por Alfred Hitchcock em pessoa, "As diabólicas" tem como protagonistas duas mulheres que, a princípio, deveriam se odiar, mas que preferem juntar forças para eliminar o homem que as maltrata. Christina Delassalle (Vera Clouzot, esposa do diretor e brasileira de nascimento) é a esposa sofrida e desprezada de Michel (Paul Meurisse), o diretor de uma decadente escola para meninos, e Nicole Horner (Simone Signoret, uma das grandes atrizes francesas de sua época) é a professora do local que é também amante do brutal e arrogante diretor (que, a despeito da escola ser de sua mulher, não hesita em humilhá-la diante do corpo docente). Cansadas de tantos abusos, as duas bolam um plano infalível para livrarem-se dele sem despertar suspeitas, o que inclui uma viagem a uma cidade do interior, remédios para dormir e a asquerosa piscina suja e pantanosa da escola. Quando tudo parece estar correndo bem, no entanto, as coisas começam a fugir do controle e surge a dúvida: será que elas realmente conseguirão enganar a polícia, os colegas e os alunos - em especial um deles, que insiste em ver um fantasma nos corredores do local?


O clima de suspense constante de "As diabólicas" é um de seus maiores trunfos: cuidando de cada detalhe, Clouzot constrói uma atmosfera opressiva e tensa, na qual tudo pode vir a acontecer. Sem apelar para sustos fáceis ou seguir caminhos previsíveis - lembrando que em 1955 o gênero ainda estava engatinhando - o roteiro não se apressa em contar sua história, estabelecendo com o ritmo certo todos os elementos que serão importantes para seu desfecho. Além disso, o cineasta arranca de seus atores interpretações antológicas. Paul Meurisse cria um Michel Delassalle absolutamente desprezível, incapaz de um gesto sequer de carinho e que parece buscar, em suas atitudes, um final violento e - por que não? - justo. Vera Clouzot constrói uma Christina angustiada, indecisa e quase covarde, que acaba percebendo na hora certa que seu destino depende unicamente de si mesma. E Simone Signoret quase rouba a cena com sua Nicole Horner, uma professora decidida, amarga e quase cínica, responsável por engendrar a trama que levará a todos a um pesadelo particular.

Repleto de sequências certeiras e de enquadramentos que favorecem o tom sombrio e sufocante da história, Henri-Georges Clouzot também não se furta a surpreender a audiência com uma reviravolta final que deixou todo mundo boquiaberto na ocasião do lançamento - a ponto de, no final da projeção, haver um pedido encarecido da produção para que o final da trama não fosse revelado, coisa que também Hitchcock fez com seu "Psicose", cinco anos depois. Aliás, por falar em Hitchcock: sabendo que o mestre inglês do suspense lamentou ter perdido os direitos do livro que deu origem a "As diabólicas", seus autores escreveram outra história especialmente para ele, que a transformou em uma obra-prima chamada "Um corpo que cai". Sorte de Hitch, que realizou um de seus melhores filmes, de Clouzot, que escreveu seu nome na história do cinema de suspense francês, e do público, que pode se deliciar com duas tramas inventivas, surpreendentes e inesquecíveis. Assista e veja por que o filme com Sharon Stone foi tão massacrado!

sexta-feira

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the hole/The big Carnival, 1951, Paramount Pictures, 111min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Lesser Samuels, Walter Newman. Fotografia: Charles B. Lang Jr.. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Earl Hedrick, Hal Pereira/Sam Comer, Ray Moyer. Produção: Billy Wilder. Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Bob Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict, Ray Teal. Estreia: 14/6/61.

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.

Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.


Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.

É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.

quinta-feira

FESTIM DIABÓLICO

FESTIM DIABÓLICO (Rope, 1948, Warner Bros, 80min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Arthur Laurents, adaptação de Hume Cronyn, peça teatral de Patrick Hamilton. Fotografia: William V. Skall, Joseph Valentine. Montagem: William H. Zeigler. Direção de arte/cenários: Perry Ferguson/Howard Bristol, Emile Kuri. Produção: Sidney Bernstein, Alfred Hitchcock. Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Edith Evanson, Douglas Dick, Joan Chandler, Sir Cedric Hardwicke, Constance Collier. Estreia: 26/8/48

O primeiro filme colorido do mestre do suspense Alfred Hitchcock - e também o primeiro em que ele assume o papel de produtor - é mais uma prova cabal de que o cineasta inglês tinha pleno domínio da técnica cinematográfica, além de seu talento quase sobrenatural para manipular os medos e tensões da plateia. Adaptando livremente a peça teatral de Patrick Hamilton (e por livremente leia-se com alterações bastante substanciais), Hitch resolveu manter na versão cinematográfica a sensação de tempo real do espetáculo através de um artifício ainda pouco utilizado no cinema de então e ainda hoje raramente visto: um plano único, que acompanha os personagens durante pouco menos de hora e meia. Logicamente, não há uma única tomada - algo impraticável devido a limitações técnicas - mas é inegável que a meta foi atingida: "Festim diabólico" é uma aula de narrativa, onde o diretor abdica de uma de suas maiores qualidades como artista (a decupagem cuidadosa e rica de planos, que privilegiava a montagem como forma de acentuar a importância emocional de determinadas cenas) para experimentar um novo modo de contar uma história.

Repleta de dificulades técnicas - fios espalhados pelo set, ruídos de móveis especialmente construídos sendo arrastados e um especial desafio em termos de iluminação que acabou afastando o diretor de fotografia William V. Skall - a ousadia de Hitchcock em criar um marco na história do cinema acabou disfarçando para o público e os censores uma ousadia ainda maior, desta vez creditada ao dramaturgo Patrick Hamilton: em sua peça teatral, os dois protagonistas são homossexuais, assim como o professor de um deles, vivido no filme por James Stewart. Na versão para as telas não há menção explícita à sexualidade dos rapazes - e o professor não só é hetero e mais velho do que no texto original como tem um interesse romântico feminino. Tais medidas da adaptação feita pelo também ator Hume Cronyn (que foi casado com Jessica Tandy até sua morte) não foram o bastante para que o filme fosse banido em diversas cidades dos EUA, ignorando que a trama foi inspirada em um caso real e ocorrido por dois estudantes da Universidade de Chicago.


E a trama, apesar de todo o tititi em torno das técnicas corajosas e então vanguardistas de Hitchcock, consegue se manter sólida e interessante mesmo mais de seis décadas desde seu lançamento. Dois jovens estudantes, Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), que dividem um apartamento em Nova York resolvem testar sua teoria sobre um crime perfeito e matam um colega, David Kentley (Dick Hogan, que aparece apenas no primeiro take, sendo enforcado). Depois do ato cometido, eles colocam o corpo do rapaz em um baú, sabendo que na mesma noite receberão um grupo de convidados para um coquetel. Sua intenção é agir normalmente diante dos pais da vítima, de sua ex-noiva e de um professor, Rupert Cadell (James Stewart), a quem querem provar sua superioridade intelectual. Durante a noite, o nervosismo de Phillip quase põe tudo a perder, mas a frieza de Brandon não pretende se deixar subjugar pela inteligência de Cadell.

Se fosse rodado de maneira convencional - com todos os artifícios que fazem dos filmes de Hitchcock a delícia que são - "Festim diabólico" certamente seria um sucesso a mais em sua carreira brilhante. Como está, no entanto, ele se sobressai pela coragem de um diretor em romper a inércia de uma indústria e inovar a feitura de seus filmes mesmo correndo sérios riscos financeiros. O público pode até nem se dar conta da forma com que o filme foi feito - com seus truques inteligentes para disfarçar a mudança de um take para outro ou com as câmeras deslizando pelo cenário - mas fica hipnotizado pela maneira com que a história é contada e com seus personagens, bem defendidos por um elenco eficiente. Hitchcock sabia inovar, sem dúvida, mas ainda é, acima de tudo, um contador de histórias muito acima da média.

quarta-feira

PACTO DE SANGUE

PACTO DE SANGUE (Double indemnity, 1944, Paramount Pictures, 107min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Raymond Chandler, romance de James M. Cain. Fotografia: John F. Seitz. Música: Miklós Rózsa. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hans Dreier, Hal Pereira/Bertram Granger. Produção executiva: Buddy G. DeSylva. Produção: Joseph Sistrom. Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Tom Powers, Jean Heather, Porter Hall. Estreia: 24/4/44

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Barbara Stanwyck), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original, Som

Se existe um filme que merece ser chamado de noir, este filme é, "Pacto de sangue": dirigido com a maestria absoluta de Billy Wilder, fotografado em um assombroso preto-e-branco por John F. Seitz e apresentando todas as características que mais tarde seriam o DNA do subgênero mais famoso do cinema policial, a adaptação do romance de James M. Cain (que também escreveu "Mildred Pierce", que virou "Almas em suplício" e deu à Joan Crawford o Oscar de melhor atriz) conquista o espectador logo de cara, com a narração em off do protagonista (outro sinal inequívoco do estilo), começando a narrar os caminhos tortuosos que o levaram a uma situação nada invejável: ferido e acuado, Walter Neff (Fred MacMurray) viu sua vida relativamente tranquila de agente de seguros virada de pernas para o ar desde o momento em que pôs os olhos na melíflua Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck, com uma peruca que o próprio Wilder detestava e uma atuação na medida exata entre a paixão e o cinismo). O início da intrincada trama - que modificou sensivelmente alguns pontos da obra de Cain com o apoio do autor - é apenas o começo, também, para Neff e para o público, que durante pouco menos de duas horas acompanhará uma história de paixão, lúxuria, morte e traição assinada por um dos mais brilhantes cineastas da Hollywood de ouro.

Billy Wilder - prolífico diretor e roteirista, capaz de assinar desde dramas humanos como "Farrapo humano" como comédias ácidas como "Quanto mais quente melhor" e romances elegantes como "Sabrina" - tem a seu crédito uma meia-dúzia de obras-primas, mas, à época do lançamento de "Pacto de sangue" ainda tinha poucos títulos em seu currículo (três, para ser mais exato). No entanto, quando se assiste a este seu quarto filme, fica difícil acreditar que ele nunca tivesse comandado um policial. Dotado de um ritmo impecável e um direção segura de atores, Wilder moldou a base do filme noir, borrando as fronteiras entre o bem e o mal e entregando à audiência um protagonista bem longe do maniqueísmo que imperava desde que o infame Código Hayes passou a ditar as regras na produção cinematográfica. Essa ousadia - que tão bem faz o filme e tão libertadora foi para que o público não se deixasse bitolar por leis absurdas de puritanismo - é uma das marcas registradas do cinema de Wilder e fica patente em cada sequência de "Pacto de sangue".


O protagonista, Walter Neff (vivido pelo mesmo Fred MacMurray que trabalharia novamente com o diretor em "Se meu apartamento falasse", de 1960, como o chefe canalha de Jack Lemmon) é um primor de ambiguidade: ao mesmo tempo em que é o herói da trama (ao menos dentro daquele padrão convencional de definição de herói de cinema), ele é também um mau-caráter de primeira ordem. Tudo bem, existe o atenuante de estar apaixonado, mas, no cinema noir homem apaixonado é alvo fácil, e Neff não contraria a regra: deslumbrado por Phyllis Dietrichson desde que viu pela primeira vez sua tornozeleira, displicentemente encoberta por uma toalha de banho, ele cai em suas garras e em seu plano malévolo. Convencido por ela, ele obriga seu marido (Tom Powers) a assinar um seguro de vida milionário dotado de uma cláusula que duplica a indenização caso a morte seja acidental. Se hoje o público já sabe de longe que vem problema por aí, o mesmo não pode ser dito de Neff, que entra em uma jogada arriscada: matar o milionário e forjar um acidente - para então ficar com sua esposa e o dinheiro de seu seguro.

Plano bolado e plano executado, é claro que as coisas começam a parecer o que realmente são: uma teia de mentiras e traição para ninguém botar defeito. Billy Wilder, a partir daí, mantém a plateia com a respiração suspensa, com cenas construídas milimetricamente para manter a tensão constante - e de dar orgulho ao mestre Alfred Hitchcock. Baseado em um caso real que tomou as manchetes dos jornais nos anos 20, o romance de James M. Cain encontrou em Wilder o diretor ideal, e o roteiro (que não teve a coautoria de habitual colega Charles Brackett, que não gostou do tema denso da história) contou com a colaboração do escritor Raymond Chandler, cuja relação com o cineasta não foi nem um pouco amistosa. As constantes desavenças entre os dois, porém, não se deixa entrever no resultado final, um filme impecável que é o responsável pelo surgimento de uma espécie de cinema que é até hoje, sete décadas depois, fonte inesgotável de inspiração e admiração.

terça-feira

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Rebecca, 1940, Selznick International Pictures, 130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, adaptação de Philip MacDonald, Michael Hogan, romance de Daphne Du Maurier. Fotografia: George Barnes. Montagem: W. Donn Hayes. Música: Franz Waxman. Direção de arte: Lyle Wheeler. Produção: David O. Selznick. Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce. Estreia: 27/3/40

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alfred Hitchcock), Ator (Laurence Olivier), Atriz (Joan Fontaine), Atriz Coadjuvante (Judith Anderson), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários em P&B, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Fotografia em P&B

Todas as lendas que correm por Hollywood desde sempre dizem que a relação de Alfred Hitchcock com suas atrizes não era exatamente o que se pode chamar de saudável. Como uma espécie de confirmação nefasta de tais boatos, basta que se saiba o que o pai do suspense fez com Joan Fontaine durante as filmagens de "Rebecca, a mulher inesquecível", seu primeiro filme em terras americanas: sabendo que Fontaine era praticamente destratada por seu astro Laurence Olivier (que preferiria que o papel tivesse ficado com sua então esposa Vivien Leigh), o genial diretor teve a brilhante ideia - ao menos para ele - de fazer chegar aos ouvidos de Fontaine que não apenas Olivier a detestava, mas sim a equipe inteira. Não é preciso fazer um exercício muito grande de imaginação para entender que tal situação deixou a atriz incomodada, desconfortável e apavorada. Justamente como o diretor queria que ela fosse na pele da personagem!


Adaptado do romance homônimo de Daphne Du Marier - autora também de "Os pássaros", que Hitch dirigiu em 1963 - "Rebecca" marcou a estreia do cineasta no cinema americano em grande estilo, sob o comando do todo-poderoso produtor David O. Selznick, que havia comprado os direitos da obra de Maurier para ser estrelada por Carole Lombard e Ronald Colman. Quando Colman pulou fora do projeto - por achar as personagens femininas mais fortes e por desgostar do tom macabro da trama - Laurence Olivier, um dos maiores atores ingleses de todos os tempos foi escolhido. Acontece que Olivier queria que sua amada Vivien Leigh fosse a escolhida para o principal papel feminino, o que batia de frente com as opções do produtor: além de Anne Baxter e Loretta Young, Selznick também estava em dúvida entre duas irmãs que, como todos sabem, se odiavam além de qualquer limite, Olivia de Havilland e Joan Fontaine. Como Havilland não foi emprestada pela Warner - e também não estava nada feliz em disputar o papel com sua irmã - Fontaine acabou escolhida, para desgosto de muita gente na equipe, que não a considerava famosa o bastante para liderar um elenco. Hitchcock chegou no meio da tempestade - ele sempre quis filmar o livro mas não tinha condições financeiras de pagar os direitos - e, colocando pimenta nos bastidores, construiu um fenomenal suspense psicológico que lhe deu uma indicação ao Oscar de diretor (que perdeu para John Ford, por "As vinhas da ira") e deu a Selznick mais uma estatueta de melhor filme.


Joan Fontaine - que ganharia o Oscar de melhor atriz no ano seguinte com outro filme de Hitchcock, "Suspeita" - está na medida exata como a dama de companhia de uma desagradável senhora de idade que se apaixona perdidamente durante uma viagem pelo milionário Maxim de Winter (Laurence Olivier), um viúvo discreto e misterioso que a pede em casamento pouco tempo depois de conhecê-la. Inebridada de amor, ela aceita o pedido e, depois de casada, se vê diante da responsabilidade de administrar a imensa propriedade do marido, a fantástica Manderley, e todas as regras sociais que a circundam. Seu maior desafio, porém, será lidar com a memória da falecida esposa de Winter, a bela Rebecca, morta em um acidente de barco. Além da atmosfera sombria da mansão - em que tudo parece tenso e macabro - a lembrança de Rebecca é também sempre trazida à tona pela governanta, Mrs. Danvers (Judith Anderson), que faz questão de atormentar a nova patroa.

Para criar a atmosfera perfeita para Manderley - uma casa que é também personagem crucial para a trama - Hitchcock optou pela fotografia em preto-e-branco (também recompensada com um Oscar) e usou de artifícios simples mas extremamente eficazes em transmitir a tensão que rodeia a protagonista, cujo nome jamais é mencionado, também como forma de oprimí-la diante da opulência de sua nova vida. Assim, a apavorante Mrs. Danvers nunca é vista caminhando, sempre aparecendo diante dos olhos de sua patroa de uma hora para outra (além de nunca piscar em cena). Os duelos entre as duas atrizes estão entre os melhores momentos do filme, que não abdica nem mesmo das reviravoltas mirabolantes tão importantes nos melodramas literários. O espectro de Rebecca - que não, não aparece em forma de fantasma real, mas sim ilustrada pelo que é ainda mais assustador, a imaginação - permeia toda a narrativa, como uma ameaça tangível à felicidade da nova Sra. De Winters e a sutileza com que o diretor mostra tal fato é que faz a diferença entre o drama psicológico aterrador que apresenta e as dezenas de produções de terror que vieram logo após, extirpando a inteligência do gênero.

"Rebecca, a mulher inesquecível" é um Hitchcock quase atípico: não tem senso de humor, não toma partido de sequências técnicas de tirar o fôlego e tampouco é exatamente um filme de suspense, podendo até mesmo ser considerado um drama. Mas é mais um perfeito exemplo de como um cineasta de talento sempre foi e sempre será a principal razão do sucesso de um bom produto cinematográfico.

segunda-feira

TEMPOS MODERNOS

TEMPOS MODERNOS (Modern times, 1936, Charles Chaplin Productions/United Artists, 87min) Direção e roteiro: Charles Chaplin. Fotografia: Ira Morgan, Roland Totheroh. Montagem: Charles Chaplin, Willard Nico. Música: Charles Chaplin. Direção de arte/cenários: Charles D. Hall/J. Russell Spencer. Produção: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Stanley Sandford. Estreia: 05/02/36

Convencido de que o cinema sonoro havia realmente chegado para ficar e não era apenas uma fase transitória - como havia pensado logo que a novidade aportou em Hollywood - Charles Chaplin finalmente decidiu que já era hora de ceder em sua firme decisão de manter-se mudo. Escreveu um roteiro inteiro com diálogos, tendo seu Carlitos como protagonista, mas, para surpresa de muitos (e como esperado por outros tantos) mudou de ideia na última hora. Afinal de contas, sendo coerente com toda a sua filmografia anterior, o vagabundo que lhe deu fama, prestígio e dinheiro não poderia encerrar sua carreira nas telas falando, como se fosse um personagem qualquer. Sendo assim, "Tempos modernos", o último filme mudo do grande Chaplin também foi a despedida de Carlitos. E ele não poderia ter ido embora - na clássica cena final - em melhor estilo: ao mesmo tempo uma feroz crítica à frieza da era industrial e uma deliciosa comédia física repleta de sequências sensacionais, o filme encerrou, por ser também o último filme mudo realizado em Hollywood (sem contar paródias e posteriores homenagens), uma era do cinema americano com chave de ouro.

Lançado em plena Depressão americana - pós-quebra da bolsa de Nova York em 1929 - "Tempos modernos"  mostra, em forma do típico humor aparentemente ingênuo de Chaplin, a opinião do cineasta em relação à automatização do mundo, em detrimento dos seres humanos, frequentemente oprimidos em fábricas que os tratam como animais (como fica evidente em várias sequências) ou empregados descartáveis. Tais pensamentos políticos acabaram se revelando, alguns anos depois, nocivos ao próprio diretor, quando, investigado pelo Comitê de Atividades Anti-americanas e taxado como comunista, viu-se impedido de voltar aos EUA por mais de vinte anos. Talvez os americanos devessem também ter ficado contrariados com Mahatma Gandhi: foi em uma conversa com o líder indiano sobre a dominação das máquinas sobre as pessoas que Chaplin teve a ideia para seu roteiro.


Utilizando apenas efeitos sonoros - até mesmo como forma de ilustrar suas ideias a respeito do progresso e da modernidade na sociedade - Chaplin conta a história de um homem comum (seu conhecido vagabundo) que começa o filme enlouquecendo com o trabalho mecânico em uma fábrica, que, além de obrigá-lo a um trabalho repetitivo, ainda o usa como cobaia em um teste de uma máquina de dar comida na boca dos funcionários (!!). Depois de sair do hospital, ele tenta voltar ao mercado de trabalho, principalmente por estar apaixonado pela filha de um grevista morto em combate (Paulette Goddard). Logicamente as coisas não saem como o esperado e, enquanto tenta encontrar um lugar ao sol em uma sociedade cada vez menos afeita ao indivíduo, ele brinda o espectador com momentos da mais pura poesia visual equilibrados com um brilhante timing cômico. Chaplin chega inclusive a deixar com que a plateia finalmente ouça sua voz, cantando uma música cuja letra (em um idioma incompreensível) não faz o menor sentido a não ser que se acompanhe os gestos que ele faz.

Mais um enorme sucesso na carreira de Chaplin, "Tempos modernos" encerrou um ciclo em sua filmografia, melancolicamente ilustrado pela belíssima canção "Smile", composta por ele mesmo. Seu filme seguinte, "O grande ditador" faria uma sátira ao nazismo em geral e Adolf Hitler em pessoa e a partir de então, o som estaria definitivamente incorporado à sua dinâmica como cineasta. Seu capítulo final na fase mais brilhante de sua carreira é mais uma prova inconteste de sua genialidade e da perenidade de suas ideias - por mais avançadas que elas pudessem ser. Impossível não se deixar encantar.

domingo

LUZES DA CIDADE

LUZES DA CIDADE (City lights, 1931, Charles Chaplin Productions/United Artists, 87min) Direção e roteiro: Charles Chaplin. Fotografia: Gordon Pollock, Rollie Totheroh. Montagem: Charles Chaplin, Willard Nico. Música: Charles Chaplin. Cenários: Charles D. Hall. Produção: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Harry Myers, Florence Lee, Allan Garcia. Estreia: 30/01/31

Quando Charles Chaplin começou a produzir "Luzes da cidade", em 1928, o filme "O cantor de jazz" já havia estreado e o cinema havia entrado definitivamente na era do som, apesar das dúvidas do genial cineasta de que fosse algo além de uma fase passageira. Em 1931, quando seu filme finalmente estreou, depois de uma produção longa, cara e complicada, o criador do inesquecível Carlitos já não podia negar o inegável. No entanto, fiel a seus ideais, manteve sua obra muda - apesar de ocasionais ruídos e sons incluídos na pós-produção. E quem acreditava que filmes mudos eram coisa ultrapassada teve que reconsiderar a opinião: a história de amor entre o vagabundo mais famoso da história do cinema e uma florista cega conquistou o público e a crítica - além de seu próprio criador, que o considerava seu melhor filme. Fazem companhia a ele os cineastas Andrei Tarkovski, Woody Allen e Orson Welles - este último declarou se tratar do melhor filme de todos os tempos. Coisa de gênio!

E olha que tudo parecia conspirar contra o filme, além da polêmica da utilização do som. Sua produção começou no final de dezembro de 1927 e estendeu-se até janeiro de 1931, passando inclusive pela infame queda da bolsa de Nova York, em 1929. Durante as filmagens - que apesar da longa produção duraram menos de seis meses - Chaplin acabou por demitir a atriz principal, Virginia Cherril, com quem não mantinha uma relação das mais agradáveis, que chegou atrasada ao set de gravação. Sua ideia de refazer toda a sua parte com uma outra atriz, Georgia Hale, acabou mostrando-se contraproducente, o que acabou fazendo com que Cherrill voltasse à equipe... depois de exigir o dobro do salário combinado anteriormente. Nem a visita de Winston Churchill às filmagens diminuiu a pressão sobre os ombros do diretor, que acabou gastando a então fabulosa quantia de 1,5 milhão de dólares em seu projeto - quantia essa plenamente recuperada pelo impressionante êxito do resultado final, que o colocou imediatamente entre os mais rentáveis de sua carreira.


A história, como é comum na obra de Chaplin, é simples e direta, sem grande sofisticação. O protagonista (já conhecido dos fãs de Carlitos graças a outros filmes anteriores) é um vagabundo romântico e sensível que se apaixona perdidamente por uma vendedora de flores cega e irremediavelmente pobre. Disposto a ajudá-la a fazer uma cirurgia que poderá lhe devolver a visão, ele parte então em busca de um trabalho que lhe pague o suficiente - entre os quais servir como lutador de boxe em uma luta vendida que sai muito errado. Outra esperança que lhe aparece é a amizade que surge entre ele e um milionário beberrão (Harry Myers) que é generoso e excêntrico quando bêbado e que não o reconhece quando sóbrio. A moça cega - que acha que ele é rico por um mal-entendido que ele prefere não esclarecer - não perde a esperança, principalmente quando se descobre apaixonada.

Utilizando-se dessa história quase banal, Charles Chaplin criou uma de suas obras-primas, capaz de fazer rir e emocionar em vários momentos. Inúmeras sequências já se tornaram antológicas, como a tentativa de suicídio do milionário - que ele tenta impedir da maneira mais atrapalhada possível - a música que inventa quando se vê obrigado a distrair uma plateia e, logicamente, a sequência que dá origem à confusão da jovem cega, filmada por Chaplin mais de 300 vezes até que o cineasta se desse por satisfeito. Repleto de cenas que equilibram com rara maestria o humor e a melancolia, "Luzes da cidade" fica na memória pela delicadeza com que trata seus personagens e a audiência, provando que nem sempre o som é algo imprescindível em uma produção cinematográfica quando ela tem alma, coração e inteligência.

sábado

QUANDO PARIS ALUCINA

QUANDO PARIS ALUCINA (Paris when it sizzles, 1964, Paramount Pictures, 110min) Direção: Richard Quine. Roteiro: George Axelrod, estória de Julien Duvivier, Henri Jeanson. Fotografia: Charles Lang, Jr. Montagem: Archie Marshek. Música: Nelson Riddle. Direção de arte/cenários: Jean D'Eaubonne/Gabriel Bechir. Produção: George Axelrod, Richard Quine. Elenco: William Holden, Audrey Hepburn, Noel Coward, Tony Curtis, Grégoire Aslan. Estreia: 08/4/64

Na teoria parecia uma ideia genial: unir o talento e o carisma de William Holden com a beleza e o perfeito timing cômico de Audrey Hepburn em uma trama metalinguística que brincaria com o universo do cinema e contaria com participações mais que especiais de Tony Curtis, Marlene Dietrich e Frank Sinatra em pontas. Porém, até mesmo as ideias aparentemente infalíveis podem se mostrar armadilhas e foi exatamente o que aconteceu com "Quando Paris alucina". O que poderia ser uma comédia das mais divertidas dos anos 60 transformou-se, nas mãos do diretor Richard Quine, em um pastiche exagerado, confuso e sem ritmo e que, a despeito de alguns bons momentos de criatividade, termina por não cumprir todas as promessas que faz em seu agradável início.

Considerado pela própria Audrey Hepburn seu filme menos querido de sua fase como grande estrela, "Quando Paris alucina" tem na irregularidade seu maior problema, o que não deixa de ser surpreendente, uma vez que o roteiro tem a assinatura de George Axelrod, que dois anos antes havia lançado o espetacular "Sob o domínio do mal", estrelado por Frank Sinatra, um primor de ritmo e concisão. Aqui, ele conta de forma atabalhoada uma história que em momento nenhum prende a atenção do espectador, que fica esperando (em vão) que as coisas façam algum sentido - e a quem só resta, depois de um tempo, aproveitar as belas paisagens da cidade-luz e a elegância sempre irretocável de Hepburn, que consegue tirar leite de pedra com uma personagem sem profundidade e que existe apenas para justificar a história de amor que se pretende contar - ou não, já que também há a indecisão entre o romance e a comédia de erros que satiriza o modo industrial de realizar-se filmes (sátira essa que acaba se mostrando um tanto inadequada, uma vez que o próprio produto final parece resultado mais de um comitê de criação do que exatamente uma obra original).


Hepburn vive Gabrielle Simpson, uma secretária contratada para auxiliar o roteirista de Hollywood Richard Benson (William Holden, que se ausentou das filmagens para internar-se em uma clínica de reabilitação de álcool) a finalizar seu novo filme, intitulado "A garota que roubou a Torre Eiffel". Benson, que já está há semanas em Paris, tem um prazo exíguo para entregar o script a seu rígido produtor, Alexander Meyerheim (o dramaturgo Noel Coward), e, para seu desespero, nem sequer começou a escrevê-lo. Com a ajuda de Gabrielle, uma jovem sonhadora, criativa e alto-astral, ele passa a ter ideias e mais ideias a respeito da trama. Inspirado por ela, Benson começa uma história de espionagem que se desenvolve de várias e insuspeitas maneiras, incluindo até vampiros e lobisomens. Enquanto vai imaginando seu filme, o público vê suas ideias desenrolando-se na tela, sempre com ele e Gabrielle nos papéis centrais.

Como afirmado antes, a ideia de "Quando Paris alucina" não é das piores e poderia facilmente tornar-se um entretenimento dos mais divertidos se estivesse em mãos menos burocráticas e sem inspiração. Richard Quine construiu um filme engessado em suas próprias limitações que jamais surpreende o público. As brincadeiras do início - quando Benson vai modificando seu roteiro enquanto desfilam pela tela as participações especiais citadas anteriormente - logo tornam-se cansativas e o roteiro acaba por não oferecer nada que as substitua. Em pouco tempo a audiência se vê presa a uma história policial sem pé, cabeça ou graça e a uma história de amor que não desperta nada mais do que tédio - em parte devido à falta de química entre Audrey Hepburn e William Holden, subaproveitado ao extremo em um personagem que em nada acrescenta à sua brilhante carreira. No final das contas, vale apenas pela beleza de Audrey... e mesmo assim só para os fãs ardorosos.

sexta-feira

ROMANCE

ROMANCE (Romance, 2008, Globo Filmes/Natasha Filmes, 105min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Jorge Furtado. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Gustavo Giani. Música: Caetano Veloso. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Diogo Dahl. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Bruno Garcia. Estreia: 14/11/08

Um dos diretores mais respeitados do Brasil, com sucessos acumulados na TV ("A comédia da vida privada", "TV Pirata") e no cinema ("O Auto da Compadecida", "Lisbela e o prisioneiro"), Guel Arraes sempre pautou sua carreira cinematográfica voltando o olhar para o nordeste brasileiro e suas lendas e costumes. Em seu quarto longa-metragem, porém, ele resolveu mudar o tom de seus trabalhos anteriores e falar de amor. Com um registro bem mais próximo de sua experiência na televisão do que em seus bem-sucedidos trabalhos regionais mostrados na telona, ele lançou, em 2008, a comédia romântica "Romance", que escreveu em parceria com o também cineasta Jorge Furtado. Ao contrário do que se poderia esperar, porém, o filme não alcançou o êxito merecido, ficando relegado a um segundo plano na carreira do diretor. Injustiça que fica evidente quando se percebe a inteligência do roteiro, a delicadeza das interpretações do elenco excepcional e a fina ironia que permeia a história de amor entre dois atores que veem suas vidas transformadas pelo sucesso profissional.

Pedro (Wagner Moura em tom romântico a anos-luz de distância do Capitão Nascimento de "Tropa de elite") é um ator e diretor de teatro idealista, que acredita na superioridade do palco em relação à televisão. Durante os ensaios de sua nova peça, uma montagem de "Tristão & Isolda", ele se apaixona por sua colega de cena, Ana (Letícia Sabatella, excelente em todas as fases de sua personagem), que não tem as mesmas regras rígidas em relação à sua profissão. O romance idílico entre eles entra em crise quando Ana aceita fazer uma novela, traindo os ideais do namorado. Separados, eles seguem suas carreiras mas voltam a se encontrar quando ela sugere que ele seja o diretor de um especial de fim de ano da emissora onde ela trabalha. Mantendo-se fiel ao que acredita, Pedro aceita o trabalho, mas resolve criar uma versão de "Tristão & Isolda" no sertão nordestino, para desespero do executivo Danilo (José Wilker). Durante as filmagens, Ana e Pedro voltam a se aproximar, mas encontram dificuldades em retomar o romance graças a Orlando (Vladimir Brichta) - ator coadjuvante que se apaixona por ela - e Fernanda (Andréa Beltrão), assistente de Ana responsável pela escolha de Orlando para o elenco.


Mergulhando nos bastidores do mundo do teatro e da televisão, Guel Arraes mostra com desenvoltura o funcionamento de dois universos tão semelhantes quanto distantes. Através do idealismo de Pedro, o roteiro discute as dificuldades que o teatro tem de manter-se puro e independente do apelo da televisão - capaz de transformar uma atriz em estrela sem ao menos saber de seu real talento. Pela ótica de Ana, é possível perceber o preconceito nada velado em relação aos artistas que buscam o reconhecimento e o sucesso financeiro e profissional dividindo sua carreira entre o palco e os sets de gravação. Apesar de claramente demonstrar mais simpatia pelo modo ético de Pedro, o cineasta jamais impõe uma verdade universal, preferindo apostar na inteligência do público, que, em meio a isso, se diverte com alguns diálogos impagáveis - em especial quando entra em cena o ator/estrela Rodolfo (Marco Nanini, mais uma vez sensacional) - e algumas passagens lindamente românticas, que apresenta uma química perfeita entre Wagner Moura (cada vez melhor ator) e Letícia Sabatella (deslumbrante e com ótimo timing). Não bastasse tudo isso, os roteiristas ainda encontraram um jeito de contar sua história de forma a citar outros clássicos do teatro - como "Cyrano de Bergerac" - sem que o artifício soe um truque barato ou demonstração estéril de eruditismo.

Engraçado, sutil e exalando paixão, "Romance" peca apenas por parecer demais com um especial de televisão, armadilha da qual Guel sempre conseguiu escapar em seus trabalhos anteriores. Afora isso, é uma delícia de se assistir, repleto de momentos de grande inspiração e dono de um final criativo e capaz de estampar um sorriso no rosto da plateia. Os detratores não souberam entender e os que perderam sempre tem a chance de reparar o erro.

quinta-feira

OS NORMAIS - O FILME

OS NORMAIS, O FILME (Os Normais - O Filme, 2003, Globo Filmes, 110min) Direção: José Alvarenga Jr.. Roteiro: Alexandre Machado, Fernanda Young, Jorge Furtado. Fotografia: Tuca Moraes. Montagem: Paulo Henrique Farias. Figurino: Lessa de Lacerda. Direção de arte: Lia Renha. Produção executiva: Eduardo Figueira. Produção: Carlos Eduardo Rodrigues. Elenco: Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Marisa Orth, Evandro Mesquita, Tutuca, Lupe Gigliotti. Estreia: 24/10/03

Exibida semanalmente na TV Globo entre 2001 e 2003, a série "Os normais" mostrava o dia-a-dia de um casal de noivos aparentemente comuns mas que escondiam, em sua rotina, toda série de neuroses e paranoias possíveis e imagináveis. Escritos pelo casal Alexandre Machado e Fernanda Young - e ocasionalmente por outros nomes respeitados da dramaturgia nacional, como Jorge Furtado - os 71 episódios foram dirigidos por José Alvarenga Jr. e estrelados pela dupla Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, que ficaram marcados no imaginário popular como o certinho Rui e a tresloucada Vani, que conquistaram um público fiel e apaixonado. Não foi surpresa, portanto, quando foi anunciado que, da telinha pequena, os dois ganhariam a telona do cinema, na transposição do seriado para o cinema. Dirigido pelo mesmo Alvarenga e escrito pelos mesmos Machado, Young e Jorge Furtado, "Os Normais, o filme", estreou logo após o último episódio ir ao ar e confirmou o que todos esperavam: um enorme sucesso de bilheteria, com mais de três milhões de espectadores. A despeito do êxito comercial, porém, não fugiu da percepção de ninguém que o filme incorria no mesmo erro de várias outras adaptações televisivas para o cinema: é uma comédia engraçadíssima, com um elenco irretocável, mas no fundo, no fundo, é apenas mais um episódio alongado - e, com a liberdade do novo meio de comunicação, repleto de palavrões e situações impensáveis para um programa familiar.

Para os fãs, porém, o fato de o filme não se arriscar em inovar no novo formato, não incomoda em nada. Todas as qualidades que "Os normais" tinha na tv se repete no cinema, expandidas e sem cortes: estão presentes os diálogos de duplo sentido (que funcionam principalmente graças ao carisma impressionante de Fernanda Torres), as observações sagazes a respeito do modo de vida comum das pessoas de classe média, o humor politicamente incorreto e até mesmo algum humor de gosto duvidoso e quase infantil, o que, apesar do linguajar sem meios tons dos personagens, agrada até mesmo uma plateia menos adulta. "Os normais" tem a seu favor a despretensão em agradar intelectualmente, se propondo unicamente a entreter e fazer rir, sem elocubrações filosóficas ou sociais. O humor de Machado e Young é direto, sem anestesia, quase pueril em sua construção, mas paradoxalmente dotado de uma sofisticação pop, repleto de referências e piadas que remetem à sua própria bagagem de espectadores vorazes de telenovelas, seriados, música e literatura dos anos 70 e 80. Justamente essa bagagem - que pode passar despercebida pelo espectador menos antenado - é que diferencia seu texto (não só em "Os normais", mas em outros seriados, como "Os Aspones" e "Macho Man") das dezenas de outros menos bem-sucedidos. E é isso, também, que separa o filme de Alvarenga das comédias populares que vieram em seu rastro, dotadas de um humor histérico e vulgar - o que não foi impedimento para que também se tornassem êxitos de bilheteria.


Ao contrário da série de TV, em que Rui e Vani já são noivos há quase uma década, o filme segue a tendência hollywoodiana de prequels - tramas que mostram a origem de histórias já conhecidas. Quando o filme começa, os protagonistas são noivos, sim, mas de outras pessoas e se conhecem no dia de seus casamentos: Rui é noivo de Marta (Marisa Orth), uma mulher controladora e antipática que se recusa a dividir o arroz que vai ser jogado no casal após a cerimônia, o que incorre na ira de Vani, que vai se casar imediatamente antes com Sérgio (Evandro Mesquita), um homem pacato e aparentemente apaixonado. O conflito entre as duas noivas e as confusões que advem dessa briga domina a primeira parte da obra - com direito a um hilariante desfile de Vani pelas ruas cariocas em uma anacrônica carruagem. A segunda metade do filme começa quando, chegando ao apartamento onde vai morar com Sérgio, Vani descobre que foi traída na noite anterior à cerimônia. Furiosa, ela acaba envolvendo Rui e Marta na confusão - principalmente porque eles irão morar em um apartamento no prédio em frente e porque revelações inesperadas os colocarão - a todos - na mesma bagunça.

É impossível não rir em "Os normais". O roteiro atira para todos os lados, com todos os tipos de humor, e sai-se bem em quase todos (talvez o excesso de palavrões seja um tanto incômodo, mais pela gratuidade do que por pruridos morais). Fernanda Torres conduz a narrativa de forma absoluta, imprimindo à sua Vani uma personalidade que muito tem da própria atriz e da criadora Fernanda Young, além de confirmar o timing cômico impecável com que brindou o espectador durante os três anos da série. Luiz Fernando Guimarães continua rindo das próprias piadas, o que enfraquece consideravelmente sua graça e Marisa Orth e Evandro Mesquita (que já haviam participado da série em outros papéis) pontuam com correção o show de Fernandinha, que marcou sua carreira para sempre com sua atuação - fato um tanto imprevisível para uma atriz que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com apenas 20 anos de idade.

Sucesso absoluto de público - e surpreendentemente de crítica, normalmente avessa às transições de mídia - "Os normais" ainda ganhou uma continuação em 2009, com o subtítulo "A noite mais maluca de todas". Definitivamente, Rui e Vani tem uma vasta legião de fãs.

quarta-feira

SOB O DOMÍNIO DO MAL

SOB O DOMÍNIO DO MAL (The Manchurian candidate, 2004, Paramount Pictures, 129min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Daniel Pyne, Dean Georgaris, roteiro de George Axelrod, romance de Richard Condon. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carol Littleton, Laura Rosenthal. Música: Rachel Portman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Scott Aversano. Produção: Jonathan Demme, Ilona Herzberg, Scott Rudin, Tina Sinatra. Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schrieber, Jon Voight, Jeffrey Wright, Ted Levine, Miguel Ferrer, Vera Farmiga, Kimberly Elise, Zeljko Ivanek. Estreia: 22/7/04

A palavra "remake" tem o poder de causar arrepios nos cinéfilos, escaldados com aberrações como o desnecessário "Psicose" que Gus Van Sant cometeu em 1998 e outras atrocidades que volta e meia assombram clássicos absolutos da sétima arte. Nem mesmo nomes consagrados como Jonathan Demme - vencedor do Oscar pelo sublime "O silêncio dos inocentes" - conseguiram sair ilesos pela prova de tentar renovar histórias pré-aprovadas pela audiência, como demonstrou no terrível "O segredo de Charlie", estrelado por Mark Wahlberg e Charlize Theron em 2002, releitura de "Charada". Mas como em Hollywood nada é definitivo, Demme voltou a buscar inspiração no passado quando aceitou comandar a refilmagem de "Sob o domínio do mal", filmaço de 1962 dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Frank Sinatra e Angela Lansbury. Percebendo na trama criada pelo romancista Richard Condon um reflexo ainda bastante atual da paranoia política - em especial pós-11 de setembro - Demme atualizou a história de forma inteligente, escalou um elenco impecável e criou um filme que, se não marcou época como seu original, ao menos tem o mérito de manter o interesse do espectador até o final com um tom opressivo e de suspense que raros cineastas conseguem atingir.

Enquanto no filme original - que Frankenheimer dirigiu no mesmo ano em que também lançou "O anjo violento", com Warren Beatty e "O homem de Alcatraz", com Burt Lancaster - a trama se apoiava no período posterior à Guerra da Coreia, a releitura de Demme tem como ponto de partida a Guerra do Golfo, de onde emerge o Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber, ótimo), que, assumindo o comando de seu pelotão depois de seu superior ter sido posto fora de combate, conseguiu salvar seus colegas soldados. Condecorado como herói de guerra, Shaw inicia uma promissora carreira política, seguindo os passos de seu falecido pai e de sua mãe, a ambiciosa senadora Eleanor Prentiss Shaw (Meryl Streep, estupenda como sempre). Adorado pelo público, ele é nomeado candidato à vice-presidente, substituindo o experiente Thomas Jordan (Jon Voight), pai de uma antiga namorada, com quem rompeu devido a maquinações de sua mãe. Porém, justamente quando começa sua escalada rumo à Casa Branca, Shaw passa a ser assediado por seu antigo superior, Tenente Ben Marco (Denzel Washington), que, torturado por pesadelos constantes, procura saber, através de Shaw ou qualquer outra pessoa ligada a seu período militar, o que realmente aconteceu durante os dias em que sua equipe esteve desaparecida.


Revelando aos poucos o horror da tramoia política que envolve Marco e Shaw - que tem ligações com empresas de tecnologia médica e a sede pelo poder no governo americano - Demme conta com uma edição que equilibra com inteligência momentos de pura claustrofobia e paranoia com cenas que demonstram de maneira quase cínica os meandros da política ianque (e por que não, mundial?). O público descobre junto com Marco - em atuação excepcional de Denzel Washington - toda a enorme teia de violência e interesses financeiros por trás de uma aparente trama de simples ambição. A partir do momento em que um colega de guerra (interpretado por um Jeffrey Wright assustador) chega até Marco e questiona suas lembranças, a audiência é mergulhada em um turbilhão de informações que podem ou não ser reais, em histórias que podem ou não ter acontecido, de pessoas que podem ou não ser dignas de confiança. É aí que o cineasta - que assombrou o mundo com seu Hannibal Lecter - mostra seu diferencial, contando sua história com sutileza visual, onde a iluminação e os enquadramentos dizem mais do que páginas de diálogo. Basta reparar na forma como Shaw e Marco, por exemplo, se comportam diante de forças que não podem controlar: uma pequena mudança de semblante, uma luz diferente e pronto... o suspense está instaurado!

Co-produzido por Tina Sinatra - que detinha os direitos do filme, herdados de Frank - "Sob o domínio do mal" tem também como destaque mais uma atuação irrepreensível de Meryl Streep, nitidamente se divertindo na pele da velha raposa política Eleanor Shaw, que deu a Angela Lansbury uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante de 1962. Elegante e fria, Streep cria uma dupla afinadíssima com Liev Schrieber, um ator subestimado que mostrou-se à altura de substituir Laurence Harvey e entrar em embates com a própria Streep e Denzel Washington, dois monstros sagrados do cinema americano. São os atores excelentes, somados à direção segura de Demme e à história perigosamente realista de Condon que fazem com que a nova versão de "Sob o domínio do mal" seja, mais do que uma refilmagem, um produto que resiste bravamente às comparações.

terça-feira

O AUTO DA COMPADECIDA

O AUTO DA COMPADECIDA (O auto da Compadecida, 2000, Globo Filmes/Lereby Productions, 104min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão, João Falcão, peça teatral de Ariano Suassuna. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Ubiraci Motta, Paulo Henrique Farias. Música: Sá Grama. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Lia Renha. Produção executiva: Eduardo Figueira. Produção: Guel Arraes. Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Virginia Cavendish, Luís Mello, Paulo Goulart, Lima Duarte, Rogério Cardoso, Marco Nanini, Denise Fraga, Diogo Vilela, Bruno Garcia, Enrique Diaz, Maurício Gonçalves. Estreia: 10/9/00

Ousadia e criatividade foram os dois adjetivos mais comumente ligados à figura do diretor Guel Arraes quando ele começou a mostrar sua personalidade artística na TV Globo, assinando desde telenovelas - como a primeira versão de "Guerra dos sexos", ao lado de Jorge Fernando - até séries que brincavam com a linguagem televisiva e tinham a cara de seu tempo - exemplo da saudosa "Armação ilimitada". Tão logo seu nome tornou-se uma marca reconhecida pelo público que buscava qualidade mesmo na limitada seara da TV aberta (notadamente menos afeita a experimentações estilísticas), era questão de tempo até que o cinema o chamasse com seu canto de sereia. A estreia na tela grande, então, aconteceu com um pé em cada barco: produzido pela Globo Filmes - que depois o exibiria expandido em forma de minissérie - o primeiro filme de Arraes, "O auto da Compadecida" tinha um brilhante elenco de nomes conhecidos pelo grande público, um aparato técnico caprichado e a certeza de sucesso em um meio ou outro. A boa notícia? Ao contrário de muitos outros nomes que saíram da televisão pro cinema, Guel mostrou-se plenamente ciente das diferenças entre as duas linguagens e apresentou à audiência um filme de primeiro nível, capaz de orgulhar e deixar qualquer detrator do cinema nacional sorrindo de orelha a orelha.

Sem abrir mão de suas marcas registradas - sua linguagem televisiva já utilizava frequentemente elementos cinematográficos, como deixa claro a série "A comédia da vida privada" - Guel Arraes não fugiu de mostrar o Brasil em seu filme de estreia. Utilizando-se do texto sensacional de Ariano Suassuna para seu "Auto da Compadecida" (montado pela primeira vez em 1956 e já filmado em 1969 com Regina Duarte no papel de Nossa Senhora), o diretor mesclou a trama que unia dois companheiros do Nordeste brasileiro e suas desventuras para sobreviver ainda que às custas de mentiras e golpes com situações de outras obras de Suassuna - o que seria pretexto para encontrar papel para sua mulher, a atriz Virginia Cavendish, porém, acabou mostrando-se providencial para dar um tom romântico inexistente no texto original. Com um ritmo impecável, recheado de boas ideias visuais e piadas no tom exato entre ingenuidade e malícia, o roteiro - coescrito pelo cineasta e pelo casal Adriana e João Falcão - é um achado, coerente de tal maneira a funcionar quando se assiste tanto à versão em formato de minissérie quanto em seus 104 minutos que chegaram aos cinemas - e, para surpresa de muitos, levaram multidões às salas de cinema.


Os protagonistas de "O auto da Compadecida" são João Grilo e Chicó (em atuações inesquecíveis de Matheus Nachtergaele e Selton Mello), dois pobres coitados que tentam ganhar a vida no sertão nordestino. Sobrevivendo de golpe em golpe, os dois se utilizam da enorme criatividade de João Grilo e da covardia de Chicó para armar situações absurdas, como o funeral de um cachorro - que envolve até mesmo o ganancioso clero da região. Entre as tentativas de Chicó de conquistar o amor da doce Rosinha (Virginia Cavendish) e a cilada em que ambos se metem quando se envolvem com o perigoso cangaceiro Severino de Aracaju (Marco Nanini), eles acabam sendo assassinados. No purgatório, são julgados por todos os seus golpes - assim como várias pessoas que cruzaram seu caminho - e, entre Jesus Cristo (Maurício Gonçalves) e o Diabo (Luís Mello), recorrem à bondade de Nossa Senhora (Fernanda Montenegro) para merecerem uma chance de redenção.

Equilibrando-se entre o humor matreiro de Suassuna - autor que retratou com poesia e malandragem sua região em sua obra - e um carinho visível por seus personagens, Guel Arraes constroi uma primeira obra cinematográfica impecável. O roteiro é primoroso, a direção é certeira e o elenco dispensa comentários. Fernanda Montenegro enaltece a tela sempre que aparece, com sua presença forte e carismática. Diogo Vilela e Denise Fraga ameaçam roubar o filme a cada momento. Marco Nanini é, sem dúvida, um dos grandes atores brasileiros e cria um Severino de Aracaju esplêndido - assim como Enrique Diaz faz com seu capanga de confiança. Mas, mesmo com um elenco de apoio nunca aquém do genial, "O auto da Compadecida" jamais teria a mesma força e o mesmo resultado sem Matheus Nachtergaele e Selton Mello: com uma química fantástica e atuações irretocáveis, eles fazem do filme uma produção memorável, engraçado e comovente na medida certa.

segunda-feira

NA CAMA COM MADONNA

NA CAMA COM MADONNA (Madonna: Truth or Dare, 1991, Boy Toy/Miramax Films, 120min) Direção: Alek Keshishian. Montagem: Barry Alexander Brown. Produção executiva: Madonna. Produção: Tim Clawson, Jay Roewe. Elenco: Madonna, Donna DeLory, Niki Harris, Luis Camacho, Oliver Crumes, Salim Gauwloos, Jose Guitierrez, Kevin Stea, Gabriel Trupin, Carlton Wilborn. Estreia: 10/5/90

Em 1991, Madonna estava em um momento especial de sua carreira, iniciada quase uma década antes: divorciada de seu primeiro marido (o ator Sean Penn, com quem manteve uma relação no mínimo atribulada), elogiada por seu desempenho no filme "Dick Tracy" (em cujos bastidores conheceu e seduziu o diretor/ator/Don Juan Warren Beatty) e contando os milhares de dólares arrecadados por sua turnê mundial "Blonde Ambition", a material girl planejava a dominação do planeta com um pacote ousado em três frentes: o cinema, a literatura e a música. Com o álbum "Erotica", o polêmico livro de fotos sensuais chamado "Sex" e o filme "Corpo em evidência" - onde interpretaria uma mulher acusada de matar o amante de exaustão sexual que envolve seu advogado em uma teia de sadomasoquismo - ela selaria de vez junto a seu fiel público o compromisso de manter sempre viva a chama da controvérsia e das discussões sobre os limites entre arte e pornografia. Antes disso, porém, ela chamou a atenção de todo mundo com outra obra que lhe dirigiu os holofotes até mesmo do sério Festival de Cannes: seu documentário-musical "Na cama com Madonna", que misturava apresentações de seus shows (fotografadas em cores e que mostrava a excelência da produção) e os bastidores da turnê (em um preto-e-branco que revelava detalhes tanto engraçadíssimos quanto chocantes perante os olhos dos mais puritanos). Com o irrisório custo de U$ 4,5 milhões, o filme tornou-se rapidamente na segunda maior bilheteria de um filme do gênero, perdendo apenas para o icônico "Woodstock", de 1969.

Dirigido por Alek Keshishian - depois que David Fincher, que havia assinado os videoclipes "Oh, father", "Express yourself" e "Vogue", da cantora - "Na cama com Madonna" é um filme para fãs, sem dúvida, mas é bem capaz de divertir até mesmo aqueles que não veem nela nada mais do que apenas a mais bem-sucedida estrela da música pop mundial até hoje. Se artistas como Lady Gaga, Britney Spears e Beyoncé hoje são reconhecidas, admiradas e tem sua legião de admiradores, muito devem à coragem de Madonna em, desde sempre, tomar as rédeas de sua carreira e fazer o que bem entendia. Essa ousadia - misturada com um tanto de arrogância que frequentemente vem junto com a genialidade - fica óbvia em cada momento do documentário. Obcecada com a perfeição de seus shows, Madonna não aceita erros, compra briga com o próprio Papa na ocasião de sua apresentação na Itália e chega a ser ameaçada de prisão graças às insinuações de sexo de suas coreografias. Esses problemas legais, inclusive, a empurram mais adiante: percebe-se claramente que o combustível da cantora é justamente a vontade de provocar a audiência. E isso, ninguém pode negar, ela faz com maestria.


As cenas de bastidores captadas pela lente indiscreta de Keshishian registram momentos antológicos da carreira de Madonna. São elas que mostram o desprezo da cantora por Kevin Costner (na época em que ele era o queridinho da América graças ao soporífero "Dança com lobos"), sua paixão enrustida por Antonio Banderas (de quem ela leva uma esnobada clássica e com quem mais tarde dividiria a cena em "Evita"), sua provocação à vaidade do então namorado Warren Beatty, o reencontro com uma amiga de infância (e sua pouca importância a ela), a relação com a família e principalmente a maneira frequentemente carinhosa com que se relacionava com a equipe do show - em especial os bailarinos que, como diz o titulo nacional do filme, revelam-se diante das câmeras em conversas na cama de sua patroa. Tais conversas - e tais revelações, especialmente - acabaram criando polêmica também após o lançamento do filme, quando três dançarinos abriram um processo por invasão de privacidade, fraude e manipulação de imagem (o que é, no mínimo, suspeito, uma vez que todos sabiam perfeitamente bem que estavam sendo filmados). Tais momentos, que incluem um surpreendente jogo da verdade onde ela revela ainda amar Sean Penn e simula sexo oral em uma garrafa, estão entre os mais marcantes em um filme repleto deles.

E se os bastidores de "Blonde Ambition" são sensacionais o show em si é ainda mais empolgante. Uma das primeiras estrelas pop a utilizar a tecnologia como algo mais do que simplesmente coadjuvante no palco, Madonna apresenta um espetáculo acima de qualquer crítica. Recheado de sucessos que vão desde o início de sua carreira, como "Like a virgin" (cuja performance é uma das mais polêmicas e que lhe rendeu as ameaças do Vaticano) até aqueles que estavam começando a bombar nas pistas de dança, com "Vogue", a turnê mostra que Madonna, mais do que simples cantora, é também uma entertainer completa, que conduz com firmeza e segurança uma série de números musicais brilhantes, concatenados como uma espécie de narrativa que fala da força feminina, da fé, da família e da liberdade sexual. Se as pessoas veem Madonna apenas como uma aberração da mídia é porque ainda não tiveram a oportunidade de assistir a seu documentário: muito antes de enveredar por outros caminhos na carreira (como a preocupação social e espiritual que deu o tom de seu "I'm going to tell you a secret", vindo anos depois), ela já mostrava que sabia, como poucas de sua geração, utilizar todas as armas disponíveis para chegar ao topo. De onde ainda não saiu, mais de vinte anos depois.

domingo

A MORTE E A DONZELA

A MORTE E A DONZELA (Death and the maiden, 1994, Fine Line Pictures, 103min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Alfredo Yglesias, Ariel Dorfman, peça teatral homônima de Ariel Dorfman. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Wojciech Kilar. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel. Produção: Josh Kramer, Thom Mount. Elenco: Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Stuart Wilson. Estreia: 23/12/94

Em nenhum momento da narrativa de "A morte e a donzela" é citado o nome do país onde acontece a história, mas sendo Ariel Dorfman - autor da peça teatral que lhe deu origem e que co-assina o roteiro - chileno, não é difícil imaginar que a trama de vingança e traumas de violência tecida por ele tem raízes políticas bem profundas na ditadura militar de Augusto Pinochet, que fustigou o país entre 1973 e 1990. Tampouco é difícil entender os motivos que levaram o diretor Roman Polanski a assinar a adaptação da peça de Dorfman, encenada pela primeira vez em 1992 na Broadway, com Glenn Close, Richard Dreyfuss e Gene Hackman: assim como alguns de seus trabalhos mais famosos, como "O bebê de Rosemary" e "Repulsa ao sexo", "A morte e a donzela" utiliza-se do fato de se passar quase totalmente em um único cenário para transmitir a sensação sufocante de claustrofobia física e psicológica. Contando com uma atuação potente de Sigourney Weaver no papel principal, o cineasta polonês constrói uma obra minimalista, calcada em emoções sufocadas e feridas não-cicatrizadas que é absolutamente coerente com sua filmografia.

Quem está acostumado a ver Weaver como a destemida Tenente Ripley da cinessérie "Alien" - que ainda era uma trilogia na ocasião do lançamento do filme de Polanski - provavelmente irá estranhar sua Paulina Escobar, uma ativista política traumatizada pela truculência da ditadura de seu país e que ainda não conseguiu superar a violência a que foi submetida quando estava presa. Frágil e em constante estado de tensão, ela mora em uma casa afastada da cidade, ao lado do marido, Gerardo (Stuart Wilson), um advogado dedicado à causa dos direitos humanos que está em vias de alcançar um avançado posto no governo. O passado que Paulina quer deixar para trás, porém, invade sua vida novamente durante uma noite de tempestade, quando seu marido traz pra casa um vizinho, Dr. Roberto Miranda (Ben Kingsley), cujo carro quebrou no caminho para a propriedade. Para Gerardo, o médico é apenas um vizinho, mas Paulina o reconhece, através da voz, como o homem que a torturou e violentou durante seu período na prisão (quando era mantida vendada). Disposta a arrancar dele a confissão por tal crime, Paulina o faz de refém e, ao som de "A morte e a donzela", de Schubert - trilha sonora de suas torturas - parte para a agressão física e verbal, pouco ligando para os protestos do marido, que, para sua surpresa, assume a defesa do possível torturador.


Assim como fez posteriormente em seus filmes "O deus da carnificina" e "A pele de Vênus", Roman Polanski não se intimida com a origem teatral de seu roteiro, concentrando-se totalmente nas emoções de seus personagens e atores. Em vez de tentar agilizar a trama com artifícios que certamente esvaziariam o tom dramático da trama, Polanski foca sua câmera nos olhos ora assustados ora raivosos de Sigourney Weaver, na tensão crescente de sua relação com aquele que ela considera seu maior inimigo e nas diversas nuances de seu relacionamento com o marido, que transita nervosamente entre o dever de manter-se neutro como manda a lei e a lealdade com a mulher que ama. Os inúmeros conflitos armados por Ariel Dorfman encontram eco em uma edição segura, que jamais derrapa para o melodrama e nas atuações fortes mas discretas do elenco. Apesar das raízes teatrais, nenhum dos três atores cai na armadilha do overacting, oferecendo performances sempre no tom exato - mérito da direção segura e sem floreios, que não faz concessões nem mesmo em seu final, ambíguo na medida certa.

Quando passou nos cinemas, na metade da década de 90, "A morte e a donzela" foi praticamente ignorado. Injustiça com o trabalho primoroso de Sigourney Weaver - mais uma vez provando que é uma grande atriz escondida atrás de uma personagem de ação marcante - e com uma das direções mais inspiradas de Roman Polanski, que menos de uma década depois ganharia o Oscar por seu mergulho no passado em "O pianista". É um filme que merece ser descoberto, principalmente por tocar em assuntos delicados sem utilizar-se de qualquer tipo de panfletarismo.

sábado

AMOR À TODA PROVA

AMOR À TODA PROVA (Crazy, stupid, love., 2011, Carousel Productions, 118min) Direção: Glenn Ficarra, John Requa. Roteiro: Dan Fogelman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Lex Haxall. Música: Christophe Beck, Nick Urata. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: William Arnold/David Smith. Produção executiva: Vance DeGeneres, Charlie Hartsock, David A. Siegel. Produção: Steve Carrell, Denise Di Novi. Elenco: Steve Carrell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Marisa Tomei, Kevin Bacon, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, John Carrol Lynch. Estreia: 29/7/11


Depois de vários filmes densos e exaustivos psicologicamente – dentre os quais o suspense “A passagem” (05) e o drama romântico “Diário de uma paixão” (04) – o ator Ryan Gosling queixou-se a seu psicanalista de um quase esgotamento. A receita do médico foi a mais heterodoxa possível: entrar com urgência no elenco de uma comédia. Foi assim que um dos melhores atores de sua geração chegou até “Amor a toda prova”, um delicioso misto de comédia, drama e romance conduzido pela dupla Glenn Ficarra e John Requa. Diretores do subestimado “O golpista do ano” – estrelado por Jim Carrey e Ewan McGregor e prejudicado por uma estratégia de lançamento equivocada e expectativas errôneas por parte do público – Ficarra e Requa se baseiam no roteiro bem-amarrado de Dan Fogelman para construir uma ciranda de amores complicados e mal-entendidos fotografada com sofisticação e dotada de um senso de humor irônico e inteligente que raramente frequenta as produções do gênero. Também, é claro, não atrapalha em nada o fato de o elenco contar também com os fabulosos Julianne Moore, Marisa Tomei, Emma Stone e Steve Carrell – um dos produtores executivos do filme e seu protagonista.

Carrell, equilibrando genialmente o humor físico que lhe é característico com uma dose certeira de melancolia que lhe cai com perfeição, interpreta Cal Weaver, um quarentão que logo na primeira cena do filme é surpreendido pelo pedido de divórcio feito pela mulher, Emily (Julianne Moore) – que completa o quadro dramático assumindo que dormiu com um colega de trabalho. Prostrado em uma depressão que o faz chorar pelos cantos do escritório onde trabalha – “Graças a Deus é só um divórcio, poderia ser câncer!”, brada um colega, à guisa de consolo – Cal acaba indo parar em um luxuoso bar para solteiros (visualmente deslumbrante, como um paralelo óbvio à miséria interior do personagem), onde sua figura triste (calças folgadas, tênis, um corte de cabelo ultrapassado) acaba por chamar a atenção de Jacob Palmer (Ryan Gosling), um inveterado e conhecido don juan que, comovido por sua trágica situação, resolve bancar um moderno pigmalião e moldá-lo em um novo e mais autossuficiente modelo masculino. Em pouco tempo – e à custa de muitos dólares e muita humilhação – Cal vira outra pessoa, colecionando amantes ocasionais, para surpresa de sua ex-mulher – ainda hesitante em assumir um relacionamento com o pivô de sua separação, o confiante David Lindhagen (Kevin Bacon) – e da adolescente Jessica, filha de seu melhor amigo (John Carroll Lynch) e que nutre por ele um amor platônico mesmo sabendo que é o nada obscuro objeto de desejo de, filho de Cal e Emily.



Essa quadrilha de amores incompreendidos e/ou secretos se completa com o próprio Jacob, um rapaz bonito, sedutor e rico que, por trás de uma aparente autoconfiança esconde um romantismo enrustido que vem à tona quando conhece a jovem Hannah (Emma Stone), estudante de Direito que rejeita suas frequentes investidas como forma de manter-se fiel ao namorado desatento – até que, na mesma noite chuvosa em que Cal e Emily chegam a um impasse aparentemente insolúvel em sua relação, os dois finalmente se aproximam e deixam desabrochar uma história de amor cujo desfecho, como nas boas comédias de costumes dos anos 40 e 50, se dará em um clímax onde todas as tramas paralelas irão se encontrar de forma a provocar boas risadas – e surpreender o espectador com uma inesperada revelação.

Com um ritmo admirável que disfarça o fato de ser mais longo do que a maioria dos filmes de seu gênero, “Amor a toda prova” é uma comédia romântica muito bem-sucedida. Funciona em todos os níveis: convence como drama, faz rir em vários momentos, dosa com precisão o romantismo e amarra todas as pontas de seu roteiro com inteligência e clareza. Chega perto do sentimentalismo em suas sequências finais, mas o faz com tanta sinceridade que é difícil não se deixar envolver. E além de tudo, faz desfilar diante do público um elenco escalado a dedo. Steve Carrell brilha mais uma vez, apresentando uma química mais do que perfeita com todos os seus colegas de cena – seja com Ryan Gosling, mostrando um timing cômico inesperado, com Julianne Moore ou com Marisa Tomei (dona de uma cena antológica, onde reencontra o amante em uma situação pouco apropriada e não hesita em deixar bem clara a sua opinião sobre o pouco caso dele). Gosling e Emma Stone também soltam faíscas em cena – a longa sequência em que seus personagens passam a noite conversando é fascinante graças ao carisma de ambos, que não por acaso, repetiram a dupla romântica no menos leve “Caça aos gângsters”, de 2011.

Extremamente agradável e plenamente satisfatório, “Amor a toda prova” é um passo à frente na carreira de seus diretores, que demonstram um controle maior sobre o ritmo e a cadência de seu filme anterior e um notável talento em aproveitar o melhor de cada ator de seu brilhante elenco. Para os fãs do gênero, imperdível. Para quem procura uma diversão descompromissada sem abdicar de inteligência, altamente recomendável. Para Ryan Gosling, um remédio certeiro para os males da alma – e para mais um ponto mais do que positivo em uma carreira que tem tudo para ser longa e extremamente bem-sucedida.

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...