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segunda-feira

COMO ELIMINAR SEU CHEFE

COMO ELIMINAR SEU CHEFE (Nine to five, 1980, 20th Century Fox, 109min) Direção: Colin Higgins. Roteiro: Colin Higgins, Patricia Resnick, estória de Patricia Resnick. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: Pembroke J. Herring. Música: Charles Fox. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Dean Mitzner/Anne McCulley. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Dolly Parton, Dabney Coleman, Sterling Hayden, Elizabeth Wilson, Henry Jones, Lawrence Pressman. Estreia: 19/12/80

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Nine to Five")

Depois de uma série de filmes densos, com temáticas relevantes, como "Julia" (77), "Amargo regresso" (78) - que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz - e "Síndrome da China" (79), não deixou de ser uma surpresa ver o nome de Jane Fonda encabeçando os créditos de uma comédia aparentemente tão despretensiosa quanto "Como eliminar seu chefe". Produzido pela companhia de Fonda e Bruce Gilbert, a IPC Films, o filme dirigido por Colin Higgins foi um inesperado sucesso de bilheteria - foi o segundo filme mais rentável do ano nos EUA e Canadá - e provou que, além de uma atriz de prestígio e consciência social, Fonda era também extremamente popular, ainda capaz (ao contrário do que diziam seus detratores à época) de levar público às salas de cinema. Mesmo que parte do êxito possa também ser creditada à presença da sensacional Lily Tomlin e da cantora country Dolly Parton (estreando como atriz), é inegável que boa parte do interesse das plateias vinha de sua participação - em papel atípico, mas nem tão distante como parecia de seus interesses políticos. Aparentemente uma comédia inofensiva, "Como eliminar seu chefe" mantém, em seu íntimo, uma óbvia alma feminista.

Desprovida de glamour e vaidade, Fonda interpreta Judy Bernly, uma mulher recém-divorciada que, sem nunca ter trabalhado fora, conquista um emprego de secretária em uma grande empresa de Nova York. Tão logo chega a seu local de trabalho, ansiosa e insegura, ela se depara com um mundo que parece funcionar com regras próprias, criadas pelo chefe, Franklin Hart Jr. (Dabney Coleman, em papel oferecido a Gregory Peck e Charlton Heston): machista, misógino, egocêntrico, hipócrita e mentiroso, ele domina o escritório de modo despótico e cruel, sem hesitar em humilhar e assediar todas as mulheres que trabalham com ele. Mesmo casado, insiste em tentar conquistar a ingênua Doralee (Dolly Parton) e trata a experiente Violet (Lily Tomlin) como escrava - além de ter roubado dela uma promoção há muito desejada. Depois de um expediente particularmente pesado (em que as três se descobrem mutuamente revoltadas com os desmandos do patrão), elas fantasiam sobre diferentes formas de livrar-se de seus domínios, aliviando sua tensão. Acontece, porém, que logo em seguida uma de suas fantasias dá a impressão de ter-se tornado realidade - e, julgando Hart morto, as colegas se unem para despistar a polícia e manter a rotina inabalada.


Apesar do primeiro terço um tanto bobo e quase pueril - com direito a citações à Branca de Neve e outros desenhos animados -, "Como eliminar seu chefe" vai se tornando, aos poucos, em uma envolvente comédia de erros, repleta de um humor que mescla crítica social, ironia e até pastelão. Dotadas de notável timing cômico, as três protagonistas carregam nas costas a responsabilidade de fazer uma comédia adulta sem apelar para a vulgaridade ou excesso de erudição. Com um roteiro que agrada tanto àqueles que procuram sequências de gargalhar como àqueles dispostos a um humor mais sofisticado, o filme de Colin Higgins acerta em apostar todas as suas fichas no talento de suas atrizes em conseguir arrancar risadas até mesmo em situações bizarras - todas as sequências no hospital, envolvendo o sequestro de um cadáver e sua posterior reposição, são absolutamente geniais, graças ao desempenho do elenco. Famoso pelo cultuado "Ensina-me a viver" (71), Higgins brinca novamente com temas sérios sem perder a leveza e a sensibilidade.

Por trás de sua aparência histriônica, "Como eliminar seu chefe" é um filme absolutamente importante em termos sociais. Quando de seu lançamento, no final de 1980, a discussão sobre os direitos femininos estava no auge - e filmes como "Norma Rae" e "Kramer vs Kramer", ambos de 1979 e ambos premiados com o Oscar, apontavam uma direção para a qual Hollywood estava disposta a olhar com atenção. Ao conectar o espírito de seu tempo com um gênero popular - e levantar conversas sobre o assunto sem parecer didático ou panfletário - o filme de Higgins é um triunfo: mesmo que no cômputo final é pouco provável que sua mensagem vá sobrepor-se à sua trama na lembrança do espectador, uma semente foi lançada, e mais uma vez Jane Fonda teve sua parcela de responsabilidade. Afinal, mesmo brincando ela sabia muito bem o que estava fazendo!

terça-feira

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA (Short cuts, 1993, Fine Line Features/Spelling Films International, 187min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Robert Altman, Frank Barhydt, contos de Raymond Carver. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Geraldine Peroni. Música: Mark Isham. Figurino: John Hay. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Susan J. Emshwiller. Produção executiva: Scott Bushnell. Produção: Cary Brokaw. Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Julianne Moore, Matthew Modine, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason-Leigh, Chris Penn, Lily Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins, Lily Tomlin, Tom Waits, Frances McDormand, Peter Gallagher, Annie Ross, Lori Singer, Lyle Lovett, Buck Henry, Huey Lewis. Estreia: 05/9/93 (Festival de Veneza)

 
Indicado ao Oscar de Diretor (Robert Altman)

Desde que recuperou o prestígio e as boas graças da indústria e do público com "O jogador" (92), que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes e uma indicação ao Oscar de diretor, Robert Altman entrou em uma boa fase sem precedentes em sua carreira. Qualquer projeto que levasse sua assinatura no começo da década era garantia de entusiasmadas expectativas por parte da indústria e dos fãs - situação que acabou com "Pret-a-porter" (95), malfadada tentativa de desvendar os bastidores do mundo da moda que fracassou nas bilheterias e desagradou a gregos e troianos. Antes disso, porém, Altman encantou a crítica com um ambicioso projeto que reunia contos de Raymond Carver em um único filme, misturando seu próprio estilo de cinema (uma tênue linha narrativa abarcando inúmeros personagens independentes entre si) com a prosa minimalista e frequentemente poetica do escritor norte-americano. "Short cuts, cenas da vida" resultou em uma produção longa (três horas de duração que soam exatamente como três horas de duração), irregular e calcada basicamente em seu vasto elenco de ótimos atores, porque, apesar de todos os aplausos, é um filme cansativo e que vai do nada pra lugar nenhum.

É fácil de entender porque os atores gostam de trabalhar com Altman: é perceptível que o veterano cineasta lhes dá a liberdade de improvisar e criar em cima de personagens com uma carga humana muitas vezes inexistente no cinema comercial americano. É também fácil de compreender o entusiasmo com que a crítica muitas vezes recebe seus trabalhos: diretores autorais, com uma visão especial do mundo e da própria indústria são raros, especialmente depois que a era dos visionários deu lugar à era dos efeitos especiais e dos lucros milionários. Porém, para gostar de Robert Altman é preciso, mais do que tudo, gostar do seu estilo peculiar de cinema. Quem procura filmes com tramas bem amarradas ou narrativas estruturadas do modo convencional corre o sério risco de decepcionar-se com a obra do diretor, normalmente avessa a tais regras. Altman é o típico caso de amar ou odiar. E talvez "Short cuts" seja um de seus mais radicais exercícios.


Justamente por não ter uma espinha dorsal rígida - os detratores diriam que falta uma trama central - "Short cuts" depende muito da boa-vontade do espectador em seguir todas as histórias contadas pelo roteiro, que se cruzam sutil e aleatoriamente pelos subúrbios de uma Los Angeles ameaçada tanto por fenômenos naturais (terremotos, enxames de moscas) quanto pelos problemas de relacionamento entre famílias e amigos. Se existe um incidente que dá o empurrão inicial em tudo pode-se dizer que é o atropelamento do pequeno Casey (Zane Cassidy), filho da dona-de-casa Ann (Andie MacDowell) e do comentarista de telejornal Howard (Bruce Davison) - cujo pai, Paul (Jack Lemmon dando olé em cena), abandonou a família anos antes e retorna como se nada tivesse acontecido. Quem atropela o menino e o manda para o hospital sem que saiba das consequências do seu ato é a garçonete Doreen Piggot (Lily Tomlin), que, ironicamente, é casada com um chofer particular que luta contra o alcoolismo, Earl (Tom Waits). Sua filha, Honey (Lily Taylor) é casada com um aprendiz de maquiador de cinema, Bill (Robert Downey Jr.), que é o melhor amigo de Jerry Kaiser (Chris Penn), casado com Lois (Jennifer Jason Leigh), que trabalha como atendente em uma empresa de sexo por telefone.

E assim por diante. Duas dezenas de personagens desfilam pela tela, repletos de problemas cotidianos e dramas pessoais que se equilibram entre o banal e o surreal. Há casamentos em crises, ex-maridos truculentos, pescadores que continuam seu passatempo a despeito do cadáver de uma jovem a poucos metros, traições extraconjugais e até mesmo uma Julianne Moore em nu frontal em uma cena que espanta pela naturalidade: enquanto discute com o marido a respeito de um possível adultério passado, ela - totalmente nua da cintura pra baixo - Moore passa a ferro a roupa amarrotada por acidente. Assim é o cinema de Altman: banal, simples, direto. Enquanto uma jovem violoncelista sofre com a tristeza do mundo e um padeiro se revolta com o que considera um desrespeito a seu trabalho, a terra treme, a vida segue e raivas enrustidas explodem com violência. Nem sempre o trabalho do cineasta é palatável. Mas quem gosta de fugir do feijão-com-arroz do cinemão americano pode se interessar bastante.

segunda-feira

CUIDADO COM AS GÊMEAS

CUIDADO COM AS GÊMEAS (Big business, 1988, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Jim Abrahams. Roteiro: Dori Pierson, Marc Rubel. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas. Música: Lee Holdridge. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: William Sandell/Richard C. Goddard. Produção: Michael Peyser, Steve Tisch. Elenco: Bette Midler, Lily Tomlin, Fred Ward, Edward Herrmann, Michele Placido, Daniel Gerroll, Barry Primus, Michael Gross, Seth Green. Estreia: 10/6/88

Uma das maiores estrelas da Touchstone (braço adulto da Disney) nos anos 80 era Bette Midler. Com o sucesso de seus filmes "Um vagabundo na alta-roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Que sorte danada..." (87), a atriz/cantora que havia sido indicada ao Oscar já em sua estreia nos cinemas, na representação ficcional de uma estrela do rock calcada em Janis Joplin em "A rosa" (79), era garantia de polpudas bilheterias para o estúdio do Mickey. Por isso, não foi nenhuma surpresa quando ela assumiu o papel principal de "Cuidado com as gêmeas", pensado originalmente para Barbra Streisand. Sob a direção de Jim Abrahams - parte integrante do trio de cineastas que anarquizou a comédia americana dos anos 80 com seus filmes amalucados ao estilo "Apertem os cintos, o piloto sumiu" (80) - e com um roteiro baseado na estrutura shakespereana de "Comédia de erros", o filme comprovou a popularidade de Midler como uma atriz versátil e carismática, em um papel duplo que ela divide com generosidade e categoria com sua parceira de cena, a ótima Lily Tomlin - retornando à cena quatro anos depois de sua bem-sucedida parceria com Steve Martin em "Um espírito baixou em mim" (84).

O estilo de humor escrachado de Midler se encaixa com perfeição à quase fleumática Tomlin, o que torna as situações previstas no roteiro bem-amarrado ainda mais divertidas e surreais, principalmente quando dirigidas pela mente insana de Abrahams, que já havia trabalhado com Midler em "Por favor, matem minha mulher". É ele quem orquestra uma odisseia de mal-entendidos, confusões visuais e verbais e o show das duas atrizes, que parecem se divertir tanto quanto o espectador, em papéis que fazem uso de seus inúmeros talentos de forma orgânica e inteligente. Se Midler acaba se sobressaindo é justamente porque o humor do diretor acaba sendo mais próximo do seu, chegando ao quase exagero, mas Tomlin (que também é respeitada como atriz séria, tendo sido indicada ao Oscar de coadjuvante por "Nashville", de 1975) não perde a oportunidade de ter seus momentos de brilho, especialmente quando assume a persona atrapalhada e avoada de sua Rose milionária.


A trama é puro nonsense, e começa no dia do nascimento das protagonistas, em uma pequena cidade do interior chamada Jupiter Hollow, onde por acaso estão passando os Shelton, um casal de milionários em vias de ter seu primeiro herdeiro. Sem conseguir adiar o parto, a arrogante sra. Shelton acaba dando à luz a suas duas filhas, Sadie e Rose, no simples hospital local que eles acabam comprando, onde os tímidos e humildes Ratliff também estão vendo suas filhas nascerem - e serem batizadas, por obra não do destino, mas do próprio pai, encantado com os nomes das meninas ricas, também como Sadie e Rose. Tudo seria apenas uma questão quase normal, caso a idosa e míope enfermeira do hospital não trocasse os bebês. Quarenta anos mais tarde, a implacável empresária Sadie Shelton (Midler), que mora em Nova York, pretende livrar-se das propriedades adquiridas pelos pais no interior do país, que só lhe dão prejuízo e dor de cabeça - apesar das dúvidas de sua irmã, Rosie (Tomlin), uma mulher afável e delicada que não tem a mesma visão comercial agressiva da irmã. As ameaças de Sadie em desfazer-se das empresas em Jupiter Hollow não agradam nem um pouco à Rose pobre (novamente Tomlin), que pretende encarar a diretoria das empresas em Nova York - e meio que fugir de seu insistente namorado Roone (Fred Ward) - e levar junto sua deslumbrada e fútil irmã, Sadie (Midler, dessa vez com registro mais cafona). Não é preciso dizer que as quatro se hospedam no mesmo hotel - o Plaza - e causam uma série interminável de confusões entre os empregados, os empresários que precisam decidir o futuro da companhia das Shelton e até mesmo entre elas próprias.

"Cuidado com as gêmeas" é uma comédia quase histérica, repleta de situações engraçadíssimas, aproveitadas com gosto por suas protagonistas e seu elenco coadjuvante, que mesmo numeroso, rende com precisão sob o comando firme de Jim Abrahams. A cena em que os dois pares de irmãs se encontram pela primeira vez em um banheiro, por exemplo, é uma prova inconteste do timing cômico extraordinário de suas atrizes, que imprimem a cada personagem uma personalidade própria, independente das semelhanças e diferenças que possam vir a ter com suas respectivas familiares. Não importa o tipo de humor do espectador, há muito do que rir no filme de Abrahms. A não ser que não se tenha nenhum tipo de humor.

quarta-feira

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.

 

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

sexta-feira

UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM


UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM (All of me, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson, adaptação de Henry Olek, romance de Edwin Davis. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Bud Molin. Música: Patrick Williams. Direção de arte: Edward G. Carfagno. Produção: Stephen J. Friedman. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith. Estreia: 21/9/84

No início dos anos 80, um dos comediantes mais bem-sucedidos era Steve Martin. Oriundo do popular programa de TV "Saturday night live", ele esteve em uma sucessão de comédias que agradaram o público e/ou a crítica, como "O panaca" e "Cliente morto não paga", ambos dirigidos pelo veterano Carl Reiner. No entanto, nenhum de seus filmes anteriores com o cineasta conseguiu atingir o mesmo grau de êxito de "Um espírito baixou em mim", um imenso sucesso de bilheteria que ainda proporciou a ele os prêmio de melhor ator pela associação de críticos de Nova York e pela National Society of Film Critics, o que, levando-se em consideração a resistência da crítica em homenagear comédias em suas escolhas, apenas reitera o respeito com que ele era tratado na época.

"Um espírito baixou em mim" é uma comédia ligeira, sem pretensões outras a não ser fazer o espectador rir sem precisar exigir muito do cérebro - apesar de nunca subestimar a inteligência de seu público. A elegância com que Reiner conduz sua trama, sempre a um passo do nonsense, é uma prova de que fazer rir não necessariamente precisa de piadas sobre fluidos corporais. "Um espírito baixou em mim" mostra que um bom roteiro e um par de atores inspirados podem fazer milagres.

Steve Martin vive Roger Cobb, um advogado pouco feliz com sua profissão. Às vésperas de atuar em um caso que pode fazer sua carreira deslanchar - mesmo que atrapalhe seu noivado com a fútil Peggy (Madolyn Smith) - ele se vê obrigado a comparecer à mansão de Edwina Cutwater (Lily Tomlin), uma milionária arrogante e irascível que, às portas da morte, tem um plano infalível para transmigrar sua alma para o corpo de Terry (Victoria Tennant), filha de um empregado. Nutrindo uma antipatia à primeira vista pela moribunda, Cobb - cujo maior sonho é abandonar o direito e dedicar-se ao jazz - passa a viver os piores dias de sua vida quando, por um incidente na hora do procedimento de transmigração, recebe sua alma e passa a dividir seu corpo com ela. Até mesmo em meio a um julgamento, ele é metade Roger Cobb, metade Edwina Cutwater.

Só mesmo alguém muito mau-humorado é capaz de resistir ao humor de "Um espírito baixou em mim". O trabalho fabuloso de Steve Martin - dono de um raro timing para a comédia física - encontra sua cara-metade em Lily Tomlin, uma atriz especializada em um humor sarcástico e mordaz. A química perfeita entre os dois já é motivo suficiente para conferir o filme, que peca apenas por estender demais seu ato final ao invés de aproveitar o espetáculo-solo de Martin e a nítida adequação de Tomlin a seu papel de mulher ressentida e amargurada.

"Um espírito baixou em mim" não mudou a história do cinema - e nem tinha essa intenção. Mas é uma diversão honesta, inofensiva e extremamente engraçada, que apresenta o melhor trabalho da carreira de Steve Martin, um dos atores mais genuinamente engraçados dos anos 80.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...