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quinta-feira

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS (The ballad of Buster Scruggs, 2018, Netflix, 133min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, contos "All gold canyon", de Jack London, e "The gall who got rattled", de Stewart Edward White. Fotografia: Bruno Delbonnell. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Jillian Longnecker. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Megan Ellison, Robert Graf, Sue Naegle. Elenco: Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Zoe Kazan, Brendan Gleeson, Harry Melling, Clancy Brown, David Krumholtz, Stephen Root, Tom Waits, Sam Dillon, Grainger Hines, Saul Rubinek. Estreia: 31/8/2018 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Canção Original ("When the cowboy trades his spurs for wings"

Quando foi anunciado que os irmãos Coen estavam desenvolvendo um trabalho para a Netflix, de imediato todos imaginaram uma série - especialmente quando ficou revelado que seu projeto consistia de seis pequenas histórias que tinham em comum a ambientação no Velho Oeste. A ansiedade em relação ao que dois dos cineastas mais festejados de Hollywood apresentariam teve fim no Festival de Veneza de 2018: "A balada de Buster Scruggs" é um filme digno de figurar entre os destaques da carreira da dupla e em nenhum momento parece amarrado a qualquer tipo de limitação que porventura poderia cercear sua criatividade. Mesclando histórias próprias e duas adaptações literárias, os vencedores do Oscar (roteiro por "Fargo", de 1996, e filme, direção e roteiro em 2007, por "Onde os fracos não tem vez") apresentaram a seu fiel público - e a uma extasiada crítica - uma produção caprichadíssima, que consegue equilibrar belas situações dramáticas com seu particular senso de humor. Em "A balada de Buster Scruggs", ironia e delicadeza caminham lado a lado, para deleite do espectador mais exigente.

O filme já começa de forma heterodoxa, em forma de musical: o protagonista da primeira história - e que empresta seu nome para o título da produção - chega a um vilarejo típico do velho oeste cantando e se apresentando como um dos mais procurados pela lei. Consciente de seus talentos como atirador e cantor, ele faz pouco caso do fato de estar sendo caçado e resolve descansar e beber na cantina local. Logo que chega, portanto, ele arruma confusão com um valentão do lugar, o assustador Joe (Clancy Brown) - e, em consequência, transforma o bar no palco de um quebra-quebra generalizado, até ser desafiado em duelo por outro autoconfiante atirador (Willy Watson). O segmento acaba com mais uma canção - a indicada ao Oscar "When the cowboy trades his spurs for wings" - e se destaca pelo inusitado do humor bizarro, pela agilidade e pela atuação impecável de Tim Blake Nelson, que já havia percorrido o musical e a comédia pelas mãos dos Coen no ótimo "E aí, meu irmão, cadê você?", de 2000. A segunda história tem o titulo de "Near algodones" e apresenta um jovem cowboy (James Franco) tentando assaltar a agência bancária do destemido (Stephen Root) e descobrindo, da pior forma possível, que o aparentemente frágil veterano não irá se submeter facilmente à situação. Mais uma vez é o equilibrio entre dois gêneros - faroeste e comédia - que sustenta a ágil narrativa.


O terceiro conto, "Meal ticket", conta as desventuras de um empresário irlandês (Liam Neeson) que percorre as cidades pequenas para apresentar à população o show de Horatio Edwin Harrison (Harry Melling, da série de filmes "Harry Potter", irreconhecível), que, desprovido de pernas e braços, declama uma série de textos célebres. Aos poucos, no entanto, o empresário começa a ver o público rarear - e descobre um outro (e surreal) talento para cuidar. É, sem dúvida, o conto mais tocante, sustentado pelo belo visual e pela interpretação de Melling, que consegue conquistar a plateia mesmo que não fale nenhuma palavra própria - todo o texto declamado por ele vem de outras fontes, como a Bíblia, Shakespeare e Abraham Lincoln, misturados em um monólogo memorável. O quarto segmento, "All gold canyon", é baseado em uma história de Jack London e mostra um experiente garimpeiro, interpretado por Tom Waits, buscando, incansavelmente, o ouro que o deixará rico. Seus esforços, porém, encontram um revés inesperado - e que pode destruir suas chances de entregar-se à aposentadoria. Talvez seja a mais fraca das histórias, mas ainda assim consegue surpreender.

O conto seguinte, "The gal who got rattled", é inspirado na obra de Stewart Edward White, e é a única história protagonizada por uma mulher - no caso, a inocente e tímida Alice Longabaugh (Zoe Kazan), que parte em direção ao Oregon em companhia do irmão, Gilbert (Jefferson Mays) - que lhe arrumou um casamento que também beneficia a seus negócios. O longo trajeto de sua caravana, no entanto, lhes reservas algumas surpresas - capazes de mudar completamente seu destino. Nesse episódio quem se sobressai é a atriz Zoe Kasdan: neta do lendário cineasta Elia Kazan, ela entrega uma performance acima da média, vivendo uma personagem repleta de nuances. O segmento final é o mais, digamos assim, surreal. "The mortal remains" apresenta cinco personagens em uma viagem de diligência em direção a uma cidade do Colorado. No diálogo que sustenta a trama, eles se revelam completamente diferentes um do outro - seja em vivência ou atitudes. E é preciso prestar atenção em cada palavra dita: há uma reviravolta em seus minutos finais, que o deixa ser a conclusão perfeita para o filme. Tal reviravolta é o trunfo da história, assim como seus intérpretes - que incluem os veteranos Brendan Gleeson e Saul Rubinek.

O melhor de "A balada de Buster Scruggs" é que, apesar de ser um filme construído em um formato episódico, ele jamais cai na armadilha da irregularidade. Claro que alguns segmentos chamam mais a atenção que outros - mas isso é de cada espectador. Todas as seis histórias apresentam características da filmografia de seus diretores/roteiristas/produtores e é evidente a qualidade ímpar de cada uma delas. O capricho do filme - independente se visto em uma sala de cinema ou via streaming - chamou a atenção da Academia de Hollywood, que lhe indicou em três categorias do Oscar: roteiro adaptado, figurino e canção original. O preconceito contra plataformas como a Netflix foi maior, entretanto, e essa pequena pérola da carreira de Joel e Ethan Coen acabou ficando de fora da lista de vencedores - sem falar em outras categorias em que ele poderia facilmente ter sido indicado, como direção de arte, fotografia e coadjuvantes: tudo é sensacional em "A balada de Buster Scruggs", que não fica nada a dever aos outros trabalhos da dupla. Um grande pequeno filme!

quarta-feira

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane, 1953, Paramount Pictures, 118min) Direção: George Stevens. Roteiro: A.B. Guthrie Jr., romance de Jack Schaefer. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: William Hornbeck, Tom McAdoo. Música: Victor Young. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Emile Kuri. Produção: George Stevens. Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde, Jack Palance, Ben Johnson. Estreia: 23/4/53

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator Coadjuvante (Jack Palance, Brandon De Wilde), Roteiro, Fotografia em cores
Vencedor do Oscar de Fotografia em cores 

Um dos mais icônicos westerns já realizados em Hollywood, "Os brutos também amam" começou como uma produção despretensiosa e que era vista como um filme menor pelo próprio estúdio que a realizava - no caso, a Paramount Pictures. O orçamento era pequeno, o elenco não era de primeira linha (em termos de estrelato) e o diretor, George Stevens quase desistiu do projeto quando não pode contar com os primeiros atores que havia imaginado - e ficou mais de um ano na sala de edição para que seu perfeccionismo permitisse um lançamento oficial. No entanto, nenhum desses empecilhos chegou a estragar o que se tornaria um clássico quase instantâneo, e que permaneceu no inconsciente coletivo como uma pequena obra-prima do gênero. Mais intimista do que épica, a história do misterioso Shane e sua amizade com uma família lutando contra injustiças sociais surpreendeu público e crítica ao substituir - sem prejuízo de espécie alguma - os vastos horizontes de John Ford e os heróis machistas de John Wayne por um olhar minimalista e um protagonista sensível a ponto de conquistar o amor e admiração de uma família inteira.

Baseado em um best-seller de Jack Schaefer publicado em 1949 e logo comprado pela Paramount, "Os brutos também amam" chegou às mãos de George Stevens através de seu filho, que o apresentou à história depois de um trabalho de faculdade. Encantado com o livro, decidiu imediatamente transformá-lo em filme e chegou a escolher os dois protagonistas masculinos: Montgomery Clift no papel-título e William Holden como o pai de família pressionado a abandonar sua fazenda. Quando os dois atores desistiram do filme (e Ray Milland foi apenas cogitado), Stevens chegou perto de desistir, mas, em última tentativa, recorreu à lista de contratados do estúdio e, em cerca de três minutos já havia decidido seu elenco: Alan Ladd, Van Hefflin e Jean Arthur. Mas seus problemas ainda não haviam acabado: Jean Arthur estava aposentada e não tinha a menor vontade de retomar a carreira. Agindo mais como amigo do que como cineasta, Stevens enfim convenceu-a a aceitar o papel feminino da trama. Afinal de contas, seriam apenas 48 dias de filmagem, certo? Errado. O atraso no cronograma oficial (de 48 para 75 dias) estourou o orçamento inicial (de 1.9 milhão de dólares) para quase três milhões, e os executivos da Paramount chegaram a tentar vender o filme para o milionário Howard Hughes. Hughes, excêntrico e apaixonado por cinema, não demonstrou interesse até assistir um copião e voltar atrás na decisão - mas então foi o estúdio quem resolveu manter o filme para si. O resto é (quase) história.


As filmagens de "Os brutos também amam" acabaram em outubro de 1951, mas os planos da Paramount em lançá-lo no começo de 1952 foram por água abaixo quando Stevens, demonstrando um perfeccionismo que beirava o exagero, levou mais de um ano para finalmente considerá-lo pronto. A essa altura, outro clássico do gênero já havia sido lançado e feito enorme sucesso: dirigido por Fred Zinnemann e estrelado por Gary Cooper e Grace Kelly, "Matar ou morrer" conquistou o público e a crítica, arrebatando prêmios (Oscar e Golden Globe entre eles) e estabelecendo novas regras para o western, como um protagonista corajoso, mas humano, e um enfoque mais familiar às tramas, inclusive com personagens femininas mais presentes e não apenas espectadoras passivas. Quando "Os brutos também amam" finalmente estreou, a plateia já estava familiarizada com as novidades e abraçou o filme com um carinho surpreendente. A Academia de Hollywood reiterou o sucesso de bilheteria e o indicou a seis Oscar, incluindo melhor filme e diretor - para sua surpresa, o escritor A. B. Guthrie Jr., vencedor do Pulitzer, foi lembrado na categoria de roteiro, ainda que, antes de sua experiência na adaptação de "Shane", jamais tivesse sequer lido um script.

A trama de "Os brutos também amam" é simples e eficiente: o misterioso pistoleiro Shane (Alan Ladd) chega à uma pequena fazenda do Wyoming e conquista a confiança de seu proprietário, Joe Starrett (Van Heffling), e de sua família, a esposa Marion (Jean Arthur) e o filho pequeno, Joey (Brandon de Wilde, indicado ao Oscar de coadjuvante). Aos poucos, Shane começa a perceber que a única coisa que estraga a paz da família é a pressão que vem sofrendo do despótico Ryker (Emile Meyer), que insiste em desalojá-los para ficar com suas terras e criar gado. Starrett tenta resolver as coisas na base do diálogo, principalmente entre seus vizinhos, também ameaçados por Ryker. As coisas ficam mais complicadas quando Ryker contrata um matador de aluguel, Wilson (Jack Palance, também indicado ao Oscar de coadjuvante), para matar Starrett. Corajoso e sentindo-se em dívida com a família que o acolheu, Shane toma o lugar do amigo em um duelo, que finalmente irá resolver o dilema.

Utilizando de alguns elementos clássicos do western, "Os brutos também amam" não abandona a figura do cavaleiro solitário, dos fazendeiros honestos e do mal encarnado em uma pessoa - no caso, o maléfico Wilson, vestido de preto dos pés à cabeça e pouco afeito a conversa. Porém, ao misturar tais elementos com outros - a aproximação hesitante entre Shane e Marion, a admiração do pequeno Joey pelo visitante, a amizade sincera entre Shane e Starrett -, George Stevens acabou por construir um filme que transcende facilmente os limites do gênero. Não à toa, seu filme foi uma das maiores inspirações de "Logan" (2017), uma produção que dificilmente a plateia identificaria como faroeste. Ao inspirar diretores dos mais variados gêneros (até Woody Allen declarou-se fã inveterado), "Os brutos também amam" é um filme que atravessa gerações com a mesma força dramática e poesia visual que encantou as audiências de seu lançamento. Imortal e sempre emocionante, é também um dos maiores westerns da história do cinema.

segunda-feira

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado no romance de Niven Busch, adaptado por Oliver H. P. Garrett. Fotografia: Lee Garmes, Ray Rennahan, Hal Rosson. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Walter Plunkett. Direção de arte/cenários: J. McMillan Johnson/James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten, John Huston, Lillian Gish, Lionel Barrymore, Herbert Marshall. Estreia: 29/12/46

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jennifer Jones), Atriz Coadjuvante (Lillian Gish)

Dinheiro não era problema: os constantes atrasos nas filmagens, a contratação (e demissão de sete diferentes diretores), as interferências diretas do produtor e o marketing agressivo ao custo então assombroso de dois milhões de dólares deixavam isso bem claro. A qualidade dramática também não parecia incomodar: cenas eram escritas e reescritas constantemente, e até mesmo refilmadas, mesmo que isso distanciasse a trama do romance original, escrito por Niven Busch. E as ambições eram bem exageradas: repetir o sucesso internacional (de crítica e público) de "... E o vento levou", lançado sete anos antes e imediatamente alçado à condição de clássico. Porém, nem sempre as coisas saem como o previsto, especialmente em Hollywood, e "Duelo ao sol" acabou se tornando mais lembrado por seus excessos (inúmeros) do que por suas qualidades (poucas, e nem sempre redentoras). Produzido por David O. Selznick no ápice de seu vício em anfetaminas e sofrendo de um sério problema dramático (a falta de carisma dos personagens centrais), o filme marcou época - foi um relevante êxito comercial, principalmente como resultado de sua farta campanha promocional e influenciou cineastas como Martin Scorsese e Pedro Almodóvar -, mas, visto sob uma ótica contemporânea, tem contornos escandalosamente machistas e racistas que nem mesmo a espetacular fotografia em Technicolor consegue amenizar.

Na verdade, o filme, oficialmente dirigido por King Vidor, sofre de uma séria tendência ao melodrama, com um enredo que poderia facilmente ser confundido com o de uma telenovela mexicana (não fosse tão eivado de preconceito racial): logo nas primeiras cenas, a protagonista, Pearl Chavez (Jennifer Jones em uma caracterização equivocada e excessivamente "étnica") praticamente testemunha o assassinato de sua mãe, morta por seu próprio pai quando flagrada com um amante. Depois da execução de seu pai, Pearl é mandada aos cuidados de uma prima distante, Laura Belle (a veterana Lillian Gish em seu único desempenho indicado ao Oscar). Laura vive em uma fazenda com o marido, o senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore), e os dois filhos, de personalidades totalmente opostas: o caçula, Jesse (Joseph Cotten), acaba de terminar a faculdade de Direito, é educado, gentil e cavalheiresco; por sua vez, o mais velho, Lewton (Gregory Peck), é violento, bruto e pouco afeito a regras sociais. Ambos se sentem atraídos pela beleza selvagem de Pearl, mas, apesar de prezar a amizade de Jesse, ela acaba não resistindo a Lewton, com quem inicia uma relação baseada em sexo e quase obsessão - um relacionamento que não apenas irá contrapor os dois irmãos, mas também abalar todo o alicerce familiar.


Na pele de Pearl Chavez, a esposa de Selznick, Jennifer Jones, tem uma atuação que beira o exagero, apesar de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz. Assumindo o papel que seria de Teresa Wright - que saiu do projeto por estar grávida -, Jones acabou virando um dos focos do produtor, que via no filme a chance de oferecer a ela o mais emblemático trabalho de sua carreira (a despeito de Jones já ter uma estatueta em casa, por "A canção de Bernadette", de 1943). Para torná-la ainda mais atraente, Selznick chegou ao extremo de contratar o veterano diretor Joseph von Sternberg apenas para cuidar do visual da produção (leia-se da própria Jennifer). Não ajudou muito. Apesar de algumas sequências fotografadas com um Technicolor de ferir os olhos - especialmente crepúsculos e vastas paisagens -, "Duelo ao sol" não consegue deixar de ser extremamente cafona a maior parte do tempo, desde a concepção dos personagens até a plasticidade perceptivelmente kitsch dos cenários e figurinos. Gregory Peck, no auge da juventude, faz o que pode com um personagem francamente detestável, e só mesmo a ótima Butterfly McQueen (a Prissy de "... E o vento levou") para conseguir arrancar um pouco de humor do roteiro - ainda que faça praticamente o mesmo papel que fez no clássico de 1939.

Mas o pior de tudo é perceber como o roteiro trata de temas polêmicos sem a menor preocupação com o politicamente correto - termo longe de ser conhecido nos anos 1940. Não é que "Duelo ao sol" ignore todas as convenções: ele simplesmente faz questão de apresentá-las sob uma ótica de normalidade (o que, à época, poderia até não chocar ninguém, mas hoje em dia é absolutamente desprezível). No roteiro não faltam menções preconceituosas a respeito de indígenas (a protagonista é frequentemente tratada como "mestiça", em tom pejorativo) e imigrantes; a forma como Lewt trata Pearl é agressiva - a primeira noite de sexo entre eles é claramente um estupro - e, o que é pior, a trama é conduzida de modo a fazer o público torcer pelo romance abusivo (a ponto de Pearl apaixonar-se por ele justamente pelo jeito que ele a trata). Os atos de Lewt não são os atos de um homem apaixonado defendendo a mulher que ama, e sim o de um proprietário cuidando do que possui, uma mercadoria que precisa estar sempre a sua disposição. Sem disfarçar tais elementos francamente absurdos, o roteiro ainda peca por ser superficial e desnecessariamente longo, em mais uma tentativa de criar uma embalagem de épico para um filme que, apesar de ter seus fãs, é um dos mais discutíveis clássicos da velha Hollywood.

sexta-feira

WYATT EARP

WYATT EARP (Wyatt Earp, 1994, Warner Bros, 191min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cheryl Carasik. Produção executiva: Dan Gordon, Michael Grillo, Charles Okun, Jon Slan. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, David Andrews, Linden Ashby, Jeff Fahey, Mark Harmon, Michael Madsen, Catherine O'Hara, Bill Pullman, Isabella Rossellini, Tom Sizemore, Jobeth Williams, Mare Winningham, Annabeth Gish, Jim Caviezel, Mackenzie Astin, Téa Leoni. Estreia: 24/6/94

Indicado ao Oscar de Fotografia

Nada como uma boa ironia do destino para sacudir o ego de um astro. Que o diga "Wyatt Earp", superprodução comandada por Lawrence Kasdan que praticamente começou a pavimentar o declínio de Kevin Costner, um dos atores mais populares no início da década de 1990. Responsável pelo sopro de popularidade do western, com o enorme sucesso de seu "Dança com lobos" (1990), Costner emendou vários êxitos comerciais, como "JFK" (1991) e "O guarda-costas" (1993) - e, do alto de sua autoconfiança, acreditava que todo e qualquer projeto em que tocasse se transformaria em ouro. Foi assim que juntou-se ao roteirista Kevin Jarre para criar o que pretendia ser a visão definitiva de um dos heróis mais conhecidos do público norte-americano, o xerife Wyatt Earp. Tudo parecia ir bem até que as famosas "diferenças criativas" acabaram por separar os dois: não concordando com o espaço dado por Jarre aos personagens coadjuvantes - o que não dava o espaço pretendido pelo ator para exercitar todo o seu status de galã -, o ator pulou fora e procurou o amigo Lawrence Kasdan para começar uma produção rival, que seguisse os seus desejos. Como forma de demonstrar sua força dentro da indústria, ele chegou a tentar utilizá-la como moeda de troca, para impedir a distribuição do concorrente por outros estúdios - o que atrasou e dificultou a realização do filme, dirigido por George P. Cosmatos. A ironia de tudo é que não apenas "Tombstone: a justiça está chegando" custou metade do orçamento do mastodôntico "Wyatt Earp" como rendeu mais que o dobro da produção estrelada por Costner - e obteve melhores críticas, apesar de não ter um astro de sua estatura no elenco, liderado por Kurt Russell e Val Kilmer.

Com uma bilheteria mundial que não conseguiu nem ao menos cobrir seu custo de mais de 60 milhões de dólares, "Wyatt Earp" naufragou em sua própria ambição. Com o desejo óbvio de realizar mais um épico - mania que o levaria a mares ainda mais tumultuados em seu filme seguinte, "Waterworld: o segredo das águas", um fiasco histórico -, Costner acreditou demais na fidelidade dos fãs. Se "Dança com lobos" tinha mais de três horas de duração e fez o sucesso que fez, por que a trajetória de um herói nacional como Earp daria errado, não é mesmo? Originalmente concebido como uma minissérie de televisão de seis capítulos, o projeto que reunia Costner e Kasdan depois de outro faroeste, "Silverado", lançado em 1985, não se contentava em contar apenas a história mais conhecida a respeito de seu protagonista - o duelo em OK Corral, ocorrido em 1881, resultado da rixa entre os chamados "homens da lei", que incluíam três irmãos Earp e Doc Holliday, e cinco forasteiros, que, segundo a lenda, ameaçavam a paz da cidade de Tombstone, no Arizona. Ao contrário, o roteiro de Kasdan e Don Gordon começa na adolescência do protagonista e se estende por décadas - o que pode soar historicamente correto, mas causa um excesso de personagens e momentos desnecessários e prejudiciais ao ritmo da narrativa. Apesar disso, porém, seu fracasso nas bilheterias e a extrema má-vontade da imprensa não é totalmente justificado. "Wyatt Earp" pode não ser o filmaço que prometia, mas está muito longe de ser um filme ruim.


Primeiro, seus defeitos: um épico de três horas de duração pode facilmente prender a atenção do espectador, desde que haja conteúdo nesse tempo todo. O roteiro de "Wyatt Earp" parece dar a mesma importância a fatos cruciais, como a morte de Urilla (Annabeth Gish), primeira mulher do protagonista - acontecimento que o marca para sempre - e anedotas nem sempre dignas de ênfase, como os problemas conjugais entre Doc Holliday (Dennis Quaid) e Big Nose Katie (Isabella Rossellini). Atores como Gene Hackman (como o patriarca da família Earp) e a própria Rossellini são subaproveitados, e Kevin Costner em si não consegue convencer em todas as fases do personagem, especialmente quando mais jovem. A direção também falha em estabelecer a tensão necessária que conduz ao clímax - que, por sua vez, tampouco chega a empolgar (o que, levando-se em conta que o tiroteio real levou apenas alguns segundos, é plenamente perdoável). E, por fim, há a falta de carisma do personagem principal, que em nenhum momento domina o filme como deveria - mais um problema na conta de Costner.

Mas nem tudo está errado. A bela fotografia de Owen Roizman, indicada ao Oscar, funciona às mil maravilhas, sublinhando com discrição os vários tons do filme, da amplidão de horizontes e crepúsculos até o cinza das passagens mais sombrias e dramáticas. Dennis Quaid quase rouba o filme para si na pele de Doc Holliday: apesar de ter mais idade que o personagem, entrega uma performance admirável, para a qual perdeu peso e criou um visual impecável. A trilha sonora de James Newton Howard também é um ponto forte, fugindo do óbvio e apostando no minimalismo na maior parte do tempo. Revisto com o benefício do tempo, que salva filmes subestimados e muitas vezes desmascara obras nem tão geniais quanto se pensava, "Wyatt Earp" é um bom programa para quem gosta de faroestes mais contemplativos - a exemplo de "Os imperdoáveis", que deu a Clint Eastwood seu primeiro Oscar de direção e incentivou o renascimento do gênero em Hollywood. É um filme adulto e sério, realizado com dedicação e cuidado, mas que infelizmente afogou-se na prepotência e na megalomania. Pode ser resgatado do limbo dos fracassos - tem qualidades para tal -, mas jamais será a obra-prima definitiva sobre o assunto, como sonhava ser.

segunda-feira

OESTE SEM LEI

OESTE SEM LEI (Slow west, 2015, See-Saw Films/Film4/DMC Film, 84min) Direção e roteiro: John Maclean. Fotografia: Robbie Ryan. Montagem: Roland Gallois, Jon Gregory. Música: Jed Kurzel. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Kim Sinclair/Amber Richards. Produção executiva: Katherine Butler, Michael Fassbender, Zygi Kamasa. Produção: Iain Canning, Rachel Gardner, Conor McCaughan, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Kodi Smith-McPhee, Caren Pistorius, Ben Mendehlson, Brian Sergent, Edwin Wright, Rory McCann. Estreia: 24/01/15 (Festival de Sundance)

Que Michael Fassbender é um dos maiores atores de sua geração não é novidade para ninguém. Em poucos anos, ele entregou performances arrebatadoras em filmes tão distintos como "Fome" (2008), "Shame" (2011) e "12 anos de escravidão" (2013) - todos dirigidos pelo cineasta Steve McQueen - e trafegou pelos mais diversos estilos, incluindo a ficção científica ("Prometheus", de 2012), o filme de ação ("Assassin's Creed", de 2015) e a cinebiografia ("Steve Jobs", também de 2015). Em "Oeste sem lei" ele volta sua atenção para outro gênero caro ao inconsciente coletivo da plateia - e um dos mais tradicionais de Hollywood: o western. Assinando também como produtor executivo do filme, ele banca a estreia do músico John Maclean (da banda folk The Beta Band) como roteirista e diretor, e aproveita sua versatilidade em favor de uma trama que, se não apresenta grandes novidades, ao menos respeita os cânones do gênero e mantém a atenção do público até seu climático final - com direito a um tiroteio dos mais empolgantes e um desfecho emocionante.

É interessante perceber como Maclean se utiliza dos elementos mais clássicos do western - a figura do cavaleiro solitário, a fotografia caprichada, ataques indígenas, o embate entre mocinhos e bandidos - ao mesmo tempo em que os envolve com certa aura de modernidade. Ao contrário de outras produções que transformaram o gênero em piada (como os filmes "Young guns"), o cineasta estreante demonstra reverência ao que já foi realizado enquanto conta sua história com ritmo e estilo próprios. Evitando a prolixidade e o exagero, Maclean é minimalista, lembrando mais os contemplativos filmes de Clint Eastwood do que os épicos de John Ford - até a duração é tímida, pouco menos de uma hora e meia (modesta para os padrões comerciais). Modesto também foi seu orçamento, estimado em meros dois milhões de dólares, o que lhe permitiu estrear no Festival de Sundance de 2015 - de onde saiu laureado com o Grande Prêmio do Júri. Aplaudido também por críticos europeus (que reconheceram nele as qualidades que sua bilheteria escassa escondeu do grande público), "Oeste sem lei" é uma grata surpresa para quem procura entretenimento sem abrir mão de alguns "detalhes" - como um bom roteiro, uma direção inspirada e atores competentes.


Apesar de Michael Fasbnder ser o produtor executivo e o nome mais conhecido do elenco, seu personagem não é o protagonista da trama. Quem comanda a narrativa é o muito jovem Kodi Smith-McPhee, conhecido por seu trabalho em "A estrada" (2010) e "Deixe ela entrar" (2011). Ele vive Jay Cavendish, um escocês de apenas 16 anos de idade que cai na estrada atrás daquela que considera a mulher de sua vida, a independente Rose Ross (Caren Pistorius) - que, junto com seu pai, John (Rory McCann), tornou-se fugitiva depois de um incidente com o tio de Jay, que não aprovava a amizade do sobrinho com alguém de nível social inferior. Seguindo os passos de Rose, Jay chega ao oeste norte-americano, onde encontra o experiente Silas Selleck (Fassbender em pessoa), com quem logo inicia uma relação de camaradagem - ainda que o misterioso cavaleiro não seja uma pessoa de muitas palavras. O que Jay nem desconfia é que Silas também quer encontrar Rose e John, mas por motivos bem menos emocionais: a dupla está sendo procurada e existe uma recompensa de cinco mil dólares à espera de quem os entregar.

 O roteiro de "Oeste sem lei" se concentra em dar consistência à nascente amizade entre Jay e Silas, enquanto, através de flashbacks, vai contando a história de amor unilateral entre o menino e Rose. Equilibrando as duas linhas narrativas sem maiores sobressaltos, John Maclean se revela um cineasta discreto e inteligente: com pouco dinheiro para gastar, preferiu priorizar os personagens à ação, para somente nos minutos finais entregar à plateia o clímax emocional, que encerra a trajetória de seus protagonistas de forma coerente e digna. O desfecho do "romance" entre Jay e Rose pode até soar um pouco rápido demais, mas é inegável que proporciona ao filme uma conclusão verossímil e emocional. Fugindo com destreza dos clichês ao mesmo tempo em que os abraça quando necessário, o filme é uma bela surpresa para os fãs do gênero, de Fassbender e do bom cinema independente.

quarta-feira

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

domingo

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

sexta-feira

DÍVIDA DE HONRA

DÍVIDA DE HONRA (The homesman, 2014, ) Direção: Tommy Lee Jones. Roteiro: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald, Wesley A. Oliver, romance de Glendon Swarthout. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Roberto Silvi. Música: Marco Beltrami. Figurino: Lahly Poore-Ericson. Direção de arte/cenários: Merideth Boswell/Wendy Ozols-Barnes. Produção executiva: G. Hughes Abell, Deborah Dobson Bach, Michael Fitzgerald, Tommy Lee Jones, Richard Romero. Produção: Luc Besson, Peter Brant, Brian Kennedy. Elenco: Tommy Lee Jones, Hilary Swank, Miranda Otto, John Litghow, James Spader, Grace Gummer, Meryl Streep, Hailee Steinfeld, William Fichtner, Sonja Richter, Tim Blake Nelson. Estreia: 18/5/14 (Festival de Cannes)

A primeira incursão de Tommy Lee Jones atrás das câmeras aconteceu em 2005, com o seco e agreste faroeste "Três enterros", e o ator, vencedor do Oscar de coadjuvante por "O fugitivo" (93), mostrou-se um cineasta atento e sensível às necessidades de um gênero em constante mutação. Porém, demorou quase uma década - e outras duas indicações à estatueta da Academia, por "No vale das sombras" (07) e "Lincoln" (12) - para que Jones retornasse à cadeira de diretor, sintomaticamente com outro faroeste. No entanto, apesar de "Dívida de honra" compartilhar do mesmo universo de sua estreia, seu segundo filme tem um viés menos violento e mais contemplativo, reflexo de um fato raro no gênero: o olhar feminino não apenas como testemunha distante, mas sim como parte ativa do desenrolar da trama.  Baseado em um romance de Glendon Swarthout, "Dívida de honra" tem como um de seus protagonistas a determinada e solitária Mary Bee Cuddy, interpretada com a dedicação habitual de Hilary Swank em um papel que lhe rendeu os maiores elogios de sua carreira desde o Oscar por "Menina de ouro" (04).

Quem procura um faroeste como aqueles que fizeram a glória de John Ford, Sérgio Leone e Clint Eastwood certamente irá se decepcionar com "Dívida de honra", dono de um ritmo e de uma trama que dispensa tiroteios, sacrifícios heróicos e duelos ao sol - ainda que a fotografia extraordinária de Rodrigo Prieto faça sua parte de encantar o espectador.  A trama começa no Nebraska da segunda metade do século XIX, quando a independente e corajosa Mary Bee - solteirona que vê todas as suas tentativas de mudar de status fracassarem sistematicamente - aceita o desafio de levar três mulheres da região que mergulharam na loucura até Iowa, onde poderão ter um tratamento adequado. Assumindo uma missão que deveria ser masculina, ela se vê de uma hora para outra no meio dos descampados do oeste. No meio do caminho, ela dá de cara com George Briggs (Tommy Lee Jones), em vias de morrer enforcado por inimigos. Por ter salvo sua vida, ela propõe a Briggs que a acompanhe em sua viagem, como forma de protegê-la e às suas conterrâneas. Ele aceita a proposta - com o incentivo de um pagamento - e aos poucos surge uma espécie de amizade entre eles, dificultada pelo desejo ainda vívido de Mary Bee de casar-se.


Ao incutir na trama central de seu filme um olhar feminista, Tommy Lee Jones surpreende positivamente não apenas por dar voz a um gênero normalmente relegado a segundo plano na vasta filmografia sobre o Velho Oeste, mas também por abrir um leque de possibilidades dramáticas que tornam seu filme imprevisível. Assim como Katharine Hepburn e Humphrey Bogart se apaixonaram em "Uma aventura na África" - mesmo sendo a personagem de Hepburn uma religiosa renitente - também Mary Bee pode convencer o seco e mau-humorado George Briggs a vê-la não apenas como a fonte de um pagamento mas também como uma mulher, disposta a aceitá-lo como marido. Apesar de não ser o foco da narrativa, tal questão paira grandiosa sobre os personagens a cada momento, até que uma reviravolta muda a percepção da plateia, os planos de um dos dois e o desfecho da história - que conta com as participações mais do que especiais de Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de coadjuvante por outro western, "Bravura indômita", de 2010) e Meryl Streep, em um papel pequeno que lhe dá oportunidade de contracenar com a filha Grace Gummer, que vive uma das três mulheres desequilibradas conduzidas pela carroça de Mary Bee.

Um faroeste atípico mas realizado com alma e extremo talento na frente e atrás das câmeras, "Dívida de honra" consegue o feito de ser ainda melhor que o filme anterior de Lee Jones, "Três enterros", que tinha roteiro de Guillermo Arriaga (dos primeiros filmes de Alejandro Iñárritu) e um tom mais trágico e violento. Contemplativo e dotado de uma melancolia quase palpável, é um projeto maduro e sério, com a marca de seu diretor, um dos mais respeitados atores de sua geração e mais uma interpretação digna de nota de sua estrela, Hilary Swank. São os dois os grandes responsáveis pela qualidade inegável da obra. Para os fãs e os não-fãs do gênero é um grande programa.

quarta-feira

BRAVURA INDÔMITA

BRAVURA INDÔMITA (True grit, 2010, Paramount Pictures, 110min) Direção: Joel Coen, Ethan Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, romance de Charles Portis. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: David Ellison, Megan Ellison, Robert Graf, Paul Schwake, Steven Spielberg. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Domhnall Gleeson. Estreia: 14/12/10

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som

“Onde os fracos não tem vez”, que conquistou a Academia em 2007, já tinha os dois pés cravados em alguns dos mais fortes cânones do western, mas os irmãos Coen – que já haviam brincado com sucesso com vários gêneros caros ao cinema americano – ainda não tinham assinado um faroeste tradicional, daqueles com cavalos, tiroteios heróicos, xerifes, mocinhas valentes e crepúsculos espetaculares. “Bravura indômita”, lançado em 2010, acabou com essa falha. Baseado no romance de Charles Portis que também foi a base do filme de mesmo nome que deu o Oscar de melhor ator a John Wayne, o remake da dupla que já havia revirado os elementos do cinema noir (“Gosto de sangue” e “O homem que não estava lá”), das comédias malucas(“Arizona nunca mais”), dos filmes de gângsters (“Ajuste final”), dos musicais (“E aí, meu irmão cadê você?”) e das comédias românticas (“O amor custa caro”) é um exemplo típico do melhor que o cinemão hollywoodiano pode oferecer ao público quando se trata de narrativas clássicas. Bem escrito – com diálogos inteligentes e salpicados do humor típico dos diretores – e dirigido com extrema competência, é um filme capaz de agradar aos mais exigentes fãs do gênero e, de quebra, arrebanhar cinéfilos que nunca foram muito entusiastas de duelos ao sol.
Indicado a dez Oscar na cerimônia de 2011 dominada pela mediocridade de “O discurso do rei”, “Bravura indômita” mereceu cada uma de suas indicações. Com uma realização impecável – a mais requintada da carreira dos diretores – o filme transcende tanto o livro no qual é baseado quanto o original lançado em 1960. Dotada de uma irreverência e um sarcasmo apenas ensaiado no filme anterior, essa nova versão oferece ao espectador uma trama cujos conceitos de heroísmo, vingança e justiça são bem mais elásticos e coerentes com uma geração que certamente rejeitaria o maniqueísmo inerente aos gloriosos tempos do gênero, onde as mulheres normalmente eram relegadas a segundo plano. Só por ter como protagonista uma mulher – ou melhor dizendo, uma adolescente de 14 anos – “Bravura indômita” já mostra que tem mais a dizer do que a maioria de seus pares. Indicada inexplicavelmente ao Oscar de atriz coadjuvante – já que sua Mattie Ross é a personagem central da trama – a novata Hailee Steinfeld se mostra à altura do desafio, encarando sem medo a oportunidade de enfrentar, logo em sua estreia nas telas, nomes como Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin.
Mattie Ross, a personagem de Steinfeld, é uma jovem que chega a uma pequena cidade do interior para reclamar o corpo do pai, covardemente assassinado por um empregado, Tom Chaney (Josh Brolin, assustador). Dotada de uma coragem sem igual, ela quer, na verdade, caçar o criminoso e entregá-lo à justiça. Para isso, ela chega até o lendário Rooster Cogburn (Jeff Bridges), que há muito já deixou para trás seus melhores dias como caçador de recompensas. Aceitando a proposta da menina – teimosa e pouco afeita às delicadezas femininas que ele, bêbado e acostumado com o violento universo masculino de carteados e assassinatos – de buscar Chaney, Cogburn acaba se surpreendendo quando a própria contratante resolve acompanhá-lo na missão. Depois de uma série de discussões, os dois iniciam a jornada, juntamente com o xerife LaBoeuf (Matt Damon), também com razões de sobra para querer por as mãos no fora-da-lei.

Com essa história simples em mãos, Ethan e Joel Coen apagam a má impressão que deixaram com sua experiência anterior em remakes – quando transformaram “Quinteto da morte” no sem graça “Matadores de velhinhas” – e realizam um de seus melhores filmes. Normalmente acostumados a trabalhar com material próprio, eles acabam por transformar a história de Charles Portis em um território fértil para seu jeito particular de fazer cinema, salpicando de humor e uma certa estranheza uma trama aparentemente banal. Juntamente com cenas de estonteante beleza – cortesia da fotografia excepcional de Roger Deakins, que se aproveita dos cenários naturais para construir sequências de encher os olhos – os diretores apresentam uma visão ao mesmo tempo carinhosa e irônica a um gênero constantemente em processo de mutação e redescoberta pelo público. Avessos à violência explícita, eles não hesitam em mostrar corpos em putrefação quando necessário, mas evitam utilizá-la como artifício narrativo primordial, concentrando seu foco na relação entre o trio de personagens principais – uma relação calcada em um misto de admiração, desprezo e solidariedade que somente um roteiro tão repleto de nuances é capaz de apresentar sem parecer esquizofrênico ou incoerente. E além do senso de ritmo invejável – quando a história parece querer esfriar o temido Chaney entra em cena para agitar as coisas – os irmãos Coen também dão a Jeff Bridges mais um personagem dos melhores em sua carreira.
Brigão, ranzinza e politicamente incorreto, Rooster Cogburn deu  John Wayne seu único Oscar e quase deu a Bridges sua segunda estatueta apenas um ano depois de sua primeira vitória pelo cantor country de “Coração louco”. Sem medo das comparações com a clássica interpretação de um dos atores mais fortemente vinculados ao western americano, Bridges injetou a Cogburn um senso de humor ácido que combina com exatidão com a visão quase iconoclasta dos cineastas, que respeitam os elementos do faroeste sem precisar, para isso, ater-se à visão normalmente preconceituosa com que os filmes do gênero apresentavam de mulheres, indígenas e afins. O “Bravura indômita” do século XXI não entra em discussões sexistas ou raciais, preferindo abster-se de polêmicas e apenas contar, da melhor forma possível, uma boa história. Contando com a ajuda de um grande orçamento – e a produção executiva de Steven Spielberg – os oscarizados irmãos cineastas/roteiristas juntaram uma equipe técnica impecável, um elenco acima de qualquer suspeita, uma trama já testada e aprovada por várias gerações de cinéfilos e seu talento imenso para criar um novo clássico. Mesmo tendo perdido todos os Oscar a que concorria – injustamente, diga-se de passagem – “Bravura indômita” é um filme a ser lembrado como um perfeito exemplo do cinemão que só Hollywood é capaz de fazer.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...