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sábado

MAPAS PARA AS ESTRELAS

MAPAS PARA AS ESTRELAS (Maps to the stars, 2014, Prospero Pictures/Sentient Entertainment, 111min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Bruce Wagner. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Sandy Lindstedt, Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Benedict Carver, Renee Tab, Patrice Theroux. Produção: Sain Ben Said, Martin Katz, Michael Merkt. Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, John Cusack, Evan Bird, Olivia Williams, Sarah Gadon. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Julianne Moore)

Já faz algum tempo que o canadense David Cronenberg deixou de lado sua obsessão por vísceras expostas e personagens tão bizarros que beiravam o surreal. O homem que se tornou conhecido por obras quase desagradáveis como "Scanners: sua mente pode destruir" (81), "Videodrome: a síndrome do vídeo" (83), "A mosca" (86), "Gêmeos: mórbida semelhança" (88) e "Crash: estranhos prazeres" (96) entrou ameno no século XXI, contando histórias mais palatáveis ao público médio - "Marcas da violência" (05) e "Senhores do crime" (07) chegaram, vejam só, a concorrer ao Oscar. Porém, a alma de Cronenberg ainda mantém algo de doentio, como mostra "Mapas para as estrelas", uma aparentemente inofensiva comédia dramática sobre os exageros das celebridades no mundo do cinema e que deu à Julianne Moore a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes 2014. Aparentemente inofensiva porque, por debaixo do humor mordaz do roteiro de Bruce Wagner e da atuação à beira do over do elenco - uma característica que também marca normalmente a obra de outro outsider, chamado David Lynch - está uma narrativa ferozmente cruel, que desnuda sem pudores o universo fútil e impiedoso da indústria cinematográfica americana.  

Assim como Robert Altman fez em "O jogador" (92), Cronenberg explora as entranhas do mundo corporativo do cinema, mas não através do olhar de um poderoso produtor e sim de uma atriz outrora significante lutando para dar a volta por cima e retornar aos holofotes. Em uma de suas duas brilhantes atuações da temporada (a outra foi em "Simplesmente Alice", que lhe deu um merecido Oscar), Julianne Moore vive de corpo e alma a desesperada e frustrada Havana Segrand, que, entre massagens, sessões de terapia e almoços de negócios, tenta convencer a todos que passam por seu caminho que ela é a escolha certa para interpretar, em um remake, a personagem que tornou sua mãe em estrela nos anos 60. Resistindo ao preconceito - a idade, afinal, é um fator dominante dentro da indústria - e às flutuações de prestígio que a fazem disputar o papel com nomes mais quentes, Havana também precisa brigar com fantasmas interiores que remetem a um trauma de infância que ela teima em esconder. E trauma de infância também é um problema para Benjie Weiss (Evan Bird), um adolescente de 13 anos, astro de um filme de sucesso que é aterrorizado por ter quase sido assassinado pela irmã mais velha quando era uma criança: rigidamente controlado por gente que exige que ele fique longe das drogas para manter seu contrato, ele vive em conflito com os pais, o médico-astro Stafford Weiss (John Cusack) e a nervosa Christina (Olivia Williams) - eles também detentores de um grave segredo.


As vidas de Havana e Benji - famosos e flutuando em um universo de drogas, álcool, sexo e celebridade fácil - contrasta com a de Agatha (Mia Wasikowska), uma jovem que chega da Califórnia disposta a trabalhar em Los Angeles e esquecer um incêndio que destruiu parte do seu rosto e suas mãos. Por intermédio da atriz Carrie Fischer - que conhece pela Internet - Agatha vai trabalhar com Havana, que se solidariza com seus dramas pessoais. Enquanto cuida de manter a agenda da patroa em dia - e de fazer compras pessoais para ela - a jovem acaba se encantando com Jerome (Robert Pattinson), motorista de limousine que sonha ser ator e tenta escrever um romance. Seus complexos, no entanto, acabam por se mostrarem mais fortes do que qualquer desejo, principalmente quando ela se vê obrigada a encará-los novamente e percebe que sua relação com Havana não será tão pacífica quanto o esperado.

Dirigindo seu filme como uma comédia de erros macabra - com direito a revelações bombásticas, incesto e uma inesperada violência física no clímax - David Cronenberg volta a mostrar seu domínio da técnica narrativa, impulsionada por personagens pouco simpáticos e situações cuja banalidade se mostra crucial para um maior impacto. Com um roteiro que enfatiza a superficialidade das relações e a fugacidade da juventude, "Mapas para as estrelas" usa e abusa de ironia, com inúmeras referências ao mundo do cinema e uma contundente crítica à importância exagerada que é dada à juventude e à beleza em detrimento do talento. Não é um filme convencional - o que fica evidente conforme a narrativa vai assumindo ares cada vez mais surreais - mas tampouco é uma tour de force bizarra como os trabalhos lançados pelo cineasta na década de 80. É um belo e impactante filme, repleto de um sarcasmo sutil e rascante e ilustrado pelo sublime desempenho de Julianne Moore. Quem gosta de esmiuçar os bastidores de Hollywood vai se encantar.

quinta-feira

UM MÉTODO PERIGOSO

UM MÉTODO PERIGOSO (A dangerous method, 2011, RPC/Lago Film, 99min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Christopher Hampton, peça teatral "A most dangerous method", de John Kerr. Fotografia: Peter Suchitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: James McAteer/Gernot Thondel. Produção executiva: Stephan Mallman, Karl Spoerri, Thomas Sterchi, Peter Watson, Mathias Zimmermann. Produção: Jeremy Thomas. Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Sarah Gadon. Estreia: 02/9/11 (Festival de Veneza)

Levando-se em consideração a obsessão do cineasta David Cronenberg pelo lado mais sombrio da mente humana - haja visto filmes como "Gêmeos, mórbida semelhança" e "Crash, estranhos prazeres" - não era de se duvidar que, mais cedo ou mais tarde ele iria esbarrar com o pai da psicanálise em algum projeto. Esse dia chegou, e, por incrível que pareça, "Um método perigoso" - o resultado desse encontro - é um filme que, apesar do tema, é bastante diferente da filmografia pregressa de Cronenberg, onde a transgressão de qualquer formalidade estética e comercial era mandatória. Quase burocrático e por vezes comportado até demais (principalmente se for levado em conta seu tema), ainda assim seu filme é muito mais interessante do que a média.

Baseado na peça teatral de "A most dangerous method", escrita pelo roteirista Christopher Hampton - por sua vez inspirado no livro de John Kerr já publicado no Brasil - "Um método perigoso" não mostra todas as aberrações visuais dos filmes mais conhecidos do diretor, preferindo centrar-se nos diálogos inteligentes e nas neuroses dos protagonistas, todos eles de grande importância para a psicanálise como a conhecemos hoje em dia. Ao abdicar também da violência com que vinha trabalhando em seus últimos projetos - "Marcas da violência" e "Senhores do crime", ambos estrelados por Viggo Mortensen - Cronenberg demonstra uma maturidade muito bem-vinda e uma segurança na direção de atores que justifica os elogios rasgados que o filme recebeu desde sua estreia no Festival de Veneza de 2011, apesar de ter falhado em conquistar a atenção da Academia, que ignorou o completamente o filme.


"Um método perigoso" conta o nascimento da psicanálise, através da relação entre Carl Jung (Michael Fassbender em outra atuação notável) e sua jovem paciente Sabina Spielrein (Keira Knigthley usando e abusando das caras e bocas), com a qual ele se permite utilizar um novo estilo de tratamento, ainda inédito então, no qual o médico busca a cura das psicoses (esquizofrenias e todas as variantes possíveis) através de longas e constantes conversas. O tratamento com Sabrina - jovem, bela, inteligente e que encontra prazer na violência física por razões que acabam sendo descobertas no decorrer do tratamento - acaba confundido Jung, que acaba se envolvendo sexualmente com ela, para desgosto de seu mentor, Sigmund Freud (Viggo Mortensen, indicado ao Golde Globe de ator coadjuvante apesar de apresentar um trabalho apenas mediano). Os relacionamentos de Jung - com Sabrina e com Freud - são o cerne do roteiro de Hampton, e é sorte de Cronenberg contar com um inspiradíssimo Michael Fassbender para dar credibilidade e complexidade a todas as nuances de um personagem que poderia facilmente cair na caricatura ou no egocentrismo. Diferente da atuação de Keira Knigthley, que torna risível os potentes dramas de sua personagem.

Logicamente é um filme para leigos, o que de certa forma deixa a desejar em termos históricos ou médicos. O roteiro de Hampton - vencedor do Oscar pelo sensacional "Ligações perigosas" - se dedica muito mais às personagens e suas relações do que com suas consequências históricas, o que não deixa, no entanto de ser um assunto tão atraente quanto. A reconstituição de época caprichada e a belíssima fotografia dão consistência à trama, e o ritmo pacífico imposto por Cronenberg serve muito bem ao espírito clássico da obra, um trabalho sensível que conta ainda com uma participação mais do que especial de Vincent Cassel, que quase rouba a cena na pele de um amigo de Jung que o incentiva a abandonar seus pudores e se entregar ao desejo por Sabrina. Suas cenas com Michael Fassbender são hipnotizantes, bem mais do que aquelas que deveriam ser as mais importantes do roteiro - e que mostram os embates intelectuais entre Jung e Freud (um papel que provavelmente teria sido melhor aproveitado pela escolha inicial do diretor, Christoph Waltz). Essa pequena falha, no entanto, não atrapalha o resultado final de um filme sério e adulto que é tratado como tal.

terça-feira

SENHORES DO CRIME

SENHORES DO CRIME (Eastern promises, 2007, Focus Features/BBC Films, 100min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Steve Knight. Fotografia: Peter Suschitszky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Judy Farr. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Stephen Garrett, David M. Thompson. Produção: Robert Lantos, Paul Webster. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack, Jerzy Skolimowski. Estreia: 05/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator

O sucesso de crítica e público de "Marcas da violência" (05) deu novo rumo à carreira do cineasta canadense David Cronenberg, até então acostumado a dividir opiniões com seus trabalhos frequentemente à beira do mau-gosto - vide a podridão explícita de "A mosca" e o surrealismo exarcebado de "Mistérios e paixões". Encontrando no ator Viggo Mortensen um parceiro artístico à altura, ele retornou aos desvãos da alma humana em seu filme seguinte, "Senhores do crime", em que equilibrou seu gosto pela violência com uma narrativa simples e direta, que prescindia de artifícios e metáforas para conquistar a plateia ávida por um bom filme policial. Mesmo recorrendo em alguns momentos a sequências bem mais gráficas do que a média do gênero - com sangue jorrando aos borbotões e um homem tendo o olho perfurado em uma luta - Cronenberg realizou uma obra que foge do convencional graças ao roteiro inteligente, ao elenco em boa forma e à sua direção, firme e inspirada.

Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho - a princípio minimalista mas que vai aos poucos acumulando energia para o já antológico clímax em uma sauna, onde luta nu com dois homens que querem matá-lo - como Nikolai, o motorista de uma família de mafiosos russos que vivem em Londres. Com o corpo coberto de tatuagens - sinais que contam sua história de crimes, segundo dizem seus chefes - ele anseia em ser aceito como membro do seleto e violento grupo, liderado pelo aparentemente dócil Seymon (Armin Mueller-Stahl), que tem uma relação conflituosa com o filho único, o desajustado e impulsivo Kirill (Vincent Cassel). Seu mundo encharcado de sangue e vinganças é penetrado repentinamente pela obstetra Anna (Naomi Watts),  que chega até eles em busca de informações a respeito de uma adolescente que morreu em seus braços, durante um parto. Através do diário da jovem - que a médica não consegue traduzir do russo apesar de sua descendência soviética - ela tenta descobrir um meio de entregar seu bebê recém-nascido a algum membro da família, mas nem de longe desconfia que os responsáveis por toda a tragédia estão justamente entre aqueles a quem ela pede socorro.


Pontuando sua trama com um clima de constante ameaça, Cronenberg tem o mérito de depositar nos confiáveis braços de Mortensen um papel-chave, que, para surpresa do público, tem muito mais nuances e desdobramentos do que parecia a princípio. O roteiro de Steve Knight é pródigo em impedir a audiência de adivinhar o que vem pela frente, embaralhando suas cartas sempre que a trama parece caminhar em direção a um clichê. A relação entre Seymon e Kirill, por exemplo, seria um prato cheio para um roteirista preguiçoso, mas Knight faz questão de deixá-la sempre em tensão crescente, como se a qualquer momento tudo entre eles pudesse explodir sem aviso prévio. Logicamente, a escolha de Mueller-Stahl e principalmente Vincent Cassel para os papéis não poderiam ter sido mais corretas - o primeiro com seu ar bonachão de pai de família carinhoso e o segundo com seu eterno tom de desequilíbrio mental. Ao lado de Mortensen, uma presença tranquila e silenciosa, eles formam uma tríade de perigo à espreita que empresta o filme boa parte de seu charme e inteligência.

Forte e violento, "Senhores do crime" transforma até mesmo um momento sublime - o nascimento de um bebê - em uma fonte de vingança e crueldade, uma espiral crescente de tensão e desespero na qual a sofrida Anna (uma mãe frustrada pela morte prematura de um filho) se vê envolvida em um meio masculino que não a vê senão como um pedaço de carne. A virilidade misógina que perpassa o filme - com os homens explorando as prostitutas, violentando adolescentes e tratando suas esposas e mães como apêndices inferiores - tem reflexo nas cenas extremamente agressivas de luta e nos rituais de transição representados pela sessão de tatuagens em Nikolai e nos assassinatos cometidos em nome de uma tradição familiar sanguinária, mas a presença quase serena de Anna ameniza a sensação de desesperança e pesadelo que a fotografia escura e úmida transmite. Essa dicotomia massiva entre bem/mal, luz/escuridão, nascimento/morte é um dos trunfos do filme, que é um dos pontos altos da filmografia de David Cronenberg.
 

segunda-feira

MARCAS DA VIOLÊNCIA

MARCAS DA VIOLÊNCIA (A history of violence, 2005, New Line Cinema, 98min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Josh Olson, graphic novel de John Wagner, Vince Locke. Fotografia: Peter Suchitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Peter P. Nikolakakos. Produção executiva: Ken Alterman, Cale Boyter, Josh Braun, Toby Emmerich, Justis Greene, Roger E. Kass. Produção: Chris Bender, J.C. Spink. Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill. Estreia: 16/5/05 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (William Hurt), Roteiro Adaptado

A princípio parece estranho que o nome de David Cronenberg esteja nos créditos de abertura do filme "Marcas da violência", afinal o cineasta canadense sempre privilegiou, em sua filmografia, histórias que se distanciassem do banal - a não ser que alguém considere convencionais obras como "A mosca" (86), "Gêmeos, mórbida semelhança" (88), "Mistérios e paixões" (93), "Crash, estranhos prazeres" (96) e "Spider, desafie sua mente" (02), só para citar alguns. O estranhamento, porém, fica apenas na superfície: apesar da narrativa linear e clássica, a adaptação da graphic novel de John Wagner e Vince Locke tem, em seu âmago, um tema caro ao diretor: uma crise de identidade capaz de transformar uma vida pacata e normal em um turbilhão de violência e sangue. O fato de tal crise se passar em um ambiente doméstico, distante de laboratórios, clínicas de cirurgia plástica ou instituições psiquiátricas, portanto, apenas amplia o desconforto e a tensão geradas por uma história simples, mas contada com o talento visceral de um dos mais corajosos cineastas de sua geração em um encontro mais do que feliz com um ator que se tornaria um parceiro fiel: Viggo Mortensen.

Ficando com o papel recusado por Thomas Jane e Harrison Ford (em uma escalação que soaria um tanto esquisita devido à sua idade inadequada), Mortensen tem uma das melhores atuações de sua carreira na pele do tranquilo e caseiro Tom Stall, feliz proprietário de uma lanchonete em uma pequena cidade de Indiana que tem sua vida virada pelo avesso quando, ao defender uma funcionária durante um assalto, mata os dois criminosos com técnica e disposição surpreendentes. Tornado ídolo dos moradores da cidade e pauta de telejornais por todo o país, ele é procurado por um misterioso homem chamado Carl Fogarty (Ed Harris), que, deformado por uma cicatriz no lado esquerdo do rosto, insiste em chamá-lo de Joey. Cercando e ameaçando a família de Tom - a esposa Edie (Maria Bello), o filho adolescente Jack (Ashton Holmes) e a pequena Sarah (Heidi Hayes) - Fogarty acaba despertando um lado obscuro no sereno e dedicado comerciante, que se vê obrigado a enfrentar seu passado escondido de todos (e que envolve a máfia irlandesa e seu próprio irmão, o sinistro Richie Cusack, interpretado por um William Hurt indicado ao Oscar de coadjuvante por menos de dez minutos em cena).


Apesar do tema comum à obra de Cronenberg, é inegável que "Marcas da violência" é um produto atípico em sua trajetória. Narrado de forma quase clássica e prescindindo de artifícios visuais além daqueles necessários a sublinhar a violência bastante gráfica de algumas sequências, o filme mergulha o espectador em um universo onde a tensão é constante e cada silêncio deixa revelar contornos assustadores a respeito do protagonista, cuja verdadeira personalidade vai sendo descoberta aos poucos - tanto pelo público quanto por sua atônita esposa, interpretada por Maria Bello também em um momento inspirado da carreira e protagonista de duas tórridas cenas de sexo que deram muito o que falar e que inteligentemente marcam a ruptura psicológica de Tom, que passa de marido romântico e carinhoso a um interessante contraponto violento e viril. Essa ruptura também é perceptível no ritmo da narrativa, que começa sossegadamente mostrando o cotidiano quase monótono da vida familiar até explodir em um inesperado banho de sangue que passa a ditar o tom da segunda metade do filme - um tom que a primeira cena já deixava antever, ainda que com uma certa sutileza que vai se esvaecendo no decorrer da trama.

Saindo de sua zona de conforto como diretor, David Cronenberg acaba por entregar um excelente drama policial, repleto de cenas de grande impacto visual e emocional e com uma história sólida o bastante para não deixar que se apoie somente em tais sequências. Ao mesmo tempo em que desenvolve uma trama com início, meio e fim bem definidos, o roteiro - também indicado ao Oscar, que perdeu para "O segredo de Brokeback Mountain" - questiona, de forma inteligente, de que forma a genética pode influenciar uma personalidade, quando põe em jogo os problemas do filho adolescente de Tom, que, sofrendo bullying na escola, vê na atitude corajosa do pai uma maneira de resolver suas questões e acaba se envolvendo muito mais do que o esperado e desejado no mundo de violência do qual sua família estava a salvo até então. Esse subtexto dramático - forte e adequado - dá ainda mais consistência à "Marcas da violência", um dos grandes filmes da temporada 2005.

quarta-feira

SPIDER - DESAFIE SUA MENTE

SPIDER, DESAFIE SUA MENTE (Spider, 2002, Odeon Films/Capitol Films, 98min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Patrick McGrath, romance de sua autoria. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Andrew Sanders/Marina Morris, Clive Thomasson. Produção executiva: Jane Barclay, Charles Finch, Simon Franks, Victor Hadida, Sharon Harel, Zygi Kamasa, Martin Katz, Hannah Leader, Luc Roeg. Produção: Catherine Bailey, David Cronenberg, Samuel Hadida. Elenco: Ralph Fiennes, Miranda Richardson, Gabriel Byrne, Lynn Redgrave, John Neville. Estreia: 21/5/92 (Festival de Cannes)

Capgras é uma síndrome psicológica real: seus portadores acreditam, sem sombra de dúvidas, que pessoas próximas a eles foram substituídas por impostores idênticos. Tal distúrbio é o ponto central de "Spider, desafie sua mente", mais um brilhante e perturbador filme do cineasta canadense David Cronenberg. Com roteiro do escritor Patrick McGrath inspirado em um romance de sua autoria, o filme acompanha os desvãos da mente distorcida de seu protagonista sem preocupar-se em ser didático, imergindo o público em um emaranhado de memórias alteradas, violência e adultério comandados por uma avassaladora interpretação de Ralph Fiennes. Silencioso, minimalista e assustador, o ator inglês entrega uma das maiores performances de sua carreira, injustamente ignorada por todas as cerimônias de premiação da temporada - e hipnotiza a plateia desde sua primeira aparição em cena.

Seu personagem, Dennis Clegg, é um homem que, depois de ter passado mais de vinte anos em uma instituição psiquiátrica, volta ao convívio da sociedade apesar de seu diagnóstico de esquizofrenia aguda. Com a ajuda de seus médicos, ele encontra um lar na pensão da Sra. Wilkinson (Lynn Redgrave), um local que abriga vários outros doentes mentais em graus diversos de patologia. Introvertido e paranoico, ele pouco interage com os demais moradores da pensão, preferindo, ao invés disso, descrever em um diário todas as suas impressões e lembranças - em um idioma que só ele consegue compreender. Torturado por suas lembranças, Clegg - cujo apelido de infância é Spider - passa os dias caminhando pelos arredores de sua antiga casa, tentando refazer em seu pensamento todos os acontecimentos que o levaram à instituição quando ainda era uma criança. Frequentando os bares e parques do bairro, ele volta a viver o drama de pertencer à uma família disfuncional desfeita por uma tragédia.


Na Londres dos anos 50, Clegg é um menino aparentemente normal, ainda que extremamente tímido. Filho único, ele presencia frequentemente as brigas entre seus pais, uma dona de casa dedicada (Miranda Richardson) e um encanador mulherengo e alcóolatra (Gabriel Byrne) conhecido em todos os bares das redondezas - e pelas prostitutas locais. É uma dessas mulheres (também vivida por Richardson, em um desempenho extraordinário) que acaba sendo a catalisadora da grande mudança na vida do garoto, quando, depois da violenta morte de sua mãe (assassinada depois de flagrar o marido com outra mulher), se casa com seu pai e passa a morar com os dois. Na mente traumatizada do pequeno Spider ela é exatamente igual fisicamente à sua amada e falecida mãe, o que acaba o levando a uma situação de confusão psicológica que tem um desfecho ainda mais trágico.

Sem deixar ao espectador uma linha clara entre o que é realidade e o que é apenas fruto da imaginação conflituosa de Spider, o roteiro de McGrath e a direção de Cronenberg borra propositalmente os limites entre as duas situações, transformando seu filme em uma experiência fascinante. Com seu olhar alucinado e vazio, Ralph Fiennes carrega nas costas a responsabilidade de intrigar e surpreender a audiência, e o faz com a segurança de sempre, construindo um personagem complexo com uma riqueza de detalhes (físicos e emocionais) impressionante - desde a forma como anda até a maneira como se relaciona com os colegas da pensão, tudo é minimamente calculado para dar consistência a um papel que, em mãos mais propensas a exageros, cairia fatalmente no ridículo ou no exagerado. Sua economia dramática, além do mais, encontra eco na fantástica interpretação de Miranda Richardson, que se divide em duas personagens antagônicas com uma naturalidade chocante: se Fiennes é a alma de "Spider", ela é o corpo e a culpa, capaz de deixar qualquer um de queixo caído.

Tenso, pesado, complexo - mas por isso mesmo brilhante, inteligente e melancólico - "Spider, desafie sua mente" é um dos trabalhos mais sensíveis de David Cronenberg, que deixa de lado sua tendência ao bizarro e ao escatológico para mergulhar em um universo ainda mais surreal e apavorante: a mente de um esquizofrênico. Graças ao roteiro inteligente e aos atores em momentos inspirados, criou um de seus melhores filmes.

terça-feira

GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA

GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA (Dead ringers, 1988, Morgan Creek Productions, 116min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: David Cronenberg, Norman Snider, romance "Twins", de Bari Wood, Jack Geasland. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith. Produção executiva: Carol Baum, Sylvio Tabet. Produção: Marc Boyman, David Cronenberg. Elenco: Jeremy Irons, Genevieve Bujold, Heide von Palleske, Barbara Gordon, Shirley Douglas. Estreia: 08/9/88

Um romance chamado "Twins", escrito por Barri Wood e Jack Geasland e publicado em 1977, contava a trágica história dos irmãos Stewart e Cyril Marcus, ocorrida no Upper East Side de Manhattan em 1975: ginecologistas que atuavam em conjunto, os dois acabaram entrando em uma espiral de vício em barbitúricos que acabou os levando a uma morte que chocou a alta sociedade nova-iorquina - berço de sua fama, de seu sucesso e de sua decadência. Os detalhes da história - como o fato de um dos irmãos tomar o lugar do outro frente a seus pacientes quando o vício tornou-se irreversível e as circunstâncias bizarras que cercaram seu fim - logicamente chamou a atenção do cinema. Mais ainda, chamou a atenção de um dos poucos cineastas que seriam capazes de contá-la sem apelar para o suspense barato ou o dramalhão edificante: o canadense David Cronenberg. Vindo do sucesso de bilheteria de "A mosca" (86), que lhe deu moral em Hollywood como um diretor bancável, ele realizou "Gêmeos, mórbida semelhança", um filme perturbador e angustiante - características habituais em sua filmografia - amparado em uma atuação nada menos que sublime de Jeremy Irons nos papéis centrais. Injustamente esquecido pela Academia - que só lhe daria o Oscar dois anos mais tarde, por "O reverso da fortuna" (90) - Irons dá um show particular, enriquecendo ainda mais uma trama forte e intrigante - e que deixou muitas espectadoras pouco confortáveis ao visitar seus próprios ginecologistas por um bom tempo.

No filme de Cronenberg os gêmeos se chamam Beverly e Elliot Mantle e, assim como aqueles que os inspiraram, dividem bem mais do que uma mera semelhança física que impede a todos que os diferencie com facilidade: além da sociedade em uma clínica de ginecologia e fertilidade assistida em Toronto (Canadá), eles também tem o hábito (desconhecido por todos, obviamente) de compartilhar amantes. A dinâmica de sua sociedade também implica no fato de que Beverly é bem mais tímido e retraído do que Elliott, que responde pela agenda social do empreendimento e tem um relacionamento mais afável com as clientes enquanto o irmão é responsável pelas pesquisas que fazem a fama dos dois. Sua rotina quase inalterável é bruscamente interrompida, porém, quando entra em cena a famosa atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), que procura a clínica devido à sua dificuldade de engravidar. Fascinado, Elliot descobre que a atriz tem uma trompa trifurcada - fato clinicamente raro - e acaba passando uma noite com ela, apenas para, logo em seguida, deixar que Beverly também o faça. Quando Beverly se apaixona por Claire, porém, sua personalidade afável torna-se obsessiva e autodestrutiva - o que põe em risco toda a reputação construída por ele e por Elliot.


Premiado como melhor ator pelas associações de críticos de Chicago e Nova York, Jeremy Irons nunca esteve melhor - nem mesmo em sua atuação premiada com o Oscar. Diferentemente do que acontece com frequência com atores que interpretam gêmeos, ele não faz questão de deixar evidente para a audiência as diferenças entre seus personagens, confundindo o público da mesma forma como os próprios irmãos acabam confundido suas personalidades conforme a trama vai se desenrolando. De acordo com o roteiro e com a direção de Cronenberg, os Mantle vão, aos poucos, se fundindo um ao outro, eliminando a tênue linha que sempre os separou. Assim que tal linha desaparece o filme vai se afundando em cenas cada vez mais tensas e angustiantes, que convidam o público a compartilhar uma atmosfera de pesadelo orquestrado com uma elegância grotesca e feérica - em cenas que ficam na memória graças a seu desenho visual, como as cirurgias com os instrumentos bizarros criados por Beverly sendo realizadas como se fossem um ritual pagão, com os médicos todos vestidos de um vermelho forte sob uma luz ofuscante. Somados à imersão de Irons em seu trabalho, tais momentos de "Gêmeos, mórbida semelhança" o elevam a um patamar acima dos dramas de suspense convencionais, cutucando o público a ponto de incomodá-lo.

Se em seus trabalhos imediatamente anteriores em Hollywood o diretor David Cronenberg deixou um pouco de lado sua tendência à violência gráfica e ao explícito (mesmo em "A mosca" eles estavam diluídos em uma espécie de mainstream que o tornou imensamente popular), em "Gêmeos", ele parece ter voltado para casa, para seus tempos de "Videodrome, a síndrome do vídeo", em que brincava com o grotesco sem medo da reação crítica e financeira à sua obra. Em "Gêmeos", ele parece ter encontrado um equilíbrio entre a agressão quase gratuita de seus primeiros filmes e a elegância (se é que se pode chamar assim um filme onde, em um pesadelo, um personagem rompe com os dentes o que o mantinha preso no corpo do irmão) que a experiência e a maturidade lhe deram. Talvez por isso exista, dentro desse seu grande filme, a essência de toda a sua filmografia.

segunda-feira

A MOSCA

A MOSCA (The fly, 1986, SLM Productions/Brooksfilms/20th Century Fox, 96min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Charles Edward Pogue, David Cronenberg, conto de George Langelaan. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith. Produção: Stuart Cornfeld. Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Joy Boushel. Estreia: 15/8/86

Vencedor do Oscar de Maquiagem

Em 1958, uma aterrorizante ficção científica estrelada por Vincent Price, "A mosca da cabeça branca", tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de seu estúdio (20th Century Fox). Quase trinta anos mais tarde, o conto de George Langelaan que a inspirou voltou a assustar - ou mais precisamente enojar - a audiência: com mais recursos de tecnologia, um cineasta inclinado a exagerar no horror visual, mais dinheiro que seu antecessor e rebatizado simplesmente como "A mosca", a reinvenção do canadense David Cronenberg da história de Langelaan novamente levou multidões aos cinemas (custou estimados 15 milhões de dólares e rendeu mais de 40 somente no mercado doméstico), rendeu uma continuação inferior e deu ao ator Jeff Goldblum o papel mais marcante de sua carreira - e que quase foi parar nas mãos de Michael Keaton - além de dar à sua então namorada Geena Davis um de seus primeiros papéis importantes.

A história de "A mosca" é bem típica dos clichês das ficções científicas paranóicas dos anos 50, mas recheada com efeitos visuais e de maquiagem extremamente eficientes (a maquiagem de Chris Walas chegou a levar o Oscar da categoria) e refogada com uma violência gráfica que trai a presença de Cronenberg por trás do projeto (como seria o filme sob o comando de Tim Burton, o primeiro diretor a ser considerado, é uma incógnita). Substituindo os sustos por sequências de nojeira explícita - característica que havia abandonado em seu filme anterior, "A hora da zona morta" (83) - o cineasta leva o espectador a uma viagem pelo pesadelo maior de qualquer cientista (tornar-se vítima involuntária do próprio trabalho) sem pausas para respirar. E poucas vezes o conceito de cientista maluco foi levado a circunstâncias tão extremas como as mostradas na trágica história do cientista maluco (e não o são todos?) Seth Brundle.


Brundle é, como todos os cientistas retratados na ficção, um ser antissocial, dedicado quase que às raias da obsessão por sua nova experiência: uma máquina de teletransporte que irá, segundo ele mesmo, revolucionar a ciência mundial. Registrando suas experiências lado a lado com a jornalista Veronica Quaife (Geena Davis) - com quem eventualmente acaba se relacionando também amorosamente - ele esbarra em algumas dificuldades técnicas, como a impossibilidade de teletransportar seres vivos (em uma de suas tentativas ele acaba virando um babuíno literalmente pelo avesso). Suas experiências, porém, começam a dar resultado e, em uma noite em que está alcoolizado e enciumado da relação de Veronica com um ex-namorado que também é seu editor, Brundle resolve testar seus experimentos nele mesmo. Sem que perceba, junto com ele na máquina de teletransporte entra uma mosca. Em seguida, depois de considerar a experiência um êxito, ele começa a perceber mudanças em seu organismo (força física avantajada, fòlego maior, exagerada necessidade de açúcar e pelos duros que crescem através de um ferimento nas costas). Quando as coisas começam a sair do controle - ele começa a perder os dentes e as unhas, por exemplo - ele investiga o registro de suas atividades no computador e descobre estarrecido que suas moléculas foram fundidas às do inseto, o que acabará por levá-lo a uma metamorfose completa.

Se até então o filme de Cronenberg apenas flertava com o horror, a partir daí não existe mais limites para sua fascinação pelo doentio. O diretor aproveita o roteiro para expor sem subterfúgios algumas das cenas mais nojentas do cinema da década de 80 (e quiçá de muito tempo depois): babuínos eviscerados, vômitos, pus, membros podres, fraturas expostas... tudo que pode servir à trama enquanto perturba a plateia é utilizado por ele que, no entanto, em momento algum deixa de lado sua preocupação em manter a coerência interna da história, principalmente em termos de personagens: mesmo quando se vê em vias de transformar-se de vez em uma mosca, Brundle ainda tem laivos de ser humano, apaixonado por Veronica e preocupado com o bebê que ela espera. Ela, por sua vez, se vê dividida entre manter a lealdade ao homem que ama mesmo quando ele não passa mais de um arremedo do que foi (e passa a ameaçá-la com mais uma de suas ideias radicais). Para isso, conta muito a química entre Jeff Goldblum e Geena Davis (um casal de verdade à época das filmagens) e o talento inquestionável do cineasta em arrancar de seus atores interpretações convincentes mesmo em situações que beiram o surreal - característica que ele ainda exploraria muito mais futuramente, em filmes bastante controversos.

"A mosca" é um grande filme de ficção científica por vários motivos. Primeiro, porque se leva a sério, coisa que muitas produções contemporâneas não fazem. Depois, porque é tecnicamente competente a ponto de ainda hoje impressionar pelos efeitos e pela maquiagem. E por fim, tem uma história forte e personagens críveis, que não soam como estereótipos mal-desenvolvidos, além de contar com bons atores defendendo seus papéis. O fracasso de sua continuação não chega a surpreender, uma vez que não tem todos esses elementos. Melhor ficar com a primeira parte e se impressionar em como se mantém atual apesar da tecnologia.

sexta-feira

A HORA DA ZONA MORTA

A HORA DA ZONA MORTA (Dead zone, 1983, Dino de Laurentiis Company, 103min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, romance de Stephen King. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Ronald Sanders. Música: Michael Kamen. Figurino: Olga Dimitrov. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Tom Coulter. Produção: Debra Hill. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerrit, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Herbert Lom. Estreia: 21/10/83

Stephen King começou a firmar-se como um nome quente dentro da indústria hollywoodiana quando o sucesso de bilheteria de "Carrie, a estranha" (76), de Brian DePalma e o prestígio de "O iluminado" (80), de Stanley Kubrick comprovaram que por trás de uma boa história de terror poderia haver inteligência e criatividade. Por isso não deixou de ser surpreendente quando o nome do canadense David Cronenberg foi anunciado como o diretor de "A hora da zona morta", mais um romance de King a ser adaptado para as telas no início da década de 80: conhecido por filmes pouco afeitos à sutilezas, como os polêmicos "Enraivecida, na fúria do sexo" (77) e "Scanners, sua mente pode destruir" (81), o cineasta acabou por convencer até mesmo o mais pessimista fã do escritor, porém, quando sua adaptação finalmente foi lançada, no final de 1983. Não só a trama chegou às telas da forma mais fiel possível como Cronenberg conseguiu imprimir a ela uma personalidade e um suspense que funcionam em todos os níveis. Estrelado pelo sempre sinistro Christopher Walken - já oscarizado pelo soldado neurótico de "O franco-atirador" (78) - o filme mantém a atenção da plateia desde seu início angustiante até suas climáticas cenas finais, além de contar uma história recheada o suficiente de ganchos e personagens interessantes.

Walken - em papel que King queria que fosse de Bill Murray, veja só - interpreta Johnny Smith, um professor de inglês de Castle Rock, uma pequena cidade do Maine (que se tornaria cenário preferido de várias histórias de Stephen King a partir de então). Em uma noite chuvosa qualquer, ele deixa sua noiva, Sarah (Brooke Adams), em casa e sofre um grave acidente de carro que o deixa em coma profundo por cinco anos. Depois de acordar - e perceber que sua vida não tem mais condições de ser a mesma, uma vez que Sarah já está casada com outro homem e é mãe de um bebê - Johnny descobre ainda que sua situação lhe presenteou com o estranho dom da clarividência: ao tocar nas pessoas, ele tem o poder de descobrir coisas tais como um incêndio na casa de uma enfermeira, a verdade sobre o desaparecimento da mãe de seu médico (perdida desde a II Guerra Mundial) e, mais importante ainda, é procurado pelo xerife (Tom Skerrit) para ajudar na busca de um assassino serial. Tamanha pressão o acaba levando a esconder-se de todos os que conhece, até que seu caminho se cruza com Greg Stillson (Martin Sheen), um político popular que é candidato ao Senado e pode não ser tão honesto quanto deseja parecer.


Realmente, para quem conhece a obra de David Cronenberg - que posteriormente ainda cometeria filmes que causaram extrema controvérsia, como "Mistérios e paixões" (91) e "Crash, estranhos prazeres" (96) - seu trabalho em "A hora da zona morta" chega a ser convencional. Sem nunca abrir mãos das convenções de um gênero tão pouco aberto a inovações narrativas, o cineasta mantém o interesse do público apostando suas fichas na atuação na medida exata de Christopher Walken, cujo rosto naturalmente ambíguo transmite todas as vastas sensações de seu personagem, um herói trágico na tradição de uma Cassandra grega. O suspense crescente, que Cronenberg manipula com extrema consciência, é construído com detalhes, nunca deixando de lado o drama inerente a uma existência como a de Johnny, eternamente na corda bamba entre o horror e a tragédia. E é também importante para tamanha precisão no suspense a trilha sonora discreta mas eficaz do veterano Michael Kamen, que jamais anuncia os momentos de maior tensão, preferindo, ao contrário, comentá-los conforme a ação vai se delineando diante dos olhos do espectador.

Uma das melhores adaptações de um livro de terror de Stephen King para as telas, "A hora da zona morta" se beneficia também do fato de saber terminar. Ao contrário de várias futuras transições da obra do escritor, que são estragadas por finais sem sentido ou forçados, o filme de David Cronenberg tem um desfecho climático, coerente e emocionante, valorizado pela atuação brilhante de Martin Sheen, que equilibra com inteligência a canastrice comum aos políticos demagogos com uma riqueza de nuances que deixa a audiência à espera de seu próximo movimento - que nunca é aquele esperado, o que dá ao filme sua sensação de imprevisibilidade que faz dele uma experiência ainda hoje bastante intrigante.


OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...