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sexta-feira

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

terça-feira

A CHEGADA

A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment,  116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som 

Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.

Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.


Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.

Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!

sexta-feira

TRAPAÇA

TRAPAÇA (American hustle, 2013, Columbia Pictures/Annapurna Pictures/Atlas Entertainment, 138min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, Eric Warren Singer. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers. Música: Danny Elfman. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Matthew Budman, Bradley Cooper, George Parra, Eric Warren Singer. Produção: Megan Ellison, Jonathan Gordon, Charles Roven, Richard Suckle. Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Robert DeNiro, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola. Estreia: 12/12/13

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Ator (Christian Bale), Atriz (Amy Adams), Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Roteiro Original, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Amy Adams), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence)

Em 1999 o cineasta David O. Russell realizou um dos primeiros filmes americanos a tratar sobre a guerra no Golfo, a comédia de ação "Três reis", que demonstrava um senso de humor afiado e uma criatividade que seria ainda mais perceptível no bizarro "Huckabees, a vida é uma comédia", lançado cinco anos depois. Depois disso, de uma hora pra outra, o nova-iorquino tornou-se um queridinho absoluto da Academia. "O vencedor", de 2010, deu a Christian Bale e Melissa Leo os Oscar de coadjuvante, além de ter indicado Amy Adams na mesma categoria. "O lado bom da vida", de 2012, premiou Jennifer Lawrence como melhor atriz - e indicou também Bradley Cooper a melhor ator e Robert DeNiro e Jackie Weaver a coadjuvantes. Ambos concorreram aos Oscar de filme, direção e roteiro. Coroando uma fase sem igual, Russell repetiu o feito na cerimônia de 2014: "Trapaça", seu trabalho seguinte, concorreu a dez estatuetas, incluindo as cinco principais - além de, como aconteceu no ano anterior, ter todos os seus quatro atores principais entre os finalistas nas categorias de interpretação. Isso tudo - mais o Golden Globe de melhor comédia/musical e o prêmio de melhor filme pela Associação de Críticos de Nova York - levantou uma importante questão: o filme era assim tão bom?

Se depender do resultado negativo dos mesmos acadêmicos que o homenagearam com uma dezena de indicações e o deixaram sair da cerimônia de mãos vazias, a resposta é um sonoro "não". Porém, é impossível negar que, apesar de sua vontade explícita de ser um clássico instantâneo, "Trapaça" é uma obra até divertida, desde que vista sem maiores expectativas. Seu maior problema é a ambição: enquanto seus dois filmes anteriores eram calcados basicamente em personagens, sua terceira obra consecutiva a chegar ao Oscar é recheada de pretensões estilísticas que infelizmente cansam mais do que encantam. Bebendo diretamente na fonte do cinema enérgico e marginal de Martin Scorsese, incluindo narrações em off de mais de um personagem, Russell apenas confirma que não tem talento para sair de sua zona de conforto. A narrativa é confusa, lenta e alguns personagens são simplesmente irritantes. Ironicamente, o cineasta disputou a estatueta de melhor diretor com o próprio Scorsese, que estava no páreo pelo irônico "O lobo de Wall Street" - no qual se reinventava novamente. Ambos perderam para Alfonso Cuarón e seu soporífero "Gravidade", mas, por mais difícil que seja de acreditar, o aprendiz com sua versão light dos filmes de golpe parecia ter mais chances que o mestre com seu sarcasmo e ousadia.


A trama de "Trapaça" é complexa como convém a um filme que trata de golpes financeiros, mas narrada de forma convencional, sem maiores arroubos de criatividade, preocupando-se mais com as relações interpessoais de seus personagens, interpretados por atores em momentos de rara inspiração, ainda que por vezes forçados. Christian Bale está mais uma vez irreconhecível como Irving Rosenfeld, um golpista que, em 1977, é forçado a trabalhar ao lado do agente do FBI Ritchie DiMaso (Bradley Cooper) como forma de ter seus crimes perdoados. Casado com a perua Rosalyn (Jennifer Lawrence) - acostumada com os luxos que uma vida de crime proporciona - Rosenfeld conta com a ajuda de sua amante, Sydney (Amy Adams), para tentar jogar o político Carmine Polito (Jeremy Renner) e outros figurões atrás das grades. Logicamente nem tudo sai como o planejado, o que leva todos a situações inesperadas - e a um final inteligente o bastante (mas quase previsível) para justificar os momentos menos ágeis do roteiro.

No fundo, a profusão de indicações de "Trapaça" ao Oscar teve mais a ver com os valores de produção - por se passar no final da década de 70 os figurinos e os cenários mereceram cuidado especial - e o elenco do que exatamente por suas qualidades inovadoras. Parte de um subgênero do cinema hollywoodiano - os filmes de roubo - a obra de Russell segue sua cartilha à risca, criando personagens simpáticos em sua marginalidade e uma trama rocambolesca na medida exata para prender a atenção e não confundir o público. Se Amy Adams utiliza a sensualidade pela primeira vez em sua carreira em um interpretação impecável e Bale mais uma vez mostra que é um ator extraordinário, os coadjuvantes Bradley Cooper e Jennifer Lawrence (protagonistas do filme anterior do diretor) não fazem feio, ainda que a elogiada Lawrence talvez exagere um pouco nas tintas de sua personagem - culpa dela, da direção ou do excesso de expectativa em torno de seu nome?

Em resumo, "Trapaça" é filme razoável mas jamais brilhante, simpático mas nunca encantador. O excesso de indicações ao Oscar talvez tenha representado mais um exemplo de alucinação coletiva que acomete frequentemente a Academia do que um atestado de suas qualidades. Apenas um passatempo com mais ambições do que acertos. E além do mais, tem Robert DeNiro em um papel decente, o que não é sempre que acontece ultimamente.

terça-feira

TERRA FRIA

TERRA FRIA (North country, 2005, Warner Bros, 126min) Direção: Niki Caro. Roteiro: Michael Seitzman, livro "Class Action: The story of Lois Jensen and the landmark case that changed sexual harassment law", de Clara Bingham, Laura Leedy. Fotografia: Chris Menges. Montagem: David Coulson. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Peter Tosti Stephenson. Produção executiva: Helen Bartlett, Doug Claybourne, Nana Greenwald, Jeff Skoll. Produção: Nick Weschler. Elenco: Charlize Theron, Sean Bean, Frances McDormand, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, Woody Harrelson, Michelle Monaghan. Estreia: 12/9/05 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Charlize Theron), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand)

Mesmo sem que seu nome não diga nada à vasta maioria da população mundial, Lois Jenson poder ser considerada, sem favor, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos femininos da história dos EUA: na tradição de Crystal Lee Sutton (retratada no filme "Norma Rae", de 1979) e Karen Silkwood (protagonista de "Silkwood, o retrato da coragem", de 1983), ela foi a responsável por um processo - ou vários deles, na verdade - que abriram o precedente para que fossem criadas as leis responsáveis por criminalizar o assédio sexual no ambiente de trabalho. Por incrível que possa parecer, no entanto, tais leis, sem as quais as relações profissionais entre homens e mulheres sempre sofreriam de uma tensão muitas vezes palpável, só chegaram aos tribunais americanos em 1989. Por causa de Jenson, uma mulher simples que só queria o direito de trabalhar em paz em um ambiente cercado de machismo - e do qual fazia parte seu próprio pai. Rebatizada como Josey Aimes e com o belo rosto de Charlize Theron, Jenson juntou-se Silkwood e Sutton no imaginário dos fãs de cinema quando foi a protagonista de "Terra fria", filme dirigido por Niki Caro - de "A encantadora de baleias" - que chegou à festa do Oscar 2006 indicado em duas categorias: melhor atriz (Theron, sempre excelente) e atriz coadjuvante (Frances McDormand).

Concentrando vários processos movidos pela real Lois Jenson em apenas um - para fins dramáticos e sem prejuízo para a verossimilhança do roteiro - "Terra fria" segue à risca a tradição dos filmes sobre mulheres valentes lutando contra o sistema, mas, graças à direção firme de Caro e à intensidade de Charlize Theron, tal característica não chega a impedir que o resultado final perca sua força e capacidade de indignar ao espectador. Evitando o sentimentalismo e enfatizando a solidão de sua protagonista em seu árduo caminho em direção à justiça, o filme peca apenas por ser excessivamente burocrático: não há ousadias na narrativa de Caro, e essa simplicidade quase documental acaba por impedí-la de atingir todas as suas possibilidades emocionais. Mesmo assim, a forma com que a fotografia acinzentada do veterano Chris Menges combina com o tom monocromático da vida dos personagens e a força das interpretações de Theron, McDormand e do sensacional Richard Jenkins - além da participação especial de Sissy Spacek, de presença sempre marcante - elevam "Terra fria" a um programa bastante acima da média.


Fugindo de um casamento abusivo e tentando recomeçar a vida ao lado dos dois filhos, a bela Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no interior de Minnesota, volta a morar com os pais e arruma emprego em um salão de beleza, que não lhe paga um salário suficiente para manter um nível de vida razoável. Incentivada por uma amiga que trabalha na mina de carvão local, a determinada Glory (Frances McDormand) ela resolve desafiar as convenções e tornar-se colega do pai, de um antigo namorado e de outras mulheres também necessitadas de um contracheque menos magro - caso da jovem Sherry (Michelle Monaghan), que precisa sustentar a mãe doente. Bonita e interessante, logo Josey chama a atenção dos colegas homens, que passam a assediá-la sexualmente, tanto com brincadeiras grosseiras quanto com ameaças reais de estupro. Sabendo que tal comportamento não se restringe apenas a ela, mas também a todas as suas colegas do sexo feminino, Josey resolve pedir ajuda à diretoria da mina, mas, sendo humilhada até mesmo por seus patrões - que questionam inclusive o fato de ela não saber quem é o pai de seu filho mais velho - não cabe a ela outra opção a não ser contratar os serviços de um advogado amigo, Bill White (Woody Harrelson), para levar a empresa aos tribunais. Falta apenas, no entanto, convencer suas colegas a testemunhar a seu favor.

Centrando suas forças no talento inegável de Charlize Theron - que mesmo desglamourizada continua linda e carismática - "Terra fria" conquista o público principalmente por fazer de sua protagonista uma heroína clássica, propensa a todos os sofrimentos reservados às grandes mártires do cinema. Sozinha contra o mundo, Josey vê sua vida tornar-se um inferno apenas por desejar justiça, o que acaba por desencadear uma volta ao passado que machuca todos à sua volta. Chegando bem perto do clichê em diversos momentos - em especial quando seu pai (vivido por Jenkins em atuação digna de um Oscar mas injustamente esquecido pela Academia) finalmente toma seu partido diante de todos os mineiros que a estão hostilizando abertamente - o filme de Caro se redime magnificamente sempre que Charlize toma as rédeas, em um trabalho comovente mas nunca piegas. A força de seu desempenho sustenta o filme como um todo - e é força suficiente para torná-lo imperdível.

segunda-feira

ATRAÇÃO PERIGOSA

ATRAÇÃO PERIGOSA (The town, 2010, Warner Bros, 125min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Peter Craig, Aaron Stockard, romance "Prince of thieves", de Chuck Hogan. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: David Buckley, Harry Gregson-Williams. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: David Crockett, William Fay, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Basil Iwanyk, Graham King. Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner, Pete Postletwhaite, John Hamm, Blake Lively, Chris Cooper. Estreia: 08/9/10 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)


De promessa de astro no final da década de 90, quando ganhou o Oscar de roteiro original ao lado do amigo de infância Matt Damon, pelo filme “Gênio indomável”, nos anos seguintes o ator Ben Affleck parecia ter entrado em um inferno astral. Sucessos de bilheteria não faltavam – “Armaggedon” à frente – mas seus talentos dramáticos frequentemente eram postos à prova (quando não severamente criticados e motivo de piadas por parte da indústria e até do público). Filmes como “Pearl Harbor” (01), “Demolidor” (03) e principalmente “Contrato de risco, que fez ao lado da então noiva Jennifer Lopez, o colocaram em uma encruzilhada artística de que poucos conseguiriam sair ilesos. Foi então que o destino voltou a lhe sorrir. Iniciou uma nova carreira com o drama policial “Medo da verdade”, baseado em livro de Dennis Lehane (autor também de “Sobre meninos e lobos”) e, com elogios unânimes e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Amy Ryan, mostrou-se um cineasta promissor. Dois anos mais tarde, ao assumir para a Warner um projeto que o cineasta Adrian Lyne abandonou a meio caminho, mostrou que o sucesso do filme anterior não havia sido apenas sorte de principiante.

O mais interessante em “Atração perigosa” – um título nacional derivativo que esconde as grandes qualidades do filme – é a segurança com que Affleck comanda a narrativa, equilibrando com extrema eficiência sequências de ação impecáveis e um drama romântico que foge do clichê e do melodrama barato. Evitando erros comuns a diretores ainda inexperientes – que sempre querem colocar em sua primeira experiência todas as ideias que lhe vem à mente – Affleck opta por uma direção discreta, deixando que a história fale mais do que suas ambições estilísticas. Desse modo, o público acaba mergulhando sem reservas em uma trama repleta de violência (moderada mas ainda assim convincente) e romance (realista e envolvente). Com base no livro “Prince of thieves”, de Chuck Hogan, o roteiro (também com participação do ator/diretor) acompanha personagens que, mais do que simplesmente obrigados a lidar com a criminalidade que os cerca, são parte viva de um ambiente onde ela brota a cada esquina – e, pior ainda, atravessa gerações.



O protagonista é Doug MacRay, interpretado por Ben Affleck em registro sutil e surpreendentemente suave. MacRay trabalha como operário em Boston, mas não consegue renegar o sangue e, a exemplo do pai, Stephen (Chris Cooper), volta e meia acaba se envolvendo em assaltos a bancos, uma atividade rotineira na região onde mora, uma das mais violentas da cidade. É durante um desses ataques que ele conhece a bela Claire Keesey (Rebecca Hall), vítima involuntária do ímpeto de um de seus comparsas, James Coughlin (Jeremy Renner). Com medo que Claire possa reconhecer um deles depois de ter sido feita refém – apesar das máscaras que eles usam em todas as atividades ilegais de que participam – MacRay se aproxima dela e os dois acabam se apaixonando. Logicamente, ele precisa esconder seus sentimentos de todos à sua volta, especialmente de James, seu amigo de infância e irmão de uma ex-namorada, a vulgar Krista (Blake Lively) e do detetive do FBI Adam Frawley (John Hamm, da série “Mad men”), que se dedica ferozmente a capturá-lo. Não bastasse esse problema múltiplo – e o medo de que Claire o reconheça – o rapaz ainda precisa lidar com Fergus Colm (Pete Postlethwaite), o chefão local que o chantageia para que se mantenha no crime.

Há muito o que elogiar em “Atração perigosa”. Além das cenas de ação – inspiradas em filmes como “Fogo contra fogo” (95) e “Os infiltrados” (06) e dotadas de energia e segurança ímpares – o ator tornado diretor consegue a façanha de equilibrá-las com momentos de grande impacto dramático, amparado principalmente por um elenco esplêndido. Jeremy Renner substituiu Mark Whalberg – ocupado com as filmagens de “O vencedor” – na última hora, recomendado pelo irmão do diretor, Casey Affleck, e abocanhou uma justa indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas são duas participações pequenas que aumentam o valor do filme: como o pai criminoso de MacRay, o veterano Chris Cooper não precisa de muitos minutos em cena para roubar a atenção, e Pete Postletwhaite mostra porque era considerado um dos melhores atores do mundo ao fazer de seu Fergus um dos vilões mais assustadores do ano. Mostrando que é capaz de dirigir tanto cenas carregadas de adrenalina quanto momentos mais intimistas, Affleck pavimentou o caminho para que, três anos mais tarde, seu “Argo” conquistasse o merecido Oscar de melhor filme. Sem contra-indicações, “Atração perigosa” é um filme policial dos melhores.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...