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VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd
Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N. Green.
Montagem: Brent White. Música: Lyle Workman. Figurino: Debra McGuire.
Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva:
Steve Carell, Jon Poll. Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson,
Clayton Townsend. Elenco: Steve Carell, Catherine Keener, Paul Rudd,
Romany Malco, Seth Rogen, Elizabeth Banks, Leslie Mann, Jane Lynch, Kat
Dennings, Jonah Hill, Mindy Kaling. Estreia: 19/8/2005
Fazia pouco menos de seis meses que a versão norte-americana da série "The office" havia estreado nos EUA quando "O virgem de 40 anos" chegou às telas. Era a primeira oportunidade do ator Steve Carell como protagonista no cinema - depois de ter roubado a cena em "Todo poderoso" (2003) e ter trabalhado com Woody Allen (em "Melinda e Melinda") - e havia certo receio de que o humor quase vulgar do filme de Judd Apatow (também em sua primeira incursão fora do circuito de televisão) pudesse ofender às plateias mais suscetíveis e, por consequência, afundasse nas bilheterias. Tudo, porém, não passou de um medo infundado: graças principalmente ao carisma inconteste de Carell, a comédia romântica mais inusitada da temporada encheu os bolsos da Universal (mais de 175 milhões de dólares de arrecadação mundial), abriu caminho para a consagração do seriado estrelado por seu ator central a partir da segunda temporada e apresentou Apatow como o diretor ideal de comédias adultas no começo dos anos 2000. Com um elenco coadjuvante recheado de nomes que fariam parte do imaginário do gênero pelos anos seguintes - como Paul Rudd e Seth Rogen -, o filme acabou por tornar-se, também, um capítulo importantíssimo nas carreiras de todos os envolvidos.
Carell já tinha 43 anos de idade, dez anos de casado e dois filhos quando apresentou ao mundo o tímido e desajeitado Andy Stitzer, um homem cuja vida gira em torno de um emprego sonolento em uma loja de aparelhos eletrônicos, partidas de videogame e bonecos colecionáveis que são sua maior paixão. Seus amigos são seus colegas de trabalho, e suas relações com o sexo oposto nunca ultrapassam o nível mais superficial - para não dizer que elas praticamente não existem. Para Andy a vida parece ter chegado a um patamar do qual jamais sairá, e de certa forma ele chega a se conformar com o fato, ao menos até ter sua situação amorosa nula descoberta por seus companheiros profissionais. Surpresos (mas não muito) ao perceberem sua total inexperiência no campo sexual, David (Paul Rudd), Jay (Romani Malco) e Cal (Seth Rogen) se unem, então, em uma força-tarefa para resolver o problema do amigo. Nesse meio-tempo - onde encontra mulheres dos mais variados tipos e com as mais variadas expectativas -, Andy tenta lidar com um sentimento novo: a atração/paixão por Trish (Catherine Keener), uma mulher madura que nem de longe desconfia de sua condição de virgem.
Repleto de momentos cômicos inspirados - vários deles improvisados por um elenco coeso e homogêneo -, "O virgem de 40 anos" conseguiu a proeza de equilibrar o humor quase ofensivo de Judd Apatow, centrado em piadas de duplo sentido, trocadilhos infames e tiradas a respeito de sexo sem o menor pudor, com um tom de comédia romântica adulta, com personagens convivendo com angústias condizentes (ao menos em parte) com uma faixa etária muito acima da média para o gênero. Abaixo da camada mais óbvia da trama, existe, pairando como uma névoa de melancolia, as preocupações com a solidão, com o amadurecimento, com as relações pessoais em um mundo em constante evolução. O roteiro (coescrito por Apatow e Carell) não tem por objetivo discutir a sério nenhum desses temas, mas de certa forma os apresenta em um nível subjacente bastante interessante - e que em nenhum momento sobrepuja seu principal ponto: fazer rir com situações que beiram o ridículo e que escapam milagrosamente do excesso por mérito de seus intérpretes. Steve Carell mescla o humor histérico e o tom quase triste de Andy com uma maestria que seria ainda mais desenvolvida em trabalhos seguintes - como em "Foxcatcher: a história que chocou o mundo", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, dez anos mais tarde - e Catherine Keener oferece uma base sólida de seriedade à trama, sem que a faça perder o ritmo (e chegou a ser premiada pelos críticos de Boston e Los Angeles). Além deles, o trio de amigos de Andy conquistam o público sem fazer esforço - não à toa são um dos grandes destaques do filme, com personagens mais ricos do que se poderia pressupor: são eles os responsáveis pelo contraste entre a teoria e a prática que sustenta a trama.
Mesmo que vez ou outra apele para um humor quase chulo - o que preocupou Steve Carell no início da produção -, "O virgem de 40 anos" acerta ao brindar o espectador com um nível de inteligência e autoironia que raramente se vê nas comédias hollywoodianas. Em muitos momentos ele soa exatamente o que é - uma comédia tipicamente fruto de seu tempo e sua geografia -, mas consegue, ao mesmo tempo, soar universal e atemporal em seu retrato de uma masculinidade a um passo da toxicidade e da imaturidade geracional. Mas nem mesmo seus pequenos desvios de rota esconde sua principal qualidade: fazer rir descompromissadamente enquanto fala de assuntos sérios (ou nem tão sérios assim).

























