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sexta-feira

BESAME MUCHO


BESAME MUCHO (Besame mucho, 1987, Francisco Ramalho Júnior Filmes/HB Filmes, 108min) Direção: Francisco Ramalho Jr.. Roteiro: Francisco Ramalho Jr.,Mário Prata, peça teatral de Mário Prata. Fotografia: José Tadeu Ribeiro. Montagem: Mauro Alice. Música: Wagner Tiso. Figurino: Domingos Fuschini. Direção de arte/cenários: Marcos Weinstock. Produção: Hector Babenco, Francisco Ramalho Jr.. Elenco: Antônio Fagundes, José Wilker, Christiane Torloni, Glória Pires, Giulia Gam, Paulo Betti, Isabel Ribeiro. Estreia: 13/8/87

Montada pela primeira vez em 1982 nos palcos de São Paulo - e no ano seguinte no Rio de Janeiro -, a peça teatral "Besame mucho", de Mário Prata, não demorou a chegar às telas de cinema. Adaptada pelo cineasta Francisco Ramalho Jr e pelo próprio Prata, a história com traços autobiográficos estreou em agosto de 1987, embalada pelos prêmios (roteiro e figurino) do Festival de Gramado e pela popularidade de seu elenco principal, formado por astros globais. Com um texto nostálgico e uma produção caprichada, acabou por se tornar um dos filmes nacionais mais queridos de sua temporada - apesar de raramente ser lembrado pela crítica ou até mesmo pelo público em listas de principais produções do cinema brasileiro, deixa a sensação, após os créditos finais, de um passatempo inofensivo dos mais agradáveis.

A trama criada por Prata não é das mais originais: ao acompanhar a trajetória de dois casais de amigos durante vinte anos, o dramaturgo não chega a aprofundar psicologicamente seus personagens nem tampouco apelar para reviravoltas dramáticas que possam provocar grandes catarses. Porém, é na sua estrutura que a peça (e o filme, acertadamente fiel) surpreende: ao começar a ação no final dos anos 1980 e regredindo até o fatídico 1964, o roteiro substitui a pergunta clássica "o que vai acontecer?" pela menos óbvia "como eles chegaram até esse ponto?". Dessa forma, Prata desnuda idiossincrasias, hipocrisias e inseguranças de seus protagonistas com um acento cômico que permite ao público envolver-se com o enredo sem questionar suas possíveis falhas. Além disso, aproveita para apontar, com inteligência, a mudança dos comportamentos sociais e políticos do país durante um de seus períodos mais críticos através de personagens que, de uma maneira ou outra, são afetados por tais transformações. 

 

Quando o filme começa, Xico (José Wilker) e Olga (Glória Pires) estão se divorciando, depois de uma crise longa e desgastante. Ele é um premiado autor de teatro, mas sem que ninguém saiba, sua principal peça, "Besame mucho", foi escrita, na verdade, por sua mulher - que, na juventude, passou da alienação política a um auto-exílio durante a ditadura militar. Em sentido oposto, o quase idealista Tuca (Antônio Fagundes) tornou-se um empresário de sucesso, crescendo financeiramente em sua cidadezinha natal ao lado da mulher, Dina (Christiane Torloni), que abandonou a rigidez moral da adolescência para embarcar em uma série de fantasias eróticas com o marido, como forma de enterrar um passado de frustrações sexuais. A partir desse primeiro momento, o filme começa a regredir cronologicamente e apresentar os dois casais na construção de seus relacionamentos, suas carreiras e vidas sentimentais - até chegar ao tenebroso 31 de março de 1964, data em que suas próprias relações interpessoais também chegam a um impasse - o primeiro de muitos que ainda lhes atormentariam a existência.

Se o texto de Mário Prata parece mais apropriado ao palco do que às telas de cinema - uma linguagem mais direta e simples que nem sempre se conecta perfeitamente à sua adaptação -, a direção de Francisco Ramalho Jr. explora com precisão seu maior trunfo: o elenco. Aproveitando-se do tom mais leve de seus personagens, Antônio Fagundes e Christiane Torloni brilham com uma química previamente testada na televisão (e que voltariam a repetir em trabalhos futuros). José Wilker e Glória Pires, vivendo um casal com mais nuances dramáticas, brincam sem medo com todas as incoerências de Xico e Olga, provavelmente os mais alterados pela dinâmica da sociedade e da vida de uma cidade grande. Entre os coadjuvantes, Paulo Betti e Giulia Gam quase roubam a cena com momentos de humor equilibrado entre o ingênuo e o picante. Soma-se a isso a percepção triste de que o Brasil de 1964 não está tão distante assim do Brasil de 2022 - com a sombra folclórica de uma ameaça comunista que só existia (e existe) na paranoia da direita. É essa pitada de ironia (involuntária, uma vez que a peça estreou quando havia a ilusão de que o passado já estava enterrado de vez) que faz com que "Besame mucho" deixe de ser apenas uma comédia dramática sobre a imaturidade masculina e a evolução (ou não) da sociedade e se torne quase um lembrete de quão cíclicas são as mudanças no mundo.

terça-feira

O HOMEM DO ANO


O HOMEM DO ANO (O homem do ano, 2003, Conspiração Filmes/Warner Bros, 105min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Rubem Fonseca, livro "O matador", de Patrícia Melo. Fotografia: Breno Silveira. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Dado Villa-lobos. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Kiti Duarte/Toni Vanzolini. Produção executiva: Beto Bruno. Produção: José Henrique Fonseca, Leonardo Monteiro de Barros, Flávio R. Tambelini. Elenco: Murilo Benício, Cláudia Abreu, Natália Lage, Paulo César Pereio, José Wilker, Agildo Ribeiro, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Amir Haddad, Mariana Ximenes, André Gonçalves, Perfeito Fortuna, Moska, Marilu Bueno. Estreia: 11/4/2003 (Festival de Cognac)

Não fosse o talento indiscutível dos envolvidos,"O homem do ano" poderia facilmente ser confundido com uma reunião de família: o roteiro é do celebrado escritor Rubem Fonseca, que é pai do diretor, José Henrique Fonseca, que por sua vez, é casado com Cláudia Abreu, dona de um dos principais papéis femininos. Basta assistir-se ao filme, porém, para constatar que este feliz encontro artístico apenas valoriza o resultado final, uma trama policial recheada de ironia que envolve o espectador em uma teia de situações quase surreais pelas quais passa o protagonista, um homem comum alçado à condição de herói do dia para a noite. Interpretado por Murilo Benício - perfeito em sua composição quase calada e por vezes atônita -, o lacônico Maiquel é criação da escritora Patrícia Melo em seu livro "O matador", e em sua encarnação cinematográfica é, sem favor, um dos personagens mais interessantes do cinema brasileiro do começo dos anos 2000.

"O homem do ano" se passa no Rio de Janeiro longe dos cartões-postais e apresenta, ao invés de corpos dourados de sol e um clima bossa-nova, um universo claustrofóbico, no qual a violência é tão comum quanto um jogo de sinuca e quaisquer mal-entendidos pode resultar em tragédia. É mais ou menos o que acontece com Maiquel, um jovem introspectivo que tem sua vida virada de cabeça para baixo por um motivo mais que banal: depois de perder uma aposta e ser obrigado a pintar o cabelo de loiro, ele entra em conflito com Suel (Wagner Moura em um papel pequeno mas marcante), um dos clientes do bar que frequenta e, antes que possa mudar de ideia, acaba matando o rapaz diante da namorada dele, Érica (Natália Lage, ótima em um papel bastante complexo). Ao contrário do que imaginava, no entanto, ele não é preso, e sim transformado em um benfeitor pela comunidade, que sofria nas mãos da vítima, um bandido pé-de-chinelo que amedrontava a vizinhança. Se não bastasse as homenagens que começa a receber dos vizinhos, Maiquel é procurado por um grupo de homens endinheirados que lhe propõem um alto pagamento em troca de seu trabalho em eliminar toda e qualquer ameaça à segurança de seus bens. 

 A princípio hesitante em aceitar essa nova incumbência, Maiquel acaba por tornar-se o homem de confiança dos empresários, com todo o respeito que a função possibilita. E se não fosse o bastante, Érica reaparece em sua vida, exigindo que ele a proteja depois da morte de seu amante - um problema que atrapalha os planos de Maiquel de ter uma vida relativamente normal com Cledir (Cláudia Abreu), com quem se casa e começa uma família. Dividido entre as duas mulheres, Maiquel se torna a pedra no caminho de bandidos profissionais, que iniciam uma série de represálias para impedi-lo de continuar sua carreira de matador. Eleito homem do ano pelo grupo que lhe paga - e bem-visto pela comunidade onde mora -, o outrora pacífico rapaz se vê cada vez mais afundado em uma vida regida pela violência e pela paranoia, em que nem mesmo seu suíno de estimação parece estar a salvo. De modo inacreditável, Maiquel, mesmo que pareça dono do seu destino, se sente impotente em acabar com sua nova rotina, preso entre duas mulheres e um trabalho que lhe dá prestígio e dinheiro - mas não a paz de espírito que ele almeja.

A ironia que permeia "O homem do ano" é, sem dúvida, um dos pontos altos do roteiro do veterano Rubem Fonseca, que mantém o estilo direto e seco de Patrícia Melo sem abrir mão de suas particularidades como autor. Seu texto é abrilhantado pelo elenco - Murilo Benício e Natália Lage à frente. e veteranos como Jorge Dória, José Wilker e Agildo Ribeiro como coadjuvantes de luxo - e pela direção inteligente de José Henrique, que conduz a trama com perfeito equilíbrio entre a tensão e o humor quase sombrio. Comparado por alguns críticos ao excepcional "Cidade de Deus" (2002), "O homem do ano" tem como similar apenas a ambientação e o tom realista - ainda que em seu filme Fonseca não se aprofunde em questões sociais ou na violência gráfica. A sutileza do cineasta em evitar, sempre que possível, a sanguinolência explícita, empurra o filme para características dramáticas das mais interessantes - e embora nem sempre tente analisá-las sob um viés psicológico, se aproveita delas para criar uma obra com características únicas, que se sustenta sozinha mesmo dentro um gênero com suas próprias regras. Pelo conjunto de qualidades que apresenta, "O homem do ano" é uma produção que não teve a atenção merecida quando chegou às telas. Nunca é tarde, porém, para reparar uma injustiça!

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (Dona Flor e seus dois maridos, 1976, LC Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Bruno Barreto, Eduardo Coutinho, Leopoldo Serran, romance de Jorge Amado. Fotografia: Murilo Salles. Montagem: Raimundo Higino. Música: Chico Buarque, Francis Hime. Figurino: Anísio Medeiros. Direção de arte: Anisio Medeiros. Produção: Luiz Carlos Barreto, Newton Rique. Elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça, Nelson Xavier, Nelson Dantas, Dinorah Brillanti, Francisco Dantas, Hélio Ary. Estreia: 22/11/76

Não há melhor palavra para descrever "Dona Flor e seus dois maridos", a adaptação do romance de Jorge Amado para as telas de cinema, lançada em 1976, do que fenômeno: estrelado por Sônia Braga no auge da beleza e sensualidade, o filme estabeleceu de cara dois recordes que só foram quebrados décadas mais tarde. Não foi apenas a produção nacional mais vista no país por mais de trinta anos - suplantada apenas por "Tropa de elite 2" (2010) - como também foi, por mais de vinte anos, o maior sucesso de público entre os espectadores brasileiros - só perdeu o posto quando "Titanic", de James Cameron, atracou nas salas de exibição em 1998. Não bastasse o indiscutível sucesso popular, o filme de Bruno Barreto (que tinha inacreditáveis 19 anos de idade durante as filmagens e já estava em seu terceiro longa) conquistou também a crítica internacional - concorreu ao Golden Globe de melhor filme estrangeiro e deu à Sônia uma indicação ao BAFTA de revelação do ano - a crítica brasileira - levou dois prêmios no Festival de Gramado - e os produtores de Hollywood - que seis anos mais tarde lançaram um remake pouco inspirado, chamado "Meu adorável fantasma", estrelado por Sally Field, James Caan e Jeff Bridges. Sua permanência no inconsciente coletivo nacional é tão notável que nem a adaptação em forma de minissérie, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini, ou a refilmagem, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum, conseguiram apagar da memória do público algumas das cenas mais marcantes do cinema nacional.

A figura de Sônia Braga saindo da missa dominical de braços dados com os dois maridos (um deles nu em pelo) é, sem favor, uma das sequências mais inesquecíveis produzidas pelos cineastas brasileiros - talvez não tão poderosa quanto aquelas concebidas por Glauber Rocha em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", mas igualmente icônica. O irônico é que, durante as filmagens, ninguém poderia imaginar o quão longe o filme iria em sua trajetória - uma trajetória fundamental para fortalecer o nome de Sônia Braga e Bruno Barreto no exterior. Sônia, que acabava de fazer outra heroína de Jorge Amado na televisão - a Gabriela Cravo e Canela que ela voltaria a encarnar no cinema, ao lado de Marcello Mastroianni e novamente dirigida por Barreto -, em poucos anos deixaria o Brasil para tentar uma carreira internacional, enquanto o cineasta também buscaria o reconhecimento mundial e se casaria com a atriz Amy Irving - ex de ninguém menos que Steven Spielberg. Lançado quase uma década depois da publicação do romance original, que já havia sido traduzido para o mercado norte-americano em 1969, "Dona Flor e seus dois maridos" pegava carona na estética das pornochanchadas que mantinham o público do cinema brasileiro, mas apresentava uma sofisticação inédita: o roteiro bem-humorado e sensual de Leopoldo Serran e do documentarista Eduardo Coutinho, a música de Chico Buarque e Francis Hime (cantada por Simone, em início de carreira), as caracterizações detalhistas e o trabalho primoroso de direção imediatamente o colocava muitos níveis acima do que era feito no país, à época. E, de carona com o carisma radiante de Sônia, o produtor Luiz Carlos Barreto entrou para a história da cultura tupiniquim.


Se é que alguém ainda não conhece a trama, ela se passa na Salvador dos anos 40, e é protagonizada pela jovem Flor (Sônia Braga), uma professora de culinária que vive um casamento atribulado com o mulherengo e irresponsável Vadinho (José Wilker) - ele não apenas não trabalha como ainda tira dinheiro da mulher para apostar e pagar farras homéricas com os amigos e prostitutas. Apesar disso, e de sofrer violência física do marido, Flor é apaixonada por ele, com quem vive uma história de muita paixão e desejo físico. De repente, de uma hora para outra, Vadinho morre do coração durante o Carnaval, deixando sua viúva inconsolável, seus amigos devastados e o mulherio baiano de luto. Alguns anos depois, Flor passa a ser cortejada por Teodoro (Mauro Mendonça), um farmacêutico respeitado, financeiramente estabilizado e dono de uma maturidade a qualquer prova. Incentivada pela mãe, Flor aceita se casar novamente, mas não demora para perceber que, apesar de lhe oferecer uma vida pacata e sem sobressaltos, Teodoro é incapaz de lhe prover o fogo com que Vadinho sempre a preencheu. Um tanto desiludida com essa conclusão, Flor passa a suspirar de saudades do falecido marido - que, para sua surpresa, volta a lhe aparecer como fantasma e exigir seus direitos matrimoniais.

Contada em tom de humor debochado e brejeiro, a história de "Dona Flor e seus dois maridos" encontra os intérpretes ideais em Sônia, Wilker e Mauro Mendonça. Como os dois lados da mesma moeda, os homens da relação oferecem à protagonista feminina (e, até por um lado, feminista, ao não abrir mão do que deseja) a estabilidade e a paixão, o apolíneo e o dionisíaco, o céu e o inferno. Lançado em meio à ditadura militar, o filme obviamente teve cenas cortadas em seu lançamento, mas isso não o impediu de ganhar o apoio massivo do público e transformar um projeto ambicioso (o mais caro até então em produção nacional) em um êxito indiscutível. Visto com olhos atuais, tem alguns pequenos problemas (o visual datado, o ritmo claudicante em determinado momento), mas, no geral, é um filme que merece o sucesso que fez - e ainda faz. Ilustrado pela belíssima música de Chico Buarque, é um marco indelével na cultura popular brasileira - e o trabalho definitivo de Sônia Braga em seu caminho ao sucesso mundial.

domingo

GUERRA DE CANUDOS

GUERRA DE CANUDOS (Guerra de Canudos, 1997, Columbia Pictures Television Trading Company/Riofilme, 170min) Direção: Sergio Rezende. Roteiro: Paulo Halm, Sergio Rezende. Fotografia: Antonio Luiz Mendes. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Edu Lobo. Figurino: Beth Filipecki. Direção de arte: Claudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Mariza Figueiredo. Produção: Mariza Leão. Elenco: José Wilker, Cláudia Abreu, Paulo Betti, Marieta Severo, José de Abreu, Selton Mello, Tuca Andrada, Tonico Pereira, Dandara Guerra, Orlando Vieira, Roberto Bomtempo, Camilo Bevilaqua, Ernani Moraes. Estreia: 03/10/97

Com exceção do clássico "Deus e o Diabo na Terra do Sol", do cultuado Glauber Rocha, o cinema nacional sempre ignorou um dos maiores conflitos históricos do país, a guerra de Canudos - basicamente um confronto entre o exército brasileiro e um grupo de sertanejos contrários à República que terminou no massacre de mais de 20.000 revolucionários em 1897. Tema do livro "Os sertões", de Euclides da Cunha, a batalha, que desmoralizou as tropas do governo e consagrou indelevelmente o nome de seu líder, Antonio Conselheiro, como um dos mais importantes da história do Brasil, levou exatamente um século para chegar às telas em uma produção do tamanho que merecia. Orçado em 6 milhões de dólares - uma fortuna para o ainda cambaleante cinema comercial nacional de 1997 - "Guerra de Canudos", de Sérgio Rezende, levou quatro anos para ser finalizado e chegou às telas com o estardalhaço esperado de uma superprodução estrelada por atores globais. O resultado final, porém, ficou a desejar, se equilibrando sem muita necessidade entre dramas pessoais de personagens fictícios e sequências de batalhas campais vergonhosamente pobres. Salva-se, porém, a excelência dos atores, que conseguem dar humanidade e veracidade até mesmo quando tem pouco material que lhes ajude na missão.

Cineasta de grande talento e inteligência, Sérgio Rezende tem no currículo filmes que ajudam a esclarecer a história do Brasil através de personagens marcantes, como o deputado Tenório Cavalcanti de "O homem da capa preta" e um dos guerrilheiros mais conhecidos da época da ditadura militar em "Lamarca" - sintomaticamente estrelados por dois dos atores principais de "A Guerra de Canudos", José Wilker e Paulo Betti. A Wilker coube o papel mais difícil, o líder messiânico Antonio Conselheiro, que pregava o fim da República e a volta da monarquia, conseguindo com isso - e com o dom da oratória - arrebanhar milhares de seguidores fieis que fundaram, com ele, a cidade que dá nome ao filme, localizada no interior da Bahia. Betti vive Zé Lucena, um sertanejo simples e trabalhador que se revolta com a cobrança abusiva de impostos por parte do governo e parte com o grupo de Conselheiro, levando consigo a esposa, Penha (Marieta Severo, sensacional) e os dois filhos caçulas. Fica para trás apenas a filha mais velha, Luiza (Cláudia Abreu), que não aceita acompanhá-los e parte sozinha em busca de uma vida melhor. A partir dessa separação é que a trama do filme se sustenta. De um lado, a plateia testemunha as artimanhas do Exército em exterminar os inimigos de seu regime, cada vez mais ferozes e determinados. De outro, assiste à trajetória de Luíza em sobreviver em um mundo hostil à independência feminina, se entregando à prostituição e posteriormente ao envolvimento com dois homens contrários a Canudos: o ex-soldado Arimateia (Tuca Andrada) e o Tenente Luís (Selton Mello).


Essa opção do roteiro em dividir seu foco para melhor seduzir a plateia acaba sendo bastante prejudicial às pretensões de "Guerra de Canudos" em ser um grande filme. Toda vez que a trama se desvia dos conflitos históricos para acompanhar o sofrimento de Luíza fica a impressão nítida de um artifício questionável para conquistar o público acostumado às telenovelas globais. Além de roubar preciosos minutos de projeção - que elevam a duração do filme para intermináveis duas horas e cinquenta minutos - a subtrama não acrescenta nada ao conflito central, a não ser que se considere imprescindível a discussão de Luíza com seu pai perto do clímax, uma cena que é memorável unicamente devido à garra de Cláudia, uma atriz capaz de tirar leite de pedra - ou que alguém ache que era essencial ao roteiro um reencontro da personagem com Antonio Conselheiro, tratado por Wilker e Rezende mais como um personagem à beira da caricatura do que pelo homem mitológico que na verdade ele foi. Repetindo sem cansar todos os trejeitos de seus personagens anteriores, o veterano ator não consegue dar a dimensão espiritual e inspiradora de Conselheiro, transformando-o quase em um velho desequilibrado e bufão - o que tira muito do peso e da força da história em si.

Também é um problema grave a forma como são tratadas no filme as batalhas travadas entre os dois exércitos. Mesmo com um orçamento relativamente generoso, elas soam constrangedoramente precárias, mal coreografadas e filmadas quase com displicência. Em momento algum do filme se consegue imaginar que o número de baixas de ambos os lados chegou a mais de vinte mil homens: a direção de arte dá a impressão de que Canudos era apenas um vilarejo com algumas centenas de habitantes, o que está bastante longe da verdade, e os figurantes - sempre uma pedra no sapato dos filmes brasileiros - são nunca aquém de vergonhosos, escalados nas regiões das filmagens para parecerem legítimos. Nesse ponto, o filme é um passo atrás em relação ao cuidado mostrado em "Lamarca", que apresentava uma consistência artística e técnica de primeiro nível.

Mas então "A Guerra de Canudos" é um lixo? Não, claro que não. Jamais um filme com intenções tão nobres - retratar um período que a maior parte da população conhece somente através de livros didáticos - pode ser considerado perda de tempo, por mais desnecessariamente longo que seja. A obra de Sérgio Rezende conta a história com todos os detalhes que se pode utilizar sem aborrecer o público como uma aula sem ritmo e tenta fisgar o espectador com um romance que, se é questionável do ponto artístico, talvez funcione para amaciar a resistência do público médio a uma trama que lhe pode soar como aborrecida. Esse mérito é inegável, assim como a atuação de seus atores - com a possível exceção dos exageros de José Wilker - e o respeito pela história real. Um pouco menos de ambição e mais de parcimônia poderia ter-nos legado uma obra-prima. Como está, é interessante, mas um tanto quanto aquém de suas possibilidades.

sexta-feira

ROMANCE

ROMANCE (Romance, 2008, Globo Filmes/Natasha Filmes, 105min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Jorge Furtado. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Gustavo Giani. Música: Caetano Veloso. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Diogo Dahl. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Bruno Garcia. Estreia: 14/11/08

Um dos diretores mais respeitados do Brasil, com sucessos acumulados na TV ("A comédia da vida privada", "TV Pirata") e no cinema ("O Auto da Compadecida", "Lisbela e o prisioneiro"), Guel Arraes sempre pautou sua carreira cinematográfica voltando o olhar para o nordeste brasileiro e suas lendas e costumes. Em seu quarto longa-metragem, porém, ele resolveu mudar o tom de seus trabalhos anteriores e falar de amor. Com um registro bem mais próximo de sua experiência na televisão do que em seus bem-sucedidos trabalhos regionais mostrados na telona, ele lançou, em 2008, a comédia romântica "Romance", que escreveu em parceria com o também cineasta Jorge Furtado. Ao contrário do que se poderia esperar, porém, o filme não alcançou o êxito merecido, ficando relegado a um segundo plano na carreira do diretor. Injustiça que fica evidente quando se percebe a inteligência do roteiro, a delicadeza das interpretações do elenco excepcional e a fina ironia que permeia a história de amor entre dois atores que veem suas vidas transformadas pelo sucesso profissional.

Pedro (Wagner Moura em tom romântico a anos-luz de distância do Capitão Nascimento de "Tropa de elite") é um ator e diretor de teatro idealista, que acredita na superioridade do palco em relação à televisão. Durante os ensaios de sua nova peça, uma montagem de "Tristão & Isolda", ele se apaixona por sua colega de cena, Ana (Letícia Sabatella, excelente em todas as fases de sua personagem), que não tem as mesmas regras rígidas em relação à sua profissão. O romance idílico entre eles entra em crise quando Ana aceita fazer uma novela, traindo os ideais do namorado. Separados, eles seguem suas carreiras mas voltam a se encontrar quando ela sugere que ele seja o diretor de um especial de fim de ano da emissora onde ela trabalha. Mantendo-se fiel ao que acredita, Pedro aceita o trabalho, mas resolve criar uma versão de "Tristão & Isolda" no sertão nordestino, para desespero do executivo Danilo (José Wilker). Durante as filmagens, Ana e Pedro voltam a se aproximar, mas encontram dificuldades em retomar o romance graças a Orlando (Vladimir Brichta) - ator coadjuvante que se apaixona por ela - e Fernanda (Andréa Beltrão), assistente de Ana responsável pela escolha de Orlando para o elenco.


Mergulhando nos bastidores do mundo do teatro e da televisão, Guel Arraes mostra com desenvoltura o funcionamento de dois universos tão semelhantes quanto distantes. Através do idealismo de Pedro, o roteiro discute as dificuldades que o teatro tem de manter-se puro e independente do apelo da televisão - capaz de transformar uma atriz em estrela sem ao menos saber de seu real talento. Pela ótica de Ana, é possível perceber o preconceito nada velado em relação aos artistas que buscam o reconhecimento e o sucesso financeiro e profissional dividindo sua carreira entre o palco e os sets de gravação. Apesar de claramente demonstrar mais simpatia pelo modo ético de Pedro, o cineasta jamais impõe uma verdade universal, preferindo apostar na inteligência do público, que, em meio a isso, se diverte com alguns diálogos impagáveis - em especial quando entra em cena o ator/estrela Rodolfo (Marco Nanini, mais uma vez sensacional) - e algumas passagens lindamente românticas, que apresenta uma química perfeita entre Wagner Moura (cada vez melhor ator) e Letícia Sabatella (deslumbrante e com ótimo timing). Não bastasse tudo isso, os roteiristas ainda encontraram um jeito de contar sua história de forma a citar outros clássicos do teatro - como "Cyrano de Bergerac" - sem que o artifício soe um truque barato ou demonstração estéril de eruditismo.

Engraçado, sutil e exalando paixão, "Romance" peca apenas por parecer demais com um especial de televisão, armadilha da qual Guel sempre conseguiu escapar em seus trabalhos anteriores. Afora isso, é uma delícia de se assistir, repleto de momentos de grande inspiração e dono de um final criativo e capaz de estampar um sorriso no rosto da plateia. Os detratores não souberam entender e os que perderam sempre tem a chance de reparar o erro.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...