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sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

quarta-feira

ÁGUA PARA ELEFANTES


ÁGUA PARA ELEFANTES (Water for elephants, 2011, Fox 2000 Pictures, 122min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Sara Gruen. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Kevin Halloran. Produção: Gil Netter, Erwin Stoff, Andrew R. Tennenbaum. Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Jim Norton. Estreia: 22/4/2011

Quando "Água para elefantes" estreou nos EUA, em abril de 2011, o ator Robert Pattinson ainda estava preso aos filmes da série "Crepúsculo" - que tanto foram responsáveis por sua popularidade (especialmente junto ao público adolescente feminino) quanto pela falta de respeito por parte da crítica a seu trabalho, situação que mudaria somente anos mais tarde, graças a sua associação com diretores de prestígio, como David Cronenberg. Mas, apesar do pouco caso da imprensa em relação a seus dotes artísticos, é inegável que boa parte do sucesso de bilheteria do filme, adaptado do romance homônimo de Sara Gruen, se deve à sua presença. Com uma trama derivativa e pouco original, "Água para elefantes" se beneficia de uma produção caprichada para disfarçar a direção morna de Francis Lawrence, que consegue deixar apagada até mesmo a normalmente carismática Reese Witherspoon.

A trama de "Água para elefantes" - e sua subsequente adaptação para o cinema - explora (nem sempre a contento) todos os elementos do que se convencionou chamar de "história de amor à moda antiga": um herói íntegro e romântico; uma mocinha sofrida mas decidida a lutar contra tudo e todos; uma paixão proibida; um vilão crudelíssimo e um cenário extravagante. Senão vejamos: o jovem Jakob Jankowski (Robert Pattinson) vê sua vida virar de cabeça para baixo quando perde a oportunidade de fazer a prova final de sua faculdade de Veterinária devido à trágica morte dos pais e, com isso, sua derrocada financeira que o obriga até mesmo a abandonar a casa onde morava. Por obra e graça do destino - ou dos desvãos das mãos caprichosas da escritora - ele acaba indo trabalhar como operário em um circo de propriedade do violento August (Christoph Waltz vivendo dois personagens amalgamados em um único, para desprazer dos leitores da obra original). August trata os empregados de seu circo, o Benzini Bros., com desprezo e tampouco se importa em ser cuidadoso com os animais que se apresentam pelas cidades onde o espetáculo é montado - até mesmo sua relação com a esposa, Marlena (Reese Witherspoon), mais jovem e uma das estrelas da companhia, é construída sobre uma base de medo e tensão. Quando Rosie, um elefante fêmea é adquirida para incrementar os shows, Jakob se aproveita de sua qualificação profissional para tornar-se seu cuidador e treinador oficial - e se apaixona irremediavelmente por Marlena. O romance entre os dois é sufocado pela onipresença de August, que jamais aceitaria perder a mulher para um empregado.

 

Com um prólogo interessante que apresenta o veterano Hal Holbrook como um Jakob idoso e nostálgico de seus dias no circo, o filme de Francis Lawrence - diretor de videoclipes de Britney Spears, Jennifer Lopez, Black Eyed Peas e Lady Gaga e da cultuada adaptação de "Constantine" (2005) - cria uma atmosfera envolvente, sublinhada pela trilha sonora épica de James Newton Howard e pela recriação dos anos da Depressão norte-americana dos anos 1930, mas peca ao não dar a mesma importância ao desenvolvimento dos personagens, em especial os secundários. O romance entre os protagonistas não convence por uma perceptível falta de química entre Reese Witherspoon - cujo talento é indiscutível - e Pattinson, que ficou com um papel para o qual foram testados também Andrew Garfield, Channing Tatum e Emile Hirsch: não existe entre eles aquela faísca que deixa impossível ao espectador não torcer por seu final feliz, em parte por problemas do roteiro (que não permite ao público acompanhar o florescer de seus sentimentos) e em parte pela edição que se pretende ágil mas é apenas apressada. Nem mesmo Christoph Waltz consegue escapar dos problemas, repetindo os trejeitos de sua criação mais famosa, o nazista Hans Landa, de "Bastardos inglórios" (2009), e criando um vilão unidimensional, sem qualquer nuance que o faça parecer mais do que apenas um antagonista cruel. E, golpe de misericórdia, o ambiente circense é subaproveitado, servindo unicamente como um mero pano de fundo - e nem a bela fotografia de Rodrigo Prieto consegue valorizá-lo.

No fim das contas, "Água para elefantes" é apenas um romance morno, cujo visual disfarça (relativamente bem) uma alma de telenovela. Com personagens rasos e uma trama folhetinesca que agrada aos fãs do gênero (e do par central de atores), é uma produção que fica muito a dever até mesmo em termos de emoção. E é de se questionar a qualidade geral de um filme quando seu maior destaque fica por conta de um elefante - Rosie, que serve de ponto fundamental para o clímax, rouba a cena sempre que aparece e desperta mais empatia do que o casal protagonista. Não que isso faça diferença para quem lotou as salas de exibição, mas tanto Pattinson quanto Witherspoon não estavam em seus melhores dias.


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

sexta-feira

THOR

 

THOR (Thor, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 115min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Don Payne, estória de J. Michael Straczynski, Mark Protosevich, personagens criados por Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Paul Rubell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Patricia Whitcher. Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgard, Kat Dennings, Clark Gregg, Colm Feore, Idris Elba, Rene Russo. Estreia: 17/4/2011 (Sidney)

 A princípio pode parecer bastante estranho que um cineasta de tanto prestígio quanto Kenneth Branagh - indicado aos Oscar de ator e diretor aos 29 anos, por "Henry V" (1989) - tenha sido o escolhido para comandar "Thor", uma produção nitidamente comercial que dava continuidade às adaptações para as telas dos super-heróis da Marvel, iniciadas com o sucesso estrondoso de "Homem de ferro" (2008). Porém, basta ver os conflitos familiares na origem do personagem para compreender as razões por tal escolha: famoso por suas transposições das peças de Shakespeare para o cinema, Branagh viu ecos da obra do bardo na relação entre os protagonistas e, como fã dos quadrinhos desde a infância, aceitou o desafio de imprimir uma visão artística a um produto meramente mercadológico. Não se pode dizer que conseguiu atingir totalmente seus objetivos, mas em termos financeiros - com quase 450 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - deixou o estúdio plenamente satisfeito e deu mais um passo em direção a seu "Os Vingadores", lançado em 2012.

Como é comum em filmes de origem, "Thor" se dedica, em boa parte de suas quase duas horas de duração, a contar os motivos que levaram o protagonista a sair de seu planeta natal, Asgard, e chegar à Terra, onde irá, futuramente, fazer parte da S.H.I.E.L.D. - organização que será responsável pela reunião de todos os heróis da Marvel para fins de proteção do planeta. A trama começa narrando uma batalha, acontecida em 965 A.C., quando um exército de Asgard impede os temíveis Gigantes Gelados de transformarem a Terra em um planeta devastado através dos poderes do Tesseract (um artefato com poderes ilimitados). O objeto fica, então, em poder do rei de Asgard, o poderoso Odin (Anthony Hopkins em papel oferecido a Mel Gibson). Anos mais tarde, uma tentativa de invasão da sala onde está guardado o objeto causa uma ruptura no clã de Odin: para defender a paz, seu filho mais velho e herdeiro do trono, Thor (Chris Hemsworth), desafia as orientações paternas e se inssurge contra os invasores, causando o rompimento da antiga trégua. Como punição, Odin envia o rapaz para a Terra (Midgard) - sem o martelo que lhe concede seus poderes - mas não percebe que seu filho adotivo, o sorrateiro Loki (Tom Hiddleston), está em negociações com os inimigos do reino para que possa ser coroado o novo soberano. Na Terra, enquanto isso, Thor se apaixona pela bela cientista Jane Foster (Natalie Portman) - e terá que recuperar seu martelo para impedir a destruição do planeta, consequência das articulações de seu ressentido irmão.

 

Não é difícil perceber, no roteiro de "Thor", as tais relações com a obra de Shakespeare - o próprio Tom Hiddleston enxerga, em seu Loki, pontos de semelhança com Edmund, um dos personagens da clássica "O rei Lear". A difícil relação entre pai e filhos - detalhe que chamou a atenção de Anthony Hopkins e o fez aceitar o papel de Odin, saindo de uma quase aposentadoria - é o grande trunfo dramático do filme de Branagh, e um atrativo a mais em um filme que, do contrário, poderia resumir-se a apenas mais um show pirotécnico. Utilizando-se de elementos da mitologia nórdica - de forma explícita ou espalhadas em citações visuais e em diálogos aparentemente banais -, "Thor" é uma produção que oferece exatamente o que seu público-alvo procura, equilibrando sequências de ação com momentos que permitem o brilho de seu elenco, em especial Tom Hiddleston, que rouba a cena com seu Loki, ao mesmo tempo cruel e dotado de um senso de humor que conquista de imediato a plateia. E se Chris Hemsworth parece o intérprete ideal para viver o super-herói do título, ele teve - assim como Thor - de disputar o papel com... seu próprio irmão, Liam Hemsworth, que, quase como prêmio de consolação, foi viver um dos personagens principais da série "Jogos vorazes".

A disputa entre os Hemsworth, porém, foi apenas a reta final pela escolha do ator que iria personificar um dos mais icônicos ídolos dos quadrinhos. Um projeto que já datava de 1991, quando Stan Lee em pessoa aproximou-se de Sam Raimi - vindo do elogiado "Darkman: vingança sem rosto" (1990) - para dirigir uma adaptação a ser produzida pela 20th Century Fox, "Thor" só voltou a ser objeto de interesse de Hollywood com o êxito de "Homem de ferro" e a decisão da Marvel em criar todo um universo cinematográfico. Cineastas como Guillermo Del Toro e Steven Spielberg foram cogitados para comandar o filme - mas apenas com a contratação de Kenneth Branagh as coisas começaram a andar, e mesmo assim, a seleção para o protagonista movimentou a indústria. De astros consagrados como Brad Pitt e Daniel Craig a jovens promessas, como Channing Tatum, Charlie Hunnam e Joel Kinnaman, o papel do herdeiro do trono de Asgard esteve vago até que Chris - que já havia provado o gostinho da fama com "Star Trek" (2009) - finalmente entrou em cena e assumiu a bronca. O sucesso de bilheteria - e até a boa vontade da crítica - mostraram que o público aprovou a decisão.

quarta-feira

LOUCAMENTE APAIXONADOS


LOUCAMENTE APAIXONADOS (Like crazy, 2011, Paramout Vantage, 89min) Direção: Drake Doremus. Roteiro: Drake Doremus, Ben York Jones. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Jonathan Alberts. Música: Dustin O'Halloran. Figurino: Mairi Chisholm. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachel Ferrara. Produção executiva: Steven Rales, Mark Roybal, Audrey Wilf, Zygi Wilf. Produção: Jonathan Schwartz, Andrea Sperling. Elenco: Anton Yelchin, Felicity Jones, Jennifer Lawrence, Charlie Bewley, Alex Kingston, Oliver Muirhead, Chris Messina. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

Anna Gardner é uma jovem britânica que está em Los Angeles estudando Jornalismo. Jacob Helm sonha em fazer carreira como desenhista de móveis. Os dois se apaixonam perdidamente e fazem planos de passar o resto da vida juntos. Decidida a permanecer ao lado do namorado por mais tempo que o permitido em seu visto, Anna acaba por ver-se proibida de voltar aos EUA e retomar a relação. Desesperados com a situação, os namorados resolvem manter o relacionamento mesmo à distância, enquanto tentam resolver a questão. Todas as alternativas, no entanto, soam inadequadas: ele está começando uma bem estruturada carreira profissional e não vê sentido mudar de país, e um casamento (que pode dar um green card a ela) parece algo radical demais - e tampouco é garantia de sucesso, uma vez que o processo na imigração não é tão simples. Nesse meio-tempo, depois de uma breve separação, eles se envolvem com outras pessoas, mas não conseguem esquecer a força de seus sentimentos.

Com essa trama simples e direta, que fala direto ao coração do público, o cineasta Drake Doremus fez de "Loucamente apaixonados" um dos maiores sucessos do cinema independente de 2011: de sua estreia, em Sundance (de onde saiu com dois prêmios) até o lançamento comercial, aproximadamente um ano mais tarde, o filme foi exibido em festivais pelo mundo (Toronto, Vancouver, San Diego, Austin, Amsterdam, Montreal, Estocolmo, Oslo) e conquistou a crítica com sua delicadeza e energia juvenil e romântica. Longe de ter se tornado um campeão de bilheteria - ao menos dentro do conceito de lotar salas de exibição e formar filas quilométricas - e ignorado por cerimônias de premiação mais tradicionais (Oscar, Golden Globe, SAG Awards), o filme de Doremus cativa justamente por fugir das receitas mais óbvias de sucesso comercial e abraçar uma estética mais livre de amarras ao mesmo tempo em que permite ao espectador reconhecer nas telas todos os elementos que fazem do gênero um dos mais populares do cinema. Mais próxima do dolorido "Namorados para sempre" do que do alto astral "Questão de tempo" - todos lançados no mesmo ano -, a história de amor e desencontros entre Anna e Jacob se move com desenvoltura entre bons e maus momentos, delícias e tormentos, paixão e saudade, confiança plena e dúvidas angustiantes, sempre amparada no desempenho fascinante de seus dois atores centrais, um trunfo do qual Doremus lança mão sem o menor resquício de vergonha.

 

Donos de uma química palpável que salta das tela, Anton Yelchin e Felicity Jones são a alma de "Loucamente apaixonados". Improvisando boa parte dos diálogos - depois de exaustivos ensaios -, os jovens atores se entregam nitidamente às desventuras do casal de protagonistas, a ponto de não dar espaço algum para qualquer dúvida da plateia de que foram feitos realmente um para o outro. Mesmo quando a realidade dura se impõe à fantasia romântica, ambos são capazes, sem precisar mais do que expressões faciais ou movimentos discretos, de transmitir ao espectador um leque de emoções que resume todo o turbilhão pelo qual passam. Yelchin, primeira escolha do cineasta para viver Jacob, está encantador - e sua morte precoce, em 2016, com apenas 27 anos, parece ainda mais trágica quando se vislumbra o que o futuro poderia lhe oferecer. Felicity - premiada em Sundance e posteriormente alçada à grande promessa de Hollywood graças à sua indicação ao Oscar por "A teoria de tudo" (2014) - conquistou o diretor a ponto de estrelar seu filme seguinte, "Paixão inocente" (2013) e mostra um carisma e uma delicadeza raras. O trabalho dos dois é tão brilhante que até mesmo a sempre ótima Jennifer Lawrence - que seria oscarizada dois anos depois, por "O lado bom da vida" (2013) - consegue ser eclipsada (mesmo que, quando em cena, demonstre todo o seu potencial). 

Ao apresentar vários elementos consagrados pelo cinema independente norte-americano contemporâneo - edição ágil, trilha sonora moderna - e utilizá-los a seu favor, "Loucamente apaixonados" aponta o talento de Drake Doremus, um cineasta ainda restrito a pequenos circuitos, com filmes interessantes mas pouco vistos, como "Quando te conheci" (2015) e "Amor a três" (2019). Conduzindo sua história com sutilezas visuais e dotado de grande senso de ritmo, Doremus evita o sentimentalismo fácil e aposta em uma trama de forte apelo popular sem deixar-se contaminar pelo caminho mais óbvio. Seu filme é simpático até mesmo quando se torna incômodo - afinal, a realidade como mostrada sob suas lentes é amenizada pela fotogenia de seus astros centrais e pela inteligência de um roteiro cuja principal inspiração é a vida como ela é, ainda que vista por um ângulo poético e generoso.

sábado

DUBLÊ DO DIABO


O DUBLÊ DO DIABO (The devil's double, 2011, Corsan/Staccato Films, 109min) Direção: Lee Tamahori. Roteiro: Michael Thomas, livro de Latif Yahia. Fotografia: Sam McCurdy. Montagem: Luis Carballar. Música: Christian Henson. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/Caroline Smith. Produção executiva: Arjen Terpstra, Harris Tulchin. Produção: Paul Breuls, Michael John Fedun, Emjay Rechsteiner, Catherine Vandeleene. Elenco: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Raad Rawi, Philip Quast. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

O que você faria se fosse um sósia quase perfeito do filho de um dos terroristas mais procurados do mundo? Para Latif Yahia não houve qualquer tipo de escolha: idêntico a Uday, o filho mais velho de Saddam Hussein, Latif foi obrigado a aceitar o "convite" para tornar-se o dublê de corpo do excêntrico e tempestuoso herdeiro - caso contrário, toda a sua família corria sérios riscos de pagar o pato. Testemunha de situações de extrema violência e excessos de todos os tipos, Latif pode contar sua história, com detalhes, em um livro onde descrevia seu período sob as ordens de Hussein - uma fase encerrada em 1991. Dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori, "O dublê do diabo" estreou no Festival de Sundance de 2011 e conquistou boa parte da crítica, principalmente graças ao esforçado
desempenho de Dominic Cooper nos dois papéis centrais. Apesar de contestado por várias testemunhas dos fatos - inclusive confidentes de Uday, um guarda do palácio onde ele vivia, um dos cirurgiões da família Hussein e até um agente da CIA - o livro inspirou um filme de fôlego, bem equilibrado entre seus gêneros (drama e ação) e interessante do princípio ao fim. Se tudo aconteceu da forma como narrada pelo autor pode até ser algo duvidoso, mas o fato é que dramaticamente a coisa funciona muito bem.

Revelado ao mundo pelo elogiado "O amor e a fúria" - premiado com um prêmio no Festival de Veneza de 1994 - e abraçado pelo cinema mainstream com "Na teia da aranha" (2001), estrelado por Morgan Freeman e "007 - Um novo dia para morrer" (2002), Lee Tamahori oferece, a "O dublê do diabo", seu talento em equacionar de forma consistente, a violência a que os personagens estão suscetíveis e o drama do protagonista em ser obrigado a conviver com o risco constante. Segundo o livro de Latif Yahia - e consequentemente o roteiro do filme -, ser o sósia de Hussein (com direito a cirurgias plásticas para aumentar ainda mais as semelhanças entre os dois) era permanecer em constante estado de tensão. Não bastasse ser o filho de um líder político dos mais controversos, Uday ainda tinha, a ser considerado, uma extravagância ímpar em termos de orgias sexuais, uso abusivo de drogas e álcool e um narcisismo dos mais doentios. A Latif cabia administrar tudo isso enquanto tentava, das mais diversas maneiras, encontrar um modo de libertar-se de seu pesadelo. Enquanto algumas testemunhas do caso tenham insistido que o rapaz se aproveitava da semelhança com Hussein para arrumar mulheres, o filme opta por comprar a narrativa de Yahia - até mesmo porque sua versão dos fatos seja bem mais atraente e dramaticamente potente.


É difícil não se deixar envolver pelo roteiro de Michael Thomas e pela direção energética de Tamahori: assim que a história começa e Latif se vê aprisionado por um mundo onde atentados e assassinatos são moeda corrente, o público imediatamente compra a ideia. Boa parte desse resultado positivo se deve ao desempenho muito além de correto do jovem Dominic Cooper. Mais conhecido do grande público por seu trabalho como o noivo de Amanda Seyfried em "Mamma Mia!" (2008), o ator inglês trabalha com sutilezas para realçar as diferenças entre seus dois personagens - enquanto parece se divertir na pele do irresponsável Uday Hussein, arrebata a simpatia da audiência ao interpretar Latif Yahia, um homem que presencia atrocidades com frequência assustadora e busca manter a sanidade mental para sobreviver. No terço final do filme, quando Yahia finalmente resolve arriscar tudo para fugir, a direção de Lee Tamahori mostra um cineasta capaz de manipular com segurança os recursos à sua disposição: por mais que não seja exatamente inovador ou surpreendente, o filme não deixa muito espaço disponível para o tédio - durante seus 109 minutos, entrega o que foi proposto, e de quebra, apresenta alguns momentos bastante tensos e violentos, como a sequência em uma boate que quase termina em uma carnificina e o último embate entre os dois personagens principais. Quem procura um bom filme policial vai aplaudir - e quem busca um drama baseado em uma história real também não terá do que reclamar.

Infelizmente, apesar das qualidades redentoras, "O dublê do diabo" não é um filme perfeito - e isso tem pouco a ver se a história contada é real ou pura imaginação de Latif Yahia. A direção de Lee Tamahori é correta, a atuação de Dominic Cooper tem momentos excelentes e tecnicamente o filme é admirável. Porém, nada disso afasta uma sensação de que falta alguma coisa no resultado final. Talvez seja um aprofundamento na vida de Yahia fora de sua relação com Hussein - sua família é brevemente citada mas nunca é permitido ao espectador saber o quanto de sua situação é conhecida por ela, uma vez que, segundo o sósia, ele tinha sido dado como morto na guerra. Talvez seja uma espécie de maniqueísmo na construção dos personagens, que parecem servir ao roteiro mais do que a um retrato da realidade. Ou ainda, no fato de todos os personagens (incluindo aí Saddam Hussein em rápida cena) falarem inglês mesmo com toda a ação se passando no Iraque do final dos anos 1980 (antes, portanto, do atentado ao World Trade Center): é uma escolha compreensível para uma produção que ambiciona o mercado norte-americano, mas não consegue deixar no ar um certo desconforto ao espectador mais exigente em termos de realismo. Nada disso atrapalha, no entanto, a quem procura um entretenimento de qualidade e bem acima da média.

quarta-feira

O DESPERTAR

O DESPERTAR (The awakening, 2011, StudioCanal/BBC Films, 102min) Direção: Nick Murphy. Roteiro: Stephen Volk, Nick Murphy. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Victoria Boydell. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jenny Borgars, Will Clarke, Olivier Courson, Robin Guise, Peter Hampden, Norman Merry, Joe Oppenheimer, Peter Raven, Carole Sheridan. Produção: Sarah Curtis, Julia Stannard, David M. Thompson. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, Isaac Hempstead Wright, Shaun Dooley. Estreia: 16/9/11 (Festival de Toronto)

Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.

A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.


O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.

Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!

domingo

OS 3

OS 3 (Os 3, 2011, Warner Bros/Teleimage/Cinema SportClub, 80min) Direção: Nando Olival. Roteiro: Thiago Dottori, Nando Olival. Fotografia: Ricardo Della Rosa. Montagem: Daniel Rezende. Figurino: Pamela Tomioka. Direção de arte: Clô Azevedo. Produção executiva: Claudia Buschel, Wellington Pingo. Produção: Nando Olival, Ricardo Della Rosa. Elenco: Gabriel Godoy, Victor Mendes, Juliana Schalch, Sophia Reis. Estreia: 07/10/11

Cazé, Camila e Rafael são jovens universitários recém-chegados à São Paulo, com sonhos e objetivos bem definidos, mas sem muitas condições financeiras para sustentá-los além do básico. Em uma festa, se conhecem, se conectam imediatamente, tornam-se amigos e resolvem dividir um amplo apartamento em um prédio pouco atraente da capital. Para evitar quaisquer complicações futuras, combinam evitar qualquer envolvimento emocional ou sexual entre eles, que passam a ser conhecidos na faculdade como "Os 3", tamanho o grau de sua proximidade. No final do período de faculdade, quando a separação parece inevitável - e o trato de manterem-se imunes a tentações da carne já foi rompido e revelado - eles recebem uma proposta irrecusável: participarem de um reality show cujo tema é suas próprias vidas. O objetivo, além de atingir um público que acompanharia seus passos 24 horas por dia através da Internet, é vender os objetos consumidos em seu dia-a-dia. Porém, o que parecia uma ideia simples se torna cada vez mais complicada quando os amigos percebem que, para manterem suas personalidades, serão obrigados (por eles mesmos) a criar personagens e situações que prendam o interesse dos espectadores. Aos poucos, nem mesmo eles passam a discernir o que é real e o que é encenação.

Com essa premissa atual, instigante e por vezes surreal, o cineasta Nando Olival fez sua estreia como diretor-solo, depois de dividir a direção de "Domésticas" (2001) com Fernando Meirelles. Em "Os 3" ele faz uso de uma estética contemporânea e uma edição ágil para enfatizar o tom de urgência e efemeridade de uma geração cujo comportamento está intimamente ligado à tecnologia e às redes sociais e são exemplos claros da famosa "modernidade líquida" de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Sem soar panfletário ou didático, Olival conta uma história universal sem abandonar as raízes brasileiras, utilizando São Paulo e seu ambiente muitas vezes opressivo como um quarto protagonista: mesmo que a trama pudesse se passar em qualquer outra metrópole, a terra da garoa serve como moldura perfeita para uma narrativa que frequentemente esbarra em uma quase claustrofobia emocional e física e que, conforme vai se desenvolvendo, substitui a leveza inicial por um minimalista pesadelo orwelliano. Ainda assim, apesar da seriedade do tema e de levantar uma série de questionamentos pertinentes, o filme não deixa de ser, em momento algum, o que pretende ser: entretenimento.


Com um trio de protagonistas bastante talentosos, "Os 3" demonstra, em pouco menos de uma hora e meia, que não é preciso um elenco repleto de astros globais para contar uma história interessante - ainda que Gabriel Godoy, que vive Cazé, tenha posteriormente entrado no elenco de duas novelas, em papel de destaque. Com uma química que é essencial para o bom funcionamento do roteiro (sucinto e que acertadamente muda de tom quando a  trajetória dos personagens desvia do rumo inicial), Godoy e seus parceiros de cena, Victor Mendes (como Rafael) e Juliana Schalch (no papel de Camila) convencem plenamente em todas as fases de sua aventura fraternal/amorosa/profissional, exalando juventude e sentimento em cada cena e transmitindo todas as sensações que surgem de sua bizarra situação com segurança de veteranos. Mesmo que às vezes o roteiro demonstre certa pressa em resolver questões que poderiam render muito mais, esse é um pecado quase insignificante diante de sua coragem em romper com a ditadura das comédias populares ou filmes de favela que dominam o cinema brasileiro e com a qualidade de seu acabamento - a fotografia de Ricardo Della Rosa e a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") são primorosas e é impossível não reparar no cuidado com a seleção de atores, desde os principais até os coadjuvantes.

À época de seu lançamento nos cinemas, "Os 3" foi comparado à "Os sonhadores", do italiano Bernardo Bertolucci. As semelhanças, porém, ficam restritas ao fato de ambos os filmes centrarem suas tramas em um trio de protagonistas vivendo em proximidade irrestrita. Enquanto a obra de Bertolucci tem pretensões artísticas que beiram o pedantismo, o filme de Nando Olival assume um tom bem menos ambicioso, com raízes mais naturalistas e uma identificação orgânica com a plateia, especialmente a mais jovem. Ao temperar sua trama com intervenções cada vez mais frequentes dos patrocinadores do programa - o que acaba por atormentar gradualmente a mente dos protagonistas - Olival torna imprevisível os rumos de sua narrativa e tem a inteligência de não estendê-la em demasia. Essa opção de encerrar seu filme quase abruptamente é o único senão de uma obra agradável, inteligente e com muito mais a dizer do que pode parecer a princípio. Um filme para ser descoberto!

quinta-feira

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

quarta-feira

JANE EYRE

JANE EYRE (Jane Eyre, 2011, Focus Features/BBC Films, 120min) Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Moira Buffini, romance de Charlotte Bronte. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Will Hughes-Jones/Tina Jones, Greer Whitewick. Produção executiva: Peter Hampden, Christine Langan. Produção: Alison Owen, Paul Trijbits. Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkings. Estreia: 09/3/11

Indicado ao Oscar de Figurino

Desde que assumiu o papel-título da versão milionária de Tim Burton para "Alice no país das maravilhas", a australiana Mia Wasikowska tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, estrelando desde histórias de amor contemporâneas ("Inquietos", de Gus Van Sant) até produções de prestígio ("Albert Nobbs", ao lado de Glenn Close e "Um ato de liberdade", com Daniel Craig). O entusiasmo com que crítica e indústria a receberam, porém, não deixa de ser um tanto exagerado: apesar de seu rosto servir a diferentes épocas e gêneros, não é difícil perceber que seu alcance dramático não é dos maiores, o que fica patente sempre que lhe é exigido um pouco mais de intensidade. Tal característica - disfarçada pela tendência ao exagero de Burton e aos papéis secundários nos filmes de Rodrigo Garcia e Edward Zwick citados acima - fica óbvia quando Wasikowska é confrontada com um papel de densidade maior, como a protagonista de "Jane Eyre", oitava adaptação do clássico romance de Charlotte Bronte para as telas (contando cinema e televisão): sem conseguir evitar as mesmas caras e bocas de sempre, ela é o elo fraco do filme de Cary Joji Fukunaga, especialmente quando contracena com atores de recursos muito maiores.

Segunda escolha para o papel - em substituição à Ellen Page - Wasikowska não consegue transmitir toda a intensidade que a história (repleta de segredos, tragédias e romances impossíveis) pede, mas não chega a comprometer o resultado final, graças à direção sensível de Fukunaga, que evita que o roteiro se transforme em um dramalhão inconsequente ou excessivamente sombrio. Sem o senso de humor das obras de Jane Austen - com quem dialoga em temática e ambientação - o romance de Bronte (irmã de Emily, autora de "O morro dos ventos uivantes") é um convite quase irresistível à uma adaptação pomposa e pesada, mas felizmente escapa de tal destino ao optar por uma narrativa clássica, sim, mas jamais enfadonha ou desprovida de intensidade. O roteiro, bastante fiel a seu material de origem, sabe brincar com o interesse da plateia ao revelar aos poucos seus trunfos - desde os dramáticos até os artísticos, que atendem pelos nomes de Judi Dench e Michael Fassbender.


A trama, para quem não conhece é simples e quase pueril em um primeiro olhar: tudo começa quando o jovem pastor St. John Rivers (Jamie Bell, o garotinho de "Billy Elliot") encontra, debaixo de chuva e em condições precárias de saúde, uma moça desconhecida que, depois de socorrida, se apresenta como Jane Eyre. Agradecida ao rapaz e suas duas prestativas irmãs, Eyre conta a eles sua sofrida história de privações e solidão, iniciadas no orfanato para onde foi mandada por sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkings). Empregada como professora dos filhos dos camponeses da comunidade do pastor, a jovem esconde dele, porém, os motivos que a levaram até a situação em que se encontra: o amor impossível que nutre por Mr. Rochester (Michael Fassbender), dono da mansão onde ela trabalhava como preceptora de uma menina francesa adotada por ele. Sua história, que envolve segredos e desilusão, acaba vindo à tona, porém, quando ela é pedida em casamento por seu honrado novo patrão.

A bela fotografia de Adriano Goldman, que deixa de lado as paisagens lúdicas e ensolaradas para retratar uma Inglaterra bucólica sombria e intimidante é fator primordial da qualidade de "Jane Eyre", que reflete em seu visual os tormentos pelos quais passam seus personagens. Michael Fassbender mais uma vez entrega uma performance acima da média, transmitindo em apenas um olhar todo o turbilhão emocional de seu complexo Mr. Rochester e, se em alguns momentos a trama soa como uma novela mexicana - em especial as revelações que impedem a consumação do romance entre o casal central - a sofisticação do diretor impede que o resultado final se torne apenas um dramalhão clássico a mais. Indicado ao Oscar de figurino - perdeu para "O artista" - o filme de Cary Joji Fukunaga é uma adaptação digna e admirável, que não é prejudicada nem mesmo pela apatia de sua atriz central.

terça-feira

NOITE DE ANO-NOVO

NOITE DE ANO-NOVO (New Year's Eve, 2011, New Line Cinema, 113min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Michael Tronick. Música: John Debney. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny, Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Garry Marshall, Wayne Rice. Elenco: Michelle Pfeiffer, Robert DeNiro, Hilary Swank, Hale Berry, Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker, Josh Duhamel, Abigail Breslin, Ashton Kutcher, Lea Michele, Zac Efron, Jon Bon Jovi, Jessica Biel, Sarah Paulson, Hector Elizondo, John Lithgow, Cary Elwes, Allysa Milano, Common, Seth Meyers, Til Schweiger, Carla Gugino, Sofia Vergara, James Belushi, Cherry Jones, Ludacris, Ryan Seacrest. Estreia: 05/12/11

 Aproveitar datas comemorativas como pretexto para realizar filmes - e consequentemente ganhar dinheiro aproveitando o marketing gratuito que isso gera - é uma espécie de tradição em Hollywood. Mas se até recentemente apenas filmes de terror apelavam para o calendário em busca de ideias - vide as séries "Sexta-feira 13" e "Halloween" e o tenebroso "11/11/11", que se valia de uma data rara para contar uma história sem pé nem cabeça - ultimamente um outro gênero vem se apropriando do conceito. Aliás, mais precisamente um cineasta: Garry Marshall, que em 1990 deu a Julia Roberts sua grande chance para o estrelato em "Uma linda mulher". Em 2010 ele lançou "Idas e vindas do amor", uma comédia romântica que foi execrada quase unanimemente a despeito de seu elenco milionário - que incluía a própria Roberts, assim como Bradley Cooper, Ashton Kutscher, Kathy Bates, Anne Hathaway e Jamie Foxx. No entanto, apesar das críticas negativas, o filme rendeu mais de 200 milhões de dólares mundo afora, o que encorajou o cineasta a partir para uma espécie de segundo capítulo de sua saga "romântico/comemorativa". "Noite de ano-novo" chegou aos cinemas americanos em dezembro de 2011 e, como era de se esperar, foi novamente massacrado pela crítica.

Utilizando-se do artifício que fez a glória de Robert Altman - contar várias histórias paralelas de personagens aparentemente sem conexão alguma - "Noite de ano-novo" segue rigidamente a fórmula do filme anterior de Marshall, mesclando tramas engraçadinhas, dramáticas e românticas sem dar atenção especial a nenhuma delas (e consequentemente superficializando todas as relações mostradas, inclusive aquelas que poderiam render muito mais). Além disso, o cineasta insiste em tentar atingir públicos de todas as idades, pondo lado a lado atores respeitados e/ou oscarizados (Robert DeNiro, Michelle Pfeiffer, Hale Berry e Hilary Swank) e jovens promessas/ídolos adolescentes (Abrigail Breslin, Zac Efron, Lea Michelle). Para completar o elenco, figurinhas fáceis do gênero, como Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker e Josh Duhamel e seu ator-fetiche, Hector Elizondo. Soma-se à receita uma trilha sonora moderna, histórias que não machucam ninguém e uma espécie de lição de moral a respeito de amor e perdão e o bolo está pronto. A questão é: esse bolo tão repleto de ingredientes deu liga?


Tudo depende do estado de espírito do espectador e de suas expectativas. Como toda produção hollywoodiana, "Noite de ano-novo" é bem fotografada, bem editada e, no mínimo, agradável. Mas nem todas as suas histórias cativam tanto quanto poderiam. Se não vejamos. Ingrid (Michelle Pfeiffer de cabelos castanhos) acaba de pedir demissão de um emprego que não mais lhe satisfazia e propõe ao jovem mensageiro Paul (Zac Efron) que a ajuda a cumprir uma lista de resoluções até a meia-noite - o pagamento será convites para uma cobiçada festa de revéillon. Stan Harris (Robert DeNiro) é o desenganado paciente cujo último desejo é assistir a chegada no novo ano em Times Square do terraço do hospital e que passa a noite acompanhado da dedicada enfermeira Aimée (Hale Berry), cujos planos para a virada ela não conta a ninguém. Tess e Griffin Byrne (Jessica Biel e Seth Meyers) estão em vias de ter o primeiro filho quando descobrem que a maternidade dá um prêmio de 25 mil dólares ao bebê que vier ao mundo nos primeiros minutos do novo ano e entram em competição com outro casal na mesma situação, Grace e James Schwab (Sarah Paulson e Seth Meyers).

Já o cantor de rock Jensen (Jon Bon Jovi) tenta reconquistar a hesitante Laura (Katherine Heigl), a chef de cozinha a quem decepcionou um ano antes e que ele espera que seja sua mulher e a jovem Elise (Lea Michele, da série "Glee") é uma de suas backing-vocals que se vê presa no elevador enquanto se prepara para um show e tem que lidar com o ranzinza Randy (Ashton Kutcher, com as mesmas caras e bocas de sempre), seu vizinho que odeia as comemorações de fim de ano. A data também se mostra estressante para a estilista Kim (Sarah Jessica Parker), que entra em conflito com a filha adolescente Hailey (Abigail Breslin, a pequena Miss Sunshine em pessoa), que quer passar a meia-noite com um grupo de amigos e dar o primeiro beijo no coleguinha por quem é apaixonada. A responsável pela festa em Times Square, Claire Morgan (Hilary Swank), também passa por maus bocados quando um dos principais atrativos do show dá errado e ela precisa apelar para um veterano ex-colega ressentido com a demissão, Kominsky (Hector Elizondo). Para finalizar, o jovem herdeiro Sam Ahern (Josh Duhamel) sai de uma festa de casamento no interior para tentar chegar a tempo ao encontro marcado um ano antes com uma mulher que conheceu por acaso e por quem se apaixonou instantaneamente. O segredo a respeito de quem é essa mulher e de como algumas das histórias irão se conectar é um charme a mais do filme, mesmo que esteja diluído em tantas tramas.

É lógico que "Noite de ano-novo" está a anos-luz de filmes do mesmo estilo como o delicioso "Simplesmente amor", mas tampouco é algo a ser desprezado totalmente. Apesar de ser dramaticamente falho, consegue ser simpático a maior parte do tempo (inclusive quando obriga a plateia a ver Jon Bon Jovi tentando atuar) e, mesmo que algumas das relações mostradas na tela não cheguem a convencer a plateia (principalmente pelo pouco tempo disponível para desenvolvê-las) não deixa de ser um alívio perceber que nem só de desenhos animados vive o cinema americano nessa época de festas. "Noite de ano-novo" cumpre o que promete (entreter sem compromisso), mas nunca vai além disso. Pode divertir aos menos exigentes. E só.

segunda-feira

NA TERRA DE AMOR E ÓDIO

NA TERRA DE AMOR E DO ÓDIO (In the land of blood and honey, 2011, GK Films, 127min) Direção e roteiro: Angelina Jolie. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Patricia Rommel. Música: Gabriel Yared. Figurino: Gabriele Binder. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Anna Lynch-Robinson. Produção executiva: Holly Goline-Sadowski, Michael Vieira. Produção: Tim Headington, Angelina Jolie, Graham King, Tim Moore. Elenco: Goran Kostic, Zana Marjanovic, Rade Serbedzija, Vanessa Glodjo. Estreia: 23/12/11

Alguém duvidava que a estreia de Angelina Jolie como cineasta trataria de um tema polêmico e socialmente relevante? A bela atriz, que é embaixadora da ONU sempre preocupou-se com a situação dos países menos privilegiados - e tem filhos adotivos do Camboja, da Etiópia e do Vietnã. Por isso, não deixa de ser previsível que seu primeiro filme como diretora tenha sido "Na terra de amor e ódio", que versa sobre as tragédias humanas em consequência da guerra da Bósnia. Por ser falado em bósnio (o que lhe aumenta a veracidade mas diminuiu consideravelmente suas chances de sucesso comercial, ainda que tenha sido lançado posteriormente em versão dublada em inglês), seu trabalho chegou a ser indicado ao Golden Globe de filme estrangeiro, mas não agradou à boa parte da crítica, que condenou seu tom de discurso político e sua falta de ousadia narrativa. Mas é inegável, porém, que a história contada por Jolie, também roteirista e produtora, é forte e intensa o bastante para deixar prever uma nova e promissora carreira atrás das câmeras para a bela sra. Brad Pitt - fato reforçado por seu bastante superior segundo trabalho, "Invencível", lançado em 2014.

Ousando de cabo a rabo, Jolie também preferiu atores locais para contar sua história, em detrimento de astros hollywoodianos que poderiam, em tese, tornar seu projeto mais comercial. Mas desde as primeiras cenas de "Na terra de amor e ódio" fica bastante claro que as intenções da nova diretora não tinham a menor relação com sucesso financeiro. Mantendo-se fiel a seus princípios, Angelina nem se dá ao trabalho de tentar esconder a sujeira e o clima pesado do cenário de sua trama. Fotografado com um realismo que beira o desagradável, seu filme parece gritar a todo momento que o mais importante ali são os seres humanos retratados e seus dramas pessoais e políticos. O problema é que, optando por esse viés mais social e menos artístico, ela também afastou consideravelmente o público das salas de exibição. Ela realmente conta uma história forte e pungente, mas praticamente pregou no deserto: a renda americana de pouco mais de 300 mil dólares não chegou nem perto de cobrir o orçamento de 10 milhões que ela mesma bancou.


Quem ignorou o filme, porém, perdeu a oportunidade de testemunhar um trabalho consistente e triste, que retrata com bastante precisão (ainda que por vezes escorregue no maniqueísmo) os horrores de uma guerra sangrenta e sem explicações racionais. A história de amor entre Danijel (Goran Kostic), um soldado lutando pelos sérvios e a sofrida croata Ajla (Zana Marjanovic), que nutre por ele um misto de amor/desejo/medo, é repleta de cenas chocantes, filmadas com sobriedade e distanciamento. É apenas quando foge das sequências violentas e se concentra no romance que o filme esbarra em uma inadequada pieguice, que fica ainda mais acentuada pela falta de carisma dos atores centrais, que são talentosos e estão bem dirigidos mas falham em provocar empatia na audiência. A ausência de trilha sonora e o tom seco com que Jolie conduz sua narrativa lhe empresta um viés quase documental, que tanto lhe permite uma liberdade impensada em uma produção comercial quanto - pecado quase mortal - impede a identificação/sensibilização da plateia por seus personagens. O fato de o protagonista masculino ainda ter em sua carga dramática a responsabilidade de cumprir expectativas de seu pai general e da heroína dividir seu tempo entre a atração que sente por ele e a luta por defender a irmã também não ajuda o resultado final - a frequente mudança de foco prejudica, ainda que todas as histórias contadas sejam interessantes.

"Na terra de amor e ódio" é um belo trabalho de estreia, apesar de tudo. Mesmo que não seja uma obra-prima,seus pecados são bem menores do que os cometidos por gente muito mais experiente. Recheando sua trama com cenas de sexo secas e desprovidas de glamour e mostrando a sujeira e a fealdade de um conflito injustificável, Angelina Jolie dá sua contribuição ao tema de forma direta e madura. Vale a pena conferir nem que seja por sua relevância histórica e política.

domingo

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO

W.E: O ROMANCE DO SÉCULO (W.E, 2011, The Weinstein Company, 119min) Direção: Madonna. Roteiro: Madonna, Alek Keshishian. Fotografia: Hagen Bogdanski. Montagem: Danny B. Tull. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Celia Bobak. Produção executiva: Scott Franklin, Donna Gigliotti, Harvey Weinstein. Produção: Madonna, Kris Thykier. Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D'Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, James Fox, Edward Fox, Judy Parfitt, Natalie Dormer. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Figurino

A primeira coisa que é preciso ter em mente quando se propõe a uma sessão de "W.E. - O romance do século" é o fato de Madonna ter contra si a imensa má-vontade dos críticos e da própria indústria do cinema. Salvo raríssimas exceções - e mesmo assim longe de uma margem confortável de elogios - a estrela pop é sistematicamente bombardeada com uma animosidade quase inexplicável sempre que tenta a sorte na sétima arte. Um exemplo claro e insofismável dessa antipatia generalizada pela ex-mulher de Sean Penn e Guy Ritchie - ambos bem-sucedidos nas carreiras de cineastas - foi a forma violenta com que seu segundo longa-metragem como diretora foi recebido de forma quase unânime. Malhado impiedosamente pela crítica, "W.E" não mereceu toda essa enxurrada de pedras. Mesmo que esteja bem longe de ser uma obra-prima e também peque em alguns itens cruciais a história de amor entre o rei Eduardo VIII e a americana duas vezes divorciada Wallis Simpson - é contada por Madonna com um senso estético e um refinamento que revelam que suas três décadas como estrela de videoclipes certamente lhe ensinaram muita coisa em termos visuais.

Fotografado com requinte e sutileza pelo alemão Hagen Bogdanski, "W.E" começa com uma cena de inegável impacto, quando Wallis (Andrea Riseborough) é violentamente espancada pelo primeiro marido durante a gravidez. Essa cena - aparentemente gratuita - fará eco mais tarde com a situação triste vivida pela jovem Wally Winthrop (Abbie Cornish), que passa por uma séria crise em seu casamento justamente por desejar ardentemente um bebê. Wally - assim batizada justamente porque sua mãe era fã da famosa Wallis - é a verdadeira protagonista do filme, deixando o romance entre a americana à frente de seu tempo e o rei que abdicou do trono por amor (e o deixou com o irmão, protagonista do filme "O discurso do rei") quase como uma trama secundária que comenta (às vezes sem a força necessária, às vezes de forma acertadamente delicada) a trajetória da Wally contemporânea e seu tímido romance com Evgeni (Oscar Isaac), o segurança russo do museu nova-iorquino onde acontece uma exposição sobre o célebre casal. E é justamente essa opção do roteiro - escrito pela cantora e por Alek Keshishian, que a dirigiu em "Na cama com Madonna" - que acaba sendo sua maior e mais crítica falha.


Ao dividir a atenção em duas histórias que não precisariam necessariamente estar conectadas - ao menos de forma tão frágil - Madonna tira o foco daquela que poderia ser a trama mais interessante e que dá título a seu filme. A história de amor que abalou a realeza inglesa é contada de maneira um tanto confusa e superficial, obrigando a plateia a adivinhar certos acontecimentos e encontrar-se sozinha no emaranhado de imagens que sublinham a ligação entre as duas protagonistas. Demora um pouco para que o público finalmente perceba as intenções do roteiro e essa confusão é quase fatal, em especial para uma audiência não exatamente acostumada a pensar. Prejudicado ainda pelo fato de não ter astros de primeira grandeza em seu elenco - Ewan McGregor chegou a ser confirmado como Eduardo VIII mas teve de cair fora por problemas de agenda - o filme rendeu pouco mais de 500 mil dólares no mercado americano contra seu custo estimado de 15 milhões (bancados pela própria Madonna), o que apenas reitera o desprezo do público pela Madonna cineasta. Uma injustiça, já que os trabalhos de Andrea Riseborough como Wallis Simpson - papel oferecido a Vera Farmiga e Amy Adams - e Oscar Isaac - em seu primeiro papel de destaque - são dignos de nota.

Além disso, apesar de ter custado barato"W.E" em nenhum momento passa essa impressão. Cuidadosamente produzido - chegou a concorrer ao Oscar de figurino e rendeu à cantora uma indicação ao Golden Globe pela bela canção "Masterpiece" - e visualmente excitante, com uma reconstituição de época opulenta e detalhista, é um produto que seduz sua audiência pela sutileza e pela delicadeza. Vindo de Madonna - não exatamente um exemplo de discrição - não deixa de ser positivamente surpreendente.

sábado

TÃO FORTE, TÃO PERTO

TÃO FORTE, TÃO PERTO (Extremely loud & incredibly close, 2011, Warner Bros, 129min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Eric Roth, romance de Jonathan Safran Foer. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Mùsica: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/George De Titta Jr. Produção executiva: Celia Costas, Mark Roybal, NOra Skinner. Produção: Scott Rudin. Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max Von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright, John Goodman, Zoe Campbell. Estreia: 25/12/11

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Max Von Sydow)

O inglês Stephen Daldry tem uma boa folha de serviços prestados ao cinema desde sua estreia com o lírico “Billy Elliot” (00), que de cara lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Depois, voltou ao páreo pelo brilhante “As horas” (02) – que deu à Nicole Kidman a estatueta de melhor atriz – e pelo dramático “O leitor” (08) – que também premiou sua protagonista, Kate Winslet, com uma estatueta dourada. De seus três primeiros (e ótimos) filmes, dois foram homenageados pela Academia com uma indicação ao Oscar máximo, o que encheu o público e a crítica de expectativas em relação a seu quarto trabalho. A estreia de “Tão forte e tão perto”, no entanto, mostrou que todo mundo corre o risco de errar. Mesmo arrebatando uma quase inexplicável indicação ao Oscar de melhor filme – um quase que pode ser compreendido pelos humores da parcela mais conservadora da Academia – e tendo conquistado alguns críticos, o filme de Daldry é uma decepção quase total, principalmente por ter como seu maior e mais irrecuperável defeito a péssima escolha de seu ator principal. Ao contrário do que aconteceu quando Jamie Bell saiu do anonimato para dar vida e alma ao menino que sonhava com o balé em “Billy Elliot”, a opção pelo novato Thomas Horn para protagonizar “Tão forte, tão perto” arruinou todo o projeto de Daldry. Descoberto em um programa de perguntas e respostas da TV americana, Horn faz com que assistir-se ao filme se torne uma tortura quase insuportável. E não é preciso ser cientista da NASA para saber que quando um protagonista (a base de qualquer filme, afinal) não tem empatia com o público, não há marketing milagroso o suficiente para salvá-lo da ruína.
Ok, “Tão forte e tão perto” não chega a ser uma ruína completa – Daldry é um diretor de muito talento para perder tanto a mão, e os coadjuvantes são admiráveis (inclui-se aqui Tom Hanks em uma participação especial mas essencial ao estabelecimento da trama, Max Von Sydow em uma interpretação indicada ao Oscar e Viola Davis injetando humanidade em cada cena que aparece). Mas para cada qualidade que apresenta – a edição de Claire Simpson, com momentos brilhantes e a bela trilha sonora de Alexandre Desplat – existe uma série de problemas que impedem o espectador de mergulhar sem reservas na história criada pelo escritor Jonathan Safran Foer. O primeiro deles – e o maior, a ponto de praticamente anular o que o filme tem de bom – é, como afirmado anteriormente, o protagonista. Não apenas o personagem é chato, irritante, mimado e histérico, como seu intérprete consegue – ao invés de diluir tais características pouco louváveis – ampliá-las ainda mais. A cada cena em que Thomas Horn aparece na pele do herói da história, Oskar Schell, gritando, esperneando e xingando quem aparece em sua frente, é uma tentação imensa não abandonar a trama, por mais interessante que ela pudesse ter parecido em seu princípio.
E, é preciso reconhecer, o pontapé inicial é instigante: o atentado às Torres Gêmeas em onze de setembro de 2001 deixa órfão de pai o excêntrico Oskar Schell, um menino com problemas em interatividade social – a ponto de ter sido considerado suspeito de portar a Síndrome de Asperger – e que, devido a seu modo especial de comportamento, dedica-se a atividades que requerem o máximo de atenção e método. A perda da referência paterna joga Oskar em um estado ainda mais particular de existência – as caças ao tesouro promovidas por Thomas (Tom Hanks) pela cidade de Nova York e pelo Central Park cessam por completo e ele não consegue ligar-se satisfatoriamente com a mãe, Linda (Sandra Bullock, que não ajuda nem atrapalha). A chance de reconectar-se com o passado surge, porém, quando o menino encontra, sem querer, uma chave guardada dentro de um pequeno envelope dirigido a alguém com o nome Black. Crente de que tal objeto faz parte de mais um enigma proposto por Thomas, o menino começa então uma jornada detalhada – e matematicamente assustadora – para tentar localizar o dono da chave. No caminho, encontra todo tipo de pessoa, o que o irá obrigar a lidar com uma realidade com a qual ele nunca antes havia tido contato.

A busca de Oskar pela resolução do enigma da chave misteriosa e da identidade de Black é interessante: o roteiro do premiado Eric Roth (Oscar por “Forrest Gump: o contador de histórias”) é bem amarrado e prende como pode a atenção da plateia, com personagens coadjuvantes irresistíveis como a doce Abby (interpretada por Viola Davis) e outros que, mesmo sem uma linha de diálogo, conseguem emocionar com seus dramas pessoais. Quando Max Von Sydow entra em cena, então, tudo parece que vai finalmente deslanchar: surdo-mudo graças a um trauma pessoal, seu personagem (que paga pelo aluguel em um quarto na casa da avó de Oskar e junta-se a ele na peregrinação em busca de respostas) rouba o filme em poucos minutos – mas então seu silêncio esbarra na histeria do protagonista juvenil e tudo vai por água abaixo. O primeiro encontro entre os dois – quando o menino conta sua história ao calado interlocutor – poderia ser empolgante, com seu texto inteligente e montagem ágil: na voz irritante de Thomas Horn é quase uma tortura. E se levarmos em consideração o quão frágil é o clímax do filme, o final da sessão dá uma violenta sensação de tempo perdido.
Mas é apenas uma sensação. “Tão forte e tão perto” é bem dirigido, bem escrito, bem editado e tem algumas qualidades quase redentoras, como Von Sydow, Viola e Tom Hanks. A história é interessante, há momentos de real emoção e – o que ainda é raro no cinema americano – o trauma do 11/9 é tratado sob um viés humano e sensível. Mas, levando-se em conta o quão boa poderia ter sido a união de tanta gente talentosa, não deixa de ser um filme frustrante e bastante chato. Um escorregão na carreira até então brilhante de Stephen Daldry.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...