domingo

OS SAPATINHOS VERMELHOS

OS SAPATINHOS VERMELHOS (The red shoes, 1948, The Archers, 135min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Emeric Pressburger, escrito por Emeric Pressburger, Michael Powell, estória original de Hans Christian Andersen. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Reginald Mills. Música: Brian Easdale. Figurino: Hein Heckroth. Direção de arte: Arthur Lawson. Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Elenco: Moira Shearer, Marius Goring, Anton Walbrook, Ludmilla Tcherina, Albert Bassermann, Robert Helpmann. Estreia: 22/7/48 (Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários em cores
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários em cores
Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original 

Publicado pela primeira vez em 1845, o conto "Os sapatinhos vermelhos", do dinamarquês Hans Christian Andersen é um clássico absoluto entre crianças de várias gerações, apesar de seu tom sombrio e da violência de que o autor se utiliza para narrar a trágica história de uma criança que se vê eternamente aprisionada a um desejo inconsequente. Denso e surpreendentemente assustador, o conto de fadas (muito distante de seus congêneres mais românticos e delicados) serve de base e inspiração para um dos filmes britânicos mais importantes e aclamados da década de 1940 - e que por pouco não ficou confinado à lista de "filmes de arte", distante do grande público e conhecido apenas pela crítica e por fãs mais radicais de cinema. Lançado quase um ano depois de finalizado - e ainda assim em poucas salas e sem muito alarde -, a versão cinematográfica de "Os sapatinhos vermelhos" conquistou a plateia de forma inesperada e chegou ao ponto máximo da carreira de um filme: a indicação ao prêmio máximo da Academia!

Apesar de ter perdido o Oscar de melhor filme para outra produção inglesa (a versão de "Hamlet" dirigida e interpretada por Laurence Olivier), "Os sapatinhos vermelhos" conquistou muito mais do que seus produtores poderiam esperar - em especial o financiador do projeto, J. Arthur Rank, que não acreditava no potencial comercial do filme e foi o responsável por seu engavetamento e por sua estreia despretensiosa. Não apenas a produção ganhou o público a despeito de seu lançamento quase desastroso, como tornou-se um imenso êxito popular nos EUA, chegando a permanecer em cartaz por impressionantes 110 semanas. Afora isso, foi o responsável por aproximar um tema não exatamente acessível (o balé clássico) do público médio, que frequentava as salas de cinema mais para se divertir com faroestes escapistas do que com dramas complexos e personagens densos. Quando chegou ao Oscar - e saiu vitorioso em duas categorias (trilha sonora original e direção de arte em cores) -, o filme da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger já era um incontestável sucesso, e sua atriz principal, a estreante Moira Shearer, uma estrela de primeira grandeza. Segunda bailarina no famoso Sadler's Wells Ballet - atrás apenas da lendária Margot Fonteyn - e sem experiência no cinema, Shearer hoje parece a única escolha possível para o papel central do filme, mas quando o projeto nasceu, ainda nos anos 1930, era Merle Oberon (de "O morro dos ventos uivantes") quem estava nos planos do produtor Alexander Korda - não por acaso, seu marido.


Korda tinha a intenção de produzir "Os sapatinhos vermelhos" - cujo roteiro fora escrito por Emeric Pressburger em 1937-, com Oberon no papel principal e suas cenas de dança dubladas por uma bailarina profissional. A II Guerra Mundial, porém, adiou o projeto indefinidamente e dez anos mais tarde, voltou às mãos de Pressburger, dessa vez acompanhado do cineasta Michael Powell. Com os direitos do script adquiridos, os dois diretores tinham total liberdade para escolher a protagonista que bem entendessem - e o ator Stewart Granger lhes deu uma ajuda providencial ao sugerir-lhes o nome de uma jovem e talentosa bailarina chamada Moira Shearer. Decidido a só realizar o filme com uma dançarina no papel central, Powell encantou-se com a diminuta Shearer - mas não imaginava que ela fosse tão difícil de convencer, o que só aconteceu um ano depois do primeiro contato (e quando ele já estava jogando a toalha e propenso a recuar de sua resolução). Com Shearer no papel da tímida e romântica bailarina Vicky Page, tudo parecia estar entrando nos trilhos, mas, ao contrário da boa impressão que as belas imagens fotografadas em Technicolor de Jack Cardiff deixaram no público, as lembranças que a atriz guardava das filmagens não eram muito agradáveis - declarações suas, feitas décadas mais tarde, davam conta de uma relação distante entre ela e Powell e de condições de trabalho pouco recomendáveis no set de gravações. Tais problemas, no entanto, jamais interferiram no resultado final. Que o digam dois de seus maiores admiradores, Martin Scorsese e Gene Kelly.

Um dos maiores dançarinos da história do cinema, Gene Kelly usou "Os sapatinhos vermelhos" como referência a um de seus maiores sucessos profissionais, "Sinfonia de Paris" (52):  hipnotizado pelos números musicais do filme, ele praticamente obrigou os executivos da MGM a compartilharem de sua fascinação como forma de convencimento para a produção daquele que seria o campeão de Oscars em 1952. Outro fã incondicional da obra, Martin Scorsese não apenas tem uma vasta coleção de itens relacionados ao filme - sapatinhos autografados por Shearer, uma cópia do roteiro autografada pelos diretores, uma parte do storyboard da produção e vários posters internacionais - como também usou-o como referência em algumas cenas de seu excepcional "Touro indomável " (80) e foi o maior responsável pela restauração de suas cópias, para o relançamento no Festival de Cannes de 2009. Mas, afinal, o que o filme de Powell e Strassburger tem de tão especial?

A trama é aparentemente simples: o famoso e rígido empresário do ramo do balé, Boris Lermontov (Anton Walbrook) encontra na delicada e sofisticada Vicky Page (Moira Shearer) a artista ideal para ser a principal estrela de sua companhia. Exigindo dela uma dedicação exclusiva à arte, ele demora a perceber a paixão que surge entre ela e o jovem compositor Julian Craster (Marius Goring) - autor do balé "The red shoes", o maior responsável por sua fama e glória. Indignado com a possibilidade de perder sua maior conquista, Lermontov cobra de Page (já transformada em ídolo internacional) uma decisão final: ou o amor de Craster ou sua carreira como bailarina. Se a história (com toques ousados a partir do conto de Andersen) não é exatamente nova ou empolgante, o que faz do filme um clássico absoluto são outros trunfos. A estupenda fotografia, a trilha sonora impecável, os números de dança (o balé principal dura cerca de 15 minutos), o elenco preciso e o final trágico transformam um filme musical em uma experiência única, repleta de complexidades dramáticas e psicológicas que se fundem a uma história de amor e desespero, filmada com maestria e inteligência. E se por acaso algumas cenas lembrarem o inesquecível "Cisne negro", de 2011, não é de surpreender: Darren Aronofsky, o diretor do filme que deu o Oscar à Natalie Portman, também é fã do trabalho de Michael Powell e Emeric Strassburger - injustamente esquecidos pela Academia!

sábado

O FANTASMA APAIXONADO

O FANTASMA APAIXONADO (The ghost and Mrs. Muir, 1947, 20th Century Fox, 104min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Philip Dunne, romance de R. A. Dick. Fotografia: Charles Lang Jr.. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Eleanor Behm. Direção de arte/cenários: George Davis, Richard Day/Thomas Little, Stewart Reiss. Produção: Fred Kohlmar. Elenco: Gene Tierney, Rex Harrison, George Sanders, Edna Best, Isobel Elsom, Victoria Horne, Natalie Wood, Vanessa Brown. Estreia: 25/5/47 (Londres)

Indicado ao Oscar de Fotografia em preto-e-branco

Pode parecer estranho que o mesmo homem que dirigiu o malfadado épico "Cleópatra" (1963), o denso "De repente, no último verão" (1959), o saudosista "A condessa descalça" (1954) e o ácido "A malvada" (1950) possa ser o responsável por "O fantasma apaixonado", lançado em 1947 (antes, portanto, de sua consagração como cineasta): não que o filme, baseado no romance de R. A. Dick, seja ruim ou sequer medíocre, mas o fato é que, comparado com a filmografia posterior de Joseph L. Mankiewicz, soa como uma amostra de que, por trás de todo o cinismo do diretor, havia resquícios de humanismo e romantismo (ainda que disfarçado no tom sardônico de alguns diálogos). Grande sucesso de bilheteria, "O fantasma apaixonado" é um romance atípico, que abre mão do piegas para apostar no bom-humor - apoiado na atuação exemplar de Rex Harrison e na beleza de Gene Tierney, que deixa de lado a sensualidade perigosa da personagem-título de "Laura" (46) para viver uma mulher bem mais próxima da plateia.

A trama começa em 1900, quando a jovem viúva Lucy Muir (Gene Tierney em uma atuação discreta mais muito eficiente) decide que, passado um ano desde a morte do marido, é hora de buscar a independência - o que significa sair da casa onde mora com a sogra e a cunhada, ambas mulheres controladoras e manipuladoras. Mesmo contra a vontade delas, Lucy vai em busca de um novo começo e, com a filha pequena, Anna (Natalie Wood), e a fiel governanta, Martha (Edna Best), abandona Londres e vai morar em uma pequena cidade litorânea. Lá, ela se encanta por uma propriedade há muito desabitada - e descobre, logo depois de ser desencorajada pelo corretor de imóveis, que há um motivo muito forte para tamanho abandono. Segunda uma lenda local, o dono da casa, o Capitão Daniel Gregg (Rex Harrison), cometeu suicídio em um dos quartos, e seu espírito se recusa a ir embora. A princípio totalmente cética a respeito, Lucy acaba se surpreendendo quando, em um de seus primeiros dias na nova habitação, dá de cara com o fantasma do charmoso marinheiro, que tenta assustá-la e, como já fez com outros moradores, expulsá-la. As coisas, porém, não saem como esperava o velho lobo do mar.


Contrariando completamente as expectativas do Capitão Gregg, a decidida Lucy não se deixa apavorar com a visão do ectoplasma, e, depois de algum tempo de negociações, os dois se decidem pela convivência pacífica. Com a condição de não aparecer para a pequena Anna, o capitão aceita a presença da nova família em sua propriedade, e uma amizade inusitada surge entre os dois - que, apesar de suas diferenças, descobrem uma afinidade que preenche o vazio de seus dias. É por causa de Lucy (e através dela) que Gregg resolve finalmente escrever o livro de suas memórias - uma obra que também será a responsável pelo encontro de Lucy com Miles Fairley (George Sanders), um escritor de livros infantis que, encantado pela bela viúva, ameaça seriamente o equilíbrio de sua relação com o fantasma, que repentinamente descobre dois novos sentimentos: o amor e o ciúme. Caberá então à Lucy encontrar um meio de lidar com esse triângulo amoroso pouco comum.

Divertido em alguns momentos, românticos em outros e inteligente em todos, "O fantasma apaixonado" acerta em não se levar demasiadamente a sério. Mesmo que Gene Tierney e Rex Harrison estejam longe de fazer comédia fácil, sua química funciona perfeitamente graças ao roteiro ágil e à direção sensível de Mankiewicz, que imprime ao filme um tom leve mas nunca simplório ou açucarado em excesso. Equilibrando tanto a comédia quanto o drama e o romance, o filme se desenrola diante do espectador com fluidez e uma simpatia única. Grande sucesso de bilheteria em 1947, o filme pode não ser tão lembrado quanto os maiores sucessos de seu diretor, mas é suficientemente importante a ponto de um remake ter sido considerado, no começo dos anos 1990, com Michelle Pfeiffer e Sean Connery nos papéis principais: o projeto não foi adiante por causa do fracasso comercial de outra produção estrelada pela dupla ("A casa da Rússia", baseado em romance de John LeCarré), mas é sintomático que, dentre tantos filmes tão ou mais afamados, ele tenha sido cogitado para voltar às telas. Agradável e charmoso, "O fantasma apaixonado" merece ser redescoberto como uma pequena pérola do gênero.

quinta-feira

A DAMA DE SHANGHAI

A DAMA DE SHANGAI (The lady from Sanghai, 1947, Columbia Pictures, 87min) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, romance de Sherwood King. Fotografia: Charles Lawton Jr.. Montagem: Viola Lawrence. Música: Heinz Roemheld. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Sturges Carne, Stephen Goossón/Wilbur Menefee, Herman Schoenbrun. Produção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders, Ted de Corsia. Estreia: 24/12/47 (França)

Filmes nascem das mais variadas formas, de acordo com as mais distintas necessidades. Um dos clássicos do cinema noir norte-americano da década de 1940, por exemplo, surgiu graças ao desespero de seu diretor por urgentes 55 mil dólares, necessários para cobrir dívidas e lhe permitir estrear um espetáculo teatral em Boston. "A dama de Shanghai" é, hoje, considerado um dos grandes filmes do aclamado (e controverso) Orson Welles, mas sua gênese é pouco glamourosa e sua realização bastante complicada - como quase em toda a filmografia do cineasta. Basta dizer que, apesar do nome de Rita Hayworth (recém saída do sucesso de "Gilda") estampar o cartaz do filme, a produção demorou mais de um ano para ser lançada após o término das filmagens. Mesmo assim não agradou ao público - e tampouco Harry Cohn, o chefão da Columbia Pictures, que, logo após a primeira sessão privada de seu novo potencial êxito financeiro, chegou a ofereceu mil dólares a quem lhe explicasse a trama, baseada no romance "If I die before I wake", de Sherwood King e escolhida por Welles quase por acaso.

Tudo começou quando, às vésperas da estreia no teatro de sua versão musical de "Volta ao mundo em 80 dias", Orson Welles se viu diante de uma situação pouco confortável: ou ele pagava um débito de  55 mil dólares ou todo o figurino do espetáculo permaneceria preso pelos credores, inviabilizando a temporada. Em pânico, o cineasta - outrora consagrado como gênio, por seu seminal "Cidadão Kane" (1941), mas já tido como um diretor-problema - apelou para o resto de prestígio que ainda tinha e fez um ousado telefonema para Harry Cohn, o manda-chuva da Columbia Pictures à época: confiando que ainda era capaz de impressionar a indústria, Welles prometeu a Cohn que, caso o executivo lhe mandasse urgentemente o dinheiro de que precisava, ele não só dirigiria um filme para o estúdio, mas também faria o roteiro e assumiria o papel principal. Não apenas isso: ele também sugeria ao chefão a compra dos direitos do livro de Sherwood King - uma escolha um tanto aleatória, mas, considerando-se a pressa, bastante apropriada para uma adaptação cinematográfica. Dinheiro enviado, peça estreada, era chegada a hora de Welles cumprir a promessa. Mas nada era fácil quando se tratava do ex-garoto prodígio de Hollywood.


Pra começo de conversa, Welles deixou o estúdio chocado quando decidiu que a grande estrela do filme, Rita Hayworth (então sua esposa e objeto de desejo de dez entre dez espectadores de cinema espalhados pelo mundo) apareceria em cena com o cabelo curto e louro, ao contrário de suas longas madeixas avermelhadas que haviam seduzido o planeta. Para enfatizar ainda mais sua decisão de não fazer de Hayworth apenas um símbolo sexual e sim uma atriz dramática consistente, o cineasta simplesmente não filmou nenhum close-up da estrela - uma opção que deixou a editora do estúdio, Viola Lawrence, de cabelos em pé e obrigou a refilmagens depois do encerramento dos trabalhos. Não bastasse isso, Welles reescrevia o roteiro frequentemente, batia de frente com parte do elenco e os obrigava a improvisar alguns de seus diálogos - um método de trabalho pouco confortável que se somava a problemas de vários outros tipos, que surgiam principalmente devido à insalubridade das locações mexicanas. Segundo o diário do produtor William Castle, as altas temperaturas chegaram a causar desmaios em Hayworth, e insetos venenosos eram comuns a ponto de um deles causar (mais) um atraso às filmagens ao picar Welles no olho e deixá-lo inchado e sem condições de seguir o trabalho por alguns dias - algo que já havia acontecido com a estrela da produção e que, logicamente, resultou no estouro do orçamento e no atraso no cronograma.

O cronograma, diga-se de passagem, não era algo muito respeitado durante a produção de "A dama de Shanghai": o iate que servia como um dos principais cenários do filme era de propriedade do ator Errol Flynn, que o alugou com a condição de que ele estivesse sempre presente durante as filmagens. O problema, porém, é que Flynn tinha o costume de desaparecer por dias a fio, o que impossibilitava o trabalho - sem falar na ocasião em que um assistente de câmera morreu de ataque cardíaco no iate e o ator, famoso por seus porres homéricos, estava a ponto de jogá-lo ao mar, em um improvisado funeral marítimo (do que foi devidamente impedido pelo próprio Orson Welles). Com tantos problemas antes mesmo de ficar pronto, é de surpreender que o resultado final tenha sido tão coeso - ainda que um tanto distante das inovações com as quais o cineasta pretendia fugir dos clichês dos filmes policiais noir da época. Com o apoio do diretor de fotografia Charles Lawton Jr., por exemplo, Welles trabalhou formas de criar um ambiente claustrofóbico, com a utilização de luz natural sempre que possível, e suas intenções de um uso criativo do som acabaram sendo sabotadas pelo departamento de som do estúdio, não exatamente disposto a tanta criatividade: até mesmo a mais famosa sequência do filme, em uma sala de espelhos, acabou ficando mais curta do que desejava seu criador.

A trama de "A dama de Shanghai" - aquela que Harry Cohn não entendeu em sua primeira sessão do filme - começa quando o desconfiado Michael O'Hara (Orson Welles) salva uma bela mulher de ser assaltada em pleno Central Park. Logo ele descobre que se trata de Elsa (Rita Hayworth), a esposa do famoso advogado criminal Arthur Bannister (Everett Sloane), que não demora em contratá-lo como membro da equipe de seu iate em uma viagem de Nova York a San Francisco. Durante o percurso, Michael e Elsa se descobrem apaixonados e planejam fugir juntos. A oportunidade de conseguir dinheiro para isso surge quando George Grisby (Glenn Anders), um amigo de Bannister, oferece cinco mil dólares a Michael para que ele o ajude a forjar sua morte. O experiente marinheiro aceita a proposta, mas quando Grisby realmente aparece morto, ele precisa provar sua inocência - e, como em qualquer boa estória policial, Elsa não apenas pode estar relacionada com o golpe como também o leva a um perigoso clímax em um parque de diversões (inspirado no visual do expressionista "O gabinete do Dr. Caligari", de 1920).

Lançado mais de um ano depois de pronto - como mais uma prova das dúvidas de Harry Cohn na qualidade do filme -, "A dama de Shanghai" permanece na memória dos cinéfilos principalmente graças à sua sequência final, um empolgante jogo de espelhos em que Orson Welles pode mostrar porque foi um dos mais importantes cineastas de sua geração - e da história do cinema. Porém, mesmo que o filme, como um todo, tenha problemas narrativos bastante óbvios, é um entretenimento de alta qualidade visual e um marco na carreira dos envolvidos - até mesmo de Rita Hayworth em um de seus papéis menos sensuais.

quarta-feira

VÍTIMAS DA TORMENTA

VÍTIMAS DA TORMENTA (Sciuscià, 1946, CG Entertainment, 87min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Sergio Amidei, Adolfo Franci, Cesare Giulio Viola, Cesare Zavattini. Fotografia: Anchise Brizzi. Montagem: Nicolò Lazzari. Música: Alessandro Cicognini. Direção de arte: Ivo Battelli, G. Lombardozzi. Produção: Paolo William Tamburella. Elenco: Franco Interlenghi, Rinaldo Smordini, Annielo Mele, Bruno Ortensi, Emilio Cigoli. Estreia: 27/4/46

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor de um Oscar especial 

Mesmo antes de criar oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro (o que ocorreria somente em 1956), a Academia de Hollywood já reconhecia, de uma forma ou outra, a excelência do cinema feito fora de seus domínios. Foi o caso de "Vítimas da tormenta", homenageado com um prêmio especial por suas grandes qualidades artísticas, "que provam ao mundo que o espírito criativo pode triunfar sobre a adversidade". Dirigida por Vittorio De Sica e eleita também um dos dez melhores filmes do ano pelo respeitado National Board of Review, a produção - parte integrante do aclamado neorrealismo italiano - concorreu ainda ao Oscar de roteiro original e preparou o cineasta para a sua grande obra-prima, "Ladrões de bicicleta", lançado dois anos mais tarde e que novamente encantou as plateias internacionais com seu equilíbrio entre o duro realismo do pós-guerra e a poesia da inocência infantil. Com um elenco predominantemente mirim, "Vítimas da tormenta" choca, emociona e faz refletir - e insere-se, por isso, na tradição de filmes imprescindíveis sobre a infância, como os posteriores "Os incompreendidos", de Truffaut, "Os esquecidos" (50), de Buñuel, e "Pixote: a lei do mais fraco" (81), de Hector Babenco.

A trama do filme se passa em uma Roma ainda sofrendo as consequências da guerra, com soldados norte-americanos convivendo pacificamente com a população local, que tenta retomar uma vida normal apesar da ruína econômica. É nesse ambiente que o público é apresentado a seus dois protagonistas, Pasquale e Giuseppe, que trabalham como engraxates nas ruas da cidade enquanto tentam economizar dinheiro para realizar um de seus maiores sonhos: comprar o cavalo pelo qual são apaixonados. Grandes e inseparáveis amigos, eles tem muito em comum, apesar de Pasquale viver nas ruas e Giuseppe ter uma família - da qual faz parte o pouco confiável Attilio, um rapaz frequentemente envolvido em problemas com a polícia. A rotina dos dois meninos, pouco empolgante, começa a mudar quando eles aceitam uma proposta de Attilio: vender cobertores roubados dos soldados a uma velha cartomante. Excitados com a possibilidade de comprar seu cavalo, os garotos aceitam a missão, mas acabam presos logo depois, envolvidos em um golpe que os leva imediatamente a um reformatório. Lá, eles são separados e colocados um contra o outro, como forma das autoridades conseguirem uma prova contra Attilio.


Construindo sua narrativa de forma a estabelecer uma crescente tensão entre seus protagonistas, que vem sua amizade posta à prova diante de armadilhas e situações violentas dentro do reformatório, "Vítimas da tormenta" consegue, ao mesmo tempo, manter as características do neorrealismo italiano - atores amadores, preocupação social, improvisações, um visual cru - e manter um constante tom de imprevisibilidade dramática. O elenco infantil é absolutamente impressionante, formado por jovens amadores que se destacam pela maneira natural e orgânica de transmitir uma vasta gama de emoções sem forçar o sentimentalismo. De Sica, um dos maiores diretores italianos de todos os tempos, extrai de seu elenco juvenil uma verdade dolorida, que imprime a cada sequência uma melancolia única, transmitida também pela bela fotografia em preto-e-branco de Anchise Brizzi e pela trilha sonora de Alessandro Cicognini, que, discretamente, comenta com suavidade os percalços dos protagonistas sem jamais chamar a atenção para si própria.

"Vítimas da tormenta" pode até não ser tão lembrado quanto outros filmes do neorrealismo italiano, como "Ladrões de bicicleta" (48), do próprio De Sica, ou o seminal "Roma: cidade aberta" (45), de Roberto Rossellini, mas é, sem dúvida nenhuma, um dos pontos altos do gênero. Atingindo o público tanto por seu lado emocional quanto por sua plasticidade cuidadosamente simples, o filme deixa sua marca graças à capacidade do diretor em contar uma história simples e universal, que ressoa atual mesmo tão distante cronologicamente. Com personagens que cativam logo na primeira cena - e que vão se tornando adultos precocemente em contato com a vida real -, é uma produção que machuca, mas, justamente por isso, se mantém inesquecível no coração da plateia. Excepcional!

terça-feira

NESTE MUNDO E NO OUTRO

NESTE MUNDO E NO OUTRO (A matter of life and death, 1946, The Archers, 104min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Michael Powell, Emeric Pressburger. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Reginald Mills. Música: Allan Gray. Figurino: Hein Heckroth. Direção de arte: Alfred Junge. Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Elenco: David Niven, Kim Hunter, Robert Coote, Roger Livesey, Raymond Massey, Abraham Sofaer. Estreia: 14/3/46

Com o final da II Guerra Mundial, parecia que os ânimos haviam se acalmado, ao menos em termos bélicos. Porém, os soldados britânicos ainda não haviam digerido o fato de que os EUA entraram no conflito muito depois que a Inglaterra - e não davam sinais de que se importavam com esse detalhe, criando para si mesmos uma imagem heroica que o cinema hollywoodiano insistia em sublinhar. Como uma forma de amenizar esse pequeno desconforto - ainda que extraoficialmente -, os diretores/produtores/roteiristas Michael Powell e Emeric Pressburger resolveram, então, servir como apaziguadores. Um filme que seria uma maneira de melhorar as relações entre os dois países, o drama romântico "Neste mundo e no outro" acabou, no entanto, extrapolando seus objetivos diplomáticos e conquistou crítica e público com uma parábola emocionante sobre o amor e a tolerância. Um dos filmes preferidos do ator Michael Sheen e da escritora J. K. Rowling é, também, um excepcional trabalho de imaginação e criatividade, com um roteiro brilhante e um visual empolgante - em uma época em que os efeitos visuais não contavam com computadores ou orçamentos milionários, tudo que se vê na tela é resultado direto do trabalho manual de uma equipe cujo talento é nunca menos que assombroso.

Filmado em preto-e-branco e Technicolor, o filme de Powell e Pressburger se utiliza de uma trama com toques sobrenaturais para construir um mundo à parte, onde nações hostis são capazes de deixar de lado suas diferenças em nome do amor e da fraternidade. Pode parecer ingênuo e piegas, mas o roteiro, repleto de bons momentos de humor e uma delicadeza ímpar ao tratar de assuntos incomuns, oferece ao espectador uma inteligência verbal e plástica que o torna absolutamente irresistível. Além de tudo, o filme acerta em cheio ao escalar como protagonista o ótimo David Niven, que transmite com elegância todas as nuances de seu personagem, um homem preso entre duas dimensões de realidade - e lutando por um amor descoberto em seus últimos momentos de vida. Ao lado de Kim Hunter (que levaria um Oscar de coadjuvante por "Uma rua chamada Pecado", de 1951), Niven mostra seu lado romântico sem nunca escorregar no sentimentalismo óbvio - e ainda arruma espaço para uma bem-vinda dose de ironia.


O filme começa como qualquer outra das produções sobre a guerra que invadiram as telas de cinema nos anos 1940: o Capitão Peter David Carter (David Niven), inglês, está retornado a seu país, depois de uma missão de bombardeio quando descobre que, para sua desgraça, que seu avião foi atingido e ele está vivendo seus últimos momentos de vida. Nesse meio-tempo, ele faz contato, via rádio, com a jovem June (Kim Hunter), que trabalha junto ao exército norte-americano: os dois conversam brevemente e notam uma grande sintonia entre eles, mas é tudo muito tarde, e, depois de pedir a June que avise sua mãe a respeito de sua morte, David se joga do avião em chamas mesmo sabendo que seu paraquedas está inutilizado. Para sua surpresa, porém, ele não morre, e acorda, atônito e com uma simples dor de cabeça, em uma praia britânica. Nesse mesmo lugar, ele conhece June e os dois se apaixonam instantaneamente. Seu idílio romântico, no entanto, dura pouco: sua sobrevivência foi um erro, uma falha do anjo responsável por direcioná-lo ao Paraíso. Indignado com a situação, Peter exige que seu caso seja julgado pelas mais altas cortes divinas, para que ele possa desfrutar da paixão que começou a sentir por June quando já deveria estar morto. O julgamento, então, é marcado e teses a favor e contra sua reivindicação são expostos diante de testemunhas e do júri.

O grande lance dramático de "Neste mundo e no outro" vem, no entanto, na forma com que o roteiro trata o julgamento de Peter. Ao mesmo tempo em que as testemunhas são ouvidas no plano astral, no plano da realidade o protagonista está passando por uma cirurgia no cérebro: assustada com o que considera alucinações do namorado, June o leva até um médico, que descobre, através de exames, um tumor que pode ser o responsável por seu comportamento excêntrico. O filme lança, então, a dúvida que faz dele tão especial: o julgamento pelo qual Peter está passando realmente está acontecendo ou tudo não passa de imaginação de um homem doente? E o veredicto será dado por um Ser Superior ou por um cirurgião, capaz ou não de lhe devolver a vida normal? Esta questão acaba por ser o maior trunfo do filme - mais até do que seu visual criativo - e até mesmo os letreiros iniciais dão uma dica a seu respeito: "Esta é a história de dois mundos: um que conhecemos e outro que existe apenas na mente de um jovem piloto cujas vida e imaginação foram violentamente moldadas pela guerra. Qualquer semelhança com qualquer outro mundo, conhecido ou desconhecido, é meramente coincidência."

 Visto com o olhar quase cínico de hoje, "Neste mundo e no outro" - cujo título original, "A matter of life and death" foi substituído por "Stairway to heaven" no idiossincrático mercado norte-americano, que talvez rejeitasse a palavra "morte" e ignorasse o filme - pode parecer ingênuo. Mas é inegável que o casamento entre a ideia geral e sua realização é um dos pontos altos do cinema inglês do pós-guerra, com uma mensagem de paz e tolerância que permanece de vital relevância. Com toques de um humor tipicamente britânico em seus diálogos e o desbragado romantismo hollywoodiano em alguns de seus mais tocantes momentos, a obra de Powell e Pressburger - que em poucos anos voltariam a encantar as plateias com seu musical "Os sapatinhos vermelhos" (48) - é deliciosamente kitsch, mas de uma sinceridade encantadora. Imperdível!

segunda-feira

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado no romance de Niven Busch, adaptado por Oliver H. P. Garrett. Fotografia: Lee Garmes, Ray Rennahan, Hal Rosson. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Walter Plunkett. Direção de arte/cenários: J. McMillan Johnson/James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten, John Huston, Lillian Gish, Lionel Barrymore, Herbert Marshall. Estreia: 29/12/46

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jennifer Jones), Atriz Coadjuvante (Lillian Gish)

Dinheiro não era problema: os constantes atrasos nas filmagens, a contratação (e demissão de sete diferentes diretores), as interferências diretas do produtor e o marketing agressivo ao custo então assombroso de dois milhões de dólares deixavam isso bem claro. A qualidade dramática também não parecia incomodar: cenas eram escritas e reescritas constantemente, e até mesmo refilmadas, mesmo que isso distanciasse a trama do romance original, escrito por Niven Busch. E as ambições eram bem exageradas: repetir o sucesso internacional (de crítica e público) de "... E o vento levou", lançado sete anos antes e imediatamente alçado à condição de clássico. Porém, nem sempre as coisas saem como o previsto, especialmente em Hollywood, e "Duelo ao sol" acabou se tornando mais lembrado por seus excessos (inúmeros) do que por suas qualidades (poucas, e nem sempre redentoras). Produzido por David O. Selznick no ápice de seu vício em anfetaminas e sofrendo de um sério problema dramático (a falta de carisma dos personagens centrais), o filme marcou época - foi um relevante êxito comercial, principalmente como resultado de sua farta campanha promocional e influenciou cineastas como Martin Scorsese e Pedro Almodóvar -, mas, visto sob uma ótica contemporânea, tem contornos escandalosamente machistas e racistas que nem mesmo a espetacular fotografia em Technicolor consegue amenizar.

Na verdade, o filme, oficialmente dirigido por King Vidor, sofre de uma séria tendência ao melodrama, com um enredo que poderia facilmente ser confundido com o de uma telenovela mexicana (não fosse tão eivado de preconceito racial): logo nas primeiras cenas, a protagonista, Pearl Chavez (Jennifer Jones em uma caracterização equivocada e excessivamente "étnica") praticamente testemunha o assassinato de sua mãe, morta por seu próprio pai quando flagrada com um amante. Depois da execução de seu pai, Pearl é mandada aos cuidados de uma prima distante, Laura Belle (a veterana Lillian Gish em seu único desempenho indicado ao Oscar). Laura vive em uma fazenda com o marido, o senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore), e os dois filhos, de personalidades totalmente opostas: o caçula, Jesse (Joseph Cotten), acaba de terminar a faculdade de Direito, é educado, gentil e cavalheiresco; por sua vez, o mais velho, Lewton (Gregory Peck), é violento, bruto e pouco afeito a regras sociais. Ambos se sentem atraídos pela beleza selvagem de Pearl, mas, apesar de prezar a amizade de Jesse, ela acaba não resistindo a Lewton, com quem inicia uma relação baseada em sexo e quase obsessão - um relacionamento que não apenas irá contrapor os dois irmãos, mas também abalar todo o alicerce familiar.


Na pele de Pearl Chavez, a esposa de Selznick, Jennifer Jones, tem uma atuação que beira o exagero, apesar de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz. Assumindo o papel que seria de Teresa Wright - que saiu do projeto por estar grávida -, Jones acabou virando um dos focos do produtor, que via no filme a chance de oferecer a ela o mais emblemático trabalho de sua carreira (a despeito de Jones já ter uma estatueta em casa, por "A canção de Bernadette", de 1943). Para torná-la ainda mais atraente, Selznick chegou ao extremo de contratar o veterano diretor Joseph von Sternberg apenas para cuidar do visual da produção (leia-se da própria Jennifer). Não ajudou muito. Apesar de algumas sequências fotografadas com um Technicolor de ferir os olhos - especialmente crepúsculos e vastas paisagens -, "Duelo ao sol" não consegue deixar de ser extremamente cafona a maior parte do tempo, desde a concepção dos personagens até a plasticidade perceptivelmente kitsch dos cenários e figurinos. Gregory Peck, no auge da juventude, faz o que pode com um personagem francamente detestável, e só mesmo a ótima Butterfly McQueen (a Prissy de "... E o vento levou") para conseguir arrancar um pouco de humor do roteiro - ainda que faça praticamente o mesmo papel que fez no clássico de 1939.

Mas o pior de tudo é perceber como o roteiro trata de temas polêmicos sem a menor preocupação com o politicamente correto - termo longe de ser conhecido nos anos 1940. Não é que "Duelo ao sol" ignore todas as convenções: ele simplesmente faz questão de apresentá-las sob uma ótica de normalidade (o que, à época, poderia até não chocar ninguém, mas hoje em dia é absolutamente desprezível). No roteiro não faltam menções preconceituosas a respeito de indígenas (a protagonista é frequentemente tratada como "mestiça", em tom pejorativo) e imigrantes; a forma como Lewt trata Pearl é agressiva - a primeira noite de sexo entre eles é claramente um estupro - e, o que é pior, a trama é conduzida de modo a fazer o público torcer pelo romance abusivo (a ponto de Pearl apaixonar-se por ele justamente pelo jeito que ele a trata). Os atos de Lewt não são os atos de um homem apaixonado defendendo a mulher que ama, e sim o de um proprietário cuidando do que possui, uma mercadoria que precisa estar sempre a sua disposição. Sem disfarçar tais elementos francamente absurdos, o roteiro ainda peca por ser superficial e desnecessariamente longo, em mais uma tentativa de criar uma embalagem de épico para um filme que, apesar de ter seus fãs, é um dos mais discutíveis clássicos da velha Hollywood.

domingo

O AMANHÃ É ETERNO

O AMANHÃ É ETERNO (Tomorrow is forever, 1946, International Pictures, 104min) Direção: Irving Pichel. Roteiro: Lenore Coffe, estória de Gwen Bristow. Fotografia: Joe Valentine. Montagem: Ernest Nims. Música: Max Steiner. Figurino: Jean Louis. Direção de arte: Wiard B. Ihnen. Produção: David Lewis. Elenco: Orson Welles, Claudette Colbert, George Brent, Lucile Watson, Richard Long, Natalie Wood. Estreia: 18/01/46

Em 1946, Orson Welles já não era mais considerado apenas o gênio precoce por trás do revolucionário "Cidadão Kane" (1941): seu filme seguinte, "Soberba" (1942), havia sido mutilado pela RKO, com medo de um novo fracasso de bilheteria, e o ambicioso documentário "It's all true" (com cenas filmadas no Brasil) nem chegou a ser completado. Foi, então, sem maiores expectativas, que ele estrelou "O amanhã é eterno", um melodrama com enredo de telenovela e produção caprichada que tem em sua presença um dos principais atrativos. Na pele de um herói romântico e desprendido, ele mostra que, além de cineasta de imenso talento, também era um intérprete poderoso, capaz de agigantar um filme sem grandes pretensões artísticas. Ao lado da sempre ótima Claudette Colbert e uma estreante Natalie Wood (ainda criança), Welles faz do filme de Irving Pichel uma história de amor tocante e ainda com ecos da recém terminada II Guerra Mundial.

A trama, roteirizada por Lenore Coffe (indicada ao Oscar por "Quatro filhas", de 1938), começa com o final da I Guerra Mundial, comemorado principalmente pela jovem Elizabeth (Claudette Colbert), que finalmente irá reencontrar o marido, John Andrew McDonald (Orson Welles). Sua felicidade, porém, acaba quando ela recebe a notícia de sua morte em combate. Ao desespero de saber-se viúva do grande amor de sua vida junta-se a descoberta de uma gravidez. As coisas só não ficam piores porque seu chefe, Lawrence Hamilton (George Brent), resolve ajudá-la a se recuperar, com a ajuda de sua tia, Jessica (Lucile Watson): apaixonado por Elizabeth, o rapaz lhe propõe casamento e insiste em adotar seu bebê - batizado com o nome do verdadeiro pai. Sem muitas opções, a jovem aceita ambos os pedidos, e juntos, o casal tem mais um filho, algum tempo depois. Vinte anos se passam. Os EUA estão em vias de entrar em outra guerra, para angústia de Elizabeth - que vê seu filho mais velho, Drew (Richard Long), interessado em alistar-se nas tropas do país. É então que o novo químico contratado pela empresa de Lawrence é apresentado à família, junto com sua pequena filha adotiva, Margaret (Natalie Wood). O dr. Erik Kessler, na verdade, é John Andrew, que não morreu, mas, desfigurado por uma explosão, decidiu ficar longe da mulher que amava - e, depois de uma cirurgia plástica inovadora, se reinventou com nova identidade.


Logo que chega à casa de seu novo chefe, Andrew/Kessler reconhece Elizabeth, mas ela não é capaz do mesmo. Se aproximando aos poucos da família, ele constata que Drew é seu filho - e que ainda é apaixonado pela mulher da qual se afastou. Mas a iminência do aniversário de 21 anos do rapaz (data que lhe permitirá tomar suas decisões sem precisar da autorização dos pais) acelera as decisões que o antigo soldado precisa tomar. Afinal, ele precisa revelar sua real identidade? Ou é melhor manter tudo como está, sob pena de desestruturar a vida de uma família? Essas questões, típicas de melodrama, são conduzidas com sutileza pelo diretor, que faz uso da bela fotografia em preto-e-branco e da música de Max Steiner para enfatizar o clima dramático do roteiro. Claudette Colbert, do alto de sua elegância, faz o contraponto exato à aura de abnegação do personagem de Welles - um homem misterioso e atormentado por um passado que precisa esconder a qualquer preço. Por fim, há a pequena Natalie Wood, então com apenas oito anos de idade e dotada de um carisma e um talento que, alguns anos mais tarde, a colocariam em destaque no cenário hollywoodiano.

"O amanhã é eterno" é um filme pouco lembrado quando se fala da carreira de Orson Welles - e da própria história do cinema norte-americano. Não ganhou Oscar, não faz parte de nenhuma lista dos melhores filmes de todos os tempos e tampouco é muito conhecido até mesmo pelos maiores fãs da era de ouro de Hollywood. Mas é uma produção sincera, comovente e honesta em suas emoções e objetivos. É uma bela e triste história de amor e abnegação, com a guerra como pano de fundo e um elenco acima de qualquer suspeita. Para ser descoberto

OS SAPATINHOS VERMELHOS

OS SAPATINHOS VERMELHOS (The red shoes, 1948, The Archers, 135min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Emeric Pressburge...