A DAMA DE SHANGAI (The lady from Sanghai, 1947, Columbia Pictures, 87min) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, romance de Sherwood King. Fotografia: Charles Lawton Jr.. Montagem: Viola Lawrence. Música: Heinz Roemheld. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Sturges Carne, Stephen Goossón/Wilbur Menefee, Herman Schoenbrun. Produção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders, Ted de Corsia. Estreia: 24/12/47 (França)
Filmes nascem das mais variadas formas, de acordo com as mais distintas necessidades. Um dos clássicos do cinema noir norte-americano da década de 1940, por exemplo, surgiu graças ao desespero de seu diretor por urgentes 55 mil dólares, necessários para cobrir dívidas e lhe permitir estrear um espetáculo teatral em Boston. "A dama de Shanghai" é, hoje, considerado um dos grandes filmes do aclamado (e controverso) Orson Welles, mas sua gênese é pouco glamourosa e sua realização bastante complicada - como quase em toda a filmografia do cineasta. Basta dizer que, apesar do nome de Rita Hayworth (recém saída do sucesso de "Gilda") estampar o cartaz do filme, a produção demorou mais de um ano para ser lançada após o término das filmagens. Mesmo assim não agradou ao público - e tampouco Harry Cohn, o chefão da Columbia Pictures, que, logo após a primeira sessão privada de seu novo potencial êxito financeiro, chegou a ofereceu mil dólares a quem lhe explicasse a trama, baseada no romance "If I die before I wake", de Sherwood King e escolhida por Welles quase por acaso.
Tudo começou quando, às vésperas da estreia no teatro de sua versão musical de "Volta ao mundo em 80 dias", Orson Welles se viu diante de uma situação pouco confortável: ou ele pagava um débito de 55 mil dólares ou todo o figurino do espetáculo permaneceria preso pelos credores, inviabilizando a temporada. Em pânico, o cineasta - outrora consagrado como gênio, por seu seminal "Cidadão Kane" (1941), mas já tido como um diretor-problema - apelou para o resto de prestígio que ainda tinha e fez um ousado telefonema para Harry Cohn, o manda-chuva da Columbia Pictures à época: confiando que ainda era capaz de impressionar a indústria, Welles prometeu a Cohn que, caso o executivo lhe mandasse urgentemente o dinheiro de que precisava, ele não só dirigiria um filme para o estúdio, mas também faria o roteiro e assumiria o papel principal. Não apenas isso: ele também sugeria ao chefão a compra dos direitos do livro de Sherwood King - uma escolha um tanto aleatória, mas, considerando-se a pressa, bastante apropriada para uma adaptação cinematográfica. Dinheiro enviado, peça estreada, era chegada a hora de Welles cumprir a promessa. Mas nada era fácil quando se tratava do ex-garoto prodígio de Hollywood.
Pra começo de conversa, Welles deixou o estúdio chocado quando decidiu que a grande estrela do filme, Rita Hayworth (então sua esposa e objeto de desejo de dez entre dez espectadores de cinema espalhados pelo mundo) apareceria em cena com o cabelo curto e louro, ao contrário de suas longas madeixas avermelhadas que haviam seduzido o planeta. Para enfatizar ainda mais sua decisão de não fazer de Hayworth apenas um símbolo sexual e sim uma atriz dramática consistente, o cineasta simplesmente não filmou nenhum close-up da estrela - uma opção que deixou a editora do estúdio, Viola Lawrence, de cabelos em pé e obrigou a refilmagens depois do encerramento dos trabalhos. Não bastasse isso, Welles reescrevia o roteiro frequentemente, batia de frente com parte do elenco e os obrigava a improvisar alguns de seus diálogos - um método de trabalho pouco confortável que se somava a problemas de vários outros tipos, que surgiam principalmente devido à insalubridade das locações mexicanas. Segundo o diário do produtor William Castle, as altas temperaturas chegaram a causar desmaios em Hayworth, e insetos venenosos eram comuns a ponto de um deles causar (mais) um atraso às filmagens ao picar Welles no olho e deixá-lo inchado e sem condições de seguir o trabalho por alguns dias - algo que já havia acontecido com a estrela da produção e que, logicamente, resultou no estouro do orçamento e no atraso no cronograma.
O cronograma, diga-se de passagem, não era algo muito respeitado durante a produção de "A dama de Shanghai": o iate que servia como um dos principais cenários do filme era de propriedade do ator Errol Flynn, que o alugou com a condição de que ele estivesse sempre presente durante as filmagens. O problema, porém, é que Flynn tinha o costume de desaparecer por dias a fio, o que impossibilitava o trabalho - sem falar na ocasião em que um assistente de câmera morreu de ataque cardíaco no iate e o ator, famoso por seus porres homéricos, estava a ponto de jogá-lo ao mar, em um improvisado funeral marítimo (do que foi devidamente impedido pelo próprio Orson Welles). Com tantos problemas antes mesmo de ficar pronto, é de surpreender que o resultado final tenha sido tão coeso - ainda que um tanto distante das inovações com as quais o cineasta pretendia fugir dos clichês dos filmes policiais noir da época. Com o apoio do diretor de fotografia Charles Lawton Jr., por exemplo, Welles trabalhou formas de criar um ambiente claustrofóbico, com a utilização de luz natural sempre que possível, e suas intenções de um uso criativo do som acabaram sendo sabotadas pelo departamento de som do estúdio, não exatamente disposto a tanta criatividade: até mesmo a mais famosa sequência do filme, em uma sala de espelhos, acabou ficando mais curta do que desejava seu criador.
A trama de "A dama de Shanghai" - aquela que Harry Cohn não entendeu em sua primeira sessão do filme - começa quando o desconfiado Michael O'Hara (Orson Welles) salva uma bela mulher de ser assaltada em pleno Central Park. Logo ele descobre que se trata de Elsa (Rita Hayworth), a esposa do famoso advogado criminal Arthur Bannister (Everett Sloane), que não demora em contratá-lo como membro da equipe de seu iate em uma viagem de Nova York a San Francisco. Durante o percurso, Michael e Elsa se descobrem apaixonados e planejam fugir juntos. A oportunidade de conseguir dinheiro para isso surge quando George Grisby (Glenn Anders), um amigo de Bannister, oferece cinco mil dólares a Michael para que ele o ajude a forjar sua morte. O experiente marinheiro aceita a proposta, mas quando Grisby realmente aparece morto, ele precisa provar sua inocência - e, como em qualquer boa estória policial, Elsa não apenas pode estar relacionada com o golpe como também o leva a um perigoso clímax em um parque de diversões (inspirado no visual do expressionista "O gabinete do Dr. Caligari", de 1920).
Lançado mais de um ano depois de pronto - como mais uma prova das dúvidas de Harry Cohn na qualidade do filme -, "A dama de Shanghai" permanece na memória dos cinéfilos principalmente graças à sua sequência final, um empolgante jogo de espelhos em que Orson Welles pode mostrar porque foi um dos mais importantes cineastas de sua geração - e da história do cinema. Porém, mesmo que o filme, como um todo, tenha problemas narrativos bastante óbvios, é um entretenimento de alta qualidade visual e um marco na carreira dos envolvidos - até mesmo de Rita Hayworth em um de seus papéis menos sensuais.
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quinta-feira
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O AMANHÃ É ETERNO
O AMANHÃ É ETERNO (Tomorrow is forever, 1946, International Pictures, 104min) Direção: Irving Pichel. Roteiro: Lenore Coffe, estória de Gwen Bristow. Fotografia: Joe Valentine. Montagem: Ernest Nims. Música: Max Steiner. Figurino: Jean Louis. Direção de arte: Wiard B. Ihnen. Produção: David Lewis. Elenco: Orson Welles, Claudette Colbert, George Brent, Lucile Watson, Richard Long, Natalie Wood. Estreia: 18/01/46
Em 1946, Orson Welles já não era mais considerado apenas o gênio precoce por trás do revolucionário "Cidadão Kane" (1941): seu filme seguinte, "Soberba" (1942), havia sido mutilado pela RKO, com medo de um novo fracasso de bilheteria, e o ambicioso documentário "It's all true" (com cenas filmadas no Brasil) nem chegou a ser completado. Foi, então, sem maiores expectativas, que ele estrelou "O amanhã é eterno", um melodrama com enredo de telenovela e produção caprichada que tem em sua presença um dos principais atrativos. Na pele de um herói romântico e desprendido, ele mostra que, além de cineasta de imenso talento, também era um intérprete poderoso, capaz de agigantar um filme sem grandes pretensões artísticas. Ao lado da sempre ótima Claudette Colbert e uma estreante Natalie Wood (ainda criança), Welles faz do filme de Irving Pichel uma história de amor tocante e ainda com ecos da recém terminada II Guerra Mundial.
A trama, roteirizada por Lenore Coffe (indicada ao Oscar por "Quatro filhas", de 1938), começa com o final da I Guerra Mundial, comemorado principalmente pela jovem Elizabeth (Claudette Colbert), que finalmente irá reencontrar o marido, John Andrew McDonald (Orson Welles). Sua felicidade, porém, acaba quando ela recebe a notícia de sua morte em combate. Ao desespero de saber-se viúva do grande amor de sua vida junta-se a descoberta de uma gravidez. As coisas só não ficam piores porque seu chefe, Lawrence Hamilton (George Brent), resolve ajudá-la a se recuperar, com a ajuda de sua tia, Jessica (Lucile Watson): apaixonado por Elizabeth, o rapaz lhe propõe casamento e insiste em adotar seu bebê - batizado com o nome do verdadeiro pai. Sem muitas opções, a jovem aceita ambos os pedidos, e juntos, o casal tem mais um filho, algum tempo depois. Vinte anos se passam. Os EUA estão em vias de entrar em outra guerra, para angústia de Elizabeth - que vê seu filho mais velho, Drew (Richard Long), interessado em alistar-se nas tropas do país. É então que o novo químico contratado pela empresa de Lawrence é apresentado à família, junto com sua pequena filha adotiva, Margaret (Natalie Wood). O dr. Erik Kessler, na verdade, é John Andrew, que não morreu, mas, desfigurado por uma explosão, decidiu ficar longe da mulher que amava - e, depois de uma cirurgia plástica inovadora, se reinventou com nova identidade.
Logo que chega à casa de seu novo chefe, Andrew/Kessler reconhece Elizabeth, mas ela não é capaz do mesmo. Se aproximando aos poucos da família, ele constata que Drew é seu filho - e que ainda é apaixonado pela mulher da qual se afastou. Mas a iminência do aniversário de 21 anos do rapaz (data que lhe permitirá tomar suas decisões sem precisar da autorização dos pais) acelera as decisões que o antigo soldado precisa tomar. Afinal, ele precisa revelar sua real identidade? Ou é melhor manter tudo como está, sob pena de desestruturar a vida de uma família? Essas questões, típicas de melodrama, são conduzidas com sutileza pelo diretor, que faz uso da bela fotografia em preto-e-branco e da música de Max Steiner para enfatizar o clima dramático do roteiro. Claudette Colbert, do alto de sua elegância, faz o contraponto exato à aura de abnegação do personagem de Welles - um homem misterioso e atormentado por um passado que precisa esconder a qualquer preço. Por fim, há a pequena Natalie Wood, então com apenas oito anos de idade e dotada de um carisma e um talento que, alguns anos mais tarde, a colocariam em destaque no cenário hollywoodiano.
"O amanhã é eterno" é um filme pouco lembrado quando se fala da carreira de Orson Welles - e da própria história do cinema norte-americano. Não ganhou Oscar, não faz parte de nenhuma lista dos melhores filmes de todos os tempos e tampouco é muito conhecido até mesmo pelos maiores fãs da era de ouro de Hollywood. Mas é uma produção sincera, comovente e honesta em suas emoções e objetivos. É uma bela e triste história de amor e abnegação, com a guerra como pano de fundo e um elenco acima de qualquer suspeita. Para ser descoberto
Em 1946, Orson Welles já não era mais considerado apenas o gênio precoce por trás do revolucionário "Cidadão Kane" (1941): seu filme seguinte, "Soberba" (1942), havia sido mutilado pela RKO, com medo de um novo fracasso de bilheteria, e o ambicioso documentário "It's all true" (com cenas filmadas no Brasil) nem chegou a ser completado. Foi, então, sem maiores expectativas, que ele estrelou "O amanhã é eterno", um melodrama com enredo de telenovela e produção caprichada que tem em sua presença um dos principais atrativos. Na pele de um herói romântico e desprendido, ele mostra que, além de cineasta de imenso talento, também era um intérprete poderoso, capaz de agigantar um filme sem grandes pretensões artísticas. Ao lado da sempre ótima Claudette Colbert e uma estreante Natalie Wood (ainda criança), Welles faz do filme de Irving Pichel uma história de amor tocante e ainda com ecos da recém terminada II Guerra Mundial.
A trama, roteirizada por Lenore Coffe (indicada ao Oscar por "Quatro filhas", de 1938), começa com o final da I Guerra Mundial, comemorado principalmente pela jovem Elizabeth (Claudette Colbert), que finalmente irá reencontrar o marido, John Andrew McDonald (Orson Welles). Sua felicidade, porém, acaba quando ela recebe a notícia de sua morte em combate. Ao desespero de saber-se viúva do grande amor de sua vida junta-se a descoberta de uma gravidez. As coisas só não ficam piores porque seu chefe, Lawrence Hamilton (George Brent), resolve ajudá-la a se recuperar, com a ajuda de sua tia, Jessica (Lucile Watson): apaixonado por Elizabeth, o rapaz lhe propõe casamento e insiste em adotar seu bebê - batizado com o nome do verdadeiro pai. Sem muitas opções, a jovem aceita ambos os pedidos, e juntos, o casal tem mais um filho, algum tempo depois. Vinte anos se passam. Os EUA estão em vias de entrar em outra guerra, para angústia de Elizabeth - que vê seu filho mais velho, Drew (Richard Long), interessado em alistar-se nas tropas do país. É então que o novo químico contratado pela empresa de Lawrence é apresentado à família, junto com sua pequena filha adotiva, Margaret (Natalie Wood). O dr. Erik Kessler, na verdade, é John Andrew, que não morreu, mas, desfigurado por uma explosão, decidiu ficar longe da mulher que amava - e, depois de uma cirurgia plástica inovadora, se reinventou com nova identidade.
Logo que chega à casa de seu novo chefe, Andrew/Kessler reconhece Elizabeth, mas ela não é capaz do mesmo. Se aproximando aos poucos da família, ele constata que Drew é seu filho - e que ainda é apaixonado pela mulher da qual se afastou. Mas a iminência do aniversário de 21 anos do rapaz (data que lhe permitirá tomar suas decisões sem precisar da autorização dos pais) acelera as decisões que o antigo soldado precisa tomar. Afinal, ele precisa revelar sua real identidade? Ou é melhor manter tudo como está, sob pena de desestruturar a vida de uma família? Essas questões, típicas de melodrama, são conduzidas com sutileza pelo diretor, que faz uso da bela fotografia em preto-e-branco e da música de Max Steiner para enfatizar o clima dramático do roteiro. Claudette Colbert, do alto de sua elegância, faz o contraponto exato à aura de abnegação do personagem de Welles - um homem misterioso e atormentado por um passado que precisa esconder a qualquer preço. Por fim, há a pequena Natalie Wood, então com apenas oito anos de idade e dotada de um carisma e um talento que, alguns anos mais tarde, a colocariam em destaque no cenário hollywoodiano.
"O amanhã é eterno" é um filme pouco lembrado quando se fala da carreira de Orson Welles - e da própria história do cinema norte-americano. Não ganhou Oscar, não faz parte de nenhuma lista dos melhores filmes de todos os tempos e tampouco é muito conhecido até mesmo pelos maiores fãs da era de ouro de Hollywood. Mas é uma produção sincera, comovente e honesta em suas emoções e objetivos. É uma bela e triste história de amor e abnegação, com a guerra como pano de fundo e um elenco acima de qualquer suspeita. Para ser descoberto
quinta-feira
A MARCA DA MALDADE
A MARCA DA MALDADE (Touch of evil, 1958, Universal Pictures, 95min) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, romance "Badge of evil", de Whit Masterson. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Aaron Stell, Virgil Vogel. Música: Henry Mancini. Figurino: Bill Thomas. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy, Alexander Golitzen/John P. Austin, Russell A. Gausman. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Marlene Dietrich, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Moore. Estreia: 23/4/58
Em uma cena do filme “Ed Wood” (94), dirigido por Tim Burton, o protagonista – conhecido pela alcunha pouco lisonjeira de “o pior diretor de todos os tempos” – encontra um arrasado Orson Welles sentado em uma mesa de bar, afogando as mágoas. Em uma rápida conversa, o cineasta considerado gênio já em seu filme de estreia, o incensado “Cidadão Kane” (41), reclama dos rumos de sua carreira, enfatizando que está em vias de começar um filme em que Charlton Heston fará o papel de um mexicano (!!). A conversa entre os dois cineastas (separados pela diferença de talento mas unidos pela paixão com que desenvolviam seus filmes) provavelmente nunca aconteceu, mas é bastante ilustrativa: tanto Wood, com seus filmes de fundo de quintal, como Welles, com obras-primas como “Soberba” (42), sofreram nas mãos dos produtores, que, passando por cima de qualquer ambição autoral de ambos, não hesitavam em impor suas próprias ideais acerca dos resultados finais. No caso de Wood, o problema até não era tão grande – quase ninguém assistia a seus filmes, sempre tidos como o mais absoluto exemplo de cinema trash – mas Welles realmente tinha do que se queixar. Desde que se tornou o gênio mais admirado de Hollywood por seu primeiro filme, o diretor caiu em desgraça junto aos estúdios, que, não sabendo lidar com sua personalidade forte, passaram a interferir ferozmente em seus trabalhos seguintes. Mesmo com o apoio de nomes de peso da indústria a seu lado – como a estrela Rita Hayworth, com quem era casado durante as filmagens de “A dama de Shangai” (42) – seu brilhantismo não era o suficiente para que ele mantivesse uma carreira sólida e estável.
“A marca da maldade” – o tal filme com Charlton Heston no papel de mexicano – é um perfeito exemplo dessa intromissão dos estúdios no trabalho do cineasta, que renegou a versão final imposta pelo estúdio à época de sua estreia, com alterações em número suficiente para que ele mesmo deixasse uma carta com informações expressas de sua visão do filme. Tal carta, de posse do ator Charlton Heston até o final da década de 90, serviu de guia para uma nova montagem, que seguia à risca suas orientações e estreou, já com aura de clássico injustiçado, em 1998. De pequenos detalhes – como a mudança dos créditos para o final do filme, como forma de não prejudicar o belo plano-sequência de abertura, com três minutos de duração – até outras modificações mais ligadas à edição, as novidades acabaram por dar ao filme um ritmo mais interessante e um tom ainda mais sombrio e pessimista – coisas que a Universal, obviamente, não considerava comerciais. Aliás, até mesmo a simples presença de Welles como ator (papel para o qual foi exclusivamente contratado no início do projeto) já era algo temerário, uma vez que, apesar de sua fama de gênio, seu nome não era necessariamente um chamariz de público.
Vindo de
fracassos consecutivos de bilheteria – incluindo duas adaptações da obra de
Shakespeare, “Macbeth” (48) e “Othello” (52) – Welles foi chamado pela
Universal para trabalhar apenas como ator, mas o estúdio acabou convencido por
Charlton Heston, então já consagrado por sucessos como “Os dez mandamentos”
(56), de Cecil B. de Mille, para contratá-lo também como roteirista e diretor
(mas, ainda assim, sem os salários cumulativos para tais funções). Assumindo a
tripla responsabilidade, Welles recomeçou quase do zero: pegou o roteiro
escrito por Paul Monash – por sua vez baseado em um romance barato chamado
“Badge of evil”, de Whit Masterson – e iniciou seu processo de transformar
alguns elementos da trama a fim de servir melhor à sua visão da narrativa.
Apesar do afirmado na cena do filme de Tim Burton, não foi o estúdio quem optou
por fazer de Charlton Heston um policial mexicano, e sim o próprio Welles, que
inverteu as nacionalidades do casal protagonista e transferiu o cenário da ação
de uma pequena cidade californiana para a fronteira México/EUA. Reservando para
si um papel crucial – o do asqueroso chefe de polícia Quinlan, que lhe tornou
ainda mais volumoso fisicamente – e oferecendo uma pequena participação para a
amiga Marlene Dietrich, o cineasta ainda conseguiu com que Janet Leigh
diminuísse seu salário apenas pela possibilidade de trabalhar com ele, ao
contrário do que sugeria seu agente. Sorte da futura Marion Crane, que cravou
sua imagem em mais um importante exemplar do grande cinema americano.
Charlton Heston (um tanto estranho em sua caracterização) vive Mike Vargas, um detetive mexicano que está em vias de desbaratar uma quadrilha de traficante de drogas comandada por um misterioso criminoso chamado Grandi, que não hesita em mandar-lhe recados ameaçadores ou sequer matar inocentes para demonstrar seu poder. Bem no dia de seu casamento com a destemida Susan (Janet Leigh), Vargas se vê envolvido na investigação de um atentado à bomba que matou um casal dentro de um carro, praticamente na sua frente. Enquanto tenta descobrir os culpados pelo crime, ele enfrenta a oposição explícita de um policial do México, o Capitão Hank Quinaln (Orson Welles), que não é exatamente um primor de honestidade: grotesco em seus modos heterodoxos (pra dizer o mínimo), Quinlan bate de frente com Vargas quando percebe que o mexicano não irá fechar os olhos diante de suas arbitrariedades, que incluem forjar provas e torturar suspeitos. Quem acaba de vítima da batalha é Susan, que, sozinha em um hotel afastado, sofre as consequências do embate.
Com um roteiro que privilegia o clima e a as imagens mais do que as reviravoltas da história - uma forma que Welles encontrou de impedir estragos ainda maiores caso o filme lhe fosse tirado das mãos, como de fato o foi - "A marca da maldade" é um show de visual e interpretações. Welles em pessoa é o maior destaque, com seu Quinlan absolutamente monstruoso tanto em forma quanto em alma, mas é preciso destacar o trabalho competente de Janet Leigh e o brilhantismo da atuação de Akim Tamiroff, na pele do imprevisível Joe Grandi e ao fascínio que sempre acompanha a presença de Marlene Dietrich, aqui como Tanya, uma cartomante que parece saber bem mais do que deveria. É o conjunto de todos esses fatores que faz do filme mais um trabalho irrepreensível de Orson Welles, mostrando ser muito mais do que o criador de "Cidadão Kane" - o que já não seria pouca coisa.
Em uma cena do filme “Ed Wood” (94), dirigido por Tim Burton, o protagonista – conhecido pela alcunha pouco lisonjeira de “o pior diretor de todos os tempos” – encontra um arrasado Orson Welles sentado em uma mesa de bar, afogando as mágoas. Em uma rápida conversa, o cineasta considerado gênio já em seu filme de estreia, o incensado “Cidadão Kane” (41), reclama dos rumos de sua carreira, enfatizando que está em vias de começar um filme em que Charlton Heston fará o papel de um mexicano (!!). A conversa entre os dois cineastas (separados pela diferença de talento mas unidos pela paixão com que desenvolviam seus filmes) provavelmente nunca aconteceu, mas é bastante ilustrativa: tanto Wood, com seus filmes de fundo de quintal, como Welles, com obras-primas como “Soberba” (42), sofreram nas mãos dos produtores, que, passando por cima de qualquer ambição autoral de ambos, não hesitavam em impor suas próprias ideais acerca dos resultados finais. No caso de Wood, o problema até não era tão grande – quase ninguém assistia a seus filmes, sempre tidos como o mais absoluto exemplo de cinema trash – mas Welles realmente tinha do que se queixar. Desde que se tornou o gênio mais admirado de Hollywood por seu primeiro filme, o diretor caiu em desgraça junto aos estúdios, que, não sabendo lidar com sua personalidade forte, passaram a interferir ferozmente em seus trabalhos seguintes. Mesmo com o apoio de nomes de peso da indústria a seu lado – como a estrela Rita Hayworth, com quem era casado durante as filmagens de “A dama de Shangai” (42) – seu brilhantismo não era o suficiente para que ele mantivesse uma carreira sólida e estável.
“A marca da maldade” – o tal filme com Charlton Heston no papel de mexicano – é um perfeito exemplo dessa intromissão dos estúdios no trabalho do cineasta, que renegou a versão final imposta pelo estúdio à época de sua estreia, com alterações em número suficiente para que ele mesmo deixasse uma carta com informações expressas de sua visão do filme. Tal carta, de posse do ator Charlton Heston até o final da década de 90, serviu de guia para uma nova montagem, que seguia à risca suas orientações e estreou, já com aura de clássico injustiçado, em 1998. De pequenos detalhes – como a mudança dos créditos para o final do filme, como forma de não prejudicar o belo plano-sequência de abertura, com três minutos de duração – até outras modificações mais ligadas à edição, as novidades acabaram por dar ao filme um ritmo mais interessante e um tom ainda mais sombrio e pessimista – coisas que a Universal, obviamente, não considerava comerciais. Aliás, até mesmo a simples presença de Welles como ator (papel para o qual foi exclusivamente contratado no início do projeto) já era algo temerário, uma vez que, apesar de sua fama de gênio, seu nome não era necessariamente um chamariz de público.
Charlton Heston (um tanto estranho em sua caracterização) vive Mike Vargas, um detetive mexicano que está em vias de desbaratar uma quadrilha de traficante de drogas comandada por um misterioso criminoso chamado Grandi, que não hesita em mandar-lhe recados ameaçadores ou sequer matar inocentes para demonstrar seu poder. Bem no dia de seu casamento com a destemida Susan (Janet Leigh), Vargas se vê envolvido na investigação de um atentado à bomba que matou um casal dentro de um carro, praticamente na sua frente. Enquanto tenta descobrir os culpados pelo crime, ele enfrenta a oposição explícita de um policial do México, o Capitão Hank Quinaln (Orson Welles), que não é exatamente um primor de honestidade: grotesco em seus modos heterodoxos (pra dizer o mínimo), Quinlan bate de frente com Vargas quando percebe que o mexicano não irá fechar os olhos diante de suas arbitrariedades, que incluem forjar provas e torturar suspeitos. Quem acaba de vítima da batalha é Susan, que, sozinha em um hotel afastado, sofre as consequências do embate.
Com um roteiro que privilegia o clima e a as imagens mais do que as reviravoltas da história - uma forma que Welles encontrou de impedir estragos ainda maiores caso o filme lhe fosse tirado das mãos, como de fato o foi - "A marca da maldade" é um show de visual e interpretações. Welles em pessoa é o maior destaque, com seu Quinlan absolutamente monstruoso tanto em forma quanto em alma, mas é preciso destacar o trabalho competente de Janet Leigh e o brilhantismo da atuação de Akim Tamiroff, na pele do imprevisível Joe Grandi e ao fascínio que sempre acompanha a presença de Marlene Dietrich, aqui como Tanya, uma cartomante que parece saber bem mais do que deveria. É o conjunto de todos esses fatores que faz do filme mais um trabalho irrepreensível de Orson Welles, mostrando ser muito mais do que o criador de "Cidadão Kane" - o que já não seria pouca coisa.
O TERCEIRO HOMEM
O TERCEIRO HOMEM (The third man, 1949, London Films Productions, 104min) Direção: Carol Reed. Roteiro: Graham Greene. Fotografia: Robert Krasker. Montagem: Oswald Hafenrichter. Música: Anton Karas. Direção de arte/cenários: Dario Simoni. Produção: Carol Reed. Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard, Bernard Lee. Estreia: 31/8/49
3 indicações ao Oscar: Diretor (Carol Reed), Fotografia em P&B, Montagem
Vencedor do Oscar de Fotografia em P&B
Não é qualquer um que consegue a façanha de ser considerado o melhor filme britânico de todos os tempos, especialmente quando se leva em consideração que a Terra da Rainha deu ao mundo nomes como David Lean e Alfred Hithcock - apenas para citar dois grandes nomes em alta na década de 40. Mas, definitivamente, "O terceiro homem", a obra que recebeu tal distinção dos próprios ingleses., não é um filme qualquer. Quase setenta anos depois do seu lançamento, o filme de Carol Reed se mantém tão brilhante e fascinante quanto no momento de seu lançamento, graças especialmente a um conjunto excepcional de fatores, que conta com a direção inspirada, o roteiro inteligente do escritor Graham Greene, a esplendorosa fotografia premiada com o Oscar e um elenco nunca aquém de espetacular. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, "O terceiro homem" não apenas resistiu ao tempo: ele também pode ter-se tornado ainda melhor.
Com uma narração em off que explica à plateia como funciona Viena nos anos imediatamente após a II Guerra Mundial - um lugar repleto de criminosos que vivem de explorar o mercado negro de quaisquer coisas necessárias à população - o filme começa com a chega de Holly Martins (Joseph Cotten em papel pensado para James Stewart ou Robert Mitchum) à capital austríaca. Escritor de romances baratos de faroeste, Martins põe os pés na cidade a chamado de um amigo de infância, Harry Lime, que lhe promete trabalho e dinheiro fácil. As coisas, porém, começam a dar errado logo na chegada, quando Martins descobre que Lime acaba de morrer atropelado em frente ao prédio onde morava. Para sua surpresa, ele fica sabendo também que Lime estava sendo caçado pela polícia - na figura do policial Calloway (Trevor Howard) - por causa de seu envolvimento com a venda de penicilina adulterada. A trama complica quando, ao lado da amante de Lime, a atriz Anna (Alida Valli), Martins tenta descobrir quem é o terceiro homem que carregou o corpo do amigo depois de seu atropelamento e chega à conclusão de que talvez ele não esteja realmente morto.
O ideal seria assistir-se a "O terceiro homem" sem maiores informações de suas reviravoltas e sua trama repleta de surpresas, para melhor aproveitar suas viradas - cortesia do texto ágil de Graham Greene, cujo "Fim de caso" deu origem ao fabuloso filme de Neil Jordan em 1999. Como talvez isso seja impossível, um vez que o filme já é um patrimônio cultural da humanidade e foi alvo de tantas análises e teses, o caso é deixar-se envolver por aqueles fatores que, independentes de qualquer discussão, continuam intensamente brilhantes. É o caso da fotografia deslumbrante de Robert Krasker, que dá charme e beleza até mesmo aos esgotos de Viena e sublinha com seus ângulos distorcidos a visão de pesadelo proposta por Oliver Reed. E também da marcante trilha sonora de Anton Karas, que enfatiza a tensão de cada sequência com elegância extrema. Ou ainda o elenco liderado por Joseph Cotten - escolhido para o papel por ter contrato com o produtor David O. Selznick, a quem toda a equipe odiava - e a italiana Alida Valli - que tentou carreira em Hollywood mas nunca chegou a fazer o sucesso que merecia. É bom lembrar também que o elenco conta com a
presença de Orson Welles, que, com apenas uma semana de trabalho - e depois de um atraso de quinze dias - rouba as poucas cenas em que aparece (dá até para perdoar o fato de a produção ter sido obrigada a reconstruir em estúdio, em Londres, parte dos esgotos da capital austríaca, porque ele se recusou a filmar nos verdadeiros locais). Sua entrada em cena é, no mínimo, inesquecível.
No final das contas, "O terceiro homem" é um filme feito de grandes cenas. Sejam elas de ação - as perseguições nos subterrâneos da cidade - ou de longos diálogos - a inesquecível conversa na roda-gigante coescrita por Welles é um clássico absoluto - todas as sequências do filme de Reed são ao mesmo tempo plasticamente deslumbrantes e narrativamente eficientes. Contando sua história com palavras e imagens em um equilíbrio genial, Reed dá uma aula de cinema de tal forma que fica difícil acreditar que nunca mais realizou algo sequer semelhante em termos de qualidade apesar de ter ganho o Oscar pelo musical "Oliver" (68), de gosto duvidoso. Uma união extremamente feliz de fatores, "O terceiro homem" é um filme para ver, rever e sempre ficar abismado com a perfeição de seus ângulos, interpretações e narrativa segura e ágil. Brilhante!
3 indicações ao Oscar: Diretor (Carol Reed), Fotografia em P&B, Montagem
Vencedor do Oscar de Fotografia em P&B
Não é qualquer um que consegue a façanha de ser considerado o melhor filme britânico de todos os tempos, especialmente quando se leva em consideração que a Terra da Rainha deu ao mundo nomes como David Lean e Alfred Hithcock - apenas para citar dois grandes nomes em alta na década de 40. Mas, definitivamente, "O terceiro homem", a obra que recebeu tal distinção dos próprios ingleses., não é um filme qualquer. Quase setenta anos depois do seu lançamento, o filme de Carol Reed se mantém tão brilhante e fascinante quanto no momento de seu lançamento, graças especialmente a um conjunto excepcional de fatores, que conta com a direção inspirada, o roteiro inteligente do escritor Graham Greene, a esplendorosa fotografia premiada com o Oscar e um elenco nunca aquém de espetacular. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, "O terceiro homem" não apenas resistiu ao tempo: ele também pode ter-se tornado ainda melhor.
Com uma narração em off que explica à plateia como funciona Viena nos anos imediatamente após a II Guerra Mundial - um lugar repleto de criminosos que vivem de explorar o mercado negro de quaisquer coisas necessárias à população - o filme começa com a chega de Holly Martins (Joseph Cotten em papel pensado para James Stewart ou Robert Mitchum) à capital austríaca. Escritor de romances baratos de faroeste, Martins põe os pés na cidade a chamado de um amigo de infância, Harry Lime, que lhe promete trabalho e dinheiro fácil. As coisas, porém, começam a dar errado logo na chegada, quando Martins descobre que Lime acaba de morrer atropelado em frente ao prédio onde morava. Para sua surpresa, ele fica sabendo também que Lime estava sendo caçado pela polícia - na figura do policial Calloway (Trevor Howard) - por causa de seu envolvimento com a venda de penicilina adulterada. A trama complica quando, ao lado da amante de Lime, a atriz Anna (Alida Valli), Martins tenta descobrir quem é o terceiro homem que carregou o corpo do amigo depois de seu atropelamento e chega à conclusão de que talvez ele não esteja realmente morto.
O ideal seria assistir-se a "O terceiro homem" sem maiores informações de suas reviravoltas e sua trama repleta de surpresas, para melhor aproveitar suas viradas - cortesia do texto ágil de Graham Greene, cujo "Fim de caso" deu origem ao fabuloso filme de Neil Jordan em 1999. Como talvez isso seja impossível, um vez que o filme já é um patrimônio cultural da humanidade e foi alvo de tantas análises e teses, o caso é deixar-se envolver por aqueles fatores que, independentes de qualquer discussão, continuam intensamente brilhantes. É o caso da fotografia deslumbrante de Robert Krasker, que dá charme e beleza até mesmo aos esgotos de Viena e sublinha com seus ângulos distorcidos a visão de pesadelo proposta por Oliver Reed. E também da marcante trilha sonora de Anton Karas, que enfatiza a tensão de cada sequência com elegância extrema. Ou ainda o elenco liderado por Joseph Cotten - escolhido para o papel por ter contrato com o produtor David O. Selznick, a quem toda a equipe odiava - e a italiana Alida Valli - que tentou carreira em Hollywood mas nunca chegou a fazer o sucesso que merecia. É bom lembrar também que o elenco conta com a
presença de Orson Welles, que, com apenas uma semana de trabalho - e depois de um atraso de quinze dias - rouba as poucas cenas em que aparece (dá até para perdoar o fato de a produção ter sido obrigada a reconstruir em estúdio, em Londres, parte dos esgotos da capital austríaca, porque ele se recusou a filmar nos verdadeiros locais). Sua entrada em cena é, no mínimo, inesquecível.
No final das contas, "O terceiro homem" é um filme feito de grandes cenas. Sejam elas de ação - as perseguições nos subterrâneos da cidade - ou de longos diálogos - a inesquecível conversa na roda-gigante coescrita por Welles é um clássico absoluto - todas as sequências do filme de Reed são ao mesmo tempo plasticamente deslumbrantes e narrativamente eficientes. Contando sua história com palavras e imagens em um equilíbrio genial, Reed dá uma aula de cinema de tal forma que fica difícil acreditar que nunca mais realizou algo sequer semelhante em termos de qualidade apesar de ter ganho o Oscar pelo musical "Oliver" (68), de gosto duvidoso. Uma união extremamente feliz de fatores, "O terceiro homem" é um filme para ver, rever e sempre ficar abismado com a perfeição de seus ângulos, interpretações e narrativa segura e ágil. Brilhante!
CIDADÃO KANE
CIDADÃO KANE (Citizen Kane, 1941, RKO Pictures, 119min ) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, Herman J. Mankiewicz. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Robert Wise. Música: Bernard Herrman. Figurino: Edward Stevenson. Direção de arte/cenários: Van Nest Polgase/Darrell Silvera. Produção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick. Estreia: 01/5/41
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Orson Welles), Ator (Orson Welles), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Perguntem a qualquer crítico de cinema quais são seus dez filmes preferidos e se existe uma obra que certamente estará na lista de todos é "Cidadão Kane". Lançado em 1941 sob uma saraivada de protestos do magnata das comunicações William Randolph Hearts, que via no protagonista uma cópia mal-disfarçada de sim mesmo (e com toda razão), o filme de estreia do então menino-prodígio Orson Welles foi um fracasso de bilheteria, para alívio de Hearts, mas, conforme o tempo foi passando, mais e mais estudiosos foram descobrindo suas inúmeras e inegáveis qualidades, que o levaram facilmente a encabeçar as listas de melhores filmes de todos os tempos dos anos 60 pra cá.
Quando foi contratado pela RKO Pictures para estrear como cineasta, Welles - com meros 24 anos à época das filmagens - já era um nome consagrado no teatro, como um criativo ator e diretor shakespereano e no rádio, onde sua transmissão de "A guerra dos mundos", de H.G. Wells causou pânico generalizado. Tido como um gênio, ele surpreendeu o mundo do cinema com uma liberdade artística que nem mesmo aos mais consagrados autores era permitida. Nada mais natural, portanto, que as expectativas em torno de seu primeiro filme fossem as mais altas possíveis. O fracasso financeiro de "Cidadão Kane", sendo assim, deu um banho de água fria em seus planos. Seu filme seguinte, "Soberba", lhe foi tomado das mãos na fase de edição e nunca mais Welles atingiu a unanimidade de seu primeiro trabalho. Polêmico e não exatamente uma pessoa fácil de se conviver, ele acabou por se deixar queimar pela vaidade, mas ninguém poderá dizer que não deixou sua marca indelével na história do cinema já em seu passo inicial na sétima arte.
Antes de começar "Cidadão Kane", Welles tinha a intenção de dirigir uma versão para as telas do clássico "Coração das trevas", de Joseph Conrad. A história do magnata das comunicações só foi sua terceira opção, mas assim que a ideia do roteirista Herman J. Mankiewicz (irmão do cineasta Joseph) lhe chegou às mãos, parecia-lhe que não havia papel melhor para seu debut. A história de Charles Foster Kane - um menino pobre que herda uma fortuna e cria um império jornalístico não exatamente ético mas incrivelmente popular - acabou despertando a curiosidade do então todo-poderoso Hearst, que viu na trajetória do personagem de Welles um espelho de sua própria. Foi o que bastou para que ele iniciasse uma guerra sem precedentes contra um único filme. Represálias, ameaças e chantagens foram algumas das armas utilizadas pelo magnata, o que não impediu o corajoso Welles de estrear seu filme - para logo em seguida, vê-lo fracassar nas bilheterias e ser alvo do desprezo de seus próprios colegas de cinema - como retrata de forma sublime o documentário "A batalha por Cidadão Kane", disponível como extra no DVD duplo lançado pela Warner. Foi preciso uma distância de duas décadas para que se tornasse um dos mais admirados e louvados produtos do cinema americano em toda a história.
Talvez o que mais tenha prejudicado "Cidadão Kane" em sua estreia - mais até do que a campanha difamatória e negativa da imprensa comandada por Hearst - tenha sido sua coragem em romper com os padrões dos filmes da época. Ousado e inteligente, Welles simplesmente contou a história de Kane da maneira mais surpreendente e aparentemente caótica possível. Ao apresentar seu protagonista sob diversos pontos de vista - utilizando para isso uma edição complexa e uma ordem cronológica aparentemente desconexa - o cineasta destrói as convenções até então em voga e convida o espectador a uma experiência inédita. Para isso contribui a fotografia excepcional de Gregg Tolland, a cereja do bolo: inovando praticamente de todas as formas, Tolland virou de cabeça pra baixo as regras da narrativa convencional, sendo a manifestação visual perfeita para o roteiro genial de Welles e Mankiewicz, que usa e abusa de flashbacks, cinejornais forjados e diálogos sobrepostos. À parte isso, ainda existe o talento do Welles ator, que encarna o protagonista da juventude à velhice, quando ele morre em sua mansão Xanadu, construída para sua amante - tal como Hearst fez na vida real.
É a morte de Kane que dá início ao filme. Na busca da imprensa pelo significado de sua última palavra - "Rosebud" - o filme se desenrola, com personagens fornecendo pistas sobre sua personalidade complicada, tal como peças de um quebra-cabeça que só vai ser completo na cena final, quando o sentido da vida do milionário finalmente fica claro ao público. É tudo tão admirável na maneira como Welles conta sua história que pouca gente percebe um erro quase grotesco: se Kane morre sozinho em seu quarto, quando diz sua palavra final, quem a ouve para iniciar a busca central do filme?
Se é o melhor filme de todos os tempos é questionável. Mas é inegável que "Cidadão Kane" foi essencial para que o cinema desse muitos passos adiante com seu formato narrativo e suas inovações até hoje assombrosas. Ainda bem que o poderio de Hearst não foi capaz de queimar os negativos como queria. Certamente o cinema seria bem mais pobre.
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