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quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

quinta-feira

STAN & OLLIE

STAN & OLLIE (Stan & Ollie, 2018, BBC Films, 98min) Direção: Jon S. Baird. Roteiro: Jeff Pope, livro "Laurel and Hardy: the British tours", de 'A.J.' Mariot. Fotografia: Laurie Rose. Montagem: Úna Ní Dhonghaile, Billy Sneddon. Música: Rolfe Kent. Figurino: Guy Speranza. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Claudia Parker. Produção executiva: Kate Fasulo, Christine Langan, Xavier Marchand, Nichola Martin, Joe Oppenheimer, Jeff Pope, Eugenio Perez, Gabrielle Tana. Produção: Faye Ward. Elenco: Steve Coogan, John C. Reilly, Danny Huston, Shirley Henderson, Nina Arianda, Rufus Jones. Estreia: 21/10/18 (Festival de Londres)

Fenômenos do humor, Stan Laurel e Oliver Hardy ficaram internacionalmente conhecidos como O Gordo e o Magro, uma das duplas mais queridas e longevas do show business. Tornados famosos principalmente pelo cinema - que possibilitou que sua imagem viajasse pelo mundo inteiro, sempre com grande êxito -, eles não foram poupados de uma brutal queda de interesse a partir da década de 40, quando novos nomes do humor disputavam a atenção das plateias. Encarando sérias dúvidas sobre seu futuro como artistas, eles aceitaram, então, fazer uma turnê por teatros da Inglaterra - enquanto preparavam sua volta triunfal à sétima arte. Esse período da carreira dos dois astros foi o recorte escolhido pelo diretor Jon S. Baird para "Stan & Ollie", uma das cinebiografias mais subestimadas dos últimos anos. Engraçada, emocionante e sensível, além de realizada com extremo capricho na reconstituição de números da dupla, a produção não chamou a atenção nas bilheterias e foi praticamente ignorado nas cerimônias de premiação mais importantes da temporada. Quem deixar essas injustiças de lado, porém, terá a oportunidade de se deliciar com belos momentos de um humor nostálgico e puro - e ficar com o coração apertado com algumas sequências de emocionar o mais insensível espectador.

Diretor pouco conhecido e sem muitos títulos no currículo - talvez o mais conhecido seja "Filth", baseado em romance de Irvine Welsh e estrelado por James McAvoy -, Jon S. Baird mostra uma competência ímpar em recriar momentos icônicos de seus protagonistas (nos palcos e nas telas). Inspirado em livro de A.J. Mariot - que fala justamente sobre as viagens da dupla em sua turnê britânica - e amparado nas atuações excepcionais de Steve Coogan e John C. Reilly, que dão corpo e alma a seus personagens com uma dedicação comovente. Longe de um simples mimetismos, seus  desempenhos são exemplares, imbuídos de sentimento e personalidade. Reilly chegou a ser indicado ao Golden Globe e foi premiado pelos críticos de Boston, enquanto Coogan concorreu ao BAFTA., mas nenhum deles foi lembrado pela Academia - que esqueceu até mesmo do genial trabalho de maquiagem, que complementa as caracterizações de forma perfeita e sutil, e a trilha sonora de Rolfe Kent, que evoca o período histórico com precisão e delicadeza, além de mergulhar a plateia em uma viagem saudosista das mais competentes.





O roteiro de Jeff Pope - que coescreveu "Philomena" (2013) com Steve Coogan e foi indicado ao Oscar por isto - é o equilíbrio perfeito entre o retrato dos bastidores do cinema e do teatro dos anos 50 e a descrição do relacionamento pessoal e profissional de seus protagonistas. Fica claro desde o início que Laurel (Steve Coogan, perfeito nos mínimos detalhes) é o cérebro por trás da dupla, criando cenas, estórias e situações que possam ser utilizadas em seus filmes, enquanto Hardy (John C. Reilly, feito sob medida para o papel) assume o lado lúdico e sentimental da dupla - também fora das câmeras. É Laurel quem lida com o lado mundano de suas carreiras, lidando com produtores e financiadores pouco afeitos à arte e muito mais interessados em dinheiro, e à Hardy cabe uma figura mais dócil e afável - uma diferença que, além de atritos, de certa forma os levaram ao declínio. O filme não se furta a mostrar as dificuldades dos dois em sua tentativa de ressuscitar os áureos tempos, mas o faz com leveza e alto astral, evitando o sentimentalismo exagerado. Também encontra espaço para jogar luz em seus casamentos e dar a suas esposas o devido reconhecimento por seu sucesso - e o faz criando personagens complexos e multidimensionais, o que é bastante raro quando se percebe o quanto os coadjuvantes sofrem em mãos de roteiristas pouco generosos.

Os problemas de saúde de Hardy também são outro foco da trama. Em meio à excursão, ele vê ameaçada a sua possibilidade de continuar trabalhando - e, por consequência, ver seu retorno às telas sumir diante de seus olhos. São os momentos mais emocionantes do filme, quando Baird demonstra seu controle sobre seu material: ao invés de explorar sentimentalmente a situação, com música dramática e lágrimas fáceis, ele opta pelo caminho mais inteligente e conquista o público com cenas do mais puro lirismo do cinema cômico que deu fama à dupla de protagonistas. São as recriações de algumas dessas memoráveis sequências, aliás, que dão um molho extra ao filme. Assim como o fazia Chaplin, O Gordo e O Magro extraía humor das situações mais simples e banais, sem apelar para a vulgaridade e a escatologia, e Baird resgata essa inocência com um carinho comovente. Como filme e como homenagem, "Stan & Ollie" merece aplausos calorosos. Uma pena que o grande público ainda não o descobriu!

terça-feira

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA (Hoffa, 1992, 20th Century Fox, 140min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: David Mamet. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman, Ronald Roose. Música: David Newman. Figurino: Deborah Lynn Scott. Direção de arte/cenários: Ida Random/Brian Savegar. Produção executiva: Joseph Isgro. Produção: Caldecot Chubb, Danny De Vito, Edward R. Pressman. Elenco: Jack Nicholson, Danny De Vito, Armand Assante, J.T. Walsh, John C. Reilly, Robert Prosky, Frank Whaley, Bruno Kirby, Kevin Anderson, Paul Guilfoyle. Estreia: 25/12/92

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Maquiagem

Para o público brasileiro, o nome de Jimmy Hoffa pode não significar muita coisa, mas para os norte-americanos sua importância é fundamental. Líder do poderoso sindicato dos caminhoneiros entre 1958 e 1971, ele bateu de frente com o então senador Robert Kennedy quando foi acusado de ligações com o crime organizado, foi condenado à prisão e até hoje seu desaparecimento, em 1975, é considerado um dos maiores mistérios policiais dos EUA. Motivo tanto de admiração quanto de desconfiança por suas intenções e métodos pouco ortodoxos, Hoffa acabou sendo tema do filme mais sério do ator/diretor Danny De Vito - que fracassou nas bilheterias e foi praticamente ignorado nas cerimônias de premiação (assim como concorreu ao Golden Globe de melhor ator em drama também recebeu indicações ao Framboesa de Ouro de melhor ator e diretor). Retratado com respeito e sobriedade por De Vito, "Hoffa: um homem, uma lenda" se beneficia do roteiro de David Mamet, da atuação gigantesca de Jack Nicholson e de sua suntuosa fotografia (indicada ao Oscar) para contar uma história que, a despeito de não ser de muito interesse fora dos EUA, é contada de forma correta e inteligente.

Um projeto inicialmente cobiçado por Oliver Stone e Barry Levinson, "Hoffa" custou cerca de 35 milhões de dólares à 20th Century Fox e rendeu pouco mais de 20 milhões no mercado doméstico - o que não chega a ser uma surpresa, haja visto a rejeição do público a filmes com temática política.  A maior surpresa vem do fato de ser dirigido por Danny De Vito, até então o nome por trás de duas comédias de humor negro, "Joga a mamãe do trem" (87) e "A guerra dos Roses" (89): muito mais ambicioso e sério do que em suas incursões anteriores na direção, De Vito demonstra segurança ímpar em desenvolver uma trama repleta de idas e vindas temporais e detalhes a respeito de política americana sem perder o ritmo - ainda que o roteiro de Mamet demore um pouco mais do que deveria para finalmente envolver o espectador e exija da plateia um prévio conhecimento de seus personagens. Com uma maquiagem indicada ao Oscar para transformar-lhe no protagonista, Jack Nicholson está em um grande momento da carreira, engolindo cada cena com os discursos inflamados do sindicalista - seus confrontos com Kennedy (Kevin Anderson) são o ponto alto do filme, oferecendo ao público a dramatização quase literal de um dos duelos políticos mais tensos dos anos 60.





Por incrível que pareça, é o roteiro de David Mamet, um dos mais respeitados dramaturgos americanos de sua geração, um dos problemas de "Hoffa": quando o filme começa, demora a deixar claro para os neófitos quem é o protagonista, quais suas intenções e as circunstâncias de seu relacionamento com o caminhoneiro Bobby Ciaro (Danny De Vito), que acaba por se tornar seu homem de confiança com o passar dos anos. Intercalando passado e presente - quando Hoffa e Ciaro estão em um restaurante à beira da estrada esperando por um encontro de negócios e relembrando sua história -, o roteiro especula sobre o destino do personagem central com um desfecho cru e violento que contrasta com o tom sóbrio e elegante adotado até então. Discordando da versão oficial divulgada pelo FBI, De Vito e Mamet criam um clímax dramaticamente mais envolvente, que surpreende pelo inesperado e pela direção competente. Infelizmente o filme se estende desnecessariamente por duas horas e meia - uma edição mais enxuta, especialmente na primeira parte do filme, faria muito bem ao resultado final e evitaria alguns momentos menos interessantes.

A seu favor, "Hoffa: um homem, uma lenda" tem alguns trunfos redentores: a fotografia de Stephen H. Burum (que perdeu o Oscar para "Nada é para sempre", de Robert Redford) é impecável, em cenas construídas milimetricamente para encher os olhos do espectador; a reconstituição de época também é extremosa e a trilha sonora de Thomas Newman é discreta e pouco invasiva, ajudando a estabelecer o clima de tensão que perpassa todo o filme. No entanto, é a presença de Jack Nicholson que torna a obra de Danny De Vito especial: não à toa, o veterano ator considera Jimmy Hoffa um de seus melhores personagens e uma de suas melhores interpretações. No final das contas, mesmo que tenha seus defeitos de ritmo e seja de interesse restrito, "Hoffa" é um filme acima da média sobre uma das personalidades fundamentais da política norte-americana do século XX.

quinta-feira

GUARDIÕES DA GALÁXIA

GUARDIÕES DA GALÁXIA (Guardians of the Galaxy, 2014, Marvel Studios/Marvel Enterprises, 121min) Direção: James Gunn. Roteiro: James Gunn, Nicole Perlman, comic books de Dan Abnett, Andy Lanning, personagens de Bill Mantlo, Keith Giffen, Jim Starlin, Steve Englehart, Steve Gan, Steve Gerber, Val Mayerik. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Fred Raskin, Hughes Winborne, Craig Wood. Música: Tyler Bates. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Charles Wood/Richard Roberts. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Alan Fine, Nik Korda, Jeremy Latcham, Stan Lee. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Djimon Houson, John C. Reilly, Karen Gillan, Glenn Close, Benicio Del Toro. Estreia: 21/7/14

2 indicações ao Oscar: Maquiagem, Efeitos Visuais

Quem disse que apenas de super-heróis conhecidos e consagrados vive a Marvel? Em 2014, um filme que não tinha um personagem adorado pelo público (como Homem-Aranha, Thor, Capitão América ou Homem de Ferro) nem um astro capaz de arrastar multidões apenas por sua causa (o maior sucesso de seu ator central havia sido "Jurassic World", de 2013, que tinha nos dinossauros seu principal ponto de venda e interesse) surpreendeu a todos com uma bilheteria mundial de mais de 770 milhões de dólares. Confirmação absoluta do poder da marca Marvel, "Guardiões da galáxia" faz parte do mesmo universo dos Vingadores - do qual fazem parte os personagens citados acima - mas suas ligações com ele são apenas circunstanciais, perceptíveis apenas aos fãs mais antenados, que percebem cada detalhe que une todas as histórias em uma só. Àqueles que não tem o mesmo encantamento ou interesse pelo mundo de super-heróis que vem povoando as telas de cinema há quase uma década - os primeiros filmes dessa nova concepção foram "Homem de Ferro" e "O incrível Hulk", ambos de 2008 - o filme de James Gunn serve perfeitamente como uma divertida, agitada e descompromissada comédia de ação, comandada por um espetacular Chris Pratt e recheada de efeitos visuais caprichados e personagens coadjuvantes carismáticos e interessantes. Não à toa, apesar da incerteza acerca de sua bilheteria antes da estreia, o final já deixa claro que a aposta não era tão às cegas assim. Cinema de verão, afinal, é exatamente como "Guardiões da galáxia".

Visualmente impecável, o filme de James Gunn é quase infantil em seu humor fácil e personagens que prescindem de todo tipo de realismo, mas ainda assim consegue cativar todos os tipos de público. O roteiro - coescrito pelo diretor e por Nicole Perlman, primeira mulher a ter seu nome nos créditos de um roteiro da Marvel - usa e abusa do bom-humor, inserindo piadas nas horas exatas e fazendo de seu protagonista um personagem de quem é impossível desgostar. Sem levar-se demais a sério, a história é quase uma desculpa para uma sequência de bons momentos de ação e comédia, embalados em uma direção de arte de um colorido quase kitsch e uma trilha sonora deliciosa - uma seleção de hits da década de 80 que chegou ao número 1 da revista Billboard e foi indicada ao Grammy. Ilustrando espirituosamente uma trama recheada de efeitos visuais, explosões e personagens de aparência excêntrica (o filme concorreu ao Oscar de maquiagem, mas perdeu para "O Grande Hotel Budapeste"), as músicas escolhidas pelo diretor transformam o que já era entretenimento de primeira em uma viagem de montanha-russa na companhia de um grupo de adoráveis defensores da galáxia (ainda que alguns com intenções bem menos nobres do que simplesmente colocar a vida em risco por puro altruísmo).


A história começa na Terra, em 1988, quando o adolescente Peter Quill é abduzido por uma nave espacial logo depois da morte de sua mãe. Sem saber nem mesmo quem é seu pai, o rapaz leva consigo apenas uma fita cassete gravada por sua mãe com sucessos musicais da época e um pacote de presente ainda não aberto. Vinte e seis anos mais tarde, Quill trabalha como mercenário das galáxias, vendendo sua mão-de-obra e seu jogo de cintura em lidar com os mais variados tipos de alienígenas para resolver pequenos problemas interplanetários. Bem-humorado e feliz com sua atividade profissional (além de reconhecido e prestigiado por ela), Quill subitamente vê sua cabeça à prêmio quando, depois de roubar uma misteriosa esfera com o poder de destruir o mundo, passa a ser caçado pelo perigoso Ronan (Lee Pace) e seus violentos asseclas. Para defender-se (e ao mundo), ele se une então a um grupo no mínimo excêntrico, formado pelo ambicioso guaxinim Rocket (voz de Bradley Cooper), a árvore mutante Groot (voz de Vin Diesel), o agressivo Drax (Dauve Batista) e a vingativa Gamora (Zoe Saldana). Juntos, eles são a última esperança de impedir a destruição do universo.

A partir daí, dá-lhe cenas de ação que equilibram com destreza efeitos especiais caprichadíssimos (que perderam o Oscar para "Interestelar", de Christopher Nolan) e piadas realmente engraçadas e que surgem organicamente no roteiro - não como artifício narrativo, mas sim como parte essencial de um conjunto de extrema coesão. Agarrando com unhas e dentes o papel principal, Chris Pratt parece ter nascido para interpretar Peter Quill, com um misto de heroísmo, sarcasmo e pureza que o torna irresistível. Sua química com o restante da equipe é admirável, conduzida com leveza por James Gunn, um cineasta sem vasta experiência mas com inteligência o suficiente para explorar as maiores qualidades da trama (o humor, os personagens carismáticos, a despretensão) sem tentar impor um estilo próprio ou ousadias desnecessárias. Um excelente meio-termo entre entretenimento rápido e eficaz e um produto comercial gigantesco (por menores que fossem as expectativas trata-se de um filme da Marvel, afinal de contas), "Guardiões da galáxia" não conquistou às exigentes plateias mundiais à toa: é uma das mais gratificantes experiências do universo dos gibis, entregando mais do que prometia e apresentando ao público uma gama de personagens encantadores e simpáticos. Uma pérola do gênero!

domingo

DEUS DA CARNIFICINA

DEUS DA CARNIFICINA (Carnage, 2011, SBS Productions/Constantin Film Produktion, 80min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Yasmina Reza, peça teatral de Yasmina Reza. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Herve de Luze. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Frankie Diago. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Said Ben Said. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Roman Polanski dirigindo uma comédia? Baseada em texto teatral? Estrelado por Jodie Foster e Kate Winslet? Antes que o estranhamento que tais questões possam suscitar, é bom lembrar que nada disso é exatamente novo. Polanski assinou, no final dos anos 60, o escrachado “A dança dos vampiros”, um quase clássico camp que tinha no elenco, além dele mesmo, aquela que seria sua esposa e morreria assassinada a mando de Charles Manson em agosto de 1969 – e que prova sem contestação que ele sabe ser engraçado. Também assinou a direção de “A morte e a donzela”, peça escrita pelo chileno Ariel Dorfman – o que não faz dele um estreante em transpor teatro para as telas. E Jodie Foster e Kate Winslet não são novatas em fazer rir – Jodie fez um hilariante par com Mel Gibson em “Maverick” (94) e Winslet demonstrou bom timing cômico em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (04), que não era comédia mas tinha lá seus momentos de graça. Sendo assim, “O deus da carnificina”, adaptado com extrema fidelidade da peça da francesa Yasmina Reza não deve ser visto como um terreno novo a ser desbravado pelo cineasta polonês – mesmo porque a quase claustrofobia do filme remete a algumas das mais célebres obras de sua carreira, como “O inquilino”, “Repulsa ao sexo” e “O bebê de Rosemary” (68), não à toa parte da chamada “trilogia do apartamento” – na qual o texto de Reza poderia tranquilamente ser inserida, não fosse o tom bem menos sóbrio e mais leve. Uma comédia muito mais afeita a sorrisos do que gargalhadas, “O deus da carnificina” também é coerente com a forma quase pessimista de Polanski enxergar o mundo e o ser humano. Não é à toa que seus personagens vão demonstrando, com o passar das horas, lados pouco louváveis de suas personalidades anteriormente tão polidas pelo verniz da sociedade.
O estopim da trama é simples e eficiente: um menino de onze anos, depois de uma discussão, agride com violência um colega da mesma idade. Cientes de sua superioridade enquanto adultos e civilizados, os pais de ambos se reúnem em uma tarde para conversar e tomar as devidas providências. No apartamento classe média de Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster) – os pais da vítima – os quatro aparentemente chegam rápido à conclusão de que as crianças devem se encontrar e que o agressor deve pedir desculpas ao agredido. Tudo perfeito, simples e ágil como convém. Porém, o que parecia já resolvido começa a dar sinais de problema quando outros assuntos, aparentemente não-relacionados à principal questão, vêm à tona. A princípio com ironias e gradualmente se tornando cada vez mais beligerante e agressiva, a conversa se transforma em um ringue, onde os dois casais partem para a briga – uns contra os outros e, conforme outros questionamentos surgem, com alianças inesperadas. Nesse meio-tempo, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet) descem do seu pedestal de superioridade e encaram a face mais atávica e competitiva da humanidade.
A ousadia de Polanski em restringir sua narrativa em apenas um pequeno apartamento nova-iorquino (com uma ou outra cena de transição no corredor diante de sua porta) é a maior qualidade da versão cinematográfica de “O deus da carnificina”. Enquanto outros cineastas tentariam disfarçar as origens de seu material com subterfúgios artificiais e ineficientes, ele assume sem medo o tom verborrágico da trama, mas consegue, graças a seu talento e a seus anos de estrada, transformar em trunfo o que poderia ser um problema: frequentemente usando distorções nas lentes da câmera (cortesia de seu habitual colaborador Pawel Edelman) como forma de enfatizar o quase pesadelo surreal que se torna o que deveria ser uma simples tarde entre adultos, Polanski sublinha o tema principal da história, desnudando sem dó nem piedade os reais sentimentos e pensamentos da classe média, protegida por sua capa de respeitabilidade até que as coisas fujam de seu controle. Ao escalar para seus protagonistas um time de atores com imagens absolutamente respeitáveis e sérias, o diretor também critica, através de uma brilhante metáfora interna, a grande diferença entre o “parecer” e o “ser”. Ninguém fica impune ao deus da carnificina citado por Alan em um momento do texto e que é representado pela força bruta ao invés da inteligência – nem mesmo as belas tulipas com que Penelope enfeita sua mesa de centro para receber suas visitas.


Como em qualquer bom texto teatral, os personagens de “O deus da carnificina” vão se revelando aos poucos, dando a seus intérpretes (todos atores excepcionais) a chance de mostrar diversas facetas de seus talentos. O Michael de John C. Reilly (único dentre os atores a ainda não ter ganho um Oscar) é, aparentemente, um homem de boa paz, um vendedor de utensílios domésticos que tenta resolver tudo na base da conversa e da sociabilidade extrema – mas que não hesita em abandonar o hamster da filha pequena no esgoto da cidade ou vangloriar-se de ter sido líder de uma gangue quando criança. Sua esposa, Penelope (Jodie Foster em uma atuação que vai crescendo diante do espectador até explodir na reta final) é uma escritora especializada em Arte e História da África a quem a civilidade é primordial nos relacionamentos interpessoais – ao menos até que seu modo de lidar com a família e o casamento sejam postos em xeque. Alan (Christoph Waltz finalmente deixando um pouco de lado os trejeitos que repete constantemente) é o típico homem que dedica seus dias na luta por mais e mais dinheiro – é advogado de uma empresa farmacêutica em vias de enfrentar uma ação penal – e vê o valor das pessoas baseado em suas contas bancárias e seu sucesso profissional. E Nancy (Kate Winslet, a melhor em cena) é uma corretora de investimentos chique, discreta e delicada que perde as estribeiras quando deixa que o álcool lhe tire todos os filtros de polidez e escrúpulos morais e éticos.
A dinâmica de “O deus da carnificina” é a desculpa perfeita para Roman Polanski exercitar seu cinema simples e direto. Em menos de uma hora e meia de projeção, ele destrói o muro de convenções sociais que possibilita a convivência entre os seres humanos, usando para isso não um grupo de homens pré-históricos ou soldados em plena batalha. A maior ironia (e o maior acerto) de Yasmina Reza em seu trabalho é deixar que pessoas bem-nascidas, bem-resolvidas e bem-educadas sejam o objeto de sua tese (pessimista? realista? exagerada?) de que sem o verniz de uma organização social e comunitária os homens que se gabam de utilizar-se da mais alta tecnologia, de conhecer a fundo obras de arte e de saber frequentar as mais altas rodas da sociedade não passam, no fundo, de homens das cavernas, predispostos a, em qualquer momento, apelar para a violência e a agressão como forma de fazer prevalecer seu ponto de vista. E Polanski, em um toque de gênio, acrescenta à peça de Reza um epílogo silencioso e quase imperceptível que mostra que, ao mesmo tempo em que a civilização como a conhecemos tem a fragilidade de uma flor, ainda existe esperança onde menos se espera – e da forma mais simples possível. Mais do que mostrar-se otimista, o vencedor do Oscar por “O pianista” mostra-se de uma ironia sofisticada e contundente. O inferno são os outros.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...