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quinta-feira

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO


CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO (Breakfast on Pluto, 2005, Pathé Pictures International, 128min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, Pat McCabe, romance de Patrick McCabe. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tony Lawson. Música: Anna Jordan. Figurino: Elmer Ní Mhaoldomhnaigh. Direção de arte/cenários: Tom Conroy/Crispian Sallis, Sara Wan. Produção executiva: François Ivernel, Brendan McCarthy, Cameron McCracken, Mark Woods. Produção: Neil Jordan, Alan Moloney, Stephen Wooley. Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Ruth Negga, Stephen Rea, Brendan Gleeson. Estreia: 03/9/2005 (Festival de Telluride)

Em 1993, o cineasta Neil Jordan ganhou o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo", uma história de amor fora do comum que surpreendeu plateias pelo mundo todo. Quatro anos mais tarde, viu seu "Michael Collins: o preço da liberdade" dar a Liam Neeson o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim - por interpretar ninguém menos que o fundador do IRA, o famigerado Exército Republicano Irlandês que por décadas se manteve nas manchetes internacionais devido a seus atos contra o domínio britânico na ilha. Sendo assim, o espectador que estranhar a união desses dois fatores - o político e o sexual - em "Café da manhã em Plutão", está no mínimo desavisado. Mestre em mesclar temas polêmicos com personagens excêntricos, Jordan encontrou no livro de Patrick McCabe o material ideal para seguir-se ao pouco visto (e pouco lembrado) "Lance de sorte", lançado em 2002: sem pesar a mão no tom político da obra e concentrando seu foco na trajetória de um protagonista sui generis, o diretor/roteirista/produtor comprova seu talento em transitar por diferentes gêneros sem jamais abdicar de suas características artísticas. Sim, "Café da manhã em Plutão" não é apenas um drama político, nem tampouco somente uma produção destinada ao público LGBTQ+: apresenta também elementos de musical, comédia e romance, sempre amparado em uma atuação primorosa de Cillian Murphy.

Indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e aplaudido unanimemente pela crítica internacional, Murphy encontrou em Patrick Braden o personagem de uma carreira. Adotando um ar ingênuo e doce que contrasta violentamente com os incidentes que atravessam o caminho de seu protagonista, o ator-amuleto de Christopher Nolan foge radicalmente dos clichês que poderiam transformá-lo em caricatura e entrega um desempenho memorável. Desviando habilmente das armadilhas do roteiro, Murphy evita o sentimentalismo (sem evitar mergulhar nos momentos mais comoventes), o exagero (apesar da natureza inerentemente festiva de parte de sua ambientação) e o humor fácil (mesmo nas situações surreais  e personagens bizarras criadas por McCabe, ). Comandando um elenco coadjuvante que conta com nomes fortes como Liam Neeson, Stephen Rea, Brendan Gleeson, Ruth Negga (mais de uma década antes de concorrer ao Oscar por "Loving: uma história de amor", de 2016) e Dominic Cooper (em participação não creditada), o protagonista da série "Peaky Blinders" assume sem medo um lado não apenas queer - Patrick Braden, também conhecido como Patricia, não se limita a rótulos simples de gênero e sexualidade, mas jamais deixa de ser crível e apaixonante.


Dividido em 26 capítulos curtos que tornam a narrativa quase episódica, o roteiro de "Café da manhã em Plutão" segue com extrema fidelidade o romance de Patrick McCabe - autor também do livro "Nó na garganta", adaptado pelo mesmo Neil Jordan em 1997. Narrado em primeira pessoa por Patrick, o filme apresenta seu protagonista desde seu nascimento - abandonado na porta de uma igreja sem saber a identidade de seus pais - e segue seu caminho rumo à auto-aceitação ou, na pior das hipóteses, às suas raízes. Rejeitado pela família adotiva que não aceita seus trejeitos e interesses femininos, Patrick encontra abrigo, como era de se esperar, junto aos párias ao seu redor, às pessoas que, assim como ele, se escoram em semelhantes para manter a dignidade e o amor-próprio. Fortalecido pela compreensão de seu novo grupo, ele resolve partir em busca de seus pais e, enquanto acaba se envolvendo em ações do IRA, bandas de rock, prisões inglesas e shows eróticos, descobre sua real identidade: Patricia. Logicamente, enquanto não finaliza sua missão, vai acumulando decepções e encontros fortuitos que desafiam seu otimismo e ingenuidade.

Neil Jordan é um cineasta que sabe explorar dramas humanos - ou nem tão humanos assim, haja visto sua bem-sucedida adaptação do best-seller "Entrevista com o vampiro" (1995) - com elegância e sensibilidade. Aproveitando com maestria o tom irônico e iconoclasta do livro de McCabe, constrói, em "Café da manhã em Plutão", uma obra que flerta ao mesmo tempo com a melancolia e o bom-humor. Trata de temas densos - transexualidade, política, igreja - sem pesar a mão e se imprime à narrativa um ritmo ágil que envolve o espectador sem maiores esforços. Utilizando-se de uma trilha sonora pop de primeira qualidade e elementos lúdicos que surpreendentemente não destoam da atmosfera pretensamente séria (mas nunca aborrecida), Jordan cria uma pequena obra-prima, uma pérola delicada e dotada de um humanismo raro, que conquista pela sinceridade que escorre de cada fotograma e pela interpretação precisa de um Cillian Murphy em dias de inspiração absoluta!

domingo

DUNKIRK

DUNKIRK (Dunkirk, 2017, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Emmanuel Delis. Produção executiva: Jake Myers. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Stiles. Estreia: 13/7/17

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Christopher Nolan), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som 

Quando chamou a atenção do público pela primeira vez, ele lançou "Amnésia" (2001), que se tornou um dos maiores sucessos do cinema independente da década. Quando quis fazer um filme de super-herói, assinou a trilogia "O Cavaleiro das Trevas", que rendeu milhares de dólares e elevou o patamar dos filmes baseados em quadrinhos. Quando brincou de ficção científica, arrasou com "A origem" (2010) e "Interestelar" (2014), dois filmes muito acima da média do cinema mainstream feito em Hollywood. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando Christopher Nolan anunciou que faria um filme sobre um dos episódios mais famosos da II Guerra Mundial e chegou com "Dunkirk": realizado com estimados 100 milhões de dólares (um custo razoável para uma produção de grande porte) e sem nenhum astro de primeira grandeza para garantir o retorno do investimento, o filme de Nolan tornou-se mais um fenômeno em sua carreira, ultrapassando a marca dos 500 milhões de dólares em arrecadação mundial - e, de quebra, arrebatou oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Foi a consagração definitiva de uma obra que dosa, com habilidade de mestre, arte e entretenimento, diversão e inteligência, emoção com técnica. Lançado em pleno verão americano - período em que o público notoriamente prefere produções menos sérias e mais populares -, "Dunkirk" mostrou que, às vezes, não subestimar o cérebro da plateia pode dar muito certo.

Fugindo do tradicional formato narrativo, que acompanha um protagonista através de uma trajetória na qual se identificam claramente princípio, meio e fim, o roteiro de Nolan abraça uma outra forma de contar sua história - e que exige muito mais de sua plateia do que simplesmente sentar diante da tela e seguir uma trama. Estruturando o filme em três frentes distintas - ar, mar e terra - e dividindo seu enredo em personagens e tempos diferentes, "Dunkirk" é uma viagem sem trégua, um mergulho radical na sensação mais absoluta de estar em uma guerra. Se em "O resgate do soldado Ryan" (1998) o diretor Steven Spielberg jogava o espectador no meio do desembarque na Normandia (o famoso Dia D) sem maiores preliminares, em seu filme Nolan parece querer expandir ainda mais a experiência, atingindo níveis brutais de realismo, sublinhado pelo formato 70mm (raramente utilizado desde o surgimento de câmeras digitais), pela forte trilha sonora de Hans Zimmer e pelo desenho de som, que intercala momentos milimetricamente concebidos para causar impacto com outros de um silêncio avassalador. Tecnicamente impecável - saiu vitorioso da festa do Oscar nas categorias de edição, edição de som e mixagem de som, estatuetas merecidíssimas - e apresentado sem apelos emocionais, "Dunkirk" é um filme de guerra à moda antiga, mas realizado com todos os recursos que um orçamento generoso e efeitos de última geração podem comprar.



Ainda que não seja mandatório, é bom que se saiba um mínimo de História - mais especificamente sobre a II Guerra Mundial - para melhor se deixar seduzir pela trama de Nolan. O roteiro trata da retirada estratégica (para uns considerada derrota, para outros uma vitória moral) dos exércitos britânico e francês da cidade de Dunkirk, como forma de escapar dos cada vez maiores e mais frequentes ataques alemães, em 1940. A única saída disponível para o soldados era pelo mar, e, em situação de total desvantagem, os ingleses apelaram até mesmo para embarcações civis que pudessem colaborar na evacuação de centenas de homens. É nesse ponto que a trama se concentra em Dawson (Mark Rylance), que, contrariando as ordens superiores, resolve ele mesmo comandar seu barco, ao lado do filho adolescente, Peter (Tom Glyne-Carney), e do amigo deste, George (Barry Keoghan). No trajeto em direção à praia, eles resgatam um misterioso e traumatizado soldado (Cillian Murphy) que entra em pânico ao descobrir que a embarcação está se dirigindo justamente de onde ele fugiu. E se no mar os problemas são uns, por terra eles também não são poucos. Tentando salvar-se de uma morte certa e juntar-se aos demais soldados que aguardam ajuda, o jovem Tommy (Fionn Whitehead) une-se a outros dois colegas, Gisbson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Stiles), e os três passam por uma série de dificuldades inesperadas, que surgem sempre que eles acreditam estar a salvo - e sob a proteção do Comandante Bolton (Kenneth Branagh).

E por fim, também no ar as coisas estão complicadas: depois de perder seu líder, abatido por aviões inimigos, os pilotos Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) enfrentam sérios problemas em defender seus aliados - e desviar de um destino semelhante a seu superior. Quando o avião de Collins cai no mar, ele acaba se tornando parte ainda maior do problema - e o ponto de intersecção entre as três linhas narrativas criadas pelo cineasta. Confiando plenamente no material que tem em mãos, Christopher Nolan apresenta ao público um espetáculo de violência sem que, para isso, seja necessário explicitá-la com vísceras e sangue em excesso. É um filme de imersão, no qual a plateia simplesmente embarca, como em uma montanha-russa das mais emocionantes. Talvez seu único defeito seja justamente optar por um viés menos pessoal e mais amplo do evento - o que diminui o impacto humano que um filme de guerra normalmente abraça e sublinha o barulho, o visual (graças à bela fotografia de Hoyte Van Hoytema) e a falta de noção temporal que um conflito provoca. Nesse ponto, é uma obra-prima incontestável que confirma (mais uma vez) o talento absurdo de seu criador.

quarta-feira

NO CORAÇÃO DO MAR

NO CORAÇÃO DO MAR (In the heart of the sea, 2015, Warner Bros, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Charles Leavitt, estória de Charles Leavitt, Rick Jaffa, Amanda Silver, livro de Nathaniel Philbrick. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Roque Baños. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: David Bergstein, Bruce Berman, Sarah Bradshaw, Erica Huggins, Steven Mnuchin, Palak Patel. Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Joe Roth, Will Willard, Paula Weistein. Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Tom Holland, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Cillian Murphy, Michelle Fairley, Charlotte Riley. Estreia: 02/12/15

Publicado em 1851 e tornado um clássico indiscutível e obrigatório, o romance "Moby Dick" atravessou o tempo como parte do inconsciente coletivo de várias gerações, como prova do gênio de seu autor, Herman Melville, e gerando estudos e discussões a respeito de seu tema e sua linguagem. Adaptado para o cinema - mais notavelmente na produção dirigida por John Huston em 1956 - e frequentemente citado em listas dos melhores livros já escritos, "Moby Dick" tem, por incrível que pareça, inspiração em uma história real, ocorrida em 1820 no Oceano Pacífico. E é essa história verdadeira e quase inacreditável que é narrada em "No coração do mar", primeiro filme do cineasta Ron Howard na Warner - e mais um injusto fracasso comercial na sua carreira, logo depois da fria recepção do público ao excelente "Rush: no limite da emoção" (2014): com uma renda mundial de pouco mais de 93 milhões de dólares, o filme não chegou nem mesmo a cobrir seu orçamento milionário, além de ter sido solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação. Nem mesmo seu maior trunfo (os efeitos visuais caprichados) foi percebido pela Academia ou aplaudido pela crítica. No entanto, é entretenimento de primeira, valorizado pelo bom elenco - liderado pelo carismático Chris Hemsworth - e pelo excepcional desenho de produção.

O roteiro de Charles Leavitt é baseado no livro de Nathaniel Philbrick, que narra a trágica e emocionante aventura do navio Essex e seus tripulantes, já contada em um filme feito pela BBC em 2015 - mas toma a liberdade de inserir na trama o próprio Herman Melville, antes de escrever sua obra-prima e disposto a pagar por informações detalhadas que possam tornar seu próximo romance o mais realista possível. Vivido por Ben Winshaw, o escritor chega até um dos sobreviventes da aventura, o hesitante e quase agressivo Tom Nickerson (Brendan Gleeson), que só aceita relembrar os acontecimentos que presenciou décadas antes mediante o pagamento de um dinheiro que pode lhe pagar dívidas e a comida. Essa introdução - e suas subsequentes inserções no decorrer da ação - pode até contextualizar a trama e servir como seu fio condutor, mas é, de uma certa forma, uma quebra no ritmo que prejudica consideravelmente a fluidez da edição. Mesmo assim, não chega a incomodar tanto a ponto de alienar a atenção do espectador, que, a esta altura, já está totalmente envolvido nas desventuras dos personagens.


A história que Nickerson conta a Melville começa na Nova Inglaterra de 1820, quando ele tinha apenas 14 anos de idade (e o rosto de Tom Holland, o menino que comoveu multidões em "O impossível", de 2012): contratado para trabalhar no Essex, um navio que zarpa com o objetivo de retornar com centenas de litros de óleo de baleia, ele testemunha a rotina dos companheiros de missão com o olhar ingênuo e atento. O que mais lhe chama a atenção, no entanto, é a disputa nem sempre silenciosa entre o experiente Owen Chase (Chris Hemsworth) e o novato George Pollard (Benjamin Walker): escalado como subalterno de Pollard porque este tem origem social mais importante, Chase sente-se diminuído, mas aceita o trabalho com a promessa de ter um retorno profissional que poderá dar estabilidade à sua família. Os conflitos entre os dois, porém, levam a um impasse quando uma gigantesca baleia branca passa a perseguir sua embarcação - e ambos se unem na luta por salvarem suas vidas e eliminar a ameaça que os cerca.

Contando sua história com o máximo de realismo possível, com sequências de ação bem construídas e um elenco escalado com cuidado, "No coração do mar" segue a tendência de Ron Howard em retratar personagens reais em sua filmografia - tendência esta que tem como exemplos os elogiados "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (95) e "Frost/Nixon" (2008) e o premiado "Uma mente brilhante" (2001). Sem descuidar do capricho na construção de seus personagens, no entanto, dessa vez ele aposta mais no visual: os ataques da baleia são esteticamente apurados, e a fotografia do premiado Anthony Dod Mantle (Oscar por "Quem quer ser um milionário?", de 2008) empresta ao filme um tom nostálgico que se reflete nos tons azulados e na constante sensação de ameaça transmitida pela câmera. Diante de tal capricho na ação, resta aos atores pontuar com correção os esforços da produção em apresentar um filme capaz de agradar a qualquer tipo de audiência que busca um entretenimento de qualidade - está longe de ser um filme inesquecível ou brilhante, mas cumpre o que promete e entrega um dos passatempos mais interessantes do gênero. Diversão garantida, apesar do fracasso de bilheteria.

terça-feira

PODER PARANORMAL

PODER PARANORMAL (Red lights, 2012, Millenium Films, 114min) Direção e roteiro: Rodrigo Cortés. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Rodrigo Cortés. Música: Victor Reyes. Figurino: Patricia Monné. Direção de arte/cenários: Antón Laguna/Rob Hepburn. Produção executiva: Cindy Cowan, Irving Cowan, Lisa Wilson. Produção: Rodrigo Cortés, Adrián Guerra. Elenco: Sigourney Weaver, Robert DeNiro, Cillian Murphy, Toby Jones, Elizabeth Olsen, Leonardo Sbaraglia. Estreia: 20/01/12 (Festival de Sundance)

Em 2010, o cineasta espanhol Rodrigo Cortés surpreendeu os fãs de cinema com "Enterrado vivo", um suspense realizado com uns trocados (cerca de 3 milhões de dólares) e que, mesmo sob circunstâncias limitatórias (era passado inteiramente em um exíguo caixão debaixo da terra, conforme o título sugere) revelou um diretor inteligente, criativo e com impecável senso de ritmo. A expectativa em torno de seu projeto seguinte era grande e talvez por isso a recepção a "Poder paranormal" tenha sido tão morna. Afinal, se com apenas um ator medíocre (Ryan Reynolds) em cena o diretor conseguiu realizar milagres, o que ele poderia fazer com gente do quilate de Robert De Niro e Sigourney Weaver no elenco de seu novo filme? O resultado é apenas razoável, para decepção de muitos.

"Poder paranormal" começa muito bem e desenvolve suas personagens com relativa competência. O protagonista é o jovem físico Tom Buckley (Cillian Murphy exibindo sua falta de carisma habitual). Misterioso e calado, ele é o fiel assistente da renomada Margareth Matheson (Sigourney Weaver), psicóloga especializada em desmascarar fraudes em casos de atividades paranormais.O relacionamento pacífico entre os dois começa a sofrer um abalo quando o rapaz insiste que a doutora lhe acompanhe na investigação de Simon Silver (Robert De Niro), um famoso psíquico cego que retorna à ribalta trinta anos depois de ter se afastado da fama. Acontece que, ao mesmo tempo em que Tom vê na busca pela verdade a respeito de Silver uma forma de fazer as pazes consigo mesmo (graças a um passado que ele insiste em esconder), Margareth tem seus motivos para evitar o confronto com o veterano paranormal.


Cortés tem a felicidade de manter seu suspense em um nível de inteligência acima da média, concentrando-se em diálogos interessantes e em um clima de constante tensão. Os sustos, quando acontecem, chegam nas horas certas e os atores estão particularmente afiados, ainda que mais uma vez De Niro não seja aproveitado como pode. Porém, quando chega perto do final, o cineasta parece ter cedido à tentação de extrapolar os limites da sutileza, em um clímax barulhento e exagerado que mais decepciona do que empolga. A revelação final - com direito a um flashback desnecessário que subestima o poder de inteligência da plateia - carece de impacto, mas faz sentido diante do conjunto. E não deixa de ser uma agradável surpresa rever o ator argentino Leonardo Sbaraglia como um falso médium, em uma atuação hipnotizante que contrasta com a apatia do protagonista Cillian Murphy.

Levando-se em consideração que filmes de suspense para adultos são produtos cada vez mais raros em Hollywood, "Poder paranormal" é um oásis. Nunca ultrapassa as expectativas, tornando-se uma opção mais interessante que genial, mas apresenta mais qualidades que defeitos. Os fãs do gênero não vão ter do que se queixar.

quinta-feira

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

sexta-feira

A ORIGEM

A ORIGEM (Inception, 2010, Warner Bros, 148min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias, Doug Mowat. Produção executiva: Chris Brigham, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cottilard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Michael Caine, Pete Postlewhaite, Tom Berenger, Cillian Murphy. Estreia: 08/7/10

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais 

Ser sequestrado por um filme e levado para um mundo à parte, como se estivesse sendo hipnotizado é uma experiência das mais raras, especialmente em um panorama comercial como o de Hollywood, que insiste em empurrar uma dieta anêmica de bobagens para consumo rápido e esquecível. Por isso - além de suas qualidades intrínsecas, logicamente - foi um susto quando "A origem" chegou aos cinemas americanos e mundiais na metade de 2010. Dirigido por Christopher Nolan - que ressuscitou a franquia "Batman" de forma assombrosa em termos de bilheteria e inteligência - o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e um elenco de sonhos é uma das mais impressionantes manifestações cinematográficas saídas de Hollywood desde sempre, capaz de dar um nó na cabeça até mesmo do mais perspicaz dos espectadores e surpreendê-los com um final não apenas emocionante, mas também coerente e de uma inteligência rara no cinema mainstream.

O próprio Nolan é o roteirista de "A origem" - e levando-se em conta que ele também criou "Amnésia" em 2001 e "O grande truque" em 2006, dá pra perceber que o sujeito tem fetiche em confundir a mente da plateia. Nesse seu mais ambicioso e arriscado filme ele criou um universo tão, mas tão surreal que só resta ao público embarcar sem cinto de segurança em uma trama fascinante que mistura cenas de ação inacreditáveis, uma história de amor realmente comovente e um clima abstrato de dar inveja a David Lynch - porém sem as bizarrices psicológicas do pai de Laura Palmer.


A história de "A origem" é difícil de resumir. Basicamente, pode-se dizer, sem estragar as surpresas do impecável roteiro, que DiCaprio (que não ajuda nem atrapalha) interpreta um profissional que vive de invadir os sonhos das pessoas para roubar-lhes os segredos mais íntimos. Impedido de entrar nos EUA devido a trágicos acontecimentos passados que envolvem sua esposa (a sempre bela e ótima atriz Marion Cottilard), ele cede à tentação de desafiar a si mesmo e ir além do corriqueiro, plantando na mente de um empresário ideias que favorecerão seu rival profissional. Contando com a ajuda de uma equipe talentosa e bem treinada, ele entra no perigoso terreno dos sonhos dentro dos sonhos.

Mesmo com toda a complexidade do roteiro e com a sua acertada opção em não fazer concessões ao mais fácil - o que em tese poderia afastar o público médio das salas de exibição - "A origem" surpreendeu com uma bilheteria de quase 300 milhões de dólares somente no mercado doméstico, o que prova que às vezes a plateia sabe escolher seus programas. Sua excelência também refletiu-se junto à Academia, que lhe indicou a oito estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme do ano - inexplicavelmente deixou Nolan de fora na categoria de diretor e Lee Smith  na de edição. Porém, mostrando o quão obtusos seus votantes podem ser, o prêmio ficou com o intragável "O discurso do rei" - que em poucos anos será lembrado apenas como o amontoado de clichês que tirou o Oscar de "A origem" e "A rede social".

Sim, "A origem" é complexo. Sim, é uma viagem total. Sim, é necessária uma atenção total. Mas vale a pena cada minuto. É também criativo, diferente, empolgante. E é sem dúvida o melhor filme de 2010.

segunda-feira

BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS

 BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS (The dark knight, 2008, Warner Bros, 152min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens de Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção executiva: Kevin de La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Aaron Eckhart, Michael Caine, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall. Estreia: 14/7/08

8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger) 

Em 2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como "Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da história. Nada mais justo e merecido!

Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).


Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.

E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.

Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.

terça-feira

BATMAN BEGINS

BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.

Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.



Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.

"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...