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quinta-feira

STAR 80


STAR 80 (Star 80, 1983, The Ladd Company, 103min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, livro "Death of a playmate", de Teresa Carpenter. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Michael Bolton, Jack G. Taylor Jr./Ann McCulley, Kimberley Richardson. Produção: Wolfgang Glattes, Kenneth Utt. Elenco: Eric Roberts, Mariel Hemingway, Cliff Robertson, Carroll Baker, Roger Rees, Josh Mostel. Estreia: 10/11/83

Nascida em 28 de fevereiro de 1960, em Vancouver (Canadá), Dorothy Stratten teve uma meteórica carreira artística a partir do momento em que, pelas mãos do namorado Paul Snider, se viu diante de Hugh Hefner, o todo-poderoso dono do império Playboy - que lhe deu as primeiras chances como modelo -, e de Peter Bogdanovich, cineasta premiado e consagrado - que apaixonou-se por sua beleza e sua doçura e lhe prometeu fama e prestígio como atriz. Sua trajetória e seu trágico final foram relatados em "Death of a playmate", um artigo de Teresa Carpenter, publicado no jornal The Village Voice que ganhou o Pulitzer de 1981 e causou polêmica ao colocar tanto Hefner quanto Bogdanovich como corresponsáveis pelo crime que causou sua morte. O cineasta ainda tentou contar sua versão da história com o livro "The killing of a unicorn: Dorothy Stratten (1960-1980)", mas antes mesmo de seu lançamento a adaptação cinematográfica do texto de Carpenter já havia estreado, recebido uma indicação ao Golden Globe e causado comoção. Último filme dirigido por Bob Fosse, "Star 80" pode não ter tido o mesmo impacto de "Cabaret" (1972) ou "All that jazz: o show deve continuar" (1979), mas alcançou repercussão suficiente para abafar uma versão televisiva do mesmo tema, "Mulher ardente", levada ao ar em 1981 pela NBC e estrelada por Jamie Lee Curtis.

Apesar de ser baseada em uma história real, a trama de "Star 80" não escapa muito dos clichês que abundam em filmes que retratam os bastidores do show business - especialmente quando o foco é seu lado sombrio. Tudo começa em 1978, quando o ambicioso Paul Snider (Eric Roberts) conhece a muito jovem e bela Dorothy Stratten (Mariel Hemingway). Fascinado com a aura angelical e ao mesmo tempo sensual da estudante, Snider não apenas a seduz - indo contra os desejos da família - como a introduz em um mundo novo, que valoriza a imagem e a fama. O objetivo de Snider - ascender socialmente e tornar-se parte integrante de um círculo de dinheiro e prestígio - começa a tornar-se realidade quando sua musa (e já esposa) chama a atenção das pessoas certas e passa a frequentar as disputadas festas na mansão do milionário Hugh Hefner (Cliff Robertson), que a põe sob sua proteção pessoal. Aos poucos o sucesso de Dorothy passa a chamar a atenção de outros nomes influentes, o que a leva a começar uma tímida carreira de atriz. É nesse ponto que ela conhece o veterano cineasta Aram Nicholas (Roger Rees), que se apaixona por ela e lhe dá a grande chance de sua carreira artística. No ápice do ciúme, porém, Snider não se conforma com a suspeita cada vez maior de um caso entre sua mulher e o diretor - e passa a assumir um comportamento errático e ameaçador.

 

Realizado por Fosse mesmo depois dos apelos de Bogdanovich para que o projeto não fosse adiante, "Star 80" não ficou imune a polêmicas, especialmente devido a críticas do próprio diretor de "Essa pequena é uma parada" (1973) - cujo nome no filme foi alterado para Aram Nicholas - e pelo processo movido por Hugh Hefner, que não gostou nem um pouco da forma como foi retratado na montagem final (apesar da participação especial de seu filho caçula, Keith). Eric Roberts, unanimemente elogiado por seu desempenho como Paul Snider, chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor ator dramático - perdeu para o vencedor do Oscar da temporada, Robert Duvall, por "A força do carinho" -, enquanto a atuação de Mariel Hemingway - indicada ao Oscar de coadjuvante por "Manhattan" (1979) - reforçava seu status de ninfeta sexy que a atormentou por anos. A dupla é dona dos melhores momentos do filme - algo que poderia não ter acontecido se outros atores cotados para os papéis (Richard Gere como Snider, Melanie Griffith ou Daryl Hannah como Dorothy) tivessem sido escolhidos pelos produtores, e a participação especial de Carroll Baker como a mãe de Stratten não deixa de ser uma ironia inteligente: em 1956, aos 25 anos, ela causou celeuma ao protagonizar "Boneca de carne", de Elia Kazan, onde interpretava uma jovem vista exclusivamente como objeto de lascívia.

Bastidores e controvérsias à parte, "Star 80" é uma produção que, apesar de suas qualidades, é muito aquém da filmografia pregressa de Bob Fosse. Não há, nele, nada da ousadia narrativa de "All that jazz", da sofisticação visual de "Cabaret" ou mesmo a coragem quase suicida de "Lenny" (1974): linear e pouco inspirado, o roteiro do próprio diretor até tenta criar suspense a respeito do desenrolar da história (apesar do desfecho já amplamente conhecido), mas esbarra em uma inesperada falta de emoção - talvez pela atuação apática de Mariel Hemingway, talvez pelo tom semidocumental que impede uma maior aproximação entre o espectador e os personagens. Eric Roberts sai-se bastante bem na pele do desequilibrado Paul Snider, mas não consegue fugir do maniqueísmo que o retrata como um psicopata unidimensional. Tampouco é perceptível no resultado final o apuro estético que caracterizou as obras anteriores de Fosse - é como se o cineasta/roteirista estivesse mais interessado no material explosivo da história de Stratten do que em fazer dela uma obra de arte do mesmo nível de seus filmes premiados. Uma pena, já que foi seu derradeiro trabalho na cadeira de diretor.

Quanto ao pós-filme, não faltaram acontecimentos que dariam um novo longa-metragem. Sentindo-se parcialmente culpado pelo destino de Dorothy, o cineasta Peter Bogdanovich não apenas escreveu um livro sobre o assunto - o já citado "Death of a unicorn" - como tomou sua proteção a mãe e a irmã caçula da modelo, com quem se casou em 1988 (mesmo com uma diferença de 29 anos entre eles) e se divorciou em 2001. Além disso, foi acusado por Hugh Hefner de ter lhe causado um ataque cardíaco, devido às acusações feitas em seu livro - de que o milionário havia seduzido Stratten ao mesmo tempo em que a tratava como filha. Objeto também de uma canção do canadense Bryan Adams - "The best was yet to come", lançada em 1983 -, Dorothy Stratten permaneceu no inconsciente coletivo (especialmente dos EUA) por um bom tempo, como uma forma de lembrar sempre os perigos que sempre rondam o mundo da fama e da beleza, principalmente quando se trata de mulheres à mercê de seus algozes.

ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR


ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR (All that jazz, 1979, 20th Century Fox/Columbia Pictures, 123min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Alan Heim. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gary J. Brink, David Stewart. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Robert Alan Aurthur. Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Cliff Gorman, Ben Vereen. Estreia: 16/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Roy Scheider), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes

Joe Gideon é workaholic, fumante compulsivo, mulherengo inveterado, ávido consumidor de álcool e usuário habitual de substâncias químicas que o ajudam a manter um ritmo insano de vida. Joe Gideon é diretor de musicais, coreógrafo, dançarino e cineasta. Joe Gideon trabalha escalando o elenco de seu novo espetáculo na Broadway, trabalha na edição de um novo longa-metragem e trabalha formas de equilibrar as mulheres da sua vida - a ex-esposa, a atual namorada e a filha adolescente. Joe Gideon é um artista mas precisa lidar com a burocracia e a insensibilidade de seus investidores - mais apaixonados por dinheiro do que por integridade artística. E além de tudo, Joe Gideon é um ser humano - propenso, portanto, a ver seu organismo cobrar por tanta pressão. Então, durante o processo de ser Joe Gideon por 24 horas por dia, ele sofre um severo ataque cardíaco - e enquanto vê sua posição como diretor ser ameaçada por interesses financeiros, apela para sua fértil imaginação e cria, em seus momentos inconscientes, um novo show, onde realidade e fantasia se misturam com pessoas reais, alucinações,  médicos, procedimentos cirúrgicos e seus constantes excessos profissionais e amorosos: como todo artista obcecado com sua arte, ele faz de sua doença a inspiração para mais um grande evento. Joe Gideon é o protagonista do filme "All that jazz: o show deve continuar". E, como não há o menor espaço para dúvida, Joe Gideon É Bob Fosse, seu criador.

Um dos maiores nomes do teatro musical norte-americano, Fosse tornou-se também um cineasta respeitado quando, pela versão cinematográfica de "Cabaret" (1972), arrebatou o Oscar de melhor diretor, batendo Francis Ford Coppola (de "O poderoso chefão"). A partir daí, levou seu estilo moderno, feérico e elegante para as telas, da mesma forma como fazia nos palcos. Em 1974 causou polêmica com "Lenny", cinebiografia do comediante de stand-up Lenny Bruce - e voltou a concorrer à estatueta da Academia. E, como prova de criatividade (e autoironia), aproveitou-se de um problema de saúde real (um enfarte), para realizar mais uma obra-prima - que lhe valeu a Palma de Ouro de melhor diretor no Festival de Cannes. "All that jazz: o show deve continuar" é a versão musicada e anfetamínica de um período conturbado da existência de Fosse - mas, como visto na tela, é uma celebração da arte, da dança e da vida, repleta de um colorido e de uma energia que deixou muita gente atônita (e outros tantos espectadores extasiados). Indicado a nove Oscar (incluindo melhor filme e direção), "All that jazz" foi considerado corajoso por parte da crítica - mas tampouco deixou de incomodar àqueles que o julgaram macabro e de péssimo gosto. Seja como for, o filme fez um relativo sucesso de bilheteria (rendeu três vezes mais o seu custo), levou 4 Oscar (figurino, direção de arte, trilha sonora adaptada e edição) e ficou marcado como mais um triunfo do talento inesgotável de seu criador.

Segundo Shirley MacLaine, foi ela quem sugeriu a Fosse que transformasse seu ataque cardíaco em um musical sobre a morte. Se é verdade ou não, a questão é que o cineasta/coreógrafo acatou a ideia e chegou a oferecer um dos principais papéis femininos à amiga - com quem trabalhou em "Charity, meu amor" (1969), sua estreia como cineasta. No entanto, quem ficou com o papel de Audrey Paris - ex-mulher de Gideon e sua parceira artística constante, assim como o era Gwen Verdon com o próprio Fosse - foi Leland Palmer, em seu último trabalho no cinema. A escolha de Palmer no lugar de MacLaine, no entanto, foi a menos difícil e traumática do elenco. Complicado mesmo foi chegar a um consenso quanto ao intérprete do protagonista, um dos alter-egos mais brilhantes da história do cinema. Fosse chegou a pensar em si mesmo para o papel - mais foi demovido da ideia pelo produtor Daniel Melnick, que não acreditava que ele sobrevivesse às filmagens se acumulasse as funções de diretor e ator. A partir daí, nomes os mais variados surgiam e eram descartados - por um motivo ou outro. Warren Beatty se interessou pelo projeto - e era aprovadíssimo pela Columbia Pictures, confiante em seu potencial de grande astro -, mas foi deixado de lado depois de exigir que o final fosse alterado. Richard Dreyfuss chegou a ser escalado, mas abandonou o barco na fase de ensaios por não acreditar no projeto - uma decisão da qual se confessa arrependido. Paul Newman nem chegou a ler o roteiro por não sentir-se confortável em interpretar um dançarino. Jack Lemmon foi considerado, mas Fosse chegou à conclusão de que era velho demais para o papel. Gente como Jack Nicholson, Gene Hackman, Elliot Gould, George Segal e Alan Alda foram cogitados - e Jon Voight chegou até a fazer um teste, mas é difícil, hoje em dia, à luz do resultado final, imaginar outro ator que não Roy Scheider na pele do sedutor Joe Gideon.

Scheider foi escolhido por Fosse em pessoa - que bancou sua decisão corajosamente. Apesar de participações em filmes de sucesso, como "Operação França" (1971) e "Tubarão" (1975), Scheider não era exatamente a opção mais óbvia para viver um coreógrafo don juan - especialmente em um musical que lhe exigiria sequências de canto e dança. Scheider, no entanto, honrou a ousadia do cineasta com uma performance arrebatadora que lhe garantiu lugar entre os indicados ao Oscar de melhor ator do ano (que perdeu para Dustin Hoffman, por "Kramer vs Kramer"): arrogante e autoconfiante, o Joe Gideon construído por Scheider escapa da antipatia justamente pelo carisma do ator, que escapa magistralmente das constantes armadilhas do roteiro, co-escrito por Fosse e pelo produtor Robert Alan Aurthur - que morreu em novembro de 1978, durante a produção do filme, e foi indicado postumamente ao Oscar. Liderando um elenco impecável e sem grandes astros (reparem em John Lithgow no começo de carreira, em papel pequeno), Scheider sublinha todos os acertos do filme e apaga os problemas pré-lançamento: o estouro do orçamento (que pulou de 6,5 milhões para 10 milhões e só foi aprovado depois de uma sessão especial aos presidente da Fox), o extenso cronograma de pós-produção (oito meses contra os 101 dias de filmagens) e as dúvidas a respeito de como o resultado final seria recebido pela crítica e pelo público.

Essa última preocupação provou-se exagerada. Mesmo com algumas (poucas) reclamações por parte da imprensa, "All that jazz" já estreou vencedor. Sucesso comercial e premiado profusamente, o filme de Fosse chegou a receber um elogio inesperado e definitivo de ninguém menos que Stanley Kubrick, que classificou-o como "o melhor filme que já vi." Nada mal para uma ousada criação que mistura dança, morte, sexo, obsessões e generosas doses de autobiografia. Uma obra-prima que confirma o gênio de Bob Fosse!

LENNY

LENNY (Lenny, 1974, United Artists, 111min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Julian Barry, peça teatral homônima de Julian Barry. Fotografia: Bruce Surtees. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Nicholas Romanak. Produção executiva: David Picker. Produção: Marvin Worth. Elenco: Dustin Hoffman, Valerie Perrine, Jan Miner, Stanley Beck, Frankie Man, Rashel Novikoff. Estreia: 13/11/74

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Dustin Hoffman),  Atriz (Valerie Perrine), Roteiro Adaptado, Fotografia
Palma de Ouro de Melhor Atriz (Valerie Perrine) - Festival de Cannes

Lenny Bruce foi um dos mais controversos comediantes stand-up dos EUA dos anos 60, quando o gênero ainda estava em sua pré-história. Suas piadas, repletas de palavras de baixo calão e piadas frequentemente de mau-gosto, que não poupavam nada nem ninguém, incomodaram o establishment americano a tal ponto que em pouco tempo ele não apenas era famoso por suas qualidades histriônicas, mas também pelos inúmeros processos a que respondeu. Entrando e saindo da cadeia, ofendendo os mais suscetíveis e sendo aplaudido por aqueles que o consideravam um espécime raro no humor normalmente inofensivo dos palcos - entre os quais a banda REM, que o citou nominalmente na letra de "It's the end of the world as we know it" - Bruce deu origem a uma premiada peça teatral da Broadway, escrita por Julian Barry e ao material escolhido por Bob Fosse para seu primeiro filme após o Oscar ganho por seu trabalho em "Cabaret". Amparado por uma atuação (mais uma) irretocável de Dustin Hoffman e uma deslumbrante fotografia em preto-e-branco de Bruce Surtees, "Lenny" é uma homenagem séria a seu protagonista e um libelo pró-liberdade de expressão.

Contado em formato de flashback pela ex-esposa de Lenny, a stripper Honey (Valerie Perrine, indicada ao Oscar e premiada como melhor atriz no Festival de Cannes), "Lenny" é valorizado pela coragem do roteirista em não fazer de seu protagonista uma pessoa menos desagradável que ele realmente era na vida real, não deixando de fora da trama nem seu vício em drogas nem suas orgias sexuais - que o acabaram afastando da mulher que amava. Construindo um Lenny Bruce constantemente à beira do abismo, Dustin Hoffman dá seu costumeiro show, tanto nas recriações de suas apresentações - das quais o público nunca sabia o que viria - como em seus momentos mais intimistas. Falando desde doenças sexualmente transmissíveis até política e problemas sociais e raciais, o humorista tinha uma acidez que ainda hoje é capaz de perturbar, e Hoffman caminha no fio da navalha para fazer dele alguém que se possa simpatizar mesmo quando suas atitudes não são nada louváveis. Para sua sorte, encontrou em Valerie Perrine uma parceira de cena capaz de pontuar com correção seu dedicado trabalho.


Sem maiores créditos no currículo até sua surpreendente vitória em Cannes e a subsequente indicação ao Oscar, Perrine ficou com o papel de Honey Bruce depois da recusa de Raquel Welch, que não se considerava à altura do desafio. Sua atuação pode parecer discreta em comparação com o desempenho avassalador de Dustin Hoffman, mas é no minimalismo que Perrine encontrou seu caminho. É seu olhar quem fala mais, mostrando ao público todo o turbilhão porque passa sua personagem, que se apoia no amor incondicional pelo marido como forma de superar todas as barreiras emocionais, físicas e morais pelas quais tem que passar em sua trajetória - que inclui desde o encontro com sua tradicional família judaica até o início do vício em heroína e suas inclinações sexuais pouco ortodoxas. Como narradora da história, é do ponto de vista de Honey que o público tem contato com a personalidade confusa de Lenny, e Perrine dá conta do recado com segurança - ainda que a Palma de Ouro em Cannes soe um tanto exagerada.

"Lenny" não é um filme para qualquer público. Sua narrativa é um tanto lenta - o que de certa forma contrasta com a velocidade de "Cabaret" - e o roteiro não apresenta grandes lances dramáticos exceto aqueles velhos conhecidos dos filmes do gênero, sendo quase didático. No entanto, é preciso louvar a edição de Alan Heim, que aproveita cada fantástico ângulo de Bruce Surtees para cadenciar o ritmo conforme as piadas de seu protagonista e a direção precisa de Bob Fosse, mostrando que seu Oscar não foi apenas uma questão de sorte. Assim como acontecia com as piadas de Lenny Bruce, é preciso mergulhar nas boas intenções sua cinebiografia para usufruí-la com todas as suas qualidades. Questão de gosto.

sábado

CABARET

CABARET (Cabaret, 1972, Allied Artists Pictures/ABC Pictures, 124min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Jay Allen, estórias de Christopher Isherwood, musical de Joe Masteroff, John Van Druten. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: David Bretherton. Música: John Kander. Figurino: Charlotte Flemming. Direção de arte/cenários: Rolf Zehetbauer/Jurgen Kiebach. Produção: Cy Feuer. Elenco: Liza Minnelli, Michael York, Joel Grey, Marisa Berenson, Helmut Griem, Fritz Wepper. Estreia: 13/02/72

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 8 Oscar: Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey)

Pode uma obra ser indicada a 10 estatuetas do Oscar elevar oito delas sem ficar justamente com a mais importante, a de melhor filme? Sim, especialmente se concorrer diretamente com a saga da família Corleone. Foi isso que aconteceu na cerimônia de 1973, quando a transposição para o cinema de "Cabaret", famoso e consagrado musical da Broadway viu suas esperanças de sair com todas as suas indicações convertidas em prêmios acabarem com a vitória de "O poderoso chefão" como melhor filme, ator e roteiro adaptado (a outra categoria em que tinha chances). Hoje em dia talvez seja inadmissível que a obra-prima de Francis Ford Coppola não tenha sido campeã também em número de Oscar, mas basta apenas uma sessão do filme de Bob Fosse para que se perceba que, a despeito da qualidade inimitável da primeira parte da história de Michael Corleone, "Cabaret" é realmente um grande filme, uma obra de arte que mistura com poesia sátira política, liberdade sexual, música e uma forte crítica social à decadente Alemanha pré-II Guerra. Não é pouco para um musical aparentemente inocente.

A trama se passa na Berlim de 1931, onde chega o estudante inglês Brian Roberts (Michael York) para terminar seus estudos. Ele se hospeda na mesma pensão onde mora a americana Sally Bowles (Liza Minnelli), uma das atrações do cabaret Kit Kat Club, uma casa noturna decadente cujo palco é liderado por um sinistro Mestre de Cerimônias (Joel Grey, defendendo na tela o mesmo papel que o havia consagrado nos palcos, nos anos 60). Alegre e despachada - e com muitos sonhos de vencer na vida - Sally torna-se a referência de Brian na Alemanha prestes a mergulhar no nazismo. Sua relação torna-se ainda mais próxima quando ambos se descobrem interessados no mesmo homem, o milionário Barão Maximiliam von Heune, que os acena com uma vida de prazeres luxuosos. Enquanto o triângulo nem tão amoroso assim se desenvolve, uma outra história de amor, verdadeira, acontece sob a sombra do nacionalismo de Hitler e envolve dois alunos de Brian, a judia Natalia Landauer (Marisa Berenson) e o católico Fritz Wendel, que esconde um segredo que pode modificar suas vidas.


Equilibrando números musicais fascinantes que, ao invés de atrapalhar o desenvolvimento da história, a ajuda com comentários irônicos e/ou informativos, Bob Fosse mostrou que sabia como ninguém construir uma narrativa criada para os vastos palcos da Broadway em formato de cinema, provando-se à altura do compromisso de dirigir um filme recusado por Gene Kelly e Billy Wilder. Coreógrafo experiente e dono de um olhar extremamente crítico e sagaz, ele ousa contar sua história sem nenhum tipo de julgamento moral, limitando-se a, no máximo, deixar que a música fale por ele. E ela é excepcional. Apesar de apenas cinco números do espetáculo terem sobrevivido na versão para as telas, a trilha sonora de "Cabaret" é envolvente e contagiante, com algumas canções já tornadas clássicas ("Money, money" e a música-título, em especial) interpretadas com verve e dinamismo por Joel Grey - que ganhou o Oscar mesmo disputando com três atores de "O poderoso chefão" - e Liza Minnelli, merecida vencedora do Oscar de melhor atriz. Filha de Judy Garland e do cineasta Vincent Minnelli, Liza é, até hoje, a única oscarizada da história a ter os dois pais também premiados pela Academia. Mas, como ela mesma declarou ao receber a estatueta, os méritos são realmente dela.

Na pele de Sally Bowles, Liza consegue ser transgressora, delicada, romântica, cínica e engraçada, além de cantar e dançar com uma desenvoltura raras. Não foi à toa que o escritor Christopher Isherwood - que criou a personagem em um conto - declarou que a única falha da atriz na sua composição foi fazer de Bowles uma artista tão talentosa, uma vez que a original era apenas medíocre. Na tela, Minnelli é uma explosão de talento, conquistando a plateia com seu humor particular, suas idiossincrasias e especialmente sua carência de amor, explicitadas em sua relação com Brian. As cenas em que ambos são obrigados a tomar decisões cruciais para seu futuro são de partir o coração, e até nesses momentos fica claro o cuidado de Fosse em não se deixar cair no piegas. Assim como não há excessos no humor do roteiro também não o há no drama. Esse perfeito equilíbrio - que ainda encontra espaço para comentar discretamente a situação política da Alemanha e sua iminente transformação em inimiga do mundo - é que dá a "Cabaret" sua aura de eterno.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...