UMA NOITE NA ÓPERA (A night at the Opera, 1935, MGM, 96min) Direção: Sam Wood. Roteiro: George S. Kaufman, Morrie Ryskind, história de James Kevin McGuinness. Fotografia: Merritt B. Gerstad, Montagem: William LeVanWay. Música: Herbert Stothart. Direção de arte: Cedric Gibbons. Elenco: Groucho Marx, Harpo Marx, Chico Marx, Kitty Carslile, Allan Jones, Walter King, Sig Ruman, Margaret Dumont. Estreia: 01/11/1935
A
boa relação entre Chico Marx e Irving G. Thalberg (todo-poderoso chefão
da MGM nos anos 1930), e seu gosto por partidas de bridge podem ser
considerados os principais responsáveis por "Uma noite na ópera" ter
chegado às telas. Sabendo que a relação entre os executivos da Paramount
e os irmãos Marx - gênios da comédia e extremamente populares no começo
da década - estavam abaladas com o fracasso financeiro de "O diabo a
quatro" (1933), Thalberg não demorou em mexer seus pauzinhos para levar o
grupo para seu estúdio: as negociações, iniciadas em uma mesa de jogo e
que incluíram a promessa de uma turnê onde os atores testariam as
piadas antes mesmo do começo das filmagens, acabaram resultando em uma
das comédias mais insanas da carreira do grupo. A princípio rejeitado - a
primeira exibição, em Long Beach, foi um fiasco monumental que obrigou o
roteirista George S. Kaufman e o próprio Irvin Thalberg a reeditarem
pessoalmente o produto que tinham em mãos -, "Uma noite na ópera" acabou
estreando com nove minutos a menos e finalmente agradou às plateias.
Quando foi relançado pouco depois - em programa duplo com "São
Francisco: a cidade do pecado" (1936) - fez ainda mais sucesso e
imediatamente tornou-se um clássico absoluto.
Tecnica e narrativamente mais sofisticado do que os filmes anteriores dos irmãos Marx, "Uma noite na ópera" foi o primeiro trabalho do grupo sem Zeppo, de certa forma substituído por Allan Jones como o galã da trama. Dirigido pelo cineasta Sam Wood, a quem o próprio Jones considerava desagradável e inseguro - e que tampouco era chegado a improvisações, para desespero de Groucho e de todo o elenco, que sofria com repetições infinitas de cada cena -, o filme foi o mais ambicioso e caro da carreira dos astros, acostumados a lidar com orçamentos apertados e nem sempre condizentes com seu status dentro da indústria. Com um roteiro que foi sendo escrito e reescrito conforme avançavam as filmagens - e deixando uma série de autores demitidos no processo -, "Uma noite na ópera" foge da estrutura de piada atrás de piada para apostar em uma trama bem definida e quase convencional (dentro do estilo anárquico típico dos Marx). Apresentando diálogos ágeis característicos de Groucho e piadas físicas de extrema precisão que entraram para a história (em especial a antológica sequência em uma cabine onde não para de entrar entrar gente), o filme de Wood abandonou a primeira sinopse - cujo rascunho foi aproveitado por Mel Brooks em seu genial "Primavera para Hitler" (1968) - e teve sua cena de abertura (passada na Itália) cortada em sua exibição nos anos 1940, durante a guerra, para remover qualquer menção ao país, aliado do Japão e da Alemanha. Seus três primeiros minutos estão, desde então, perdidos - o que não atrapalha em nada seu resultado final.
Dotado de um notável equilíbrio entre diálogos espirituosos (recitados como uma locomotiva pelo elenco excepcional) e momentos do mais puro humor nonsense, "Uma noite na ópera" foi considerado pelo próprio Groucho como seu filme preferido dentre todos que fez com seus irmãos. Sem ressentir-se do fato de ter um roteiro mais caprichado - o que, pelo contrário, apenas aumenta sua perenidade e seu alcance popular e crítico -, o trabalho de Sam Wood é, certamente, a mais importante e bem-acabada produção dos Marx, capaz de arrancar gargalhadas do público mesmo quase um século depois de seu lançamento.

























