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terça-feira

DESEJO PROIBIDO


DESEJO PROIBIDO (If these walls could talk 2, 2000, HBO Films/Team Todd, 96min) Direção: Jane Snderson ("1961"), Martha Coolidge ("1972"), Anne Heche ("2000"). Roteiro: Jane Anderson ("1961"), Sylvia Sichel, estória de Sylvia Sichel e Alex Sichel ("1972"), Anne Heche ("2000"). Fotografia: Peter Deming, Paul Elliott, Robbie Greenberg. Montagem: Margaret Goodspeed. Música: Basil Poledouris. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Nina Ruscio/Susan Mina Eschelnach, K. C. Fox, Mary E. Gullickson. Produção executiva: Ellen DeGeneres, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Produção: Mary Kane. Elenco: Vanessa Redgrave, Michelle Williams, Chloe Sevigny, Sharon Stone, Ellen DeGeneres, Paul Giamatti, Elizabeth Perkins, Marian Seldes, Nia Long, Natasha Lyonne, Heathe McComb, Rashida Jones, Regina King, Kathy Najimy. Estreia: 05/3/2000

Em 1996, a HBO lançou, com enorme sucesso de público e crítica, o polêmico "O preço de uma escolha", que trata, em três histórias distintas, de um assunto bastante controverso na sociedade norte-americana: o aborto. Com um elenco que contava com Demi Moore, Catherine Keener e Cher - também uma das diretoras -, o filme chegou a ser indicado a três Golden Globes e estabeleceu um alto parâmetro para as produções do canal. Quatro anos mais tarde, "Desejo proibido" tentou repetir o êxito, voltando a discutir uma questão delicada (ao menos para a audiência mais conservadora) e seguindo a mesma estrutura do original. Ao retratar a homossexualidade feminina - e a forma como ela é vista - em três tempos e enfoques distintos, a produção manteve o tom sério e respeitoso do primeiro filme, mas como normalmente acontece com antologias, não conseguiu escapar da irregularidade. Potente em sua primeira parte, interessante em sua segunda e leve em seu encerramento, "Desejo proibido" revela um panorama abrangente de seu tema, mas nem sempre consegue atingir todo o seu potencial.

O primeiro (e melhor) capítulo se passa em 1961 e apresenta a triste história de Edith Tree (Vanessa Redgrave), que vê sua vida desmoronar com a morte de Abby Hedley (Marian Seldes), sua parceira há mais de cinquenta anos. A tragédia fica ainda maior quando um sobrinho distante de Abby, o pouco afetivo Ted (Paul Giamatti) surge para reivindicar a propriedade onde elas moravam: sem o amparo legal que poderia lhe dar o direito de ficar com a casa que ajudou a pagar, Edith precisa lidar com questões práticas ao mesmo tempo em que experimenta a impensável dor da perda. A diretora e roteirista Jane Anderson é extremamente feliz em imprimir o tom de melancolia e amor maduro, valorizado pela atuação monstruosa de Vanessa Redgrave. Começando sua história já em grande estilo - com uma citação direta do clássico "Infâmia" (1961), em que Shirley MacLaine e Audrey Hepburn tinham sua escola atacada por insinuações de homossexualidade -, Anderson é elegante e romântica, ao mesmo tempo em que desperta no espectador toda a indignação possível diante da situação absurda. Destaca-se também o belo trabalho de Elizabeth Perkins, na pele de Alice, a fútil e insensível esposa de Ted, e a sutileza do roteiro, que vai apresentando camadas ao tema conforme a trama vai se desenhando: do medo de andar próximas na rua às burocracias médicas, tudo é tratado com delicadeza extrema, que eleva o primeiro episódio do filme ao status de pequena obra-prima.

 

Já o segundo segmento, dirigido por Martha Coolidge, peca por sua incapacidade (ou opção) de aprofundar um questionamento bastante relevante - inclusive dentro da comunidade gay. Em 1972, quando os movimentos feministas e homossexuais estavam em alta dentro da sociedade dos EUA, a jovem Linda (Michelle Williams), um tanto decepcionada com o preconceito que presencia junto às pretensamente liberadas e modernas ativistas, se envolve com Amy (Chloe Sevigny), a quem conhece em um bar frequentado por lésbicas. Apesar de morar com um amigas também gays, ela passa a conhecer a discriminação dentro da própria casa, já que Amy, ao contrário delas, se veste como homem e age de forma masculinizada. Sem saber como lidar com a diferença entre elas - e pressionada pelas colegas, pouco à vontade com sua nova namorada -, Linda passa a questionar até que ponto as aparências podem influir na saúde de seu relacionamento. Coolidge (que assinou o delicado "As noites de Rose", que indicou Laura Dern e Diane Ladd ao Oscar, em 1992) constrói uma obra de textura visual quase palpável, que mergulha o espectador no universo de suas personagens, mas tropeça na superficialidade do roteiro, que não sabe desenvolver a contento todas as possibilidades do tema e ainda surge com um desfecho artificialmente feliz e fácil. Michelle Williams - começando sua trajetória em interpretar mulheres sofridas e atormentadas - está bem, mas Chloe Sevigny - recém vinda de uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meninos não choram" (1999) - já apresenta alguns trejeitos e expressões que seriam comuns à toda a sua carreira posterior.

 

O ato final da produção, por sua vez, aposta na leveza, no bom humor e até no otimismo - como um aceno aos novos tempos que (todos esperavam) estavam por surgir. No ano 2000, um casal bem resolvido, feliz e apaixonado, resolve ter um filho e completar sua família não convencional. A princípio, Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) querem que um amigo seja o pai biológico de seu bebê, mas ao ver sua proposta recusada por Arnold (Mitchell Anderson) e Tom (George Newbern), passam a tentar outros modos de concepção. Para isso, buscam um doador anônimo de esperma (em um site especializado), inseminação artificial (em uma clínica conceituada) e meses de tensão enquanto esperam um resultado positivo. Enquanto isso, questionam (mas não muito) a ideia de por um filho em um mundo preconceituoso, violento e super povoado. Escrito e dirigido por Anne Heche (esposa de Ellen DeGeneres à época), o episódio é bem menos denso do que os primeiros, preferindo um tom positivo que encontra eco no desempenho solar de Sharon Stone e no sarcasmo de DeGeneres. Novamente faz falta um aprofundamento do tema, mas sua opção em seguir um caminho oposto ao drama dos dois primeiros segmentos não deixa de ser acertado, principalmente ao contrapor a dor do preconceito à esperança de um novo e mais tolerante mundo.

No cômputo final, "Desejo proibido" tem mais acertos do que erros. Em uma época em que a televisão ainda engatinhava em tratar de temas polêmicos - ao menos de forma tão explícita -, o filme tem a coragem não apenas de falar sobre a homossexualidade feminina em algumas de suas diversas formas, mas também de não esconder o amor das protagonistas em cenas veladas e/ou falsamente pudicas. Com sequências de sexo dirigidas com bom gosto e delicadeza (mesmo que limitadas pelo veículo) e sem medo de se posicionar ao lado contrário a qualquer tipo de intolerância, a produção posicionou a HBO como um importante aliado na causa gay e deu um passo à frente na caminhada da emissora pelo prestígio de que viria a desfrutar logo em seguida.

 

sábado

ARTISTA DO DESASTRE

ARTISTA DO DESASTRE (The disaster artist, 2017, Warner Bros/New Line Cinema, 104min) Direção: James Franco. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, livro "The disaster artist: my life inside 'The room', the greatest bad movie ever made", de Greg Sestero, Tom Bissell. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Stacey Shroeder. Música: Dave Porter. Figurino: Brenda Abbandandolo. Direção de arte/cenários: Chris Spelman/Susan Lynch. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Joe Drake, Toby Emmerich, Nathan Kahane, Kelli Konop, Roy Lee, Alexandria McAtee, John Powers Middleton, Dave Neustadter, Scott Neustadter, Hans Ritter, Michael H. Weber, Erin Westerman. Produção: James Franco, Evan Golberg, Vince Jolivette, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Allison Brie, Megan Mullally, Melanie Grifith, Sharon Stone, Ari Graynor, Jackie Weaver, Zac Efron, Josh Hutcherson, Bob Odenkirk. Estreia: 11/9/17 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Comédia/Musical: James Franco

Excêntrico no modo de vestir, falar e se comportar, Tommy Wiseau convida o melhor (e talvez único) amigo, Greg Sesteros, para ir com ele a Hollywood e tentar carreira no cinema. Depois de vários meses batalhando por uma chance - que nem mesmo o bem-apessoado Greg consegue -, o misterioso Wiseau (que esconde a verdadeira idade e a fonte de seu dinheiro) resolve arrombar a porta da indústria e fazer seu próprio filme. Dedica-se a escrever um roteiro e, quando ele fica pronto, parte para a ação: com ele e Greg nos papéis principais, "The room" começa a ser filmado - apesar das idiossincrasias de seu criador e de sua absoluta falta de talento em todas as funções (ator, diretor, roteirista e produtor). Depois de meses enervando a equipe do filme - incrédulos quanto à possível qualidade do filme -, a produção finalmente tem sua estreia marcada. Mas como será que os espectadores irão reagir diante de tanto amadorismo?

Tommy Wiseau é um personagem riquíssimo: sempre vestido de forma bizarra, com um sotaque indefinível e absolutamente reservado em relação à sua vida, ele age de maneira errática e se acredita muito mais talentoso do que realmente é - desde suas aulas de teatro até seu estrelato em "The room", um filme muito aquém de trash e hoje um cult movie por excelência. Apesar de ser pouco verossímil, Wiseau existe de verdade - e é sobre a produção de seu filme que trata "Artista do desastre", uma das comédias mais engraçadas e inteligentes dos últimos anos. Com ecos de "Ed Wood" (1994), de Tim Burton - especialmente no carinho com que o protagonista é retratado - e uma série de participações especiais valiosas, o filme agradou em cheio a crítica e poderia ter chegado facilmente às principais categorias do Oscar se não fosse um escândalo de assédio sexual que atingiu seu diretor, produtor e ator principal, James Franco. Vencedor do Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e elogiado unanimemente, Franco acabou sendo deixado de lado pela Academia - que reconheceu com uma indicação apenas seu roteiro, adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber do livro escrito pelo próprio Greg Sesteros, testemunha oficial dos fatos.


A exclusão de Franco da lista de indicações ao Oscar pode até ter sido surpresa, mas ninguém pode negar que seu filme é uma pérola. A segunda metade especialmente, quando começa a produção repleta de momentos bizarros de "The room", é simplesmente impossível não gargalhar. Ao contrário da maioria das comédias produzidas em Hollywood - algumas inclusive estreladas pelo próprio James Franco e seu colega de elenco, Seth Rogen -, "Artista do desastre" extrai seu humor não da escatologia, mas sim do absurdo de suas situações. De sua primeira aparição em cena - em uma interpretação no mínimo sui generis de Stanley Kowalski, de "Uma rua chamada pecado" - até seu final, de certa forma emocionante aos fãs de cinema -, Wiseau é uma figura absolutamente imprevisível, capaz tanto de gestos generosos (como abrigar Sesteros em sua chegada em Los Angeles) quanto de uma mesquinharia inacreditável (como não proporcionar água no set de filmagem, quente a ponto de levar uma atriz ao desmaio). James Franco encarna Wiseau com nítido prazer, entregando uma performance brilhante, que eclipsa até mesmo seu irmão, Dave, que ficou com o papel de Greg Sesteros: enquanto Sesteros é, de um modo, a voz da razão na dupla, Wiseau é um vulcão de sentimentos contraditórios - e pode, inclusive, suscitar a compaixão do público.

E se não fosse tão engraçado quanto é, "Artista do desastre" ainda tem o bônus de contar com inúmeras participações especiais, para deleite do espectador. Melanie Griffith, Sharon Stone, Megan Mullally, Bryan Cranston, Bob Odenkirk, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jackie Weaver, Kevin Smith, Adam Scott e outros aparecem em pequenos papéis - ou em depoimentos falsos antes do filme começar (uma referência a "Reds", de Warren Beatty, lançado em 1981). É um prazer a mais identificá-los enquanto se acompanha a trajetória do protagonista em busca do lançamento de seu filme e sua esperada entrada no mercado cinematográfico de Hollywood. Seu filme,"The room", estreou em 2003, e, para não estragar a surpresa de quem ainda não sabe o final da história, basta dizer que, em determinado nível, ele conseguiu projetar-se na indústria e tornar-se famoso - mesmo que não exatamente do jeito que procurava. "The room" pode ser considerado um dos piores filmes da história do cinema, mas seu filho, "Artista do desastre", é um brilhante documento de sua realização.

sexta-feira

LOVELACE

LOVELACE (Lovelace, 2013, Millenium Films/Eclectic Pictures/Untitled Entertainment, 93min) Direção: Rob Epstein, Jeffrey Friedman. Roteiro: Andy Bellin. Fotografia: Eric Edwards. Montagem: Robert Dalva, Matthew Landon. Música: Stephen Trask. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: William Arnold/David Smith. Produção executiva: Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Merritt Johnson, Avi Lerner, Peter Sarsgaard, Amanda Seyfried, Trevor Short, John Thompson. Produção: Heidi Jo Markel, Laura Rister, Jason Weinberg, Jim Young. Elenco: Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard, Sharon Stone, Robert Patrick, Juno Temple, Chris Noth, Bobby Cannavale, Hanz Azaria, Adam Brody, Chloe Sevigny, James Franco, Debi Mazar, Wes Bentley, Eric Roberts. Estreia: 22/01/13 (Festival de Sundance)

Não é preciso ser um fã do gênero para conhecer "Garganta profunda", um dos mais famosos e celebrados filmes pornográficos da história. Lançado em 1972, tornou-se um fenômeno de proporções inéditas e inspirou até mesmo o apelido do misterioso informante no infame Caso Watergate que derrubou o presidente Richard Nixon. Estrelada pela então desconhecida Linda Lovelace, a história da jovem que descobre ter o clitóris localizado na garganta e passa a conhecer o prazer sexual conforme vai se especializando em sexo oral é, até hoje, o filme adulto mais rentável já realizado (com uma renda estimada em 600 milhões de dólares) mas os bastidores de sua realização, bastante polêmicos, só estavam relegados aos leitores da biografia da atriz - lançada em 1980 - e aos comentários suscitados por seu posicionamento contra a indústria da pornografia que veio em seguida. A real história de Linda, com todos os seus lances dramáticos (anteriores e posteriores à fama), pedia uma versão cinematográfica à altura. Surgiu, então a cinebiografia dirigida pelos cineastas Rob Epstein e Jeffrey Friedman (que juntos, lançaram o sensacional documentário "O outro lado de Hollywood", sobre o tratamento dado pelo cinema à homossexualidade). O problema é que, apesar do tema explosivo, "Lovelace" parece ter medo da ousadia. E isso faz uma enorme diferença no resultado final.

Com uma narrativa quadradinha que enfraquece até mesmo sua segunda metade, quando o ponto de vista da protagonista assume o foco e as revelações sobre seu casamento e sua carreira dão outro viés aos acontecimentos, o filme de Epstein e Friedman perde a chance de revelar, através da história de um longa específico, a podridão dos bastidores da indústria da pornografia, algo que Paul Thomas Anderson atingiu com grande êxito em seu "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997. Porém, ao contar uma história calcada basicamente em sexo puro, o roteiro parece ter medo de mergulhar no assunto, passando correndo por qualquer sequência que porventura possa ofender os pruridos cada vez maiores da plateia norte-americana. Mesmo que o foco não seja o sexo em si, não deixa de ser irônico que uma produção que tenta desmascarar a hipocrisia seja tão puritana. E seria injusto debitar isso ao elenco de nomes famosos, já que todos parecem extremamente à vontade em seus papéis, e os dois atores centrais, Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard (que também assinam como produtores executivos), já tem no currículo filmes de alto teor erótico e não tem medo de se entregar de corpo e alma a seus personagens. O fato é que, mesmo com algumas louváveis qualidades, "Lovelace" perde pontos por jamais sair de sua zona de conforto.


O filme começa, como se poderia esperar, em 1970, quando a jovem Linda Boreman (Amanda Seyfried em papel herdado de Lindsay Lohan, então já em seu inferno astral pessoal e profissional) conhece o homem que se tornaria sua bênção e seu castigo. Chuck Treynor (Peter Sarsgaard, sempre dedicado e extremamente competente) é quem a tira da casa de seus severos pais (interpretados por Robert Patrick e uma irreconhecível Sharon Stone) e, aparentemente apaixonado e carinhoso, devolve a ela a autoestima perdida devidos a traumas do passado. Acontece que logo ele demonstra um lado pouco agradável e, metido com prostituição e na mira de credores perigosos, acaba por convencê-la a fazer o papel principal de um filme pornográfico que pode salvar suas finanças. O sucesso estrondoso do filme, "Garganta profunda", a torna internacionalmente conhecida, mas não a ajuda a ser feliz. Pouco tempo depois ela decide tornar públicas as humilhações pelas quais passou nas mãos de Treynor - e volta aos holofotes como uma vítima de violência doméstica que não ganhou um centavo com o trabalho que deixou os produtores milionários.

Recheando seu filme de rostos conhecidos do público - além dos já citados desfilam pela tela James Franco, Juno Temple, Chris Noth, Hank Azaria, Eric Roberts, Adam Brody e Bobby Cannavale - os cineastas são felizes em contar sua história de forma fluente e sem sobressaltos. Porém, mesmo quando há a ruptura narrativa que altera a percepção do público em relação à trajetória da protagonista, ela não acontece com o impacto que poderia. A opção dos diretores em manter o ritmo na mesma cadência acaba por ser um golpe fatal para seu filme, que tem a mesma pulsação do início ao fim. Não seria um problema se essa pulsação fosse excitante ou potente - como acontece com a obra de Anderson, que deixa o espectador sem fôlego durante suas duas horas e meia - mas a edição carece de energia e tesão, o que nesse caso específico, é um pecado quase imperdoável. Mesmo com o empenho de Seyfried e Sarsgaard, "Lovelace" fica aquém do que poderia ser. É um "Supercine" de luxo. Uma pena.

BOBBY

BOBBY (Bobby, 2006, The Weinstein Company, 120min) Direção e roteiro: Emilio Estevez. Fotografia: Michael Barrett. Montagem: Richard Chew. Música: Mark Isham. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Lisa Fischer, Radha Mehta. Produção executiva: Dan Grodnick, Anthony Hopkins, Michelle Krumm, Matthew Landon, Gary Michael Walters. Produção: Edward Bass, Michael Litvak, Holly Wiersma. Elenco: Harry Belafonte, Emilio Estevez, Laurence Fishburne, Heather Graham, Anthony Hopkins, Helen Hunt, Joshua Jackson, David Krumholtz, Ashton Kutscher, Shia LeBeouf, Lindsay Lohan, William H. Macy, Demi Moore, Freddie Rodriguez, Martin Sheen, Christian Slater, Sharon Stone, Elijah Wood. Estreia: 05/9/06 (Festival de Veneza)

Em 1991, Oliver Stone lançou o espetacular "JFK", em que investigava o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, ocorrido em novembro de 1963, utilizando-se, para isso, de toda a sua parafernália de artifícios narrativos e visuais - deu certo, e, além de várias indicações ao Oscar (e das estatuetas de fotografia e edição) e do sucesso de bilheteria, tornou-se um clássico instantâneo do cinema político e talvez o melhor trabalho de sua carreira. O roteiro - baseado em dois livros com teorias distintas e que paradoxalmente se completavam - citava, em determinado momento, a morte do irmão caçula de John, o senador Robert, assassinado em Los Angeles, justamente quando estava a caminho de tornar-se ele mesmo presidente dos EUA, em 1968. Tal fato, que confirmava o triste destino dos Kennedy e que serviu de combustível a mais em um país em um período de convulsão social - com lutas violentas pelos direitos civis e a guerra do Vietnã suscitando as mais beligerantes discussões entre todas as classes sociais - serve de tema para "Bobby", escrito e dirigido pelo ator/cineasta Emilio Estevez: ao contrário do filme de Stone, porém, Estevez optou por um caminho menos ambicioso, ao utilizar a tragédia apenas como pano de fundo para um representativo painel humano da época. Se por um lado acerta - ao fugir das comparações e evitar controvérsias desnecessárias - também peca - com tantos personagens em cena é difícil aprofundá-los. Mas a indicação ao Golden Globe de melhor filme dramático de 2006 mostra que, entre mortos e feridos, a obra do irmão mais velho de Charlie Sheen tem muito mais méritos do que defeitos.

A trama de "Bobby" se passa no dia 04 de junho de 1968, data das eleições primárias na Califórnia, onde Robert Kennedy é o franco-favorito graças à sua campanha baseada no pacifismo e nos interesses do povo. O QG de sua campanha é o Hotel Ambassador, onde ele é esperado no final da noite para discursar a seus eleitores e apoiadores. E é nesse hotel de luxo em Los Angeles que vários dramas se desenrolam durante o dia, atingindo funcionários e hóspedes que esperam ansiosamente pela chegada do homem que eles acreditam ser capaz de renovar as esperanças do país. Entre eles está o antigo porteiro do hotel, o veterano John Casey (Anthony Hopkins, produtor executivo do filme) e seu velho amigo Nelson (Harry Belafonte), inconscientes dos problemas da cozinha do local, quase implodindo com o racismo do responsável pelo departamento, Daryl (Christian Slater) e pelas conversas entre o experiente cozinheiro Edward (Laurence Fishburne) e o latino Jose (Freddie Rodriguez), contrariado pelo expediente duplo que o impedirá de assistir a um jogo de baseball já clássico antes mesmo de acontecer. É nas dependências dos empregados também que Paul (William H. Macy) esconde da esposa - a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) - seu relacionamento com a telefonista Angela (Heather Graham) e os responsáveis pela campanha de Kennedy - Wade (Joshua Jackson) e Dwayne (Nick Cannon) - tentam dar ordem aos jovens cabos eleitorais e organizar a leva de jornalistas sequiosos por entrevistas.

Entre os hóspedes também há espaço para drama: a veterana cantora Virginia Fallon (Demi Moore, que foi noiva de Estevez antes de tornar-se diva sexy) luta contra o vício em álcool enquanto enlouquece seu marido e empresário Tim (o próprio Estevez). O casal Samantha (Helen Hunt) e Jack (Martin Sheen) luta contra a instabilidade mental dela, a jovem Diane (Lindsay Lohan) se casa com o amigo William (Elijah Wood) para impedí-lo de ser chamado ao Vietnã e os dois amigos Jimmy (Brian Geraghty) e Cooper (Shia LaBeouf), em vez de buscar eleitores, entram em uma viagem de LSD proporcionada pelo traficante Fisher (Ashton Kutscher). Como é comum em filmes-coral - popularizados por Robert Altman no início dos anos 90 e quase obrigatórios desde então - os personagens se cruzam ocasionalmente, até o clímax, quando a chegada do senador e a subsequente tragédia unem a todos, independente de classe social, fama ou drama pessoal.


Intercalando cenas reais de discursos de Robert Kennedy aos dramas dos personagens fictícios de seu filme (embora alguns sejam levemente inspirados em histórias reais, como o jovem cozinheiro vivido por Freddie Rodriguez, que ficou ao lado do senador enquanto aguardava o socorro médico e o porteiro interpretado por Anthony Hopkins), Emilio Estevez dá a ele um tom acertado de nostalgia e ao mesmo tempo mostra um amplo painel de relações humanas à luz de sua época, sem soar exageradamente saudosista e demonstrando clara admiração pelas palavras do homem que dá título à sua obra. Enquanto apresenta hippies, ativistas, negros e latinos em busca de aceitação social, jovens com medo da guerra do Vietnã e até repórteres socialistas atrás de cinco minutos de atenção com o homem do dia, o filme também mostra sequências que mostram o carisma enorme de Bobby, ao som da eloquente "The sound of silence", da dupla Simon & Garfunkel - em especial depois dos tiros que o vitimam é díficil não se emocionar com elas, em um toque emocional que chega perto do clichê, mas que funciona muito bem, assim como o encontro de duas das mais belas mulheres do cinema americano da década de 90 (Sharon Stone e Demi Moore) na cena mais interessante do filme, quando elas discutem a força do tempo em relação à efemeridade da juventude.

Talvez a indicação ao Golden Globe de melhor filme tenha sido mais por causa do elenco atraente ou das boas intenções de Estevez - que demorou sete anos para transformar a ideia em algo concreto. Mas é inegável que é um filme correto, sem exageros e até discreto - deixando de lado a atuação vergonhosa de Ashton Kutscher. Vale uma espiada, especialmente por seguir um viés diametralmente oposto ao "JFK" de Oliver Stone.

quarta-feira

INVASÃO DE PRIVACIDADE

INVASÃO DE PRIVACIDADE (Sliver, 1993, Paramount Pictures, 103min) Direção: Phillip Noyce. Roteiro: Joe Eszterhas, romance de Ira Levin. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Richard Francis-Bruce, William Hoy. Música: Howard Shore. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Lisa Fischer. Produção executiva: Joe Ezsterhas, Howard W. Koch Jr.. Produção: Robert Evans. Elenco: Sharon Stone, Tom Berenger, William Baldwin, Polly Walker, Martin Landau, Amanda Foreman, CCH Pounder, Nina Foch. Estreia: 21/5/93

As expectativas para a reunião entre o roteirista Joe Eszterhas e a atriz Sharon Stone não poderiam ser maiores: juntos, eles foram responsáveis por "Instinto selvagem" - um dos maiores sucessos de bilheteria de 1992 e o filme que catapultou a estrela de Sharon para a estratosfera - e seu reencontro se daria graças a uma história de Ira Levin (o mesmo autor do clássico "O bebê de Rosemary" (68), de Roman Polanski) e com direção de Philip Noyce, o diretor que havia ressuscitado a carreira do agente da CIA Jack Ryan no bem-sucedido "Jogos patrióticos" (92). Além do mais, havia na receita momentos de suspense e (é claro) doses generosas de sexo, protagonizadas por uma Sharon no auge da beleza e da popularidade. Não tinha como dar errado, certo? Mas deu. "Invasão de privacidade", um dos filmes mais aguardados da temporada 1993 chegou às telas como uma das produções mais esperadas do ano e acabou se tornando uma de suas maiores decepções, não somente em termos de crítica - desagradou a gregos e troianos - mas principalmente no que diz respeito a suas ambições financeiras, já que não chegou nem mesmo a empatar seu orçamento de 40 milhões de dólares. No entanto, não é difícil perceber as razões do fracasso quando se assiste ao produto final.

Os problemas de "Invasão de privacidade" começaram, a bem da verdade, já durante a fase de pré-produção. A ideia do produtor Robert Evans era novamente contar com Roman Polanski na direção de uma obra de Ira Levin - como já havia ocorrido com "O bebê de Rosemary", em 1968 - mesmo com o cineasta proibido de por os pés nos EUA devido à sua condenação por sedução de uma menor nos anos 70. Com Polanski fora da jogada e Philip Noyce contratado - assim como a estrela maior, Sharon Stone - começou a busca pelo ator principal, que seria o responsável, junto com Sharon, de incendiar as telas em cenas pra lá de tórridas. Com a recusa de Johnny Depp, Val Kilmer e River Phoenix, o papel acabou ficando com William Baldwin, e o que deveria ser motivo de descanso para a Paramount tornou-se uma preocupação inesperada: ele e Sharon Stone simplesmente se odiaram à primeira vista e nunca fizeram questão de esconder seus sentimentos (algo como havia acontecido com Mickey Rourke e Kim Basinger durante as filmagens de "9 1/2 semanas de amor", em 1986). Não bastasse isso, Joe Eszterhas era obrigado constantemente a fazer modificações no roteiro - que já alterava significativamente o romance de Levin - e um helicóptero com uma equipe do filme, que fazia imagens de um vulcão em erupção no Havaí (para cenas importantes do primeiro roteiro) caiu com todos os passageiros, perdendo todo o material - ainda que ninguém tenha morrido no desastre.


Pra piorar a situação, terminadas as filmagens, uma sessão-teste do filme mostrou que o bicho era ainda mais feio do que parecia: boa parte da audiência respondeu pessimamente ao resultado um novo final foi criado, mudando o desfecho do livro e alterando drasticamente a história. Tal decisão não agradou a alguns atores (entre eles o veterano Tom Berenger) e obviamente aumentou o número de fofocas a respeito dos bastidores do filme, o que não ajudou em nada quando finalmente ele estreou. Ninguém deixou de notar a absoluta falta de química entre Stone e Baldwin (coisa que, digam o que disserem, havia em alto grau entre Rourke e Basinger), a fragilidade do roteiro, a apatia de Baldwin e Berenger e a total falta de suspense de uma trama que, em tese, se apoiava justamente nos elementos básicos do gênero. Ok, Philip Noyce fez o que pode com o que tinha em mãos, tentando criar um clima de tensão desde os primeiros momentos - e mais uma vez um prédio assume papel importante em uma criação de Ira Levin - mas tudo vai por água abaixo quando se percebe que tudo não passa de promessas que não são cumpridas no decorrer da projeção. Nem mesmo o erotismo tão alardeado vale a sessão: apesar de quentes, as cenas de sexo não empolgam nem excitam como as orquestradas por Paul Verhoeven em "Instinto selvagem".

Mas, afinal, de que se trata "Invasão de privacidade"? Tudo começa muito bem, quando uma jovem é misteriosamente jogada do vigésimo andar de um prédio localizado em um condomínio de luxo de Nova York. O caso é tratado como suicídio e não demora para que seu apartamento passe a ser habitado por Carly Norris (Stone, linda e boa atriz, fazendo o impossível com um papel sem graça), uma editora introvertida que acaba de sair de um relacionamento falido. Tão logo chega no prédio, ela passa a ser assediada por dois moradores, o sedutor Zeke (William Baldwin, péssimo) e o escritor de livros policiais Jack Lansford (Tom Berenger), ambos dispostos a seduzí-la. Quando misteriosos acidentes começam a acontecer nos limites do condomínio, porém, Carly passa a desconfiar de que alguém (talvez um dos dois) esteja envolvido bem mais do que o normal com eles. E, pior ainda: sem que ela saiba, alguém que também está à sua volta tem uma milionária aparelhagem de segurança, que dá acesso a todos os apartamentos do local.

E é só. A trama - fraca - não encontra respaldo na direção correta mas indiferente de Noyce e muito menos no elenco, que inclui até o futuro vencedor do Oscar Martin Landau. Stone está melhor atriz do que nunca, mas perde boa parte de seu carisma em um papel que faz dela a caça ao invés da caçadora. Sua falta de química com William Baldwin - uma escolha totalmente infeliz de elenco - tampouco a ajuda e, na falta de maiores qualidades, destaca-se a trilha sonora, que abre espaço até para uma bela versão de "I can't help falling in love", com o grupo UB 40. É muito pouco para o que prometia ser uma das maiores bilheterias de 1993.

terça-feira

ALPHA DOG

ALPHA DOG (Alpha dog, 2006, Sidney Kimmel Entertainment, 122min) Direção e roteiro: Nick Cassavetes. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Alan Heim. Música: Aaron Zigman. Figurino: Sarah Jane Slotnick. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Faince MacCarthy. Produção executiva: Robert Geringer, Marina Grasic, Andreas Grosch, Avram Butch Kaplan, Jan Korbelin, Steve Markoff. Produção: Sidney Kimmel, Chuck Pacheco. Elenco: Bruce Willis, Sharon Stone, Emile Hirsch, Justin Timberlake, Ben Foster, Shawn Hatosy, Anton Yelchin, Dominique Swain, Amanda Seyfried, Harry Dean Stanton, Lukas Haas. Estreia: 27/01/06 (Festival de Sundance)

Em 1994, Larry Clark tornou-se um nome quente dentro de Hollywood graças ao controverso "Kids", que narrava o estilo de vida de um grupo de adolescentes que passava os dias às voltas com drogas pesadas e sexo promíscuo. O filme - que lançou as carreiras de Rosario Dawson e Chloe Sevigny - chocou o público e despertou acaloradas discussões, mas falhava flagrantemente em ser bom cinema, talvez pela vocação de seu diretor, mais propenso ao escândalo do que a uma boa história. Reprovado no teste do tempo, "Kids" é, hoje em dia, no máximo o retrato cru de uma geração perdida. Em oposição a essa sua fragilidade narrativa, outro filme com temática semelhante - e lançado mais de uma década depois - consegue ser muito mais eficaz e impactante: "Alpha dog", escrito e dirigido por Nick Cassavetes, é contundente e tocante na mesma medida, proporcionando ao público tanto um filme policial angustiante quanto um drama familiar potente e dramaticamente sólido.

Baseado em um fato real - do qual Cassavetes foi obrigado a fazer pequenas alterações por motivos judiciais - "Alpha dog" é uma denúncia de grande impacto, sem nunca transformar-se, porém, em uma obra panfletária e vazia. Excepcional diretor de atores (herança de seu pai, o ator e diretor John Cassavetes), Nick arranca de seu elenco - tanto o veterano quanto o jovem - interpretações de grande intensidade, devido em parte ao roteiro realista e repleto de cenas que dão espaço a belos trabalhos de construção de personagens. Ben Foster, por exemplo, brilha como Jake Mazursky, jovem viciado em drogas explosivo e violento que acaba sendo o catalisador da tragédia ao dever dinheiro - e um tanto de respeito - ao traficante Johnny Truelove (Emile Hirsch, sensacional), filho de uma família de classe média desacostumado a ter seus caprichos negados. Furioso com a dívida e com as agressões de Mazursky, Truelove resolve, em um impulso inconsequente, sequestrar seu irmão caçula, Zach (Anton Yelchin, na medida exata de ingenuidade e docilidade), de apenas 15 anos. Enquanto a família do rapaz entra em desespero com seu desaparecimento, o traficante confia a seu melhor amigo, Frankie (Justin Timberlake), a posse do menino. Zach, um garotão virgem e em conflito com a mãe superprotetora (Sharon Stone), vê em Frankie e seu grupo - cercado de belas garotas e uma liberdade com que apenas sonha em sua casa - uma nova forma de vida e nem de longe percebe que, quanto mais o tempo passa, menores ficam suas chances de ser libertado.


Abrindo seu filme com vídeos caseiros de seus atores jovens ao som de "Over the rainbow" - e encerrando com a bela "Wild is the wind", na voz de David Bowie - Nick Cassavetes tem a sensibilidade ideal para contar uma história sufocante, que constrói sua tensão passo a passo, que permite à audiência entender os atos de seus protagonistas por mais equivocados que eles estejam. É certo que a simpatia da plateia fica com Zach, o inocente útil pego no meio de um furacão, mas o carisma de Justin Timberlake e Emile Hirsch consegue amenizar a falta de caráter de seus personagens - em especial de Frankie, criado por Timberlake com um misto de insegurança e compaixão que quase lhe transforma em mais uma vítima da violência que ele mesmo causa - voluntariamente ou não. E é fascinante a maneira como Cassavetes extrai de Sharon Stone seu melhor desempenho desde sua indicação ao Oscar por "Cassino", realizado onze anos antes: a entrevista de sua personagem no desfecho do filme é, provavelmente, uma das cenas mais emocionalmente brutais do cinema americano independente dos últimos anos.

"Alpha dog" é violento, é triste, é chocante. Conquista o público com personagens amorais e pouco simpáticos justamente por sua neutralidade ao falar de um estilo de vida irresponsável e cínico, capaz de destruir vidas sem grandes remorsos. E é o melhor trabalho de um cineasta que gosta de atores e de personagens de carne-e-osso, coisa rara na robotizada Hollywood das grandes bilheterias.

domingo

DIABOLIQUE

DIABOLIQUE (Diabolique, 1996, Morgan Creek Productions, 107min) Direção: Jeremiah Chechik. Roteiro: Don Roos, roteiro francês de Henri-Georges Clouzot, romance "Celle qui n'etait plus", de Pierre Boileau, Thomas Narcejac. Fotografia: Peter James. Montagem: Carol Littleton. Música: Randy Edelman. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Michael Seirton. Produção executiva: Gary Barber, Chuck Binder, Jerry Offsay, Bill Todman Jr. Produção: James G. Robinson. Elenco: Sharon Stone, Isabelle Adjani, Kathy Bates, Chazz Palminteri, Shirley Knight, Adam Hann-Byrd. Estreia: 22/3/96

Quer destruir um clássico do cinema? Primeiro, decida refilmá-lo, de preferência em outro idioma. Depois, escolha um diretor medíocre sem nada de marcante no currículo. Por fim, escale um elenco com o único objetivo de chamar a atenção da mídia: um símbolo sexual tentando ser levado a sério é uma boa opção. Junte a isso um visual desleixado e voilá, sua missão está cumprida. Pelo menos foi seguindo essa receita que os gananciosos executivos de Hollywood transformaram o aterrador "As diabólicas", de Henri-Georges Clozout, lançado em 1955 com Simone Signoret em um dos papéis principais, em "Diabolique", um suspense anêmico e esquecível estrelado por uma Sharon Stone em vias de receber uma indicação ao Oscar por "Cassino".

O filme original foi baseado em um romance cujos direitos foram cobiçados por ninguém menos que Alfred Hitchcock - que depois realizou "Um corpo que cai" baseado em outra história escrita pelos mesmos autores, Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Incensado pela crítica e vencedor do prêmio de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação de Críticos de Nova York, é um autêntico suspense psicológico, capaz de grudar o espectador na poltrona do início ao fim, graças à trama bem bolada e à direção inteligente e criativa - sem falar no trabalho da ótima Signoret. Sua versão americana, realizada quatro décadas depois, deixa de lado qualquer sutileza e elegância para atingir um público acostumado com doses excessivas de violência e efeitos especiais. Dirigido por Jeremiah Chechik (que depois assinaria o tenebroso "Os vingadores", antes de mudar-se de mala e cuia para a TV), "Diabolique" tem a seu favor a história interessante, mas deixa escapar a chance de ser uma obra de personalidade própria.



As protagonistas do filme são Nicole Horner (Sharon Stone) e Mia Baran (Isabelle Adjani), duas professoras de uma escola para meninos no interior dos EUA. Baran, que é uma das donas da instituição, é casada com seu sócio, o mesquinho e sórdido Guy (Chazz Palminteri), que a humilha e destrata diante de qualquer pessoa e que tem um caso tórrido com Nicole, que também sente-se menosprezada por ele. Cansadas de tanto sofrimento, as duas planejam sua morte, mas, depois de concretizá-la, passam a sofrer o assédio da detetive Shirley Vogel (Kathy Bates), uma mulher determinada a encontrar o desaparecido diretor da escola. Enquanto tentam lidar com a pressão, Nicole e Mia começam também a desconfiar que alguém sabe do que elas fizeram: o cadáver desaparece de onde deveria estar e suas roupas e objetos pessoais passam a surgir nos momentos mais imprevisíveis.

É impossível deixar de pensar em como a trama criada por Boileau e Narcejac poderia se prestar a um filme interessante mesmo sendo uma refilmagem. O desenvolvimento da história e seu final inesperado são realmente empolgantes, mas Chechik não parece desfrutar do mesmo entusiasmo: seus enquadramentos são burocráticos, suas tentativas de criar suspense são pífias e sua direção de atores é no mínimo sofrível. Apesar de ser uma boa atriz - e Scorsese provou isso pouco antes - Sharon Stone faz caras e bocas o tempo todo, num esforço desnecessário para parecer sexy e forte (verdade seja dita, nem mesmo com o figurino vulgar de sua personagem ela deixa de estar deslumbrante). Isabelle Adjani, por sua vez, está no pior momento de sua carreira, mantendo a mesma expressão assustada durante todo o filme - culpa da direção ou da falta de empenho da atriz? E se até mesmo o futuro criador da série "Lost", J.J. Abrahms faz uma pequena participação - como um documentarista - é de se estranhar apenas a presença de Kathy Bates em um elenco tão desigual: na pele da detetive que toma para si o encargo de resolver todo o caso do desaparecimento de Baran, a oscarizada atriz de "Louca obsessão" faz o possível para dar veracidade e dignidade ao filme.

"Diabolique" até serve como sessão noturna de um dia cansativo. Mas é uma vergonha quando comparado ao original, infelizmente indisponível para o grande público. Quem tiver a oportunidade, veja o primeiro. Quem não tiver e desejar apenas acompanhar uma história surpreendente pode até gostar.

quarta-feira

CASSINO

CASSINO (Casino, 1995, Universal Pictures, 178min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Nicholas Pileggi, Martin Scorsese, livro de Nicholas Pileggi. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: John Dunn, Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Rick Simpson. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Kevin Pollak. Estreia: 22/11/95

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Sharon Stone)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sharon Stone)

A filmografia de Martin Scorsese é, mais do que qualquer outra do cinema americano contemporâneo, uma filmografia que é melhor descrita por uma profusão de adjetivos. Depois do belo, romântico, devastador e opulento "A época da inocência", em que o cineasta exercitou seu lado menos violento - fisicamente falando - ele entregou à plateia o visceral, vigoroso, arrebatador e tenso "Cassino", em que volta a seu habitat natural com a mesma força que imprimiu em "Os bons companheiros", com quem, aliás, este seu filme dialoga em inúmeros momentos de estilo. Pode-se dizer que "Cassino" é o irmão mais velho e mais tranquilo de "Os bons companheiros", ainda que seja tão violento e amoral quanto.

Mais uma vez, como é costume em sua obra, Scorsese conta a história de um homem cercado de inimigos por todos os lados. No entanto, se em "Taxi driver" os rivais de Travis Bickle estavam em sua mente distorcida e em "Touro indomável" a paranoia de Jake LaMotta mostrava-se injustificada, em "Cassino" as ameaças contra o protagonista Sam Rothstein são bem concretas e tem a forma das pessoas que ele mais ama: a esposa - ex-prostituta e viciada em drogas e o melhor amigo - um gângster beligerante e temperamental. Tal como uma personagem de tragédias shakespereanas, Rothstein vive em constante tensão e medo... e pessoas com medo tendem a ser perigosas, como todo mundo sabe.

Baseado em um livro do escritor Nicholas Pileggi - cujos direitos foram comprados para o cinema antes mesmo do lançamento - "Cassino" é tudo que se espera de um filme com a assinatura de Martin Scorsese (e lá veem de novo mais adjetivos): é cruel, é ágil, é tecnicamente impecável, excitante e chocante, com direito a algumas das cenas mais violentas do cinema ianque nos anos 90. Dirigido com uma energia e uma paixão explícitas, é também um exercício de estilo e a prova inconteste de que, sob o comando de um diretor de verdade, Sharon Stone, além de linda e sexy é uma atriz de grande garra e talento. Premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela consegue um feito raro: ofuscar Robert DeNiro e  Joe Pesci (repetindo trejeitos de seu trabalho oscarizado de "Os bons companheiros".



Belíssima, elegante e chique mesmo cheirando carreiras e mais carreiras de cocaína, Stone vive (de corpo e alma) Ginger McKenna, uma prostituta de luxo que cai nas graças de Sam Rothstein (Robert DeNiro em um de seus últimos bons momentos nos últimos 15 anos), o gângster judeu que controla o Tangiers, um dos maiores cassinos de Las Vegas. Incapaz de manter-se fiel ao marido - em especial porque é dependente do ex-cafetão Lester Diamond (James Woods, sensacional) - ela acaba sendo a maior responsável, junto com Nicky Santoro (Joe Pesci), pela derrocada moral e financeira do marido. Mesmo que não seja a protagonista absoluta do filme - é quase uma coadjuvante, ainda que de bastante peso - Stone é o catalisador de todas as ações e reações da trama. Mesmo que incontáveis crimes aconteçam a seu redor - e Scorsese faz questão de mostrá-los em detalhes - é em Ginger que Sam Rothstein foca sua vida. E talvez justamente aí resida seu maior erro.

"Cassino" usa e abusa de cortes e movimentos de câmera ousados e complexos. Levando ao ápice a estrutura testada com propriedade em "Os bons companheiros", o cineasta e sua editora Thelma Schoonmaker exigem atenção extrema da plateia, ao alternar não apenas uma narração em off, mas duas: a história é contada sob os diferentes pontos de vista tanto de Rothstein quanto de Nicky Santoro, o que faz com que cada pequeno detalhe seja de importância sumária para o entendimento da história contada. Nunca Scorsese foi tão visual quanto em "Cassino": os cenários, os figurinos exuberantes, a edição e o uso exemplar da trilha sonora são elementos de uma orquestra regida com maestria por um cineasta no auge de sua maturidade artística. É de se questionar apenas por que a Academia praticamente ignorou mais essa obra-prima sua em detrimento de bobagens sentimentalóides como "Apollo 13". Apenas Sharon Stone foi indicada ao Oscar mas, apesar de ser quase uma favorita, perdeu a estatueta para Susan Sarandon.

"Cassino" é uma tour de force de um cineasta acostumado a presentear seu público com filmes no mínimo imperdíveis. É longo, mas ágil o bastante para jamais cansar o espectador. É violento, mas nunca chocante demais para afugentar os mais sensíveis. E é, acima de tudo, uma história contada com absoluto domínio da técnica cinematográfica.

domingo

INSTINTO SELVAGEM

INSTINTO SELVAGEM (Basic instinct, 1992, Carolco Pictures, 127min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Anne Kuljian. Produção executiva: Mario Kassar. Produção: Alan Marshall. Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzunza, Jeanne Tripplehorne, Leilani Sarelle, Wayne Knight, Stephen Tobolowski, Dorothy Malone. Estreia: 20/3/92

2 indicações ao Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original

Bissexual, usuária de cocaína, praticante de várias modalidades de sexo, brilhantemente inteligente e suspeita de um violento assassinato. Essas são as características de Catherine Tramell, a improvável heroína de um dos maiores e mais controversos sucessos de bilheteria dos anos 90, o já icônico "Instinto selvagem". Recusado por várias atrizes devido a seu teor potencialmente polêmico, o papel de Tramell acabou nas mãos de Sharon Stone, que já havia trabalhado com o diretor holandês Paul Verhoeven em "O vingador do futuro".
Pode ter sido um desses casos escritos nas estrelas porque o fato é que Catherine Tramell e Sharon Stone parecem, desde o primeiro momento em que a atriz entra em cena, feitas uma para a outra. Devido a seu trabalho como a sedutora e ambígua personagem criada pelo roteirista Joe Ezsterhas - que recebeu de pagamento o então recorde de 1 milhão de dólares - Stone transformou-se, da noite para o dia, no maior símbolo sexual da década, povoando o imaginário masculino - e por que não? - o feminino também.

A trama de “Instinto selvagem” se passa em San Francisco. Um roqueiro é violentamente assassinado a golpes de picador de gelo durante o ato sexual com uma loura escultural – em uma cena pra lá de excitante. Chamado à cena do crime, o policial Nick Curran (Michael Douglas em um período de bons filmes) logo fica sabendo que a vítima tinha um caso com a bela Catherine Tramell, escritora de livros policiais eróticos. Além de parceira sexual do roqueiro, Tramell também havia descrito um assassinato nos mesmos moldes do ocorrido em um de seus romances. Ao lado do parceiro Gus (George Dzunza), Curran procura a escritora, mas ela, apesar de parecer um tanto fria e racional, passa com louvor no detector de mentiras. Ainda na pele de suspeita, ela seduz o policial, ele mesmo com vários problemas a resolver: ainda se curando de vícios em drogas e bebida, ele é obrigado por seu departamento a ter consultas psicológicas com sua ex-namorada, Beth Garner (Jeanne Tripplehorn), devido à morte acidental de um civil, causada por ele. Envolvido com a bela possível assassina, Curran tenta provar sua inocência, ainda que os fatos comecem a se acumular contra ela.


Fotografado com requinte e dono de uma parte técnica impecável – edição, trilha sonora, som – “Instinto selvagem” ainda por cima tem uma qualidade que o eleva a vários patamares sobre seus colegas de gênero: a inteligência do roteiro. Repleta de pistas falsas, reviravoltas verossímeis e sequências de tirar o fôlego – sejam elas de ação ou puramente sexuais (e elas são várias e bem desinibidas) – a trama de Ezterhas conquista desde o primeiro minuto, nunca deixando o público antecipar o que virá a seguir. O que é uma regra básica de roteiro policial, mas que é constantemente negligenciado. Só a cena do primeiro interrogatório de Tramell merece figurar em qualquer antologia, tanto de suspense quanto de erotismo. Atire a primeira pedra quem consegue esquecer a famosa cruzada de pernas de Stone...

E erotismo é o que não falta em "Instinto selvagem". Fetiches desfilam pela tela sem pudor - e são dirigidos com visível gosto por Verhoeven. Bondage, lesbianismo, sexo grupal, sexo violento... tudo é permitido no universo do filme, ou ao menos mais comum do que na maioria dos produtos hollywoodianos. Tudo bem que a sofisticação quase exagerada que permeia o longa - carros belíssimos, mansões deslumbrantes, mulheres gostosas - imediatamente o afasta do grosso do público, mas o roteiro e a direção são espertos o bastante para nunca deixar a atenção ser desviada do que realmente importa: a história.

Logo que "Instinto selvagem" estreou - despertando a ira de ativistas homossexuais - Sharon Stone espalhou aos quatro ventos que as cenas de sexo entre ela e Michael Douglas foram reais e o ator declarou ser viciado em sexo. Não é preciso dizer que foi um bom marketing e o filme tornou-se um sucesso enorme no mundo todo. Logicamente um bom boato pode fazer maravilhas por um produto cinematográfico, mas não há como negar que o filme de Verhoeven mereceu todo o auê. Infelizmente, a ganância, como sempre, falou mais alto, e uma intragável e desnecessária continuação estreou anos depois. Merecidamente foi execrado.

sábado

O VINGADOR DO FUTURO

O VINGADOR DO FUTURO (Total recall, 1990, Carolco International, 113min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ronald Shusett, Dan O'Bannon, Gary Goldman, conto "We can remember if you wholesale", de Philip K. Dick. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Carlos Puente, Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould. Casting: Mike Fenton, Valorie Messalas, Judy Taylor. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Buzz Feitshans, Ronald Shusett. Elenco: Arnold Schwarzennegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael Ironside. Estreia: 01/6/90

2 indicações ao Oscar: Som, Efeitos Sonoros
Oscar especial de Efeitos Visuais

Uma das mais famosas obras do escritor Philip K. Dick deu origem ao clássico "Blade Runner, o caçador de andróides", que é lembrado bem mais por sua inteligência do que por seu teor adrenalínico. Um dos mais bem-sucedidos filmes do cineasta holandês Paul Verhoeven é "Robocop, o policial do futuro", blockbuster que usou e abusou de ação, violência e efeitos visuais para atingir seu público. O que resulta na união entre esses dois estilos tão diferentes de se contar uma história  é justamente "O vingador do futuro", um filme de ficção científica quase cerebral, caríssimo e estrelado pelo astro-mor do gênero "pancadaria": Arnold Schwarzenegger. E é justamente essa diferença de estilos que ajuda - e também atrapalha um pouco - no resultado final.

Anos-luz à frente de outros filmes de aventura que são lançados nos verões americanos, "O vingador do futuro" tem a seu favor uma história bem mais interessante e intrigante do que o normal: em 2084, Marte é uma colônia da Terra, governada pelo déspota Connhagen (Ronny Cox) e em vias de eclodir em uma guerra civil. Praticamente escravizados e sem direito nem mesmo à quantidade básica de oxigênio, os rebeldes são liderados por um misterioso líder, que vive escondido. Schwarzenegger vive Doug Quaid, um operário da construção civil que, intrigado por constantes pesadelos que os colocam em Marte acompanhado de uma morena desconhecida, resolve implantar em seu cérebro - através de uma agência de viagens virtuais - , lembranças de uma viagem de férias ao planeta. Acontece que, durante o processo, algo dá muito errado e Quaid descobre que na verdade ele não só já esteve em Marte como também teve sua memória apagada po razões que ele terá que descobrir antes que seja executado. E nem mesmo sua bela esposa, a misteriosa Lori (uma Sharon Stone pré-"Instinto selvagem") parece ser totalmente inocente.

A trama de "O vingador do futuro" é intrincada mesmo, assim como parece. E é essa complexidade em sua história que faz com que o filme de Verhoeven saia da vala comum dos filmes de verão descerebrados. As cenas repletas de violência e ação comandadas pelo cineasta dividem um espaço generoso com um roteiro repleto de pistas falsas, reviravoltas e até mesmo uma espécie de metáfora a respeito do fascismo - sim, Schwarzenegger, futuro governador da Califórnia, fez um filme onde o fascismo, ainda que mal disfarçado, era o vilão. A violência, aliás, é outra qualidade de "Total recall": enquanto hoje em dia qualquer cena mais forte logo vira motivo de gritaria, o filme de Schwarza e companhia não tem medo de pegar pesado, já que até mesmo um cadáver é utilizado como escudo humano. Tudo bem que o filme recebeu cortes e até a temível ameaça de um selo "X" da censura americana, mas é corajoso o bastante para ser elogiado.

O problema de "O vingador do futuro", no entanto, começa em seu terço final. A impressão nítida que se tem é que Verhoeven deixou de pensar nas implicações político/sociais da trama para concentrar-se  em cenas de ação de cair o queixo, violência desmedida e efeitos visuais caprichados - ainda que muito datados hoje em dia (e não pode-se deixar de falar do visual extremamente cafona...) Essa decisão enfraquece o que poderia ser ainda o melhor filme da carreira de Schwarzenegger (título que "O exterminador do futuro 2" mantém com louvor). Como está, é uma ficção científica bem acima da média, mas muito aquém do que poderia ter sido e muito longe de tornar-se um clássico como o já citado "Blade Runner".

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...